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Olhei na cara da morte – DOIS

Entre o “Olhei na cara da morte 1 e o 2″ houveram umas vinte vezes que não foram tão arriscadas, como por exemplo a vez que meu primo Klaucinho resolveu me ensinar a andar de bicicleta sem rodinhas.
Nessa época a gente morava num bairro novo, que tinha uns morros enoooormes altos pra dedéu. Sobe o Klaucinho com a bicicleta uma grimpa de mais de 40 metros de altura. ME coloca na bicicleta. Então me dá um empurrão em direção ao abismo:

- Pedala! Segura firme o guidão e pedala! - Gritou ele e foi a última coisa que eu ouvi antes do rugido ensurdecedor do vento e a sensação de entrar na velocidade da luz me deixar fora do ar.
Mas funcionou. Cheguei lá em baixo andando sem rodinhas. Só que eu não sabia fazer curva.

Mas a segunda vez OFICIAL que eu olhei na cara da morte foi quando em Três Rios a molecada da rua resolveu brincar de pique-esconde.
Como eu era um molecote de nove anos bem desenvolvido e com habilidades inquestionáveis para fazer merda, resolvi que me esconderia num lugar onde JAMAIS pudesse ser encontrado.
Então vai o mestre do pique-esconde correndo na direção de uma carreta scania, carregada com uma lona enorme atrás. Você imagina que eu me escondi sob a lona do caminhão?
E o caminhão saiu me levando para um passeio mágico e cheio de aventuras? Não.

Eu resolvi – olha a genialidade imbecil! - Entrar SOB o caminhão, me esgueirar pelos ferros do motor. Ficar em baixo do capô da scania!
Então eu ouvia na rua o clássico “um dois três alve eu!” e mais outro, e outro. Até que só sobrou eu. O meu amigo da rua, o Claudinho, procurou em todos os lugares clássicos e nem sinal do Philipe.

Corta para um homem que vem andando. Ele acende um cigarro. Mete a mão no bolso. Aparece o brilho de uma chave contra a fraca luz do poste.
O homem mete a chave na porta da scânia e entra.

Corta pra mim ali em baixo, na escuridão do motor. Um cheiro de borracha insuportável. Tudo onde eu me encostava soltava uma poeira pegajosa. Então houve um silêncio. Eu tentava imaginar onde estaria o Claudinho, neto da dona Nise, que devia estar me procurando… E comecei a me sentir O FODA, pois de fato eu era o mestre do esconderijo… Ninguém seria páreo para… UM RUÍDO ENSURDECEDOR
Imagine o maior barulho que você puder. Multiplique por vinte, depois acrescente fumaça, coisas se mexendo no escuro, fagulhas brilhando na escuridão e ferros batendo. Era o que aconteceu.
Eu só me lembro de me esgueirar de volta como uma bala, O caminhão começou a andar. E algo muito forte atingiu minha cabeça, mas não me impediu de dar um salto suicida bemno meio das duas rodas que ficavam entre o cavalinho mecânico e o semi-reboque.
Cai no chão da calçada da dona Nise e ao meter a mão na cabeça ela empapou de sangue. Aí eu vi que a coisa tava preta. Como contar para minha vó? - Atente leitor, para o fato de que eu imbecil/inocentemente nem sequer questionei o fato de que poderia ter morrido esmagado como um inseto no interior daquela máquina enorme.

Contei da melhor maneira. A melhor maneira é sempre a mais dramática: Entrei correndo. Ainda ouvi o Claudinho gritar “…um dois três Philipe!” na árvore. Entro na sala e todo mundo vendo jornal nacional.

- Vó! – Falei mostrando as mãos embanhadas em sangue preto.
- AIMEUDEUSDOCÉU! – HUGO, CORRE AQUI! – berrou ela imediatamente. E começa todo aquele procedimento: lava com água e sal, tem que costurar, leva pro hospital, não leva, quem leva, dá pra fechar sozinho, bronca, mais bronca, bronca do meu vô, bronca do vizinho, não pode dormir…

Sei que a cabeça doeu pra dedéu, mas não fui levar ponto. Eu tava com trauma de levar ponto desde que passei pela aventura do “Homem pássaro” (algum outro dia eu conto) onde adquiri o mais absoluto trauma de hospital + clínica + levar ponto + médico e remédio da minha vida.

Olhei na cara da morte – UM

Eu devia ter uns três aninhos. Morava nessa época em Juiz de Fora. Eu não me lembro da história, só sei o que minha mãe conta. E é mais ou menos assim:

Ela tinha saído e me deixou com a babá “tomando conta”. Era dia de faxina. Quando minha mãe chegou da rua, algum tempo depois, viu a babá vendo televisão.

- Cadê o Philipe – Perguntou minha mãe.
- Tá aí pra dentro… – Disse a babá, meio desatenta, levantando pra me procurar.

Nada. Não havia nenhum sinal meu na casa. Apenas o silêncio. Os brinquedos arrumados. Tudo direitinho. Minha mãe entrou em pânico.

A empregada falou que eu estava do lado dela, e então sumi. Minha mãe chamou meu pai e taca os dois a me procurar. Primeiro na casa toda, depois no corredor, casa dos vizinhos, lixeira do andar, elevadores, térreo, garagem, rua…

Eu havia literalmente desaparecido no ar.

Minha mãe estava desesperada com meu pai na cozinha imaginando que alguém tivesse entrado sorrateiramente no apartamento e me levado embora.
Ela olha pro meu pai:
- Eduardo o que vamos fazer?

Então naquele momento de silêncio que antecede o choro desesperado, a minha mãe conta que ouviu uma vozinha fraquííííínha… Quase sumindo:

- Mãããããããããããããa…..* Socooooooooooo*…

- Escuta – Ela disse pro meu pai. – É ele! É ele! – Ao invés do fato de ouvir a minha voz reduzir o desespero, o efeito foi ao contrário. Ela ficou mais nervosa pois se a voz saía fraquinha assim eu devia estar em algum lugar muito perigoso.

Corta e entra flashback:

A empregada vendo novelinha da tarde, provavelmente “marrom glacê” na GLobo, quando eu me levanto e saio meio cambaleante carregando algum brinquedinho. Vou na direção da cozinha… A câmera fica.

Corta e volta para minha mãe. Uma cena igual a de Poltergeist:

- Philipe? – Ela grita olhando para o teto. E continua: – Tá ouvindo a mamãe Philipe?
Passa-se um tempo. Apenas o silêncio. MInha mãe e meu pai se entreolham.

- Mããããããã… Tá escuro aqui….* – A voz fraquíssima, como um rádio fora do ar, sumindo.
- Onde você está meu filho? – Meu pai pergunta, andando sem saber onde olhar. De um lado para o outro na cozinha, abrindo gaveta, armário. Olhando em baixo da mesa… Minha mãe interrompe:
- Philipe, grita pra mamãe!
- Mãããe… Eu tô com medo.
Então a porta da geladeira se abre como uma explosão fantasmagórica, e eu sou vomitado tal qual um pinto molhado para o meio da cozinha. Caio estatelado lá.
Close na cara de espanto-alívio-desespero-e-medo dos meus pais.

Flashback:

Eu entrando na cozinha carregando o brinquedo. OLho a geladeira, sem prateleira, descongelando… ( naquele tempo descongelava-se geladeira nos dias de faxina) Eu vou entrando e a porta se fecha atrás de mim. Tudo fica escuro. Começam a cair pingos terrívelmente gelados em cima de mim. Do lado de fora a empregada se diverete vendo a novela. O galã vai beijar a moça.

Foi a primeira vez que olhei a morte de frente. Minha mãe conta que saí de lá de dentro azul. Os dedos roxos. Eu fiquei fraco, e com três anos é uma força descomunal para abrir a porta da geladeira com aquele ímã de antigamente. A Consul vermelha quase virou um belo de um caixão vertical na cozinha.

O maníaco da brasília creme

Eu estava em Três Rios, uma cidade pequena do interior do estado do Rio. Sabe como é, a gente arruma namorada e dali a um tempo começa a necessidade de pegar o carro. Embora eu fizesse auto escola desde os dezesseis anos, dirigir mesmo, meeeesmo, só depois que eu casei. E a explicação para este fato reside justamente nessa história que vou contar agora:

Sou o sobrevivente de uma perseguição sanguinária que começou assim: Eu resolvi sair com a minha namoradinha na época e peguei o Monza do meu pai emprestado. Bom, eu não sabia dirigir direito, tava aprendendo. Na verdade, nem muita vontade de dirigir eu tinha. Era mais necessidade, pois você começa a sair com a namorada, quer voltar tarde da noite e fica perigoso. Tá, vamos parar com a hipocrisia. Eu queria é dar uns amassos mais profissionais e não dava pra dar na rua.

Motel tava fora de cogitação. Por que? Outro dia, em mais um caso gump eu conto essa.

Então eu peguei o carro e nós saímos. Eu todo garotão, no carrão do meu pai. Passei na casa dela e fomos passear. Tá, tá… Não fomos passear nada. Fomos direto para a beira-rio dar um amasso. A tal da beira-rio era uma espécie de praia lá de Três Rios, uma cidade sem praia. Assim, o prefeito mandou fazer um calçadão em volta das margens do rio que corta a cidade. Um bom lugar para os namorados ficarem. Não era o motel das estrelas, que fica no mirante, mas chegar até lá envolvia uma certa logística no relacionamento, pois ficaria claro que eu queria passar o rodo, e a coisa tinha que ser mais devagar, ou ao menos, mais etílica.

O segundo motivo que que me fazia não ir até o motel… Aliás, mirante de Três Rios, é que tinha uma rampa desgraçada de subida, quase vertical, e eu não sabia fazer ladeira direito. Imagina só o carro descendo despinguelado de ré aquela pirambeira com a mulher gritando na minha orelha… Ia ser trágico.

Ficamos ali na beira-rio, que era fácil de ir, pois é só ir reto em quase qualquer rua da cidade que você cai lá. Fácil pra quem tá aprendendo a dirigir e não tem as manhas ainda. Ficamos um pouco, tomamos uns refris, comemos uns hamburgueres, demos muitos amassos e tava na hora de levar ela em casa.
Então eu arrumei os óculos, sentei no banco do carro, arrumei o retrovisor, (cheio de técnica, parecia até o Schumacker) e saímos em direção à casa dela.
Foi tudo bem, eu estava mesmo dirigindo bem pra dedéu. Todo confiante.

Deixei a J* em casa e comecei a voltar pra casa. Na volta, resolvi esticar o percurso para dar uma treinadinha a mais. Assim, passei pela rodoviária velha e ao fazer uma curva, percebi que quase joguei uma brasília creme que vinha me ultrapassando num poste. Aquela fechadinha mané, que dá uma raiva do caralho. O mané vai abrindo, abrindo, abrindo na curva e atravessa as pistas sem olhar os carros em volta. O cara socou o “mãozão” na buzina e eu nem esquentei. Daí comecei a ver que o cara acendeu o farol alto atrás de mim.
Comecei a me preocupar quando, pelo retrovisor, vi o cara colocar uma coisa preta para fora da janela. Julguei que era um revólver, mas certeza eu tive mesmo quando aquela merda disparou. Téc! Era 38.
Egraçado como o barulho do 38 é estalado. Parece uma bombinha de São João.
Eu soquei o pé no acelerador e a brasília sinistra atrás. Ela era creeme, com vidro fumê. Parecia ter algum adesivo no vidro mas não lembro direito por motivos óbvios.
Então era eu, me cagando todo num Monza velho e uma brasília creme fumê com um maníaco assassino portando um trabuco para fora do carro atrás de mim.

Eu comecei a fugir com o carro e o maluco no vácuo. Subi na esquina da minha avó e virei em direção à linha do trem. A porra da brasília assassina atrás. Na cola. Eu tentava dar uns golpes de volante pra ele não fazer mira. Não sei se dava certo, mas ele só atirou para cima.
Peguei em direção à cidade de Paraíba do Sul. O cara atrás. Eu pisava o máximo que dava no Monza e quando cheguei na estrada, com o * na mão, duplamente, um por estar numa estrada de noite, sem carteira, sem saber dirigir direito, outro pelo maníaco querendo me matar.
Mas na estrada, meti o pé e joguei a quinta pela primeira vez na vida. Eu sabia que fusca não tem quinta, e como fusca e brasília são carros da mesma família, ela também não devia ter.
E não tinha. Por isso, ficou para trás. Eu dei uma boa distância e quando achei que já tava bem longe dela, depois de uma curvona, joguei o carro numa mínuscula entrada no meio do mato e árvores que havia de acesso a umas casinhas da beira da estrada. Desliguei o carro e apaguei os faróis. Fiquei esperando. Com medo.
O coração parece que ia sair pela boca.

Então uns dez segundos depois, a brasília passou igual a uma bala na estrada bem atrás de mim. Passou voada.
O cara queria mesmo me matar. Dei um tempo ali no mato. O silêncio da noite preencheu o espaço e ouvi os grilos. A noite estava bonita e escura.
Tornei a ligar o carro e voltei voado para a casa da minha vó. Depois disso não dirigi de novo até conhecer a Nivea.

Perrengue, né?

O oitavo passageiro.

a1burster2 O oitavo passageiro.

A Nivea tinha ido trabalhar em Itaperuna. Era uma merda quando isso acontecia. E acontecia eventualmente, quando ela tinha que dar aulas na pós graduação. O costume de dormir junto é um troço impressionante. Aliás, um dos motivos pelo qual casei (talvez a Nivea venha a saber isso lendo aqui). Foi um dia que eu dormi do lado dela. Imediatamente aquele treco fez um certo sentido na minha vida. Não é muito simples de explicar. Tipo assim, o dia que meu cachorrinho, que só comia ração comeu um bom pedação de carne mal passada de um churrasco. Deu pra ver na cara dele: PLIM! ele havia descoberto o motivo do universo. O sentido da vida.
Parte dessa emoção senti quando dormi (Embora eu também adore, não estou dizendo sexo. Estou dizendo SONO) com a Nivea, coisa que não havia acontecido até então com nenhuma namorada.
Mas vamos pular essa lenga-lenga, que a história urge:

A Nivea tinha ido trabalhar em Itaperuna, uma cidade que é um forno industrial de quente e eu fiquei em casa. Com o tal do costume, sem a NIvea, eu fiquei fritando na cama de um lado para outro pela madrugada à dentro. Nada de conseguir dormir. Em parte porque não dava, em parte porque eu secara uma garrafa de 2,5l de Coca-COla e tava ligadão.
Então vi o intercine, o segundo filme, o corujão. Aí resolvi forçar a barra. Desliguei a Tv e fiquei ali parado. Olhando para o teto. Fiquei ali paradão. Esperando o sono chegar. A escuridão do quarto. O teto… Eu tentei manter a cabeça vazia, sem pensar. Só quem tentou sabe como é difícil fazer isso.
Entre um cochilo e outro, o sono flutuando, fraco, eu acordava. Paradão. Ali com os olhos fechados. Acordava mas não dava o braço à torcer. Ficava como se tivesse dormindo. Meio que fingindo pra mim mesmo.

Aí aconteceu.

Eu senti uma coisa andando dentro de mim. Uma coisa estranha. Parecia uma cobra. Eu continuei parado. O silêncio da noite à minha volta, eu senti aquilo e de repente, parou.
Imaginei se não tinha dado uma sonhadinha rápida, realista o suficiente pra acreditar que era real. Nem abri os olhos. Mas fiquei alerta.
Dali um teeempão que pareceu não mais acabar, senti novamente e era uma sensação legítima. Não era sonho porra nenhuma. Era uma coisa de verdade dentro de mim!

Caralho, meu. Tinha uma coisa viva dentro de mim!

Ou eu tava grávido ou era o alien! Tinha que ser uma lombriga.

Olha a cena: Eu ali, na cama. Quatro e cacetada da madruga. Um cachorro latiu ao longe. Eu suando frio, na mesma posição de cadáver, horas sentindo nada menos que alguma coisa andando no meu intesino.

É lombriga. Caralho, é lombriga, pensei eu. Em pânico. A coisa era assim, mexia rapidinho e parava… parecia inteligente. Queria passar desapercebida. Qualquer respirada mais forte que eu dava ela parava e ficava ali… paradinha. Dali a uns quarenta minutos, mexia mais um pouquinho. Puts, dá nervoso só de lembrar. Minha nuca acaba de arrepiar. Amaldiçoei com todas as minhas forças todas as comidas de rua que eu havia comido sôfregamente até então. Exorcizei todos aqueles deliciosos churrasquinhs de gato, podrões, as linguiças xexelentas, os italianos gordurentos, as coxinhas adormecidas de rodoviária…

Não dormi mais. Amanheceu e eu ali. Estático. Com cagaço.
O troço parou de se mexer às cinco e meia da manhã. Nem parecia que eu havia passado tamanho aperto durante a noite. Aliás, a sensação de “não está acontecendo nada” era tão forte que me questionei se de fato aquela noite aconteceu. Seria uma alucinação por overdose de coca-cola? Eu havia assistido dias antes o filme Alien, o Oitavo passageiro… Algum tipo de reação ao estresse pós traumático desencadeada pela falta da minha mulher?

O cecete! Racionalização barata! Devia ser minhoca mesmo! Corri até a farmácia. (A Nivea tem uma coleção monstruosa de remédio que daria pra abrir uma filial da Farmais aqui em casa.) e peguei todos os remédios anti-oxiúros que eu vi pela frente.

Oxiúros são umas minhoquinhas brancas que habitam o cú de criança. Penei com esas merdinhas já, porque eu chupei dedo até os treze anos. Criança que chupa dedo está permanentemente no grupo de risco da minhoquinha branquinha do cú. Juntei os quatro comprimidos diferentes e mandei pra dentro com um copo d´água. Era a minha vingança contra meu hospedeiro maldito.

Mas o tempo foi passando e comecei a me perguntar o que poderia ser aquilo que eu senti. Entrei na internet e fui procurar: Verminoses

Foi a maior cagada. Não devia ter feito isso.
Se a mera sensação de ter alguma coisa dentro de você já bastaria pra deixar branco qualquer cara normal, ver a cara daquelas merdas ampliadas mil vezes num microscópio é uma das piores sensações que pode existir. A cada bicho mais horrendo que o outro eu me certificava que só poderia ser aquele monstro que havia dentro de mim.

O problema com este tipo de pesquisa na internet, é que sempre que uma verminose causa interesse médico ao ponto de ser publicada na internet é porque é um caso bizarro, com criaturas saídas da mente mórbida de algum Stephen KIng!
Aí que eu me caguei de medo mesmo. Tinha umas minhocas gigantes, outras microscópicas mas em grande número. Eu achei um site que descrevia com detalhes mórbidos cada um dos tipos de verminose humana, e no final com requintes de crueldade descrevia uma convulsão de vermes.

Foi o que bastou pra eu ficar pálido. Será que o que eu tava sentindo era uma massaroca de vermes subindo pelo meu intestino a ponto de sair por cima? Já me imaginei vomitando milhares de minhocas, aquele miojo branco saindo das narinas, se mexendo…

Tomei a decisão. Fui até a despensa e peguei um copinho de geléia de mocotó, preparei meio copinho de Baygon!
Estava a ponto de tomar o drink da morte. Cheirei pra ver como seria e o cheiro nauseabundo do baygon queimou minhas narinas por dentro. “Baygon mata-tudo” – lembrei do slogan. Desisti.

“Tudo” poderia me incluir.

Minutos depois eu liguei pra Nivea.

- Oi amor.
- Oi. Mô…
- Fala.
- Tem um troço aqui dentro de mim.
- O QUÊ???
- É, eu senti de madrugada. Uma coisa viva. parecia uma cobra. Andou dentro de mim
- Que isso?
- Verdade. Tomei os remédios de verminose. Mas eu acho que vou tomar um copo de Baygon!
- Que isso! Tá maluco!!! Não faz isso não! – Ela gritando.
- Tá. Mas eu vou fazer o quê? Tem uma coisa dentro de mim, porra!
- Liga pra sua tia. Eu tô voltando já.

Liguei pra minha tia Solange, que é médica. Acho que no dia seguinte. Não lembro bem. Ela não acreditou na minha história à princípio.
- MEu filho, pra você ter sentido deve ter sido gases.
- Não, tia! Eu tenho certeza que era vivo!
- Olha, pra você sentir, se é que é alguma coisa mesmo, deve ser muito grande! (risos)
- É… – Eu ri aquele riso amarelo tipo “Tô fudido!”
No dia seguinte, de posse do pedido que ela me passou fui fazer o exame de fezes. Dois tipos diferentes.
Dali a um dia, o resultado:

TÊNIA!

Cara, a parada era tão gigante que o laboratório precisou comunicar ao órgão de saúde da cidade o resultado. Não sei, deve ser o procedimento normal… Eu não tive coragem de ir pegar o exame, pedi a Nivea pra ir pegar pra mim. Quando ela voltou meio branca, cara de medo, eu vi que estava certo. Era uma sucuri intestinal!

Corremos na minha tia, que também ficou pasma. Se eu tinha sentido a tênia passear por dentro de mim, ela era gigante mesmo. No mínimo de seis metros! Minha tia ficou de pesquisar o melhor remédio. Dali a algumas horas ligou lá pra casa e me mandou tomar um remédio lá.
A Nivea ligou pra várias farmácias e não achava em nenhuma. Então achou eu uma e mandou comprar. Eu fiquei em casa, pensando naquela coisa viva querendo sair pela minha boca… Imagina só… Igual a mágico que vai puxando aquela fita da boca… A fita vai saindo, saindo, saindo e ele com cara de espanto. Me imaginei assim, arrancando em pânico um macarrão gigante e interminável.

Quando o remédio chegou finalmente, era caro. NUma caixinha azul havia apenas UM comprimido. Uma caixa enorme, uma bula que chegava a ter páginas. Cheio de merda o remédio. Mulher grávida não pode tomar pois ela pode ABSORVER o bebê.
Satisfeito, descobri que o remédio era um tipo de Baygon em cápsula. Um veneno que se criança tomar, morre. É o que precisava pra matar o monstro.

A bula dizia em letras garrafais que o bicho iria sofrer uma contratura e morreria. Dai o remédio iria desestruturar molecularmente o bicho e eu absorveria ele. Legal, né? Meu medo era o remédio fazer o bicho querer sair, por cima, ou pior, por baixo…

Almocei e tomei o comprimidão em seguida. Passou uns vinte minutos e nada de contratura. “deve ter morrido já” – pensei.
Foi quando a coisa tremeu.
Caí sentado no sofá. Os olhos esbugalhados de cagaço. A sensação que eu sentia era dez vezes mais forte que a da noite. O troço tremeu dentro de mim. A sensação é como ter um cocô tendo mal de parkinson no seu intestino. Fiquei branco, suei frio.
Aí parou. Tão subitamente quanto começou, a coisa parou e eu soube que havia me livrado daquele rebento de satã.

Passei noites senhando com aquele bicho maldito, mas aí era sonho mesmo. O medo daquilo continuar vivo. Mas morreu. E eu absorvi ele, hehehe. Bem feito. Engordei em dois meses seguintes, nada menos que seis kg.

Mas o pior não é isso. O pior é que nesse meio tempo, pode ter ido parar um embrião do monstro na minha corrente sanguínea, e se ele for parar no cérebro, pode NASCER LÁ DENTRO!* – o que pode provocar convulsões e até a morte!
Essa é a história do minhocão. Muita gente tem verme e não sabe. Quando sabe, tem vergonha e tenta esconder. Eu escancaro mesmo. Hoje estou livre do Harry (ela já tinha nome). Ainda bem que não precisei fazer um aborto.

* Um ano depois eu descobri que este tipo de doença do verme cerebral chama-se cisticercose e eu não tenho, porque a solitária que eu peguei é a de boi. Apenas a de porco causa cisticercos.

O dia em que eu roubei um cadáver

Hesitei em escrever este caso real e um clássico do GUMPER way of life, porque é crime. Posso ir pro xilindró ver o sol nascer quadrado e usar aliança de barbante, chamar um cara gordo e melequento de “Totonhinho” ou pior, marido hehe.

Na época eu tinha 15 anos e era um imbecil completo. Bem, um imbecil semi-completo, pois naquele tempo eu tinha a metade da minha idade atual. Eu estava em Cabo Frio pensando em agarrar alguma mulher (só pensando, pois naquele tempo eu era um zero à esquerda no quesito mulheres) quando meu primo Guilherme surgiu com a brilhante idéia de arrumarmos uma cabeça de caveira no cemitério para enfeitar o quarto -Guns n´Roses temático – dele.
Dito e feito, fomos ao cemitério de Cabo Frio e logo de cara meu primo achou um osso no chão.
Aquele treco, que na maioria das culturas humanas seria um mau presságio, pra nós soou como “Cabeça fácil. Pegue a sua aqui!”
Fomos entrando e vimos que o coveiro exumava algumas gavetas para esvaziar. Na maior cara de pau, 100% óleo de peroba do campo, eu pedi um crânio.
Tomei o maior esporro. Saímos vazado do cemitério. Mas o Guilherme conseguiu malocar no bolso um osso do dedo que ele achou no chão e um radio ( ou cúbito, não lembro) – um osso do braço.
Dali fomos para casa e sabe como é. Papo vai, papo vem, íamos no dia seguinte para Macaé. Tramamos um plano escalafobético para pegar um corpo inteiro, afinal, se uma cabeça enfeita, um corpo real, um cadáver pendurado na parede seria algo suuuper bacana.
E lá fomos nós, agora em Macaé. Primeiro aquela entrada tática de levantamento. Demos um passeio por todo o cemitério em busca de algum “brinde” como aqueles lá de Cabo Frio. Nada. Mas eu achei um túmulo lá que tinha um cadáver dentro. Tava todo arrebentado, com uns pedaços de pele ligando ainda os ossos. Parecia ter sido mal exumado e largaram lá. Eu vi que a tampa do crânio, a calvaria, estava cortada, o que indicava que o corpo havia sido necropsiado.
Naquele dia combinamos que iríamos invadir o cemitério e pegar os ossos.
De tarde, todo mundo foi dormir depois do almoço e fui eu e o Guilherme com uns sacos pretos. Entramos malocados no cemitério. Eu entrei no túmulo e peguei os ossos. Enchemos dois sacões com tudo que tinha lá.
Saímos sem que ninguém nos visse. Ao chegar na porta do cemitério, dou de cara com a minha mãe espumando de ódio dentro do carro.
O plano tinha ido pro saco. Alguém dedou. Aliás, o saco eu tive que ir lá no túmulo devolver e depois voltei até Niterói levando um esporro duplo de mais de 2h, porque minha mãe não queria dar bronca no meu primo e deu dobrado em mim pra ver se de tabela pegava nele.
Mas ninguém sabia, ele tava ainda com um fêmur dentro da calça. UM spouvenir do defunto. Tá com ele até hoje, eu acho.
Pior foi que eu tive vários pesadelos depois. Sempre iguais… Era eu num BNH vazio, de noite e uma coisa ia cambaleando no escuro atrás de mim gemendo – Me dá meu osssssssssssssooooo… – Puts, deu um calafrio agora só de lembrar. Eu acordava pingando. Aconteceu seguido umas seis vezes aí parou. Mais ou menos quando começaram os fenômenos paranormais no meu quarto. Mas isso é coisa para outro GUMP-POST
Alguns anos mais tarde, o Guilherme foi fazer medicina e hoje é médico. Eu continuo psicopat… quero dizer, designer.

———–Esta história pode não ser real———————
—Ou pode, mas é bom deixar a dúvida já que é crime, hehe ——

Brasil, país do futebol

Ano de copa é assim. Volta e meia, numa conversa surge o assunto. Quartas de final, escalações, copas passadas. O que cada um fazia na conquista da copa e tal.
Porra, eu ODEIO futebol. Assito apenas a copa do mundo, e ainda assim, só mesmo a finalíssima ou as últimas antes da final pra não vestir a carapuça de chato.
Pensando sobre isso, eu me lembrei do dia em que joguei bola pela primeira vez na vida. Meus pais nunca foram muito de gostar de futebol. Minha mãe não liga muito, meu pai liga muito pouco. Resultado, aprendi o futebol de criancinha, aquele que chutou é gol – bata a bola onde bater.
Naquele dia, que ficou marcado pra toda a eternidade na minha memória, como um registro indelével de minha inaptidão futebolística, eu acabava de chegar de um coleginho muito do legal onde era super paparicado pela “tia”.
Meus pais me colocaram num colégio Jesuíta que tinha toda aquela estrutura radical-católica-mussolinesca de cantar o hino nacional todo dia, só se dirigir ao professor quando solicitado e recolher-se a própria insignificância todos os dias, quando na imensidão opressora do colégio antigo, você se via só. Sem amigos.
Mas o pior de tudo era a educação física. Logo de cara era uma caminhada no meio de uma mata em direção a um campo que havia no morro atrás da escola.
Chegando lá, eu já botando o coração pela boca, o professor pega uma bola, mete o apito na boca e grita: – Vai! – prííííí…
Saí que nem um maluco e de cara peguei a bola.
Rapidamente tentei olhar para trás e ouvi o que pareceu uma centena de moleques gritando: – Passa pra mim, pra mim! – E eu não via absolutamente ninguém, apenas uma turba enfurecida de uns quarenta garotos, quase todos maiores que eu a correr pra cima de mim. O cagaço me fez correr mais rápido ainda e quando vi, estava cara a cara com o gol. Fechei o olho e meti o bico. Lembro que ainda virei e vi a multidão chegando. De soslaio notei que a bola entrou no ângulo, encobrindo o indefeso goleiro. GOL!
Voltei-me a correr para o abraço, pronto para ser saudado pelos amigos pelo gol de placa. É, eu estava feliz. Nascia ali mais um craque. Eu vim de braços abertos para encontrar meus companheiros, imitando o que via na Tv, naquelas propagandas do Pelé e do Tênis Kichute, quando um bico bem no meio do saco me trouxe para a realidade.
Kichute. Tinha sido gol contra.
Eu descobri ali para quê serviam aquelas porras de desenhos malucos em baixo do kichute. Era pra moer os bagos do infeliz que estivesse na frente.
Caí na hora querendo vomitar de dor e senti ainda duas pedaladas de deixar a família Grace com inveja nas minhas costas. Em um minuto eu estava sendo chutado por um bando de moleques filhos da puta. O professor correu no meio e me tirou daquela selvageria. Lembro que fui levantado feito um pedaço de carne de açougue. Todo fodido e ainda levei o maior esporro do professor. Ele me esculhambou dizendo que eu não sabia jogar futebol. – O que deveria ser uma ofensa grave para alguém de sete anos, onde todos da sua idade creditam sua masculinidade em seu potencial com a bola.
Pra mim, a regra era uma só: Pega a bola e chuta no gol. Todo gol é gol. Não sei porque o futebol até hoje não é assim. Seria BEM mais divertido. Se eu sou Brasil e chuto na rede mais próxima, é gol do Brasil, ué. Gol contra pra mim foi a novidade mais estapafúrdia e dolorida que poderia haver num jogo com duas traves.
Não mais joguei bola.

Aventuras Urbanas – O passageiro da agonia – combo com duas!

Textos
Eu acabei de escrever essa gumper-aventura aí em baixo e me lembrei de outra, ultra gumper!
Numa escala gumper de história escalafobética essa que eu vou contar leva dez estrelinhas piscantes, pois nem eu mesmo acredito que tenha acontecida. Mas o fato é que aconteceu.
O ano era 1994 e eu namorava a J*. Era uma namorada que eu arrumei em Três Rios, cidade de onde eu saí para morar em Niterói. Na época eu trabalhava perto da Central do Brasil e às sextas-feiras, saía ali daquela “fauna rica” e ia direto para a rodoviária.
Sabe como é namorar em outra cidade… Você começa a pegar o hábito e quando vê já tá “local” da rodoviária. Cumprimenta a servente, fala com o guardinha, chama o motorista pelo nome e o bilheteiro guarda sua passagem com a poltrona preferida por antecedência sem nem você pedir.

Então eu tava acostumado. Entrava no ônibus e já dormia antes mesmo dele sair da rodoviária. Só acordava lá em Três Rios, exatamente duas horas depois. É legal. É a sensação mais próxima que tive de uma abdução alienígena (efeito missing time) e de uma viagem interplanetária com animação suspensa.
Mas naquele dia, isso não aconteceu.

Eu até dormi, mas no meio da viagem acordei com uma puta falação atrás de mim. Toda hora as pessoas olhando pra minha direção. Eram duas mulheres que não pararam de matraquear a porra da viagem inteira. Falaram da novela, ( das sete, das oito, do especial da Globo…) de marido, uma deu conselho pra outra largar o marido que bebia. De doença, falaram da enxaqueca que uma delas tinha e das varizes da primeira. Falaram de tudo, meu. Até do preço do leite e de uma terceira mulher que fez estereoctomia. FAlaram também de filhos.
Era engraçado porque uma interrompia a outra toda hora. Frenéticas. Era uma conversa de comadre irritante que não tem como evitar não ficar ali, na frente delas ouvindo…
Quando o ônibus chegou, numa das mais demoradas viagens que eu já fiz até Três Rios, olhei para trás:
Para meu espanto, era uma só!
Só então que eu entendi que as pessoas olhavam espantadas presenciando o que se chama cisão total de personalidade – descrito por Isaías Paím em seu livro Curso de Psicopatologia – e o povão chama de dupla personalidade. Um fenômeno raríssimo.
Desci do ônibus e fui comentar o fato com o motorista.
- Cara, cê viu aquela mulher que ficou falando sozinha a viagem toda? Que doideira, meu!
- Pior não é isso. Pior é que ela pagou duas passagens. Dela e da outra – disse ele.

Surreal, né?

O outro caso de passageiro da agonia, se deu com meu avô. O vô Hugo. Não lembro exatamente quando foi, mas ele me contou uma certa vez, que numa viagem que ele fez de ônibus, sentou um velhinho ao lado dele. Era bem velhinho mesmo.
O velho dormiu na viagem e quando chegou no destino, não acordava. Meu vô tentou a todo custo acordar ele, até que percebeu, estupefacto, que viajara com um cadáver. O velho morreu no ônibus, do lado dele.

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