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O Cartão Negro parte 1

Paulo entrou no ônibus lotado que pegava para ir ao trabalho. Durante o trajeto de sua casa até o trabalho na firma de seguros, ele costumava pensar na vida. Mas naquele dia o ônibus estava lotado e ele não conseguiu lugar para sentar. Não era incomum que isso acontecesse. Ocorria com certa frequência.

Pra variar, Paulo chegou atrasado mais um dia. Quando finalmente chegou no andar, passou pela dona Carmina da recepção, que olhou pra ele com uma cara de pavor. Aquilo já dava o indício que Paulo precisava para antever a merda que se seguiria. Ao virar no corredor da direita do hall, ele já viu Cardoso, o chefe, parado na porta da baia dele.

Cardoso era um homem grande. Era uma coisa entre um gordo e um halterofilista. Era o que chamamos popularmente de parrudo. Era um corpo de estivador enfiado num terno de quinta categoria. Ele sempre parecia apertado naquele terno, vivia suando na testa e seu mau humor era algo crônico. Todos no setor de Paulo tinham um profundo medo dele, até porque Cardoso já havia dado demonstrações de não bater bem da cachola.
(mais…)

998756

998756 é o número que está escrito na porta de uma sala, no andar subterrâneo de um sofisticado prédio comercial, numa rua insuspeita da capital Paulista.

Ali naquele andar, reservado inteiramente a uma companhia chamada CYNAPTIX, há uma pesquisa secreta sendo desenvolvida.

É uma sala isolada, cercada de um forte esquema de segurança. Computadores pretos iluminam a sala com leds coloridos. Uma imensidão de cabos de todos os tipos desce em cascata para uma fenda no chão. A sala é uma espécie de cockpit, com um console central. Nele está um homem. Um homem que veste jaleco branco. Ele observa inúmeros monitores. Cada um mostra uma coisa diferente. Alguns mostram números que descem pela tela. Outros mostram gráficos que se movem horizontalmente em picos. Imagens coloridas de fatias cerebrais passam pelo monitor de cima.

O homem se vira para a equipe que trabalha numa câmara lateral:

-Ok, sinais positivos. Índices complementares atingindo níveis estáveis. – As pessoas acenam positivamente.

Um homem mais velho, de óculos e grisalho, usando terno se aproxima.

-Excelente Doutor Langruber. E as reações axônicas? Normais?

-Estavam abaixo da média estimada há dois minutos, mas se recuperaram e já demonstram um leve aumento na capacidade. Neurotransmissores nanoplasmáticos estão em pleno funcionamento. Ele recuperou a consciência.

-Esses números… Está melhor que…

-Sim senhor, melhor que a cobaia 9.

-Excelente.

-Doutor Langruber… O senhor me autoriza a falar com o paciente?

-Sim, senhor Markal. Fique à vontade. Ele está consciente. Aliás, mais consciente do que nunca. Mas não vamos agitá-lo, ok?

Os homens acenam com a cabeça. O senhor Markal avança até duas grandes portas negras no fim da sala. Ao cruzá-las ele é recebido por uma equipe de descontaminação. O paletó é removido e ele veste um traje de pressão positiva. Passa por uma baia de esterilização e ingressa no quarto branco, fortemente iluminado e frio, onde há uma grande bolha plastica no centro.

Complexos equipamentos brancos reluzem aos holofotes no teto. Milhares de cabos e aparelhos curioso se espalham ao redor da sala.

Uma passagem conduz o acesso até o centro da bolha onde estão outros dois enfermeiros usando trajes de pressão positiva. No centro, amarrado a uma maca, está um jovem rapaz. Ele veste uma touca de borracha preta onde milhares de microscópicos fios escorrem como cabelos, para uma placa que está ligada a uma tubulação de cabos. Os cabos seguem direto para o quarto dos grandes computadores pretos. O jovem está parado. Tem o olhar fixo para uma tela, onde números da bolsa de valores se alternam em índices financeiros.

-Paulo?-Pergunta o velho ao lado da maca. O jovem vira o rosto.

-Senhor Markal! Como vai?

-Vejo que está consciente.

-Sim, Markal. Estou pleno. E feliz como nunca estive.

-E então? Sente fome, sede, qualquer coisa assim?

-Sinto. Passei a sentir fome ontem. A sede ainda não, pois eles me plugaram este monte de soro aí. Veja.

Markal olha para o suporte metálico onde vidros de soro, líquidos verde es e sangue estão pendurados. Pequenas mangueiras gotejam os líquidos direto para tubos presos aos braços do rapaz. Ao fundo, Markal vê o vidro que separa a sala isolada do cockpit de controle. Dele o Dr. Langruber acena.

-Normal. Faz parte. O doutor Langruber está ali acenando positivamente.

-Não consigo me mover direito ainda.

-Não se preocupe, Paulo. Isso era esperado. Foi assim com as cobaias. É como explicamos. Até as funções todas serem reativadas vai levar ainda algumas semanas.

-Sim… Sabe, Markal, è estranho. Eu ainda estou preso aos velhos hábitos.

-Isso não muda da noite para o dia. Você sabe.

-Exato. Exato. Tem razão, meu amigo. Mas tenho medo de não voltar a andar como a cobaia sete.

-Isso era um risco. E um risco que você aceitou correr. Creio que os fins justificam sua decisão. Não é mesmo?

-Sim, Markal. Mesmo que seja numa cadeira de rodas, terei uma vida novamente. Tenho que me habituar ao tempo. Quando sua vida se aproxima do fim como há alguns meses atrás, você se torna impaciente. A idade torna os homens mais intolerantes.

-Eu entendo, Paulo. Não esqueça, também sou um velho. Já estou naquela idade em que só releio livros. Não tenho mais tempo para me arrepender. No risco, prefiro saborear o que sei que é bom.

-Ah, Markal, meu amigo… Você sempre teve um espírito jovem. Nunca foste velho.

- Bondade sua, meu amigo. Nos conhecemos há tanto tempo.

-Há tanto tempo que não me lembro.

-… pois é.

-Aliás, nos conhecemos naquela festa no Copa, em 54, lembra? Antes de eu casar. Você namorava aquela moça, do teleteatro da Tv Tupi…

-Nossa, Paulo. Impressionante. O tratamento faz milagres na memória.

-Devo isso ao Doutor Langruber. Aliás, falando nele, quando ele vai me liberar?

-Bom, segundo os relatórios, você terá alta em menos de duas semanas.

-Excelente. Excelente. Quero sair daqui andando.

-Paulo, você sairá. O Doutor Langruber está empolgado com os gráficos da sua recuperação. A neurogênese está acima das metas projetadas.

-Isso explica porque me sinto tão bem… Ah, que maravilha. Foi o melhor investimento que fiz em toda a minha vida. Valeu cada centavo. Tem tanta gente que precisava saber disso, o Niemeyer, o Olacir…O Zé Alencar…

-Não tenho dúvidas Paulo. Mas você sabe…   O sigilo é uma obrigação.

-Sim, eu sei. Senão eles me matam. Não sou burro. Entendi. O milagre é para poucos.

-Tem que ser assim, Paulo. Para poucos que podem pagar. Do contrário, já viu.

-… -Suco de laranja. Tenho vontade de beber suco de laranja.

-Ótimo, Paulo. Isso é um bom sinal. E a visão?

-Maravilha. Ele enxergava muito bem. O duro vai ser conviver com a tatuagem. Viu que merda?

-Tá, é ridícula, mas isso é cosmética, meu amigo. Isso a gente tira depois. Nada que uma plasticazinha não resolva.

-Markal…

-Diga Paulo.

-Como foi quando eu estava fora do ar?

-Paulo, nas duas semanas em que você esteve… Bem… Desligado, morto, chame como quiser…

-Fala logo, Markal. E o Flávio? Como a Sylvia reagiu? Eles acreditaram na história da morte?

-Só quando viram o corpo. O desaparecimento do helicóptero deu tempo suficiente para a conversão dos dados.

-Eu não tenho memória deste dia. O Langruber apagou.

-Sei. Ele fez isso porque a dor é muito grande. Você há de convir.

-Ah, desgraça eu prefiro não lembrar mesmo. Mas e o velório? Como foi? Quem foi? O Lula foi?

- Foi. Nós gravamos o velório. Documentamos tudo. Teve homenagem… Até na Globo.

-Você tá me gozando!

-Não, Paulo. É sério, mas o Langruber acha que ainda é cedo para experimentar certas emoções. Só posso dizer que foi uma comoção nacional. Tipo a do Brizola, tá lembrado?

-Rolou desfile no corpo de bombeiros?

-Não, a Sylvia não deixou. Ela preferiu algo mais íntimo. Mais sóbrio.

-Ah… Se ela soubesse teria deixado.

-Relaxe, Paulo. Daqui a poucos dias você estará livre. Será um novo mundo, uma nova vida. Você fará o combinado.

-Sim.

-Só vai poder procurar a família daqui a dois anos. E eles não irão acreditar, por isso é importante aquele documento guardado no cofre do Banco do Brasil.Você ainda lembra a senha?

- Claro, Markal. Mas o duro mesmo vai ser passar este tempo todo longe da família.

-Ah, quanto a isso, não se preocupe. Há um mundo de prazeres lá fora te esperando. Lanchas, carros, aviões, ilhas e mulheres, muitas mulheres.

-Nossa… Não tinha pensado nisso. Se eu me recuperar totalmente como o Langruber falou…

-Você será um jovem milionário, boa pinta, com muito dinheiro no bolso. Um ímã para mulheres bonitas, meu amigo. E olha, vou te dizer com estes músculos e este rosto aí dá pra se passar por um príncipe árabe fácil. E o que é melhor, livre daquele monte de ação civil, processo, aquele monte de merda… Pode escolher um novo nome… Quem sabe até um nome libanês?

-Ah, isso tudo é ótimo, mas não precisa. Tudo que eu quero é ser o Jacinto Ferreira Andrade, o jovem estudante de direito de vinte e um anos que ganhou na loteria e emigrou do Brasil.

-Isso mesmo, meu amigo. Paulo está morto. Morto e cremado. Agora você é Jacinto.

-Adeus Markal. Nos veremos na semana que vem.

-Adeus Doutor Paulo Maluf, digo… Jacinto.

-Até lá.

-Ah… E o dinheiro lá fora?

-Ah, Markal… Lembra o que eu falei:  “É de quem achar”!

Markal sorri para o jovem na maca.

-Parabéns pela loteria. O bilhete estará no bolso do casaco.

O homem sai da sala, deixando para trás o corpo do jovem Jacinto Ferreira Andrade, um jovem estudante de direito que ao voltar da faculdade para casa foi agarrado por homens encapuzados e arrastado à força  para dentro de uma van preta que sumiu na escuridão da noite. Jacinto está desaparecido desde então. Ele será encontrado desmaiado num matagal de uma cidade no interior Paulista, justamente um dia antes de milagrosamente ganhar na loteria e ir embora do Brasil.

FIM

Impressionante o que é o Brasil

Uma vez meu bisavô me disse que no passado, alguém havia dito que o Brasil não era um país sério. Nunca entendi aquilo, afinal, tem muita gente séria aqui. Sabe, meu bisavô sempre contou com orgulho como o Brasil melhorou. Confesso que eu mesmo nunca vi tanta melhora, mas ele é velho e se não estiver delirando, deve estar falando a verdade.  Ele sempre se impressiona como “esta joça de país”, que é como ele se refere ao nosso amado Brasil, “pode ter um crescimento tão moderado”. Na verdade, apesar do meu bisavô reconhecer tudo que já aconteceu, ele ainda pensa que poderíamos estar mais longe. Meu bisavô diz que o Brasil  poderia disparar e virar um dos melhores países do mundo em tudo. Talvez até virar a maior potência mundial.

Não sei. Me parece prepotente dizer isso. Ou talvez ele esteja certo.

Veja, hoje todos os brasileiros estudam, e só existe analfabetismo abaixo dos quatro anos de idade. Graças a isso, não é de se espantar que aqui as crianças leiam o tempo todo. Praticamente todo mundo tem internet, (tirando aqueles que consideram essas coisas antigas algo cafona)  e aqui as pessoas não perdem seu tempo em chats e redes sociais, falando abobrinhas. As pessoas estudam.

Com tanto investimento, a qualidade do ensino no Brasil melhorou absurdamente em relação ao que era no passado e as escolas possuem um sistema muito eficiente de avaliação da aprendizagem, de tal maneira que os professores hoje possuem mais tempo para se prepararem, se qualificam melhor e por conta disso, ganham cada vez mais. Hoje um professor de escola pública bate no peito com orgulho e olha um gerente de multinacional nos olhos.

Parte desse progresso do Brasil se deve unicamente ao saneamento das contas públicas e a uma série de pequenas mudanças, ocorridas muito antes de eu nascer, que muitas pessoas apelidaram de “reformas”, mas que na verdade, são apenas singelas modificações numa Constituição que já era perfeita desde sua gênese. Aliás, uma Constituição criada sem interesses pessoais e colocando a nação acima de tudo.

Uma das mais importantes reformas feitas no Brasil  foi sem dúvida a reforma tributária, que organizou a confusão vergonhosa de impostos que assolou o país ao longo de décadas. Em seguida, os políticos conseguiram entrar num consenso e fizeram a reforma política, que ajudou a moralizar toda a estrutura política do Brasil. Agora, se a pessoa tem ficha suja, não pode mais exercer cargo público e funcionário público pego em tramoia vai em cana sem desculpas.

E já que agora a justiça e as prisões funcionam, o político pode ser preso, julgado e condenado em tempo recorde. Isso me leva a lembrar que se de fato o político tem alguma distinção do brasileiro mais pobre é isso. Político ladrão por aqui vai em cana mais rápido. É uma pena que nos últimos dez anos nenhum político foi pego em tramoias, pois o povo adora um bafafá.

O meu bisavô sempre disse que o povo adora bafafá. Ele me contou certa vez que políticos eram manchete dos jornais diáriamente no tempo que ele era menino. Eu não levei aquilo muito a sério, pois meu bisavô sempre fala essas coisas malucas, e a gente nunca sabe se ele está falando verdade ou está tirando onda com a nossa cara. Outro dia ele disse que era pra eu me sentar que ele ia contar uma coisa impressionante. Eu já me preparei para ouvir mais uma mentira daquelas cabeludas que ele conta sempre que tem aniversário na família. E ele me disse que quando ele era menino existia uma parada chamada… Como era mesmo? Auxílio paletó.

O troço era um dinheiro extra, que o político ganhava, que acumulava em cima do salário e que servia… Vê se não vai rir, hein? Pro cara comprar uma roupa bonita pra poder trabalhar.

Eu morri de rir quando o vô contou aquilo, mas naquele dia, ele estava especialmente espirituoso e inventou que teve uma época no Brasil em que o político não podia ser preso. Você imagina isso? Nem eu.

Então meu bisavô certamente tomou lá aquelas batidas da Tia Catarina e desandou a falar de uma série de benefícios que no tempo deles, só político que tinha no Brasil. Era carro, casa, auxílio doença, verbas disso e daquilo, de gabinete, de viagem, até auxílio notebook, que era um tipo de computador, parecido com um livrinho, que tinha um teclado dum lado e uma tela do outro. Mas me deu pena. O vô ficou bravo quando ninguém acreditou nele.

É de se esperar que ninguém acredite, já que nos dias atuais é tudo bem diferente do que foi no passado.

Hoje, nenhum político tem filho em escola particular, não tem plano de saúde e não conta mais com inúmeros auxílios e benefícios como antigamente. O salário do político é tabelado e o aumento não depende mais deles, e sim de pleibiscitos. A criação dos políticos virtuais contribuiu de maneira eficaz para o saneamento das votações, pois milhares de pessoas usam a internet para estudar e modificar propostas, que são submetidas a votação dos políticos físicos, que realmente representam o povo.

As últimas décadas e seus respectivos investimentos em infraestrutura permitiram um rápido avanço e uma importante recuperação da balança  comercial do nosso país. Hoje exportamos para todo o mundo, não só matéria prima como sempre, mas produtos de alto valor agregado. Nós desburocratizamos uma série de coisas e facilitamos a vida dos investidores, e graças a isso, há mais empregos, há mais dinheiro, há mais tecnologia nas cidades e no campo, há mais produtividade e a economia cresce como nunca se viu.

Falando em tecnologia, somos líderes mundiais em vários setores, e a tecnologia que nos permitiu ter a energia grátis é apenas um deles.  Mas um dos grandes sucesso do Brasil foi na área de direitos humanos. Décadas de política séria e comprometimento social levaram o país a uma vantajosa situação em relação às demais nações do planeta. Hoje as prisões estão praticamente vazias e os poucos presos que lá estão, passam por um rigoroso sistema reeducativo.

Como eu falei em preso, me lembrei de uma coisa que meu bisavô falou. Foi tão, maluco, mas tão maluco que aquela eu não aguentei e fui nos arquivos pesquisar pra ver se era verdade mesmo. E para meu total espanto, era.

Hoje, só historiadores sabem que o Brasil teve uma coisa chamada bolsa família. Naquele tempo tinha muito pobre, e o governo resolveu pagar para famílias pobres. Fora esta bolsa, havia a bolsa desemprego e além disso, tinha uma bolsa para parente de bandido. Não estou mentindo, é verdade. A coisa já foi tão séria no Brasil que o governo criou uma bolsa em que ele pagava salário até para os familiares de presos. Eu já imaginava que você não iria acreditar, e graças a isso consegui achar o link oficial daquele tempo nos registros arcaicos da Internet.  Veja

Pior é que naquele tempo, o governo até pagava pra família do bandido, mas as cadeias eram lotadas e não resolviam o problema. Bem diferente das de hoje.

O sistema de reintegração humanitário no Brasil é tão eficiente que ganhamos um prêmio mundial na ONU por nosso esforços em erradicar os crimes contra os pobres. Todos os investimentos em moradia saneamento, saúde pública e  educação deram resultado em poucas décadas.

Foi surpreendente o que conseguimos. Saltamos daquele vergonhoso posto de país mais desigual da Terra para o posto de terceiro país com a maior igualdade social. Graças a tanto tempo de estabilidade econômica as coisas funcionam e o povo passou a acreditar que trabalhar sério realmente dá resultado. Com menos cobrança de impostos e burocracia, as pessoas tem maior fé no futuro, no governo e empregam mais.  Com a nossa economia aquecida, as pessoas tem uma excelente perspectiva de vida hoje. Tudo isso tornou o Brasil uma grande potência mundial, respeitado por todos e motivo de orgulho para seu povo.

É engraçado imaginar que há cerca de um século atrás era tudo bem diferente. É praticamente impossível de imaginar como era nos tempos do meu bisavô, há 150 anos atrás.

É por tudo isso que eu digo: É impressionante o que é o Brasil, mas muito mais impressionante do que ele é hoje, é o que já foi este país.

FIM

O pedinte

CENA 1 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

Plano geral de uma praça. Lugar bonito, embora não haja muita gente. Uma senhora vem passando, andando lentamente.

A idosa senta-se num banquinho da praça.

Close na idosa. Olhar perdido.

Pequenos inserts de detalhes da velha. A mão trêmula apóia-se numa bengala antiquada.

CENA 2 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

Uma criancinha passa num velocípede. A câmera acompanha.

A criança olha para a velha.

Close na idosa. Olhar fixo na criança. A velha sorri.

Close nos olhos da criança.

Plano médio da praça. A criancinha se afasta com o velocípede até sair do enquadramento.

CENA 3 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

Entra pela lateral do quadro um mendigo, roto, sujo, cabelo desgrenhado. Barba e cabelos enormes e amassados.  A Câmera acompanha.

O mendigo senta-se ao lado da velha.

Plano médio  da praça. A velha e o mendigo estão sentados com o olhar perdido, olham para a frente.

A velha vira a cabeça para o mendigo.

O mendigo olha para a frente, fixamente. Ele tem o olhar perdido.

VELHA: Quanto você quer para sentar em outro banco?

O mendigo olha para a velha.

MENDIGO: Trinta.

VELHA: Vinte.

MENDIGO: Vinte e oito.

VELHA: Vinte e cinco.

MENDIGO: Fechado.

A velha abre uma pequena bolsa, já fora de moda e retira um bolinho de notas. Ela entrega ao mendigo.

O mendigo pega o bolo de notas e guarda no bolso.

CENA 4 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

O mendigo levanta e sai. A Câmera se mantém fixa.

A velha tem o olhar perdido. Close no olhar da velha. Expressão fria. Ela fita o vazio.

CENA 5- EXTERIOR – RUA -DIA

Musica incidental. Mendigo caminha pela rua.

Planos diversos do mendigo andando por ruas e becos.

Mendigo desce pelas escadas do metrô.

CENA 6- INTERIOR – METRÔ – DIA

Há um velho sentado num banco. Ele espera o metrô.

Close no olhar do velho. Tem os olhos perdidos.

Mendigo entra pela lateral do quadro e se senta-se ao lado do velho.

Mendigo olha fixamente para a frente. O velho idem.

Velho vira-se para o mendigo.

VELHO: Você poderia sentar em outro lugar?

MENDIGO: Depende.

VELHO: Quanto?

MENDIGO: Quarenta e dois.

VELHO: Pago dez.

MENDIGO: Quarenta e dois.

O velho hesita.

MENDIGO: Quarenta e dois.

VELHO: Vinte.

MENDIGO: Vinte e cinco.

VELHO: Fechado.

O velho mexe na pasta. Pega um bolo de notas e entrega ao mendigo. O Mendigo guarda as notas no bolso, levanta-se e sai. A Câmera permanece fixa no velho.

CENA 7 – EXTERIOR – RUA – TARDE

Musica incidental. Mendigo caminha pela rua. Passa em locais desertos. Corredores, escadas, ruas desertas.

CENA 8 – EXTERIOR – RUA – NOITE

Plano geral de uma avenida. Carros passam na frente de bares e restaurantes. Pessoas comendo, se divertindo.

Mendigo surge ao fundo. Caminha pela avenida. Para em frente a um bar e olha as pessoas comendo. Algumas pessoas param de falar, olham para ele e tornam a conversar como se ele fosse invisível.

O mendigo olha para o lado e sai do enquadramento.

CENA 9- EXTERIOR – RUA – NOITE

Uma prostituta está encostada num poste.

O Mendigo surge e para ao lado dela.

A prostituta tem o olhar perdido. Close no olhar da prostituta.

Ela olha para o lado. O Mendigo está ali, parado.

PROSTITUTA: Qual é?

O mendigo não responde. Ele tem o olhar parado. Olha para o infinito.

PROSTITUTA: Ei.

O mendigo olha para a prostituta.

PROSTITUTA: Tá me atrasando a vida, meu. Dá pra ser ou tá difícil? Tá espantando a clientela, mermão.

MENDIGO: Faço pra você por trinta reais.

PROSTITUTA: Porra, trinta? Não dá pra negociar não?

MENDIGO: Não.

PROSTITUTA: Ah, vai se foder. Olha, só tenho quinze aqui, mas tem este vale do motel. Tá dando desconto de 50%, tá afim?

MENDIGO: Tá bom.

A prostituta pega o dinheiro na bolsinha de couro vermelho. Junta o papelzinho do motel e entrega ao mendigo. Ele coloca o dinheiro no bolso e sai. A prostituta volta a olhar para o vazio.

CENA 10 – EXTERIOR – BECO ESCURO -NOITE

O mendigo entra num beco escuro. Caminha com dificuldade entre latões de lixo e tranqueiras espalhadas pela rua.

Vai até uma porta. Pega uma chave do bolso e abre. A luz ilumina o beco. O mendigo entra.

CENA11 – INTERIOR – CORREDOR -NOITE

O Mendigo caminha por um corredor cheio de canos e cabos. É um lugar diferente, com aparência que lembra o interior de um submarino.

O mendigo vai até o centro de uma câmara. Ele fica parado, olhando para o vazio.

Surge um jovem. O Jovem para em frente ao mendigo.

O mendigo não olha nos olhos do jovem. Olha para a frente. Olhar fixo.

O Jovem estende a mão. O Mendigo enfia a mão no bolso e retira o dinheiro. Entrega ao jovem.

JOVEM: Total?

MENDIGO: 65 mais um vale motel com desconto de 50%.

JOVEM: Hummm. Tá bom. Ontem foi melhor hein?

MENDIGO: Zonas mais rentáveis no setor 15.

JOVEM: Tá. Eu sei. E a taxa da bateria?

MENDIGO: Bateria em 22%.

JOVEM: Tudo bem. Por hoje chega. Vou aproveitar para fazer a atualização do firmware, beleza? Pode entrar em modo de hibernação.

O mendigo fecha os olhos. O rapaz mexe nas costas do mendigo. Retira um cabo preto que estende até uma tomada.

O Jovem abre um notebook e digita algumas coisas. Pluga um cabo usb do computador nas costas do mendigo. No notebook surge uma barra de download que começa a carregar.

Ele levanta da cadeira, olha para o robô parado no meio da sala. Apaga as luzes, sai e fecha a porta. A câmera fica.

FIM

Sobem os créditos finais.

O pacto

O nome dele era Raul Oliveira de Castro, mas seus amigos apenas o conheciam como “Castrinho”.
Não vou perder o nosso tempo aqui dizendo a história da vida dele. Basta dizer que Castrinho cresceu órfão, criado por uma tia carola, que trabalhava na Igreja da matriz de uma cidade que já me esqueci o nome, mas que fica ali no sul da Bahia. Ele passou a infância vendo televisão. Sonhava em ser um astro da música sertaneja ou algo que o valha. A tia de Castrinho morreu quando ele entrava na adolescência. A morte da Tia, enquanto varria o altar foi o que deu nele a vontade de viajar. Sumir. Cair no mundo. Roubou o dinheiro da caixinha da igreja e fugiu num ônibus carcomido para o sul. Cresceu sozinho, penou para arranjar emprego. O primeiro foi de vigia noturno.
Os dias passavam de forma igual. Até que a empresa faliu e ele foi demitido. Castrinho viveu na rua da amargura, sem emprego, sem comida, sem dinheiro. Mendigou.
Estava na fase mendigo, sentado no banco de uma praça quando conheceu um paraibano que estava indo para o Rio com três filhos, tentar a carreira de violeiro.
Castrinho não tardou a obter os trocados que dariam para seguir o retirante em busca de seus sonhos.
Mas no meio da estrada o caminhão que os transportava ilegalmente sofreu um acidente e quase todos morreram. Castrinho ficou muito machucado. Levado para um hospital público, recebeu os cuidados médicos que lhe salvaram a vida. Quando finalmente se recuperou, ele chegou ao Rio de Janeiro, com uma mão na frente e outra atrás. Ficou embasbacado com a beleza daquela cidade. Mas tão logo a estupefação passou, a realidade cobrou seu preço. A cidade estava loteada. Não havia local em que ele pudesse se encostar para tirar uma soneca que não houvesse mendigos. Assim, ele virou um tipo de andarilho, um mendigo maltrapilho que andava de um lugar a outro da cidade, esmolando, pedindo e comendo os restos de sanduíche que os bacanas jogavam nas lixeiras das lanchonetes da zona sul.
Um dia, ele encontrou uma revista velha no chão e parou para folheá-la.
Era uma antiga revista de celebridades. Castrinho o andarilho sujo, mendicante, estava vendo o que gostaria de ser mas não era. A revista mostrava aquele monte de gente bonita e famosa, passeando em lugares paradisíacos, praias maravilhosas de águas verdinhas, outros em banheiras de espuma, repletos de pétalas de rosas. Mulheres bonitas, festas e encontros nas casas luxuosas e em palácios.
Ele olhava as fotos e pensava em estar ali, desfrutando daquela felicidade, daquele prazer. Imaginava o sabor da carne, o aroma do vinho e até o frio das montanhas nevadas onde uma família de bacanas esquiava.
Alguns ele reconhecia das novelas na Tv. Outros não. Mesmo andarilho, Castrinho nunca havia deixado de ver as novelas da televisão. Na falta de um aparelho, ele corria para as portas das lojas de eletrodomésticos, onde sempre havia uma boa alma para deixar um aparelho ligado na vitrine.
Naquele dia, após ver e rever a revista velha até decorá-la, ele resolveu seguir caminho para a loja. O comércio começava a fechar as portas e os camelôs já se retiravam para a direção do trem quando Castrinho chegou na porta da loja. Mas neste dia fatídico, ao contrário de todos os outros, não havia Tv ligada.
Isso o obrigou a sair em caminhada apressada, em busca de algum lugar que tivesse uma Tv.
Chegou a um boteco. Ali ele filou a televisão por alguns minutos, até que foi expulso pelo português, dono do bar sob a desculpa de que ele espantava a freguesia. Sem dinheiro para consumir e comprar sua permanência no local, baixou a cabeça e saiu, sentindo-se o fracasso em pessoa.
Andou alguns metros quando uma mão pesada bateu no ombro dele. Castrinho se assustou. Era um velho, que havia visto o dono do bar maltratá-lo.
-Calma, meu rapaz.
-Hã? Que foi?
-Eu vi o que o babaca fez com você. Injustiça eu não aguento.
-…
-Venha, venha comigo. Você gosta de ver televisão?
-Ah, gosto sim senhor. Eu adoro. Vejo todo dia.

E então no caminho de volta para o bar, Castrinho contou ao velho que via novela todos os dias, desde criança. O velho se intrigou.
-Mas você não é um mendigo então?
-Não, não senhor. Eu sou apenas um desempregado. Eu tento, mas não tenho como me virar sem dinheiro. Até pra vender bala no sinal é preciso de dinheiro inicial.
-Mas você nunca tentou por exemplo, ser flanelinha? É uma forma de conseguir algum dinheiro.
-É, sim senhor. Mas o problema é que não dá pra ser flanelinha aqui no Rio, porque toda rua já tem um. E eles me expulsam. Até me ameaçaram de morte outro dia ali na avenida. Como resultado, só sobram as ruas ruins, onde para pouco carro. Nessas eu trabalhei e faço isso sempre que posso, mas o resultado não chega a cinco reais. A maioria também dá calote no flanelinha. Diz que vai pagar depois e não paga.
-Ah, entendo.

Os dois entraram no bar. O português bateu no balcão.
-Mas que porra é essa? Não mandei…
-Ele é meu convidado, seu Mário!
-Convidado o caramba. Ele é um mendigo, pô!
-Né nada, seu Mário.
-Não quero nem saber. Vão embora os dois daqui então. -Disse o portuga apontando pra rua com um abridor na mão. O povo do bar riu.
E os dois saíram.

-Putaquepariu. -reclamou o velho.
-Desculpa, moço. Eu não queria fazer o senhor passar vexame. -Disse Castrinho.
-Ah, garoto, Eu conheço o seu Mário desde moleque. Esse cara tá ficando esclerosado. Não esquenta. Olha, quer saber? Vamos lá pro meu estabelecimento, que lá tem televisão. Não é boa como a do bar, mas serve pra ver a novela e o jornal.

E assim Castrinho prosseguiu com aquele senhor até um restaurante, que não era muito ruim, mas também não era grande coisa. Cerca de vinte mesas e uma cozinha apertada.
Ali os dois sentaram-se numa mesa, o velho pegou uma garrafa de cerveja, que Castrinho prontamente recusou, dizendo que não bebia. O velho sorriu, serviu a cerveja só pra ele mesmo e ambos assistiram ao Jornal Nacional e à novela.
Quando acabou a sessão de TV, Castrinho levantou-se para ir embora.
O velho o interpelou, dizendo.
-Escuta, rapaz. Eu fui com a sua cara.
-Ah, o senhor é muito generoso, disse o jovem. Agora preciso ir embora, porque amanhã eu tenho que…
-Olha, você tá morando onde?
-Sabe o viaduto que tem ali perto da praça…
-Viaduto? Você tá morando debaixo de um viaduto?
-Pois é…
-Olha, eu não estou acostumado a fazer isso, mas se você quiser, eu posso te empregar. E deixo você dormir aqui no Restaurante. Você trabalha como vigia aqui pra mim, faz uma limpeza no salão, e eu te ajudo, pagando aí um troco. Já adianto que não posso pagar muito, pois o ponto aqui é uma desgraça. Mas já é alguma coisa, e você pode ver televisão o quanto quiser. O que me diz?
Castrinho apenas abriu um sorriso e estendeu a mão suja para o velho.
-Ah, rapaz, vamos começar com um banho e um corte nessa barba e cabelo. Que tal?
Castrinho assentiu com a cabeça e os dois saíram para a barbearia do seu Nicolau, que ficava ligada à casa dele e funcionava 24 horas.
Passaram-se alguns meses e agora Castrinho era uma espécie de garçom-faxineiro-faz-tudo-vigia do restaurante.
Não ganhava bem. Na verdade ganhava muito mal. Muitas noites passava limpando a sujeira. Levou algum tempo para que ele percebesse que o homem generoso que lhe oferecera uma chance na vida estava capitalizando em cima dele. O velho em pouco tempo despediu o garçom, o servente, o vigia e a faxineira. Pelo preço da metade do salário dela tinha um homem que fazia tudo aquilo.
Castrinho começou a sentir-se como um passarinho preso numa gaiola.
Com o pouco que recebia ele comprava a revista de celebridades e passava as noites assistindo a novelas e filmes, aos quais sabia de cor o nome de cada um dos atores.
Numa noite, houve um blecaute na região. Sem tv só restou-lhe acender uma vela e folhear uma revista no salão vazio do restaurante já fechado. Lá estavam aquelas pessoas felizes, desfrutando a vida que lhe foi duramente negada.
Castrinho tinha no coração o desejo de ser famoso, ser rico, poderoso como aquela gente. Sucesso, fama.
Aquilo acontecia com tantas pessoas, porque justamente com ele nada dava certo?
Fechou os olhos e odiou a própria vida. Sentiu uma estranha raiva crescer dentro de si e subitamente teve um insight que poderia fazer tudo aquilo se resolver. Estava decidido.
Ele ia vender a alma para o diabo.
O dia seguinte, quando o restaurante fechou, Castrinho saiu em busca de uma forma de realizar seu plano de vida. à medida em que andava pelas ruas do Centro, pensava no pacto. Estava claro pra ele que se fosse para ficar famoso por meios naturais não haveria muitas chances. Apenas o poder de um pacto com Belzebú poderia colocá-lo no universo dos bacanas, dos bem de vida.
Então Castrinho tratou de buscar uma forma de contatar Satã. Comprou na banca de revistas usadas um livro de São Cipriano que prometia o contato com o capeta. Tentou fazer todo aquele rapapé de invocação, mas falhou miseravelmente. Nem satã, nem espírito ou qualquer outra aparição surgiu e só restou a ele limpar a sujeirada de pentagrama de sal no chão do salão do restaurante.
Deprimido, mas ainda assim decidido que apenas Satã poderia tirá-lo daquela vida invisível e desgraçada, tentou outra alternativa. Certamente que haveria uma forma de contatar o príncipe das trevas. Mas como fazer isso? O diabo não ficava dando plantão na calçada. Seria necessário fazer alguma coisa. Tão logo conseguiu fechar o restaurante, correu para uma lan house que havia na esquina e no Google descobriu tudo que podia sobre pacto com o Diabo. Viu trechos de obras clássicas que referenciavam estes pactos e notou que na ampla maioria das vezes, o pacto com o coisa ruim se dava por interesse deste último. Nunca a partir do interesse do dono da alma.
Voltou para o restaurante mais triste do que nunca.
Então naquela noite acordou com uma idéia na cabeça. Basicamente, tudo que ele viu sobre pactos com o demônio e venda de almas para o capeta envolviam o diabo aparecer para a pessoa, mas em lugar algum ele leu que o processo inverso não fosse possível.
-Se ninguém tentou, não significa que não seja possível. Significa apenas que ninguém tentou. -Ele disse em voz alta no salão escuro do restaurante. E tornou a dormir, dessa vez, mais feliz.
No dia seguinte, serviu os pratos, lavou a louça e limpou o restaurante. O trabalho era árduo e isso o cansava muito. Os clientes eram grosseiros e não raro, metidos. Mas ele enfrentava aquilo tudo com esperanças de ser bem sucedido na venda de seu mais precioso bem, a alma.
A idéia de anunciar sua alma no jornal foi uma consequência de ver um senhor que tomava o café após o almoço lendo os classificados.
Quando ele finalmente conseguiu fechar o restaurante, correu até o telefone público e ligou para o departamento de anúncios, onde colocou um anuncio, que dizia apenas:
Vendo a minha alma. Tratar com Castrinho.
Não colocou telefone nem endereço, porque obviamente o príncipe das trevas teria o poder de localizá-lo fosse onde fosse.
Mas não surtiu efeito. Castrinho pagou para o anuncio aparecer no jornal de domingo, mas nem isso teve efeito. Sentiu-se o mais burro de todos os mortais. Certamente que o capeta não lia jornais.
Passaram-se alguns dias até que uma nova idéia surgiu na mente de Castrinho. A idéia surgiu quando ele procurava para ver se o anuncio estava saindo direito no jornal. Logo abaixo do anuncio dele estava o anuncio de um tal “Chiquinho Belzebú”, que se dizia encarregado das artes demoníacas na Terra.
Aquilo lhe pareceu ser viável, na medida em que alguém importante como o diabo não perderia seu tempo trabalhando em pessoa na compra e venda de almas.
Juntou algum dinheiro, suas parcas economias e procurou o Chiquinho Belzebu. Seguiu o endereço e foi dar numa casa muito bonita, toda pintada de preto, com uma estrela vermelha na porta. Não havia letreiro ou coisa do tipo. Ele entrou e tocou a campainha. Da porta surgiu uma menina magrinha.
-Pois não?
-Eu queria falar com o Chiquinho…
-Ah, tá. – A menina deu-lhe às costas e gritou lá pra dentro: -Ô paaaaaaaai! Mais um!
Surgiu na porta um homem negro, careca, com um bigodão. A aparência era assustadora. Ele usava uma camisa de cetim vermelho e uma capa preta. O homem veio solenemente até a porta.
-Pois não?
-O senhor é…
-Sou.
-Eu queria… Bem, o senhor sabe, eu queria vender minha alma.
O homem negro ficou ali, olhando pra ele, com uma expressão enigmática. Balançou a cabeça positivamente. -Vai custar cem reais.
Castrinho apanhou todo o dinheiro que tinha.
-Só tenho oitenta e cinco. Dá pra fazer?
O homem acenou com a cabeça. Pegou o bolo de notas da mão dele e enfiou no próprio bolso sem contar.
Pegou uma moeda do outro bolso e passou na cabeça dele sete vezes sussurrando uma coisa qualquer que Castrinho não ouviu direito. Então o Chiquinho Belzebú falou:
Agora pode entrar.
Castrinho entrou e foi direto segundo o homem, que ia entrando pela casa adentro. Subiu umas escadas de madeira. Castrinho sentia medo e p medo só aumentou quando ele entrou numa sala toda pintada de preto, com uma estrela vermelha no chão. Ali Chiquinho apontou para o centro da estrela e disse: Deita ali.
Castrinho obedeceu.
Então o tal Chiquinho falou um monte de coisa, invocou o Satã, o capeta, Lucifer e mais uns trinta nomes diferentes. Acendeu uma tocha e circulou com ela ao redor da estrela. Mas o capeta não apareceu.
Castrinho esperava algum tipo de reação mágica, uma atividade sobrenatural qualquer, e de decepcionou quando o homem apenas disse.
-Pronto, acabou.
Ele vestiu-se. Agradeceu e saiu dali puto da vida, sabendo que foi engrupido em oitenta e cinco preciosos reais.
Voltou a trabalhar no restaurante. Entre um prato e outro, um pedido e outro, começou a pensar no destino e naquele monte de trapalhada que se metera tentando em vão vender a alma para o demônio e se tornar rico e famoso.
Foi num dia de chuva que Castrinho percebeu que só poderia realmente se aproximar se Satã se fizesse por onde. Maldades. Ele deveria ser maligno, agir com desprezo pela alma e pela vida humana e talvez assim atraísse a atenção de Lúcifer para si.
Então Castrinho começou sua vida de diabruras, cuspindo na comida, molhando os bifes na água da privada.
Fez toda sorte de maldades que pode fazer sem correr o risco de ser preso. O ápice de sua maldade foi colocar detergente no molho de pimenta.
No fim do dia ele saía para chutar animais e praticar vandalismos. Passou por uma rua onde crianças jogavam bola e bicou a bola dos moleques, quebrando uma janela. Saiu correndo deixando os garotos levarem a culpa.
Arranhou carros com um parafuso. Passou a atravessar a rua toda vez que via uma igreja.
Mas por mais maligno e diabrurento que fosse, Castrinho nunca obteve sucesso em atrair o capeta.
Um dia decidiu que faria a maior maldade que poderia fazer. Comprou remédio para rato e estava decidido a matar um velhinho que comia sempre no restaurante. Sim, a morte, a violação do sexto sagrado mandamento. O desprezo para com a vida humana. Se aquilo não atraísse a atenção de Satã, nada mais o faria.
Colocou o chumbinho sob o queijo do filé a parmegiana que o velho comia todo santo dia. Levou até a mesa. Ficou ali, parado, vendo o velho partir o bife. O velho estava prestes a levar o bife até a boca, a saborear o primeiro e talvez o último pedaço de carne de sua refeição, quando o velho teve um ataque. Caiu para trás, se remexendo freneticamente.
Castrinho se assustou. O velho espumava pelo canto da boca. Ele esperava por aquela morte, mas não imaginava que ela fosse acontecer sem mesmo que o velho colocasse a comida envenenada na boca.
As pessoas cahamaram a ambulância, mas quando o SAMU chegou, mais de quarenta minutos depois, o velho já havia morrido. Antes que Castrinho pudesse assassiná-lo.
derrame cerebral, disseram os médicos.
Um fracasso em pessoa. Era o que Castrinho sentia de si mesmo. Nem mesmo para matar um velho estúpido ele servia. Estava claro pra ele que este era o motivo pelo qual o capeta nunca iria querer sua alma.
Voltou a se deprimir.
Começou a pensar em tudo em toda aquele monte de besteiras que fez buscando a fama e fortuna. Nada dera certo. Então percebeu que estava cometendo um erro terrível. Na busca por aproximar-se do diabo, ele estava na verdade desvalorizando seu principal produto, a sua alma.
Afinal de contas, pensando racionalmente na relação de oferta e procura, qual seria a vantagem para o dêmo de ter uma alma de um praticante de maldades como ele? A arte do malefício já o tornara um servo de Satã. E dessa forma, para que Satã iria pagar algum favor por uma alma que já o pertencia?
Neste dia, Castrinho percebeu o quão era idiota e resolveu mudar.
Torou-se uma boa pessoa. Buscou o caminho da luz. Passou a frequentar a igreja, confessou e se arrependeu de seus pecados. Mas nunca, em nenhum momento fraquejou com relação ao seu objetivo primordial, que era a venda da própria alma ao Satã. Caiu na esteira de dizer isso ao pároco quando se confessava e acabou expulso da igreja.
Comprou uma bíblia de segunda mão e buscou nos ensinamentos tudo o que podia para se tornar uma pessoa boa e valorizar sua alma. Fundou com amigos garçons uma igreja. O restaurante tão logo começou a se encher de fiéis. O velho abriu uma filial, e convidou-o para ser gerente.
Mas ele durou pouco no emprego de gerente do restaurante, porque a igreja ia de vento em popa. Os fiéis aumentavam a cada dia.
E ele investia cada vez mais tempo, esforço e dinheiro em fazer o bem, em trazer as pessoas do fundo do poço para a luz divina de Deus.
Comprou carros, rádios, jornais e diversas casas. Abriu filiais da igreja em países pobres da África e da Ìndia. Apareceu na Tv em horário nobre, pregando a multidões que o exultavam: Aleluia Pastor!
Castrinho já não era mais o mesmo. Agora ele era apenas o pastor Castro, o homem de Deus.
Trabalhou com os fracos, os pobres, os viciados e recuperou os enfermos. Fez paralíticos andarem, expulsou o coisa ruim das pessoas e escreveu livros com seus pensamentos sobre uma vida pura e ímpia.
Casou-se, constituiu família, teve uma filha com a esposa e comprou uma casa de luxo em Miami.
Certa noite, Castrinho, digo, pastor Castro, estava a contar dinheiro, como sempre fazia no fim do expediente da Igreja quando uma pessoa bateu à porta. Era normal que os assistentes sociais da igreja trouxessem pessoas doentes e fracas para conversar com ele e se confessar. Guardou os bolos de notas no cofre sob a mesa de carvalho antiga. Ao abrir a porta, tudo que viu foi um homem baixinho, com a cara enrugada, os olhos fundos e avermelhados que pareciam estar embebidos na cachaça.
-Pois não, irmão?
-Pastor Castro?
-Isso mesmo. Em pessoa. E sua graça?
-Não tenho graça. Eu sou sem graça mesmo. – Sorriu em dentes amarelados o homem. -Posso entrar?
-Sim, fique à vontade. -Disse Castrinho, apontando uma cadeira de espaldar alto com o símbolo da igreja talhado no formão.
O homem sentou-se e foi direto ao assunto.
-Vim tratar de negócios.
-Negócios?
-Sim senhor.
-Que negócios? Alguma rádio?
-Não, não senhor. Eu vim negociar sua alma. -Disse o homem, sorrindo.
Castrinho achou aquilo estranho. Naquela altura da vida, já havia se esquecido da vida medíocre, do pacto com o diabo, do desejo da fama e fortuna.
-O que?
-Sim, o pacto, pastor Castro. O pacto.
-Que pacto?
-O pacto que o senhor fez.
Então Castrinho olhou no fundo dos olhos avermelhados daquele homem e se lembrou. E um frio lhe percorreu a espinha.
-Mas… Mas… O Chiquinho Belzebu… Quer dizer que…
O homem apenas assentiu com a cabeça. Abriu sua boca marcada por rugas e sorriu com os dentes amarelados.
-Funcionou.

FIM

Jurado de morte – Parte 9

Zé agarrou-se ao tronco com tanta força que parou de sentir os dedos. Fechou os olhos e preparou-se para morrer.
Em seguida, outro tiro foi disparado. Mas não houve grito nem nada do tipo. Apenas um silêncio.
Zé abriu os olhos e olhou para baixo. De cima do galho, ele podia ver por entre a fresta do portão os homens colocando munição em varias armas. Eram todas armas de grosso calibre. A fresta era estreita, então não dava para ver muito, mas pelo pouco que viu, Zé Walter notou um arsenal digno de filme de guerra.
Ele ficou ali, agarrado ao tronco, vendo os homens testando as armas. Volta e meia um deles dava um tiro para o ar.
Um tempo depois varias vans dobraram a esquina da rua estreita e subiram a rua na direção da casa, como uma carreata silenciosa.
Da primeira van desceu um sujeito forte que fez sinal com a mão para as outras. As vans pararam e desligaram os motores.
Zé olhava da árvore, mas estava escuro e não dava para ver muito bem, mas lhe pareceu que as vans estavam cheias de gente. Zé contou sete vans no total. Calculou de cabeça que ali deviam estar cerca de quarenta bandidos aguardando alguma coisa.
O fortão bateu três vezes no portão de ferro. Dali a um tempo o portão abriu e o Buda saiu, segurando um fuzil.
Os dois se cumprimentaram e ficaram conversando na frente da casa. Zé estava muito alto, bem em cima deles. Não dava pra escutar o que eles estavam dizendo, mas pareciam combinar uma estratégia qualquer. O Buda pegou do bolso da bermuda um mapa e mostrou ao cara forte. Das vans desceram varios homens que se juntaram ao bolinho na porta da casa.
Zé teve medo que algum deles olhasse para cima. Com aquele monte de bandidos e armas, se isso acontecesse, ele seria transformado em peneira.
O Buda passou as informações nos mapas para alguns homens, que voltaram para as vans. Em seguida dois sujeitos magrelos trajando apenas bermudas brancas, que mais pareciam escravos de filme ou novela surgiuram de dentro da casa, carregando uma caixa pesada. Os caras abriram a caixa e Zé Walter viu uma enorme quantidade de armas ali dentro. Os homens saíam das vans e vinham em fila, receber o armamento. Revólveres, pistolas, metralhadoras… A quantidade de armas distribuídas era impressionante.
Quando as armas já estavam no fim, surgiu o Lion na porta. Ele foi cumprimentado por varios dos bandidos. Eles conversaram um pouco.
Ajeitaram-se em uma roda e oraram à Deus para saírem vitoriosos naquele bonde.

Zé ficou agarrado ao galho, olhando fixamente para ele. Era ele mesmo. Aquele sujeito dos olhos vazios e escuros. Assassino de mais de 500 pessoas, ali, bem debaixo dele, orando a Deus. Lion virava a cabeça para cima diversas vezes na oração. Cada vez que ele virava para cima, Zé temia ser descoberto. Mas felizmente, Lion orava com os olhos fechados.
A oração dos bandidos já terminava quando Zé escutou um pequeno estalo no galho em que se agarrava.
Seu coração quase parou pela segunda vez. O galho não ia aguentar. Ele era pesado demais.
Zé anteveu a cena dramática que aconteceria. O galho ia se partir e ele ia cair em cheio em cima do Buda, bem ao lado do Lion e seus amigos, armados até os dentes. E então, se não morresse na queda, ele seria levado para dentro daquela casa e sofreria torturas sem fim até que sua cabeça fosse decepada pela espada justiceira.
Zé começou a rezar mentalmente. Prendeu a respiração e os pequenos estalos pararam.
Nisso, os homens já voltavam para suas respectivas vans. Zé Walter respirou lenta e pausadamente, fazendo um esforço sobre-humano para parar de tremer de medo.
O Buda e o sujeito com cara de maluco saíram e entraram na Van preta. Lentamente as sete vans saíram em direção a rua de cima, seguidas pela van preta. Lion acenou para Buda e para o maluco e esperou até eles virarem a esquina.
Então, ele ficou na condição perfeita para que Zé Walter fizesse seu trabalho.
Zé lentamente levou a mão na cintura para pegar o revólver. Pegou, apontou… Mas o galho voltou a estalar. Estalos cada vez mais altos. E Zé abortou o tiro que pretendia dar.
Lion entrou na casa e fechou o portão de ferro com uma batida forte que ecoou na noite.

Zé moveu-se lentamente, com medo do galho quebrar. Quando ele finalmente saiu de cima do galho, o mesmo partiu e ficou pendurado na árvore.
Zé Walter sentiu um profundo alívio ao ver que se tivesse atirado ele teria despencado certeiramente de cara na calçada.
Zé ficou de pé, apoiado num outro galho mais acima. Agora ajanela de vidro quebrado estava mais distante, mas ainda era uma distância que ele achava que conseguiria saltar.
Olhou em volta, e não viu viva-alma naquela rua escura.
Zé Walter mirou a janela, agachou-se contra o galho em que estava em pé, colocou o revólver na cintura e retesou todos os músculos. Benzeu-se pedindo proteção a Deus e saltou no ar, com os braços abertos.
Zé Voou direto na direção da janela de vidros quebrados, e agarrou-se a mesma, espatifando a cara em um vidro, que caiu lá em baixo. Zé ficou pendurado, toscamente pendurado, com meio corpo para fora daquela janela. Então usando as pernas conseguiu se arrastar para dentro da casa. Quando ele caiu naquele cômodo escuro, suava em bicas e seu rosto doía.
Ele não via nada. Estava tudo escuro.
Tateou em direção oposta a janela e esfregou a mão na parede até encontrar um interruptor. Quando acendeu a luz, percebeu que estava num quarto cheio de entulhos. Quadros, mesas, cadeiras, armários, um monte de coisa velha acumulada. O quarto mais parecia um brechó.
Zé torceu para que a porta estivesse aberta. Desligou a luz por precaução e girou a maçaneta lentamente. A porta fez um “click” baixo e abriu. Zé olhou pela fresta. Não havia ninguém. Era um corredor mal iluminado que dava acesso a uma escada que descia para o andar de baixo. E do outro lado, tinham duas portas. Zé já ia sair quando ouviu um barulho nas escadas. Ele voltou para dentro do cômodo-depósito e ficou com a arma na mão, de prontidão.
Viu pela fresta um dos negros de bermuda branca vindo calmamente pelo corredor. O negro passou direto pelo quarto-depósito e foi até uma das portas no fim do corredor. Lá ele entrou no que parecia ser um banheiro e a julgar pelo barulho que ouviu, Zé Walter percebeu que o negro estava urinando.
Esperou até que o negro passasse de volta. O homem veio e passou direto, indo para o andar de baixo. Zé foi até a escada. Lá de cima ele ouvia o som de uma televisão, misturado com uma musica Funk e escutava também o Lion falando num radio ou walk talkie.
Zé desceu as escadas com o máximo de cuidado. O revólver do taxista na mão. Ele olhou bem e viu que um dos negros estava lavando o carro, uma caminhonete de cabine dupla num jardim. A caminhonete era preta, com um enorme símbolo da milícia Thundercats estampado no capô. Era a caminhonete que tocava o funk alto. E dentro da casa, sentado na frente de uma televisão gigantesca que passava um filme pornô, sem camisa, segurando uma lata de cerveja numa mão e um walk talkie na outra, estava o Lion. Zé não conseguiu ver onde estava o outro negro. Ao que parecia, os dois eram os guarda-costas do Lion.
Zé pensou em pegar a arma e dar um tiro de lá do alto da escada no Lion, mas aquilo se mostraria um erro. Certamente que os dois negões iriam reagir, atirando nele. A casa devia estar repleta de armas malocadas em todos os cantos possíveis e imagináveis.
Assim, Zé se conteve mais uma vez. Esperou Lion parar de falar no Walk Talkie.
Quando Lion parou de falar, concentrou-se no filme. Tomou um gole de cerveja e ficou admirando duas louras peitudas que se atracavam com volúpia. Zé esperou pacientemente o momento certo de dar o bote.
Olhou da escada e pela janela da sala viu que o negão do carro estava terminando o serviço. O sujeito entrou na sala e virou-se para Lion:
-Patrão, o carro tá pronto.
-Beleza, valeu.
-Porra, que peitão, hein?
-Senta aí, pô. Bora ver o filme!
-Ah, não vai dar, patrão. Eu tenho que ir pra casa. Dona encrenca tá esperando.
-Ah, tá safo. Quer uma grana?
-Não, não precisa não senhor.
-Ah, neguinho. Vai a merda. – Disse Lion pegando uma caixa na estante. Da caixa ele pegou umas notas de dinheiro. – Toma essa porra. Tu lavou o carro, cumpadi. Toma aí. Compra uma roupa nova pra dona encrenca lá. – Disse rindo. O negro abaixou, recolheu as oito notas e agradeceu.
-Valeu, patrão. Mais alguma coisa?
-Não, não. Tá safo. Pode ir.
-Então até manhã. – Disse o guarda-costas, vestindo uma camisa encardida do Flamengo.
Lion colocou o DVD pornô em pause e levantou-se para levar o negro até a porta.
Da escada, Zé Walter via tudo. Ele desceu com cuidado e correu para a cozinha.
Da cozinha, ele viu pela janela de serviço o outro guarda-costas arrumando varias caixas no quintal. Zé pegou a maior faca de cozinha que viu, abaixou-se e saiu pela porta dos fundos. Esgueirou-se pelas caixas no quintal e ficou parado perto de uma piscina, na espreita do negro.
Quando o guarda-costas passou por ele, carregando uma pesada caixa de madeira, Zé Saltou sobre o homem, aragarrando-o num mata-leão e tampando a boca dele. Em seguida, enfiou-lhe a faca na garganta. Um jorro quente de sangue espirrou para entro da piscina. O negro tentou se debater e Zé arrancou a faca da garganta do negro e tornou a cravar novamente, dessa vez no peito. O guarda-costas ainda tentou se debater um pouco, mas perdeu rapidamente as forças. Zé Puxou o corpo ele para a parte mais escura do jardim e ocultou-o atrás de umas folhagens.
Em seguida, correu abaixado até a janela dos fundos. Olho de lá e viu, pela cozinha, que Lion estava novamente na sala.
Zé Walter não pensava em nada além de matar o desgraçado que o jurou de morte.
Correu para dentro da cozinha e de lá observou a sala. O líder da milícia ainda assistia ao filme pornô.
Entre uma ceveja e outra, lion estava cheirando cocaína na mesa de centro.
Zé andou silenciosamente até o sofá em que Lion estava deitado. Em silêncio, colocou a arma na nuca do homem. Lion deu um pulo com o susto.
-Mas que porra é essa? -Perguntou surpreso.
-Surpresa, filho da puta! Sou eu!
-Hã? Quem é você?
-Eu? Ah, vai se foder, seu merda. Vai dizer que não sabe quem eu sou?
-… – Eu te conheço… Você tava preso?
-Não, seu filho da puta. Eu que te coloquei lá. E você me ameaçou de morte. Tá lembrado, seu porra?
-O que?
-Não se faz de retardado, seu otário.
-Mas, mas… Calma, rapaz. É dinheiro? Eu tenho dinheiro aqui. Muito dinheiro. Guarda essa arma. Olha, quer um teco? Tá um teco aí. Essa é da pura!
-Guarda arma é o caralho. Teco é a puta que te pariu, seu esterco humano. Chegou tua hora seu Lion.
-Mas… Eu nem te conheço, rapaz. Que porra é essa? O que foi que eu te fiz?
-Você cometeu um erro, Lion. Você disse que ia me matar. Agora quem vai deitar é você.
-Mas… Mas. Eu não falei nada disso. Você tá maluco.
-Maluco? Eu? Não se faz de imbecil, que isso não vai mudar nada. Eu vim aqui não é por dinheiro nem por merda nenhuma sua. Eu vim pra fazer justiça. Eu vou te matar antes que você me mate.
-Calma, garoto. Calma. Vamos conversar. Dá um teco aí, porra. Você tá careta?
-Quer conversar, seu Lion? Então tá. Conversa com o capeta! – Disse Zé Walter antes de apertar o gatilho com toda força na direção da cara de Lion.
O tiro estourou e o corpo de Lion voou para trás, batendo sobre a televisão onde as duas louras peitudas ainda gemiam.
O corpo inclinou para frente e bateu enm cheio na mesa de centro, de vidro, estourando tudo numa nuvem de cacos de vidro e cocaína. Na nuca, Zé Walter viu o buraco do tiro.

-Toma mais, ô filho da puta.- Disse Zé, disparando mais três tiros no corpo, só pra “garantir”.

Subitamente, ele sentiu um alivio, mas um alívio tão avassalador de ter dado cabo do homem que o jurou de morte, que nem podia acreditar. Sua vontade era sair gritando de felicidade, dando tiros para cima.
Zé abriu a caixa na estante e pegou um maço gordo de notas. Enfiou todo o dinheiro que podia nos bolsos. Depois pensou em como sair dali. Pensou em Gisela. Prometeu a si mesmo que iria com ela fazer a viagem dos sonhos deles.
Ele já estava se dirigindo para o portão quando teve um novo insight.
Se ele saísse e largasse o corpo de lion daquele jeito, os homens do bonde quando voltassem iriam saber que alguém matou o chefe. Quem mataria Lion? Não demoraria alguém perceberia que o homem que matou Lion só podia ser ele.
Zé parou e pensou em alternativas. Voltou para dentro da casa. Atravessou a cozinha e foi para a área externa, onde estava a caminhonete. Olhou pelo vidro e viu a chave na ignição.
Voltou então para a casa, e subindo para o segundo andar entrou nos quartos. No quarto do fim do corredor, mal abriu a porta ele viu um bandeirão com o símbolo dos thundercats na parede. Do lado, estava um cofre. E na parede, sob um facho de luz dicróica, estava ela, a famigerada Espada Justiceira.
Uma réplica perfeita da espada do personagem do desenho.
-Caralho, que foda. -Disse Zé olhando a espada. A lâmina, afiadíssima.
Zé pensou naquela arma e em todos os que ela degolou.
Ele pegou a arma e desceu para a sala, disposto a vingar todos os mortos de uma só vez.
Entre gemidos de prazer e gritos obscenos vindos da Tv, ele desferiu um golpe preciso naquele corpo que derramou tanto sangue no tapete de pêlo branco que este ficou cor de rosa.
Zé agarrou Lion pelos cabelos e olhou bem nos olhos negros. Agora, virados para cima e embebidos em sangue, eles não poareciam tão ameaçadores.
Surgiu um barulho no radio. Alguém falou alguma coisa, mas o sinal era ruim e Zé não entendeu nada.
Zé pegou o walk talkie e guardou no bolso. Jogou a cabeça de Lion sobre o sofá e saiu. Pegou a caminhonete e foi para rua.
Fechou os vidros fumê, e partiu na direção do Morro do Carrapato. Já estava querendo amanhecer o dia quando Zé Walter chegou ao morro do Carrapato.
Zé desceu da caminhonete e fui até uma padaria que acabava de abrir. Ali ele chegou para o antendente e pediu um café.
O atendente colocou um café numa pequena xícara.
-Aí.
-Senhor?
-Tu sabe onde que tem uma boca de fumo aqui? -Disse entre goles de café.
O atendente sorriu maliciosamente.
-É do preto ou do branco?
-Dos dois.
-Ah, tô ligado. Se o senhor quiser, eu tenho aqui…
-Não, não. Eu quero em quantidade. Negócios, você sabe como é, né? Foi o Lion que me mandou vir comprar um bagulho do bom aí pra uma festa que ele vai dar.
-Ah, tô ligado. Tô ligado. – Disse o atendente do balcão sussurrando. -Então, tu ta vendo aquela rua ali? Perto da borracharia? Vai até o final e dobra a direita. É a casa azul com placa do sacolé. Pode dizer que foi o Dunga que indicou? É que eu ganho comissão.
-Claro, Dunguinha. Tua comissão tá garantida, meu chapa.
Zé tomou o restante do café, pagou e partiu com a caminhonete na direção indicada. Foi até o fim da rua. Virou cuidadosamente a caminhonete para a posição de saída. Então bateu na porta da casa azul com pleca de sacolé.
-Quem é? -Perguntou uma voz do outro lado da porta.
-Sou amigo do Dunga lá da padaria.
-Quer sacolé?
-Quero.
Uma pequena abertura na porta se abriu. Do outro lado, olhos avermelhados na escuridão.
-Qual sabor?
-Todos.
-Todos?
-É. -Disse Zé Walter, mostrando o bolinho de dinheiro.
Calmaí.
Então Zé escutou uma série de barulhos de trancas e a porta se abriu.
Zé viu que o atendente da porta era um molecote mgrelo de uns doze anos.
Dois negros estavam sentados numa sala vendo Tv. Perto da parede, um adolescente de uns dezessete anos pesava trouxinhas de cocaína numa pequena balança. Zé viu uma arma sobre a mesa.

Da cozinha veio um sujeito grande, com quase dois metros, de bigode, sem camisa e cabelão pixaím black power.
-Coé?
-Beleza?
-Tu vai levar quanto?
-Vou levar tudo.
-Porra, tudo? – O bandido arrelagou os olhos.
-Tudo. Você ouviu.
-Quanto vc tem aí?
-Tenho uns seis mil.
-Rá, rá, rá, rá! Seis mil não dá pra quase nada, ô pela saco.
-Que pena. -Disse Zé sacando a arma e acertando logo três tiros no peito do traficante. O cara caiu por cima do sofá, que capotou para trás com o peso. O moleque que pesava as trouxas levantou tentando alcançar um 765 que estava na mesa. Zé Acertou o moleque na cabeça. Os miolos e sangue se espalharam pela lateral da parede, tal qual uma pintura pós moderna do Jackson Pollock.
Entraram correndo dois outros pivetes armados vindos da cozinha. Zé Sacou o 765 da mesa e matou os dois antes que chegassem na sala.
O moleque que abriu a porta ficou parado, petrificado, com medo.
-O dinheiro. Eu quero o dinheiro, porra! -Disse Zé para o moleque.
O moleque apenas olhava pra ele, petrificado.
-Anda viadinho! – Zé Bateu com a arma nele. -Cadê o dinheiro, porra?
O moleque apenas apontou para a geladeira na cozinha.
Zé agarrou o moleque pelo braço e foi até a cozinha. Abriu a geladeira e viu uma quantidade absurda de dinheiro. Pacotes e mais pacotes de dinheiro.
-Caralho! É muito dinheiro. Vamos moleque, me ajuda a levar este dinheiro aqui lá pro Lion.
-Tio.. Calmaí, eles vão me matar… – Implorava o moleque com lágrimas nos olhos.
-Prefere que eu te mate então, seu puto? -Disse apontando o 765 na cara do garoto, que imediatamente concordou.
Ele foi soluçando com um saco de lixo cheio de dinheiro até o carro. Zé abriu a caçamba da caminhonete e o moleque jogou o dinheiro na caçamba. No total, Zé Walter e o menino levaram três sacos de dinheiro até o carro. Zé olhou bem dentro da cara do moleque. Apontou a arma.
-Olha aí, neguinho. Tu não vai falar nada que foi o Lion que mandou roubar a tua boca não, hein? Se falar o bicho vai pegar. Eu volto e vou escrotizar você e sua família.
O menino apenas acenou com a cabeça positivamente.
Zé pisou fundo no acelerador, descendo o morro a toda velocidade com a caminhonete dos Thundercats.

Em seguida, ele rumou na direção da estrada para as quebradas do Lion, na direção de Viçoso Jardim. O sol já estava raiando quando Zé chegou nas proximidades de um lixão, onde muitas famílias garimpavam um pouco de comida.
Zé jogou o carro num matagal das proximidades. Ele desceu do carro, pegou os dois sacos cheios de dinheiro e jogou lá no meio do lixão. Zé pegou um dos sacos, colocou nas costas e foi para a estrada.
Pegou um ônibus parador na estrada para Viçoso Jardim. Da janela do lotação, ele viu à distância, as pessoas miseráveis comemorando com o saco cheio de dinheiro. Aquilo o deixou feliz. Zé Desceu nas proximidades de onde havia deixado a Parati, perto da banca de jornal.
Ele abriu o carro, jogou o saco de dinheiro dentro. E esperou.
Algum tempo depois, ele viu passar as sete vans com homens armados até os dentes, saindo em disparada da casa. Era o bonde da morte.
Zé abaixou-se e esperou deitado no carro até o bonde passar. Enquanto esperava ele pensava para onde aqueles homens teriam ido.
Depois de algum tempo, quando a rua pareceu voltar ao normal, Zé Walter saiu com a Parati do cunhado de volta para casa.
Enquanto dirigia, Zé Walter lembrou que estava com o Walk Talkie de Lion. Aumentou o volume do aparelho e ouviu uma conversa:
-Tão onde? – Perguntava uma pessoa.
-Estão na base. Atirando. Veio a favela toda. Vem pra cá. Vem pra cá logo, porra! Eles tão matando todo mundo! -Gritava uma outra voz em meio a ruidos e estampidos.
Zé Walter sorriu. Aquele era o fim dos Thundercats.
Ele escutou no rádio que os traficantes da favela do Carrapato não quiseram deixar barato o roubo na boca de fumo. Como previsto, o aviãozinho do tráfico dera com a língua nos dentes, e todos os soldados dos Thundercats pensaram que foram os traficantes do Carrapato que mataram Lion. Zé descobriu pelo radio que o sujeito gigante da boca de fumo era o “Diagonal”, marginal perigoso, procurado há anos pela polícia. Diagonal era o lider de uma facção do crme organizado que visava o controle total das favelas. Por isso era desafeto direto do Lion. Zé Walter literalmente atirou no que viu e matou o que não viu.
O Rádio do carro dava conta de uma guerra sem precedentes entre as milícias do Viçoso Jardim e os comandos unidos das favelas, com prejuízos e incontáveis baixas para os dois lados.
Zé rumou para a casa de Armando. Tocou a campaínha e entregou o carro. A esposa dele atendeu. Sarita disse que Armando tinha ido trabalhar.
Zé entregou a Sarita a chave da Parati e pegou um ônibus para casa.
Ele estava morrendo de saudade de Gizela. Planejou chegar de surpresa, com o dinheiro e sair em seguida para comprar passagens para as Ilhas Gregas e Paris, o sonho da mulher dele.
Desceu do ponto com o saco de dinheiro nas costas sentindo-se o próprio papai noel. Ao chegar no predio, seu Limair estava na portaria, cheio de dedos.
-Seu José… Seu José… -Tentava falar o porteiro, gaguejando.
Zé percebeu que algo estava errado no tom grave na voz do porteiro. Olhou na cara do seu Limair, que perdeu a fala.
Zé Walter correu para o elevador e disparou para casa. Chegando lá, deu de cara com a polícia. Várias pessoas mexiam na casa, tirando fotos.
-O que é isso? – Perguntou.
-O senhor é o dono da casa? -Perguntou-lhe um policial anotando coisas num bloco.
-Sou.
-Meu nome é detetive Barros. Dona… Deixa eu ver aqui. Gi…
-Gizela. É minha mulher. O que houve? Fala pelo amor de Deus!
-Bom, Seu José. Sua esposa, como posso dizer, sofreu um atentado.
-O que?
-Pois, é. O IML já removeu o corpo, seu José. Está a sua disposição para reconhecimen…
-Mas… Mas… Não! Não é possível! – Zé Walter caiu de joelhos. Sentia o mundo desabando.
-Pois é, seu José. Os vizinhos acordaram esta noite com os tiros.
Zé Walter estava desconsolado. Apenas chorava. O policial continuou.
-Eles ligaram para a polícia e a patrulha que faz a segurança no bairro subiu. Encontraram sua esposa morta, esfaqueada. No quarto com ela estava uma outra mulher, que mais tarde foi identificada como Dona Sarah. Ela disse que era sua ex-namorada. Parece que ela tem problemas psiquiátricos. Ela estava repetindo uma coisa sobre ter avisado que ia matar a dona Gizela porque roubou o senhor dela… Que agora o caminho estava livre, que ela iria casar com o senhor. Ela estava completamente fora de si, seu José. Sinto muito… Tudo indica que foi um crime premeditado por uma pessoa com problemas mentais e…

Zé Walter já não mais ouvia o que o policial dizia. Ele estava tonto. Fechou os olhos. Sentiu que ia desmaiar. Chorou desconsoladamente até perder as forças e cair desmaiado no corredor do prédio.

FIM

Jurado de morte – parte 8

Zé Walter dirigia o carro sentindo um estranho misto de emoções. Medo, angústia e uma estranha euforia coabitavam seu coração.
Enquanto dirigia ele pensava em como descobrir o paradeiro do tal Lion. Sem pistas nem idéias, partiu na direção do bairro Viçoso Jardim, um bairro pobre, tomado por algumas favelas e fábricas desativadas.
Zé chegou ao bairro na parte da tarde. Já escurecia quando ele finalmente estacionou a a Parati de Armando perto de uma pracinha.
Dali, Zé resolveu seguir a pé. Foi direto ao ponto onde umas duas vans com a marca dos Thudercats aguardavam a lotação completar.
Zé Walter teve o impulso de perguntar de cara para o sujeito da van onde encontrar o Lion, mas sabendo que ele fugiu do presídio, aquilo seria uma pergunta suicida. Certamente ele seria tomado por um policial civil e isso implicaria em sentença de morte naquele bairro perigoso, dominado pelas milícias e pelo tráfico, que disputavam uma guerra permanente pelo poder.
Zé Walter fez o oposto. Foi até o cara do espetinho. Um camelô que vendia espetinhos de “churrasco de gato”. Na verdade, os espetinhos eram de carne de boi e frango, assadas na brasa de uma minúscula churrasqueira de ferro fundido, toda encardida. Zé sentou ali no meio fio, perto de uma lata de lixo transbordante e ficou parado, degustando um churrasco de gato.
Não demorou, novas vans chegaram ao ponto final, e delas desceram os motoristas. Em menos de cinco minutos, uma pequena reuião de motoristas de van aconteceu na banca do churrasquinho de gato. Zé estava na lateral, obscurecido pela mal cheirosa lata de lixo, cheia de bagulho nojento e moscas.
O local era ruim, mas Zé podia ouvir perfeitamente a conversa dos motoristas. Falaram de futebol, de mulher, de problemas familiares, contaram piadas, falaram de desemprego, política, religião…
Zé já não aguentava mais ficar ali, parado do lado do latão de lixo. E nada dos desgraçados falarem do Lion. Só conversavam amenidades. Levou um bom tempo nisso. Tanto tempo, que Zé Walter já pensava em desistir e tentar outra abordagem. Foi nessa hora que chegou um velho gordão e careca, junto com um motorista de van com cara de maluco.
Os homens saudaram efusivamente o velho, um tal de Buda, e não demorou, o tom da conversa diminuiu.
O velho gritou para o “mineiro” do churrasquinho que queria aquele “clássico”.
Das gargalhadas e risadas em alto e bom som, agora os homens falavam entre dentes. A altura que eles falavam baixou tão consideravelmente que não tardou para que beirasse o incompreensivel. Zé esticava o mais que podia o pescoço para ouvir alguma informação, mas só distinguia poucas palavras.
O tal mineiro, o cara do churrasquinho, se aproximou do grupo trazendo um espetinho só de gordura. O velho Buda agarrou o espetinho de nacos amarelos de gordura de boi, pingando copiosamente e começou a comer feito um animal. Zé sentiu vontade de vomitar vendo o Buda comer gordura pura. Enquanto o “Mineiro” estava perto, e eles pararam de falar. Aquilo era suspeito. Assim que o “mineiro” voltou para a churrasqueira, eles retomaram a conversa.
Quando você não consegue ouvir uma frase completa, precisa de muita atenção, pois uma outra palavra ou duas na frase de resposta, pode lançar pistas fundamentais na construção das palavras que ficaram faltando. Zé fazia assim e gradualmente, consegiu descobrir que o tal Lion estava sendo chamado de “rei”. Aquilo foi fácil descobrir, já que Lion é a mesma coisa que Leão. E Leão é “o rei da floresta”.
Em seguida, ele soube que o Leão, estava em outra “jaula”. E que já tinha mandado afiar o “facão”. No meio disso, sobravam palavras disconexas e incompreensíveis. Mas ele conseguiu perceber que os homens falavam em “bonde” em “banco” e em “derrubar geral”. Um deles falou algo que não deu pra saber o que era, mas fez com as mãos um movimento estranho, como o de colocar uma caixa sobre uma mesa. Depois fez um movimento simulando correr e fez um barulho assim “booooom!”. Zé compreendeu que aquilo só podia significar que Lion planejava explodir alguma coisa. Mas o que seria? Um banco?
Não era impossível. A quadrilha estava crescendo rapidamente e não demoraria a se desmembrar novamente para ocupar outras comunidades carentes da cidade. Isso explicaria o “bonde” e explicaria também a necessidade de roubar um banco para cobrir o alto custo de uma operação de guerra. Os milicianos roubam bancos porque sabem que bancos possuem seguro. Roubar bancos é menos prejudicial à imagem da milícia nas comunidades do que aumentar as taxas que os mantém. Além do mais, com o aumento substancial na entrada de dinheiro, eles podem dispor de mais armamento e melhor qualidade nas proteções necessárias para entrar em confronto com os traficantes. Certamente que “derrubar geral” significava entrar nas favelas escrotizando todos os soldados dos comandos que as controlavam, assumindo o controle e estabelecendo os novos padrões “thundercats” de conduta e arrecadação.
Zé continuou de ouvido em pé para descobrir mais informações e soube que o tal “Bonde” sairia naquela madrugada. O Rei controlaria tudo por rádio, da “jaula”. Como Lion não estava mais preso, a tal nova jaula seria algum tipo de esconderijo. Era previsível que Lion não voltasse para seu quartel-general em função de estar ainda procurado pela polícia.
A informação mais importante daquela noite e que valeu as horas desperdiçadas ao lado daquela lixeira nojenta de onde pingava um suquinho de lixo marrom-esverdeado, surgiu com o velho barrigudo, o tal “buda”. O Buda falava um pouco mais alto que os motoristas e Zé pôde ouvir com total clareza que ele iria se encontrar com o Rei dali a algumas horas para acertar o lance do bonde.
Zé ficou ali mais uns minutos. Comeu outro churrasquinho e esperou.
Depois de mais dois churrasuqinhos “clássicos” de banha amarela, o Buda deu-se por satisfeito e saiu dali com o motorista com cara de pirado.
Zé levantou-se e saiu atrás, guardando cerca de vinte metros deles por precaução.
Os dois caminharam pela avenida de acesso à pracinha até chegarem numa van preta, sem placa, que estava estacionada na porta de uma garagem.
Zé marcou bem a Van e correu para o lado oposto, para pegar a Parati.
Assim que entrou na Parati, ele viu a van passar por ele com os dois sentados na frente.
Zé esperou ainda alguns poucos minutos até que houvesse uma brecha no trâsito para que ele pudesse pegar o caminho na outra mão.
Quando finalmente conseguiu, ele ainda podia ver a van preta ao longe, mas havia vários carros entre os dois. Isso ajudava um pouco a mantê-lo longe da vista dos dois.
À medida em que o tempo foi passando, Zé percebeu que eles estavam saindo do bairro Viçoso Jardim e entravam numas quebradas distantes. Eles entraram por ruas cada vez menos movimentadas de modo que chegou um momento em que só havia a Parati, um fusquinha com adesivos evangélicos e a van preta.
Zé teve medo que com a redução do tráfego, eles desconfiassem que estavam sendo seguidos. Então aumentou a distância entre os carros, mas mantendo a van sempre ao alcance da vista.
Os homens pararam o carro numa rua estreita perto da entrada de um morro. Zé parou perto de uma banca de jornal, uma esquina antes.
A hora estava bem avançada e era o início da madrugada. Zé Walter desceu do carro e se esgueirou pelos muros, para ver os dois andando, sozinhos na rua estreita. Eles andaram, pararam e olharam em volta. Zé temeu ter sido visto. Espremeu-se num muro recuado e torceu para não dar merda. Por sorte, não deu.
Então Zé escutou os dois darem três socos num portão de ferro. Dali a um tempo, o portão abriu e eles enraram.
Zé correu até o portão na tentativa de escutar alguma coisa, mas não ouvia muita coisa além de um funk tocando lá dentro e algumas risadas.
Zé tentou descobrir uma forma de invadir o lugar, mas o esconderijo de Lion parecia intransponível. Era apenas um grande portão de ferro, sem pintura, só no zarcão, com alguns posteres de bailes Funk rasgados colados na frente. Não havia nenhum símbolo ou marca que ligasse o local com a milícia dos Thundercats.
Zé atravessou a rua e tentou olhar de longe, na esperança de ver alguma coisa. Mas não havia nada que indicasse uma forma de acesso.
Então ele percebeu que havia uma árvore, uma amendoeira, que tinha uns galhos baixos e lá em cima, um galho se aproximava bastante de uma janela com vidros quebrados no segundo andar da casa.
Zé correu para a amendoeira e começou a escalar. Como não tinha preparo físico ou experiência em escalar árvores ele se arranhou e teve que tentar pelo menos três vezes antes de conseguir atingir o galho principal.
Ele finalmente conseguiu e rapidamente foi escalando a árvore, até estar a cerca de dez metros do chão.
A janela com vidro quebrado estava a menos de um mísero metro dele. Zé esticou-se o mais que pôde, mas o galho era fino e ele ficou com medo de quebrar. Foi nessa hora que ele ouviu um tiro. Um tiro tão alto que seu coração quase saiu pela boca.
-Puta que pariu! Me viram! -Pensou.
(continua)

Jurado de morte – parte 7

Zé Walter comprou imediatamente aquele jornal. Sentou-se no meio fio do posto, perto do jardim, e começou a ler.

11 FOGEM DE PRESÍDIO – LION E ELIAS BAGACEIRO NA RUA DE NOVO

Onze presos conseguiram fugir na noite de ontem da P 2 de Presidente Wilson, presídio de segurança máxima na região metropolitana da cidade. Os fugitivos escaparam usando uma corda conhecida como Teresa, feita com lençóis.

A Polícia Militar procura os onze fugitivos e fez a recontagem dos detentos no fim da tarde. A penitenciária abriga presos de alta periculosidade, entre eles alguns líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC), Terceiro Comando, Amigos dos amigos (ADA) e de facções diversas, como a milícia Thundercats. Os principais fugitivos, conhecidos como “estrelas” seriam Elias Soares de Pimentel Braga, o “Elias Bagaceiro” e Janilson Cunha de Bastos Coelho, o “Lion”, famoso por decepar a cabeça de seus desafetos a golpes de espadadas.

Há dificuldades para se obter informações sobre a fuga. “Não temos autorização neste momento para dar informação a respeito da fuga”, resumiu, irritado, o agente penitenciário Antônio Silva. Segundo ele, a direção do presídio estava reunida para analisar a situação. Por meio da Assessoria de Imprensa, a Secretaria da Administração Penitenciária  limitou-se a informar que vai apurar em que circunstâncias ocorreu a fuga. A SAP não divulgou a lista completa dos  nomes dos fugitivos e nem confirmou se há líderes do PCC entre eles.Segundo informações não oficiais colhidas por O GLOBO, apenas Lion, o líder da milícia Thundercats está entre os fugitivos célebres.

CABEÇAS VÃO ROLAR – A MARCA DA MILÍCIA

Nos últimos meses, as atenções se voltaram para a expansão desenfreada das milícias nas favelas da cidade. Formados por policiais e ex-policiais militares, bombeiros, vigilantes, agentes penitenciários e militares, muitos deles moradores das comunidades, esses grupos cobram uma taxa dos moradores, em troca de proteção e repressão ao tráfico de drogas. Instaladas inicialmente na Zona Oeste da cidade, elas chegaram ao subúrbio, às vias de acesso à cidade e regiões periféricas consideradas estratégicas. A Prefeitura calcula que 55 favelas já estão em poder das milícias. Já a Secretaria de Segurança suspeita que o número seja maior.

Em março de 2000, O GLOBO  já noticiava o surgimento destes grupos. Na época, atuavam em 42 comunidades, onde traficantes tinham sido expulsos. Desde então, os paramilitares vêm ampliando o território, impondo taxas de proteção a moradores de favelas e até bairros. As regiões afetadas pelo poder paralelo do crime, são marcadas por símbolos que deixam claras as zonas de ação dos grupos.  Os símbolos variam de formas geométricas simples a complexos artifícios que passariam desapercebidos das pessoas que não conhecem o local. Eles vão de triângulos verdes que são pintados nos muros de casas, a formas complexas, cuidadosamente grafitadas, como o símbolo dos Thundercats, desenho animado bastante popular na década de 80.

Levantamento do jornal com base em investigações da Corregedoria Geral Unificada das Polícias e da Subsecretaria de Inteligência, publicado em janeiro, indica a participação de 179 policiais, a maioria militares, em 18 grupos. Entre os citados figuram um tenente-coronel, um major, três capitães e cinco tenentes.

Os números comprovam que em um ano foram agregadas 30 novas comunidades à área de domínio das milícias. Na esteira da expansão de poder, os grupos também passaram a atuar na agiotagem e exploração de centrais clandestinas de TV a cabo. Conhecidas como “Gatonet”, as redes clandestinas somam pelo menos 600 mil usuários na região metropolitana da cidade, o que daria dois assinantes informais para cada assinante formal, segundo estimativas da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Na ocasião, o ex-secretário Nacional Antidrogas Walter Fanganiello Maierovitch comparou a atuação das milícias à da máfia italiana:

- Em um primeiro momento, eles cobram para garantir a segurança, mantendo as comunidades numa espécie de camisa-de-força. Em seguida começa o flagelo do terror.

Algumas milícias possuem características próprias para suas execuções. É o caso da milícia Thundercats, que ficou conhecida por torturar e degolar a golpes de espada e facão as pessoas que não compartilham de seus preceitos. Sabe-se que os Thundercats já mataram 500 pessoas nos últimos cinco anos. Segundo o inspetor da polícia Civil Robson Cruzoé de  Almeida, o líder da Thundercats Janilson Cunha de Bastos Coelho, o “Lion”, seria um poderoso e perigoso psicopata, com ligações na polícia e no mercado de transporte clandestino. Lion teria inventado o golpe da “espada justiceira” e desde então não parou mais de matar.

A notícia da fuga de Lion na noite de ontem causou alvoroço entre os moradores de Viçoso Jardim. Lojas amanheceram fechadas e  as vans irregulares desapareceram das ruas, deixando um saldo de milhares de moradores das comunidades próximas sem acesso ao trabalho e bastante irritados. Procurados por O GLOBO, nenhum morador da região quis se pronunciar. Todos temem falar alguma coisa que Lion não goste e terem suas cabeças decepadas.

“Causa espanto que em pleno século XXI as pessoas ainda tenham medo de perderem as cabeças, como na Revolução Francesa” – Diz o professor de sociologia Dr. Ibrain Paiva Swift, da Universidade Federal Fluminense.

A polícia prometeu empenho em localizar e trazer de volta os 11 foragidos, mas a julgar pelo medo das pessoas, é praticamente certo que com Lion novamente nas ruas, “cabeças vão rolar”.

Zé Walter fechou o jornal. Ele tremia. Com Lion nas ruas o problema de encontrar e “cortar o mal pela raiz” se complicava muito. Era certo que a polícia havia facilitado aquela fuga. Lion era um homem poderoso, com uma rede de informações e contatos que dava pra perder de vista. Obviamente aquilo facilitou as coisas.

Zé Walter não duvidava que inclusive a fuga dos onze era apenas uma desculpa para não dar tanto impacto para o fato de que Lion fugiria sozinho. Com onze meliantes nas ruas, ficava mais simples encontrar um ou outro e enrolar a pressão popular de que a polícia estava trabalhando. E fariam isso até que a memória curta do brasileiro se encarregasse de apagar todos os vestígios daquele pequeno golpe, custeado com dinheiro sujo.

Zé tentou se conter. Se acalmar. Precisava por as idéias em ordem.  Olhou a hora diversas vezes. Nada do Armando chegar no posto Gauchão do Brejo.  Quando finalmente Armando apareceu, Zé já não agüentava mais esperar e já pensava em pegar um ônibus parador na rua de trás do posto, até a rodoviária e de lá correr a pé até sua casa.

-Fala mermão! – Gritou Armando de dentro da Parati.

-Porra, tu demorou pra caralho, seu viado.   -Respondeu Zé Walter, entrando no carro.

Os dois ficaram um tempo no posto Gauchão do Brejo. Armando queria saber tudo com detalhes. Zé não perdeu tempo e contou-lhe tudo que acontecera até ali. Toda aquela história sobre ser ameaçado de morte, fuga, homem da pizza, bigodudo sinistro do Opala preto, motorista gordinho, balconista magrelo do posto, o roubo do Escort XR3 e etc.

À medida em que contava toda a saga dos seus últimos dias, Zé Walter explicava também suas conjecturas mentais. Armando inicialmente falante e interessado, gradualmente adquiriu uma postura mais e mais assustada. Quando Zé acabou de lhe contar o que havia se passado com ele, notou que seu interlocutor estava esquisito, com os olhos arregalados, olhando para ele.

-O que foi porra?

-…

-Fala, Armando. Que é? Tá bolado?

-Cara… Como que eu vou te dizer isso? Ai meu Deus… Bom,  cara… Se liga, acho que você está doente.

-Que merda é essa que você tá falando seu bosta?

-Meu… Isso aí, cara. Eu já vi isso num filme uma vez, meu. Isso é nóia cara. Tu tá tomando remédio?

-Ah, porra. Vai se foder, Armando. Eu te liguei pra você me ajudar e você aparece com esta conversa fiada de maluquice, meu? Tu acha que eu sou maluco? Olha bem pra minha cara, porra. Olha. Porra olha aqui. Aqui, nas fuças. E agora, agora fala, eu sou maluco?

-Cara… Me larga. Me larga. Pára, calmaí. Meu, Zé, você é um amigão, cara. A gente trabalha junto e porra, meu… A gente cresceu junto, né? Tu sabe que eu sou brother, que eu não vou te sacanear. Mas meu..  Isso aí é loucura. Tu deu uma surtada, cara. Uma surtada assim, de leve. Não quer dizer que você seja…

-Eu não sou maluco porra! Eu não sou maluco! – Zé gritava dentro do carro. E o fato de gritar que não é maluco é uma coisa que faz qualquer pessoa parecer realmente maluco. As pessoas do posto começaram a olhar para eles, e vendo que estavam chamando atenção, Zé pediu para Armando sair com o carro.

Armando acelerou a Parati para a estrada e durante vários minutos ambos ficaram em silêncio no carro. Zé Walter estava visivelmente irritado.

Armando quebrou o gelo:

-Zé?

-Fala.

-Zé, você tem alguma prova concreta de que isso que você me contou aconteceu?

-Como assim?

-Tipo, cadê o papel da ameaça?

-Pois é… O cara levou.

-Cara? Que cara?

-O cara da pizza, que invadiu a nossa casa. Porra, tu não prestou atenção não, seu viadinho?

-Ah, tá. O cara da pizzaria que entrou no seu apartamento com uma pizza que você não pediu, que mexeu na sua televisão e que você acha que foi lá pra te matar. Mas que não existe testemunha, né?

-… – Zé ficou pensativo. De fato, tirando a Gizela, ninguém tinha visto o homem da pizza.

-Tá, mas isso é irrelevante. Veja por exemplo o revolver do taxista, ó.  – Disse já tirando o 38 da cintura.

Armando quase perdeu o controle do carro quando viu a arma reluzir do lado dele.

-Caralho! Vira isso pra lá, porra!

Zé Walter riu e guardou a arma. Pela primeira vez podia ver, na expressão do cunhado que ele começava a acreditar no que Zé tinha contado.

-Meu Deus, cara… O que foi que você fez? Tu não matou o cara, né?

-Não, não… Foi como eu disse, mandei ele vazar pelo mato adentro. E eu fui embora com o taxi.

-E o que a gente vai fazer, Zé?

-Eu não sei ainda. Quando eu te liguei, eu até falei em chamar o Timbú. Meu plano era matar o Lion.

-Hã? Tá maluco? Que porra é essa? Pirou, Zé?

-Não, cara. O jeito é esse mesmo. O cara vai me cercar até me pegar. Se eu derrubar ele antes, eu escapo.

-Mas Zé, tu não é assassino, cara. Tu é Arquiteto.

-Exato. Aí que entra o Timbú.

-Cê tá pirado mesmo. Rapaz, o Timbú né brincadeira não, meu. O cara é mau. Eu tenho até medo dele.

-Que se foda. Você fala isso porque não é a tua cabeça que vai ser decepada com aquela porra de espada justiceira, meu. Se ponha no meu lugar. Imagina teus filhos sem pai… Vendo a foto da tua cabeça em cima de um muro da Zona Oeste, na capa do jornal…

-Pára, pára. Chega. Olha aqui, Zé… No início eu pensei que você estava ficando lelé. Mas agora pelo que eu vejo é sério mesmo o negócio.

-Pois é. Tô te falando. É sério mesmo. O cara quer me matar. Ele não vai descansar enquanto minha cabeça não for parar na sala de troféus dele. Mas não vai adiantar chamar o Timbú mais.

-Por que?

-O cara fugiu.

-Fugiu? Tá zoando.

-Não. Tá na capa do jornal. O cara fugiu com mais onze malucos na noite de ontem.

-E agora Zé?

-Agora que eu não sei mais o que a gente faz. O cara fugiu e vai se reorganizar. E aí vai vir atrás de mim…

-Ou…

-Ou o que, porra?

-Ou ele fugiu do presídio para poder te matar. -Disse Armando sorrindo.

Aquela frase de Armando deu um estalo na cabeça de Zé Walter. De fato, fazia algum sentido. Se o bigodudo do Opala/homem da pizza, tivessem passado sua posição e localização, Lion saberia exatamente o que fazer para dar cabo da vida dele. Obcecado por matar o jurado que o condenou, Lion então teria investido uma fábula de dinheiro numa bem elaborada fuga. Em seguida, na rua, dedicaria seu tempo a caçar e matar seu desafeto e então, quem sabe, voltar ao presídio, de onde continuaria a controlar seus negócios sujos, com a tranquilidade e paz que compete a todo facínora.

-É. Não tem jeito.

-Não tem jeito o que? – Perguntou Armando.

-A gente tem que achar o lugar onde o Lion está.

-… – Armando apenas olhou para ele, com os olhos arregalados de pavor. -Tá falando sério?

-Tô. Nunca falei tão sério em toda minha vida.

-Ai meu Deus do céu. -Armando gemeu apertando as mãos no volante. Estava suando.

-Se você não quiser se envolver, eu vou entender. Só peço que você me empreste seu carro. O resto eu faço.

-Ai Zé… Não acredito que você teria coragem de uma porra dessas.

-E aí? É com você agora. Tá dentro ou está fora?

-Tô… Fora. Cara, eu tenho filhos… Sabe como é que é…

-Eu sei, eu sei. Entendo você. Deixa comigo, cara.

Os dois continuaram em silêncio no resto da viagem. Armando parou na porta da casa dele.

-Tem certeza que quer fazer isso, Zé?

-Tenho.

-Bom. Sua cabeça é seu guia, meu amigo. -Disse Armando, abraçando Zé Walter.

-Valeu meu brother. Eu devolvo sua Parati. Eu juro.

Armando saiu do carro e ficou olhando até Zé Walter sair com o carro e virar a esquina, na direção da comunidade de Viçoso Jardim.

(Continua…)

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