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A busca de Kuran – A maldição de Taklimakan

Allan deu uma golada no copo de uísque. O copo esvaziou e ele foi até o outro lado da mesa, buscar mais.

Eu fiquei ali, pensativo. Seria um aviso a misteriosa frase daquele velho? Todos os meus sentidos me diziam que eu não deveria me arriscar naquele lugar poeirento. Mas agora eu estava em Markit e não havia muito que pudesse ser feito.

Tentei entender a visão daquele velho chinês. Aquela aventura parecia completamente sem sentido para qualquer pessoa que não fizesse parte da expedição. Certamente que ele pensava que nós eramos um bando de malucos cheios de dinheiro, vindos sabe-se lá de onde, do outro lado do planeta para sair andando desembestados enfrentando toda sorte de perigos num deserto onde não havia nada além de areia, dunas e pedras.Eu não podia culpar o velho por nos achar idiotas. Certamente, despreparados para enfrentar o deserto.

Neste ponto da jornada, eu ainda não sabia várias coisas. E principalmente, não conhecia os meus colegas de aventura. Apenas havia feito amizade com Allan, que me parecer ser gente boa. Mas havia muitos outros que conheci superficialmente naquela noite. De longe, sentado na cadeira de madeira, eu olhava um a um tentando detectar algum sinal que indicasse experiência. Muitos homens da expedição me pareciam velhos demais. Petrus, por exemplo. Embora demonstrasse grande vigor, eu não sabia se ele aguentaria até o fim naquela imensidão. No entanto, preferi guardar pra mim os meus pensamentos negativos do que compartilhá-los com outros membros da equipe. Uma das coisas mais importantes da aventura eu fui aprender depois, no decorrer da jornada, que era de manter um pequeno caderno de notas sempre ao alcance da mão. Ali eu colocava meus pensamentos e dividia, mesmo que com o papel, minhas angústias. Foi graças a este bloco, hoje um montinho carcomido de papel amarelado que está quase virando pó, que eu pude guardar os nomes e alguns dados de cada um dos componentes da expedição. Como eu era ruim para nomes, acabei usando o recurso da caderneta para poder me comunicar mais facilmente.

A formação original que conheci naquela primeira noite em Markit era:

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A busca de Kuran – A viagem

Quando dei por mim, eu estava sentado junto à janela, embarcado num trem rumo ao Rio de Janeiro.

Leonard era um cara estranho. Falava pouco. Mas quase sempre, o que ele falava estava certo. Eu não sei dizer o que foi exatamente que me fez confiar naquele desconhecido e largar meu mundinho para trás. Passei tantos anos lendo os livros do Julio Verne e aventuras de gibis que me ver protagonizando minha própria aventura pessoal trazia um gosto diferente do que eu estava acostumado.  Era um misto de medo e curiosidade. Eventualmente, enquanto o trem balançava em suas espaçadas e ruidosas serpenteadas pelos caminhos de ferro, eu apertava o rubi azul no meu bolso. Eu esperava que ele ficasse quente ou realizasse qualquer proeza novamente. Inúmeras vezes me perguntei se não estava sonhando, se não havia sido drogado com a bebida da festa ou se tudo aquilo não passava de um sonho muito louco. Tive medo de acordar a qualquer momento com o raio do sol entrando pela janela do quartinho. Talvez por isso eu me mantivesse acordado enquanto todos no vagão pareciam dormir pesadamente.

Leonard dormia ao meu lado. A cabeça caída para trás, a boca aberta, rocando feito um javali raivoso. Olhando assim ele não parecia tão sóbrio e elegante.

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A busca de Kuran – Como eu conheci Leonard

É engraçado escrever sobre alguém tão importante. Durante anos eu hesitei se deveria fazer isso ou não. Hoje, após pegar o maldito exame e ler o que havia nele, sinto o bafo frio da morte resfriar meu pescoço e como nunca, a vontade de contar aquilo que vivi esteve tão forte no meu coração. Mas eu não faria isso atoa.

Eu não perderia meu tempo contando sobre minha relação com Leonard, nossa história juntos e todos os problemas e apertos que passamos juntos se não fosse algo absolutamente necessário para que meu sobrinho entenda porque tomei certas decisões. E torço para que as decisões que ele venha a tomar depois disso sejam as corretas.

Se Leonard estivesse aqui hoje, com toda razão não iria gostar que eu contasse certas coisas sobre ele e sobre nossa amizade. Leonard foi muito mais que um simples amigo pra mim.

Hoje eu olho pela janela da universidade onde há muito dou aulas e me pego lembrando de como eu escapei da morte. E escapei da morte muitas vezes.

É difícil de acreditar nisso até mesmo pra mim, quando me olho no espelho e vejo aquela múmia com o qual me encontro diariamente pela manhã.

Enquanto penso como escreverei a minha aventura, sentado no silêncio do meu gabinete, minha mão velha e cheia de rugas e manchas tenta segurar a caneca com o chá fumegante. Refletindo da superfície do líquido eu vejo o lustre. E meu Deus, como o reflexo treme!

Mas houve um tempo, muitos e muitos anos atrás, quando eu ainda não tremia feito uma vara verde e não era este monte de ralos cabelos brancos, rugas, pés de galinha e manchas.  Um tempo em que eu era jovem, inocente, crédulo e forte.

Minha vida seria normal como a de qualquer pessoa comum se eu não tivesse conhecido aquele homem. Aquele dia amanheceu com os fortes raios de sol do verão entrando pela janela sem cortinas. Era um amanhecer como muitos outros, mas eu acordei diferente. Geralmente, eu acordava bem disposto e animado, mas naquele dia, tudo parecia estranhamente mais triste. Levantei para ir trabalhar ainda morrendo de sono. Eu era ajudante de uma floricultura. Eles me chamavam de auxiliar geral, mas a verdade dos fatos é que eu era um carregador de merda. Eu pegava sacos de esterco e levava para os clientes de bicicleta. A merda do boi era usada como fertilizante nos jardins dos ricaços.

Nunca fui rico. O pouco dinheiro que eu ganhava era sempre usado para comprar algumas roupas, pagar o aluguel do quartinho onde eu me hospedava, e eventualmente, comprar um gibi. Eu comia numa pensão ao lado da floricultura e minha vida se resumia a ir do quarto pra loja e da loja pra pensão e então da pensão para o quarto. Só nos domingos, eu ia a missa. Nunca fui religioso. Eu ia a missa só para ver as meninas. O domingo era o dia em que eu me permitia algumas coisas diferentes como tomar um sorvete, ir na praça e eventualmente tomar um banho no rio. Mas o mais comum era que eu pagasse um ingresso para ver os filmes na matinê.

Mas voltando ao fatídico dia em que conheci Leonard, eu estava na floricultura e enquanto empilhava uns sacos de esterco, ouvi uns passos vindo do interior da loja. Com o canto do olho reparei que uma mulher muito bonita tinha entrado na loja. Seu Epaminondas, um português muito sério e sisudo, que era o dono da Floriocultura Bragança se apressou em atender.

Ela falava baixo e pelo tom da voz dela eu percebi que tinha dinheiro. Mulheres de dinheiro sempre falavam pra dentro. Ela pediu a seu Epaminondas um arranjo floral muito caro que havia na vitrine. Ele a tratou como se tratasse uma rainha. Epaminondas era um velho odioso e ríspido que diariamente me xingava de todos os impropérios que uma mente maldosa poderia criar. Dizia que eu era molenga, que eu era fraco e burro.

Eu odiava aquele desgraçado maldito e quando ouvi pela primeira vez o velho falar como se falasse com uma rainha, mal pude acreditar. Eu vi ele ser gentil pela primeira vez na vida.

Eu olhei para trás e lá estava a mulher, enfiada num belo vestido de veludo preto. Ela esperava que seu Epaminondas retirasse o arranjo enorme da vitrine. E então ela olhou pra mim e sorriu.

Acho que foi a primeira vez na minha vida que uma mulher daquele porte me sorriu. Eu fiquei sem saber o que fazer. Sorri de volta, meio sem graça.

Nem sei quanto tempo passei perdido no meio dos olhos verdes daquela mulher. Eu sentia que ela estava me vendo por dentro. Era uma sensação estranha, como cair num buraco escuro.

Só acordei do transe quando os tradicionais gritos do senhor Epaminondas ecoaram na loja.

-Wilson! Wilson, seu molenga!

-Hã? Sim, sim senhor? – Eu respondi indo até o balcão.

-Leve o arranjo até o carro da senhora Grutzmann!

-Sim senhor! – Eu respondi. Peguei o arranjo do balcão. Era mesmo pesado para uma mulher. Ela ficou em silêncio durante todo o tempo, apenas me olhando com aqueles olhos verdes penetrantes.

Agradeceu ao senhor Epaminondas com a tradicional voz baixa. Estendeu-lhe as notas de dinheiro e saiu da loja, como uma sombra silenciosa, voando baixo atrás de mim.

Ao sair, notei um carro preto, muito bonito parado à frente da loja. Não lembro mais a marca nem o modelo, mas era um daqueles que só os ricos tem. A porta se abriu e saiu um homem de quepe. O homem deu a volta no carro e pegou o arranjo de flores de minhas mãos como se ele pesasse uma pluma.

O homem não disse nada. Apenas acondicionou o arranjo no porta-malas do carro.

Enquanto ele guardava o arranjo, a senhora Grutzmann olhou novamente pra mim e tornou a sorrir. E então ela falou comigo.

-Obrigada… Menino.

A palavra “menino” na frase daquela mulher tão deslumbrante que parecia ter saído da tela do cinema penetrou como uma faca no meu peito. Custei um pouco a notar que ela me estendia um papel dobrado. Ela agitou a mão e eu notei. Era uma nota de grande valor, dobrada ao meio.

Agradeci com a cabeça e enfiei a nota no bolso.

O chofer da senhora Grutzmann chegou perto de nós e abriu a porta de trás do automóvel. Ela entrou, ele retomou seu lugar à direção e ambos partiram. Só tive coragem de colocar a mão no bolso e apertar a nota quando o carro preto dobrou a esquina.

Era uma nota de cem. Fantástico! Com aquilo eu poderia comer no melhor restaurante da cidade e ainda sobraria dinheiro para comprar rou0pas novas.

E foi então que as coisas começaram a ficar estranhas. No meio da nota, havia um pequeno papel dobrado. Nele, escrito com caneta tinteiro, um endereço. Mas até aí tudo bem. O problema era o que havia do outro lado. Era um bilhete pra mim.

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Céu da solidão

Textos
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Sozinho voando no céu
Sozinho na amplidão do espaço
Ainda ouço o grotesco escarcéu
Lembrando pra esquecer o cansaço

 

Sozinho voando na noite
As ondas se chocam nos rochedos
O mar negro chicoteia como açoite
Levantando os meus obscuros medos

 

Dou glória ao amanhecer distante
Suspenso no ar brilhante
Um disco solar de diamante
Ilumina este vôo solitário e agonizante,

 

Expulso do bando de forma intransigente
Contemplo minha insignificância
Indifenrente,
Apenas um ponto branco
na imensidão ondulante
que se some na distância

 

Sou triste
Sou feliz
Sou triste
Sou feliz
Sou Fernão
Sou lidão

 

Bato forte as asas em busca do abraço definitivo da morte
E do beijo frio do oceano
Quando darei aos peixes que predei sua merecida revanche
Ao sabor do meu entrecorte
Terminarei num despacho praiano
Vagarei nas ondas até que a carcaça se desmanche

 

Mas ainda estarei no céu
Voando, voando…
Solto no espaço
Seus olhos não poderão me ver
Mas ainda estarei no ar
Seguindo para o sul;
Eternamente perdido no azul

Voando, voando…

 

 

 

Zumbi – Parte 20

David agarrou com força o cabo do machado e olhou para trás.

Do outro lado da rua, na porta do cinema, estava um sujeito desconhecido, parado, em silêncio. O sujeito trajava um par de óculos escuros grandes e tinha um cachecol vermelho a cobrir-lhe o rosto. Usava uma jaqueta de couro preta larga e calças escuras de couro sintético e coturnos. David se levantou e olhou para ele.

-Puta que pariu, fudeu! – Ele gemeu ao perceber que David estava coberto de sangue seco, e saiu correndo, desesperado. David correu atrás dele.

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Zumbi – Parte 19

David sentou no chão do heliporto. Não podia acreditar no que seus olhos viam.

Alice estava parada ao sol. Tinha o mesmo olhar perdido dos mortos. David olhou pra ela. Dava pra ver que ela já começava a perder a cor. A ponta dos dedos já estava amarelada.

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Zumbi – Parte 18

David encostou no muro afim de recuperar suas forças.

De onde ele estava, a cerca de uns cem metros, David viu um zumbi que estava atravessando a rua. Era o zumbi de um negro, que andava pesadamente. Ele era magro, esquálido, seus membros pareciam tão finos e frágeis que David tinha a sensação que aquele ser ia se quebrar. Mas não era a magreza de faquir o que mais lhe chamou a atenção, e sim uma “alegoria” que o zumbi carregava nas costas. No meio das costas do zumbi estava um machado. O zumbi estava com o machado cravado nas costas e devido a isso, andava meio curvado para frente.  David Carlyle imediatamente pensou que se conseguisse alcançar aquele zumbi e retirar o machado das costas dele, a arma poderia ser usada para derrubar a porta. Era uma arma de curto alcance e até aquele momento, David não tivera ainda a necessidade de usar uma arma, mas quem sabe?

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Zumbi – Parte 17

Já era o terceiro dia que David e Alice estavam naquele prédio. Eles estavam limitados a apenas dois andares, pois uma porta grossa trancada impedia o acesso aos andares superiores.
A única saída possível era uma porta que dava para a escada de serviço, e levava ao saguão, mas certamente o saguão havia sido invadido pelos mortos, pois as laterais eram de vidro.
Por sorte, uma grade fechava a passagem da escada para o saguão. Eles podiam ouvir os mortos gemendo e pisando nos estilhaços de vidro no andar de baixo. O som ecoava pelo interior do prédio.

Alice estava bebendo água na torneira. David continuava sentado numa mesa, com a visão perdida na multidão de corpos que se movia ao redor do prédio em que eles se abrigaram e das ruas adjacentes.

David estava pensativo. Enquanto olhava a paisagem do prédio, refletia sobre a ousadia de Alice nas noites anteriores. Era uma mulher de coragem admirável. Havia enfrentado zumbis, tarados, assassinos de todo tipo, havia sido estuprada, chicoteada, sofrera acidente de carro, mas o maior risco que ela correu e vinha correndo era o de beijá-lo daquele jeito toda noite.

David lembrou-se das palavras do cientista, em que bastaria uma gota de saliva contaminada de zumbi para infectar uma pessoa. Mas como Alice estava imune? David então pensou se o cientista estava mesmo certo ou se estava exagerando. Talvez a mesma característica misteriosa que o tornou um zumbi consciente estivesse impedindo que ele disseminasse a doença. Do contrario era para Alice ter se transformado.  David se perguntava mentalmente se até que ponto não era isso que estava buscando, numa forma inconsciente e bastante peculiar de suicídio.

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