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Diástole do ponto final

Já Turvando o olhar
O calor e o cansaço
Dor no peito a espetar
Espalhando pelo braço

São as últimas batidas
numa franca contração
Você pensa que é fadiga
e se agarra no portão

Quando olha para cima
não acha explicação
Sua perna já fraqueja
Tentando se apoiar no chão

O povo vem correndo, pra assistir e ajudar

Junta gente curiosos,
alguém diz que é possessão,
Chamam polícia ou bombeiros,
emergência ou rabecão
Chama o padre para dar
a extrema-unção

Alguém grita “abre espaço”
no meio da multidão
soca seu peito e até machuca
A morte bafeja na sua nuca
Enquanto o cara te batuca
tentando a reanimação

Mas nada vai dar jeito
Na sua situação
Com os olhos revirados
branco como assombração
Uma moça se benzeu,
Uma velha passou mal
o povo em aflição,
Te cobriu com um jornal

Acenderam uma vela, ali perto do seu pé,

E você percebeu até
como é bom ser atração
em breve vai passear
Deitado no caixão

Seu nome vai surgir
bem na pagina central
Perto de um político
da coluna social

O jornal vai te estampar
de uma forma mais banal
num tom mais funerário
diria até sepulcral
seu nome no obituário;

e então, ponto final

Abdução

Textos
210525 Papel de Parede Abducao 1600x1200 300x225 Abdução

Naquela noite bela
Escura e estrelada
Olhei pela janela
E vi, ali, perto da escada…
Seus olhos escuros
Que me assustaram
Sua boca fina
Não me disse nada
Eu quis correr
Tentei me esconder
Mas perna eu não tinha
Congelei de aflição
foi tudo se apagando
e eu caí no chão
Acordei numa mesa
Sentindo um frio do cão
Era tudo brilhante
Com um ar cortante
Cercado por paredes de metal
Me sentia muito mal
Com a dignidade de um animal
Tinha mais alguém
Que eu não conseguia ver
Tentei virar a cabeça
Mas não podia me mexer
Uma mão gelada
Segurou no meu braço
Minha respiração falhava
Obliterada pelo cagaço
Experiência desesperante
essa que eu sofri
Eu tentei gritar
Sem sucesso, tentei lutar,
pra me libertar
E então eu vi…

Uma criatura ascética
enfiada num macacão
a cara era esquelética
Contrastando com o cabeção
E pálido feito assombração!
Os olhos eram bolotas escuras
Sem emoção,
não parecia triste nem feliz
E quase não tinha nariz.
Certamente não era gente
Era coisa doutro mundo
Ou até do cramulhão
Não me lembro muita coisa
daquela abdução
Acordei congestionado
confuso e tremendo
com aquela situação
Minha cabeça tava doendo
Senti nas pernas um comichão
Vi o brilho sumir no céu
entre as estrelas do firmamento
Tentei esquecer aquele acontecimento
Ninguém ia acreditar
Fiquei chateado
Mas de que adianta chorar
pelo leite já derramado?
Receio de ficar com fama de pirado
Sozinho no pasto e com medo
longe de casa pra dedéu,
Guardei o segredo
que eu levaria pro mausoléu.
O aparelho existe sim senhor
Não quer acreditar? Se esforce.
Admita,
Na calada da noite você também torce
pra não receber uma “visita”.

FIM

A fúria

Textos
A agonia dos anjos estremeceu o céu
Escurecendo a alma dos mentecaptos
O fogo consumiu até a última folha do papel
E o sangue gotejou no mato, para a alegria dos carrapatos

O sol não surgiu quando deveria
A Terra tragou os últimos resquícios da luz
E a tristeza de uma agonia fria
Foi o que restou à carne, para alegria dos urubus

As folhas secas se espalharam pelo ar
Perfumando a morte e decorando as rochas
Enquanto o peito das pedras ainda insistia em pulsar
em cadentes sismos, estendendo abismos, para surpresa das minhocas

Não teve choro, não houve lamentar
Os trovões explodiram nos céus escarlates
E os raios cortaram a imensidão do espaço, Refletindo no mar
que já começava a secar, para desespero das jubartes

O deserto engoliu cidades destroçadas
As areias tragaram as lembranças intactas
e cobriram os corpos das pessoas espalhadas,
apodrecidas e ressecadas, para a alegria das baratas

Quando a vida enfim cessou, num fraco suspiro do vento
Ninguém deu pela falta do planeta, e daquela população,
Já não havia mais esperança, emoção ou pensamento
Encerrava-se o ato derradeiro, para a fúria espetacular da recriação

Descontrole

Textos
A programação deu revés
Com qualidade chinfrim
Não passa mais nada que presta
Todo canal tá ruim…

Porque é que eu fico assistindo?
Este monte de clichê
Informações inventadas
Com propaganda avontê…

Então eu troco o canal
Esperando assistir
Alguma coisa que presta
Mas tá duro de engolir…

A televisão está uma merda
a programação um pesadelo
Eu investi uma fábula
Pra atrofiar meu cerebelo…

Mas acontece que eu
Resolvi me arriscar
Paguei uma grana esperando
Solução com a TVA…

Eis que deu mais  um problema
Triste ter que admitir
Propaganda pra todo lado
E reprises a me punir

Devo aceitar meu destino
E ver mais televisão
Vejo qualquer merda que passa
Bosta em alta definição

 

Troll music

Textos
Me olhei no espelho
E vi um idiota
Um paspalho escroto
Era uma marmota;

Ia pouco a pouco
começando a ver
O quão sequelado
Eu conseguia ser;

Meus cabelos ralos
e desgrenhados
Pareciam bosta
de tão engordurados;

Eu era um desastre
um aborto da natureza
Eu era um estupor
Uma completa tristeza;

Eu parecia uma foca
Com a cara tão inchada
Meu nariz pontudo
minha boca rasgada;

E aquela mágoa
Que eu cultivava
Doía tão fundo
que até latejava;

(solo)

Toda estupidez
De um paspalhão
É dor que rasga a carne
mói o coração;

cheiro de defunto
Filé de borboleta
que eu até pergunto
Se não bati a caçuleta;

trollando na internet
Que não me sinto mal
em tudo a gente se mete
se sente o maioral;

Mas é tudo falsidade
duma alma lazarenta
disfarço Inferioridade
em frases virulentas;

Disfarço Inferioridade
em frases virulentas;

Dilema

Textos
Tem coisa que acontece com a gente
Informando que a gente cresceu
Uma garota insolente
desperta um gigante que adormeceu

A vida que vinha distraída
é uma ilha cercada de mar
Sozinho entre os meus amigos
fiquei perdido no seu olhar

Na certeza, no engano
Na boate, no salão
Cortei o cabelo moicano
Pra despertar sua atenção

Amor profundo, paixão fulminante
Ela é origem da minha atração
Preciosa como diamante
posseira do meu coração…

Ela parece indiferente
Eu riso é capaz de ferir
Toda iniciativa inocente
Quando resolvo investir
Não sei se chamo pro cinema
Ou pra beber lá no bar
Vivo num completo dilema
Só pensando em beijar…

Amor profundo, paixão fulminante
Ela é origem da minha atração
preciosa como diamante
e posseira do meu coração…

Durante uma caldeirada
Não contive o meu olhar de ardor
só vi quando caí na emboscada
Num medo perturbador…

Eis a situação emotiva
Do dilema a me atraiçoar
A garota em contra-ofensiva
passou a me ignorar…

Rainha do meu império
é origem da minha atração
Tem o olhar de mistério
Que me arrebata num arrastão…

Desembestei da lombeira
meu coração despencando
Mas ante tanta bobeira
Ela saiu chorando…

Agora estou na expectativa
Se devo me aventurar
Ou se vou na evasiva
esperando a vida me levar…

Amor profundo, paixão fulminante
Não é hora de olhar para trás
Neste dilema sufocante
A gente se arrepende é do que não faz.

FIM

Tá aí um poema em homenagem ao meu amigo Caio, que tá num dilema desse tipo aí. ( na base mais ou menos de “Roda Viva” do Chico, que é uma letra que gosto muito)

Lá vou eu pros 80

Textos
Lá vou eu pros oitenta
Quando Simony era musa
E a gente ia no show do Cazuza
E tinha a Zebrinha no Fantástico
Meus transformers de plástico
Sem falar nos comandos em ação
Perdidos na noite com Faustão
E o programa do Bozo
E Alf, o ETimoso
Tinha diplink e mão de aço
Ferrorama e Perdidos no espaço
Arthur era meu robô
Que nunca trouxe o jornal
Clodovil era “Clô”
E toda tarde tinha Nescau

 

Lá vou eu pros oitenta
Ver corrida do Senna
e rir com os trapalhões
na tv e no cinema
Vou ouvir as canções
do Biquíni Cavadão, do Ira, e do Barão
Sem falar no Capital
Incluindo RPM, Plebe Rude e Legião
Ver novela Pantanal
Vale tudo e Roque Santeiro
Cantar as musicas do Hollyood no chuveiro
Prince pegava geral
Michael Jackson virava zumbi
e cigano era o Sidney Magal

 

Lá vou eu pros oitenta
Ver mulher nota mil
brincar de playmobil
E montar o ferrorama
Curtindo a vida adoidado
Num copo de Malt90 ou Brahma
Quando a gente era convidado
Meninos levam bebida e meninas o salgado
Rolava oingo boingo, The police
Pretenders, New Order, e Kiss
Era uma coisa meio louca
Esperar a musica lenta pra beijar na boca
A madonna era gostosa
E de manhã passava o Visconde de Sabugosa

 

Lá vou eu pros oitenta
Ver a bolha do Volpone, o tesouro do seu Nonô
Renato Villar, Tio Maneco e Espanto, o seu robô
Beato Salu, Navalhada, Professor Astromar
Do lobisomem ao bruxo Ravengar
direto da terra de Avilan
Sem parar de me perguntar:
Quem matou Odete Roitman?

 

Lá vou eu pros oitenta
Ler chiclete com banana
e coleção vagalume
ouvir o Hit da Rosanna
Esguelando no volume
Para os Menudos superar
Se o vizinho reclamar
tem Atari, Genius e Odissey pra jogar
E quando cansar, ir pra rua brincar
Pique esconde, polícia e ladrão, corrida
E se por acaso a gente machucar
tasca mercurocromo na ferida
pois merthiolate arde pra danar!

 

Lá vou eu pros oitenta
Rir da tanga do Gabeira
Descer de Gurgel uma ladeira
descolar um da latinha
pra esperar o programa do Chacrinha
e votar no macaco tião
No Juruna, não!
Comprar a playboy da Luma
E pagar com um barão
Antes que o dinheiro suma
Na boca da inflação

 

Lá vou eu pros oitenta
Ver Casal vinte, As panteras e o Hulk
Jennie, feiticeira e o Mcgyver com seus truques
Tem Banco Nacional e as pernas das paquitas
E a blitz cantava “Ok você venceu, batata frita!”
E calça Baggy a gente achava bonita
Encontrar o baixinho da Kaiser, o Araquen
rememorar como ninguém rebola tão bem
Quanto a Gretchen
Ver as mulheres atochando o biquíni
com sorte encontro a Luciana Vendramini
E mesmo que a sorte não me dê a “bênça”
Posso dar de cara com a Maitê Proença
Mas se eu não encontrar nenhum desses vips
Volto para casa pra ver Chips

 

Lá vou eu pros oitenta
Porque só  lembrar meu coração não aguenta

FIM

 

Dueto

Textos
Eu estava de bobeira aqui e resolvi criar um dueto. Eu acho os duetos muito legais, sobretudo entre casais, e embora hoje em dia seja uma coisa meio fora de moda na musica, quem sabe um dia volta. O que está em vermelho é a mulher, e o que está em preto é o homem. O azul são os dois. Não ficou lá grandes coisas, mas se você visse a velocidade com o qual eu fiz isso, acreditaria que foi psicografado.  Aqui está:

 

DUETO

 

Não sei porque

eu ainda te espero

Não sei porque

eu não te esqueço

Não sei porque

me torturo  assim

Toda noite

a imaginar

Toda noite

a te buscar

Toda noite

a me enganar

 

Você é aquela luz

na escuridão

Você tem todo meu viver,

minha razão

Tanto tempo que o nosso amor,

não esfriou

 

O amor maior que eu não pude dar

Você levou

 

Deixa eu fazer parte

da sua vida outra vez

Quando eu parti

foi por estupidez

 

É a volta que tanto desejei

Mas não há lugar pra nós dois…


A luz eu já apaguei

Eu só queria

te enxergar

As janelas eu já fechei

Pra mais uma vez

te contemplar

A porta da sala eu tranquei

Deixe ao menos

eu tentar entrar

 

Só pra mais uma vez

juntos

nos separar

 

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