Ganzu – O oitavo dia

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-Ung… Ai minhas… Costas. – Marcelo gemeu.

O Nerd, que lia um livro ao lado dele, sentado numa cadeira pareceu levar um choque. Ele deu um pulo e saiu correndo do quarto, aos gritos:

-Ele acordou! Ele acordou! – Gritou Vladmir.

No instante seguinte, entravam Sarah e Aninha no quarto. Saltaram sobre Marcelo, abraçando-o efusivamente.

Aninha começou a chorar abraçada com ele.

-Ei… Que… Mas que porra é essa?

-Pensamos que você ia morrer, cara! – Disse o nerd, sentado na cama.

-Hã?

-Você tava em coma! – disse Sarah.

-Coma? Isso é ridículo! Façam-me o favor… Ung, minhas costas estão doendo pra caralho! Eu tô me lembrando… Eu caí!

-Isso!

-Caí da escada. Lembro de ter rolado… Aí tudo apagou.

-Sim… Eu ia lá abrir a porra da porta pra você e pro… Cadê o Greg?

Os três se entreolharam. Aninha baixou os olhos.

-Ele não conseguiu, cara. – Disse Vladmir, pousando a mão no ombro de Marcelo.

-Ele o que? Ele morreu?

-Morreu.

-O Ganzu pegou ele?

-Pegou… Mas ele já tava morto. Ele quebrou a perna quando caiu do telhado da varanda. O osso arrebentou uma artéria. O cara sangrou rápido e…

-Merda. Merda! A  gente tem que sair daqui, Vladão!

-Não foi só ele. O bicho matou também o coroa do Chupacabras.

-Ah… Tá de sacanagem! Quando? Hoje?

-Cara… Isso já tem três dias!

-Hã?

-Estamos presos na casa, estamos aqui em cima faz três dias. O Ganzu tá lá em baixo de tocaia. – Disse Aninha.

-Três dias?

-Três dias, véio!  Tu ficou fora do ar legal!

-Foi uma pancada feia. Dava pra você ter morrido. – Disse Sarah, segurando a mão de Marcelo.

-Deixa eu levantar… Ung… Nossa. Tô quebradaço.

-Vai com calma… Com calma.

-Levanta devagar, senão periga tu desmaiar! – Disse Aninha, amparando o amigo.

-Porra que sede…

-Você tá desidratado, meu chapa. Toma! Bebe aos poucos. – Disse Vladmir estendendo uma garrafa de água pela metade a Marcelo.

Marcelo bebeu em goles pequenos.

-Bebe devagar que essa é a água toda que nos resta! – Disse Aninha.

-O quê?

-Isso mesmo. Acabou a água. Acabou a comida também. Com a falta do gerador, tudo que estava na geladeira apodreceu. Estamos na reserva da reserva. Agora a água que tem é a da casa… Que pode estar contaminada.

-Puta que pariu. – Disse Marcelo, após beber toda  a água da garrafa plástica. Depois, se virou para Vladmir e fez a pergunta mais óbvia: -E o Ganzu?

-Tá sumido tem dois dias. – Disse o Nerd, indo até a janela. – Estávamos monitorando ele daqui de cima. De vez em quando ele dava uma volta na casa. À noite, principalmente… Mas então, ele simplesmente fez “puf!” e sumiu.

-O Vladão tem uma teoria. – Interrompeu Aninha. – Conta pra ele, Vladão.

-Teoria cara?

-Bom… Eu fiquei aqui pensando. Sabe, esse bicho cresceu rápido demais… Ele deve ter um metabolismo muito foda. Então quando ele sumiu, comecei a pensar se o Ganzu não foi embora, sumiu para o meio da mata, em busca de comida. O tio do Armando criou gado por aqui. Deve ter boi selvagem aí pra dentro da mata… No tamanho que o Ganzu tá, só um boi para matar a fome dele.

-Ele tá grande?

-Na última vez que ele deu ás caras, lá no fim do pasto já tinha quase que duas vezes o tamanho da van!  – Disse Sarah.

-Bom… Continuando minhas hipóteses, eu acho que o Ganzu pode simplesmente ter ido embora. Essa é uma. Outra é que ele pode ter entrado num modo de hibernação. Muitos animais fazem isso quando escasseia o alimento. E isso estria de acordo com a grande ingestão de comida em pouco tempo. Talvez esse animal funcione assim, intercalando períodos de alta atividade com períodos de dormência. Sabe lá, né? Não sabemos nada sobre esta espécie… Pode ser que ele esteja dormindo e só volte a acordar daqui a 500 milhões de anos!

-Bom, isso daria uma boa chance para fugirmos. – Riu Marcelo, apertando a garrafa vazia na mão.

-…A minha outra hipótese é que o Ganzu pode estar morto.

-Morto?

-Sim. Animais grandes vivem pouco. Esse bicho com o metabolismo que tinha, pode só viver na fase adulta por poucos dias. Na natureza existe um animal que é um pouco parecido. A cigarra, vive enterrada no chão também, e ela passa ali quase vinte anos enterrada em forma larval. Aí sai no solo e cresce absurdamente, canta, se reproduz e morre. Sua vida na fase adulta dura uma ou duas semanas. Se o Ganzu for assim, ele pode já ter morrido. Outro bicho que vive pouco e é grande é o cachorro… O dog alemão, que é uma raça enorme vive bem menos que um cão menor. Se essa logica se aplicar ao Ganzu, isso poderia explicar porque ele cresce tão rápido. Ele cresce rápido porque morre rápido…

-Faz sentido. Mas ele sumiu mesmo, então?

-Não aparece, não faz os barulhos que vinha fazendo. É como se não houvesse nada lá em baixo.

-E por que vocês não deram no pé, porra? – Perguntou Marcelo, indo até a janela.

-Não íamos fazer isso com você. Não dava para fugir com você em coma. Se precisássemos correr, você seria comido.  – Disse Sarah.

Marcelo foi até ela. Em silêncio, abraçou a ex-namorada.  Ela começou a chorar.

-Shhhh. Calma.

Depois Marcelo abraçou cada um dos amigos. -Obrigado amigos!

-Não vamos perder mais ninguém, cara! – Disse Vladmir, decidido, dando tapas com violência nas costas de Marcelo.

-Ai, porra! Assim vou entrar em coma de novo, caralho!

-Desculpa o mau jeito, Nareba.

-Nareba minha rola!

-Bom, agora podemos traçar um novo plano. Não vamos aguentar mais um dia sem água, luz nem comida. -Disse a roqueira do cabelo azul.

-Temos que dar o fora o quanto antes! Faz quatro dias que não chove, mas o céu está cheio de nuvem preta! – Disse Sarah olhando pela janela.

-Onde?

-Olha lá perto do morro! Acho que já tá chovendo lá na serra!

-É verdade! – Disse Marcelo. – Vamos embora agora!

-Agora? – Vladmir Obrushev se assustou.

-Vamos esperar o que, cara? O Ganzu voltar? Vamos dar o fora desse cemitério o quanto antes. Quem está comigo nessa?

-Mas… Sem, plano? Qual o plano, Marcelo? – Perguntou Sarah, sentando na cama.

-O plano é correr para o carro e sair vazado! – Disse Marcelo.

-Negativo. Se o bicho estiver de tocaia, ou dormindo o som do carro pode despertá-lo. Se fugirmos a pé temos mais chances! – Disse o Nerd.

-Cara, você viu ele correndo atrás do cavalo aquele dia! Tu viu a velocidade dele. Ele come até o Usain Bolt! Já um carro, se dermos pressão mesmo, ele não alcança! – Disse Marcelo, desenhando a cena no ar com as mãos.

O nerd se aproximou deles.

-Tá… Tudo bem. Vamos amadurecer esta ideia. Corremos para o carro, ligamos e saímos fora a toda… E se o puto aparece? E aí?

-E mais que isso, pra onde vamos com o carro? – Perguntou Aninha.

-Vamos para a fazenda da Geplac.

-Mas os seguranças?

-Prefere o Ganzu?

-É ruim!  Prefiro morrer à bala que no ácido! – Riu o nerd.

-Na Geplac pelo menos temos alguma chance. A essa altura eles devem estar sabendo da inundação que destruiu tudo no vale.

-Com certeza.

-Tá… Tudo bem. Pegamos a van e vamos para a Geplac. Mas e o Ganzu? Se ele vier atrás? Fazemos o que?

-Bom… Não sei. Temos que fazer uma arma.

-Olha, eu tenho uma ideia… – Disse Vladmir.

-Fala, Vladão! Somos todos ouvidos.

-Caras, lembra que quando estourou o botijão ele caiu de lado? Eu acho que ele é muito sensível a ondas de choque. Até porque ele usa um radar primitivo.  Uma explosão perto dele deve deixar o cérebro ou seja la o que for que controle aquela montanha de carne gosmenta fora do ar.

-Sério que ele caiu de lado? – Perguntou Marcelo.

-Você não viu porque estava desmaiado. Mas quando o botijão explodiu perto dele, o Ganzu caiu de lado, e ficou assim um tempão. Parecia morto. Todo mundo achou que ele estava morto mesmo, aliás. – Disse Sarah.

-Então… Minha ideia é fazermos uma arma com os botijões restantes. Se ele aparecer, acendemos aquela porra e jogamos pela porta da van. Se dermos sorte, ele vai desligar novamente. Quer dizer, isso se ele ainda estiver por aqui.

-Bora! É isso! – Disse Marcelo, empolgado.

-Eu posso pegar a válvula e as mangueiras no quartinho. Tem duas válvulas de gás. Instalamos nos botijões que estão cheios. Na ponta da mangueira, podemos colocar um chumaço de pano com gasolina. É tipo um coquetel molotov com gás.  Se virmos o bicho, um acende a ponta da mangueira, o outro abre a válvula e jogamos do carro. A pressão do gás vai fazer o fogo consumir o pano em segundos e tudo vai explodir.

-Perfeito!

-Nem o Magáiver faria melhor! – Disse Aninha, dando um beijo na bochecha de Vladimir. O jovem ruborizou.

-Bom, vamos deixar nossas roupas, tudo que não seja fundamental. Peguem os últimos alimentos, biscoitos e etc e coloquem nesta mochila. – Disse Marcelo, esvaziando a mochila sobre a cama. As jóias, dólares e relógios caros se espalharam sobre a cama.

-Eu vou pelo telhado até a van. Vou colocar os botijões lá dentro!

-Marcelo!- Disse Sarah.

-Oi?

-Cuidado, heim?

-Deixa comigo.

Enquanto as meninas recolhiam as últimas provisões para colocar na mochila, Marcelo saiu pela janela. andou com cuidado até a parte quebrada, de onde Greg havia caído.

Ainda era possível chegar até a árvore.  Dali ele saltou para a mangueira, e se agarrando no grosso galho, conseguiu passar para o teto do veículo. Ali de cima Marcelo olhou em volta. Não havia nenhum sinal do Ganzu.

“Será que ele foi embora mesmo?” – Pensou.

Marcelo desceu com cuidado, e pisou no chão com a cautela  de quem pisa em ovos.

Foi até os botijões. Um deles tinha sido lançado há mais de dez metros com a explosão. A van estava com os vidros estilhaçados e da direção era impossível ver qualquer coisa à frente.

Marcelo agarrou um dos botijões e tentou arrastá-lo, mas o treco estava cheio e era bastante pesado.

-Uuuung, vai, porra! – Disse ele, lamentando que Greg não estivesse ali.  Nareba foi arrastando o botijão até o carro, torcendo para que a vibração no solo não atraísse o Ganzu.

Enquanto isso, dentro da casa, Vladmir vasculhava o quartinho em busca das válvulas. Ele encontrou uma garrafinha com querosene, os tubos de borracha do gás mas só havia uma válvula e ele precisava de duas.

-Porra! Que merda!  – Disse ele, em busca da válvula.  Só então lembrou-se que a outra válvula estava presa na mangueira do fogão.

O russo foi até lá e de fato, estava conectada à mangueira do fogão. Foi difícil removê-la. Estava presa.  Vladmir foi até o armário da cozinha, pegou o soquete e com ele começou a desferir porradas na válvula, tentando quebrar o bloco de gordura ressecada que havia agarrado à válvula.

Aninha e Sarah desceram carregando uma mochila cada uma.

-Que porra é essa aí, cara? – Perguntou Aninha, vendo Vladmir desferir altas porradas no fogão.

-Essa merda! Tá presa!

-Para de bater! Tá fazendo barulho cara!

Lá fora, Marcelo colocava o segundo botijão dentro da van quando ouviu as batidas vindo de dentro da casa.

-Não dá. Temos que tirar isso! – Disse Vladmir na cozinha,  enquanto batia.

A porta da sala se abriu. Era Marcelo.

-Mas que barulheira do caralho é essa aí, porra?

-Ele disse que a valvula ta emperrada no fogão! – Disse Aninha, apontando para a cozinha.

-Bora Vlad!

-Não posso! A porra está emperr… *

BUUUUM.

ganzurage Ganzu   O oitavo dia

Uma explosão aconteceu no meio da sala. Destroços voaram por todos os lados. Móveis foram arremessados.

Da escada, Aninha e Sara viram horrorizadas surgir lentamente a enorme cabeçorra do Ganzu, vindo diretamente de um túnel abaixo da sala.

Marcelo fechou a porta e disparou correndo para dentro do carro.

As meninas subiram as escadas desesperadas.

Vladmir levantou-se do chão. Ele tinha caído com o susto.

Quando se levantou e chegou até a porta, deu de cara com o monstro no meio da sala, saindo do buraco sob a casa. A madeira cedia e se partia como palitos de fósforo à medida em que ele tentava subir pelas escadas para alcançar as meninas.

-Oh Shit!

CONTINUA

 

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