As crianças da noite – Parte 16

Compartilhe

-Tinha me esquecido da zoeira na cabeça que isso dá. – Disse Leonard, em voz alta.

Ele estava em um matagal. Era noite. Não se via um palmo à frente do nariz. O som dos grilos e ruídos dos animais noturnos enchiam o espaço.
Leonard andou no meio do mato, abrindo o espaço com os braços. Finalmente, após uns minutos de caminhada, chegou a uma estradinha esburacada. Dali ele tinha dois caminhos possíveis. Ou seguia a estrada na direção da floresta ou ia em direção às montanhas. Leonard sabia que não teria muito tempo, e precisava agir rápido a tempo de voltar para dar cabo da Ljuvbna.

Por sorte, vinha pela estrada um homem velho puxando dois Mithuns, uma espécie de bisão natural da Índia que foi domesticado. Leonard precisou se concentrar para conseguir se comunicar na língua dele.
O homem se aproximou lentamente, tocando os colossais animais, negros como a noite, com uma varinha de bambu. Ele levava um lampião pendurado num comprido cabo de madeira sobre os ombros.
-Saudações. – Disse Leonard.
-Como vai amigo? O senhor não é daqui. – Concluiu o homem, apoiando-se no lombo enorme dos mithuns. – Está perdido?
Leonard notou o xale que o homem usava. Os xales eram peças importantes na distinção de classes e tribos de Nagaland. O dele era do padrão Tsungrem Khim.
-Sou um viajante. Estou indo para Mon. Está muito longe?
-Mon?
-Sim. O distrito aqui de Nagaland. Estou em Nagaland, certo?
-Sim senhor. Mon fica atrás das montanhas lá. Mas a estrada está ruim… As monções… Sabe como é. Posso perguntar o que o senhor quer em Mon? Não há muita coisa para ver lá.
-Faz tempo que não vou lá. Preciso encontrar um velho amigo. O líder Koniak Asvad Kumar.
Assim que Leonard pronunciou aquele nome, o velho dos Mithuns arregalou os olhos.

-Asvad Kumar? Asvad Kumar?
-Sim senhor. – Disse Leonard.
-O caçador de cabeças? O senhor conhece ele?
-Sim… Podemos dizer que sim.

O velho começou a se benzer e fazer o sinal da cruz. Ele temia os Konyaks, os “caçadores de cabeças”, como todas as demais tribos de Nagaland, dos Angamis aos Sumas.

-Bem, é uma longa viagem até lá. O senhor tem que ir na direção norte. Fica atrás daquelas montanhas.

-Muito obrigado pela informação. Tenha uma boa noite. – Disse Leonard.
O homem levantou seu tradicional chapéu e seguiu em frente com seus animais enormes, segundo estrada abaixo, enquanto entoava um cântico ancestral.

Leonard caminhou por uns cinco minutos na abissal escuridão. Guiava-se pelas estrelas seguindo o norte. Quando ele percebeu que o velho estava muito longe, devido ao fato de já não escutar mais a estranha musica do homem, Leonard meteu a mão no paletó surrado e tirou dali uma cordinha. Ele deu um nó nas duas pontas, de modo a criar um tipo de laço. Ele então ajoelhou-se na estrada e dispôs o laço como um círculo à sua frente. Após um período rápido de mentalização, ele saltou para dentro do laço. E então, de lá, saltou para fora.

Agora ele estava diante das casas de palha trançada. Leonard recolheu o laço do solo, desfez o nó e guardou-o no bolso. Então, percebeu o brilho alaranjado que tingia as pedras do chão.
Atrás dele estava um guerreiro Koniak. Segurava uma tocha, impávido. Na outra mão uma arma decorada.
Leonard pôde ver suas tatuagens corporais e os dois belos brincos feitos de chifres de animais. O guerreiro Koaniak era um velho, aparentava maios de 70. Os braços e pernas eram finos, e a pele bastante enrugada.
O guerreiro Koaniak assumiu uma posição de ataque, erguendo sua arma acima da cabeça e girou o tronco. Havia morte em seus olhos.
Leonard se manteve estático.
O guerreiro Koniak exibia com certo orgulho o colar decorado no peito, enfeitado com dentes grandes de tigre, e quatro cabeças de latão. Leonard sabia que aquilo significava que o homem diante dele já havia arrancado quatro cabeças humanas em sua vida.

Leonard precisou se esforçar para não se perder na admiração mútua, e dizer corretamente a antiga saudação Koniak.

Assim que ele disse, o homem baixou a arma.

-Procuro por Asvad Kumar! -Disse Leonard.
-Qual o seu nome, homem da cidade? – Perguntou o guerreiro na antiga língua Koniak.
-Leonard.
-Fique aqui. -Disse ele.

O guerreiro baixou sua lança e traçou uma linha diante de Leonard. Aquilo significava que Leonard não poderia ultrapassar o limite definido pelo guerreiro ou seria morto. Parecia uma bobagem, mas Leonard ainda podia se lembrar de um verão em 1934 quando um homem de sua expedição desrespeitou a linha. Hoje ele era apenas uma das cabeças repletas de limo que se acumulavam do lado de fora da cabana do chefe.

Minutos depois quatro velhos surgiram. Um vinha na frente, desarmado. Dois outros atrás dele, empunhando tochas e lanças e um mais distante, no flanco esquerdo, portando somente duas lanças. Todos estes estavam aparamentados com seus xales, os chapéus e os colares com chifres e dentes. O chapéu do Koniak que vinha na frente era o maior e mais bonito.

Leonard reconheceu aquele chapéu estranho, decorado com penas de calau e dentes curvos de javali. Era o chefe. Mas não era Asvad.
A pequena comitiva parou diate da linha.

Leonard ajoelhou-se silenciosamente em uma humilde referência ao chefe dos Koniaks. O chefe Koniak falou em um inglês precário.

-Moatsu disse que o homem da cidade fala a língua Koniak… Eu dizer que isso é impossível. Fale a língua Koaniak agora, homem da cidade!

Leonard falou então no antigo dialeto Koniak.
-Eu sou Leonard. Vim encontrar com Asvad Kumar, meu amigo, meu irmão.

Houve uma pequena comoção. Os Koniaks se entreolharam assustados. Nenhum deles jamais havia visto um homem da cidade falar em seu dialeto.
-Fala como meu avô. – Disse o chefe.
-Perdão. Há muito que não falo na sua língua. Talvez vocês me conheçam por outro nome…Thozuma.

Todos eles deram um passo atrás. Seus olhos estavam arregalados de medo e pavor. Apenas o chefe estava ainda em sua mesma posição.

-És o Thozuma?
-Sim senhor. Disse Leonard, ainda ajoelhado no solo.
O rei Koniak baixou-se e prostrou-se em referência, com a testa no solo, diante de Leonard.

-Seja bem vindo de volta, Thozuma. -Disse ele.

Os dois tocaram os punhos fechados e se levantaram.
-Onde está Asvad Kumar? – Perguntou Leonard.
-Asvad morreu, Thozuma. Sou Maram Kumar, filho de Asvad. – Disse o líder dos Koniaks. Ele fez um gesto e os homens se posicionaram. Todos eles seguiram para a cabana do rei.
À medida em que caminhavam pelo pátio da aldeia Koniak centenas de pessoas começavam a afluir de suas cabanas. Muitos, curiosos com o inusitado visitante.
-Vejo poucos guerreiros, Maram Kumar. -Comentou Leonard.
-Restam poucos de nós agora, Thozuma. -Disse o líder. – Não repare a cara deles. Estão com medo de você, Thozuma. Nosso povo vem sofrendo com ataques de uma família de javalis selvagens. Já mataram seis de nossos melhores caçadores. Ontem mataram uma criança. Semana passada encontraram cobras na minha tenda. Há um mal que paira aqui desde que nosso pai nos deixou. A fome as doenças estão se espalhando rápido…

Leonard concordou em silêncio.

Eles entraram na cabana escura. Uma pequena fogueira iluminava as pilhas de cabeças humanas parcialmente imersas na escuridão. Eles sentaram-se em esteiras no chão. Duas dezenas de homens sentaram-se mais atrás, em completo silêncio. Lá fora, o ruído era constante, formado por um misto de falatório, risos e choros de crianças.

-…Meu pai falava de você, Thozuma. -Disse o chefe, oferecendo uma bebida escura numa cuia para Leonard.
-Sim, Asvad foi um grande amigo… Um guerreiro poderoso.
-…Ele se uniu aos nossos ancestrais.
-Mas o que te traz aqui, poderoso Thozuma? -Perguntou o líder, sentado na esteira de palha.
-Preciso da ajuda de um koniak. -Disse Leonard.
-O que foi?
-Sema Sorani.
-Uma Sema?
-Sim senhor. Já cortaram a cabeça dela uma vez, mas não foi com uma arma Koniak. Não souberam fazer, e agora ela voltou.
-Meu avô dizia que elas voltam mais fortes.
-É verdade senhor Maram. Elas voltam. Preciso da ajuda de um Koniak experiente. Eu esperava que seu pai pudesse me ajudar mais uma vez.
-Entendo. Eu não posso partir com você, Thozuma. Não posso abandonar meu povo agora, neste momento de aflição…
-Compreendo e respeito sua decisão, Maram.
-Mas eu posso ajudá-lo. Posso enviar com você um dos nossos mais corajosos guerreiros. Um homem que já arrancou mais cabeças do que ele foi capaz de contar. – Disse o líder. Ele se virou para a massa dos homens que assistia a conversa em silêncio e disse alguma coisa. Então, levantou-se um guerreiro Koniak. Era o que havia encontrado Leonard. ele veio até o líder da tribo.

-Leonard olhou para o homem. Então se virou para Maram Kumar e agradeceu o apoio do guerreiro.
-Eu só preciso da chizima de Asvad.
-A arma de meu pai? – Perguntou o líder Koniak.
-Sim senhor. – Disse Leonard. O rei parecia desapontado e confuso. Baixou os olhos.
-Poderoso Thozuma… Não sei o que dizer. Não sei se podemos… Afinal, é a arma de um rei morto.
-Antes de você nascer, Maram, eu, seu pai e seu avô matamos seis Semas com ela. -Disse Leonard.
O rei concordou. Em silêncio ele olhou para um ancião. O velho decrépito, repleto de tatuagens levantou-se e caminhou para fora da cabana.

-Ele vai trazer. – Disse Maram.
-Obrigado, Maram. Permita-me retribuir seu gesto generoso com uma pequena ajuda. -Disse Leonard no dialeto Koniak.

Ele se levantou e seguido por Maram e a pequena multidão que os cercava, foi até o lado de fora. Leonard sinalizou para que não o seguissem. Pegou uma das tochas e andou até o centro do pátio da aldeia Koniak. Todos os olhos estavam sobre ele.

Leonard fechou os olhos e apontou para a floresta.

Um tenebroso silêncio se fez presente. A tribo inteira estava atônita. Algo parecia que ia acontecer. Eles se entreolhavam assustados.

Subitamente, o mato começou a se mexer. O som dos galhos estalando ia aumentando, aumentando. O clima de tensão na aldeia estava chegando ao clímax. As crianças se escondiam sob as pernas de suas mães.

Do mato surgiu um enorme javali. O animal grunhia e gemia, lutando contra o que parecia ser uma força invisível que o arrastava na direção de Leonard.

O gigantesco animal só parou de se remexer freneticamente quando já estava diante de Leonard.

Leonard então, se virou para o rei e os guerreiros Koniak que o ladeavam.
-Esta é a besta que está assombrando a aldeia?

Eles se entreolharam assutados com o poder de Leonard.
-Sim! – O rei gritou, erguendo o pulso no ar.
-Thozuma! Thozuma! – O povo Koniak gritava, saudando-o.

Leonard ergueu a mão para o alto. E então todos silenciaram.

-Não! Esta não é a besta!

Leonard enfiou a mão com toda força no bucho do javali, que grunhiu horrivelmente, morrendo em seguida.

Leonard mexeu de um lado para o outro, com o braço enfiado no corpo do animal. Era como se procurasse um órgão.

Então, finalmente, diante da platéia estarrecida, arrancou dali um pequeno ser. Era uma coisa branca, com a forma humana, que soltava um ruído fino com som que lembrava um pato tentando miar. Ele tinha uma longa cauda afilada, como a cauda de um rato. O corpo era de um pequeno menino. A cabeça ovalada terminava num filete pontudo. Os olhos eram duas bolotas escuras afundadas naquela cabeça deformada. A boca, pequena, repleta de pequenos dentes. A coisa se debatia, enforcada por Leonard, enquanto secretava uma gosma translúcida que pingava no chão e assim que batia no solo, parecia ferver.

-Mas o que é esta abominação, Thozuma? -Gritou o líder Koniak assustado.
-Isso é um catrão!- Gritou Leonard, diante do cadáver do javali enorme.

Leonard meteu a outra mão suja de sangue no paletó e tirou Kuran. Com ela, Leonard cortou ao meio aquela pequena coisinha que se debatia em sua mão.

Os dois pedaços do ser caíram ao chão e começaram imediatamente a ferver. Segundos depois, estavam reduzidos a nada.

-Vocês estão livres! – Gritou Leonard.
O povo comemorava: – Thozuma! Thozuma!

Maram Asvad se aproximou. Ele tinha a arma de seu pai enrolada em palha nos braços. Entregou a Leonard.
-Obrigado Thozuma. Aqui está a chizima de meu pai.
-Obrigado, Maram. Eu a trarei de volta. Prometo.
-Obrigado mais uma vez, Thozuma.

Leonard acenou para o povo da tribo. Os homens mais fortes lutavam para puxar a enorme carcaça do javali. As crianças brincavam iluminadas pelas tochas.

Ele seguiu adiante carregando a arma do líder. Entrou no mato e sumiu.

——

-Eu vou ter que arrancar sua cabeça então, né desgraçada? -Ele gritou, sabendo que aquilo iria irritar a Ljuvbna. Sendo uma jovem controladora da matéria, era óbvio que a desgraçada iria usar seu poder para jogar alguma coisa nele. Ela não arriscaria partir para uma luta direta com um caçador.
Leonard esperava que a bruxa lançasse alguma coisa nele.
Não deu outra. Ela era extremamente previsível. Lançou pedras.

No inicio eram poucas e ele conseguiu desviar de uma ou duas, mas à medida em que ela se tornava mais e mais forte, começou a ficar difícil de desviar.
Leonard deu mais um passo no jogo, produzindo um campo de deflexão das pedras. Ele sabia que isso faria com que a Ljuvbna gastasse mais energia puxando pedras para jogar nele.
Concentrada em levitar pedras de todos os tamanhos, ela não poderia sentir que ele planejava uma transmigração física.

Quando Leonard fez a transmigração, o escudo se enfraqueceu e uma pedra acertou seu duplo. Ele partiu, deixando em seu lugar uma forma física exata como ele, mas sem alma.

O corpo do duplo estava nos pés da Ljuvbna.
A bruxa da cabeça mumificada veio em sua direção, estendeu suas mãos esquálidas no ar e agarrou com vontade na cabeça dele.
Quando ela agarrou o corpo desfalecido, percebeu o óbvio. Havia sido enganada. Aquele corpo não era Leonard.

Não havia força vital circulando ali. Só então ela percebeu que o que estava agarrando era somente um amontoado de átomos, que se desfizeram no ar imediatamente.

-Procurando por mim, maldita? – Ela escutou.

Quando a Ljuvbna se virou, viu Leonard saltando sobre ela com um tipo de facão enorme de ponta quadrada. Não houve tempo de evitar.
Ela estendeu a mão para impedir o ataque, mas a chizima dos koniaks decepou-lhe o braço e amputou sua cabeça num só golpe.

A cabeça mumificada girou solta no ar, gritando horrivelmente, até bater, como uma bola de cinzas no chão, explodindo em microscópicos fragmentos. O corpo sem cabeça começou a se debater em terrível convulsão, e pegou fogo. Pouco depois, só restava uma massa de cinzas no jardim.

-Acorde. Ei! Vamos acordar! – Disse Leonard, sacudindo Aesh Pandraj, que estava desmaiado sob a árvore.
-Ung… Minha cabeça. Ai… Ué? Cadê ela? Cadê aquela coisa?
-Já era! Menos uma!
-Você a matou?
-Ali o que sobrou! – Disse Leonard, mostrando os restos, ainda fumegantes, de Andela Dubravka.

-Socorro! Socorro! – Eles ouviram. Vinha do porão.
-É ele! -Comentou o motorista.
-Ele está livre. – Disse Leonard.

Rogério subiu os degraus cambaleando. Estava repleto de uma gosma pegajosa.
-Que fedor, cara!
-Meu Deus, o que é isso? Onde eu estava?
-Você não lembra de nada, garoto? – Perguntou Leonard.
-Eu… Eu… Acho que não. Fui atrás da Regina e não vi nada. Acordei coberto com… Sei lá. O que é isso? Ung, que nojo!
-Você precisa de um banho, garoto. Depois temos que achar sua mulher…
-Vamos, temos que levar esse cara para o hotel. – Disse Leonard.
Aesh Pandraj arregalou os olhos:

-Ah, não! Peraí! Você está querendo dizer que vai colocar esse cara no meu carro? Assim nesse estado?

CONTINUA

12 comentários em “As crianças da noite – Parte 16”

  1. Mate uma bruxa, faça viagens através de teletransporte, invoque poderes ancestrais, mas JAMAIS suje o táxi de um indiano.

    Oremos.

    Obs: sem palavras! O conto fica mais emocionante a cada capítulo!

  2. Já tô até vendo daqui a alguns anos, uma série de livros com o Leonard, eita véio foda. Parabéns Philipe, a cada capítulo fica mais surpreendente.

  3. INCRÍVEL!!! INCRÍVEL!!! INCRÍVEL!!! Vc é perfeito Fhilipe!!!! Isso tem que virar livro, e serei a primeira a comprar!!!
    Pois seu livro é o PUNICO que eu leio, pois em minha opinião é o MELHOR que TEM! MEU SONHO É TER SEU AUTÓGRAFO!! QUEM SABE NÃO VIRA LIVRO!! ESPERO TE ACHAR PARA GANHAR UM AUTÓGRAFO!! heheheh Desculpe estou empolgada!! Não tenho palavras pra vc FHILIPE vc é PERFEITO!! PARABÉNS!!

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.