As crianças da noite – Parte 13

-Não, Não! Sai! – Ele gritou.
Rogério andou para trás na escuridão, ainda ouvindo seu eco. Seu medo é que as mãos frias e pálidas da mulher sem cabeça o encontrassem.
Ele bateu de costas numa estante de livros e alguns livros caíram em cima dele. Um livrão pesado acertou sua cabeça machucando-o.

Então a luz voltou.

Assim que a luz voltou, Rogério estava tonto pela pancada mas viu que a Ljuvbna não estava lá. Em seu lugar, havia apenas um pequeno livro de capa preta, de couro, paginas amareladas que estava levitando. O livro pesadamente no chão antes que Rogério pudesse esboçar qualquer reação de surpresa por ver um livro movendo-se magicamente, suspenso no ar.

Suas costas doíam. Ele levantou-se com dificuldade, tirando os livros de cima dele.

Foi até o livro, que agora estava caído no chão. Abaixou-se e pegou.

Era uma Bíblia. O livro não tinha paginas marcadas nem nada específico que permitisse entender a razão dele levitar.
Rogério sabia que a Ljuvbna estava querendo dizer mais alguma coisa. Certamente aquilo tinha relação direta com as fotos.
Rogério começou a fuçar o livro sagrado, em busca de alguma pista. Talvez algum salmo, alguma passagem ou versículo indicasse o caminho a seguir. Então uma mão fria agarrou seu ombro.

Rogério deu um grito de pavor, temendo dar de cara com aquele corpo sem cabeça enfiado num vestido antigo. Mas era a Bibliotecária do setor.

-Desculpe se o assustei, senhor.
-Ah, ah, meu Deus! Cheguei a bambear as pernas. Ufa!
-Perdão. É que ouvi um barulho aqui. – Ela disse, olhando o amontoado de livros pelo chão – Parece que o quadro de luz está em curto. Teremos que fechar a biblioteca para reparos, senhor.
-Ah, sim. Tudo-tudo bem.
-O que aconteceu? – A bibliotecária perguntou, vendo a montanha de livros espalhados pelo chão.
-Quando a luz apagou eu, eu me assustei, tropecei e bati de costas na estante. Ela está em falso, olha. – Ele disse, mexendo no grande móvel de madeira escura, que realmente estava em falso.
-São os cupins, eles estão detonando tudo aqui no andar. Pior que as verbas para a modernização não contemplaram esta sessão… – Disse ela, abaixando-se para pegar os livros e colocar na estante.
-Eu te ajudo. -Rogério se prontificou.
-Não, não precisa. É meu trabalho! – Ela disse, pegando o livro da mão dele.
-Opa, peraí. Não. Esse aqui não é dos nossos. Desculpe. -Disse ela, entregando-lhe a Bíblia antiga. -Esse é do senhor.
-Ah… Sim… Claro. -Disse Rogério, percebendo que estava diante de mais um “presente” da Ljuvbna.
-Quando descer, use as escadas no fim do corredor, ok?
-Sem problemas! Até logo.

Ele pediu licença e saiu, deixando a Biblioteca junto com a pequena multidão de pesquisadores, estudantes e visitantes que eram orientados a sair do prédio.
Ao ganhar as ruas, com a luz do dia, Rogério pode ver melhor a Bíblia. Na parte de trás ele encontrou uma estranha assinatura. Com alguma dificuldade conseguiu ler. Era a assinatura de Harry Koeher.
Só então lhe caiu a ficha. Aquele era o item que ele precisava. Um item original pertencente ao morto. Se a Ljuvbna lhe deu aquilo era porque ela sabia que ele conseguia, usando o método de Mumler, contatar o espírito de Koeher.
Rogério pegou um taxi em frente a estação e deu o endereço de sua casa.
Chegando lá, já era quase a hora do almoço.
Ele desceu do carro e se deparou com as ruínas escuras do que sobrara da casa. Uma faixa amarela da polícia isolava o local. Rogério caminhou até a entrada da casa, totalmente escurecida pelas chamas. Ele esperou o taxi ir embora e se distanciar para passar por baixo da faixa e adentrar as ruínas de sua mansão.
Não havia sobrado nada. Tudo era escuro e úmido. O chão estalava a cada passo. O fogo havia consumido tudo, tornando os escombros em amontoados disformes de carvão.

Não foi difícil encontrar a entrada do porão, pois era a parte mais preservada do incêndio.
Ele chutou a porta e ela caiu, escorregando pelas escadas abaixo. A luz do sol inundou a escuridão e o cheiro de fumaça e carne humana queimada chegou ao seu nariz. O silêncio era triste e tenebroso. Enquanto descia, com extremo cuidado, Rogério notava que o porão da casa estava completamente intacto. Quem quer que tivesse queimado tudo, havia se preocupado em manter aquela área a salvo. Ali estava sua pequena reserva técnica de obras de arte, seus livros, suas ferramentas, armários e antiguidades.
Ele foi até a câmera fotográfica de Mumler. Estava num lugar diferente.
-Alguém mexeu aqui. – Ele pensou, ao ver seu caderno de notas no chão.
Mas não havia tempo a perder. Ele queria saber como as peças daquele quebra-cabeças se encaixavam e como poderia reencontrar sua mulher. Se a Ljuvbna era a chave para saber onde Regina estava, ele precisava fazer o que ela queria, e a julgar pela Bíblia, a Ljuvbna queria que ele trouxesse Koeher de volta.

Rogério foi até a pilha de antiguidades e tirou de lá uma cadeira de mogno escura e velha. Pegou-a com cuidado. Posicionou-a junto à parede de pedra. Sobre ela, Rogério colocou a Bíblia de Koeher.
Então, ele se virou e foi até o armário no fundo da sala, perto da escada, onde procurou uma caixa específica forrada com couro. Ali estava o giz. Aquele não era um giz comum. Era um presente antigo do alfarrabista, e parte do segredo de Koeher. Rogério traçou o círculo ao redor da cadeira.
Após todos os preparativos, após entoar o cântico de entrada e após pronunciar as antigas palavras de contato, Rogério começou a sentir o frio súbito que antecedia “a ponte”.

-“Ele já está aqui”. – Pensou. Rogério tinha uma sensação ruim, como se fosse algo errado. Olhou através da lente da câmera. Inicialmente, Rogério achou que tivesse alguma coisa errada. Ele não se parecia com o homem da foto. Ali estava um senhor, mais velho, com um bigodão vistoso, metido em um tipo de fraque. Nada de cavanhaque.
Rogério percebeu que a foto que ele tinha era de quando Koeher era mais novo. A imagem que se materializava sobre a cadeira antiga era a dele quando morreu.

Ali estava ele, sentado na cadeira. Koeher tinha um sobretudo escuro de lã preto que cobria o fraque, chapéu coco e uma bengala. Ele parecia digno e a sensação era que estava esperando um trem. Olhava para o vazio com aqueles marcantes olhos azuis.

koeher fantasma

-Senhor Koeher? – Rogério falou, temendo que a experiência desse terrivelmente errado, como dera na última vez que tentara reconstruir o procedimento de William Mumler.

Koeher não respondeu, mas sua imagem, inicialmente borrada e fora de foco, como que inundada por uma estranha neblina, gradualmente começou a se fixar mais e mais. Koeher estava impassível, parado sobre a cadeira, no centro do círculo, olhando para o nada, contemplativo como uma estátua.
Agora Rogério já podia vê-lo sem ser através da objetiva de Mumler. Ele estava ali, como uma pessoa comum, de carne e osso. A projeção era como que um holograma. Por alguma razão, a comunicação da ponte entre as dimensões dos vivos e dos mortos estava particularmente forte. Rogério se sentiu exultante de perceber que aquela era sua melhor  tentativa de contato transcomunicativo em todos os tempos.

-Senhor Koeher? -Ele tentou novamente. – Pode me ouvir, senhor Koeher?
-Quem está aí? – Perguntou Koeher, olhando para os lados com os olhos arregalados. Parecia assutado. – De onde vem esta voz? Quem é você? – Koeher perguntou.
-Senhor Koeher, eu sou Rogério! – Ele disse.
Koeher parecia intrigado. Olhava para o alto, como se não conseguisse identificar de onde a voz de Rogério vinha.

-Você é um fantasma, senhor? – Perguntou Koeher.
-Fantasma? Eu? – Respondeu Rogério, rindo. -Não, não! Eu estou vivo!
-Se é assim, como eu não consigo ver o senhor?
-Talvez… Porque o fantasma seja o senhor. -Disse Rogério, sem saber qual seria a reação do homem de cavanhaque longo e grisalho.

Koeher não disse nada. Apenas sentou-se a cadeira, pensativo. Ele ficou assim por quase um minuto, até que rompeu o silêncio.

-Ainda está aí senhor?
-Sim! -Disse Rogério.
-Por que brinca comigo, senhor? Que lugar é este? Estou no escuro… Não vejo nada.

Rogério percebeu que Koeher não tinha a consciência que estava morto.

-Senhor Koeher, perdão por fazê-lo passar por esta situação incomum. Espero que se dê conta que o senhor está sonhando… – Ele disse, torcendo para que a mentira mantivesse a atenção de Koeher.

-Ah, sim. – Koeher sorriu finalmente. Ele pareceu relaxar. Tirou o chapéu e alisou os cabelos com a mão. – Como não percebi isso antes? Estou sonhando então!
-Sim senhor.
-Por isso não posso lhe ver?
-Bem… Sim. É por isso!
-O senhor fala de um jeito estranho. -Disse Koeher.
-Perdão. Todos no mundo dos sonhos falam assim. – Disse Rogério. -Diga-me, senhor Koeher… Eu preciso saber sobre sua filha.
-Qual delas?
-Melissa.

Koeher mudou de postura. Parecia que aquela pergunta o havia acertado como uma pedrada.

-Melissa… – Ele disse, baixando os olhos. Ela… Ela está… Morta.
-Eu sei, senhor Koeher.
-Chame-me de Harry, homem dos sonhos.
-Harry, me conte. Você entregou sua filha a uma mulher… Uma mulher de vestido preto.

Koeher se levantou. Mirou a escuridão com os olhos azuis. Estava em silêncio. Os lábios serrados como pronto para brigar. Sua expressão era de raiva. Tentou sair, mas não conseguia.

-O que é isso? Porque não consigo sair daqui? – Ele parecia intrigado.
-Harry, acalme-se, por favor. Está no mundo dos sonhos… As leis que governam este lugar não são as mesmas que governam o mundo que você conhece. -Disse Rogério.
-Eu quero sair daqui. Exijo acordar! -Bradou Koeher com o punho cerrado, segurando a bengala no ar.
-Harry, a menina, você entregou à mulher. – Acusou Rogério.
Koeher começou a chorar. Sentou na cadeira outra vez. Cabeça baixa, soluçando.

-Eu errei. – Ele disse.
-Eu sei, Harry. – Respondeu Rogério. Mas Koeher continuou.
-Eu não podia viver sem Alice. ou eu trazia ela de volta ou me mataria… A governanta disse que conhecia uma mulher que poderia trazê-la de volta. Ofereci dinheiro, propriedades, jóias… Mas ela só quis Melissa. Então, eu… Aceitei. Mas nunca mais esqueci dos gritos de Melissa, implorando para que não a deixasse. Eu não tive coragem para ver. Não fui homem suficiente…
-Entendo… – Disse Rogério.
-Ninguém entende, homem dos sonho. Ninguém pode compreender. Cada grito dela rasgava minha alma. E então quando ela subitamente parou de gritar, a dor foi mais forte ainda. Eu sabia que a mulher maldita tinha matado a Melissa.
-E aí?
-Ela veio até a porta da casa, com a Melissa nos braços. A marca no pescoço mostrava que ela tinha sido estrangulada. Eu levei o corpo da minha filha para casa. Preparamos os ritos e a enterramos. Na noite seguinte, choveu muito, houve uma tempestade que devastou as plantações. Houve inundações e deslisamentos. As árvores caíram. Foi horrível. Mas no meio da tempestade, surgiu à minha porta uma figura magra e pequena, que quando foi iluminada pelo clarão dos relâmpagos, vi que era Alice. Ela estava suja, cheirava a fumaça, mas estava viva. Nos abraçamos e resolvemos recomeçar a vida… -Disse ele.

Rogério viu que a história, confirmada da boca do próprio espírito de Koeher, era a mesma que o motorista havia predito.

-Harry, você não sabe por que ela queria sua filha? -Perguntou Rogério.
-Ela… Ela nunca disse. Ela fixou Melissa como um preço. Mas deixou claro que ela precisaria morrer. -Ele disse, aos prantos.

-Sabe, Harry… Eu tinha uma mulher.
-Você?
-Sim, Harry. Não sou só uma voz. Você não pode me ver, mas eu tinha uma esposa.
-E o que aconteceu com ela?
-Eu… Eu não sei, Harry. Ela sumiu.
-Sumiu?
-Sim. Eu acredito que isso esteja ligado de alguma forma a sua filha.
-A Alice?
-Não. A Melissa.
-Mas… A Melissa morreu.
-Exatamente, Harry. – Disse Rogério.
Então, subitamente, Harry Koeher levantou-se.

-Espere! Este… Este lugar. Isso aqui não é um sonho, não é?

Rogério não sabia o que responder.
-Eu estou me lembrando… Uma viga. Uma viga se soltou. A Viga caiu em cima de mim!
-Acalme-se Harry. Calma! – Gritava Rogerio, mas Koeher parecia agitado.
-O que está acontecendo? Que lugar é esse? O que é tudo isso?

Rogério começou a perceber a estranha bruma surgindo. A imagem de Koeher começou a turvar-se e embaçar. Sua voz ficou fraca e confusa.

-Senhor? Homem do sonho?
-Koeher? Koeher!
-Não estou ouvindo bem! – Ele gritou, já quase desaparecendo.
-Melissa! Onde o senhor enterrou Melissa?
-Hã?

Rogério gritou novamente a pergunta, mas não veio a resposta. As palavras se perderam na escuridão gélida do porão.
Então, como num soluço, Rogério ouviu o sussurrar de uma palavra: “São Anacleto!”

E o porão se entregou a um profundo e tenebroso silêncio.
Quem seria São Anacleto? Seria o nome do cemitério?

Ele foi até a câmera de Mumler e começou a desmontar tudo. Guardou o tripé, pegou a cadeira antiga e colocou sobre a montanha de objetos antigos. Com o sapato, apagou a marcação de giz pelo chão.
Enquanto Rogério apagava o chão, uma pequena moedinha lhe chamou a atenção. Teria caído do bolso de Koeher? Era uma moeda antiga, bem oxidada.

Então, uma coisa estranha aconteceu. Ele ouviu um grito. Um grito que ele teve certeza absoluta que reconhecia. Era Regina. Estava gritando o nome dele.

O grito paralisou Rogério que ficou assustado. Estaria ela tentando fazer contato?

-Reginaaaa? – Ele gritava, mas o grito parou tão estranhamente quanto surgiu.

Rogério caminhou no escuro até o lugar onde o grito parecia ter saído. Era a parede de pedra.

-Regina? Reginaaaa? – Ele gritava, mas não obtinha resposta.

Então, alguma coisa agarrou firme em seu braço, com enorme violência.

CONTINUA

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15 comentários em “As crianças da noite – Parte 13”

  1. A última linha dos seus contos sempre reserva uma surpresa sinistra!

    Continue com esse trabalho incrível! Estou muito ansioso!

    Você consegue apresentar os temas de ocultismo que posta no mundo gump através dos seus contos de uma forma realmente cativante. Isso é um dom raro.

  2. Talvez seja só eu…
    Provavelmente é só eu mesmo.
    Mas alguém ai sabe como eu leio desde o começo?
    Tentei algo como:
    http://www.mundogump.com.br/criancas-da-noite-parte-01/
    http://www.mundogump.com.br/criancas-da-noite-parte-1/
    http://www.mundogump.com.br/criancas-da-noite-parte-00/

    E caro autor, é muito trampo se adicionar um link de paginação para facilitar a leitura de quem pega o bonde andando?

  3. Muito bom Philipe….peguei o bonde andando, vi só dois capítulos antes desse pois não tenho muito tempo. Concordo com o Carlos Dente, eu vi cada parte da história, cada detalhe. Continue assim!! Espero q vc não fassa como eu que parei no começo da minha história no meu blog….rsrsrsrs

    • Eu vou terminar, é que estou com muito trabalho esses dias. Vem chegando fim de ano, surge muita demanda de design. Assim que eu me desenrolar aqui eu volto com o conto.

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