As crianças da noite – Parte 10

-Quem é? – Ele perguntou, aflito, antes de abrir a porta. Mas ninguém disse nada. Rogério tornou a perguntar.
-Quem é? Quem está aí? – Mas novamente, nenhuma resposta.

Ele então abriu a porta, de supetão, pensando que talvez alguém tivesse batido e corrido.

O corredor comprido do andar estava deserto. Rogério olhou para a esquerda, mas não havia ninguém. Quando olhou para a direita, viu uma figura vestida com uma roupa toda preta andando apressada no fim do corredor. Era um andar estranho e quando ele viu, não conseguiu distinguir direito quem, era, mas dada a pressa, ele soube que bateram ali propositalmente.

-Ei! Você! Espere! – Ele gritou, mas a pessoa que já estava longe se ocultou junto à parede e dobrou a esquina no fim do longo corredor, onde estava mais escuro.

Rogério correu de cuecas, esperando que talvez fosse Regina. Talvez ela estivesse desmemoriada.

Ele correu pelo longo corredor acarpetado até chegar no fim do mesmo, perto do hall dos elevadores. Quando chegou, ali estava uma porta. A porta tinha uma placa que dizia “apenas pessoal autorizado”.
A porta estava trancada. Rogério teve certeza que a pessoa que acabara de ver não era uma camareira, pois elas vestiam avental branco. Ele não pensou duas vezes. Meteu o ombro na porta em três violentas batidas, até que a fechadura de qualidade duvidosa cedesse.

Nada o havia preparado para a visão horripilante que ele teve.

Um corpo de mulher, sem cabeça, andava por um quartinho estreito, repleto de vassouras, baldes e caixas de toalhas e panos.
Ele se assustou ao ver o corpo, andando calmamente, sem a cabeça. Era um vestido todo preto, antigo, com franjas de cetim escuro na parte de cima. Não havia sangue. Mãos esquálidas e com cor de velas surgiam na ponta das mangas compridas. O corpo andava de costas para ele, como num estranho e macabro balé.
Rogério não conseguiu nem ter qualquer reação. Ficou ali, assustado, os olhos arregalados olhando para a coisa.
Ela agora abria a janela. Uma janela estreita de vidro jateado.

-Ei! Quem é você? – Ele gritou fazendo menção de agarrar aquela figura enigmática, mas o corpo levantou a mão rispidamente, como se mandando-o parar. Então ela fez o sinal de negativo, com o indicador movendo-se de um lado para o outro no ar. E se lançou pela janela.

Rogério ouviu o som do corpo sem cabeça atingindo o chão. É um ruido que quem já ouviu nunca mais se esquece. Ele correu até a janela aberta e ao olhar para baixo, não viu nada. Não havia sangue, nem marcas, nem nada. O corpo sem cabeça havia sumido de modo tão misterioso quanto havia aparecido no fim do corredor do apart hotel.

Assustado, ele voltou para seu quarto.
Quando ia entrar, percebeu uma coisa no chão. Um envelope escuro e sujo de terra.

-Que isso? – Se perguntou. Ele estava tremendo, suava frio.
Levantou o envelope contra a luz, mas não havia nada. Então ele percebeu que talvez a mulher sem cabeça tivesse deixado aquilo.

As coisas pareciam estranhas. Ele pegou o envelope com as mãos e entrou. Sentou-se na cama e olhou para a Tv que agora estava totalmente escura.
-Nada aqui está fazendo sentido. – Pensou.
Rogério estava com medo de abrir o envelope. Segurou-o nas mãos e cheirou. Tinha um cheiro estranho de guardado, de terra e de morte. Ele temia abrir aquilo e ver fotos horríveis de sua mulher esquartejada. Talvez a mulher sem cabeça fosse uma das sequestradoras. Rogério sorriu quando se deu conta da insanidade daquele pensamento. Pessoas sem cabeça não existem, não andam por aí.
Teria sido uma visão? Um delírio? Um sonho?
Talvez alguém tivesse entrado no quarto enquanto ele dormia e o drogaram e ele nem se deu conta. Talvez o tenham drogado e deixado o envelope lá. O delírio que se seguiu fez o resto, criando a figura sombria, de roupas vitorianas andando sem cabeça pelo corredor.

Não. Não era delírio. Ele tinha certeza do que havia visto. Era um fantasma. Só podia ser.

Rogério não acreditava em fantasma até começar suas pesquisas com fotos dos mortos, quase cinco anos atrás. Ele havia obtido o maximo de material que podia sobre as pesquisas de diversos fotógrafos com entidades sobrenaturais. Estava disposto a descobrir o segredo guardado a sete chaves da transcomunicação.  Suas pesquisas o haviam levado a uma certeza: O fenômeno era real e possível, embora difícil de ser controlado.

Rogério lembrou-se a contra-gosto de sua última experiência, tão bem sucedida que lhe causou tanto pavor ao ponto de esconder o material, desmontar tudo e desistir daquilo para sempre.

Ele estava tentando o contato com um homem morto em 1845 quando uma represa estourou matando milhares de pessoas afogadas. Havia seguido a risca os procedimentos. Concentrou-se um velho chapéu que havia conseguido comprar de um membro da familia. Era o chapeu do morto. Na falta de um ponto de comunicação, um indivíduo afeiçoado ao morto, como um parente ou amigo, ele esperava que um objeto íntimo guardasse alguma energia residual capaz de ser multiplicada realizando uma fusão de planos.

Quando a experiência transcorria, Rogério viu, atônito, um pequeno ponto de luz surgir e dançar lentamente em sua frente. Olhando através da lente da antiga câmera de William Mumler , ele viu a figura movendo-se diante de si, junto à parede. O  homem era magro, calvo, e tentava pegar o chapéu sobre a cadeira. Parecia não ter consciência que estava morto.

Rogério achou que o canal estava estabilizado o suficiente para tentar uma comunicação, mas foi em vão. O homem apenas olhou para ele, como quem olha para um nevoeiro tentando ver o que há por trás. E então, sumiu.

Rogério já ia guardar as coisas quando uma mão pesada e gelada atingiu seu ombro. Uma força descomunal lançou-o do outro lado do porão. Ele bateu a cabeça e desmaiou. Quando acordou, o porão estava revirado.

Com medo do que quer que fosse aquilo, ele abandonou as pesquisas.

Mas aparentemente, os fantasmas não pretendiam abandoná-lo.  Agora ali estava ele, sentado na cama, segurando a carta escurecida. O que estaria ali?

Ele precisava de coragem. Prendeu a respiração. Abriu o selo de cera que lacrava o envelope e retirou dali um par de fotografias. A primeira não lhe chamou a atenção. Era apenas uma foto antiga, de uma menina. Mas a segunda, lhe retorceu as tripas de medo. Era uma fotografia velha, meio carcomida. A a imagem registrada pela prata foi o que lhe causou o maior calafrio:

morta

 

Na foto haviam três pessoas. Dois jovens e uma mulher madura. O jovem segurava a cabeça decepada da mulher,  enquanto a outra, empunhava um pequeno machado. Os dois tinham um olhar decidido, como se estivessem em transe, e exibiam a cabeça decepada como um troféu.

Rogério teve medo porque reconheceu as mãos brancas e o vestido. Era aquele corpo sem cabeça que ele havia perseguido nos corredores.

-Puta que pariu! Que isso??

Não havia nada escrito atrás daquela fotografia. Ela era um mistério.

Rogério jogou a foto tenebrosa sobre a cama. Voltou à outra foto. Parecia uma foto inocente do século XIX. Mas, acostumado a comprar e vender fotos antigas, ele começou a estudar melhor o que via.

 

menina sinistra

A primeira coisa claramente distinguível da foto da menina era que ela havia sido feita por um fotógrafo conhecido. Era uma fotografia de J.S. Aunspach, um fotógrafo que viajou pelo mundo por volta de 1800, fotografando diversas coisas, pessoas, lugares, e até mortos.

A parte de trás do cartão onde a fotografia estava colada vinha com algumas informações, com o desenho de uma câmera antiga, um conjunto de pintura, algumas flores e grafismos estilizados. No centro do cartão uma inscrição já quase apagada dizia: “Copias desta imagem podem ser obtidas a qualquer tempo, enviando o nome e o número”.

Infelizmente, o nome e números, escritos a lápis já haviam se apagado há muitos anos.

Rogério colocou a foto na luz para vasculhar com cuidado a depressão da ponta sobre o papelão grosso. Ali ele pôde identificar o que parecia ser o nome: Melissa Koeher

O cartão continha o endereço do estudio no seu verso: Dauphin County, Pennsylvania.

Rogério a princípio, custou a ligar os pontos e formar em sua mente o que era o contexto que então se apresentava. Somente após uns minutos de reflexão, que ele percebeu que havia recebido uma visita do além. Nada menos que um fantasma. Ele percebeu que não havia surpreendido a mulher sem cabeça no corredor, mas sim que ela havia meticulosamente planejado o encontro. O corpo sem a cabeça, de forma estranha, parecia querer que ele a visse, para só então compreender sua relação com a fotografia.
Rogério também concluiu que se a mulher da foto era o fantasma sem a cabeça, aquela menina posando ao lado de uma forma misteriosa envolta em um tecido de veludo decorado poderia também estar relacionada com ela. Eram fotos de períodos históricos diferentes e certamente, produzidas com equipamentos e por autores diferentes. Então, o que ligaria as duas figuras? Seria a menina também um fantasma?

Rogério lembrou-se de Regina lhe dizer com medo que havia uma menina na porta. Seria aquela jovem de laçarote de fita nos cabelos? certamente a fotografia  de J.S. Aunspach mostrava a menina morta, pois aquela forma à sua direita era comum neste tipo de fotografia. Aquele era um recurso da época usado para firmar os corpos de pé. Geralmente a figura por trás do manto era um auxiliar do fotografo. Entre as pernas, atrás da menina dava para ver a base do suporte de madeira que era usado para prender os cadáveres firmemente. O suporte era formado por um pé pesado de madeira que era atravessado por um pino de onde saía um ferro em forma de semi círculo. Esse ferro entrava através das roupas, oculto por elas e segurava a cintura do cadáver na altura regulada.  Tudo era posado para fazer parecer que a pessoa estava viva, do fundo pintado de paisagem ao tapete coberto com musgo imitando um gramado.

Rogério precisava saber mais sobre aquelas pessoas, pois sentia que aquilo estava diretamente ligado ao desaparecimento de sua esposa.

Vestiu as roupas, pegou as fotografias e saiu.

Somente o vigia estava na Recepção, vendo televisão.

-Bom dia senhor!- Ele disse.

-Bom dia… -Disse Rogério.

-Deseja um taxi, senhor?

-Sim, por favor.

-Só um minuto. – Ele disse, pegando  o telefone no balcão.

Enquanto o taxi vinha, Rogerio encostou-se na porta de vidro.

-Vai amanhecer um dia bonito. – Disse o vigia olhando o céu que clareava gradualmente.

-Espero que sim. -Disse Rogério.

O segurança parecia desconfortável.

-Senhor… Me desculpe, não me leve a mal… Mas preciso lhe fazer uma pergunta.

-Sim, pois não? Diga?

-O que o senhor estava fazendo correndo de cuecas pelo corredor logo cedo?

-Hã? – Rogério acabava de perceber que havia sido filmado.

-Eu vi aqui no monitor de segurança, ele filmou o senhor correndo de cuecas pelo corredor.

-Não tinha mais ninguém? Uma dona… Uma dona sem cabe…

-Hã? – Disse o vigia arregalando os olhos.

-Não, nada. Sabe o que é? Eu sou sonâmbulo, cara!

-Ah! Tô ligado. Nossa. Foi assustador. Parecia que o senhor estava falando com alguém. Mas eu vi pelas câmeras do andar que não tinha ninguém. Então achei engraçado também. Talvez fosse uma aposta. Morro de medo de sonâmbulos, dizem que se você acordar ele a pessoa morre, né?

-Bem, é… Não sei. Quer dizer… Ih, meu taxi já chegou!

-Tenha um bom dia senhor!

-Até logo! – Disse Rogério correndo para o Taxi.

O taxista era um velho indiano com turbante.

-Pra onde vamos, senhor?

-Para o cemitério!

-Qual deles?

-Todos! – Ele disse.

CONTINUA

 

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31 comentários em “As crianças da noite – Parte 10”

  1. Queria ver ele pedir decidido pra ir pro cemitério se ainda fosse noite…
    🙂
    Deu um medo DO CARALHO. Esse conto dava um filme de terror de primeira, e melhor, com poucos recursos, porque o medo que ele provoca não depende de efeitos especiais. Tá de parabéns, Phelipe

  2. Mas esse cara tem um sangue frio, hein? Ele vê um corpo sem cabeça andando e ainda quer agarrar a coisa?

    Philipe, você já pensou em usar cinemagrafia nesses seus contos de terror? Como os desse post aqui: http://www.mundogump.com.br/cinemagraph/

    Eu já fico um pouco assustado quando aquele Jack Nicholsson dá aquela risada…

    Agora se aquela menina cadavérica virasse a cabeça e olhasse diretamente pra mim ia ser terrivelmente assustador!

  3. Essa parte deu muito medo! Nem consegui olhar direito para as fotos. Cruzes!

    Philipe, só algumas pequenas correções:

    “Rogério teve certeza DE que a pessoa que acabara de ver não era uma camareira, pois elas vestiam avental branco.”

    “Concentrou-se EM um velho chapéu que havia conseguido comprar de um membro da família.”

    “O homem era magro, calvo, e tentava pegar o chapéu sobre a cadeira. Parecia não ter consciência DE que estava morto.”

    Agora estou até com medo de esperar pela próxima parte, já que não sei o que vem por aí! rs

  4. Na foto da “decaptada” percebe-se que o pescoço do “corpo” não é normal, parecendo ser um manequim, com um encaixe para a cabeça. Ademais, para alguém recém decaptado deveria haver sangue que não acaba mais… Parece que não é de hoje que gostam de adulterar fotografias, para mostrarem algo além da realidade. Se existisse photoshop já naquela época…
    Na foto da menina, os olhos estão expressivos demais… ela não parece morta. Me lembrou uma notícia que lí há algum tempo, informando que antigamente havia fotógrafos especializados em fazer fotos, e até mesmo máscaras de cera de pessoas recém falecidas. Seja por morbidez, seja para guardar uma recordação do “de cujus”, é algo que se encaixa no conceito “bizarro”.

  5. Eu perguntei, Doe, porque achei que podia ser uma pessoa decapitada depois de morta por suspeita de bruxaria ou vampirismo, prática que foi comum até mesmo nos EUA até o século XIX.
    Em alguns lugares do leste europeu eles realmente acreditam em vampiros, e até hoje nos confins da albânia tem lugares em que, se suspeitarem que o morto pode vir a virar vampiro, eles cortam a cabeça do cadáver e enterram separado.

  6. Entendi. Mas meu comentário não visou sua pergunta, não. Foi mesmo em relação ao tema da postagem. Até onde eu sei, e já pude ler, pessoas tidas como vampiras, zumbis e outras “cositas” que, mesmo depois de mortas, poderiam voltar a atormentar os vivos deveriam ser esquecidas. Razão pela qual não registravam nem o lugar onde o corpo seria sepultado, com medo de que o encontrassem e o trouxessem de volta à vida (parceiros ou “escravos dos mortos). Muito menos fariam fotos ou ilustrações delas.
    Para mim, pareceu um tipo de montagem, mesmo. Posso ter me enganado, mas foi a primeira impressão.

  7. Cara, tá demais este conto. Sempre que posso leio a noite pra dar um clima mais tenso. Mas não consigo resistir quando vejos publicado um novo capítulo, então paro qualquer coisa que estiver fazendo para ler… rsrs
    Estou ansiosamente esperando pelo próximo capítulo 😀 . Ótimo trabalho.

  8. Oi Philipe, lembrei de vc hoje de manhã, estava no blog verdades especiais e vi uma nota de treco chamado “A Caixa da Loucura”, acho que vc vai gostar muito, vou colocar os links abaixo pra vc dar uma olha, não perca, é muito GUMP!!!
    O Primeiro é do blog que vi a nota e o segundo é de onde estão as fotos da caixa e seu conteúdo:
    http://verdadesespeciais.blogspot.com.br/2013/11/noticias-04102013.html
    http://imgur.com/a/uCSg1

    Bjos,
    Juju

    • Nâo, eu vou continuar. Só tô numa semana de entrega de trabalhos aqui e to com pouco tempo pra sentar e escrever, ate pq eu nunca sei se vou escrever dois dez minutos ou durante 4 horas…

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