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Situações desagradáveis

seringacampanhadoadorri5 Situações desagradáveis

Volta e meia eu acabo passando por algumas situações bastante desagradáveis. Uma coisa que me deixa puto é ser desmentido. Sobretudo quando estou com a razão.

Isso aconteceu na segunda-feira, quando eu fui com a primeira dama ao médico. Ela tinha que fazer uma punção na tireóide e estava com medo. Aquela já era a quarta punção -inútil- que a médica dela mandava fazer.

Pra quem não está por dentro do que é isso, imagina deitar numa maca e um cara com aparência sádica pegar uma seringa com um agulhão maior que o indicador do Padre Quevedo e enfiar aquilo na sua garganta e ficar xuxando aquilo lá, para chupar um caldinho, enquanto outro pressiona um ultrassom no outro lado do seu pescoço. Anestesia? Hein?

Então, aquela era a quarta vez que a tia Nivea passava pelo suplício e eu junto. Desde meu episódio do Homem Pássaro que eu não suporto nem clínica, nem consultório nem hospital. Mas marido é pra essas coisas, então eu vou com ela, amarradão para ficar segurando na mão dela enquanto rola a agulhada.

Isso por si só já é uma situação desagradável. Imagine agora que a sala onde é feito o exame é do tamanho (sem exagero) de um elevador. E estão ali: Eu, a Nivea mais dois médicos e o aparelho trambolhão do ultrassom.

Isso é uma situação ainda mais desagradável. Na segunda chovia horrores e fomos nós. Ela com o tradicional medinho de sempre: Medinho da agulhada, da dor e do resultado da biópsia.

Chegamos lá, tava lotado. Não tinha onde sentar. Acabamos ficando em pé, bem abaixo da televisão. Aquilo era uma coisa altamente incômoda, pois imagina uma sala de espera cheia de velhos e todos olhando pra você. Ok, não era pra mim, mas sim para a novela do Vale a pena ver de Novo que estava a centímetros da minha testa. Porém, não havia outro lugar naquele cubículo.

Pra piorar, eu estava com um guarda-chuva do Paraguai, desses de camelô, todo prateado, tamanho família. Eu apelidei ele de “parágua”, porque este é o nome do objeto em espanhol e porque tem uma piadinha com a origem do objeto (embora eu saiba que este parágua vem do Paraguai através da conexão xingling).

O troço é tão vagabundo, que em menos de uma semana após ser adquirido na porta do Banco do Brasil, ele estragou e não trava quando fechado. Isso significa que andar com o parágua é ficar na eterna luta com um troço tamanho família que quer abrir o tempo todo.  Guarda-chuvas gigantes não são feitos para salas de espera tão apertadas que você escuta o pensamento do cara ao lado.

Vou me abster de contar os dois pequenos acidentes ocorridos com o “parágua” ali. Mas você pode imaginar. Um foi quando ele tentou abrir. O outro foi quando uma dona tropeçou naquela merda enquanto eu lia distraídamente uma Veja de 1985 que estava mais estuprada que atriz pornô.

Horas depois, quando finalmente a Nivea foi chamada, eu me levantei todo pimpão pra ir com ela. Cheguei a entrar na salinha minúscula, mas a assistente me colocou delicadamente para fora, berrando a plenos pulmões que não podia ficar ninguém na sala além da paciente.

-Mas já é a minha quarta vez! -Tentei argumentar, sem sucesso.

Regras são regras. Eu não ia poder ver o show.  Resignado, eu me virei e voltei para meu lugar na apertada sala de espera (a esta altura, eu já tinha lugar).

Nisso, uma dona que estava ali do lado vira pra mim:

-Te expulsaram de lá, foi?

-É… -Eu disse com aquela cara de “te conheço?” pra acabar o papo. Mas a dona estava nervosa, pois seria a próxima e desandou a falar uma ladaínha que não tinha fim! Queria me contar o problema dela. Eu não estava nem aí pra ela, mas ela era insistente. E tudo que eu queria era apenas desfrutar daquele corpinho chupado da revista Veja, ali no meu colo.

-É a primeira vez? -Perguntou ela.

-A quarta. -Disse eu.

-Cruzes, coitada. O que ela tem? É tão sério assim? Você sabe se dói? É minha primeira vez… -A dona era uma metralhadora de perguntas e eu estava meio puto por perder o dia todo naquele consultório apertado como um dois de paus pra depois ser expulso do cubículo. Então soltei o verbo:

-Dói pra caramba!

-Mas e o  exame, ele é ruim? -Perguntou a dona.

- Ih, é uma desgraça! O cara saca um puta dum agulhão assim ó. (fiz o gesto) enfia na garganta da pessoa sem anestesia e fica futucando lá, e depois ele chupa um troço da sua garganta. Você não pode engolir senão corre o risco dele errar e acertar uma artéria. Enquanto isso, outro médico esfrega um ultrassom na sua güela, e isso com a agulha enfiada lá.

A dona não reagiu. Nem piscou. Ela ficou congelada, olhando para minha cara com um olhar fixo. Acho que deu um “pã” no windows dela. Nisso, me liguei que 99% de todos os da sala iriam passar por aquilo lá. Tava uma platéia me olhando. Todo mundo com a cara de “Pã! -Esta pessoa executou uma operação ilegal e será fechada”. E então eu continuei:

-Na última ela até chorou. É só esperar. Daqui a pouco vem ela, coitada.

Deu um silêncio sepulcral na sala de espera. Dali a menos de um minuto sai a Nivea rindo das piadas do médico.

Todo mundo olha pra minha cara, com um tipo de olhar inquisidor.

-Ja fez? -Perguntei a Nivea. Era a primeira vez que eu via a Nivea falar depois do exame, o que dirá rir. Nas três últimas ela saiu com a maior cara de choro, sendo que na anterior, ela chorou mesmo no elevador.

Aquilo pra mim era um erro da Matrix.

-Já sim. -Respondeu a minha mulher.

Nisso, a velha se viu num dilema em quem acreditar e entrou de sola no assunto:

-Dói muito, minha filha?

-Nada. Não dói nada. É uma agulhadinha de nada. A senhora nem vai sentir. É rápido. Super tranqüilo. É minha quarta vez e eu faço numa boa. É assim, tchum-tchum! Tranquilíssimo… Nem precisa de anestesia.

Nem falei nada. Levantei e saí. Eu concluí que é a minha presença que causa dor na Nivea. Só pode. Nas últimas vezes, era um suplício do caramba e agora isso. Saí largando uma sala de espera lotada de pessoas agora super animadas para um show de horrores.

O homem pássaro

homempassarogw7 O homem pássaro

Estava passando homem pássaro na televisão. Eu gostava de assistir ao desenho do Homem Pássaro que passava  na Globo, na Sessão Desenho, que era depois de Mundo Animal.

Minha mãe estava terminando de colocar o almoço. Meu pai lia o jornal. Aí o desenho acabou e eu resolvi mostrar pra eles como é que eu era o Homem Pássaro.

Eu juntei duas cadeiras então subi no espaldar de uma e me equilibrando pisei no espaldar da outra. Minha mãe vinha chegando com uma travessa de estrogonoff na mão quando me viu gritar:

-Homem pássaro!

E o que se seguiu foi algo tenebroso. Eu despenquei das cadeiras uma delas caiu em cima de mim e com a quina fez um puta dum corte na minha testa. Eu não me lembro bem do que aconteceu na hora, só de ter aquela sensação de arrepio na espinha que era comum quando eu fazia merda e pensava que ia apanhar.

Mas para meu espanto, a voz da minha mãe não era aquela voz de quando ela estava brava, era uma voz de preocupação, de desespero. E isso só significava uma coisa: Eu DEVIA abrir o bocão e chorar o mais que pudesse. A voz dela era a minha garantia de que aquele sim, era o momento certo de colocar a boca no mundo.

Eu me lembro que ela jogou uma fralda do André na minha cara e em menos de um minuto eu estava com um pano encharcado de sangue na cara. Isso dizia pra mim que chorar não era o suficiente. Eu devia dar um pití inacreditável.

Pra piorar, meu pai estava sem o carro. Eu estava no colo dele, meu pai e minha mãe correndo pelas escadas da casa em direção a rua. Falaram algo sobre o vizinho.

O vizinho era um cara que tinha um dálmata enorme. Isso era tudo que eu sabia sobre ele.

Eu me lembro de estar no banco de trás do carro do cara, no colo da minha mãe indo para a COTREL.

Eu me lembro bem deste nome. COTREL. certos nomes as pessoas não esquecem. Tipo, pergunta para uma vítima do Hitler se ele esquece o nome “III Reich” ou “Auswitz”? Não, não esquece.

Chegamos no lugar, e eu não me lembro mais. Daí rola um bloqueio igualzinho aqueles de quem é abduzido por aliens olhudos.

O que eu sei é o que minha mãe conta. E o que ela conta é que correu um monte de medico para me atender. Era um corte na testa, não muito profundo, mas saía uma sanguera de dar dó.

Eu berrava e gritava o quando podia. Do nada um dos medicos tentou me segurar. Eu comecei a me debater, achando que eles iam me machucar. Então um ão foi suficiente. Veio outro, e estes não deram conta. Foi chegando mais e mais gente, enfermeiros, auxiliares, maqueiros, meu pai, no fim das contas, minha mãe diz que eram seis pessoas mais o meu pai para segurar um bacuri de 5 anos em completo fenesi.

Minha mãe conta que eu xinguei “bunda”, “cocô”, “piroca”, e toda sorte de nomes feios que eu sabia. Quando acabou meu limitado repertório, comecei a mixar novos palavrões.

Ela diz que viu com o coração apertado que eu fui gradualmente perdendo as forças ante a multidão que me segurava para o médico de plantão dar pontos na minha testa.

Daí veio meu medo de hospital.

Minha memória seguinte só voltou quando eu já estava em casa, me olhando no espelho. O corte na testa estava inchado e eu via os pontos costurados no espelho.

Naquele dia, eu descobri que não era o homem pássaro. Homem pássaro era coisa do passado.

…Afinal, era muito mais legal ser o Frankenstein.

Três grandes decepções da minha vida

A vida da gente é uma espécie de sopa onde entram vários ingredientes. Felicidade, amigos, brigas, situações engraçadas, tristes, relações sociais de todos os tipos, sexo e decepções entre dezenas de outros ingredientes. A mistura desses ingredientes em proporções aleatórias conduz para uma percepção de que a vida de um não é igual a do outro. Só isso pode explicar que muitas vezes dois irmãos que viveram a maior parte da vida numa mesma família tenham visões de mundo completamente diferentes.

Um dos ingredientes mais interessantes da minha vida, foram as minhas decepções. A maior parte das pessoas tenta a todo custo construir uma vida sem isso. Afinal, decepção é uma erva amarga na vida da gente. Mas à medida em que envelhecemos, começamos a mudar nosso paladar e certas coisas que achávamos horrível quando piás (cerveja, por exemplo) começam a parecer bem melhor. E é talvez pelo fato de que estou ficando velho que começo a rememorar certos episódios altamente decepcionantes da minha infância. Vamos a eles:
O dia em que enterrei meu tesouro

Eu sempre fui fã de filmes de piratas. Sempre desejei ardentemente encontrar um tesouro numa ilha tropical e tornar-me milionário. Um dia, esta oportunidade apareceu. Eu estudava numa escola de Três Rios enquanto morava com meus avós. Um dia, a escola passava por uma daquelas olimpíadas escolares e vi um caminhãozinho descarregar um monte de caixas no fundo da escola. Estiquei o olho para ver o que poderia ser aquilo e notei que aquelas caixas estavam cheias de medalhas. Uau! Medalhas de ouro, mané!

No fim do dia, naquela algazarra da saída entrei na fila para que carimbassem a minha caderneta. Durante a fila, a turba desorganizada percebeu que o inspetor havia ido ao banheiro, colocando um garoto mais velho para segurar o pessoal no portão. Imediatamente surgiu um motim. Ninguém reconheceu a autoridade do garoto e o caos se instalou bonito. Centenas de garotos invadiram a secretaria. Eu estava no meio. Eu não era muito de fazer grandes merdas, mas eu era conhecido como “o cabeça” das maiores maluquices.

Eu apenas falei para o Marcos Paulo (o mais encapetado entre os delinqüentes dali) que havia uma “arca do tesouro” cheia de moedas de ouro lá nos fundos da secretaria.

Pronto. Só precisei disso para que no minuto seguinte, TODOS os moleques da escola saíssem correndo para a rua com os bolsos cheios de medalhas de ouro. Entre eles, eu, o pirata!

Corri para a casa da minha avó com meu tesouro. Mas tão logo cheguei lá com minhas medalhas, fui logo mostrando pra minha vó e contando como eu era um pirata esperto. Fui recebido na base da porrada.

Minha vó me meteu o couro porque sabia que eu, totalmente néscio em matéria de esportes, não teria  condições de ganhá-las. Eu não era o Michael Felps para ganhar tantas medalhas de ouro. Daí que minha avó concluiu que eu roubei a escola e a porrada comeu com vontade. Não adiantava eu alegar que era apenas mais um dos que recebeu sua “parcela” no grande saque do ano à secretaria. Minha vó brigou comigo, me deixou de castigo sem poder ir ao cine Rex ver os Goonies, e o pior, me obrigou a voltar na escola e devolver as medalhas.

Eu enxuguei as lágrimas e retornei com meu passinho de urubu cansado de volta para a escola. Os bolsos cheios de medalhas de ouro. Eu me sentia o pirata mais burro do mundo. Eu sabia que seria o único zé mané de toda a escola que iria voltar lá pra devolver as medalhas.  Eu sabia que seria crucificado como único culpado pelo saque dos moleques todos que fizeram a mesma coisa que eu. No caminho, comecei a pensar um plano alternativo, uma saída para minha situação.

Mudei de direção. Fui até a linha do trem e escavei com as mãos um buraco fundo. Me certifiquei que ninguém estava olhando. Então, peguei as medalhas de ouro do bolso. Eram umas seis, e joguei ali. Cobri com terra cuidadosamente e até reconstituí o matinho sobre o buraco. Olhei em volta para ter certeza que ninguém havia me visto enterrando o tesouro. Memorizei cuidadosamente quantos passos eu precisava dar de uma árvore até a linha do trem. Dali eu contei quantos dormentes tinham ( dormente é aquela madeira que fica debaixo do trilho)  até a rua.

Limpei as mãos e voltei para casa. Minha vó quis saber se eu havia devolvido. Eu não disse nada. Apenas olhei para baixo. Ela concluiu que eu havia levado uma senhora esculhambação na escola e estava sem graça. Não fui ver os goonies, mas passei aquela tarde desenhando o “mapa” do meu tesouro.

O tempo passou. Um mês, dois, três, quatro meses. Um ano, mais um… Todo dia, indo pra escola eu passava perto da linha do trem e pensava no meu tesouro enterrado. Veio as férias, mais um ano, outras férias. Um dia, vi na televisão a propaganda do odissey. O odissey era um videogame que parecia ter um teclado. O conjunto dava uma ilusão de superioridade tecnológica sobre o meu atari, presente do Tio Zé Carlos. O atari foi um dos presentes inesquecíveis da minha vida. Então eu tive a brilhante idéia de resgatar meu tesouro e vender para o hominho do “compro ouro” que tinha na praça da autonomia. Com certeza aquele monte de medalha de ouro me daria grana para comprar videogames, não só para mim como um para cada irmão.

Peguei o meu mapa cuidadosamente escondido numa página central de um livro da Barsa lá na casa da minha avó. Nem era preciso do mapa, pois ao longo de vários e vários meses, eu rememorava cada detalhe daquele dia, e ficava pensando quando seria o fatídico dia de reencontrar o tesouro.

Mas pegar o mapa fazia parte da “aventura”. Peguei o mesmo, fui até a rua, contei os passos, contei os dormentes, cheguei no local. Comecei a cavar.

Nada.

Não havia nada. Apenas uma terra nojenta.

Eu fiquei muito puto. O ódio me subiu a cabeça. Tive vontade de jogar uma pedra no primeiro desgraçado que eu visse pela frente. Eu não queria acreditar. Cavei o mais fundo que pude em busca das medalhas de ouro. Cavei até achar uma pedra grande. Aí concluí que estava cavando no lugar errado. Voltei na rua, olhei no mapa. Contei os passos, contei cada um daqueles dormentes desgraçados e ali estava o buraco. Um buraco cheio de …ferrugem.

Eu tive vontade de chorar. As medalhas não eram de ouro. Eu havia sido enganado. Me senti ludibriado pela escola. Onde já se viu, dar medalha de ouro falsa para os esportistas! Um absurdo.   E o pior do pior era ter apanhado da minha vó por causa daquele monte de lata vagabunda.

Naquele dia, eu decidi que a romântica vida de bucaneiro não era mesmo pra mim.

O dia em que eu passei de ano. De um ano para o outro – Episódio 1

Esta é triste. Eu tinha ficado de recuperação na quarta série. Recuperação de Matemática. Recuperação é uma merda. Você vê todos os seus amigos saindo de férias e você lá. Tendo que ir pra aula. E o pior, todo mundo pensa que você é burro, afinal, “os inteligentes passam direto”.  Pra mim, ver meus amigos saindo de férias não mudava muito a minha vida, porque simplesmente não tê-los me eximia da inveja de ver aquele bando de (com licença? ) FILHOS DA PUTA indo passar as férias em Cabo Frio.

Então, estudei pra caramba, ralei para aprender aquela maldita taboada do nove. Arme e efetue, esses nomes que parecem provenientes das mentes mais doentias dos torturadoes do DOPS. A minha professora de Matemática era uma carrasca que faria o Freddy Krueger parecer uma freira.

Quando eu finalmente consegui obter a nota mínima para passar de ano, lembro disso como se estivesse acontecendo bem agora, minha mãe olhou meu boletim e falou:

-Philipe, vai lá e fala com a coordenadora que eu quero que você repita de ano.

Sim, meu amigo. A minha própria progenitora, com meu boletim -carta de alforria nas mãos, me mandou voltar e PEDIR (olha o grau da humilhação humana) para repetir. Eu caminhei para a scretaria como quem acaba de levar um tiro na cabeça. Me sentia muito pior que apenas um burro. Me sentia um proto-burro falido. Nem sequer competência para repetir a quarta série eu tinha. Minha mãe, cheia das boas intenções, teve que me mandar na secretaria comunicar que ela queria que eu repetisse. O objetivo da estranha situação era que nós iríamos mudar de cidade e minha mãe prevendo que a próxima escola seria mais forte achou melhor que eu entrasse com um ano de defasagem.

Eu entrei na secretaria e pedi para repetir. Pela cara da coordenadora, ficou claro pra mim que aquela era a maior burrice do universo, mas quem era eu para apitar alguma coisa sobre o meu destino? Ela imediatamente anotou meu nome num bloco e entregou a secretária.

Quando mudamos, a escola para a qual eu fui era bem mais fraca que minha escola anterior, o que significa que eu joguei um ano escolar no lixo.

O Dia em que eu passei de ano. De um ano para o outro – Episódio 2

Este foi o ano da Juliana do sutiã de bolinhas. Era a sétima série. Aquele foi o ano em que eu conheci meu amigo-irmão-padrinho de casamento-parceiro de idéias malucas Paulo Rogério. Eu tinha outros grandes amigos, como o Elvis, também conhecido como Magoo, o Fabio Guaraldi, que corria bem na educação física, o fábio Tardivo, que tinha aquela voz de locutor e era alto pra caramba, o Ryan, um cara muito doido que gostava de assustar a vizinha crente usando um isqueiro e um spray de Baygon. A turma era muito legal. As meinas, principalmente, eram bem bonitas. Mas…

Eis que eu fique de recuperação em Matemática. Na sétima série, eu já havia me habituado com a maldita recuperação de Matemática, porque desde a segunda eu vinha ficando de recuperação (sempre em Matemática).

Então, depois de muito estudar, ralar feito um desgraçado em monômio, binômios e polinômios, eu me ferrei. Fui pegar o boletim e ali estava a maldita letra I, de insuficiente.

Nunca gostei muito da letra I. Ela tem aquele ridículo pinguinho em cima, como se fosse uma bola. Eu acho que inconscientemente, sempre detestei o i por causa do seu pinguinho. O I não é uma letra séria. É a única letra que fica displicentemente brincando com aquela bolinha. Veja o A por exemplo.

O A fica lá, concentradão, pernas abertas. Base fixa. Rígido. Mas e o i? O i teima em ficar com aquele chapéu ou bolinha na testa. Parece o Ronaldinho Gaúcho das letras.

Aquele i era de INSUFICIENTE.

Tudo que eu precisava. Mais uma chancela desgraçada para ostentar na minha testa. Eu não era SUFICIENTEMENTE bom para passar para a oitava série. Isso significaria não só ter que estudar aquele monte de coisa tudo de novo, mas o que é pior, ver os meus amigos mudarem de série, de camisa. Eles passariam a estudar de manhã. Eu ficaria fodidamente limitado com um bando de pirralhos de tarde, como um mongol. Aquilo somado com a decepção do maior veto de todo o universo, produziam uma estrutura dramática incomum para minha biografia escolar de pseudonerd.

Eu estava deprê. Passei as férias numa fossa do caramba. Quando finalmente estava para começar o ano, minha mãe recebeu a circular de compra de material. Ali no documento estava bem claro para qem quisesse, ver: Philipe Kling David – 8 serie B.

Eu não podia acreditar. Deus havia intercedido por mim. Algum milagre do universo, talvez o próprio Dom Bosco em pessoa, havia me salvado. Meus pais se animaram. Todos começamos a fazer planos eufóricos sobre esta “segunda chance”.

Meu pai falou comigo para eu meter a cara, tirar excelentes notas logo de cara, pois se depois disso a escola descobrisse o erro, ele processaria a escola alegando que se eu tirava nota boa na oitava série, teria que ter sido aprovado na sétima.

Aquilo tudo fazia um grande sentido pra mim. Comprei a camiseta verde da oitava série. Fui com a minha mãe comprar todos os livros e material.

No primeiro dia de aula, eu fiquei tenso. Toda vez que alguém vinha na porta da sala, eu achava que ia dar merda. Tentei sentar no fundo, de modo a não ser visto. Não despertar suspeita.

Ao fim do primeiro dia de aula na oitava série, eu me sentia liberto. Tudo dera certo. Eu estava mesmo com meus amigos. Não pagaria de burro e finalmente havia testemunhado um milagre legítimo. E útil.

No dia seguinte, cheguei cedo. Sentei no meu lugar lá atrás. Começou a aula de português. Uma a uma, as disciplinas se sucederam e tudo corria normalmente. Até que…

Até que apareceu uma pessoa na porta da sala com um papel do computador.

-Quem é Philipe Kling David aí? – Perguntou o careca bigodudo.

Imediatamente inúmeros dedos acusatórios apontaram na minha direção.

O cara entrou na sala já falando:

-O que você tá fazendo aqui na oitava série com este uniforme? Você é repetente!

… (pausa dramática)

repetente, repetente, repetente REPETENTEEEEEE!

A voz tornou-se um eco mas logo eu percebi que não era a minha mente. Era a turma inteira batucando nas mesas e gritando aquela desgraçada verdade. Eu era um maldito repetente de merda tentando dar um golpinho de quinta categoria. A escola, para se esquivar do “erro de digitação”, me acusava de tentar me infiltrar clandestinamente na oitava série.

Levantei cabisbaixo e saí de sala, ao som de “REPETENTE, REPETENTE, REPETENTE”. No caminho, notei o sorriso de satisfação de Allysson, do Bruno Torres e de tantos outros. No meio daqueles olhares notei a expressão de pena de umas meninas. A expressão de pena apunhalou meu coração com uma dor cem mil vezes pior do que os gritos daqueles tapados.

O sonho acabou. Eu voltei a usar a camiseta amarela. Um ano depois de sofrer o veto histórico da minha geração, eu voltava aos holofotes do escarnio popular com a bombástica história do “repetente clandestino”, como fiquei sendo conhecido a partir dali.

O drama no elevador

Existem poucos lugares no mundo em que o ser humano se sente tão ameaçado quanto num elevador. Quer um exemplo? Veja que muitas pessoas ficam em silêncio quando pegam o elevador. Repare só.

Elas vem falando animadamente. Tão logo entram na caixa de aço, ficam em silêncio. E durante aqueles longos minutos em que sua bexiga clama por um vaso sanitário, tudo que você pode se perguntar é se elas pararam de falar com medo de alguém notar o bafo (um problema sério em ambientes confinados) ou se você tem cara de fofoqueiro e elas não querem que você saiba o que aconteceu na noite anterior.

O elevador é considerado pelos especialistas em transporte como o equipamento de transporte mais seguro do mundo dada a quantidade de viagens divididas pela quantidades de acidentes. De fato, muitos problemas decorrentes de elevadores não estão associados a uma queda livre, o terror de todo mundo que tem “medo de elevador”. Os filmes tripudiam sobre isso, mostrando caixas de madeira sendo puxadas por cordas que arrebentam, jogando aqueles infelizes atores de segundo escalão num tenebroso lugar chamado “poço”.

Um meio de transporte que se preze como seguro jamais poderia ter uma parte dele chamada “poço”. Eu fico só imaginando que ali em baixo, entre as escuras molas que brilham sob a fraca luz que entra pela janelinha, está Samara…

samara O drama no elevador

Sim senhor, a samara do Poço. Aquela que sai do seu monitor se você assitir ao tenebroso video que mais parece um grafismo de intervalo da MTV…

Mas voltando aos elevadores e seu fascínio e mistério, quem nunca teve uma fantasia sexual num elevador aí levanta o dedo.

O DEDO!!!!! O DEDO!!!! EU DISSE O D-E-D-O!

Eu já.  E confesso que já passei por maus momentos tentando realizar isso com namoradas anteriores.  Só estou mencionando esta peculiaridade porque a senhora Gump jamais iria topar uma sandice dessas. Mas são aquela coisas que a gente faz com 17/18 anos achando que nada vai acontecer até que… PQP! O botão da emergência destravou e uma velha do bloco B viu algo que há muito ela já não sabia o que era. (calculo isso pela reação) Achei que ficaria broxa para sempre depois do que aconteceu.

As fantasias de putaria no elevador, sobretudo quando são aqueles totalmente espelhados, são um clássico dos pensamentos mais onanistas. Essas fantasias funcionam com uma certa metodologia equacional que é quase sempre bastante precisa. A receita envolve uma vizinha BEM gostosa, uma amiga da vizinha mais gostosa ainda e uma pane convenientemente ocorrida entre dois andares. Some a isso um calor dos diabos, que faz as moças livrarem-se de suas roupas de ginástica.  Some a esta idéia o fato de que você tem todo o tempo livre de que precisa, ninguém tem celular, a meia-luz de emergência acende dando aquela penumbra demotel e nenhum vizinho precisará usar aquele elevador nas próximas 48 horas. Ah… E inclua a gosto a câmera, afinal, alguém tem que saber que você é O CARA. Nem que seja o “seu Genival”.

Enquanto elemento excitante para os exibiocinistas, a câmera do elevador é um problema sério para os menos interessados em aparecer. Eu acho que poderia inclusive elencar a câmera do elevador como uma das três coisas mais broxantes dos últimos tempos. As outras duas seriam: Banheiros de avião apertados demais para dois e carros com bancos com defeito que não reclinam (tipo o meu).

Mas a câmera do elevador ganha disparado. Um dia eu peguei o elevador com uma Big Brother que havia ACABADO de posar nua.

thais O drama no elevador

Sim, meu amigo, ali, naquela caixa de aço com menos de três metros quadrados, estivemos separados por menos de 22 centímetros o Sr. Gump aqui e a eterna lolita do big brother, Thaís. Eu sozinho com aquela gata. Bem, quer dizer, veja bem…

Ok, tinha mais alguém.

Era o “seu João”, o porteiro mais maluco do universo. Mas ele acompanhava tudo via câmera de segurança.   Sim, é o Big Fucking Elevator Brother, também conhecido como “porteiro show”. Thaís, já acostumada ao BBB Global não estava nem aí pra mim, muito menos para seu João e sua câmera erótica.  Virou-se ostensivamente com os “dotes” para a câmera e começou a se maquiar no espelho.

Com aquele monumento de mulher do lado, -veja você que lástima – eu só pensava no seu João.

Eu não conseguia me concentrar na situação porque sabia, eu tinha absoluta certeza, de que aquela câmera estava apontada diretamente para aquela bundinha. Bundinha que eu não vi, diga-se de passagem, porque o seu João estava olhando e sabe como é.

Além do mais, ele era impertinente e louco o suficiente para interfonar lá pra minha casa só para avisar a Nivea que me viu comendo a Big Sister no elevador. Sem falar que eu não queria ficar falado como “o tal marido da dona Nivea que fica tarando bundinha de big brother no elevador”, né?

Tenha você fantasias sexuais envolvendo elevadores ou não, o fato é que um elevador pode gerar um sem número de situações bizarras na vida de um ser urbano.  Eles são cada vez mais comuns, já que dependemos mais e mais dessas caixas com botões. Sendo assim, é inevitável que cada vez aconteçam mais situações estranhas envolvendo isso.

Eu mesmo já passei por algumas situações estranhas em elevadores.  Uma delas correu recentemente.

Eu estava indo pegar a primeira dama na faculdade onde ela dá aula quando notei que o elevador estava demorado pra danar. Fiquei ali batucando na parede e nada. Desisti do elevador social praguejando contra o fedepê desgraçado que segura o elevador para conversar. Deui a volta no corredor e peguei o elevador de serviço.

Pra minha sorte, este veio rápido.

Mal eu entrei no elevador, morrendo de pressa, a Nivea já me ligando pra saber onde que eu estava quando notei.

Alguém havia soltado um peido tão nasueabundo naquele elevador que parecia que havia um cadáver recheado com ovo cozido esquecido no sol e depois guardado ali durante dois meses.

Mal a porta se fechou e aquela caixa começou a descer lentamente, eu comecei a rezar. Eu rezava para que aquela corrente arrebentasse e o elevador decesse a 9,8 metros por segundo para o poço. Não dava para respirar. Entre aquele cheiro e a Samara do poço, eu preferia a Samara. Tentei segurar o quanto pude minha respiração. Eu estava a ponto de explodir quando…

O elevador reduziu a velocidade e parou. Eu achei que estava realmente ferrado porque no início da freeiada, temi que fosse algum tipo de pane, mas o meu desespero aumentou ainda mais de  ver que o elevador parou e a porta se abriu.

E menos de um segundo, a minha mente elaborou todo o cenário desastroso que se descortinaria nos segundos seguintes. E entrou um homem negro, forte, usando um daqueles macacões de borracha de motoboy. Capacete pendurado no braço. Pintado no ombro estava a marca da pizzaria.  Mal o cara entrou, porta se fechou, ele olhou pra minha cara com cara de:

“PEIDOU MAL HEIN MEU FILHO?”

O cara não parava de me olhar com aquela butuca de olho que mais parecia uma azeitona. Eu tentei disfarçar, mas estava ofegante por ter tentado segurar a respiração. Comecei a notar que o cara estava me avaliando. Ele devia estar pensando como uma coisa insignificante como eu consegue soltar tão escabroso gás. Minha respiração ofegante estava me incriminando. Certamente o entregador de pizza sabia que para soltar um pum tão poderoso seria necessário fazer uma força sobre-humana.

O elevador descia e o sujeito me olhava com aquela expressão acusatória. Eu sabia, eu podia praticamente ler a mente dele. Ele devia estar pensando se eu estava com algum tipo de câncer intestinal grave ou o que eu teria comido para produzir um cehiro de feto de urubú com gorgonzola à vinagrete.   Pensei em virar pra ele e falar:

“Moço, não fui eu quem peidou!”

Mas isso não surtiria efeito algum além de me incriminar ainda mais. O cara certamente pensaria que se eu estava falando aquilo é porque naturalmente tinha culpa no cartório. Tentei então abstrair e disfarçar.

Eu me senti pior ainda disfarçando, pois aquela seria a atitude do mais deslavado dos peidões.

O momento da redenção chegou pra mim quando o elevador parou mais uma vez. A porta se abriu e uma velha do sexto andar entrou.

Quando a porta se fechou a velha olhou bem pra minha cara e para a cara do pobre negão. E então passou a encarar o negão como ele estava me encarando antes. Eu tive vontade de rir, mas segurei. O negão vendo que a velha olhava pra ele, começou a olhar sério pra mim, tentando direcionar em silêncio a atenção da idosa, como quem diz:

“Foi ele alí ó.”

Mas eu  fiquei firme. Saquei meu celular último tipo (na época) e comecei a mexer. A velha voltou-se para o entregador com certeza ainda maior de que era ele que tinha soltado o flato da morte. Até porque, na cabeça dela, a Xuxa, o Padre Marcelo Rossi e qualquer um que tenha um celular tão caro e bonito não pode provocar tamanho cogumelo piroclástico fecal no ar.

Quando o elevador chegou ao térreo, o entregador desceu rápido. Queria livrar-se do olhar acusatório da velhinha do sexto andar. Eu fiquei para trás, deixando ela sair primeiro. O cara desceu correndo as escadas e subiu na moto como um raio. Assim que ele saiu com aquela motoquinha a velha se virou pra mim e disse:

-Ele se cagou. Não se cagou?

Eu fiquei constrangido de dizer qualquer coisa pra ela e apenas sorri. Mas ela continuou um monólogo digno da Dercy.

-Ah, meu filho. Eu conheço. Eu sei como é “esta gente”. Ele se cagou. Você viu o macacão? Tava até estufado! (ênfase) -A velha ilustrou com os bracinhos magrelos cheios de veias verdes um volume que mais parecia o pânceps do Tim Maia.

-Que coisa, né? -Comentei, querendo encurtar o papo.

-Ele saiu que nem uma bala. Viu? Vai correr pro banheiro coitado. Vai cagar até amanha de manhã! Cruz credo. Quase vomitei. Como que pode alguém podre assim, meu filho? Você já sentiu um peido desse na vida? Olha, eu tenho 82 anos de idade e nunca senti um cheiro de merda assim. Merda não. É ovo. É ovo!

Eu já ia saindo pra pegar o carro quando ela me interrompeu:

-Filho…

-Sinhora?

-Que marca de pizzaria era?

-Hummm. Não sei. Acho que era o Mister Pizza.

-Essa eu não peço nunca mais! -Disse ela. E completou: – Dá caganeira!

Eu peguei Osama Bin Laden!

Eu estava trabalhando no blog, tentando corrigir um erro maluco no tema quando a campaínha tocou. Eu achei aquilo meio estranho, uma vez que o porteiro costuma avisar que tem alguém querendo subir. Fui até a porta certo de que era um daqueles enganos onde o cara aperta sua campaínha pensando que é o interruptor de luz. Eu olhei pelo “olho mágico” e ali estava um cara de terno com uma mala debaixo do braço.

Eu pensei: Puts, o porteiro deixou subir um testemunha de Jeová.

-Quem é? – Perguntei sem abrir a porta. Do outro lado, uma voz rouca com sotaque estranho respondeu:

-Meu nome é Jefferson.

-Pois não? -Perguntei ainda sem abrir a porta, já pensando em ligar a Tv no “canal porteiro” para ver se não era assalto no prédio.

-É a casa do senhor Philipe… (pausa) Kling David?

-É sim.

-Pode abrir a porta, por favor? -O tal do Jefferson perguntou. Eu olhava pelo buraco da fechadura e ele estava mostrando um tipo de distintivo que eu não consegui ver direito.

Arrisquei e abri, mantendo a porta na correntinha. Pela greta, pude dar de cara com aquela insígnia enorme do FBI.

-FBI, senhor. Pode abrir a porta? -Me cagando de medo, abro a correntinha e escancaro a porta. Ali está um homem de meia idade, parecendo ter uns 52, 53 anos, meio calvo. Olhar sério. Terno impecável. Ele tem uma maleta 007 debaixo do braço. Eu me apresento. E ele estende a mão para me cumprimentar.

-Muito prazer. Sou Jefferson Rutherford. – O cara tem um aperto de mão forte pra caramba e quse esmigalha meus dedos. – O senhor deve estar achando estranho um funcionário do Federal Bureau of Investigation parado na sua porta, não é mesmo senhor Philipe?

Eu balanço a cabeça positivamente já tentando imaginar alguma desculpa plausível para o lance do Relato de um Mib. Naturalmente só podia dar merda aquilo. O tal Jefferson interrompe meu pensamento com uma única frase:

-Parabéns, o senhor ganhou uma recompensa.

-Recompensa?

-Pois é. Graças a um post do seu blog, sobre os seis graus de separação entre o senhor e o homem mais procurado da América, o senhor acabou de proporcionar a captura de Osama Bin Laden. Aqui nesta mala, está uma parte do pagamento, totalizando um milhão de dólares…

O cara vai falando, desdobrando um papelzinho do bolso. Meu coração parece que vai parar.

- …Os 49 milhões subseqüentes serão pagos em em títulos do Tesouro americano, totalmente livres de tributação.

Meu coração parece que vai explodir. Eu fico sem ar.

O cara fala isso abrindo desajeitadamente a maleta de couro e ali na minha frente, eu vejo duas dezenas de maços grossos de notas de cem. Tudo parece rodar. Parece um filme. Eu ganhei na loteria sem jogar! Eu sou muito sortudo, PQP!

Se eu tivesse champanhe eu tomava. Se eu tivesse fogos eu estourava.

O cara agradece minha atenção, pede para que eu assine o papel. Eu assino nos quatro lugares marcados com X ele vai embora. Eu fecho a porta e caio no chão. A mala de dinheiro na minha frente. Me belisco para saber que não estou sonhando. Nada acontece. É verdade mesmo.

- Eu peguei Osama Bin Laden! Caralho! Eu não acredito! EU PEGUEI O FILHO DA PUTA DO BIN LADEN!!!!! -Berro a plenos pulmões.

E por tabela vou conseguir a maior audiência que um blog já conseguiu em todo o planeta quando a notícia se espalhar.

Mas calma aí. Não pode. Não, não. Vou ficar visado. Vão parecer parentes pobretões que eu nunca ouvi falar me pedindo dinheiro. O meu rico dinheirinho que caiu do céu. E os sequestradores? O Brasil está perigoso. Todo mundo vai querer roubar a minha grana. Minha, minha… Minha preciosa grana…

Oh, meu Deus… Olha só pra isso. Olha só, sente o cheirinho. O maço é novinho… Mas é muita grana! Vou fazer o que? Será que ligo pra quem? Pra Nivea! Sim. Vou ligar pra ela e falar: – Amor, larga essa vida de professora universitária que agora você vai ser madame!

Ah, e vou ligar também para os meus pais e mandar eles me esperarem no aeroporto de Madri, porque meu jato exclusivo vai passar pra pegar todo mundo e vamos fazer um grande passeio comemorativo pelo mundo. Ilhas gregas… deixa eu ver. Preciso pagar o apartamento.

Hã? O que eu estou dizendo, caramba? Eu posso comprar vários prédios! Que idiota… Talvez até eu compre uns vinte imóveis aqui no país como investimento… Ah! Cadê a porra da revista Caras? Tava aqui em algum lugar… Eu sei… Eu sei, calma aí. Era uma televisão gigante. Ah, sim! Uma televisão gigante, do tamanho da parede. Tão grande que eu quero sentir o sanguinho voando nos filmes de terror.

E este relógio? Que fodão. Eu vou comprar este relógio aqui pra mim… Mas calma aí. Isso é um jeito fútil de gastar a grana. Tenho que pensar em aumentar ela. Vou investir em tecnologia. Vou ligar para uma companhia e criar uma fundação para gerir minha fortuna e dobrá-la a cada dois anos. Sim, isso mesmo. Isso é que é jeito de lidar com uma nota preta dessas. Eu tenho que ser rápido. Preciso me esconder. Vou me esconder um apart hotel, porque daqui a alguns minutos um monte daqueles urubus da imprensa estarão na portaria do prédio querendo saber da minha vida, do Osama, da grana… Tenho que ser discreto!

Além do mais, eu vou ligar pra embaixada dos EUA e vou exigir meu passaporte americano, afinal é o mínimo que eles podem fazer pelo cara que pegou o Osama. Certamente ganharei uma comenda da Rainha Da Inglaterra… Quem sabe um título de nobre, né?

Talvez eu gaste um pouquinho, afinal, sou Filho de Deus, né? Talvez um Lamborghini… Tipo aquele do Batman. Vou comprar uma casa sensacional com vista para o mar no alto de uma montanha, ela vai ter uma passagem secreta como a que eu sempre quis, e vou pagar também uma inseminação artificial para providenciar logo os meus descendentes.

Eu tiro a roupa. Coloco uma trilha dos beatles para tocar e fico dançando peladão com a mala de dinheiro. Meu passaporte para a felicidade eterna…

O telefone toca. Eu abaixo o som, e ofegante escuto a voz da primeira dama. E o que ela diz é:

-Serviço despertador! Tá na hora de ir trabalhar.

Então eu me dou conta que estou na cama. Tá tudo escuro ainda e aquilo tudo é um sonho. Meu delírio de riqueza vai para o saco tão rápido como começou e eu me levanto para mais um monótono e cansativo dia de trabalho.

Como lidar com um impertinente de lotação

Existem diferentes tipos de impertinentes de lotação. Não pretendo fazer nenhum tratado sobre esses seres desprezíveis aqui, mas apenas registrar um momento fugaz do passado que me ocorreu outro dia num almoço com minhas amigas do trabalho.

Naquele tempo eu estava num ônibus semi cheio.

Um ônibus semi-cheio é algo variável de cidade para cidade, sobretudo da hora relax para a hora do rush. Mas naquele momento, o semi-cheio significava apenas todos os lugares ocupados.  Eu e meu irmão havíamos pego o ônibus e em um milagre matemático desses que não se explica, havia dois lugares livres no busum. Todos os dois no corredor (querer janela tb é demais!) e um na frente do outro. Sentamos ali e ficamos batendo papo.  Eu conversava com meu irmão animadamente quando a dona que estava do meu lado levantou-se e puxou a cordinha, saindo do lugar. Pela lógica, tudo era óbvio. Meu irmão levantou-se para sentar ao meu lado, mas do nada, numa velocidade estupenda uma bunda gigante jogou-se no espaço vago. Era um gordão daqueles que você se pergunta se seriam produtos de uma degeneração genética da espécie humana ou apenas uma comprovação de que alienígenas existem. Não era novo, nem velho. Era apenas gordo e feio. Meio careca, com cara de critico boçal de cinema. Aqueles que gostam de dizer que filme bom é filme iraniano de título hermético.

Tudo bem. Contive meu impulso assassino aprendido com ninguém menos que Gelson, e mantive a aparência serena de um monge tibetano. O busocão ia se sacudindo de modo rotineiro e a cada “zig” o filho da puta ia pro “zag”. Talvez culpa de seu volume adiposo, sei lá.

Então eu olhei para o meu irmão no banco de trás e nem precisei dizer nada.

Eu dei uma PUTA DUMA TOSSIDA NA CARA DO BALEIÃO.

Foi uma daquelas tossidas que você consegue sentir as ondinhas de catarro subindo pela sua garganta em direção ao olho do incauto companheiro de viagem.

O cara fez uma cara de “caralho!” pra mim. E tão logo eu terminei minha tossida o meu irmão emendou:

-Porra, que foda hein?

E eu:

-Cof, cof, pois é.

-Cara tá tomando o remédio ainda?

-Não. Parei.

-Que isso, maluco! Pirou cara? Quer morrer? A médica não falou que não podia parar? Que essa merda aí mata?

-Pois é, mas eu parei de escarrar sangue. Achei que tava bom. Agora voltou pior.

-Porra, cara,. Minha mãe sabe que você parou de tomar o remédio de tuberculose?

-Não. Eu não falei nada. (pigarreando com força. Tudo pela interpretação, né?)

Nisso o gordão ali do meu lado começa a ficar meio azul. Notei que desde a tossida na cara ele estava congelado. Acho que tava prendendo a respiração, coitado.

Em menos de um segundo após o meu pigarro escatarrento do fundo do meu âmago, o baleião levantou e desceu do ônibus. Acho que nesse dia ele tomou banho de álcool.

Eu e meu irmão tínhamos esta mania de mudar de assunto do nada, sem aviso, sem piscadela sem nenhuma indicação que estávamos em “sacangem mode on”. Um dia na barca me lembro que estávamos conversando e notei que o maluco do nosso lado estava descaradamente prestando atenção na nossa conversa.

Pois então começamos algo mais ou menos assim:

-Mas e aí? Matou? – Lancei eu ao léu. Bem assim mesmo. Completamente fora de todo o contexto da conversa. Quando acontecia isso, ele já sabia do que se tratava e emendava.

-Matei.

-E ele? Chorou igual mulherzinha, né?

-Porra, pediu pelo amor de Deus e tudo. Disso que tinha filho, filha, gato, papagaio, periquito. O escambau a quatro.

-Pô cara você não ficou com remorso de matar o cara não?

-Eu disse, sai do carro ô filho da puta. E ele não saia. Aí já viu. Não pode perder a moral.Sabe como é…

-Sei. Outro dia eu apaguei um também.

-Faca ou pistola?

-Pistola. Faca ninguém usa mais. Só o… Porra como é que é o nome dele?

-Quem juvenal?

-Não, aquele grandão. Meio mongo. Um que tem uma cicatriz na cara… Lá do Turano (um morro do Rio)… Sabe quem?

-Ah, sei… Porra ele tem um nome estranho. Tipo Jaburú, jabruré…

- Ah! Lembrei. É Harakiri. O cara é maluco. Mata com faca. Da última ele arrancou a cabeça.

-Caralho, arrancou a cabeça com faca?

-Arrancou, maluco. O cara tem o maior bração. E a porra da cabeça não soltava. Ele começou a rodar a cabeça do PM. Custou a arrancar.

- E depois?

-Depois ele jogou lá de cima. Caiu na casa de alguém (risos maníacos)

Nisso, o velho do meu lado está com o jornal enfiado na cara. Eu noto um leve tremor em suas mãos. E continuo.

- Mas sabe, cara. Tipo, aí ele jogou a cabeça lá e a galera aplaudiu. Parecia coisa de olimpíada. (risos maníacos)

- Porra. Sinistro. Tiro tudo bem, Mas faca é foda. Faca é pra capa do Povo. Não sei como ele dorme.

-O cara não dorme, meu. Ele fica ligadão na Brisola lá direto. Mas o pior não é isso.

-Ah. Para.

-Sério, maluco. Nesse dia o povo aplaudiu e o cara tipo deu uma piarada lá. Ele viu uma dona que tava olhando, vendo (ênfase) assuntos que não lhe diziam respeito.

-Esses tem que matar mesmo.

Nisso o maluco do nosso lado quase entra com o corpo todo no jornal.

-Aí ele foi lá e pegou a dona, cara. Puts.

-Cruel?

-Porra, cara nem precisava. A galera até pediu pra pegar leve com a tia.

-Mas nego encherido tem que se foder mesmo. Fica com a butuca no assunto dos outros. Tem mais que se ferrar. Dona fifi se fufú! (risos maníacos)

A barca não tinha nem completado 60% da viagem e o maluco dobrou o jornal e saiu, todo duro, sem olhar pra trás. Aposto que daquela testa ali escorria uma gotinha suplicante de suor.

Mas é fogo. Hoje em todo lugar, com cada vez mais gente nas cidades, está impossível conversar em paz, sem que se forme uma espécie de platéia julgadora silenciosa ao seu redor. Não dá pra falar nada escabroso, porque sempre tem um desgraçado ali de butuca ligada. Outro dia eu estava num restaurante nipo-chinês do centro conversando com a Denise. Eu contava pra ela uma história muito da escalfobética que por “N” motivos não posso me dar o luxo de contar aqui, mas que é muito, muito bom mesmo. A cada reviravolta na história a Denise vibrava. Eis que eu conto a história quando uma pessoa na mesa ao lado que nunca vi mais gorda, vira pra nós e comenta.

-Olha, me desculpa, eu sei que não tenho nada a ver com isso, mas tenho que falar. Essa história é muito boa. è sensacional. Isso aconteceu mesmo?

E então o papo a dois vira um papo a três e eu continuo contando a parada.

Surreal?

Surreal não. Gump.

Comida japonesa

Naquele tempo eu tinha uma namorada de Três Rios, e raramente ela vinha para Niterói me visitar, já que cada vinda dela era uma coisa planejada cuidadosamente, com capricho de visita de chefe de estado, uma vez que havia toda uma logística de vigilância para que eu não comesse a garota (que todo mundo pensava ser virgem, sobretudo na família dela).

Então, era uma coisa rara e quando ela vinha aqui nosso passeio mais comum era ir ao shopping. Não sei porque cargas d´água a infeliz dava um azar do cacete e sempre que ela vinha crente que iria à praia, chovia horrores. Então o que restava era o shopping.

Um dia eu estava vendo tevê quando numa novela ou seriado, percebi que um cara muito charmoso, o galã ou o antagonista boa-pinta-malvado-feito-o-cão, levou sua vítima sexual para comer comida japonesa. E aquilo ali fez todo sentido para mim.

Eu pensei cá com meus botões: – Que legal, o sujeito leva a moça para um restaurante exótico, mete saquê nela e depois vai pro motel e finaliza o serviço…

Naquele tempo, só tinha dois restaurantes especializados em gastronomia oriental em Niterói. A comida japonesa ainda não era essa febre que é hoje. E é por isso que a idéia de comer comida japonesa me pareceu tão sensacional. Quando ela chegou, eu resolvi impressionar a garota. Juntei todos os caraminguás que eu tinha. Não era muito, uma vez que eu não trabalhava e vivia de mesada, e ainda por cima era fim do mês. Ela queria ir no clássico Mc Donald´s (que também não tem em Três Rios) mas eu falei pra ela:

- J*, hoje eu vou te levar num lugar super legal. Vamos comer comida japonesa.
-É mesmo? Nossa, que legal! Eu nunca comi.- Disse ela com uma expressão de surpresa. – Eu quase falei que eu também nunca tinha comido aquilo, mas sabe como é o cara querendo impressionar, né?

-Ah, você vai se amarrar. Tem que comer de pauzinho, você vai ver… -Bancando o profundo conhecedor de comida japonesa.

-Nossa. será que eu vou saber?

-Claro. É facílimo. Eu te ensino. – Ele, o maioral, o foda, o senhor Tokio em pessoa, ehehehe.

Nos arrumamos. Coloquei a minha roupa bonita de fazer exame de fezes e ela se enfiou naqueles micro-vestidos provocantes que só me arrumavam problemas na rua. Fomos direto pro restaurante.

Chegando lá, ela embasbacada com um restaurante todo decorado como construção japonesa. Eu estava embasbacado também, mas querendo bancar o sujeito cosmopolita, cidadão do mundo, o fodão que conhece todo tipo de comida, tentei fazer um ar blasé como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Entramos, e havia uma série de mesinhas baixinhas. Novamente o espanto. Novamente meu ar blasé.

O garçom trouxe o cardápio. Quando eu bati o olho, puta que pariiiiu! Era caro para caceta!

-O que foi? – Perguntou ela vendo meu ligeiro desconforto (na verdade, quase um ataque epiléptico).

-Nada, nada. É que… Bem, eles mudaram o menu… – Disse eu olhando para o menu em busca dos preços. Enquanto isso, meu co-processador aritmético, fazia um milhão de contas tentando determinar o que é naquela maldita carta que daria para comer com os parcos tostões que eu tinha.

Depois de muito olhar, eu notei que não havia nenhuma desgraça de descrição do que era cada prato daqueles. Só havia os nomes em japonês. Eu fiquei puto. Era muita monguice fazer um menu de restaurante todo em japonês sabendo que a probabilidade de um japonês alfabetizado entrar lá era infinitamente pequena.

-Você está bem? – Perguntou a J* pra mim ainda intrigada com minha cara. Eu pensei em falar a verdade e assumir que eu era um pela-saco tão do mato quanto ela e que aquilo ali era minha primeira vez também, mas ela parecia tão feliz de estar na cidade grande, num lugar tão sofisticado que eu fiquei com vergonha de bancar o otário. Eu odeio fazer papel de otário, mas quando eu faço, vou até as últimas consequências.

-Estou. Estou ótimo. Você quer escolher? – Disse eu, entregando pra ela o cardápio.

Pronto, estava feito o suicídio social e amoroso na minha vida. Eu não só não havia falado a verdade como não tinha cheque nem cartão de crédito. O dinheiro era contadinho, e eu havia deixado a garota escolher o que pedir.

Enquanto ela olhava em silêncio o cardápio eu pensava na merda que ia ser na hora de sair. Como dizer que não teria dinheiro para pagar? Como pagar o mico de ligar para o meu pai e pedir para ele ir lá pagar a conta? A merda começava a se avolumar cada vez mais e eu devia estar com uma cara de muito pavor porque notei que os caras da mesa ao lado começavam a olhar pra mim.

-Mas está tudo em japonês… – Disse ela. Eu respirei aliviado. A monguice suprema do restaurante havia me salvado.

Qualquer cidadão mínimamente normal iria chamar o garçom e pedir uma sugestão, mas na situação periclitantemente dura que meu bolso estava, eu não daria mais esta chance ao azar. Levantar e sair estava fora de cogitação, uma vez que ela iria passar a maior vergonha e eu mais ainda.

Eu peguei o menu de volta. O menu era cheio de belas fotos e olhei cuidadosamente cada uma das fotos. Foi quando lá no iníciozinho, eu vi uma linda foto de uma cumbuca LOTADA de camarão.

Ao lado haviam uns três troços indecifráveis escritos em japonês.

Dois desses troços eram caríssimos. Um deles era barato. Quer dizer, era caro, mas era o que eu podia pagar. Torci para que o barato fosse a cumbuca de camarões.

Então eu chamei o garçom e apontei para o nome da coisa que eu podia pagar. Pedi aquilo.

O garçom:

-Quantos? – Eu não estava preparado para aquilo. Eu queria ouvir apenas um “sim senhor”. Mas “quantos” realmente me sacaneou.

-Hã?

-Quantos o senhor deseja?

-Errr… Bem, eu não estou com muita fome… (menti. Eu tava com uma forme desgraçada) J* você tá com muita fome? – Perguntei a ela. E como era de bom tom, graças à Deus, a mínima educação a infeliz tinha. Aí ela disse:

-Não… Não muita.

Satisfeito, eu virei para o garçom e disse: Traz um só pra dividirmos. E uma coca. também pra dividir. O garçom acenou com a cabeça e fez uma cara MUITO estranha. Virou-se e saiu.

A cara do garçom ficou na minha cabeça me preocupando por alguns minutos, mas o ambiente era tão legal, tão bem decorado, que eu relaxei e acabei esquecendo dela. Além disso, meu otimismo crônico me tranqüilizava com a idéia de que talvez o garçom tivesse feito aquela cara porque ele queria ganhar 10% em cima de dois cumbucões de camarão.

Dali a pouco veio o garçom trazendo uma coisa estranha. Um guardanapo em forma de leque quente pra caramba.

J* estava em êxtase, eu secretamente havia acertado seu eterno desejo de comer comida japonesa, desde que vira aquilo num filme.

E então depois de um papo de amenidades, veio o garçom trazendo a bandeja. Como nós estávamos sentados na mesa baixinha, não dava pra ver o que havia na bandeja até que ele se abaixou e colocou dramáticamente no meio da mesa.

Ali estava um bolinho. Uma porra minúscula dum bolinho de arroz.

makisalmon520 Comida japonesa

makisalmon520 Comida japonesa

O garçom mandou o clássico:

-Bom apetite. – E saiu. Eu pude ver através da nuca do filho da puta do garçom um sorriso cínico. Meu olhar passeou em câmera lenta por todo o restaurante, desviando-se agilmente dos olhares estupefatos de J* para o bolinho. Eu só parei de olhar em volta quando vi que os caras da mesa ao lado estavam quase fazendo xixi na calça de tanto rir da minha situação escrota.

Então eu tomei coragem e olhei para J*. E em seguida olhei para o bolinho.

-É só isso? – Perguntou ela.

-Acho que é.

-Acha?

-Não, quer dizer. É… Com certeza, é. Sabe como são os japoneses, todos magrinhos…

-Eu não vou comer isso. – Falou ela olhando com nojo para o bolinho que aguardava no meio da mesa.

Pela minha visão periférica eu vi o garçom chegando e por um momento eu pensei que aquilo era um couvert. Eu já ia respirar aliviado quando vi que o garçom colocou uma cumbquinha com umas coisinhas na mesa. Era tipo duma maionese verde e outra com um caldo preto que parecia óleo queimado.

soja508 Comida japonesa

J* olhou pra mim: – Que isso?

Eu apontei com o pauzinho:

-Isso?

wasabi906 Comida japonesa

-É.

-Isso, bem… Sabe como é. Isso é uma… Uma maionese. Uma maionese de alface. Por isso que é verde. Quer?

-Não. Cruz credo. Come você.

- E isso aqui? – Perguntou ela apontando para o shoyo.

-Isso aqui é… O óleo que fritou o baiacú. – Disse eu sabendo que desta frase ela só entendeu a parte do “óleo que fritou”.

-Não vai querer o bolinho?

-Acho que perdi a fome. Além disso, parece que tem uma fita isolante em volta dele. – Ela riu.

Eu fiz o meu clássico ar blasé, como quem diz: “Não sabe nada da vida, né minha filha?”

Então eu peguei o bolinho de arroz enrolado numa fita isolante com uma coisa morta em cima, que visívelmente não ia matar nem 1% da minha fome. Como era pouca comida, peguei TODA a “maionese de alface” E caprichei uma escultura em cima do bolinho.

Olhei para o lado, para a mesa dos três caras e todos eles estavam estupefatos olhando pra mim com os olhos mais arregalados que eu já vi.

Não deu tempo de fazer a conexão. Eu enfiei aquela merda na boca.

Era wasabi.

—–Pausa em luto do meu intestino ——-

Continuando, o tal wasabi que eu pensava que era maionese de alface, era a coisa mais sinistramente picante que eu coloquei na minha boca em toda minha vida.

Eu olhei para J* e a vi terminando de beber o último copo de coca-cola que estávamos dividindo.

-Que foi? – Indagou ela.

Eu não conseguia falar. As lágrimas começaram a escorrer pelo canto dos meus olhos e eu só não vomitei ali mesmo porque eu daria um gostinho para os quatro filhos de uma égua da mesa ao lado. Todas aquelas quatro hienas rindo de mim, esperando que eu gritasse, levantasse correndo pro banheiro ou desse um jato de vômito verde-limão na cara de J* no melhor estilo Exorcista.

Eu comecei a sentir minha glote fechar. Eu achei que ia morrer.

Então, eu reuni toda força universo, toda energia dos antepassados, do cosmos, a força de Gaia, mais a energia vital do meu corpo, mentalizei o kundalini e engoli aquela merda.

J* apenas olhava minha cara vermelha, e as lágrimas correndo pelo canto dos olhos.

-Tá quente? Tá ardendo? Tá com pimenta? – Ela perguntava assustada.
Eu só conseguia mexer a cabeça positivamente. Meti a mão no bolso peguei o dinheiro e joguei sobre a mesa. Levantei peguei J* pela mão e saí puxando ela pra fora do restaurante.

A noite terminou no Mc Donald´s, onde deveria ter começado.

Depois disso, eu fiquei anos sem comer comida japonesa.

FIM

O meu sósia

Parece estranho dizer isso mas eu estava no ônibus outro dia e quando olhei da janela eu me vi parado no ponto, do lado de fora do busum.

Aquele era mais um dia em que eu voltava da escola e foi quando eu me dei conta que realmente tinha uma réplica minha andando solta por aí. Alguns amigos meus já haviam me falado que tinha um sujeito muito igual a mim andando pelas ruas. Eu nunca acreditei, achei que eles estavam de sacanagem com a minha cara. Mas o fato é que era verdade e ali estava o maluco. Exatamente parado como eu parava, usando uma roupa bem parecida com a minha encostado no muro esperando o ônibus.

Eu fiquei com vergonha da situação. Olhei para outro lado me sentindo menos único, menos exclusivo.

Lentamente eu passei a saber um pouco do sósia, mas nunca nos encontramos. Eu apenas o vi quando estava no ônibus. Um amigo meu me disse que ele estava numa festa pegando uma mulher mais feia que a diarréia do capeta. Imediatamente eu reagi alegando que aquele era o sósia. (e era)

Um dia conheci uma menina que era amiga de uma amiga minha, mas que nem me lembro mais quem era que ficou um tempão olhando pra minha cara com uma expressão de completa perplexidade. Eu perguntei o que era e ela falou:

-Nossa, você é igualzinho o primo do Dedé. Impressionante!
-Verdade? – Eu já estava me acostumando com o fato de ter um maluco igual a mim.

Mas a situação mais escrota que aconteceu com o meu sósia, o “primo do Dedé” foi quando eu fui com a minha mãe no shopping. eu estava vestindoa  roupa mais “standard” existente. Camiseta branca e calça jeans.
Era período de natal e sabe como fica o shopping. Uma lotação absurda onde não há espaço para nada.  Eu fiquei andando com ela de loja em loja vendo presente, mas confesso que na segunda loja eu já estava odiando aquele programa de índio. Combinei com ela que iria para a livraria e que nos encontraríamos na praça central do Shopping.

Fui para a livraria e como era de se esperar, perdi a hora.

Na hora marcada, minha mãe foi para a praça central e me viu passando. Ela resolveu me dar um susto e chegou atrás de mim e pegando aquele comprido canudo de papel de presente deu uma solene paulada na minha bunda. (coisa de Joselito sem noção)
O problema é que não era eu. Era o sósia. O maluco deu um pulo e olhou pra trás assutado. O shopping inteiro olhando.

Minha mãe ficou catatônica, bolada olhando pro sujeito. Obviamente aquele ali não era o filho dela.

Aí sabe o que ela fez? Deu uma de maluca. Saiu falando um monte de coisa sem nexo. Coitada, morrendo de vergonha.

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