As crianças da noite – Parte 24

Já era o meio da tarde. Depois de pegar carona na entrada da cidade, Leonard e Aesh Pandraj estavam almoçando numa churrascaria de beira de estrada.

-Aí ele disse, “tipo quem”? E eu falei: Tipo Jesus! – Contou Aesh.

Leonard deu uma sonora gargalhada que atraiu a atenção das pessoas da mesa ao lado.

-Eu não estava entendendo direito o que acontecia lá. O cérebro da gente demora a reativar.
-Tinha que ver a cara dele quando você voltou. Achei que ele ia ter um troço. – Disse Aesh.
-E aquela roupa, Aesh? Você viu aquele macacão? O cara não lava aquilo deve ter uns dez anos ou mais…

Aesh Pandraj ficou quieto. Pensativo. Olhava para o teto com uma expressão estranha. Leonard logo percebeu que algo não estava bem com o indiano.

– Que foi? -Perguntou o velho.
– É que… Sei lá. Bateu uma sensação ruim. Uma coisa do tipo “fuja!”
– Fuja? Tá maluco, meu? A gente só começou os trabalhos, garoto. Olha o coração de frango aí! Morrer dá a maior fome!
– Não, é que… Não sei. Uma sensação de que algo está errado.

Leonard concordou e pediu mais vinho ao garçom.

– E então? Como foi? -Perguntou Aesh, tentando mudar de assunto.
– Deu tudo certo.
– Mas… Deu certo como? Não vai me contar?
– Acho melhor não. O que você precisa saber, meu amigo, é que deu tudo certo.
– Quer dizer que é assim? Eu vou lá, te ajudo, você dá uma morridinha, eu te enterro, você ressuscita e só vai me dizer que tudo isso “deu certo”?
– Ora bolas… Quer saber mais o que, Aesh? Não está bom assim? Você está vivo, sinal que deu tudo certo.
– Pensando por este lado…

Os dois fizeram um breve silêncio enquanto o garçom servia a carne. Logo, chegou outro com vinho.

– Ah! Nada mal. Não é o melhor vinho do mundo, mas está muito bom.
Enquanto eles comiam, a Tv no fundo do estabelecimento mostrava um programa jornalístico. Aesh bateu com a faca na taça de Leonard e apontou com os olhos o aparelho de TV. O programa mostrava o assassinato múltiplo no hotel. A Tv estava sem som, mas eles acompanhavam atentamente as imagens.
Aesh Pandraj teve um choque quando viu o corpo de Rogério sendo embalado e colocado no rabecão. Uma foto da polícia com o rosto de Rogério foi exibido.
Então, algo inesperado aconteceu. Na TV apareceu o sujeito cubano do restaurante italiano.
Ele falou, falou… Gesticulando muito.

– O que será que esse merdinha de uma figa está falando? – Perguntou Leonard.
– Não sei, mas não estou com um bom pressentimento. Está ficando pior… Ah, não. Olha lá.

Leonard largou a linguiça no prato quando viu surgir na TV o retrato falado da polícia. Primeiro o dele. Estava meio mal desenhado, mas dava para reconhecer. Em seguida, apareceu outro, e este foi bem pior. Um sujeito de turbante e óculos, com barba rala e bigode.

-Puta… Que… Pariu… – Gemeu Leonard.
Um garçom estava passando bem na hora… Parou, olhou para a tela. Sob o desenho de Aesh o letreiro: “Polícia investiga suspeitos de chacina em hotel do centro”.
Lentamente o garçom se virou e olhou direto para a mesa deles.

Leonard virou o rosto e Aesh, fingiu olhar para outro lado.

-Ele viu. – Gemeu Leonard entre os dentes.
-Eu sei. E agora? – Respondeu Aesh, escondendo o rosto atrás de um copo de refrigerante.
-Ele está indo até o gerente… O gerente vai ligar para a polícia.
-Estamos ferrados, senhor Leonard.
-Tem mais gente olhando pra nós. Aqueles homens lá atrás, perto do quadro. Eles viram a matéria… Ah não! Estão mostrando os videos da câmera de segurança!
-Puts! Não acredito.
-Você olhou para a câmera, senhor Leonard?
-Eu… Eu nem me toquei que aquela merdinha era uma câmera.

O gerente desligou a TV.
Os dois continuaram a comer, fingindo que nada estava acontecendo. Leonard sentia os olhares convergindo cada vez mais para a mesa deles.

O Maître se aproximou cauteloso. Estava gaguejando. Parecia suar.
-Os senhores… Estão bem servidos? Querem alguma coisa? Mais vinho, talvez?

-Não, está tudo bem, disse Leonard. Pode trazer a conta, por favor?
-Ah? A conta? Sim, sim, pois não… Só um minuto que… eu vou… Eu vou verificar. – Ele disse, saindo apressado.
Leonard acompanhou o Maître olhando de soslaio. Ele foi até o gerente, que olhava para os dois parcialmente escondido atras do balcão nos fundos.

-Leonard, temos que sair daqui agora! -Disse Aesh, muito sério. O indiano estava nervoso.

Leonard concordou. Estava pensativo.

O Maître voltou, apressado…

-Senhores… Estamos tendo um pequeno probleminha com a caixa registradora. Vai demorar só um pouquinho. Querem um café? Sorvete? Vamos dar a sobremesa de cortesia. Um musse? Profiterólis?

-Um musse de chocolate! – Disse Leonard sorrindo, calmamente.
-Pois não. E o senhor?
-Eu… Eu não quero nada não. Obrigado. – Disse Aesh, sem olhar nos olhos do Maître.
-Eu insisto!
-Olha, Cabul, que tal um pudim de leite? Eles tem um pudim aqui que é sensacional! -Perguntou Leonard olhando para Aesh. Aesh viu no olhar do velho que aquilo era um truque.
-Pode ser.
-Perfeito. Já vou trazer, com licença. – Disse o Maître.

Leonard e Aesh se entreolharam.

-Sabe para que isso tudo, né?
-Estão nos cozinhando para a polícia chegar, é claro. – Respondeu Aesh.
-Os homens já devem estar a caminho.
-Por que pedimos a sobremesa. -Perguntou o indiano.
-Assim eles não ficam esperando que a gente fuja. Precisamos de uma distração. – Disse Leonard.
-Sim, mas o que?
-Apenas espere… Confie em mim. – Respondeu Leonard.

Logo depois um garçom se aproximou. Trazia na bandeja as sobremesas. Nada da conta.

-Obrigado. – Disse Leonard.
Aesh provou o pudim. Era realmente gostoso, mas naquela situação, nada tinha graça.

Leonard começou a contar: – Cinco… Quatro… Três… Dois…

Quando chegou no um, o garçom que voltava para os fundos do restaurante caiu no chão, derrubando uma mesa, que virou e os copos e pratos se espatifaram. Uma mulher gritou. Todo mundo na churrascaria se levantou. O garçom permanecia no chão, e começou a ter uma violentíssima convulsão.
-Acode! Acode! – Gritou um senhor, tentando amparar o garçom no chão.
-Cuidado que ele engole a língua! – Disse uma mocinha que estava com o namorado.

Aesh olhou assutado para Leonard.

-È você?
-Shhh. Espere! Cinco… Quatro… Três… Dois…

Novamente, ao terminar a contagem, alguma coisa explodiu no interior da cozinha, soltando uma violenta labareda de fogo.
O rapaz que limpava o balcão que estava indo ajudar o garçom olhou para trás e gritou desesperado:
– O botijão de gás tá pegando fogo!!!

Foi a vez de Leonard se levantar e gritar a plenos pulmões: – Vai explodir tudo!

Então foi um tal de gente se levantando, mesa caindo, copos quebrando. Era garçom jogando pedaço de picanha para o alto e saindo correndo.
Leonard e Aesh se aproveitaram da confusão causada e tentaram sair pela porta da frente. Assim que iam saindo viram dois carros de polícia parando no posto de gasolina que era anexo à churrascaria.

-Ferrou! São eles. – Apontou Aesh.
-Vem, por aqui! – Leonard saiu puxando o indiano para os fundos.
-Vamos pela saída dos fundos?
-Isso aí, meu chapa! – Disse Leonard.

Eles passaram correndo pela cozinha, onde uma mangueira do botijão de gás estava solta, como um lança-chamas.

-Essa porra vai explodir de verdade! -Disse Aesh, vendo que a mangueira de vez em quando apontava as chamas para os outros botijões no canto da parede.
-Vamos!
Os dois abriram a porta e saíram nos fundos do restaurante. Foi quando ouviram um “click”.

-Parados aí vocês dois!

Imediatamente os dois pararam.

-Mãos para cima! – A voz ordenou.
-Calma aí! Calma aí! – Disse Leonard, se virando.

Para a surpresa dos dois, não era a polícia, mas sim o gerente do estabelecimento.

-Desculpa, não quis sair sem pagar a conta. – Disse Leonard, mostrando um bolo de dinheiro.

-Senhor… Não me toem por um idiota. – Disse o homem. Ele segurava uma pistola apontada direto para eles. – Eu sei que são foragidos! A polícia está vindo.

Leonard olhou para Aesh. O motorista indiano estava tremendo nas bases.

-Que horas são? – Perguntou Leonard.
-Hã? – Questionou o homem armado.
-A hora. Pode me dizer as horas, por favor? – Perguntou Leonard, diante da cara de espanto de Aesh.

O gerente armado olhou rapidamente para o relógio. – Três e quinze. – Ele disse. E então, ficou agarrado, com a arma numa mão e o relógio no outro pulso. O gerente virou uma estátua.

-Que isso? Que porra foi essa? – Perguntou Aesh, intrigado.
Leonard foi até o gerente. Tomou a arma da mão dele. O homem parecia congelado olhando o relógio.

-Não pergunte! Rápido, procura se ele tem chave de carro! Não fique aí parado, porra! – Disse Leonard, se livrando da arma jogando-a dentro de uma caçamba de lixo nos fundos do restaurante.
Já dava para ouvir a sirene dos bombeiros. Estavam vindo pela estrada.

-Aqui! Achei. – Disse Aesh. Ele tirou uma chave do bolso do homem. – Ei! Onde você vai?

Leonard pegou uma flor do canteiro e colocou com cuidado na mão esticada onde antes estava a arma.

-Bem melhor! Tenha um bom dia, senhor! – Ele disse.

O homem ficou ali, parado, numa pose ridícula, olhando indefinidamente para o relógio enquanto esticava uma flor com o outro braço.

Os dois esgueiraram-se pelos fundos do restaurante. A chave do carro tinha uma dessas fechaduras eletrônicas. Aesh apertou o botão e uma caminhonete apitou, acendendo as lanternas.

-Vamos! É aquele! – Disse Leonard, correndo ate o veículo.

-Deixa que eu dirijo. – Disse Aesh.
-Não, porra! Tá maluco? Quantas pessoas com barba, óculos e turbante tem na cidade?
-É, tem razão.
-Vamos, Aesh, passa pra cá! Temos que sair sem os meganhas nos verem. Senão, vai dar chabu!

Leonard acelerou o carro.

-Bosta! Odeio dirigir! – Ele disse.
Aesh ia abaixado, no banco de trás.

-Senhor Leonard, pegue a estada que sai da cidade! Vamos dar o fora daqui. A essa altura eles já devem ter informações de mim. Todo mundo já me viu por aí. Não duvido que eles estejam lá em casa.

Leonard acelerou o carro na estrada e viu pelo retrovisor o posto de gasolina com churrascaria ficando longe.

-Pra onde vamos? – Perguntou Aesh.
-Não vamos conseguir ir longe. Em dez minutos o velho babaca voltará ao normal. A polícia vai saber que roubamos o carro dele. Vão fechar a rodovia com barreiras. Temos que trocar de carro. -Respondeu Leonard.
-Que ótimo… Agora estamos sendo acusados de assassinato, e perseguidos pela polícia por roubo. – Disse Aesh, olhando a paisagem da estrada passando pela janela.
-Tem razão. Estamos nos enrolando aqui. Temos que pegar um outro caminho. Se seguirmos pela rodovia seremos uma presa fácil para eles. -Disse Leonard, se habituando com a direção.
-Faz sentido, senhor Leonard!
-Aesh, você acha que esse trambolho aqui tem tração nas quatro rodas?
-Tem sim senhor… É só apertar esse botão ali e… Que isssoooooooooo?

Leonard deu uma guinada com o veículo saindo da estrada e entrando por uma trilha parcialmente encoberta pelas árvores. Ele passou em um espaço tão estreito que uma das árvores arranhou a lateral do carro e arrancou o retrovisor direito.

-Segura aí! – Gritou Leonard, quicando no banco.
Minutos depois, Leonard e Aesh estavam pilotando a caminhonete aos trancos e barrancos entre uma estrada de fazenda toda esburacada, cheia de mato alto. Atravessaram um pequeno riacho. Foi preciso ligar a tração para o carro conseguir subir uma elevação. Leonard virava o volante de um lado para o outro, fazendo o carro escalar o morro. Era uma tarefa difícil, que envolvia desviar de árvores enormes e conter o peso do próprio veículo.

-Senhor, não force muito… O carro está fazendo barulho estranho! – Gritou Aesh, mas foi tarde demais. Algo estourou e eles ouviram um som de gás.
O motor perdeu a potência e então morreu. Leonard puxou o freio de mão.

-É… Acho que o carro já era!
-Onde será que estamos? – Perguntou Aesh.
-Olha aí no porta-luvas… veja se aquele escroto tinha pelo menos uma lanterna.
-Opa! Tá na mão! – Disse Aesh, pegando a lanterna. – Ei, tem mais alguma coisa aqui. – Disse, removendo um pacote de flanela.

Leonard já sabia o que era pelo formato.
Aesh desembrulhou um revólver 38.
-Deixa comigo. – Falou Leonard.
-Não, eu fico com ele. – Disse o indiano.
-Pensei que você fosse avesso à violência.
-Eu sou. Vou levar comigo para caso apareça algum bicho. -Respondeu, saindo do veículo e olhando para cima. Ele só via as folhas e galhos das enormes árvores.

Estava caindo a noite e ficando muito frio.

– Leonard meteu a mão no bolso e retirou um pequeno aparelho de metal oxidado. Era repleto de inscrições e lembrava uma bússola.
– Ilumina aqui, Aesh!
– O que é isso? – Perguntou o motorista.
– Não é da sua conta. Vem, vamos por aqui. – Respondeu Leonard, secamente, andando rápido por entre os arbustos montanha acima.

Aesh, ficou bravo com aquilo, mas não tinha jeito. Teve que seguir o velho Leonard pelo mato adentro.

Os dois subiram até chegarem numa trilha. A trilha se revelou uma longa caminhada. A noite caiu escurecendo tudo. Era um breu geral.
-Felizmente aquele cara lá tinha uma lanterna. – Disse Aesh, rompendo quase uma hora de silêncio entre eles.
-Espero que ele tenha também um bom seguro. – Respondeu Leonard.

A trilha da montanha os conduziu através da mata até uma pequena cabana de madeira, caindo aos pedaços, que estava parcialmente envolta pelo mato alto.

– Que lugar é este? – Perguntou Aesh, iluminando a entrada. Morcegos saíram voando pela janela parcialmente arrebentada.
– Parece cenário de filme de terror.
-Acho que é um tipo de abrigo de inverno. Alguém morava aqui, mas pelo mato, ninguém vem aqui faz tempo. – COncluiu Aesh Pandraj, iluminando cada parte com a lanterna. A porta estava entreaberta, presa por algo por dentro. Eles se esgueiraram e entraram.

Os dois caminharam com cuidado, desviando das enormes teias de aranha na entrada da cabana. O que prendia a porta era um móvel que havia caído. Um tipo de armarinho. Havia garrafas, papeis, livros, bolsas de couro, roupas espalhadas pelo chão. O cheiro era de mofo. Então a lanterna se deteve no sorriso triste de um crânio ainda com cabelos.

-Veja Leonard! Ossos!
-É… E são ossos de gente. – Disse Leonard, olhando o chão.

Havia um monte de ossos espalhados por todos os lados no chão e restos de roupas apodrecidas rasgadas.

-Aconteceu um crime aqui. – Concluiu Aesh.
-Não… Não na verdade! O que aconteceu aqui é que o sujeito que resolveu morar neste fim de mundo já estava velho demais para descer e pedir socorro. Ele deve ter sucumbido a alguma doença. Os animais selvagens devem ter sentido o cheiro do corpo e o comeram. Isso explica a bagunça. Se ele era um solitário… Ninguém nunca deu pela falta.

Aesh concordou. Ele praticamente podia ver a cena do velho tendo um mal súbito e deitando-se no banco de madeira precário junto à parede da cabana, que também servia de cama.

-Vamos passar a noite aqui. – Disse Leonard.
-Nossa, esse lugar me dá arrepios, senhor.
-É nossa opção. Ou é isso ou descemos e dormimos na friagem lá no carro. Duas horas andando a pé pela montanha abaixo, e de noite. Topa?
-Não… Aqui me parece um bom lugar. – Respondeu o indiano, já pegando as coisas para alimentar a lareira.
-Os livros não! Queime as roupas. – Disse Leonard. Então, o velho pegou um antigo banquinho de madeira, quebrou com o pé e jogou os pedaços na lareira. – Isso aqui já dá!

Felizmente havia fósforos na cabana, e os dois conseguiram acender o fogo.

-Vamos dormir! – Disse Leonard.
-Po-pode ficar com a cama ali. Eu vou dormir aqui perto do fogo. – Disse Aesh.
Leonard entendeu que o indiano estava com medo de deitar no lugar onde o velho da cabana provavelmente morreu.

-Que cagão, hein? – Riu Leonard.
-Boa noite. – Disse o motorista.
Leonard nem respondeu. Já estava quase pegando no sono. Aquele tinha sido um dia bem corrido. Leonard sabia que o dia seguinte não ficaria por baixo.

Caiu a madrugada na montanha.
Leonard abriou os olhos quando ouviu um barulho estranho. Ele não se moveu. Ficou apenas ouvindo. O fogo ja havia se apagado, e só restavam as brasas fumegantes. Aesh roncava no chão. O barulho não se repetiu, e Leonard começou a pensar que talvez fossem as tábuas estalando. Mas então, um novo estalo deixou claro.

Era um passso. Leonard estava certo.

-“Tem alguém aqui.” – pensou.

CONTINUA

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