A cidade dos mortos

[tagline_box link=”http://www.mundogump.com.br/dez-dos-bichinhos-mais-fofinhos-do-mundo/” button=”Sair!” title=”AVISO:” description=”Este post contém imagens chocantes e incômodas para pessoas sensíveis.”]
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O dia amanhece preguiçosamente. Distante da confusão permanente nas margens do Ganges, surge o farfalhar das penas de uma garça, que com beleza e graça, sobrevoa a superfície ondulada do rio. Ao fundo, ocultas pela fumaça, que emana de forma permanente das margens,  estranhas torres sobem em direção ao céu.
Ao longe, já se pode ouvir o ruido da cidade despertando. Porém, ainda é um som fraco, que não distrai a garça de sua busca incessante por comida. A ave pousa suavemente sobre um montículo de junco e detritos perto da margem esquerda. Ali ela não espera por peixes ou pequenos crustáceos. A ave trepa com delicadeza entre pedaços de galhos, detritos e sujeira. Sem que possa perceber, a pequena ilha em que ela está pousada desce o rio lentamente, girando ao sabor das águas quentes. A Garça arranca com dificuldade algo comestível, que engole rápido, com indisfarçável prazer. É um olho humano…
A pequena ilha é só um dos muitos corpos humanos que boiam à mercê das correntezas do rio Ganges.

A cidade dos mortos

 

Aqui é Varanasi, terra dos contrastes. Mais do que em qualquer outro lugar, neste lugar as contradições da vida humana se manifestam: a vida e a morte, esperança e sofrimento, a juventude e a velhice, a alegria e o desespero, a riqueza e a pobreza. Esta é uma cidade onde se celebra tanto a vida quanto a morte. Esta é a cidade em que coexistem a eternidade e a curta existência humana. Este é o melhor lugar para uma compreensão do que constitui a Índia, a sua religião e cultura.

Há muitas cidades sagradas em todo o mundo. Praticamente toda cultura da terra elegeu para si, em algum momento, uma cidade sagrada.

De todas as grandes cidades sagradas do mundo, uma das que mais se destaca por seus incontáveis mistérios, surpresas e forte impacto visual é Varanasi, a cidade dos mortos na Índia. Varanasi é considerada também a cidade mais sagrada do Induísmo. Ela é tão antiga que não se sabe quando foi fundada. Segundo as tradições dos brâmanes, Varanasi foi fundada por Xiva há mais de 5 000 anos atrás, como uma das sete cidades sagradas do hinduísmo. Alguns estudiosos consideram a hipótese de que a cidade tenha surgido há cerca de 3 000 anos atrás. No entanto, dados arqueológicos apontam sua origem para anterior a 4000 anos atrás, quando o local era um centro religioso dedicado a Suria, o deus do sol. Talvez isso explique a questão do nome.

A cidade era anteriormente conhecida pelo nome de Kashi (em sânscrito e hindi : Kasi), que significa “a bela”, sendo Kasi: ‘brilhante (sol).

Varanasi foi um grande centro comercial e industrial, tendo se destacado na produção e distribuição de marfim, seda e perfumes. A cidade atingiu o posto mais respeitado entre as cidades da Índia durante os tempos de Sidarta Gautama, quando foi a capital do Reino de Caxi. Varanasi chegou a tornar-se um reino independente durante o século XVIII e, sob a tutela do Império Britânico, tornou-se o centro econômico e religioso da região.

Peregrinações a Varanasi

Varanasi é uma das principais cidades de peregrinação hindu. De acordo com a mitologia, a mão esquerda de Sati (esposa do deus Shiva, que se matou no fogo) caiu na cidade. Lá, cada qual das diversas divindades que compõe o panteão tem seu próprio templo.
De acordo com o hinduísmo, quem morre em Varanasi (ou menos de sessenta quilômetros da cidade), é liberado do ciclo da reencarnação. Banhar-se no rio Ganges purifica os pecados.

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Talvez isso explique porque o Ganges, um dos maiores rios do mundo em fluxo de água recebe tanta contaminação ali. Mais do que em todos os 6 rios que confluem para formar o Ganges juntos.
A poluição do Ganges tem afetado as 400 milhões de pessoas que vivem próximas de suas águas.

eclipse-ganges Desde a década de 90 e especialmente nos últimos anos, as condições da água do rio e afluentes têm ficado abaixo das consideradas aceitáveis pela OMS, já que o despejo irregular de esgoto tem aumentado, inclusive a partir de um hospital que atende tuberculosos.

Deu sede?
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Segundo a tradição, todos os hindus devem visitar e se banhar no rio pelo menos uma vez na vida.
Todas essas crenças tornaram a cidade o destino principal de doentes e idosos, que querem passar seus últimos dias na cidade sangrada, à espera da morte. Ao longo do Ganges, estão alinhadas várias residências projetadas para acomodar os moribundos. O rio também é o centro do crematório da cidade.

The city of Varanasi

O principal destino dos peregrinos que visitam a cidade são os ghats , nome dado aos degraus de pedra que levam ao Ganges. Ao amanhecer, você pode ver homens e mulheres que fazem os seus banhos de purificação no rio enquanto homenageiam o deus-sol Surya. Cada uma desses degraus, construídos no século XVIII , tem um nome e uma função especial. Os ghats de Mani Karnika e Harishchandra são os crematórios principais. No Ghat de Pancha Ganga acredita-se que cinco rios convergem seu fluxo sagrado. No total, a cidade conta com mais de 100 ghats.

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A sujeira do rio não impede as pessoas de nadarem, se banharem e até beberem daquela água, que eles acreditam ser purificadora. Todos os anos milhares de indianos vão para Varanasi. Muitos para celebrar e rezar aos deuses, e muitos outros para morrer.

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Um dos lugares mais famosos de Varanasi são os degraus perto do centro da cidade. Ali estão  os sadhus, eremitas manchados de fuligem que ficam horas e horas meditando (na verdade eles podem ficar anos).

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O lugar parece uma festa permanente. Mulheres com roupas tradicionais se aproximam dos turistas com propostas de serem fotografadas por dinheiro. Europeus caminham em meio a multidão, tentando não encostar no esgoto, pessoas mexem em celulares enquanto grupos de japoneses assustados fotografam os prédios antigos, usando máscaras cirúrgicas com medo de infecções. Doentes de todos os tipos, deformados com pústulas purulentas, com feridas abertas cheias de moscas, pessoas que já parecem mortas andando sem rumo…

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Há uma variedade plena de sujeitos de pele curtida com dreadlocks, anormais, iluminados, loucos e mendigos, prostitutas, vendedores ambulantes, vacas,  massagistas, traficantes de haxixe, artistas, e todo tipo de pessoa que você puder imaginar. Nenhuma multidão do mundo é comparável em diversidade.

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Na geografia religiosa do hinduísmo, Varanasi é o centro do universo. Uma das cidades mais sagradas para os hindus como uma espécie de linha entre a realidade física e da eternidade da vida. Aqui os deuses descem à terra, e um mortal atinge a bem-aventurança. Este é um lugar sagrado para viver, e um lugar abençoado para morrer. A opinião geral é que este é o melhor lugar para se alcançar a felicidade.

Os corpos que queimam nas margens

O maior Ghat na cidade, que é usado para a cremação é Manikarnika. Aqui, cremam cerca de 200 corpos por dia, e as piras funerárias ardem dia e noite. Famílias trazem seus mortos para cá, na esperança que o morto interrompa o ciclo de reencarnações, ou na pior das hipóteses, reencarne com um karma limpo.

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Devemos notar que o que para nós é uma vida estranha e terrível, para eles é só uma parte de sua cultura. Uma fatia substancial de um bilhão de indianos deseja morrer em Varanasi ou simplesmente queimar o seu corpo ali.

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Os crematórios estão abertos ao ar livre liberando a fumaça 365 dias por ano, 24 horas por dia. Centenas de corpos de toda a Índia e até no exterior são trazidos até aqui todos os dias. Mal chegam e seguem para ser queimados.

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O volume de mortos é tão grande que chega a formar filas. Eles aguardam até que os corpos sejam totalmente consumidos pelo fogo. O cheiro de carne humana queimada pode ser sentido há quilômetros. Mas os homens que trabalham ali já não sentem mais. Se habituaram ao processo, que aos olhos não acostumados pode parecer bárbaro.

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Com varetas de bambu eles empurram pedaços mal queimados de pessoas para o fogo. É importante que o fogo consuma toda a carne, até só haver as cinzas. As famílias ricas negociam madeira de sândalo de melhor qualidade, enquanto os mais pobres tem que se contentar com galhos e até palha.

 

 

Os mercadores da morte

A despeito de toda a religiosidade dos rituais fúnebres, o que arde também nos degraus é um intenso mercado financeiro derivado do negócio de queimar carne humana. Vende-se de tudo. Mortalhas, flores, incenso, madeiras de diversos tipos. Homens negociam sem parar ao som do permanente crepitar das chamas que engolem mulheres, homens e idosos, eventualmente vomitando um pedaço de braço ou perna ainda não queimada.

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Ninguém liga.

Com sua barriga grande e jaqueta de couro, surge Sures. Ele anda com certo orgulho para cima e para baixo entre as fogueiras, supervisionando os empregados, vendendo madeira, coletando a receita. Ele é o chefe burocrata daquela área. A burocracia é gigante e confusa, mas não impede os homens de queimarem até 400 pessoas mortas por dia.

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Os turistas recém-chegados são imediatamente reconhecidos por seus olhares assustados, o medo transparece em seus olhos, e eles sempre se mantém a uma certa distância das piras. Os indianos sabem que em sua maioria os turistas são bem intencionados e fáceis de manipular. Não tarda, surgem pessoas pedindo ajuda para pagar o funeral de seus parentes. Um quilo de madeira custa entre 400 e 500 rúpias, algo entre 17 e 20 reais.

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Os turistas raramente se recusam a ajudar as família do falecido, e doam pelo menos um par de quilos para as pessoas que imploram ajuda. Nem todos que alegam precisar da ajuda de fato precisam. Ali existem golpistas como em todos os lugares. Pra começar, o preço da madeira é sempre inflacionado para o turista desavisado. Na verdade, ao invés de custar 500 rúpias, o quilo da madeira custa a partir de 4 rupias.

Esses caras tiram proveito do senso comum que acredita que queimar os mortos é caro. Para queimar o corpo, é preciso de 300 a 400 kg de madeira e leva até quatro horas.

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A cerimônia de funeral inteira custa a partir de 4000 rúpias, ou algo perto de 80 dólares. Os mais ricos adicionam sândalo às piras funerárias para disfarçar o odor. Aí sai caro para os padrões indianos. Um quilo de sândalo não sai por menos de 160 dólares.
Diz a lenda que quando o marajá morreu em Varanasi, seu filho ordenou que o fogo fosse completamente feito com sândalo, e espalhou ao redor da pira de seu pai esmeraldas e rubis. Jogar gemas preciosas em meio à piras funerárias é uma pratica recorrente ainda hoje entre as castas mais ricas da índia.

Nas margens restos de flores, ramos, cordões, bacias e lixo se acumula todos os dias.

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As pessoas que lidam diretamente com os mortos são da casta mais baixa, os dalit ou “intocáveis”, como são chamados. Eles são designados como “shudras”, grupo formado por trabalhadores braçais, considerados pelos escritos bramânicos, sobretudo o Manava Dharmashastra, como “intocáveis” e impuros.

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Os intocáveis na sociedade hindu são aqueles que trabalham com trabalhos considerados indignos, sujos, lidando com os mortos (animais ou pessoas), com o lixo, ou outros empregos que requerem constante contato com aquilo que o resto da sociedade indiana considera abjeto e desagradável. São considerados individualmente imundos, impuros, e portanto não podem ter contato físico com os ‘puros’, vivendo separados do resto das pessoas. Ninguém pode interferir na sua vida social, pois os intocáveis são considerados menos que humanos e não são considerados parte do sistema de castas. Embora tenha sido abolido pela constituição, observa-se, na prática, que muitas comunidades continuam ligadas aos empregos que lhes eram destinados tradicionalmente, casam-se entre si e sofrem a discriminação da sociedade circundante, o que pode ser visto como resquício da sociedade de castas.
Umas das principais restrições enfrentadas por Dalits ao longo de toda a história consta a de não poderem rezar ou adentrar os templos. Isso é objeto de crítica desde a Índia medieval por parte de grandes reformadores sociais e poetas como Kabir. Nenhum intocável pode entrar no templo, pois iriam poluí-lo.

Flooding Hits Northern India

 

Assim, é comum vermos dalits peneirando restos de cinzas, ossos e carnes podres em busca de jóias perdidas. Por ser considerada uma atividade “impura”, os parentes não estão autorizados a retirar as jóias dos mortos. Então eles estão sempre ali, limpando e vasculhando terra queimada em busca de uma corrente de ouro, um anel de diamante, três dentes de ouro… Todo esse material encontrado eles vão vender.

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Pessoas de volta à vida

Se você acha estranho o sistema de castas da índia, pode se espantar ao saber que até os mortos são categorizados e tem seu lugar certo de cremação de acordo com sua morte. Em Manikarnika queima-se apenas os mortos de causas naturais. Um quilômetro antes, no Hari Chandra Ghat, são levados ao fogo os suicidas e as vítimas de acidentes. Perto dali está o eletrocrematório onde queimam os pobres, que não arrecadam dinheiro suficiente para a lenha. Geralmente são os mendigos mesmo que acabam ali, porque é comum que em Varanasi, como os funerais são permanentes, as madeiras das piras funerárias dos mais ricos que não queimam são dadas como oferendas aos mais pobres para que usem em suas respectivas piras. Eles fazem isso porque acham que ajudando outras famílias enlutadas conseguem um bom karma.

Já nas nas aldeias pobres, longe da cidade, a cremação é um problema. Sem ninguém para ajudar, muitas vezes eles acabam jogando o morto direto no rio. Isso não é incomum.

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Nos lugares onde o rio sagrado se represa existe até uma estranha profissão – o colecionador de cadáveres.

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São homens que nadam no rio, ou vão de barco e recolhem os corpos, por necessidade. Em alguns casos é preciso entrar na água. Em seguida, eles amarram o cadáver a uma laje de pedra bem grande e afundam o defunto. Eles fazem isso porque que nem todo o corpo pode queimar. É proibido cremar um sadhu, porque eles se recusaram a trabalhar, não tem família, sexo e abandonaram a civilização, dedicando toda sua vida à meditação. Não pode queimar as crianças menores de 13 anos, pois acredita-se que seus corpos são como flores. Assim como é proibido queimar mulheres grávidas, já que elas levam crianças em seu ventre. Também não pode cremar leprosos. Todas estas categorias de mortos são amarrados a uma pedra grande e lançados no rio Ganges ainda “crus”. Eventualmente eles se soltam do fundo e saem boiando por aí, estufados e cheios de gases como balões, ao sabor do vento. Os corpos desaguam nas praias das margens, onde viram até comida de animais, e -acredite se quiser, de gente!

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Curiosamente, também é proibido cremar os mortos pela picada de uma cobra venenosa, que é um tipo de morte bem comum na Índia. Isso é assim porque acredita-se que a mordida de certas serpentes não causam a morte, mas o coma (e estão certos).
É difícil saber se um morto está morto mesmo ou apenas gravemente paralisado pelo veneno. Portanto, para esses, eles fazem um tipo de jangada com troncos de bananeira e enrolam o corpo em alumínio. No barco vai uma placa com o nome do morto e seu endereço. O barco é solto para descer o rio. Meditando sobre as margens, os sadhus tentam usar a meditação para trazer essas pessoas de volta à vida. E o pior é que às vezes elas voltam mesmo!

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Kashi Baba, um dos moradores da área, conta que:

“Quatro anos atrás, a apenas 300 metros da Manikarnika eremitas capturaram um corpo revitalizado. A família ficou tão feliz que queria tornar o sadhu rico, mas ele se recusou, porque se aceitasse uma rúpia sequer, iria perder todo o seu poder”.

Eles também não queimam animais, porque para eles, os animais são símbolos dos deuses. Mas o que pode parecer bem chocante é saber que existiu até relativamente pouco tempo, a tradição assustadora do sati. A queima de viúvas!

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Se o seu marido morria a esposa era obrigada a queimar no fogo junto. Não é mito nem lenda! De acordo com a Kashi Baba, este fenômeno foi predominante até cerca de 90 anos atrás.

De acordo com os livros didáticos, as leis locais proibiram a queima de viúvas em 1929. Mas episódios de sati ainda acontecem hoje! Mulheres choram muito, então elas não estão autorizadas a estar perto do fogo.
No início de 2009, os homens permitiram o acesso à pira onde queimava seu marido a uma viúva de Agra. Ela disse que queria dar um último adeus ao seu marido. Consternados, ninguém teve coragem de impedí-la. Assim, antes que pudessem agarrá-la, ela saltou sobre a pira que queimava violentamente e se agarrou ao corpo do marido. Ela gritava desesperada e ninguém conseguiu desgarrá-la do morto. Ela morreu carbonizada antes da chegada dos médicos, cremada na mesma pira que seu marido.

Sinistro, né?

A margem oposta

Na outra margem do Ganges há extensões desérticas. Não é um lugar recomendado para turistas, porque é uma área perigosa. É no lado oposto do Ganges que lavam roupa e tomam banho os que acabaram indo parar lá. Em meio as areias sujas de lama e lodo, detritos e ossos, uma cabana solitária feita de galhos e palha desponta.
Lá vive um sadhu eremita com o nome divino de Ganesh. Ele se mudou para o lugar, vindo da floresta afim de realizar o ritual puja – de queimar nos produtos no fogo, como um sacrifício aos deuses. Durante um ano e quatro meses, ele queimou 1,1 milhão de cocos e uma quantidade impressionante de petróleo, frutas e outros produtos.

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Não longe dali, pode-se ver cães dilacerando restos de um corpo humano depositado na praia lamacenta pelo rio. Algumas vezes, surgem chars no rio.

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Os chars são ilhas temporárias formadas pela deposição de sedimentos que sofreram erosão a partir das margens do rio, Há lugares onde eles surgem sempre, e outros com alguma intermitência. Cada char é utilizado como moradia para até 20.000 pessoas.

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Seu solo é extremamente fértil, (tb com tanto defunto no rio, me espantaria se não fosse) e graças a isso, pode sustentar plantações ou servir como pasto para o gado. Porém, o Char pode desaparecer em questão de algumas horas, em consequência de alguma movimentação excessiva na correnteza, especialmente durante a estação das monções, quando chove sem parar por meses.

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Os habitantes dos chars são refugiados de Bangladesh ou bengaleses, porém o governo de Bengala Ocidental não reconhece sua existência nem lhes concede documentos de identidade para que possam emigrar ou obter empregos em outros locais. O saneamento nestas ilhas é extremamente precário, e os seus moradores não possuem assistência sanitária; a escolaridade também não lhes é acessível, e o analfabetismo é crônico. Mas veja que curioso, mesmo sem dar nada, o governo, no entanto, exige dos moradores das ilhas o pagamento de impostos.

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A cronologia da morte

Se uma pessoa morreu em Varanasi, é queimada em 5 a 7 horas após a morte. A razão para pressa – o calor.

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O corpo é lavado, massageado com uma mistura de mel, iogurte e de uma variedade de óleos e então lêem o mantra. Tudo isso a fim de abrir os sete chakras. Em seguida, o morto é enrolado em uma especie de lençol branco e este em outro de um tecido decorativo.

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O corpo é então colocado numa maca feita de sete travessas de bambu – também sobre o número de chakras.

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Os membros da família levam o corpo para o Ganges e cantam um mantra específico para garantir que na próxima vida, corra tudo bem. A maca é então mergulhada no Ganges.

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Então, o rosto é descoberto e os parentes aspergem com água por cinco vezes. Um dos homens da família se veste de branco.

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Se é o pai que morreu, ele deve ser o primogênito. Se é a mãe, deve ser o filho mais novo. É esta pessoa de branco o responsável por inflamar o fogo sagrado com uma tocha, que passará ao redor do corpo cinco vezes. Isso é porque cada passagem vai para um dos cinco elementos: água, terra, fogo, ar e céu.

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Muitas vezes o fogo não consome a pessoa inteira e é preciso incentivar a fogueira.

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Varanasi mesmo já queimou. O lugar foi um centro acadêmico, bem como religioso. Na cidade havia muitos templos, universidades e ali edificaram grandes bibliotecas, abertas aos textos védicos. No entanto, a maior parte das construções mais antigas da cidade foram destruídas por invasões muçulmanas. Em 1300, a cidade sofreu um grande saque por tropas do Afeganistão. Mais tarde, no século XVII, Benares (o antigo nome da cidade) foi atacada pelo imperador Mughal Aurangzeb, que intencionava extinguir o hinduísmo. A cidade sobreviveu a ambos os ataques, mas não sem marcas indeléveis.
Centenas de igrejas foram destruídas, fogueiras com manuscritos inestimáveis queimaram dias e noites. Até pessoas foram queimadas.

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Mas o espírito da Cidade Eterna não foi vencido, e é possível sentir isso nos ghatam ( degraus de pedra ) no rio Ganges.

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Entre mortos e doentes, crianças ainda brincam de correr em meio à fumaça das piras funerárias e os cliques dos turistas. Discussões, gritarias, buzinas, cânticos, rezas e o permanente estalar do fogo.  Vacas caminham impassíveis em meio ao caos. A cidade viceja. Como em nenhum outro lugar do mundo a morte é uma presença tão corriqueira do dia-a-dia urbano quanto na cidade sagrada de Varanasi, e ao que parece, ainda será assim por alguns milhares de anos.

Aqui um curta bacana sobre o lugar:

Varanasi, India: “Beyond” from Cale Glendening on Vimeo.

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109 comentários em “A cidade dos mortos”

  1. Impressionante como existem culturas com costumes bizarros ou primitivos nesse planeta. O interessante é que o hinduísmo na índia se acredita em reencarnação, de fato. Estou lendo um livro chamado: REENCARNAÇÃO – 20 CASOS. É um livro escrito por um psiquiatra canadense, dr. Yan Stevenson, que dedicou 40 anos de sua vida profissional na pesquisa científica sobre a reencarnação. Se vc ver o quão impressionante são os casos confirmados por ele através de pesquisa de campo na índia por décadas de crianças detalhando momentos de vidas passadas. Inclusive visitando seus novos pais – que antes nunca haviam se visto. São, tios, irmãos e familiares. Tem até uma frase do Carl Sagan no início do livro dizendo que sobre o tema essa é uma das poucas leituras que se poderia levar a sério.

    Bom artigo.

      • Podem até dizer que seja uma “prática cultural”, mas não deixa de ser abjeta e condenável. Afinal, quantas e quantas doeças serão causadas por essas águas imundas que são usada com a intenção de “purificação”. Na verdade, estão apenas aumentando a fila de “clientes” dos papa-defuntos. E claro, deve haver espertinhos que reconhecem a situação, e evitam a imundície do rio.

        Agora, gostaria que alguma “ONG” brazuca fosse para lá e proclamasse aos brados que os “dalits” são uma minoria ultrajada e discriminada, acusandos “azelites” de racismo (cadê o vice José Alencar???). Esse sim é um belo exemplo de discriminação racial, pois é feito exclusivamente em função da condição social – casta – da pessoa. Não é uma simples brincadeira feita por aqui com essa ou aquela etnia, e não representa, necessariamente, preconceito. Seria interessante!

        Agora, curioso mesmo é o fato de que as castas “dominantes” não podem tocar os despojos, por serem impuros, deixando objetos de valor para trás. Os objetos recolhidos pelos pobres diabos “impuros” serão comprados por quem? Por outros impuros, ou pelos “puros”? Resposta óbvia, pois quem se presta a tal atividade jamais o faria se tivesse condições de comprar os objetos de valor de volta. Tocar no morto é impuro; comprar de volta os bens materiais que ele usava não é??? SUBLIME INCOERÊNCIA, ou mesmo HIPOCRISIA DESCARADA. Esse fato é infinitamente mais repugnante do que as fotos mostraram. Mas, enfim, parece que tudo pode se encaixar na “licença poética cultural”…

  2. Acho feio quem fala que a cultura é errada, estranha, blablabla. É questão de cultura e devemos respeitar. Tem muitas coisas que fazemos aqui, e que aos olhos dos de outras culturas, seria absurdo.
    Enfim, muito bom o post, Philipe! Como sempre

    • Exatamente. Não é todo europeu, japonês que consegue achar bonita nossa cultura de termos no banheiro de nossas casas um cesto cheio de papel higiênico usado. Cultura e religião é desculpa para guerra e discórdia desde sempre.

      Querido, parabéns pelo texto.

      ps: Notei que as fotos são do infoglaz. Já tá se virando em russo? (digo, pois metade dos mistérios do mundo talvez estejam escritos em russo) rs

    • Esse relativismo cultural é extremamente perigoso. Parece que tudo se justifica dizendo “mas é a cultura deles”. Mesmo? Em algumas regiões é comum a retirada do clitóris das meninas, assim como dos lábios vaginais e o fechamento do canal para que ele se torne um simples buraco. A prática é extremamente bárbara e dolorosa e provoca a morte de centenas de garotas, as que sobrevivem passam o resto da vida com dor crônica na região dos genitais. Em outras regiões mulheres são apedrejadas até a morte ou condenadas ao estupro coletivo muitas vezes por crimes cometidos por membros de suas famílias. Isso sem falar das regiões onde o infanticídio de meninas – e isso ocorre inclusive na Índia – é uma prática comum. Na verdade mulheres são as maiores vítimas desse tipo de crime e é muito fácil dizer “é a cultura deles” quando você não é afetado por isso e escreve no conforto do seu lar. A propósito, Philipe, a prática da viúva queimar junto com o marido morto raramente era voluntária, os membros da família do marido jogavam as viúvas nas piras funerárias porque depois do casamento a mulher se torna propriedade da família do marido, quando ele morria as vezes ela era só um custo a mais nas despesas. Até hoje viúvas são mortas pelas famílias dos maridos na Índia.

      Eu estou dando esses exemplos para dizer que sim, é repugnante o que ocorre na Índia e em outras partes do mundo. Eu me oponho e não tenho vergonha de deixar isso muito claro pois sei que milhões de pessoas são submetidas à situações degradantes por conta de culturas arcaicas e que desrespeitam frontamente os mais básicos dos direitos humanos.

      • Parabens VERÔNICA. disse tudo. tambem concordo com vc. o politicamente correto nas pessoas em ter medo de dizer certas verdade alem da visao é o que ta tornando a hipocrisia ainda maior. bela resposta sua.

      • Verônica, você “leu” meu pensamento e “roubou” meu comentário! Pensei a mesma coisa em relação às mutilações femininas que; salvo engano, ocorrem em algumas tribos africanas. Também acredito que a “prática cultural” não pode ser usada como desculpa para a barbárie! Ou então teremos que perdoar canibais e tolerar homicídios em razão dos “habitos culturais” (e alimentares, porquê não), e também os nazistas, que se julgavam “ideologica, cultural e geneticamente superiores” aos judeus, justificando assim o holocausto. concordo em gênero, número e grau!.

      • Eu entendo que o relativismo cultural possa ser perigoso, mas a intervenção estrangeira em determinadas culturas não melhora EM NADA as práticas que condenam os direitos humanos e ainda por cima desperta o ódio dos nativos em relação aos estrangeiros. É preciso entender que a Índia trava uma batalha diária, desde Gandhy, para evoluir sem perder a identidade cultural, e que se compararmos a Índia dos anos em que ela era colônia inglesa com agora, vamos nos deparar com um país muito diferente e com muito menos atraso, embora ainda desigual e repleto de miséria. É o interessante fato de que os Ingleses sempre condenaram e a cultura indiana e a classificaram como selvagem e inferior, mas sempre se aproveitaram dessa desigualdade para explorar as riquezas da Índia. Há inclusive um livro chamado “Mother India” em que essa cultura é tratada com sensacionalismo como bárbara e selvagem, justamente para justificar a presença dos colonizadores ingleses, que estariam ali para levar à Índia a evolução cultural, os bons modos do ocidente. O que aconteceu, na verdade, foi que a colonização inglesa aumentou os abismos sociais, porque contava com a conivência das castas mais altas, implantou uma moral sexual na Índia que a torna um dos países mais preconceituosos do mundo em relação à sexualidade até hoje, e nada fez pelo povo que explorou tanto. É tentador e fácil classificar como horrível a cultura de um país que está a meio mundo de distância, mas se pensarmos bem, no Brasil há pessoas vivendo em lixões, convivendo com todo tipo de podridão, tão maltratadas comos os dalits indianos. Não pensem vocês que o governo da Índia nada faz contra as práticas pouco higiênicas e a superstição: a Índia é o único país do mundo que tem um ministério do combate à superstição. Eles fazem campanhas frequentes para conclamar a população a aderir a hábitos que contrariam as superstições usando atores idolatrados de Bollywood como shah Ruk Khan e Amithab Bachachan, há no momento em curso uma campanha monumental destinada a acabar com o hábito de defecar em público, entre outras campanhas, como a de combate ao casamento de muitos homens com uma mulher e do combate aos estupros. A Índia é um país soberano que luta contra muitas mazelas sociais, e nosso olhar sobre eles não pode e nem deve ser carregado de superioridade preconceituosa, mas de compreensão, até porque um povo que já foi conivente com farras do boi, rodeios e toda prostituição infantil que sabemos que existe no Brasil não tem assim tanta moral para se achar superior. Entendo o ponto de vista de achar que há um grande atraso nesses hábitos, mas é um erro achar que isso simplesmente não irá mudar.

        • perfeito!! por mais que consideremos algo repugnante, atrasado e etc, nao é da nossa perspectiva que vamos impor ou dizer que é certo ou errado.. entao sempre vamos estar em uma balanca que vai pender de um lado e do outro, enxergamos de um lado e somos enxergados do outro.. a unica coisa q resta é observar e tentar manter o equilibrio..

    • Mariane, a frase ficou incompleta: “A cultura desse povo é algo surpreendentemente… nojenta e condenável!!!” Ou você também acha que “p?atica cultural” pode justificar toda e qualquer atrocidade???

      • John Doe Achei surpreendente no sentido de ser curioso, espantoso, bizarro. Nada mais. Sobre questão religiosa prefiro não opinar muito. Só acho que a cultura desse povo é algo incompreensível para nós, mas p/ eles é algo absolutamente normal. Lógico que não concordo e nem acho certo o modo de vida que eles levam, mas é isso. Espero ter esclarecido meu comentário “incompleto”.

  3. Pra mim isso é apenas loucura de fanatismo religioso e muita “imundice” desse povo. Todos são queimados em vão e muitos contraem doenças horríveis por acreditarem numa em coisas sem fundamento. Enfim.

  4. Novamente, parabéns pelo post. Dá gosto demais de ler.

    Eu iria entrar na questão que alguns aspectos culturais podem e devem ser questionados, mas deixa pra la. Não acrescentaria nada ao post.

  5. Caramba, tô ficando fã do site, desde que li sobre o Everest… Impressionante! Já tinha lido ou visto alguma coisa na TV, mas nunca com tantos detalhes…

  6. Li em algum lugar que o rio é tão mal-cuidado pq os indianos acreditam que ele, e a cidade inteira, já superaram o material. Por isso, tanto faz quanto fez como ele está. As águas dele já transcenderam a matéria, o que está lá é resto. Por isso o aparente “descuido”.

    Talvez se eles acreditassem que a cidade e o rio deveriam refletir a transcendência deles, talvez ele fosse o rio mais limpo do mundo.

    Tudo uma questão de perspectiva…

  7. Meus parabens Philipe.
    Desde quando um amigo apresentou um post de seu site, não parei mais de ler os outros posts. Um melhor que o outro.

    Realmente tem muita coisa louca nesse mundão que é muito estranho para nós, mas que para aqueles que vivem lá é apenas normal, isso se chama Cultura.

  8. Para nos que somos outra cultura é macabro , mas para eles isso faz parte da sua cultura, seria a mesma coisa eles virem aqui e ver as pessoas sendo enterradas.

  9. Philipe, isso parece estranha para aqueles que veem o mundo através do seu lugar, mas para aqueles que assim como você enxerga os mundos, as particularidades culturais através da realidade daqueles que o criam, tudo se torna muito importante para composição e entendimento da complexidade humana. Parabéns!!!

  10. Mais um arregaço de post. O conteúdo dele em si é lindo, mas sua maior contribuição para os seus leitores é jogar na cara das pessoas que o Universo/humanidade é bem maior e mais diverso(a) do que aquele(a) que existe no conforto de suas casas. Parabéns, de novo.

  11. Philipe, acompanho teu blog já há um bom tempo, e hoje só passei aqui para dizer que teus posts estão um melhor do que o outro! Cara, imagino o trabalho que dá (pesquisa, redação, coleta de imagens…). Realmente, meus parabéns!! Grande abraço!

  12. Parabens post muito bom! esse documentário é demais tbm.

    Acho magnifico que o povo da india consiga entender e levar a morte como algo tão natural. Só existe uma certeza, que todos nós vamos morrer um dia.

    Isso para mim é uma cultura muita avançada. Mas por outro lado eles são bem menos avançados em várias outras coisas.

    Abraço,
    Glauber

  13. Velho, baita artigo, comecei a ler o blog no artigo daquela rádio bizarra na Rússia, tenho descendência russa, e tudo que vem de lá me chama atenção, enfim, cultura e religião muito diferente da nossa, porém, não deixa de ser bizarro e nojento, mas devemos nos atentar ao fato de que a civilização oriental, seja na Europa, Oriente e Oriente Médio, é uma civilização muito antiga, tem uma cultura muito antiga, algo que aqui, ainda não conseguimos criar, essa cidade por exemplo tem mais de 4.000 anos, já nosso País pouco mais de 500 anos…

  14. Parabéns pela pesquisa e pelo material que você nos apresentou. O Mundo Gump é, para mim, referência cultural. Um oásis nesta árida internet…

    Abraços e muito obrigado por compartilhar seu conhecimento com a gente!

    Fábio.

  15. Bom! pra mim é surpreendente tudo isso que acabo de ver aqui em seu blog, já havia assistido algo semelhante assim em um canal de TV, mas, assim com tanta clareza e riqueza de detalhes, nunca!
    respeito a cultura de cada um, mas isso para mim é estarrecedor, estou com o estomago embrulhado.
    mas você está de parabéns, seu blog é fantástico. adorei, bjs!!!

  16. Sabe qual a parte mais legal de vivermos em um mundo tão diversificado? É acompanhar a cultura e costume de cada povo, observar cada detalhe que pode parecer “estranho” ou “perturbador” a primeira vista, mas que depois de se conhecer torna-se algo bonito, não necessariamente algo agradável aos olhos, mas sim belo pelo modo como somos diferentes.

  17. Olá… estou adorando o blog!!! Venho te dar uma dica de matéria que eu não vi no site (e eu acho que olhei todos os posts kkk): tem uma floresta no japão para suicidas, agora eu não me recordo do nome…. pensa com carinho na minha sugestão!!! Parabéns pelo blog!!!

  18. Gostei muito de conhecer verdadeiramente a realidade dessa cidade. Que foi muito bem mostrada!
    Uma cultura que foje da nossa realidade, como outras que ainda exitem por ai. É incrivel saber que não somos tão ‘estranhos’ como imaginamos. E de fato a muito tempo a forma de viver dessa cidade é desse geito.
    Então por mais fortes e impaquitante que seja para nos, temos que respeitalos.

  19. Minha mãe esteve na Índia e ficou chocada com as coisas que viu. Mas o que mais a impressionou foi o tratamento com os dalits. Eles realmente são considerados impuros e são mal tratados. No lugar onde ela ficou hospedada, um instituto, o pessoal da limpeza é todo composto por dalits. Ela lembra de ver, chocada, um senhor bem idoso (todos eles são proibidos de olhar para membros de castas superiores e para estrangeiros) que estava mijado. Ele fez xixi nas calças, mas era obrigado a trabalhar. Como lá não tem vassouras, eles fazem uns ramos com palha e se agacham para limpar o chão.

    Nas portas dos cientistas – todos de castas altíssimas – sempre fica um dalit sentado num banquinho, pronto para servi-lo. Os indianos das castas altas me disseram que o ‘mal’ da Índia é o povo muçulmano. É nítido o asco que eles têm pelos muçulmanos. Eles alegam que os muçulmanos são os culpados pela situação da população de mais de 1 bilhão de habitantes para um território três vezes menor que o Brasil.

    Nas ruas, o trânsito pára para as vacas passarem, mas elas não são bem tratadinhas como a novela Caminho das Índias mostrou. Elas em geral estão magras e sujas, vagando pela cidade, comendo restos. O mesmo para os outros animais. Eles não matam, mas não cuidam.

    Minha mãe chegou a ver um cachorro morto e um dalit, também morto, embaixo de uma ponte da cidade de Lucknow (no norte da Índia). O cachorro estava cheio de flores, rodeado por gente orando. O corpo do dalit continuava no lixo. A mendicância das castas inferiores é muito alta. São idosas, viúvas, crianças. As indianas dizem que a qualidade do sari, a roupa tradicional feminina, é a indicadora do nível social da mulher. Quanto mais puído, mais pobre. E não pode mostrar os pés, é ‘feio’. Então, uma mulher com o sari mostrando os pés é considerada umas das mais miseráveis da sociedade.

    Foi engraçado quando os pesquisadores indianos estiveram em São Paulo. Eles se surpreenderam com o silêncio do trânsito e com a falta de vacas nas ruas. O trânsito na Índia é todo na base da buzina. Os carros em geral são muito velhos e portanto o barulho é ensurdecedor. Aqui, eles acharam “muito tranquilo” e ordenado. Ficaram espantados de ver os faróis e as faixas de pedestres e como o povo obedece à sinalização. Também acharam estranho ver “tão pouca gente” pelas ruas. Claro, num país com mais de 1 bilhão, nosso Brasil é praticamente desabitado.

    Foi bem chocante ouvir alguns comentários dos indianos. E a cultura deles pode ser chocante para os nossos valores, mas nunca devemos usar os nossos valores para julgar uma cultura. Para eles, nós também temos hábitos bem condenáveis.

    Abraço! Ótimo post!

  20. Essa história de cultura somente esconde a manipulação pelas elites desse exercito de miseráveis que por nada terem neste mundo acreditam que o próximo ou a próxima reencarnação será melhor e o estado ajuda manter esse status quo, imundo, nojento e repugnante essa manipulação não tem nada haver com cultura e sim com manutenção do poder das castas mais altas. Se a queima de corpos fosse meramente cultural o governo já teria instalado crematório, públicos com o mínimo de higiene, se o rio fosse mesmo sagrado o governo já teria despoluído, se houvesse respeito pelos mortos não se permitiria que boiasem livremente pelo rio. Admirar costumes que atentam contra o bem estar das pessoas contra sua saúde é uma atitude no mínimo cretina de dizer que aquilo é exótico,bonito de se ver e que deve continuar.
    Acho que determinados costumes devem ser abolidos e não se coloca na pecha da cultura e achar que são belos porque são diferentes, lá também se estupra como punição, se empala pessoa vivas como aplicação penal, isso é cultura? É só diferente e por isso belo? Eu prefiro o ocidente com todas as mazelas que ele tem!
    Parabéns pela reportagem muito boa.

  21. Eu tenho NOJO de indiano. Pode me chamar de preconceituoso, ignorante, racista, pode me chamar de tudo, que vou ter orgulho de ser chamado disso, enquanto estivermos falando desse povo. Meu Deus ><

  22. Estou em choque com esse post. Realmente, há de tudo nesse mundo. Cada um com seus costumes, mas vejo que só temos muito o que agradecer. Muito bom o post, parabéns !

  23. Sou uma apaixonada por culturas e sempre tive muito interesse em conhecer mais a fundo a cultura indiana, chocante.
    Parabéns pela matéria, primeira vez que eu passo por aqui, já salvei nos favoritos!

  24. Matéria bem escrita e ótimo vídeo no final. Minha curiosidade com relação a Índia e sua cultura aumentaram muito. É estranho pensar que essas pessoas convivem diariamente com a vida e a morte, e chega a ser magnífico ver o jeito que pensam sobre o ciclo da vida. Interessantíssima matéria, embora algumas fotos tenham embrulhado o meu estômago!! Parabéns pelo ótimo trabalho 🙂

  25. Artigo excelente que encara outra religião e costume diferentes dos nossos, apesar das fotos poderem ser algo constrangedoras a Índia é assim mesmo, impactante! Parabens

  26. Adorei o comentário da Sybylla. E o gilmar, matou à pau. Disse exatamente aquilo que muita gente gostaria de dizer, e o Joe Lambert também.
    PHILLIPE, mais um exelente, post, para revelar os dois lados da moeda e fazer o povo “pensar fora da caixa”| EXELENTE!

  27. Parabéns pelo excelente artigo e pelas ótimas fotos. Já estive na Índia mas não fui à Varanasi.
    Que tal um artigo semelhante em Mumbai, na favela Dharavi?
    Não é tão chocante quanto as fotos publicadas aqui, mas vale a pena visitar.
    Abraço

  28. Post Sensacional. Muitas informações mas de forma sintética sem enrolação e divertido.
    Conheci um Indiano e comecei a imaginar ele se banhando neste rio… Fiquei com um nojinho agora… rsss

  29. Paulo Fernandes esse reporter Arthur Veríssimo já foi e documentou, no filme aparece as coisas mais bizarras que vc possa imagina,r imagina só um festival na India onde as estrelas são os Gurus que ficam confinados 12 anos que só saem para esses festivais…

  30. Renato Correia então, to vendo agora uns vídeos… muito estranho esse povo… sei que é só uma cultura diferente, mas é muito divergente do que a gente ta acostumado

  31. Philipe, você está de parabéns pelo documentário. Cadê as ONGs, a ONU. pois não consigo acreditar que com toda evolução da humanidade, tecnologia e tudo mais, lá não vai ser atingido e mudar ao menos as questões de higiene e saúde pública… será????
    Estou muito triste pois ao meu ver, este povo se quer possui o conhecimento da existência de Deus!

  32. Achei que já tinha visto todo, ao mesmo tempo que é um horror é também fascinantes ,curioso e porque não misterioso modo de viver aceitar tudo isso, pra nós acidentais é fim da sobrevivência, tudo muito louco!!!

  33. Em 2500 a.c.já havia uma grande civilização as margens do rio Indu,onde hoje é o Paquistão.Havia cidades com milhares de habitantes planejadas ,casas de barro cozido,canais de esgoto e fornecimento de água.Por volta de 1500 a.c. os arianos vieram da Asia para a Índia . Por volta de 1000 a.c. esse povo nômade, de pele clara ,criador de bovinos e que dominava a metalurgia do ferro, já ocupava a planície fértil do rio Ganges. Os arianos não se uniram a num grande reino ,mas influenciaram todos os povos da Índia. Até hoje ,muitas línguas faladas na Índia derivam do sânscrito-ariano.Nessa língua foram escritos os Vedas, que contam as” lendas”e histórias dos conquistadores arianos. A religião hinduísta é também de origem ariana. Até o século XX a sociedade indiana foi dividida em grupos sociais regidos chamados de CASTAS,e que têm origem na dominação ariana. As castas são determinadas pelo nascimento . O sistema hinduísta justifica na religiosidade essas divisões ! É um povo que acredita em lendas , histórias e continuam sendo escravos dessas lendas! Possuem uma cultura que chegou pela dos fundos , e mudou seu pais.

  34. As castas são determinadas pelo nascimento . O sistema hinduísta justifica na religiosidade essas divisões ! É um povo que acredita em lendas , histórias e continuam sendo escravos dessas lendas! Possuem uma cultura que chegou pela dos fundos , e mudou seu pais.

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