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Efeito Okinawa

Numa sala branca, quase hospitalar, está uma mesa. O vidro grande na lateral reflete o que se passa no interior da sala. Nela, há apenas um velho japonês fumando um cigarro. Ele está sentado na cabeceira da mesa de madeira escura, olhando para o vazio.
No fim mal iluminado da sala, a porta se abre e entram dois outros orientais. Eles falam em japonês. Os três homens se cumprimentam solenemente. E então há um silêncio perturbador naquela pequena sala.
O policial mais gordo traz consigo alguns papeis, que joga pesadamente sobre a mesa.
Impassível, na outra ponta da mesa, o velho continua a fumar.

-Então senhor Takahashi?
-… – O velho se mantém em silêncio.
-Vai colaborar com a polícia? Já demos um tempo ao senhor.
-O velho apenas sorri. Apaga demoradamente a guimba do cigarro num cinzeiro carcomido no canto da mesa.
(mais…)

Lama

Quando vejo na Tv
A tristeza me invade
Tenho visto tanta morte
Destruição pela cidade

Sangram ocre os morros verdes
Encostas que já não vejo
Já não sobra nem um teto
Em meio a lama, e o céu negro

Põe a culpa na natureza
O descaso me arrepia
Mas nada do que me prometem me faz perder a apatia

Eu só queria ter uma mata
Uma serra montanhesa
Pra rever meus companheiros
E aplacar minha tristeza
Segura firme moço lá vem a correnteza…
E vamos perder tudo, ficar na pindaíba
Senão chegar a morte
Ou coisa parecida
E te arrastar moço
na lama homicida

Eu só queria ter um barco
E uma política dinamarquesa
Pra valer o meu dinheiro
E não ver tanta torpeza
É o fundo do poço, falando com franqueza
E deixemos de coisa, traz os donativos
Senão chega tarde
Morrem de ansiedade
e o único colosso
é a solidariedade

É pau, é pedra, é o fim da cidade
É uma escorregada, é uma calamidade
É um povo varrido, pingos do temporal
É a noite, é a morte, é o abraço mortal
São os culpados de sempre culpando a monção
É a promessa de investir no próximo verão.

é a lama.
é a lama.
é a lama.

Assombração macabra

Acordei na escuridão

Na boca já saía o meu coração

O peito arfante e o corpo suando frio

Ouvi um grito maldito

Senti um súbito arrepio.

A porta abriu num horrível rangido

E eu pensei também ter ouvido

um macabro gemido.

Era minha primeira noite naquele casarão

Que eu acabara de comprar

Lembrei que o corretor não quis entrar

esperou lá no portão.

Mas com um preçinho que cabia no meu orçamento,

não liguei pro histórico de tormento:

Fantasmas, diabos, criaturas e assombração.

Coisas que o povo inventa.

Quem conta um conto, sempre aumenta.

Eu que não sou de ter medo de bicho papão.

No meio de toda aquela escuridão,

Receava dar de cara com uma aparição.

Mas antes de me desesperar,

Coloquei a cabeça no lugar.

Precisava honrar o meu testículo!

Aquilo era engraçado de pensar,

Machão com medo de fantasma é ridículo

Levantei com empáfia e desafiei o negrume

Se tivesse alma ali que surgisse na minha frente

O tempo passou lentamente,

não teve luz nem fumaça ou perfume.

E eu me senti o mais valente.

A minha moral durou pouco, infelizmente.

Um braço frio e magro me abraçou por trás

E eu senti um cheiro de decomposição herética

Tentei me soltar, mas o defunto era sagaz

Segurou meu pescoço com a mão esquelética

Um rosto sem cor, uma voz de esturpor

Disse “Rapaz…

tua macheza irritou o meu penar!

A gente estava quieto no nosso canto,

e você veio perturbar.

Agora, não resta outra solução!”

Pra meu grande espanto,

Um defunto veio me buscar.

A garganta já queimava no calor da morte

Tentei gritar mas não consegui.

Eu só queria mudar minha sorte,

mas o fantasma apertava forte

E então, desfaleci.

Deslizei na fria escuridão do óbito

Passando rápido por corpos moribundos

Arrastado pela mão maldita

Contemplei meus medos mais profundos

E acordei num grito súbito

Que acordou a vizinhança

Era tudo um pesadelo

De quem enchera muito a pança.

Mas desde aquele dia,

nunca mais tive sossego.

Toda noite mais sombria,

sinto uma trancada no meu rêgo.

Ressabiado a recordação do sonho me espanta

E ainda sinto aquela mão gelada na minha garganta.

FIM

O criminoso da rua Madison

Carl deu a última tragada no cigarro, que já era uma pequena guimba entre seus dedos. Apreciou a escuridão daquela noite gélida.

A neve havia finalmente parado de cair e o silêncio parecia egolfar a cidade como num vácuo opressor. Carl estava no escuro, segurando o taco de baseball. Na cintura, o revólver.

Seus músculos retesados aguardavam o momento de agir. Aquele era o oitavo dia em que Carl ficava no escuro, armado, pronto para o combate. Carl morava na rua Madison desde que nasceu. Cresceu andando de bicicleta naquela rua. Fez amigos, inimigos, conheceu Sarah, namorou com ela, apanhou dos dois irmãos dela, depois ficou sem ver Sarah por quase vinte anos, porque ela se mudou. Quando se reencontraram por acidente no metrô de Nova York, ela já estava casada, com filhos gêmeos.

Após Sarah, Carl nunca amou ninguém.  Se alistou na Marinha  e virou fuzileiro.

Carl perdeu os pais, testemunhou quando o bairro começou a gradualmente entrar em uma espécie de decomposição social. Quando os primeiros traficantes surgiram, no início da década de 80, todos os que podiam se mudaram. Viu o bairro de brancos se tornar um bairro negro e depois, quando nem os negros aguentaram o rojão,  o bairro Bowling virou um bairro de chicanos.

O bairro se chamava Bowling porque nos anos trinta havia um boliche famoso no fim da rua Madison. Grandes campeonatos mundiais aconteceram naquele local. Hoje, só resta um monte de ruínas que sobraram de um cinema decadente que abriu no local onde existira o boliche. De fato, as pessoas faziam piada com o estado de degradação daquele local, onde a polícia nunca ia. O bairro, repleto de bandidos, gangues, traficantes e viciadas doentes, que se prostituíam nos canteiros e becos, era famoso pela prostituição que corria tão solta que o bairro já era chamado de “Blowing”.

Os que não podiam, acabaram gradualmente abandonando as casas e indo viver em outros lugares. Apenas uma meia dúzia de corajosos havia resolvido ficar na Madison, a despeito dos traficantes e das gangues, que agora tornavam a vida naquele local um inferno. As casas ao redor da dele, já haviam sido invadidas e saqueadas. Eventualmente, mafiosos vindos da Rússia desfilavam em carrões imponentes. Chefões mal encarados se atracavam com mulheres voluptuosas da Europa Oriental enquanto eram atentamente vigiados por capangas armados. Ninguém ousava mexer com aqueles caras. Eram os novos donos do pedaço.

Mas no fim daquele ano, alguma coisa aconteceu que atrapalhou os “negócios”. Os chefões mafiosos, cheios de joias, carrões mulheres, charutos, casacos de pele de foca e vodka sumiram de uma hora para outra. E faltou droga.

Carl sabia que os viciados em crack estavam entrando em crise. Aquele inverno havia sido severo demais, e por alguma razão que ele não saberia explicar, a droga não havia chegado ao distribuidor. Quando falta de um lado, alguém lucra mais do outro. Isso é um fato. Quando o preço do crack disparou, os maloqueiros começaram a se desesperar como siris na lata de um pescador.

Sem ter como obter dinheiro, e com menos gente nas ruas devido ao frio, mendigar já não dava certo. Foi quando as invasões nas casas começaram a se tornar mais e mais comuns. Fazia mais ou menos uns nove dias que a casa da senhora Huppert havia sido invadida na calada da noite.

A idosa fora surpreendida quando via Tv. Segundo a noticia patética que saiu nos jornais, a senhora Huppert tentou gritar por socorro, mas foi violentamente chutada pelo invasor, que levou suas recordações de família. A viúva morreu com traumatismo craniano e hemorragia interna. O mais triste de tudo, é que a senhora Huppert não havia sido a única. Outras pessoas como a família Slinks no fim da rua tiveram a casa arrombada. Equipamentos eletrônicos, dinheiro, e joias foram levados. Os Slinks foram amarrados no sótão, e a Nora, a filha mais nova, sofreu abuso sexual.

Carl não estava disposto a ter a casa dos pais dele arrombada. E era por isso que resolveu montar guarda e surpreender o maluco, caso cometesse o erro de invadir a sua casa. Noite após noite, ele montava guarda ao lado da porta, esperando que um dia alguém tentasse invadir. Carl só entregava os pontos e ia dormir quando o sol já iluminava o matagal da casa em frente.

A noite parecia não passar. Ex-militar e combatente, Carl sabia como era duro passar a madrugara acordado, montando guarda. Ele agora vivia sozinho naquela casa, e sem família, só podia se lembrar dos natais felizes que passava com os pais em suas memórias.

Era natal. Carl se surpreendeu ao perceber aquele detalhe peculiar. Imaginou as pessoas felizes, comemorando ao redor de grandes mesas fartas e bebendo vinho. Crianças abrindo presentes entre gritos e correria. Agora, pra ele, o natal era um dia como outro qualquer. Até mais triste do que o normal, pois era quando Carl se lembrava dos pais, há muito falecidos. Os pensamentos de Carl se apagaram como um passe de mágica, quando seus ouvidos escutaram um leve estalo na tábua da varanda.

Ele prendeu a respiração e ficou escutando. O ruído cessara tão subitamente quanto ocorrera. Carl se manteve alerta. Esperou. Mas não aconteceu nada. – “Talvez seja um gato”  – Tentou justificar mentalmente.

Mas então a maçaneta da porta lentamente girou. Carl arregalou os olhos. Era aquele o momento. Ele se encostou na parede, perto da janela. Segurou o taco com as duas mãos retesadas. A maçaneta girou lenta e silenciosamente, até que fez um “clik”.

Carl esperou. Estava ofegante, ele sempre ficava ofegante em situações de combate.

Lembrou as instruções do sargento James que sempre eram de fazer uma boa base. Carl dobrou levemente os joelhos e afastou as pernas. Na porta, um outro clique se fez ouvir.

Ele sabia o que aquilo se tratava. O meliante vagabundo estava usando algum tipo de gazua para abrir a porta. Não parecia ser um mero gatuno maloqueiro querendo comprar uma pedra. O silêncio e o cuidado com que ele girara a maçaneta, a forma cuidadosa com que ia gradualmente testando o segredo da porta da sala, mostravam a Carl que ali talvez estivesse um profissional.

Carl esperou. Ele tiraria proveito do elemento surpresa.

Click.- A porta abriu.

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Dor do parto

Eis a minha despedida, eu me viro e parto
Saio quieto pois falar o que eu sinto eu já não suporto
Coração na boca, tristeza no peito, vazio no quarto
Amargura do desejo, no distante perto
Vou em busca de outros ventos num possível porto

Deixo pra trás a minha vida, minha morte, minha alegoria
Nas lembranças dos momentos torturantes de alegria,
Resignado contemplo a mais triste agonia
É o final, é a partida, é a desgraça que me agracia.

Estou morto pra você, não venha atrás, não me vele nem me espere
Que o que está feito está feito e não há mais outro jeito
já não há mais como voltar, grilhões rompidos nunca voltam a se atrelar
Te desejo boa sorte, deixe a vida entreaberta
Enterre o nosso amor que eu já sigo o meu caminho
Abra seu coração para uma nova descoberta
Arme seu alçapão para pegar outro pobre passarinho

O homem com defeito

Era uma vez um cara que tinha um grande problema. Tudo parecia dar errado na vida dele. Ainda jovem, ele perdera os pais. Adotado forçosamente por uma velha tia viúva e lésbica, sofreu com os maus tratos. Depois foi parar num colégio interno onde sofreu violências diversas. Quando adolescente, fugiu do colégio interno e  começou a trabalhar como auxiliar de sapateiro. Apanhava constantemente. Mas ali aprendeu um ofício. Um dia, o sapateiro morreu e ele ficou sem emprego.

Agora já era um adulto, e não havia emprego em que parasse por mais de dois meses. Tudo que ele fazia dava errado. A sua aparência também não ajudava. Ele era manco de uma perna, vesgo e tinha grande dificuldade para falar. Mas isso nunca o deteve. Nunca o fez esmorecer. Ele persistia, e sem perder a calma, a cada desgraça que lhe abatia, buscava uma solução e recomeçava a própria vida.

Foi garçom, faxineiro, camelô. Camelô foi o “emprego” no qual durou mais.

No ofício de vendedor ambulante de chocolates, conheceu Selma. Apaixonaram-se e casaram-se numa pequena cerimônia para meia duzia de gatos pingados – todos da família dela. O casório ocorreu numa pequena igreja que não tinha mais que nove metros quadrados, e que ficava na beira de uma estrada. Com Selma ao seu lado, ele se sentia o melhor dos homens. Prometeu a si mesmo que daquele dia em diante, seria cada vez mais feliz. Pensou em ter uma penca de filhos e construir uma casa melhor que o casebre provisório de parcos tijolos aparentes, construído nos fundos do tereno do sogro.

Nunca teve filhos com Selma, pois menos de dois meses após o casamento, ele descobriu que ela tinha um caso com um pedreiro que morava num barraco três casas à frente. Tentou bater na mulher, mas foi espancado pelos irmãos dela.

Aquilo mexeu com a alma daquele homem e ele ficou triste por vários dias. Humilhado, saiu de casa. Perambulou pela rua sem rumo. Sem destino. Sentia-se um verme.

Perdeu a banquinha para o rapa.

Estava agora perdido na vida. Encostado numa calçada de avenida.

Tentou ganhar algum para comer. Desesperado, improvisou como flanelinha. Mas não tinha como pagar os policiais do pedaço e dançou nas mãos dos “homi”.

Saiu sem rumo, foi parar em outra praça.

No reflexo de um carrão importado cuja marca era tão sofisticada que ele nem ao menos sabia falar o nome, ele pode se enxergar pela primeira vez em vários dias. O reflexo personificado da desgraça.

Barbado, despenteado, roto e mal vestido… Era um fracasso. Um fracasso humano.

Olhou ao redor e viu belos casais. Pessoas felizes. Pais de família levando as crianças para brincar. Homens ricos passavam de ternos caros rumo aos seus trabalhos em prédios de vidro e aço.Amigos conversavam animados na mesa de bar.

Lembrou que não sabia o que era ter amigos.

E ele ali… Na praça. A perfeita personificação do fracasso. Sem dinheiro, sem amigos, sem sucesso. Sem nada. Nada além da fome.

O sino da igreja tocou e foi como se uma mágica inspiração lhe surgisse nos ouvidos: Deus!

Sim, somente Deus poderia dar jeito naquela situação miserável.

Ajoelhou-se no chão e fechando os olhos, apertou as mãos na forma de prece e orou com toda força de sua alma para que o Todo Poderoso lhe desse um destino melhor, uma pista, ou ao menos lhe explicasse a razão de todo aquele sofrimento.

As pessoas passavam e se admiravam daquele homem sujo, torto e estranho, orando fervorosamente no meio da praça.

Foi aí que aconteceu uma coisa que ninguém que tivesse testemunhado, se esqueceria jamais.

O céu se fechou em nuvens pesadas e trovões ecoaram nos céus. Trombetas místicas estouraram nos ouvidos daquele homem, e num súbito, uma voz rouca que mais parecia um trovão despejando toda a fúria jamais imaginada por um  humano fez-se ouvir. As pessoas que andavam pela praça nada ouviam ou viam. Mas ele, o desgraçado, moribundo, sujo e fedorento, não só ouvia como também via.

Após as trombetas explodirem no ar, uma luz muito branca surgiu do meio das nuvens e ele não ousou olhar na direção do facho. Não se sentia digno.

E a voz falou. Falou tão alto e claro como nenhuma outra voz havia falado com ele até então.

-Meu filho… O que queres de mim?

-Meu pai. Perdão por incomodar.

-Fale.

-Eu queria uma chance. Uma chance de mudar. De ser alguém mais bonito, mais forte, mas alto, mais rico, ou pelo menos mais feliz.

-E o que te impede, meu jovem?

-Não sei, Senhor. Sou um fracasso. Nunca dei certo em nada. Só conheci o sofrimento e os erros. Nunca acertei em nada que fiz e não posso acreditar que o Senhor em sua infinita bondade queira tal destino pra mim.

-Tem razão, meu filho. Não quero… Algo saiu errado.

-Saiu?

-Sim. Certamente que não era para você penar tanto por aí. Nunca viste o bilhete de loteria que eu joguei no seu pé?

-Não senhor.

-Nunca recebeste a proposta de emprego do homem que mandei comprar doces na sua banca? Um de gravata… Na quarta feira, se não me engano.

-Não senhor. Esse homem comprou doce na baca ao lado.

-Estranho… Por acaso nunca recebeste uma herança de uma tia distante, que morreu lá pros lados de Poços de Caldas?

-Não, meu mestre.Nunca. Sou sozinho. Não tenho ninguém.

-Muito estranho mesmo. Nem amigos?

-Não sei o que são amigos, mestre.

-Mas e os filhos? Certamente te dei varões.

-Não… Não pude ter filhos, senhor. E minha mulher foi adúltera.

-… – Deus parecia decepcionado e surpreso. Parou por um momento e então voltou a falar. -Meu jovem… Isso de fato não é normal.

-Eu sei, senhor. Certamente que tamanha quantidade de desgraças só poderia ser coisa do…  – Ficou na dúvida se falava capeta, belzebú, demo, satã, satanás, lúcifer, cramulhão ou capiroto. Ante tantas opções, todas aparentemente impróprias para se falar com o Onipotente, optou pelo eufemismo.  – O “Inimigo”? -Indagou, já temendo a reação divina.

Mas Deus começou a rir.

-Não, não. Nada a ver. Eu creio que seja algum tipo de erro. Eu criei as pessoas para serem felizes, para que tudo saia bem. Meu jovem, olhe para dentro de você e se pergunte: Você é mesmo um fracassado? Você só conheceu o sofrimento e a desilusão? Isso é a verdade?

O homem desgraçado parou e seguiu a ordem do Senhor. Refletiu sobre sua vida até aquele momento.

-Sim, mestre. Minha vida foi marcada pelo sofrimento e pela dor. Tudo que eu queria era conhecer a felicidade. Ganhar na loteria, ficar famoso, bonito, arrumar mulher e filhos, viajar pra Orlando e comer camarão…

-Então, meu caro. Não vejo outra solução que não convocar sua alma para um recall.

-Hã?

-Certamente você está com defeito! – Disse Deus, apontando-lhe o dedo.

Um clarão de luz estourou do céu, e foi assim que, naquele dia, num dia comum como todos os outros, em plena praça central, um raio caiu sobre o mendigo, pulverizando-o numa fração de segundos.

As pessoas correram assustadas.

O estranho fenômeno atmosférico incomum acabou descrito numa minúscula coluna de jornal do qual atualmente ninguém se lembra mais.

E as únicas marcas do episódio foram duas marcas de queimado no meio da praça.

FIM

Soneto da desilusão twitteresca

Foi numa mensagem tão pequena,
em cento e poucos caracteres.
Expondo meu sofrimento na arena,
dizendo que já não me queres.

Twittei desesperado,
Postei risos e brincadeiras.
Tentando não parecer machucado,
Usei a máscara mais zombeteira.

Dei RT e até abri um trend topic,
na esperança que assim ninguém notasse.
De soslaio ganhei um block
Quando só queria que o twitter baleiasse.

E online me deixou numa página aborrecida,
Saiu, fazendo logoff da minha vida.

Fome brutal

Fome brutal é algo que surge de repente
E vem com tudo pra dentro da gente
A tevê em todo canal é igual
Exibe comida no intervalo comercial

É sanduba é macarronada
É pizza, lasanha, picanha e carne assada
É comida, caseira ou comprada

Comida fácil de fazer
Rodízio caro de pagar
Lanchonete pra satisfazer
a overdose alimentar

E a gente vai comprando, vai comendo
Vai levando, sem parar

Pro preso é uma quentinha
Pro mendigo é um golpe de sorte
Pra modelo é só uma folhinha
Pro marinheiro é atum, bacalhau ou um peixe do norte

Pra uns é o sentido da vida
Pra outros o horror anoréxico
Pro peão é o recheio da marmita
Pro o gourmet é um toque complexo

Pro gringo é um prato francês
Com uma coisinha colorida
Pro brasileiro é um prato de cada vez
Transbordando de comida

Arroz e feijão não são uma combinação qualquer
Yin e yang no meio do seu prato
Quando muito cabe também um filé
E uma salada pra dar cor de mato

Fome brutal que chega de repente
É o clamor nas nossas barrigas
Que na madrugada acorda a gente
Para alimentar as lombrigas

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