As crianças da noite – Parte 7

O corpo sangrento despencou sobre Regina.

-So…Socorro! – Ele gemeu.

Carlão havia acordado no quartinho, e desceu as escadas se encostando na parede.

-Ajuda aqui, Má! Ajuda! Rápido. -Gritou Regina, amparando o amigo que se agarrava ao seu pescoço para não tombar.

Carlão parecia confuso. Estava todo sujo de sangue, porque havia rolado no chão tentando levantar. Martina pegou uma cadeira antiga no meio da montanha de tralhas e ajudou a sentar o amigo.

-Eu tô zonzo. Tá tudo rodando. Parece que estou bêbado! Quando acordei e não vi vocês fiquei preocupado. Eu estou todo sujo de sangue. Senti minha roupa empapada, mas tava tudo escuro. Ooopa!

-Ele não ta conseguindo se equilibrar. – Percebeu Regina. A pancada do jarro na cabeça havia produzido algum problema.

-O que você acha Rê? -Perguntou Martina olhando o amigo.

Regina não era médica mas já tinha visto aquilo antes.

-Acho que a pancada causou um edema cerebral. Uma vez vi acontecer isso num acidente na escola que eu trabalhei. De acordo com o local, é comum que a pessoa pare de falar, fique temporariamente cega ou afete seu equilíbrio.

-Mas você acha que ele vai melhorar?

-Não sei. Temos que levar ele pra um médico. Dependendo da gravidade do traumatismo,  pode causar convulsões ou até mesmo… Bem, deixa pra lá. O importante é que você voltou, amigão!

-Dá um abraço no seu amigo sangrento! O que vocês estão fazendo aqui em baixo? – Carlão perguntou com dificuldade.

-Precisamos descer. A menina ainda está lá fora. Na porta. Eu vi. Ela pegou o taxista.

-O taxista?

-Ela matou e jogou ele na porta. Ela arrancou a cabeça dele! Jogou o corpo aqui dentro e ta com  a cabeça junto com ela.

-Puta que pariu!  – Gemeu Carlão esfregando o rosto.

-A gente tem que achar um jeito de pedir ajuda. – Disse Martina.

-Má, faz um favor? Dá uma olhada aí nesse monte de entulho, vê se tem alguma coisa que possamos usar.

-Tá… Mas quem vai ficar com a lanterna? – Martina perguntou. Regina entregou a lanterna para o Carlão.

-Carlão, aponta pra lá ó. A Martina vai procurar….

-Mas, tipo o que?

-Vê se acha um machado,  uma outra lanterna… A caixa dos remédios deve estar aqui em algum lugar. Ele deve ter trocado os remédios de caixa.

Martina concordou e foi até a montanha de antiguidades. Algumas coisas estavam cobertas com panos, outras embrulhadas em plastico para prevenir a poeira.

Quando Martina se afastou, Regina chegou perto do ouvido do amigo.

-Tá pode falar. Eu vi que você quis tirar ela daqui.  – Ele disse.

-Não apaga a lanterna!

-Por que não?

-Tem mais alguma coisa aqui em baixo, com a gente!

-O que? Tá maluca?

-Shhhh! Fala baixo. A Martina não pode ouvir. Ela surtou, cara! Você não viu porque estava fora do ar. Mas ela…

-Deu a louca? Rodou a baiana?

-Deu a louca total. Ela começou a gritar e chorar e então ficou abilolada. Ela não ta normal ainda. Você não notou?

-Pra falar a verdade nem eu estou no meu normal, Rê. – Disse Carlão, com um sorriso.

-Você na penumbra, assim cheio de sangue, ta parecendo que saiu de um filme de terror.

-Eu só queria um banho! Meus sais! – Ele disse, esfregando os cabelos  grudentos.

Uma luz mais forte iluminou o cômodo.

-Que isso? – Perguntou Regina.

-Ei pessoal, achei uma lamparina de querosene! -Gritou Martina, do outro lado da montanha de antiguidades.

-Que bom, assim damos um descanso para as pilhas da lanterna.  -Disse Regina.

-Carlão virou-se para a amiga e perguntou: Tá mas… O que é a tal “alguma coisa” aqui em baixo?

-Eu não sei. Ouvimos só a voz. Era uma menina.

-Outra?

-Acho que sim. Ouvimos um bebê chorar também.

-Mas cadê ela então? -Ele perguntou, com a lanterna na mão.

-Não sei. Só ouvimos ela rindo, cantando e falou pouco. Ela tem voz de criança pequena. mas não aparece, só ouvimos os seus passos, no escuro.

-Cruzes! Deus me livre! Ó o arrepio aqui, ó!  – Disse Carlão, mostrando os pelinhos do braço levantados.

-Ei, pessoal… Achei uma coisa. Uma coisa… estranha. – Disse Martina de trás da montanha de antiguidades. Algumas ainda estava, cobertas por panos, outras envoltas em sacos plásticos, para proteger da poeira.

-O que tem aí, Má? – Gritou Regina.

-Parece uma… Uma maquina de fotografia. Enorme. – Ela respondeu.

-Isso não me parece muito útil!  – Disse Regina. Martina não respondeu imediatamente, só uns segundos depois.

-Não é a câmera. É uma coisa nela!

-Fica aí, Carlão, que eu vou lá ver.

-Do jeito que a labirintite tá ruim, não pretendo sair daqui mesmo! Vai lá! -Ele respondeu, segurando a cabeça.

Regina deu a volta na montanha de itens e encontrou Martina sentada no chão, diante de uma enorme caixa, um tripe de madeira bem corroído e furado de cupins.

-Que isso?

-Achei um caderno, Rê. Ele tava num saco preto amarrado no tripé dessa câmera.

– É a letra do Rogério!

-Sim, ele escreveu um monte de coisa aqui, ó.

Era um caderno pequeno, de espiral. A capa era preta e ele se parecia muito com um caderninho de telefones.

Regina pegou o caderno e folheou algumas partes. Havia desenhos, esquemas e até fórmulas. Ela não entendeu nada.

-Mas que estranho. Ele nunca me falou sobre esse caderno.

-Olha essa parte aqui, Rê! Disse Martina, passando algumas paginas até uma onde, a caneta, Rogério parecia narrar o que pretendia.

“21 de julho de 2010-

A primeira tentativa de contato falhou. Ainda aperfeiçoando o método. Estou usando os fragmentos do caderno de Mumler comprado no antiquário de Boston. Já consegui a câmera original dele, que me custou 60.000 dolares. Estou usando o sistema do livro do alfarrabista úngaro, mas ainda é um mistério algumas coisas do livro de Mumler. Ele não escrevia coisa com coisa. Novo teste previsto para amanhã.”

Poucas linhas abaixo, ele retomou as notas:

“22 de julho de 2010 – 

Primeiro contato com sucesso parcial. Consegui ver o rosto de um homem se formando. Mas a janela estava instável. Não conseguimos comunicação. Não sei se ele me viu, ou só eu o vi. Fiquei feliz com o resultado. Mal posso esperar para ver a cara deles quando souberem o que consegui com o material do alfarrabista. Pretendo avançar mais. Falta alguma coisa, mas estou no caminho certo. Mumler era um gênio mesmo! “

-Quem era este Mumler? E que experiências eram essas? – Perguntou Martina.

-Eu, eu não sei, Má. Tudo que eu sei é que ele vinha sempre aqui pra baixo mexer nos quadros, nas antiguidades. Fumava charuto e bebia vinho. Ele ficava até altas horas aqui em baixo. Mexendo, limpando, montando coisas… Nunca me preocupei com o que Rogério fazia aqui.

Veja, tem muitas coisas escritas. Coisas em outras línguas.

-Ele rabiscou uma coisa aqui… Mas que letrinha desgraçada, hein amiga?

Regina leu em voz alta:

“18 de novembro de 2010 – 

Comprei mais duas paginas do livro perdido de Mumler. Estavam com um vendedor de livros raros no Marrocos. As paginas não duraram muito pois foram armazenadas inadequadamente. O papel virou pó e se decompôs com a manipulação. Felizmente consegui transcrever boa parte do que entendi antes de perder aquele conhecimento para sempre. O papel de 1860 era de péssima qualidade e oxida muito rápido. “

-Olha, ta aqui mesmo. Um monte de coisa. Uns desenhos. Que isso? Pentagrama? Rê, eu acho que o seu marido era praticante de bruxaria! – Disse Martina apontando os desenhos e esquemas.

-Não, calma. Ele disse que copiou das paginas do livro do tal Mumler. Deve ser isso. Provavelmente o Rogério estava querendo vender livros raros. Olha, tem um recorte de jornal aqui no meio.

-Pega com cuidado pra não rasgar.  – Disse Martina.

Era um pedaço de papel dobrado que ao ser desdobrado revelou-se um recorte de jornal bem antigo, dado o amarelado do papel. Ele estava rasgado na base, e desbotado em algumas partes, mas dava para ler. O material não trazia nem a publicação e nem data aparente. O artigo do jornal começava com uma ilustração à bico de pena de um homem barbudo com olhar de bêbado.

Método de Mumler permanece um mistério

 

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O grupo fundado em 1863, para desmascarar o método de William Mumler não conseguiu, ainda, resultados. Reunidos por Sir Thomas Mc Pherson, o grupo, composto por fotógrafos locais, políticos e cientistas têm tentado expor Mumler, mas sem sucesso, a quase uma década.

O milionário inglês, Sir Thomas Mc Pherson, reuniu o grupo de notáveis, para  com eles, reproduzir todas as manipulações desenvolvidas durante as sessões de retratos de W.H Mumler. Apesar de tudo, os especialistas reunidos dizem  que não conseguiram descobrir como aparecem os espíritos nas fotografias de Mumler.

Nossa reportagem entrou em contato com seu antigo auxiliar, P.T. Williams. Após uma longa entrevista, Williams que está prestes a lançar um livro sobre seu trabalho ao lado de Mumler, contou que acredita realmente que as fotografias mostram espíritos.

Segundo Mr. Williams, Mumler começou sua jornada de registros macabros na Inglaterra, em 1845. Ele fotogravava pessoas mortas. Após retornar à América, Mumler se mudou para Boston, onde alugou um pequeno estúdio de uma viúva húngara. A senhoria e Mumler se tornaram grandes amigos, e segundo nos contou P.T. Williams, ela revelou a Mumler um segredo antigo de seu povo. A mulher podia trazer pessoas mortas de volta. Mas eles retornavam num estado entre a existência e a inexistência, onde ora podiam ter matéria palpável e em certos momentos pareciam apenas uma bruma fria que esvanecia no ar.

Mumler teria testemunhado a viúva trazer dos mortos seu marido, com o qual conversou. Apesar das experiências sobrenaturais, Mumler estava convencido de que havia um portão de conexão entre a realidade dos mortos e o mundo dos vivos. Mumler nunca permitiu a Williams, seu assistente, acompanhá-lo ou mesmo testemunhar os arranjos necessários para trazer o morto de volta ao mundo dos vivos.

Apesar disso, Williams acreditava em Mumler, pois conta que uma rica senhora de Chicago certa vez gastou uma fabulosa soma de dinheiro afim de registrar uma última fotografia com seu marido morto. Mumler tentou inúmeras vezes trazer o espírito do homem, mas ele nunca veio. W.H. Mumler devolveu o dinheiro e a mulher foi embora, decepcionada. Dois anos depois, ela enviou uma carta onde o agradecia por sua honestidade. O marido dela não estava morto. Havia sido encontrado desmemoriado.

Mumler ficou bastante famoso por suas fotografias de mortos e seus parentes. Ele atingiu seu auge em 1860 , justo no pior momento na história dos Estados Unidos. Eram centenas de milhares de mortos na Guerra Civil. O espiritismo floresceu e se tornou uma mania quando os parentes de soldados mortos tentavam evocar seus espíritos.

 William Mumler usou sua técnica misteriosa e fez um bom capital, mudando-se para Nova York no ano de 62. Mas nem todos acreditavam em seu poder. Mumler foi processado por charlatanismo pelo tribunal de Nova York. Mesmo sem conseguirem provar que Mumler era um charlatão, o processo e o prejuízo foram demais para ele. Mumler se tornou um recluso.  Dizia ser perseguido por espíritos desencarnados querendo usá-lo como ponte para retornarem ao mundo dos vivos. 

 No final dos anos 1870, William Mumler ficou gravemente enfermo. Ele morreu  em 1884, com a idade de apenas 52 anos. Mumler, dizem,  morreu vítima da loucura.  Antes de sua morte, em uma das crises, ele destruiu a maior parte de seus trabalhos e fotografias. Estima-se  ter sobrevivido apenas  2 mil fotos de seu laboratório.

Sua mais famosa fotografia é a que mostra a esposa de Abraham Lincoln com seu marido falecido. Testemunhas alegam que o incêndio… *

O recorte de jornal terminava bruscamente, sem maiores informações.

Regina olhou para Mara.

-Espere aqui! – Ela disse.

Correu até Carlão, que estava sentado na cadeira de madeira.

-Como você tá?

-Eu tô tonto. A vontade de vomitar ta me matando. E o cheiro desse sangue. Ung, embrulha o estômago, Rê!

Regina pegou a lanterna com o amigo e abriu freneticamente diversas caixas de madeira sobre o móvel.

-Ta procurando o que, Rê? -Perguntou ele.

-Fotos! – Ela disse.

Finalmente, Regina encontrou uma caixa escura, forrada de couro de porco. Assim que iluminou com a lanterna ela viu que estava diante de um tesouro. Fechou a caixa e correu até Martina.

-Má, veja!

Ela abriu a caixa e havia um punhado de fotografias antigas, amareladas pelo tempo. Mas o mais impressionante eram as coisas registradas nas imagens.
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Então, quando puxou a última fotografia, ela percebeu que estava diante do mais famoso retrato de Mumler. Ali estava o fantasma de Abraham Lincoln, abraçado com sua esposa.

 

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-Santo Deus!

-Parece ele mesmo! -Disse Martina.

-Socorro! – Carlão gritou.

As duas largaram a caixa e o caderno pelo chão e correram até ele. Carlão estava em pé, apoiando-se na cadeira. Parecia em choque.

-Carlão?

-Que foi?

-Uma… Uma mão. Uma mão agarrou o meu ombro! -Ele disse.

-Você está bem? -Perguntou Regina, fazendo uma pequena careta para que Carlão percebesse que não devia falar na frente de Martina.

-Eu, eu… Eu não quero ficar aqui. Vou ficar junto com vocês. Vamos lá pra perto do lampião! – Ele disse. Carlão estava frio e trêmulo. A experiência o havia aterrorizado.

-Cadê a lanterna, Má?

-Deixei lá no chão. – Ela disse.

-Junto com o lampião?

-É!

-Então vamos pra lá.

Assim que Regina falou isso a luz apagou e o porão imergiu na mais absoluta escuridão.

Martina voltou a gritar desesperada.

-Calma Má! Calma!

Não se via nada. O breu era total.

-Eu tô aqui! Eu tô aqui! -Berrava Carlão, tentando acalmar a amiga.

Carlão abraçou Martina que começou a chorar compulsivamente.

Regina levou a  mão na barriga. As contrações voltavam, e agora eram cada vez mais fortes.

-Ai meu Deus! – Gemeu Regina na escuridão.

-Que foi? – Perguntou Carlão.

-A Bolsa. Acho que a bolsa estourou! -Ela disse com uma voz que  deixava transparecer o medo.

Então, subitamente,  uma coisa fria encostou na mão de Regina. Era uma mãozinha. Fria. Pequena. Segurava forte a mão dela.

Regina ficou tão assustada, tão aterrorizada, que não conseguiu nem gritar.

CONTINUA

 

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28 comentários em “As crianças da noite – Parte 7”

  1. vish, ta tenso o negocio cara, muito massa essa historia Philipe, e o que mais curto nos seus contos é que você não inventa nomes nem nada, o tal do William Mumler realmente existiu e fotografou “espíritos” mesmo, muito top cara, parabéns.

    • “Realmente existiu”? Sim, Mumler existiu. “Fotografou espíritos”? Só que…. NÃO. Confira:

      William H. Mumler, o homem que não fotografava espíritos
      14/04/2009 @2:13 | MARCO SANTOS
      Fotogénicos fantasmas

      No estúdio de William H. Mumler, os milagres aconteciam. Os abastados membros da sociedade norte-americana podiam tirar uma fotografia na companhia dos fantasmas dos entes queridos. Só Mumler possuía a capacidade mediúnica de fotografar os espíritos – e foi graças a esta maravilhosa competência que ganhou fama e muito dinheiro.

      Na década de 1860 nunca faltaram mortos para Mumler fotografar. Só a guerra civil americana – a chamada Guerra da Secessão, ocorrida entre 1861 e 1865 – fizera desaparecer três por cento da população americana: 970 mil pessoas, dos quais 618 mil eram soldados.

      A guerra não era a única a devastar o coração dos vivos: não existiam condições sanitárias para grande parte da população, havia muita doença e a Medicina era insuficiente. Morriam muitos antes de tempo, principalmente crianças.

      O Espiritismo Espiritualismo – de uma forma simplificada, a crença segundo a qual é possível estabelecer contacto com os mortos e conhecer pormenores sobre o Além – tinha ocupado a mente do grande público a partir de 1850, com as célebres sessões espíritas mediúnicas das irmãs Fox. Trinta e oito anos depois, a 21 de Outubro de 1888, uma das irmãs, Margaret, admitiu as fraudes e explicou os truques numa confissão escrita para o New York World, mas a maioria dos crentes considera que Margaret Fox mentiu ou foi forçada a mentir.

      Mumler sempre estivera interessado em fazer experiências com uma nova e intrigante tecnologia – a fotografia.

      Tinha 29 anos quando notou que uma anterior exposição tinha permanecido na placa reveladora, provocando acidentalmente uma dupla exposição de fotos, ou seja, a sobreposição de duas figuras na imagem.

      Viu-se então na companhia do sujeito feminino da foto anterior. Mostrou-a a amigos, garantindo que a figura esbatida era o espectro de uma prima já falecida.

      Madame Lincoln
      Mary Todd Lincoln
      Mary Todd Lincoln e o fantasma do marido
      Encorajado pela reacção crédula que obteve, levou-a a um especialista em Espiritismo – este caiu que nem um patinho. Em breve, a foto corria as publicações espíritas americanas, bem como cartões de visita distribuídos em Boston com uma reprodução do retrato de Mumler na companhia da Além-prima. E Mumler acabou por deixar a profissão de joalheiro para se dedicar ao lucrativo negócio dos fantasmas fotogénicos.

      O que deu verdadeira notoriedade a William H. Mumler foi a visita ao seu estúdio de uma misteriosa senhora de negro que se veio a saber mais tarde ser a ex-primeira-dama Mary Todd Lincoln, viúva do presidente Abraham Lincoln.

      Mary Todd era uma conhecida participante de sessões espíritas e a cruel tragédia da sua vida contribuíra para que procurasse no Além o consolo que não conseguia encontrar no mundo terreno: o filho Edward Baker Lincoln, nascido em 1846, morreu aos quatro anos, vítima de cancro medular da tiróide; o filho William Wallace, nascido em 1850, morreu de febre tifóide aos 11; a 15 de Abril de 1865, o marido foi assassinado; cinco anos depois perdia o terceiro filho, Ted, levado pela tuberculose aos 18. O único que ela não viu morrer foi o quarto filho, Robert Tod.

      Física miséria
      Mary Todd tinha problemas psicológicos graves – os primeiros sinais surgiram após a morte do filho William. Os sintomas de esquizofrenia agravaram-se com o tempo e a ex-primeira dama chegou a ficar internada num hospital psiquiátrico.

      Foi portanto a esta senhora doente e fragilizada pela tragédia que Mumler revelou um assombroso retrato onde o fantasma do falecido marido a consolava das suas perdas.

      Muitos outros notáveis se seguiram, incluindo o editor Moses A. Dow, da Waverley Magazine, que se deixou fotografar na companhia do espírito de uma antiga assistente pessoal.

      Harper’s Weekly
      Este cartoon publicado no Harper’s Weekly em Abril de 1869 reflecte a importância do fotógrafo no folclore mediático da época: a noiva do senhor Dobbs, um viúvo, quer um retrato do futuro marido. O senhor Dobbs cede aos desejos da noiva sem saber que está no estúdio de William Mumler. «Oh, horror», exclama a noiva depois de ver a foto. As anteriores cinco mulheres do senhor Dobbs aparecem todas na fotografia…
      Os problemas na carreira de William Mumler começaram quando se descobriu que alguns dos rostos convenientemente desvanecidos dos mortos pertenciam a pessoas que ainda estavam vivas. E a situação piorou quando começou a circular a suspeita de que o fotógrafo dos espíritos tinha por hábito arrombar as casas de alguns dos seus clientes à procura de fotos que pudesse sobrepor.

      Finalmente, em fins de Março de 1869, já com estúdio montado em Nova Iorque, William foi detido pela polícia sob a acusação de fraude.

      O julgamento foi um dos acontecimentos mais mediáticos da época, com dezenas de jornalistas de todo o país destacados para cobrir o acontecimento. Dezenas de fotógrafos testemunharam em tribunal, mostrando ao juiz como a fraude podia ser feita através da dupla exposição dos retratos.

      Dezenas de testemunhas também foram a tribunal defender a idoneidade de Mumler, sobretudo os seus clientes, gratos pela possibilidade de se reunirem com os queridos mortos através de uma fotografia.

      O juiz acabou por determinar que as provas apresentadas pela acusação não eram suficientes para o acusar de fraude, mas também deu a entender que pessoalmente considerava Mumler um vigarista.

      Mumler foi libertado, abandonou Nova Iorque e regressou a Boston, escreveu uma autobiografia na qual nunca assumiu a marosca, mas a sua reputação sofreu um rombo extraordinário e ele nunca mais conseguiu retomar a sua carreira de fotógrafo do Além. Morreu na miséria. E depois disso nunca mais se deixou fotografar.

      Fonte: http://www.bitaites.org/fotografia/william-h-mumler-homem-nao-fotografava-espiritos

  2. Tu é lindao cara! Se hollywood soubesse desse seu talento com certeza ja estaria nadando em uma piscina de dinheiro por la, hahaha. NUNCA PARE DE ESCREVER HEIN uahuahauau. Conto ta excelente! parabens.

  3. Felipe, Eu te ODEIO!
    ODEIO por me deixar tão ansioso pra ver a continuação dessa história! Caralho, muito boa! Sua escrita impecável e seu roteiro que cria mais e mais curiosidade sobre a continuação.
    A propósito, voltaremos a ter Gumpcast? Saudade!

  4. Estava quase dormindo,deitado no escuro,e decido dar uma olhada no mundo gump,pra que kkkk,agora me deu um puta cagaço,esse conto vai ficando cada vez mais macabro,phillipe,ja pensou em escrever um livro só de contos? Pelo menos uma venda garantida você ja teria rsrsrs

  5. Philipe, a coisa tá cada vez mais caminhando para um final “à La Lost”. Sem desmerecer o trabalho, claro, mas… fica meio que previsível demais. O Mumler bem que poderia ser o Mum…Rá… dá-lhe Thundercats.
    Por outro lado, essas supostas fotos de pessoas com “espíritos” sempre produziram mais controvérsias do que explicações. Uma delas reside no fato de que as supostas “aparições” apenas surgiam depois da foto revelada, e não durante a “pose”. Então, como se explica o enquadramento praticamente perfeito dos dois? O fotógrafo tinha que “adivinhar” onde o “espírito” apareceria e posicionar a câmera? Observe as fotos acima e constate. Muitas fotos foram desmascaradas como sendo simples “dupla exposição” de imagens… algo fácil de fazer, até mesmo com equipamentos da época.
    Outra questão seria o fato de que o espírito, em não sendo “matéria”, não refletiria luz. Logo, não seria visível no espectro da visão humana, pois sempre vemos a luz que os objetos refletem, e não o objeto em si. Se o espírito se tornasse matéria, a ponto de refletir luz, teria “voltado” ao mundo material… logo, deixou de ser espírito, e seria qualquer outra coisa, mesmo espírito, no sentido literal.
    Não tenho conhecimento, de momento, se algum desses “eventos” foram reproduzidos sob os critérios científico, em laboratório. Creio que não passariam por um exame rigoroso.
    Ademais, mesmo sendo “representações” etéreas de pessoas que já foram vivas, do “outro lado” é preciso usar roupas? Pelos braços, principalmente, dá para notar o vestuário. Ou a energia precisaria assumir uma forma que fosse familiar aos observadores, como fazem os ETs na ficção científica?

  6. Em tempo, na quarta foto, de cima para baixo, a do senhor de costeletas avantajadas, o rosto do “espírito” se sobrepõe ao rosto dele… já o corpo, é transparente e deixa entrever o corpo do vivo…. rsssssss…. “espíritos” com densidades diferentes? Claro que não, né… farsa, mesmo!

  7. Eu gostei bastente da referencia ao Mumler. Eu sempre achei que ele foi um farsante mas que em algum momento “alguma coisa” apareceu para ele e fz ele pirar. Meu palpite sobre o conto é que agora vem as menininhas boas pra lutar com a menininha má.

      • Em tempo: Aline, a “coisa” que surgiu e fez o Mumler pirar chamava-se “método científico”, que desmascarou os embustes. Depois disso, ele se enterrou de vez. E nunca fez questão, depois de morto, de aparecer em qualquer outra foto conhecida que fosse, só para se lembrarem dele…

  8. Philipe, a história estava muuuuito foda desde o início, ao fim de cada parte eu estava doida pra ver a próxima parte, ia dormir imaginando o que iria acontecer. No serviço eu e um amigo ficávamos discutindo o que iria acontecer, se a menina é boa ou má, o porque de perseguir tanto, de quem era a mão sangrenta no porão, ficava só no F5 pra saber se já havia postado a próxima parte. Mas confesso que me decepcionei um pouco nessa parte. A história estava fantástica, estávamos VIDRADOS MESMO, só que achei a parte 7 com muita informação meio desnecessária, na hora do jornal com as coisas sobre Mumler acabou desviando um pouco do foco “aterrorizar” e deixar a pessoa ansiosa. Estou amando a história, só achei que essa parte ficou com algumas coisas desnecessárias.
    De qualquer forma, parabéns, sua história é maravilhosa! *–*

    • Então, como a história não é algo pronto, que eu estou servindo, pense em mim como um cara fazendo o jantar na mesa do restaurante, e sem saber exatamente que receita é. Pode ser que uma parte fique doce, outra mais salgada… Isso é o ônus de criar em tempo real. Se fosse um livro, eu poderia parar, voltar, mudar, reescrever coisas do passado para encaixar no futuro. Aqui não. Aqui é o “se vira nos trinta” literário. As chances de dar merda são substancialmente maiores do que de ficar legal.

    • Uma “enchidazinha de linguiça” básica, de leve…. rsssss…. na boa, tá Philipe! Penso que que quis dar um ar mais dramático na coisa, e para justificar tanta informação, a “coisa” vai girar em torno desse falsário…ops, fotógrafo, de agora em diante.Quem sabe algo do tipo: o cara estava tentando repetir as experiências e além de captar a “imagem”, acabou trazendo o “espírito” para o lado de cá, mesmo. Abriu um “portal” entre os mundos e agora a “alma penada” busca um jeito de “voltar”…

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