As crianças da noite – Parte 11

-Temos três cemitérios na cidade.
-Qual o mais longe? – Rogério perguntou.
O motorista do táxi disse que havia um já abandonado, um tal de “cemitério São Pedro” que seria o mais antigo. Ele ficava do outro lado da cidade.
-A “corrida” vai sair cara, senhor.
-Sem problemas, meu amigo. Vamos direto pra lá.

Enquanto o táxi do indiano atravessava a cidade, Rogério olhava pela janela. Via os carros passando, pessoas saindo para o trabalho.
Aquela era uma manhã fria.
A imagem da misteriosa mulher sem cabeça não saia de sua mente. Rogério meteu a mão no bolso e olhou aquelas fotos mais uma vez. Eram assustadoras.
Ele precisava descobrir quem eram aquelas pessoas. Certamente elas estavam ligadas ao desaparecimento de Regina.

E sua imagem aos gritos na Tv? Teria sido uma alucinação? Um sonho? Será?
Em seu íntimo, ele sabia que não. Ele sentia que aquelas coisas estavam interligadas de alguma forma.

-Senhor, pode diminuir o ar condicionado, por favor? – Ele pediu ao motorista.
-Desculpe, senhor. Não tenho ar condicionado no carro. – O indiano retrucou.
-Nossa, ta congelante aqui atrás. – Disse Rogério
-Não estou sentindo, senhor… O senhor por acaso não estaria com febre?

Rogério não respondeu. Deu de ombros. Voltou sua atenção para as fotos antigas. A mais assustadora era a da mulher sem a cabeça, mas o olhar da menina morta lhe atraía. Era vívido, e não parecia um olhar de alguém realmente morto.

-Ela não estava morta. – Disse o motorista, segurando o volante com as duas mãos.
-Hã? O que? – Perguntou Rogério, levando um susto.
O motorista dirigia em silêncio. Não disse nada por quase oito cruzamentos. Rogério estava com medo e apenas esperou. O carro parecia um congelador e ele sabia que aquilo era um sinal de alguma manifestação desconhecida.
-Houve um acidente… – Disse o motorista, rompendo o silêncio dentro do taxi.
-O que?
-Um acidente. – Ele disse.
-Que acidente, senhor?
-A criança. A criança da foto. – Ele falou, pausadamente, enquanto olhava pelo espelho retrovisor. – A casa deles pegou fogo. As crianças se esconderam no armário. Morreram sufocadas. Menos ela.
-Como… Como você sabe?
-Não sei senhor. Isso é um dom que trago dos meus ancestrais. Eles se comunicam com as pessoas do outro lado. Eu apenas sinto essas coisas. Desculpe, eu não pretendia incomodá-lo com minha opiniões. -Disse ele se concentrando na direção.
-Não, não. Por favor! Fale mais. Preciso saber quem são essas pessoas. -Implorou Rogério mostrando as fotos para o indiano que nem sequer parou de dirigir. Ele apenas olhou de relance para as fotografias.
-Eu não preciso olhar para elas, senhor.
-Mas o que você sabe? Me diga! Olha, tome aqui! Eu pago bandeira dois! Preciso da sua ajuda, amigo! -Disse Rogério lhe estendendo uma nota alta de dinheiro.
-Não posso aceitar dinheiro por isso, senhor. Mas essa menina… Ela morreu depois das duas irmãs dentro do armário. Respiraram a a fumaça.

-Mas como? E o que ela tem a ver com essa outra foto?

-Essa menina… Não era a filha preferida do seu pai. A filha preferida era Alice Ko… Não sei.
-Koeher!
-Sim, isso. Alice Koeher.
-Ela… Ela foi dada à Ljuvbna, para que Alice voltasse para seu pai. Mas a alma da menina não deixou seu corpo antes dessa fotografia ser tirada. Ela estava morta aqui, mas vagava entre os dois mundos. O dos vivos… E o outro.
-E a mulher sem cabeça?
-Essa mulher foi uma bruxa na Croácia. Ela era uma das que criavam as… Crianças da noite.
-Crianças da noite?
-Sim senhor. As crianças da noite são almas que vagam no espaço entre os vivos e os mortos. Elas podem estar aqui ou lá. As crianças da noite eram livres até que passaram a ser controladas pelas Ljuvbnas.
-O que?
-Seria mais ou menos o que por aqui neste país vocês chamam de bruxas. Pessoas sem escrúpulos que usam os conhecimentos ocultos para controlar os seres imateriais e conseguir o que querem.
-Por isso arrancaram-lhe a cabeça?
-As Ljuvbnas parecem vivas mas estão mortas. Não tem alma, nem sangue. Apenas o mal anima seus corpos. Acreditavam que cortando a cabeça elas morriam, mas isso apenas as libertam do mundo físico.
-Olha… Pode parecer estranho isso que eu vou lhe dizer, mas… Eu dei de cara com essa dona sem cabeça hoje, lá no hotel! -Disse Rogério.

O motorista pisou no freio. O carro quase ancorou no asfalto, derrapou, cantando pneu e atravessou no meio da pista. Os carros atrás desviaram, buzinas começaram a soar. Um pequeno caos na rua se formou.

-Oh meu Deus! O que foi isso, meu amigo? Pirou? – Perguntava Rogério sentindo o puxão do cinto de segurança.
O indiano parecia transtornado. Os olhos arregalados e a expressão era de medo. Ele se virou para o banco de trás:
-Ela, ela te tocou? Responda! Rápido!
Rogério estava com medo daquele sujeito. Ele parecia completamente transtornado.
-Não, não. Eu ia encostar nela, mas ela não deixou. Então ela… Pulou da janela e… Sumiu.
-Você correu perigo de vida. Elas são poluídas! Se a Ljuvbna encosta em você, você só dura sete horas vivo. A menos que…
-A menos que?
-A menos que pegue uma criança e entregue a elas. É assim que as Ljuvbnas constroem suas famílias de crianças da noite.
-Como o senhor pode saber isso tudo?
-Essa não é a pergunta inteligente, senhor.
-Não?
-Não.
-Então qual é?
-Você tem que me perguntar por que a Ljuvbna sem cabeça lhe procurava.
-Foi ela que deixou essas fotos.
-Com licença, senhor. – Disse o Indiano. Ele pegou a foto antiga. Colocou sobre a testa e apertou os olhos, com a expressão de quem fazia uma grande força. Então silenciou. Parecia em transe.
Do lado de fora, as pessoas engarrafadas buzinavam loucamente. Um homem estava puto o bastante para sair do carro dele e socar o capô do taxi.
Rogério botou a cabeça para fora da janela:
-Calma meu amigo! Chamem os médicos. O motorista está tendo um derrame aqui, pô!
Então a multidão que estava repleta de ódio imediatamente se comoveu. Pessoas ligavam freneticamente de seus celulares chamando o socorro médico.
-Olha, espero que isso funcione, pois eles já iam linchar a gente. – Disse Rogério, fechando o vidro.
-Shhhhh! -O motorista lhe mandava calar a boca. Estava com os olhos fechados, como num transe profundo.

-Andela Dubravka! – Disse o Indiano.

-O que é isso?
-É o nome dela, da Ljuvbna! Cortaram a cabeça dela. Ela… Ela quer a menina. A criança da noite que lhe pertence… Mas há um problema.
-Que problema?
-Há outra Ljuvbna! Essa eu não sei o nome. Não consigo captar. Mas… Quem é Regina?

-Regina? Você disse Regina?
-Sim…
-Regina é a minha mulher! Minha mulher que sumiu. -Disse Rogério. O coração quase saindo pela boca.

Então o indiano abriu os olhos. Olhou seriamente para Rogério.

-Você não vai gostar de saber o que eu tenho a lhe dizer, senhor.

CONTINUA

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38 comentários em “As crianças da noite – Parte 11”

  1. Caramba, o conto já tava excelente, mas esse décimo primeiro capítulo abrilhantou ainda mais o conto, e esse suspense uma dia ainda vai me matar de ansiedade.

    • Se isso acontecer, a última coisa que me passaria pela cabeça seria agarrar a coisa… não existe curiosidade suficiente que motive isso. A primeira opção seria correr, mesmo… para bem longe!

  2. Philipe, dá uma esclarecida melhor no que seja “Ljuvbna” e como se pronuncia isso. O google da vida não retornou nada, exceto o post. É criação sua?

  3. Oi Philipe, ta muito bom o conto!!! Sei que é complicado, mas tenta postar com mais frequência, eu e os leitores ficamos morrendo de ansiedade pra ler e saber mais, rsrsr!!!!
    Bjos
    Juju

    • Pois é, mas eu só consigo postar quando dá tempo de escrever. Essa é a parte ruim de fazer o conto e postar ao mesmo tempo, eu só posso postar se eu conseguir escrever.

      • Pessoalmente, Philipe, não tenho esse problema de ansiedade, não. Fico curioso, mas só até ai. E, no máximo, posso perder o fio da meada, se demorar muito, mas então basta reler o capítulo anterior e tudo certo.

        • Em tempo: lembrei-me de ter lido, em algum lugar, que nos casos de contos, novelas e seriados, os autores mais sérios costumam deixar a trama meio que “fluir” ao sabor do gosto dos leitores/telespectadores. Explico: como no velho chavão “quem matou Odete Roytman”, o próprio autor não saberia quem seria o assassino(a). Ele coloca vários personagens possíveis e vai medindo o interesse do público.
          Essa, inculsive, seria uma receita muito usada por séries americanas que são sucesso de temporadas, contra aquelas que naufragam logo na primeira. Afinal, o que interessa não seria apenas um determinado resultado, mas aquele resultado que mais atendesse às expectativas do público-alvo. Cria-se o desejo, e espera-se que ele seja atendido.
          Assim como no seu caso (você escreve “parceladamente”) não seria de estranhar que a trama toda não esteja totalmente delineada. Seus/suas leitores(as) mais ardorosos podem acabar lhe dando dicas preciosas de como conduzir o enredo, de forma a manter a atenção presa. E isso garante leitores(as) fiéis e ansiosos. Uma tática inteligente (se for correta).

          • Eu gosto de fazer nesse sistema por uma razão que dá até vergonha de contar. Fazendo assim, como eu me “comprometi” com os leitores, eu sou obrigado a continuar. Se eu faço a história só pra mim, é fácil outras coisas entrarem na frente e a história ser largada em segundo plano na gaveta dos projetos a finalizar.
            Ao mesmo tempo, escrever sem saber exatamente onde a história vai dar me deixa igualmente curioso com o que vai acontecer e é esta a razão do gancho final. Não é só motivar o leitor a ler o próximo capítulo, mas me fazer escrever ele. Por isso eu quase nunca sei o que vai se desenrolar depois do gancho. Eu coloco um gancho quase que aleatório, e passo o resto do tempo tentando ver o que ele vai causar.
            A chance de ficar uma bosta é gigante. Essa ameaça permanente também dá um toque de adrenalina no negócio, pq eu não posso errar e alterar algo lá do inicio, pq o leitor já leu. É quase que um “se vira nos 30”.

  4. Exato. Manter o fio condutor por toda a trama não é fácil, e é preciso muito cuidado para não entrar em conflito com detalhes ou situações já reveladas.
    Vamos ver no que dá. sua missão: surpreenda-nos. Se vira nos trinta, cumpadre! Rssssss…..

  5. Eu tava aqui me esforçando para não ler dessa vez, pq a caixa foi muito sofrimento… mas li a primeira parte e agora li um trechinho desta, vi que descambou pro lado da caixa, esse universo cheio de bruxas de nomes estranhos e entidades cabulosas… agora vou ter que ler! Cara!.

  6. CONTINUUAA ASSIM NÃO DA NÉ FHII!!! =D
    Nossa que história tem que virar livro, eu nem gosto de ler mas teu livro é o único que leio, que gostos, pois teu livro é tudo, espero não acabar logo, mas quandoo acabaar, FAZ OUTRO PARA TODOS NÓS QUE SOMOS MUITO FÃS DE VC!!!! =D
    Estou te acompanhando desde o primeiro capítulo!!!

  7. Caramba, hoje enfim resolvi ler essa história e me supreendi por vc ainda não te-la concluido (esperava não ter que passar por isso.. rss). Comecei a ler e não consegui parar. Me tornei adicto e estou ansiosa. Dia 14 vc disse que teria o novo capítulo e nada.. Pelamordedeus.. pára com isso senão vc vai me matar…
    Em tempo… Excelente conto, lembrei dos meus 12 anos quando resolvi ler “O Iluminado” do Stephen King que produziu sensações de medo e calafrio de forma semelhante.
    Parabéns!!!

    • Valeu mesmo, Marcy. Eu estava esperando o Davi dormir para poder me concentrar. É foda fazer suspense quando se tem um neném de 1 ano fazendo gracinha nas suas pernas.

    • OI Vanessa, perdão, eu esqueci de indexar este conto na pagina de contos. Agora ja fiz. Basta entrar em histórias longas. Ta la no final: http://www.mundogump.com.br/contos/

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