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	<title>Mundo Gump &#187; Contos</title>
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		<title>Diástole do ponto final</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 01:32:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Philipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Já Turvando o olhar O calor e o cansaço Dor no peito a espetar Espalhando pelo braço São as últimas batidas numa franca contração Você pensa que é fadiga e se agarra no portão Quando olha para cima não acha explicação Sua perna já fraqueja Tentando se apoiar no chão O povo vem correndo, pra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já Turvando o olhar<br />
O calor e o cansaço<br />
Dor no peito a espetar<br />
Espalhando pelo braço</p>
<p>São as últimas batidas<br />
numa franca contração<br />
Você pensa que é fadiga<br />
e se agarra no portão</p>
<p>Quando olha para cima<br />
não acha explicação<br />
Sua perna já fraqueja<br />
Tentando se apoiar no chão</p>
<p>O povo vem correndo, pra assistir e ajudar </p>
<p>Junta gente curiosos,<br />
alguém diz que é possessão,<br />
Chamam polícia ou bombeiros,<br />
emergência ou rabecão<br />
Chama o <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/padre/' class=''>padre</a> para dar<br />
a extrema-unção </p>
<p>Alguém grita &#8220;abre espaço&#8221;<br />
no meio da multidão<br />
soca seu peito e até machuca<br />
A morte bafeja na sua nuca<br />
Enquanto o <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/cara/' class=''>cara</a> te batuca<br />
tentando a reanimação</p>
<p>Mas nada vai dar jeito<br />
Na sua situação<br />
Com os olhos revirados<br />
branco como assombração<br />
Uma moça se benzeu,<br />
Uma velha passou mal<br />
o povo em aflição,<br />
Te cobriu com um jornal</p>
<p>Acenderam uma vela, ali perto do seu pé, </p>
<p>E você percebeu até<br />
como é bom ser atração<br />
em breve vai passear<br />
Deitado no caixão</p>
<p>Seu nome vai surgir<br />
bem na pagina central<br />
Perto de um político<br />
da coluna social</p>
<p>O jornal vai te estampar<br />
de uma forma mais banal<br />
num tom mais funerário<br />
diria até sepulcral<br />
seu nome no obituário;</p>
<p>e então, ponto final</p>
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		<title>O fim</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Nov 2011 02:55:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Philipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/04/Textos1-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p>Ninguém nunca acreditava naquelas profecias babacas que pregavam o fim do mundo. &#8230; Tá. OK&#8230; Admito, muita gente otária acreditava. Pessoas se reuniam em igrejas, em cavernas, ficavam peladas na floresta, davam as mãos e esperavam pelo momento derradeiro. E era aquela decepção. Sorrisos amarelos, cara de quem comeu e não gostou, tanta gente consternada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/04/Textos1-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p><p>Ninguém nunca acreditava naquelas profecias babacas que pregavam o fim do mundo. </p>
<p>&#8230;</p>
<p>Tá. OK&#8230; Admito, muita gente otária acreditava. Pessoas se reuniam em igrejas, em cavernas, ficavam peladas na floresta, davam as mãos e esperavam pelo momento derradeiro. E era aquela decepção. Sorrisos amarelos, cara de quem comeu e não gostou, tanta gente consternada de estar viva.<br />
Mas naquele dia foi diferente. O anuncio do fim dos tempos não veio de um pastor ou astrólogo, ou guru de celebridades. A notícia veio de um dos mais renomados laboratórios de pesquisa do mundo. </p>
<p>Com unidades espalhadas por todos os países (pelo menos todos os que estão no <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/G8/' class=''>G8</a> e mais uns outros 15) aquele laboratório era o <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/celeiro/' class=''>celeiro</a> de cérebros incríveis que afluíam pra lá como cupins voam para as lâmpadas no verão.<br />
Eles haviam finalmente construído o maior e mais poderoso computador jamais visto. Durante anos, um <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/time/' class=''>time</a> seleto das melhores mentes alimentou aquela maquina com toda sorte imaginável de informações, esperando que um dia ele pudesse correlacionar todas as coisas e apontar uma luz para a escuridão que oculta alguns dos mais intangíveis segredos do universo: De onde viemos e para onde vamos.</p>
<p>Físicos, astrônomos, cientistas renomados e uma legião de gênios da Matemática, da Computação, trabalharam dia e noite naquele projeto que tinha orçamento anual superior ao PIB de pequenos países.<br />
Quando as simulações começaram a chegar, o mundo se estarreceu. A maquina poderosíssima mostrava planetas desconhecidos orbitando os planetas quase desconhecidos, que só uns poucos mais ligados saberiam se tratar de exoplanetas. A maquina desenhou as galaxias, desenhou colisões fenomenais, desenhou o princípio da vida na Terra. A máquina revelou muitos mistérios e também anunciou tragédias, que ajudaram os cientistas e governos a planejar mudanças ambientais. Milhões de pessoas foram salvas de terremotos, tempestades, furacões, nevascas, avalanches, chuvas torrenciais, tsunamis, enchentes.</p>
<p> A cada dia, o grau de sofisticação da maquina aumentava e os cientistas trabalhavam mais e mais em seus modelos e simulações. Lentamente a taxa de erro da maquina tendeu a zero, e suas previsões inicialmente apoiadas por uma série de sensores especiais e uma rede gigantesca de satélites começaram a se tornar tão precisas que gradualmente somente se usava desses artifícios mais &#8220;tradicionais&#8221; de tempos em tempos, para aferir a acuidade das simulações.<br />
Com o passar dos anos, a maquina ficava mais e mais inteligente, e mostrava coisas maravilhosas. Ela ensinou ao homem como desvendar os mais profundos segredos do dna, ajudou na elaboração de ligas metálicas revolucionárias, criou remédios para muitas doenças.<br />
As pessoas confiavam na maquina cegamente, afinal ela nunca errava. Até uma tarde, faltando poucos dias para o natal, quando grupo de cientistas holandeses e suecos <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump//' class=''></a> comemoravam com os chilenos a confraternização de final de ano. Naquele dia, quando estavam quase todos bêbados, alguém teve a ideia de perguntar a maquina quando o mundo acabaria. </p>
<p>Não houve consenso entre os cientistas bêbados, o que era natural. Mas com o teor etílico aumentado, os consensos, raros, tornavam-se dramaticamente inexistentes. Não demorou a confraternização descambou num mar de acusações, insultos, blasfêmias e dedos apontados um na cara do outro. Alguns defendiam que isso nunca poderia ser perguntado para a maquina, já que era considerado &#8220;antiético&#8221;.<br />
Outros diziam que talvez aquela fosse de fato a grande finalidade existencial da máquina. E muitos ali apenas gritavam, ameaçavam e conclamavam os incautos para que fizessem a pergunta derradeira.<br />
Ninguém conseguia chegar a uma decisão sobre o que eles deviam fazer ou não, e todos falavam ao mesmo tempo. Foi quando ouviu-se um estampido ecoar na sala. O estouro foi tão alto que muitos se jogaram no chão assustados. Quando as pessoas se viraram, na porta da sala estava o Dr. Paruket Veda, um indiano PHD e prêmio Nobel de Matemática. Ele parecia transtornado. </p>
<p>Veda segurava um revólver numa mão e um copo de uísque caubói na outra.<br />
Ocorreu um súbito e constrangedor silêncio na sala. Enquanto todos olhavam para ele, que também não dizia nada, Paruket Veda apontou a arma para o meio da multidão. Em segundos, abriu-se uma longa passagem, como um corredor que conduzia diretamente para o terminal principal da maquina.<br />
Todos os cientistas observavam em silêncio o indiano bêbado dar seus passos vacilantes pelo longo corredor até a mesa onde estava o terminal.<br />
Lentamente, o silêncio foi coberto de sussurros e gestos. Dr. Veda parecia em transe. Escrevia equações complexas na tela. A arma ao seu lado, ao alcance da mão. Ninguém ousou dizer nada. Ninguém ousou tentar impedí-lo.<br />
Após dez minutos de intensa digitação, Dr. Veda Paruket havia inserido a grande pergunta no simulador, o supra-sumo produto da inteligência humana, quiçá planetária.<br />
A máquina inciou sua contagem regressiva para dar o resultado: Dez dias.<br />
Ninguém podia acreditar. Todos secretamente esperavam que a maquina acusasse alguma falha, que apontasse alguma incongruência na pergunta, que justificasse de alguma forma a se negar a responder quando tudo acabaria. Mas ela não fez nada daquilo. Ao contrário, deu uma data precisa em que apontaria o dia final.<br />
Horas depois Paruket Veda era capa dos jornais, era destaque na internet, era estampado em camisetas, sua foto era queimada em protestos, saíam livros sobre ele: &#8220;O homem que teve a coragem de fazer a grande pergunta&#8221;. Paruket Veda era convidado para entrevistas, para falar em universidades. O povo do mundo aguardava, ansiosos pela grande resposta.<br />
A cada dia, os jornais noticiavam com letras garrafais quantos ainda faltavam. Nunca a maquina havia demorado tanto numa simulação. Cientistas diziam na Tv em programas de debates (já que só se falava sobre isso) que a demora indicava que a maquina pela primeira vez estava usando todo o seu infinito potencial. Todos os seus infinitos bancos de dados, sua nababesca capacidade de cálculo&#8230;<br />
E então, o dia finalmente chegou. Naquele dia, todas pessoas se juntaram nas praças. A hora da resposta seria finalmente mostrada, transmitida, televisionada, exibida em celulares, relógios, na internet, em tudo quanto era lugar. Aquela foi uma das maiores mobilizações de todo o planeta. Guerras foram interrompidas, aulas canceladas, inimigos estabeleceram trégua, as lojas fecharam as portas. Nunca se viu tamanha mobilização. </p>
<p>Agora faltavam poucos segundos para a resposta. A ansiedade quase explodindo o peito de todo mundo&#8230;Os números iam diminuindo no enorme painel, imagem que era repetida em telões nas praças, parques, universidades, casas e clubes para multidões e espectadores individuais.<br />
Quando surgiu o resultado, foi uma coisa a princípio desconcertante. </p>
<p>&#8220;Daqui a dois anos e 111 dias&#8221;.</p>
<p>As pessoas se entreolharam assustadas. Não houve maiores explicações. A maquina apontou a data e ela era horrívelmente próxima. Não demorou começaram a surgir pequenos grupos que duvidaram da maquina. Mas até então, ela nunca havia errado. A maquina sempre acertava. Novamente formou-se a discórdia. As pessoas se dividiram entre as que acreditavam que o mundo iria mesmo acabar dali a dois anos e 111 dias e o outro grupo defendia que a maquina errou. &#8220;a pergunta é complexa demais&#8221; &#8211; Diziam uns. &#8220;Somente Deus pode dizer isso&#8221; &#8211; Argumentavam outros.<br />
Coube ao doutor Paruket Veda verificar. A maquina rodou uma outra simulação. Dez dias depois a cena se repetia, todos esperavam ansiosos para saber o que aconteceria. </p>
<p>&#8220;Daqui a dois anos e 101 dias&#8221;. Disse a máquina, corretamente repetindo a previsão anterior. </p>
<p>As pessoas se desesperaram. Quando a máquina revalidou seus cálculos iniciais, ocorreu uma coisa que durante décadas os Psicólogos poderiam se debruçar, mas somente se a previsão estivesse errada: A depressão global.<br />
Todo mundo ficou triste. Pouca gente foi trabalhar. A vida tinha perdido a graça. Lentamente, as coisas começaram a ficar cada vez mais graves. Faltou comida. Faltou remédios. Surgiam religiões de todos os tipos e não tardou a grupos religiosos fanáticos declararem guerra uns aos outros. Com a miséria e a morte, doenças se alastravam, varrendo cidades inteiras do mapa.<br />
O planeta Terra entrou num parafuso de fome, doenças e guerras por toda parte. Certos de que o mundo ia acabar, ninguém mais se importava com nada. Os saques começaram. A polícia nada fez, os governos que no início ainda tentavam desesperados estabelecer a ordem, rederam-se ao caos. Cidades queimaram. Os dias se passaram arrastados. Alguns não aguentando esperar, quando o auge da depressão global atingiu o clímax, começaram os suicídios globais. Mórbidas competições online apontavam quais grupos estavam na frente em número de suicídios. Era o <em>flash mob</em> dos novos tempos. As pessoas usavam a internet para combinar grandes e espetaculosos suicídios. E ninguém fez nem menção de tentar impedir. </p>
<p>Então um dia, as Tvs que já haviam saído do ar, subitamente retornaram. Uma notícia milagrosa. Paruket Veda, o gênio indiano, havia descoberto uma falha nos cálculos! Aquilo mudava tudo. O mundo não ia mais acabar.<br />
Houve uma súbita reação mundial que ficaria marcada na história do planeta. Todos agora só queriam saber da vida. O fantasma da depressão global desapareceu, as guerras minguaram. Não havia mais por que lutar. A população, agora reduzida a menos de um sexto do que era antes, se recuperava rapidamente, sem nem lembrar dos que  haviam sido tragados pela desgraça, depressão e mortes. O mundo agora tinha lugar de sobra para que os conflitos territoriais se extinguissem. Surgiu um governo global. Todas as pessoas que sobreviveram consideravam-se irmãos. E o mundo cantou. Pessoas se abraçavam nas ruas. O sexo era livre. As pessoas já não encontravam lugar para cobranças, para inveja, para a cobiça. Quando o caos se estabeleceu, os primeiros a se matar foram os grandes acumuladores de capital. O governo mundial criou planos, com a ajuda da máquina de reconstrução do planeta. A máquina orientou o que devia ser feito e todos os recursos disponíveis foram investidos em bem estar.<br />
Nunca aquele pequeno planeta azul havia visto tamanha prosperidade. As pessoas eram felizes, a natureza estava em franca recuperação, ajudada pela biogênese científica. A máquina ofereceu soluções para a mudança da matriz energética do planeta&#8230; </p>
<p>Os anos se passaram. Todos foram felizes. </p>
<p>Era madrugada quando o Dr. Veda estava no laboratório. Sozinho. Havia dado folga a sua equipe.<br />
Veda estava sentado, calado, em silêncio. O único som que se ouvia naquela sala era o sibilar do ar condicionado. Paruket Veda olhava fixamente para o monitor da maquina. Os números se desenhavam e sumiam da tela. Era uma contagem regressiva. 7&#8230; 6&#8230; 5&#8230; 4&#8230; 3&#8230; 2&#8230; 1&#8230;</p>
<p>&#8230;zero. </p>
<p>E no braço da Via Láctea, naquele discreto sistema solar, quase medíocre ante a imensidão do cosmos, um insignificante planeta se desintegrou.  </p>
<p><strong>FIM</strong></p>
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		<title>Arroz à piamontese</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Oct 2011 23:09:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Philipe</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[O cara passou despercebido dos outros clientes quando adentrou o salão. Usava um pulôver vinho, calça jeans desbotada e o resto eu não sei porque não dava pra ver. Foi direto a mesa de sempre, mas estava ocupada. Vi a cara lhe torcer gradualmente as fuças quando notou, já a uns 10 metros, o beijo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/cara/' class=''>cara</a> passou despercebido dos outros clientes quando adentrou o salão. Usava um pulôver vinho, calça jeans desbotada e o resto eu não sei porque não dava pra ver. Foi direto a <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/mesa/' class=''>mesa</a> de sempre, mas estava ocupada.<br />
Vi a <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/cara_lhe/' class=''>cara lhe</a> torcer gradualmente as fuças quando notou, já a uns 10 metros, o beijo apaixonado do casal. </p>
<p>O buquê de rosas no assento da cadeira lateral e ovinho barato esquentando nas taças.<br />
Ele não disse nada, mas dava pra ver que não gostou. Aquela era a mesa dele, aquele era o dia dele, os garçons deviam saber. Era o mínimo que se esperava de um restaurante atencioso para com seus fregueses mais tradicionais.<br />
Recolheu seu orgulho ferido e sentou-se em qualquer uma. &#8220;Qualquer merda serve&#8221; resmungou para o garçom.<br />
Sentou-se e pediu um chopp escuro. Tão logo o garçom rabiscou no bloquinho, ali estava ele. Novamente só. E o restaurante parecia misteriosamente diferente. Assimétrico.<br />
Estava incomodado. A nova mesa parecia destoar do dia-a-dia, parecia estar fora de lugar. Não estava mais no centro de seu espaço-tempo, as dimensões pareciam estranhas, não via mais a rua, não conseguia ouvir a musica, a mesa ficava numa passagem, e a cada três minutos um garçom estabanado passava chutando os pés da mesa, empurrando cadeira. E o cheiro? Ah, maldição! O cheiro era um problema. A cada minuto era cheiro de filé, de peixe, de camarão, de pizza, de macarronada. Aquilo o distraía, ele não podia se concentrar no aroma, no sabor.<br />
Chegou o garçom com o chopp. Escuro, pingando, fez molhação na mesa. Sujou a toalha. Mas que diabos! Que merda de toalha? Veja você&#8230; Manchada, vermelha, suja. Um arroz derradeiro deitado, encurvado para cima, ressequido perto do paliteiro. Pobre arroz.<br />
Ele sentiu pena daquele arroz. Pena e nojo.<br />
Achava toalha suja em restaurante muito pior que lençol de motel reciclado.<br />
&#8220;É só comida&#8221;, diriam. Pois no lençol de motel usado também é só uma comida. Não que fosse nojentinho ou coisa assim. Somente não era certo. Não estava direito.<br />
<span id="more-15882"></span><br />
A solução era fazer vista grossa. Tentou abstrair, bebeu um gole do chopp. Meio quente. Fora do padrão.<br />
Tudo estava fora do padrão.<br />
E o casal? O casal não parava de se beijar, e o vinho, só esquentando na mesa. Teve pena da garrafa. Usada para fazer vista, como algumas mulheres infelizes.<br />
Ah&#8230; Mulheres infelizes. </p>
<p>Levantou os dois dedos na iminência de chamar o garçom. Refletido no espelho que recobria uma coluna, se viu. Notou como aquela pose o fazia parecer um santo. Era patética sua imagem e agradeceu por ter tantos pecados nas costas que mal podia endireitar-se na cadeira. Assim, nunca passaria a vergonha de ser canonizado e acabar por estampar um milheiro de santinhos idiotas.<br />
O garçom veio com o bloco ensebado. Pediu medalhão.<br />
-Arroz normal?<br />
-Não. Arroz à piamontese.<br />
-E a carne?<br />
-Bem passada.<br />
-Sim senhor.<br />
O garçom se foi. E ele voltou aos seus pensamentos perdidos.<br />
O casal ainda se beijava loucamente. Ela na cadeira dele. Vergonha. Esses moleques de hoje em dia são assim. Mal se conhecem já enfiam a língua um na garganta do outro. Transfusão de afeto.<br />
O mundo é uma festa de idiotas, onde só os imbecis foram convidados e os otários querem ser penetras.<br />
O chopp acabou. Pediu mais um, que veio sem colarinho e por isso voltou. Veio outro com colarinho.<br />
Depois de quase matar o segundo, surgiu finalmente o medalhão em todo seu esplendor numa caçarola de alumínio toda arranhada e meio suja nas laterais. O Garçom serviu a bolota de carne. Impávida no centro do prato, vestida de bacon, com adornos de molho escuro, madeira, champinhons cortadinhos ocultaram-se sob a colherada de arroz bem quente. O queijo amarelado esparramou-se no prato, recobrindo uma parte da carne.<br />
O garçom habilmente manejou as duas colheres, movendo e cortando o fiapo do queijo que tentava jogar-se da pequena caçarola.<br />
-Bom apetite. &#8211; Disse ele.<br />
A primeira garfada explodiu em sua boca. Prazeres inconfessáveis. O arroz a piamontese tinha seus mistérios e uma certa poesia. O molho madeira encorpado, escuro como o sangue de um touro, a lambuzar a carne. Manejou a faca com destreza, tentando cortar a bolota do medalhão, mas estava sem corte. A carne se esfarelava ao passar da lâmina, e o laço de bacon se soltou, debruçando-se vergonhosamente pelo meio do prato, esparramando-se sobre o arroz e tingindo a brancura da louça de um marrom-amarelado.<br />
Aquilo era demais. Um insulto. Faca sem corte, onde já se viu? <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump//' class=''></a> Sinalizou de longe, pedindo outro chopp. O garçom fez pouco caso. Ele tentou novamente, mas agora o garçom já não olhava mais pra ele. Malditos.<br />
Malditos. Mil vezes malditos. E os dois ali? Ainda se beijando. As rosas pingando no chão. Iam manchar a cadeira. O garçom finalmente veio. Passou direto.<br />
Maldito.<br />
Lá de dentro, o maldito garçom botou a cabeça na quina da pilastra e fez um galeio com a cabeça pra trás. Ele apenas levantou a tulipa seca.<br />
Comunicação simbólica. &#8220;um brinde a sua incompetência&#8221;, ele pensou. O Garçom acenou positivamente e entrou.<br />
Dois minutos depois, o garçom maldito surgiu com uma tulipa de chopp claro. Sem colarinho.<br />
Maldito. Maldito. Maldito.<br />
Fez sinal novamente, mas o garçom não veio. Estava anotando pedidos. Ele já havia feito o dele. Agora, que bebesse aquele mijo ralo e não enchesse o saco.<br />
O sangue subiu. Ficou com tamanho ódio que podia partir a carne do medalhão com a faca mais cega que o Ray Charles.<br />
O sangue desceu. Misturando-se com o caldo marrom amarelado. O medalhão estava cru por dentro.<br />
Malditos. Malidos, malditos!<br />
O sangue inundou o prato. Estragou o arroz e sua magnífica beleza dourada. Diluiu a potência do molho, envergonhou a estética do prato num caldo bordô.<br />
O garçom vinha.<br />
Pegou o garfo com a mão cerrada. Apertou o cabo até sentir a dor.<br />
O garçom vinha.<br />
Ele se levantou e enfiou o garfo no pescoço do garçom. Alguém gritou. Um copo caiu. O garçom caiu com o garfo cravado na garganta sobre a mesa do casal. O sangue ejaculando para o teto, como um chafariz de prostíbulo. A taça de vinho caiu, misturando o caldo na mesa, diluindo o sangue em matizes rubros.<br />
As pessoas tentavam correr. Ninguém sabia o que acontecia. Outros dois garçons vieram correndo.<br />
Ele pegou a cadeira. Lançou-a no espaço e viu a madeira escura estourar no peito do segundo infeliz. Tentaram agarrá-lo, mas ele se desvencilhou. Somente quando enfiou a faca no olho do homem que se jogou sobre ele, que percebeu que embora cega na carne, a faca cegava que era uma beleza.<br />
Já eram três os corpos no chão. Algumas pessoas corriam para a porta. Ele começou a lançar pratos. O primeiro que voou explodiu no teto em milhares de cacos. Mas o segundo atingiu a porta de blindex. Houve um estouro seco e uma cascata de quadradinhos brilhantes voaram pelo chão. O velho escorregou e puxou com ele as duas filhas. As pessoas caíram, escorregando na farofa brilhante, deixando na escada do restaurante os pedaços de carne fresca.<br />
Surgiu não se sabe de onde um homem com uma arma escura. A confusão não deixou ver o que acontecia. A arma disparou duas vezes e o homem do pulôver vinho voou para trás. Bateu na parede e enfim tombou sobre a mesa. Atrás dele, os dois buracos belamente equidistantes ainda exalavam o cheiro da pólvora. Alguns estavam sob as mesas. O casal caído no chão entre cacos das taças e o corpo do garçom com o garfo na carótida.<br />
Houve finalmente o silêncio e ninguém mais notou a poesia nem o mistério sutil daquele arroz à piamontese. </p>
<p>FIM</p>
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		<title>Abdução</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Sep 2011 00:03:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Philipe</dc:creator>
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		<guid isPermaLink="false">http://www.mundogump.com.br/?p=15609</guid>
		<description><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/03/Textos-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p>Naquela noite bela Escura e estrelada Olhei pela janela E vi, ali, perto da escada&#8230; Seus olhos escuros Que me assustaram Sua boca fina Não me disse nada Eu quis correr Tentei me esconder Mas perna eu não tinha Congelei de aflição foi tudo se apagando e eu caí no chão Acordei numa mesa Sentindo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/03/Textos-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p><p><a href="http://www.mundogump.com.br/abducao/210525_papel-de-parede-abducao_1600x1200/" rel="attachment wp-att-15610"><img class="size-medium wp-image-15610 aligncenter" title="210525_Papel-de-Parede-Abducao_1600x1200" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/09/210525_Papel-de-Parede-Abducao_1600x1200-300x225.jpg" alt="210525 Papel de Parede Abducao 1600x1200 300x225 Abdução" width="300" height="225" /></a></p>
<p>Naquela noite bela<br />
Escura e estrelada<br />
Olhei pela janela<br />
E vi, ali, perto da escada&#8230;<br />
Seus olhos escuros<br />
Que me assustaram<br />
Sua boca fina<br />
Não me disse nada<br />
Eu quis correr<br />
Tentei me esconder<br />
Mas perna eu não tinha<br />
Congelei de aflição<br />
foi tudo se apagando<br />
e eu caí no chão<br />
Acordei numa mesa<br />
Sentindo um <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/frio/' class=''>frio</a> do cão<br />
Era tudo brilhante<br />
Com um ar cortante<br />
Cercado por paredes de metal<br />
Me sentia muito mal<br />
Com a dignidade de um animal<br />
Tinha mais alguém<br />
Que eu não conseguia ver<br />
Tentei virar a cabeça<br />
Mas não podia me mexer<br />
Uma mão gelada<br />
Segurou no meu braço<br />
Minha respiração falhava<br />
Obliterada pelo cagaço<br />
Experiência desesperante<br />
essa que eu sofri<br />
Eu tentei gritar<br />
Sem sucesso, tentei lutar,<br />
pra me libertar<br />
E então eu vi&#8230;</p>
<p>Uma criatura ascética<br />
enfiada num macacão<br />
a cara era esquelética<br />
Contrastando com o cabeção<br />
E pálido feito assombração!<br />
Os olhos eram bolotas escuras<br />
Sem emoção,<br />
não parecia triste nem feliz<br />
E quase não tinha nariz.<br />
Certamente não era gente<br />
Era coisa doutro mundo<br />
Ou até do cramulhão<br />
Não me lembro muita coisa<br />
daquela abdução<br />
Acordei congestionado<br />
confuso e tremendo<br />
com aquela situação<br />
Minha cabeça tava doendo<br />
Senti nas pernas um comichão<br />
Vi o brilho sumir no céu<br />
entre as estrelas do firmamento<br />
Tentei esquecer aquele acontecimento<br />
Ninguém ia acreditar<br />
Fiquei chateado<br />
Mas de que adianta chorar<br />
pelo leite já derramado?<br />
Receio de ficar com fama de pirado<br />
Sozinho no pasto e com medo<br />
longe de casa pra dedéu,<br />
Guardei o segredo<br />
que eu levaria pro mausoléu.<br />
O aparelho existe sim senhor<br />
Não quer acreditar? Se esforce.<br />
Admita,<br />
Na calada da noite você também torce<br />
pra não receber uma &#8220;visita&#8221;.</p>
<p>FIM</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>O correspondente &#8211; parte 4</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Aug 2011 21:16:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Philipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/04/Textos1-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p>Houve um princípio de tumulto no auditório. As pessoas começaram a falar alto sobre a teoria da correspondência. O professor Andreas Jacob não se importou e continuou a narrar o telefonema. Logo, alguns da audiência começaram a solicitar silêncio. E a palestra prosseguiu. - &#8230;Mas vocês não podem simplesmente matar um inocente só porque, sei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/04/Textos1-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p><p>Houve um princípio de tumulto no auditório. As pessoas começaram a falar alto sobre a <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/teoria/' class=''>teoria</a> da correspondência. O professor Andreas Jacob não se importou e continuou a narrar o telefonema. Logo, alguns da audiência começaram a solicitar silêncio. E a palestra prosseguiu.</p>
<p>- &#8230;Mas vocês não podem simplesmente matar um inocente só porque, sei lá, algum maluco diz que ele é esse tal correspondente aí. &#8211; Disse Jéssica.</p>
<p>-Errado. Nós podemos. Pense o seguinte, é um sacrifício necessário para que muitas vidas não sejam perdidas. Milhares de vidas. E durante gerações.</p>
<p>-&#8230; &#8211; Jéssica ficou sem respostas. Aquilo fazia sentido. Mas ainda assim, não lhe pareceu justo.</p>
<p>-Mais alguma pergunta?</p>
<p>-O que vocês vão fazer comigo?</p>
<p><span id="more-14371"></span></p>
<p>-Vamos te soltar. Você precisa trazer o Daniel pra nós.</p>
<p>-E se eu não aceitar?</p>
<p>-Morre agora. &#8211; Ele disse rispidamente. O tradutor engatilhou a arma de uma forma dramática e eloquente.</p>
<p>Jéssica não disse nada. Apenas concordou com a cabeça. Fosse lá o que ela viesse a fazer, precisava sair do covil daqueles homens estranhos o mais rápido possível.</p>
<p>-Mas eu não sei pra onde ele foi.</p>
<p>-Talvez ele faça contato com você. Se fizer, traga-o para nós.</p>
<p>O velho levantou-se recusando o auxílio do tradutor da CIA. Ele disse adeus em silêncio, com um pequeno aceno e saiu da sala. Logo depois, outros dois homens entraram na sala e pegaram Jessica pelo braço, escoltando- a até a rua, onde um taxi já estava estacionado. Eles colocaram a moça dentro do carro. Entregaram a ela um cartão de visitas quase completamente em branco, apenas com um telefone.</p>
<p>-Ligue para este numero quando localizá-lo. Se você contar a ele sobre o que falamos a você, aproveite bem, pois será o último dia de sua vida, ok?</p>
<p>-&#8230;</p>
<p>-Ok?</p>
<p>-Tá, ok. &#8211; Disse Jéssica.</p>
<p>-Motorista, leve a moça para onde ela quiser ir. &#8211; Disse o homem, fechando a porta do taxi.</p>
<p>Jéssica viu o homem ficando para trás, ainda parado, de pé na calçada. Os olhos fixos no taxi. Ela sabia que os homens a estavam usando como isca.</p>
<p>-Pra onde, senhora?</p>
<p>-Cinco de Julho.</p>
<p>-Sim senhora.</p>
<p>Enquanto o taxi zanzava pela cidade, ela ia imaginando toda aquela estranha história que o velho cientista havia lhe contado. Parecia que o destino do mundo estava agora em suas mãos. Era justo atrair um amigo para uma armadilha fatal na esperança de impedir uma detonação nuclear?  Ela poderia se recusar a fazer aquilo?</p>
<p>Ela sabia que obviamente o motorista de taxi era um deles disfarçado. Soltá-la era a unica forma de localizar Daniel. O que eles pareciam nem desconfiar é que Jéssica não fazia a menor ideia de onde estaria Daniel à aquela altura.</p>
<p>O taxista a deixou na rua indicada. Era madrugada. Fazia frio. Um vento contínuo e cortante assobiava pelas calçadas, levantando papéis velhos e jogando folhas para o ar. Uma chuva se anunciava ao longe.</p>
<p>Jessica correu pela calçada até chegar na rua dela, não muito distante.  Foi pra casa, na esperança de tomar um banho e dormir um pouco.</p>
<p>Ao chegar em casa, se deparou com a mesma toda revirada. Os homens haviam jogado tudo para o ar na busca por Daniel.</p>
<p>Ela trancou a porta, levantou a poltrona e arrumou o abajour. Pulou os livros pelo chão e em meio as roupas jogadas por todo o quarto, procurou uma toalha limpa.</p>
<p>Enquanto tomava banho, Jessica refez mentalmente toda aquela estranha situação.</p>
<p>Daniel não fez mais contato. Nem os homens. Ela sabia que seu telefone estaria grampeado. Passou a viver numa eterna paranoia de estar sendo vigiada.</p>
<p>Um bom tempo depois, ela soube das buscas por Daniel. O dono da locadora contou a ela que eu estava investigando o caso. E foi assim que, no meio daquela madrugada, recebi uma ligação de Jéssica. Posso imaginar a complicação que ela se meteu para poder me ligar sem que eles soubessem. Certamente planejou durante dias esta comunicação, bem como, eu presumo, sua fuga.</p>
<p>Isso é tudo senhores. É tudo que eu sei até aqui. Temos uma pessoa de bem, um cidadão com dois empregos de meio período, que foi subitamente alvo de uma organização que ao que tundo indica, precisa matá-lo, antes que um terrorista detone uma ogiva nuclear nos Estados Unidos. Eu tenho consciência que contar isso em público poderá macular minha carreira nesta instituição de forma talvez, indelével. Mas por mais incerto que meu destino pareça, a história que acabaram de escutar é, como eu disse no início desta conferência, a mais pura versão dos fatos aos quais tive acesso. Daniel não era louco como a junta psiquiátrica imaginou. E talvez esteja ou não porto como a polícia supunha.  Obrigado.</p>
<p>O tumulto recomeçou. Alguns apludiam, outros vaiavam. Foi uma confusão tremenda. As pessoas todas falavam ao mesmo tempo. Os jornalistas disparavam seus flashes.  O Doutor Andreas Jacob agradeceu a atenção, e foi acompanhado pela saída lateral por um dos organizadores da comissão. A foto de Daniel estava aparecendo em todos os jornais, canais de Tv e sites da internet. Ele se recolheu ao gabinete e não quis atender aos jornalistas.</p>
<p>Ao fim do dia, quando saía do instituto pela saída dos fundos, Andreas Jacob já se aproximava para entrar no taxi, quando uma jovem correu e se aproximou do carro.</p>
<p>-Professor Jacob!</p>
<p>-Hã? &#8211; A. Jacob se virou para falar com ela.</p>
<p>Não houve tempo. A moça disparou um tiro na direção da cabeça de Jacob. O tiro perfurou-lhe a garganta  e ele caiu no chão entre o taxi e a calçada. O carro acelerou em fuga. A moça se aproximou rapidamente. Jacob estava no chão. Um chafariz de sangue ejaculava de seu pescoço ferido. Ele ainda tinha os olhos arregalados quando viu o cano da arma aproximar-se de sua cabeça e disparar.</p>
<p>A mulher pegou a pasta dele, e correu para uma rua escura. Quando a polícia chegou, dez minutos depois, não havia nem sinal dela. O caso foi registrado como latrocínio.</p>
<p>Muito longe dali, numa velha tv preto e branco, Daniel montava um quebra-cabeças. O assassinato do Doutor Jacob trouxe a tona, mesmo que por um breve período, toda a narrativa daquele telefonema. Agora ele sabia de tudo&#8230;</p>
<p>Ele sabia que era o correspondente.</p>
<p>Mas ainda não sabia o que fazer. O suicídio era apenas uma das várias opções possíveis. Ele precisava dar um jeito de se livrar daquilo. Se livrar daquela correspondência e de todo aquele rolo. Daniel desligou a Tv e virou-se na cama para dormir. O dia seguinte seria intenso.</p>
<p>Foi numa biblioteca de cidade do interior, num computador público que, num obscuro site da internet ele descobriu que talvez pudesse mudar seu destino.</p>
<p><strong>FIM (?) </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O correspondente &#8211; Parte 3</title>
		<link>http://www.mundogump.com.br/o-correspondente-parte-3/</link>
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		<pubDate>Sat, 20 Aug 2011 15:26:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Philipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/04/Textos1-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p>Alguém batia insistentemente na porta. Jéssica apontou o banheiro. Daniel correu pra lá e já estava prestes a trancar a porta, quando se lembrou do diário. Voltou para pegar. A porta do quarto continuava a ser esmurrada. Jéssica empurrou Daniel pra dentro do banheiro e em seguida verificou, se estava bem trancado, enquanto gritava um: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/04/Textos1-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p><p>Alguém batia insistentemente na porta.<br />
Jéssica apontou o banheiro. Daniel correu pra lá e já estava prestes a trancar a porta, quando se lembrou do diário. Voltou para pegar.<br />
A <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/porta/' class=''>porta</a> do quarto continuava a ser esmurrada. Jéssica empurrou Daniel pra dentro do <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/banheiro/' class=''>banheiro</a> e em seguida verificou, se estava bem trancado, enquanto gritava um: &#8220;Já vai&#8221;.<br />
Quando ela abriu a porta do quarto, a primeira coisa que viu foi um canudo preto apontado na cara dela.<br />
Era o cano de um fuzil.</p>
<p>Não houve tempo para que ela parasse para pensar de que maneira aqueles homens haviam conseguido descobrir que os dois estavam no hotel em frente. Empurraram Jéssica na cama e fecharam a porta do quarto. Eram três homens. Dois estavam portando pistolas automáticas e um que parecia o chefe estava segurando o fuzil. Enquanto os dois posicionavam Jéssica com as mãos para trás, sentada na beira da cama de casal, o homem armado foi direto:</p>
<p>-Cadê o Daniel, porra?<br />
<span id="more-14265"></span><br />
-Quem? &#8211; Ela perguntou, tentando ganhar tempo.<br />
Os homens se entreolharam. O cara virou o fuzil e deu uma coronhada bem na testa dela.<br />
Jéssica me disse naquela noite, que a coronhada quase a fez desmaiar. Ela ficou tonta, e os homens começaram a sacudi-la, perguntando do Daniel. Sem que pudesse evitar, Jéssica olhou para o banheiro.<br />
Um dos homens correu até a porta.<br />
-Trancada. &#8211; Ele disse.<br />
-Ele está aí? &#8211; Perguntou o cara do fuzil para Jéssica. Ela não disse nada, apenas moveu a cabeça negativamente.<br />
Os dois homens armados com pistolas começaram a desferir chutes na porta. Mas ela não cedia. O homem do fuzil se aproximou e os dois abriram espaço. Ele apontou a arma para a maçaneta e disparou. A Maçaneta estourou e o cheiro da pólvora se espalhou pelo quarto. O homem deu dois tiros na maçaneta. Depois os outros dois meteram o pé com vigor, até que a fechadura se despedaçou e a porta finalmente cedeu, escancarando-se para um banheiro aparentemente vazio.<br />
A própria Jéssica se espantou ao constatar que Daniel havia simplesmente desaparecido.<br />
Os homens entraram no banheiro. A cortina plastica do chuveiro estava fechada sobre a banheira. Os homens se entreolharam com a certeza de que Daniel estava ali.<br />
O homem do fuzil entrou e puxou a cortina, revelando uma parede de azulejos imaculadamente brancos.<br />
Não havia sinal dele. Os homens pareciam confusos. Mas o sujeito mais velho que segurava o fuzil se aproximou do basculante na parede oposta ao chuveiro. Havia restos de massa seca na banheira.<br />
-This way! &#8211; Disse, puxando a janelinha. Ela saiu inteira na mão dele.<br />
O basculante dava para um escuro e estreito duto de respiração do edifício.<br />
Os homens pegaram lanternas e olharam pelo buraco.<br />
-There!- Gritou um.</p>
<p>Daniel estava uns dois andares abaixo, encolhido, com os pés e as costas apoiados nas paredes estreitas do duto. Ele estava chutando desesperado a janela dois andares abaixo.<br />
-Pode parar aí Daniel! &#8211; Gritou o cara do fuzil. A janela era estreita e só um dos homens conseguia enfiar a cabeça no buraco por vez.<br />
Daniel meteu o pé e um buraco luminoso se abriu na frente dele.<br />
-Shoot!- Gritou o chefe, que portava o fuzil. A arma era grande demais para passar pelo buraco.<br />
O homem mais alto e pálido enfiou o braço pelo buraco e disparou.</p>
<p>Daniel ouviu uma bala passar zunindo perto dele.<br />
Mas não houve tempo para o sujeito fazer a mira e disparar novamente. Daniel já havia se jogado de qualquer maneira para dentro do buraco.<br />
-Porra! Ele desceu! Go! Go motherfuckers! Second floor! Now! &#8211; Gritou o chefe. Os dois sujeitos saíram correndo pelo corredor do hotel, indo a direção das escadas.<br />
O homem voltou-se para Jéssica, que estava chorando, muito assustada.<br />
-Quem são vocês? -Ela perguntou. Mas o homem não respondeu.<br />
-Você vem com a gente! &#8211; Ele disse.<br />
Jéssica pensou que aquela seria a última vez que veria Daniel.</p>
<p>Ela não sabe como Daniel conseguiu escapar daqueles homens fortemente armados e aparentemente treinados. A explicação para isso estava numa das paginas arrancadas do diário, que ele escondeu em casa, sob o sofá. A comissão achava que tudo fazia parte de um delírio, que se tornava cada vez mais megalomaníaco, então aquelas paginas achadas pela polícia, e que aparentemente não faziam sentido, só passaram a fazer quando ela me contou do incidente naquele hotel.</p>
<p>Ele conseguiu sair pela janela de um dos quartos, pulando para a marquise do prédio do lado, onde correu atrás do letreiro de um restaurante e conseguiu descer num beco que dava na rua de trás, onde pegou o primeiro ônibus que passava. Há uma lacuna de algumas horas. Esta parte do que aconteceu talvez esteja registrada em páginas que ate hoje não localizamos.</p>
<p>Daniel havia sumido.</p>
<p>A próxima aparição do taxista ocorreu quando ele bateu na porta do meu gabinete aqui no instituto. Estava muito nervoso.<br />
Eu conhecia o Daniel do táxi, já que como alguns dos senhores sabem, não gosto de dirigir. Tenho medo e receio. Não por mim, obviamente, mas pelos outros! &#8211; Disse o professor. As pessoas da plateia riram.<br />
Andreas retomou a narrativa dos passos de Daniel.<br />
-Era o fim do expediente. Quase todo mundo já tinha ido embora quando ele apareceu.<br />
Me lembro que ele surgiu com um cabelo pintado, umas roupas estranhas, e estava bem assustado, falando rápido um monte de coisas confusas, desconexas. Mas era um dia complicado, eu estava com meu cachorro doente, no veterinário. Não tinha cabeça para lidar com malucos. Me arrependo de não ter dado a atenção que devia. Ele me pediu dinheiro.<br />
Confesso que desconfiei que Daniel havia se embrenhado em algum tipo de vício. Ele parecia mesmo doente. Tive pena dele. Emprestei algum dinheiro. Disse que ele precisava de ajuda.<br />
Ele ficou agressivo. Disse que eu não entendia. Que não estava brincando. Era uma coisa séria, que uns homens iam matar ele. Primeiro pensei que ele devia a traficantes. Mas o jeito afobado, a forma de correr para a janela e ficar olhando escondido no cantinho da parede&#8230; Era muito estranho. Desconfiei que ele havia surtado.<br />
Daniel falou um monte de coisas que meses depois fiz muito esforço para me lembrar, mas não consegui. Uma delas dizia respeito ao mapa que orientaria a localização de algumas paginas do diário. Ele parecia saber que cedo ou tarde os homens iriam localizá-lo, capturá-lo e que seu destino seria talvez a morte. Segundo ele, o diário serviria para provar o que ele havia testemunhado naquela madrugada. Caso &#8220;os homens maus&#8221; me pegassem também, outras paginas, com copias do que se passou estavam ocultas em diversos lugares.<br />
Mas um diário ensebado e despedaçado de um taxista e atendente de locadora não me pareceu, a princípio, uma boa literatura. Aceitei para que ele fosse embora.</p>
<p>Mas a forma como ele descreveu os homens&#8230; Aquilo, vocês sabem, parecia coisa de filme. E ele trabalhava numa locadora&#8230; Pensei que ele talvez tivesse consumido drogas, assistido a um dos filmes da locadora e surtado, pensando viver uma aventura de cinema no mundo real. Ele disse que entraria em contato. Que eu não devia chamar a polícia. Ele estava certo de que eles estavam envolvidos.<br />
Daniel saiu do meu gabinete e tudo que eu conseguia pensar era quem iria me levar até a clínica veterinária, já que o motorista de táxi que fazia corridas pra mim tinha pirado na batatinha.<br />
Foi a última vez que eu o vi.</p>
<p>Só um belo tempo depois, quando a notícia do desaparecimento se confirmou, quando o detetive Jaime apareceu para me fazer perguntas, eu percebi a gravidade do caso. Entreguei para o investigador o diário que ele havia confiado a mim, e a investigação finalmente teve início. Antes de entregar o diário, eu já havia lido algumas paginas aleatórias. Minha impressão era que ele estava fazendo um romance. Depois que eu soube que Daniel havia realmente sumido, comecei a me interessar mais sobre o caso. Auxiliei o detetive em tudo que foi possível. Como a polícia havia avançado muito pouco, com apenas algumas paginas novas sendo descobertas em lugares estranhos, percebi que eles estavam num beco sem saída. Eu solicitei que a comissão psiquiátrica da junta examinasse as evidências do caso. Todos tinham a mesma opinião: Surto esquizofrênico acompanhado de delírios e fantasias persecutórias.</p>
<p>-Professor? &#8211; alguém levantou o braço na plateia. Todos olharam para um jovem, que fazia sinal. &#8211; Aqui.<br />
-Sim?<br />
-E o que aconteceu com a moça?<br />
-Ah, sim&#8230; Bem, eu ia falar disso bem agora. Perdão.</p>
<p>Jéssica foi levada pelos homens até um carro e jogada no banco de trás com os dois, que segundo ela, eram americanos. O chefe do ao lado do motorista, no banco da frente. Eles falavam num inglês rápido, e como Jéssica entendia muito pouco a língua, ela só entendia fragmentos da conversa. Num momento, o chefe dos homens pegou um rádio e trocou informações. Ela entendeu quando ele disse, meio envergonhado, que havia perdido a pista de Daniel no hotel. Do outro lado, a voz parecia muito irritada e começou a gritar com eles.<br />
Ela também entendeu quando o homem disse que estava com ela e que eles a usariam para localizar Daniel.<br />
Eles a levaram até um edifício comercial de alto padrão, no coração da cidade. Pegaram o elevador na garagem e subiram com ela até o último andar. Enquanto passavam pelos corredores do predio, ela viu uma grande porta de vidro escuro, com um letreiro bonito em aço escovado em cima, que dizia: &#8220;Santos &amp; Monserrat &#8211; Advogados Associados&#8221;. Várias câmeras de segurança estavam instaladas para todos os lados. A porta se abriu num estalo.<br />
Ficou óbvio que era uma firma de fachada.<br />
Uma vez dentro do complexo, ela foi levada até uma sala sem móveis. Só havia uma cadeira, no qual um dos gringos a colocou sentada. Ele saiu sem dizer uma palavra. Trancaram a porta.</p>
<p>Jéssica contou que ficou naquela sala sem janelas ou móveis por quase duas horas. Só então ela ouviu o som de uma chave girar na fechadura e entraram dois homens. Um era o homem do fuzil. Ele estava sério. Acompanhava um outro, ainda mais velho. O velho parecia ter uns setenta anos, talvez mais.<br />
Ele só falava em inglês, mas o outro fazia o papel de tradutor.</p>
<p>-Ele perguntou como a senhora está.<br />
-Estou bem. &#8211; Ela disse.<br />
-Ele disse que está aqui para responder suas perguntas. &#8211; Falou o tradutor. O idoso se sentou no chão, em frente a ela, com as costas na parede. Jéssica notou que para sua idade aparente, ele era bastante ágil.<br />
Jéssica ficou em silêncio.<br />
-Não tem perguntas? &#8211; Questionou o tradutor.<br />
-Quem são vocês? O que querem comigo e com o Daniel? Que lugar é esse? &#8211; Jéssica disparou a perguntar. O velho começou a rir. Pediu calma. Gradualmente começou a falar, pausadamente, para que o homem de bigode pudesse traduzir. Eu tomei notas enquanto Jéssica me contava o que viveu naquela sala. Ela tinha uma memória esplêndida.</p>
<p>Andreas Jacob pegou suas anotações. Recolocando os óculos de leitura, começou a detalhar o que Jéssica o havia contado.</p>
<p>&#8220;Meu nome não vem ao caso. Mas como a senhora já pode perceber, eu não sou um soldado. Essas pessoas, senhora Jéssica, são agentes da CIA. Eu sou um cientista. Nasci na Polônia e emigrei ainda jovem para a Rússia, onde estudei, me formei, me doutorei fui integrado a um departamento da KGB&#8230; Eu 1967 chefiei o departamento de Pesquisas psíquicas. Nosso trabalho envolvia selecionar, instrumentar e preparar pessoas para um projeto que nomeamos de Pandora. Eu sei que pode parecer engraçado uma agência de espionagem estudando paranormalidade, mas na União Soviética este assunto foi tratado com muita seriedade. E testemunhei coisas que certamente a senhora não seria capaz de imaginar. Quando me integrei no departamento de pesquisas psíquicas da KGB, a instituição já trabalhava com isso desde o fim da Segunda Guerra. A Rússia obteve um farto material do espólio do terceiro Reich, que colocou a KGB no lugar de mais avançada e poderosa agência de inteligência do mundo. Durante décadas fizemos experimentos secretos na Alemanha Oriental. Como a senhora certamente sabe, a polaridade do mundo entre oriente e ocidente produziu uma corrida não apenas ideológica, mas também armamentista e tecnológica, culminando com o homem andado na Lua, o raio laser, os computadores&#8230;<br />
Nesse universo de disputas ferrenhas pela dominação, a espionagem se tornou fundamental. Grandes somas, vidas e investimentos das mais diversas ordens foram feitos dos dois lados. Conhecer seu inimigo era um imperativo. Enquanto os americanos, com apoio dos cientistas de Israel investiam grandes somas em espionagem tecnológica, nós estávamos um passo a frente, estudando e experimentando coisas que só Hoje a Física Quântica dá os primeiros e vacilantes passos afim de compreender. Muitas dessas coisas já vieram detalhadas das pesquisas nazistas. Outras provinham de diferentes laboratórios, espalhados por toda União Soviética. Havia rumores de que certas habilidades vinham sendo treinadas por pessoas com&#8230; Por favor, senhora, não ria&#8230; Pessoas com contatos com seres de outros planetas.<br />
Se aqueles conhecimentos vinham de extraterrestres ou das pesquisas do Mengele, não fazia a menor diferença para a KGB. Tínhamos laboratórios, tínhamos cientistas, tínhamos dinheiro e também muito poder.<br />
Durante minha carreira, estudei e treinei diversos jovens afim de expandirem possibilidades inatas. Mengele havia dado um significativo passo para a compreensão das capacidades psiquicas humanas, através de seus experimentos eugenistas que visavam apurar a raça ariana.</p>
<p>Na Alemanha Oriental, tive acesso a muitos documentos secretos do Reich. Diziam os relatórios que foi por um simples acidente que Mengele percebeu o potencial do planejamento racial. Um casal devia ser escolhido apenas por suas bases genéticas. Mengele foi instruído a produzir as matrizes que dariam origem a pessoas 100% arianas, mas numa linhagem ainda mais pura daquela que Hitler sempre desejou. Eram os Super Arianos.<br />
Há aqui um detalhe: Um dos relatórios menciona que a mulher, cujo nome código de Holga Kruv foi dado pelos nazistas, foi encontrada ainda menina, desacordada em meio aos destroços de uma aeronave sem asas, atingida durante um combate aéreo nos arredores de Dresden.<br />
A senhora já deve estar a par de uma série de fenômenos desta época, aos quais tanto os aliados quanto os nazistas chamaram de foo fighters. Segundo uma das fontes documentais secretas do Reich, esta menina estava no interior de num dos foo fighters. Ela foi enviada para o hospital da GESTAPO afim de ser investigada sua origem. Sem falar uma palavra em qualquer língua conhecida, e aparentemente sem memórias, ela foi severamente torturada pelos melhores especialistas da GESTAPO. Mas não se obteve uma única informação.</p>
<p>Quando o problema subiu os degraus da Hierarquia, Himmler em pessoa interviu. Olga foi pessoalmente enviada para Mengele por Himmler, para que ele a estudasse. Os exames mostraram uma mulher que atendia perfeitamente aos preceitos de pureza racial máxima. Foi Mengele que a batizou de Olga Kruv. Estranhamente, ao longo das varias induções de reprodução, todas as descendentes de Olga Kruv, eram mulheres. Hitler estava ficando irritado com a demora nas pesquisas. Hitler acreditava que a culpa de gerar apenas meninas era do reprodutor macho selecionado. Assim ele ordenou que uma varredura em todas as tropas do Reich encontrasse o ariano perfeito. Mas antes que o processo terminasse, Olga deu origem a um único menino. Mas ele era cego.</p>
<p>Mengele escondeu esta informação do Reich. O Jovem foi levado para uma cidade rural, e criado sob uma intensa vigilância de pessoas de confiança de Mengele. O objetivo de Mengele era realizar o cruzamento dos descendentes de Olga Kruv, gerando a raça perfeita. Mas a guerra se aproximou do final antes que a experiência pudesse ser levada a cabo pelos nazistas. O Terceiro Reich desmoronou, Mengele fugiu para a Argentina e quando a Rússia invadiu Berlim, toda a documentação do caso foi parar nos porões da KGB.<br />
Meus antecessores retomaram a pesquisa de Mengele quando Olga Kruv já estava morta. O filho dela não foi localizado. Somente duas das quatro meninas. Essas duas foram conduzidos para a Rússia, onde receberam treinamento. Eu conheci apenas uma das meninas, Monika. Nos apaixonamos, e eu me casei com ela.<br />
Monika foi a pessoa com maiores poderes psíquicos que existiu na face da Terra. Graças a suas habilidades nós fizemos grandes descobertas. Ela nunca soube que sua mãe era de outro planeta. Eu escondi isso dela até o dia de sua morte. Eu temia que minha mulher percebesse que era vista como uma cobaia pela KGB. Por isso, mantive em segredo os documentos. Nunca tivemos filhos. Parece que por uma ironia do destino, todos os descendentes de Olga Kruv eram estéreis. Mesmo que a Alemanha tivesse vencido, os planos de Mengele, Himmler e Hitler em fazer os super arianos teria falhado miseravelmente.</p>
<p>Mas a senhora deve estar se perguntando porque voltei na época da Segunda Guerra Mundial para explicar o que eu faço aqui, nesta sala, sentado no chão na sua frente, não é mesmo? Pois bem, como a senhora sabe, o final da União Soviética produziu um êxodo de pesquisadores para o lado de lá. Fui integrado à CIA, que obteve todas as nossas pesquisas e passou a conduzi-las, mas com uma fração ridícula do prestígio e dos investimentos que nossos laboratórios russos dispunham.<br />
A coisa começou a mudar de figura depois do incidente de onze de setembro, quando a Al Qaeda realizou sua missão bem sucedida de destruir as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York.<br />
Eu já estava morando em Fort Lauderdale, curtindo minha aposentadoria, quando um general bateu na minha porta com propostas irrecusáveis. Ele havia lido alguns de meus memorandos dos anos 90.</p>
<p>Retomei as pesquisas. A inteligência passou anos sem conseguir localizar o Osama Bin Laden. Agora recorriam a mim afim de reativar o programa de espionagem psíquica e localizá-lo. O governo gastou milhões de dólares sem sucesso no encalço dos terroristas que compunham a cúpula pensante da Al Qaeda. No fim de 2008, quando a notícia de que uma célula da Al Qaeda no Marrocos havia conseguido comprar um dispositivo nuclear, houve um súbito desespero no Pentágono.<br />
Nunca tive tanto dinheiro tanta liberdade de fazer o que quisesse. Nem nos tempos da Guerra Fria.<br />
Investi no laboratório. Iniciamos as triagens. Mas décadas desperdiçadas sem financiamento cobravam um preço caro na hora da necessidade. A pressão por localizar Osama aumentava. A coisa estava grave.<br />
Destaquei um grupamento especial da CIA afim de levantar dados e localizar se haveria alguma cunhada minha viva. A tomada de Berlim havia ceifado muitas vidas. As chances eram pequenas. Mas em dezembro de 2009, uma súbita virada na nossa sorte ocorreu. Os meus homens acharam a pista de um descendente de Olga Kruv. E estava vivo. Era o menino cego. Ele havia se mudado com a família para a Austrália.<br />
Os homens foram até lá e trouxeram o sujeito. Ele se chamava Peter Zold. Usamos Peter para uma série de coisas. Ele conseguia um feito excepcional de localizar coisas. Mas não foi capaz de determinar onde estaria o artefato nuclear. Peter apenas conseguiu sentir que estava ´muito perto´. Houve um súbito pânico quando percebemos que o instrumento já estava nos EUA, escondido em algum lugar.</p>
<p>Tentávamos desesperadamente fazer com que Peter Zold localizasse o artefato nuclear. Cada dia era uma tortura de saber se seria o dia derradeiro em que uma bomba nuclear mataria milhares de cidadãos americanos inocentes. Mas uma outra linha de pesquisa se interpôs no nosso trabalho de visão remota. Esse trabalho foi adaptado de um estudo muito preliminar que fizemos com Monika na KGB antes dela morrer. Chamava-se &#8220;teoria da correspondência&#8221;.</p>
<p>Levou décadas para que maturássemos a compreensão de um fato que parece mais uma piada que uma realidade: Alguns seres humanos possuem um correspondente. Não há ordem. Tudo indica que é alguma coisa caótica inexplicável. Mas encontramos pessoas com correspondentes em lugares incomuns. Um índio brasileiro é o correspondente de um Operário na Alemanha. Quando um tem dor de cabeça, o outro também tem. Se um comer uma coisa e passar mal, os dois tem diarréia. Se um passa mal, o outro também passa. Não há explicação genética. São pessoas que não se conhecem, nunca se viram, não há ligação de parentesco ou qualquer outra. Nossa pesquisa com Peter Zold mostrou que ele consegue, com base em algum objeto pessoal de uma pessoa, determinar onde está o seu correspondente.<br />
Mas não é uma coisa perfeita. Muitas pessoas simplesmente não possuem correspondentes. Talvez porque ainda não nasceram. Mas o mais estranho é que quando um correspondente morre, o outro morre junto. Na mesma hora. Quase sempre de causas naturais.<br />
Por exemplo, um correspondente no nepal é assassinado com um tiro no peito. Na mesma hora o coração de uma criança do jardim de infância do Missouri vai parar&#8230; &#8211; Disse o velho, enquanto o agente da Cia traduzia.</p>
<p>Jéssica ouvia em silêncio.<br />
-Então o senhor acha que eu vou acreditar nisso aí? &#8211; ela perguntou, com ar de desdém.<br />
-Pense, senhora. Pense. Aliás, lembre! A senhora certamente já teve surtos misteriosos de alegria, ou melancolia. Já sentiu uma dor súbita sem causa aparente&#8230; A senhora já acordou com medo no meio da noite, mesmo sem ter tido um pesadelo. A senhora já teve uma diarréia sem que se lembrasse ter comido algo estragado? Lembre! A senhora já teve uma idéia que surgiu como mágica na sua cabeça? Ou resolveu pensar do nada em alguma coisa? A senhora já ficou com insônia sem ter consumido café ou refrigerantes? Pense&#8230; A cada dia somos reféns de um monte de situações que até então não eram explicadas. Como o coração de algumas pessoas simplesmente para? Até de crianças? Como uma pessoa sofre um acidente, tem traumatismo e sai viva e outra escorrega na banheira e morre? E as crises de pânico? De onde surgem? Como alguém pode simplesmente ter um medo inexplicável de altura? Como uma pessoa acorda sentindo que está caindo? Como você come alguma coisa que nunca havia experimentado e tem a certeza que aquele sabor é familiar?</p>
<p>-Reencarnação, ué. &#8211; Jéssica disse.</p>
<p>-Vidas passadas? Talvez. Mas como podemos justificar que algumas pessoas com saúde perfeita morrem vitimas de câncer em menos de uma semana? Ou aneurisma cerebral? Ou ainda, os que morrer dormindo&#8230;<br />
Hoje a Física reconhece que somos uma ilusão. Não passamos de frequências vibratórias de partículas subatômicas que são também apenas frequências de partículas ainda menores. O que nos mantém ligados enquanto indivíduos possivelmente está ligando diferentes indivíduos entre si. Como o mundo, a ciência e a própria compreensão do universo que nos cerca era limitada, nunca percebemos que de fato, podemos estar inevitavelmente ligados a um correspondente. Uma pessoa com vida, cultura, saúde finanças completamente diferente de nós, mas ainda assim, estamos ligados. Já vimos milionários ligados a mendigos. Não há controle. É o tecido invisível que interliga tudo que existe não somente aqui, mas em todo o universo, e talvez até fora dele. Esta é uma constatação que muda nossa visão do mundo, mas do ponto de vista da interceptação estratégica, nos ensina uma lição. Se você não pode pegar uma ponta, talvez possa pegar a outra.</p>
<p>-Quer dizer que você estão atrás do Daniel&#8230;<br />
-Ele é o correspondente do homem que, acreditamos, está encarregado de disparar a ogiva.<br />
-Como vocês sabem?<br />
-Peter. Conseguimos o relógio do árabe num acampamento de treinamento na Tunísia. Peter disse quem era o correspondente. Estamos fechando o círculo ao redor dele gradualmente. MAs uma coisa saiu errado&#8230; Tivemos um pequeno contratempo, vamos dizer assim.<br />
-E o que vocês vão fazer com ele?<br />
- É como eu disse, moça. Se ele morrer, o árabe morre&#8230;</p>
<p>(continua)</p>
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		<title>O correspondente &#8211; parte 2</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Aug 2011 21:56:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Philipe</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p></p><p>Enquanto ele caminhava com seu jeito seguro e frio, a mente de Daniel produziu um <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/sem/' class=''>sem</a> numero de motivos, perguntas, respostas, e mentiras.</p>
<p>Mesmo que não estivesse em condições de raciocinar tão velozmente, o nervoso, a <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/adrenalina/' class=''>adrenalina</a> de achar que ia morrer, turbinou a mente dele de tal forma que era como se as coisas acontecessem em câmera lenta. Passo a passo aquele sapato antiquado, meio sujo de lama nas bordas tocava o chão da locadora. O terno era um pouco estreito. Suficientemente estreito para notar que o cara havia feito num alfaiate, o que tambem indicava que ele tinha dinheiro. O bigode era bem aparado, e os cabelos ralos deixavam despontar alguns fios brancos. O rosto era vincado, como o rosto de um marinheiro e o peitoral estufado. Aquilo só poderia indicar duas coisas. Ou o homem do paletó era um velho marinheiro, pescador ou coisa do tipo, ou aquela figura que vinha na direção dele era um soldado ou ex-militar. Sem dúvida, era alguém que passou grande parte de sua juventude exposta ao tempo e ganhou marcas que emolduravam isso. Seu jeito frio e forma de andar expunham uma sensação de segurança, de autoconfiança que raramente ele via nas pessoas comuns. O que indicavam que além de ter dinheiro, o homem do paletó era uma pessoa cuja força de vontade raramente era contestada.</p>
<p><span id="more-14164"></span></p>
<p>O cara parou no balcão. E não disse nada.</p>
<p>Daniel ficou parado, olhando pra ele. Também não disse nada. Sabia que enquanto ele não falasse, sempre haveria uma saída. A aquela altura, a mente dele ja havia encontrado uma saída minimamente factível:</p>
<p>&#8220;Hã? Quê? Não, não sou eu! O senhor está me confundindo!&#8221;, ele diria, caso o homem o agarrasse pelo colarinho e questionasse o que Daniel teria visto naquela madrugada.</p>
<p>Mas o homem não fez nada disso. Ao contrário, pareceu cordial. Com um sorriso sacana, abaixou-se um pouco, inclinando de leve sobre o balcão.</p>
<p>-Tem sessão pornô aí garoto?</p>
<p>Danniel tentou conter o medo.</p>
<p>-Tem sim senhor. É ali no cantinho, ó. &#8211; Disse, apontando a prateleira.</p>
<p>O homem foi até lá. Ficou uns três minutos olhando cada filme. Daniel ficou olhando de rabo de olho, a atenção totalmente focada no homem.</p>
<p>Era ele, sem duvida. Daniel não iria esquecer aquele jeitão peculiar. E o paletó ainda era o mesmo da madrugada.</p>
<p>O homem começou a demorar, o que deu a Daniel a chance de refletir sobre a estranha situação. Talvez fosse apenas uma gigantesca coincidência. Certamente que o homem do paletó não havia cruzado o fato de que ele também dirigia um taxi. Ali ele era só o menino da locadora. Talvez tudo terminasse bem. Se ele pudesse manter sua tranquilidade por tempo suficiente para que o estranho não notasse o nervosismo, iria pegar o filme e ir embora. A madrugada estava escura, o carro passou rápido. Mesmo que o homem do paletó  tivesse memória fotográfica, seria difícil ter certeza de que era ele.</p>
<p>O homem voltou. Passou direto pelo balcão e moveu a cabeça em sinal de saudação.</p>
<p>Daniel manteve-se em silêncio, acompanhando o percurso do homem até a porta de blindex.</p>
<p>Tudo corria bem. Era só mais um segundo de calma e o homem iria embora.</p>
<p>Daniel nunca soube o que deu nele para fazer aquilo. Talvez um súbito e incontrolável excesso de confiança:</p>
<p>-Não achou o que procurava senhor?</p>
<p>O homem se conteve. Olhou para trás.</p>
<p>-Seu nome? &#8211; Ele perguntou.</p>
<p>Daniel gelou. Mas o homem estava esperando, segurando a porta de blindex da locadora.</p>
<p>-Daniel.</p>
<p>-Daniel&#8230; Legal. Não achei, Daniel. Eu estava procurando um filme&#8230; De mulher trepando com cachorro. Mas não tem. &#8211; Ele disse, antes de levantar a mão num discreto sinal de adeus e sair da locadora.</p>
<p>Quando a porta da locadora fechou, o coração de Daniel disparou. Ele não conseguia pensar direito. Sua cabeça se inundou de pensamentos e teorias diversas.</p>
<p>Estava claro pra ele que o assassino realmente o havia reconhecido. Talvez o estivessem seguindo desde o final da noite. Certamente que toda aquela cena de entrar na locadora e procurar filme era uma desculpa. O homem queria saber o nome dele. Só isso. E o burro não conseguiu sequer mentir um nome diferente.</p>
<p>Subitamente, enquanto pensava sobre a estranha visita na locadora, Daniel sentiu um choque: &#8211; Por que o homem disse aquilo? Como ele sabia? Mulher com cachorro&#8230; Ele sabia. Não tinha como inventar, não tinha como ser coincidência. Aquele estranho homem não disse aquilo atoa. Tudo tem um porquê. Aquilo era um recado. Pra bom entendedor, meia palavra basta.</p>
<p>Não tardou para que Daniel concluísse o que parecia óbvio: Que o estranho homem sabia mais sobre ele do que apenas o nome. Mas como? Quem seriam eles? E por que o encontro estranho na locadora?</p>
<p>A única explicação racional que encontrou era que os homens já estavam acompanhando a vida dele antes. Mas por que?</p>
<p>- Daniel sacou o diário e começou a escrever sobre o que havia ocorrido até então.- Disse Jacob.</p>
<p>O professor Andreas Jacob bebeu mais um gole de água. Em um silêncio repleto de ansiedade, a plateia aguardava o desenrolar de suas investigações. Ele abriu um pacote, de onde retirou um material encadernado. Abriu o documento e leu alguns trechos em silêncio. Pediu desculpas à plateia e retomou a apresentação.</p>
<p>-Daniel escreveu em seu diário furiosamente, tentando se ater aos mínimos detalhes de tudo que havia vivenciado&#8230;</p>
<p>Quando deu a hora de fechar a locadora, ele foi para casa. Esperava receber uma ligação de sua mulher, um pedido de desculpas, mas nada daquilo ocorreu. Andou pelas duas ruas, percorrendo o caminho de duzentos metros que sempre fazia. Mas naquele dia em especial, ele olhou para trás. E ao longe, reconheceu o carro preto.</p>
<p>Os homens estavam seguindo-o.</p>
<p>Até nesta parte, a comissão que analisou o caso estava certa de que os homens eram uma elaboração sofisticada da mente perturbada de Daniel. Aqui está o que eles disseram sobre isso:</p>
<blockquote><p>O caso de Daniel Lima constitui um exemplo clássico de delírio paranóide. Como destacam Capgras e Serieux, o paciente estabelece relação de motivo com o qual se atrela no enredo do tema persecutório, que pode ter se dado por influência de um passageiro paranóide que entrou em seu táxi.</p>
<p>Dessa forma, enquanto portador de esquizofrenia e envolto numa situação de forte estress emocional, Daniel teria se contaminado com o delírio extrínseco, e assumido para si uma parcela do delírio do passageiro. Como a fenomenologia das idéias delirantes de Jaspers nos mostra, o paciente sempre é protagonista.</p>
<p>Para tal, torna-se necessário eliminar o &#8220;dono&#8221; da história original, de modo que a megalomania que acompanha a quase totalidade deste tipo de fantasia delirante possa se desenvolver, colocando o paciente no seu lugar central na trama.</p>
<p>Tal característica justifica a fantasia de que homens misteriosos mataram o passageiro e passaram a perseguir o paciente. A partir deste ponto, a vida do paciente se desenvolve à reboque de &#8220;um relato, uma novela&#8221;, na qual a projeção, a compensação e a imaginação criadora constituirão os suportes. O drama paranóide de Daniel, leva em seu desenvolvimento o selo da unidade e da ação, conforme Lasègue demonstrou em inúmeros trabalhos.</p></blockquote>
<p>- Fica claro, prezados senhores, que a comissão interpretou como sendo de origem delirante os relatos de que Daniel vinha sendo perseguido por homens de paletó. Eu mesmo também acreditei nesta possibilidade, movido sobretudo, pela ideia de que a frase do homem da locadora, que ao procurar um filme de zoofilia que se resumia ao elemento de choque que desencadeou o surto esquizofrênico, aparecia ali para marcar claramente que ele era um produto da mente confusa de Daniel. Como todo delirante, ele nunca se prendeu a este detalhe, mas justifica-o com a desconfiança de que já vinha sendo &#8220;estudado&#8221; pelos homens muito antes de pegar o passageiro que posteriormente foi assassinado.</p>
<p>Voltando ao relato da vítima, ele fugiu dos perseguidores entrando num shopping center. Daniel percebeu que varias pessoas no shopping olhavam pra ele. Uma pessoa inclusive se aproximou e fingindo tirar uma foto de uma criança com um balão, tirou uma foto dele. Ante aquela situação, Daniel relata que começou a notar uma série de pessoas estranhas, que sempre olhavam para ele e que o mesmo até então não havia percebido.</p>
<p>Daniel correu pelo shopping, e subiu as escadas rolantes. Ele conseguiu ver os dois homens de terno entrando no shopping center quando já chegava no segundo andar. Eles eram rápidos, porém, discretos.</p>
<p>Daniel pegou a escada de incêndio e correu para o estacionamento do shopping, onde escondeu-se na caçamba de uma caminhonete. Ele cobriu a caçamba com a lona e por uma pequena fresta viu quando os dois homens apareceram armados na garagem.</p>
<p>Os homens procuraram em baixo dos carros, atrás e pilastras. Os dois trabalhavam rápido e em silêncio. Um deles pegou um radio e falou alguma coisa, mas Daniel não conseguiu entender. O homem do radio passou novas instruções e os dois homens voltaram para o interior do shopping. Daniel conta no diário que se manteve oculto na caçamba da caminhonete por cerca de uma hora, quando o veículo finalmente deixou o shopping.  Já estava escuro quando a caminhonete adentrou um condomínio de alto padrão na cidade. Ele esperou quieto até que houvesse completo silêncio.</p>
<p>Finalmente, abriu a lona e saiu andando como se fosse um morador. Passou pela guarita e acenou para o vigia, que retribuiu o sinal.</p>
<p>Dali, Daniel pegou um ônibus, mas antes que pudesse chegar em casa, teve um insight que os homens poderiam estar de tocaia. Os homens haviam perdido o sinal dele, mas certamente iriam recuar para o ponto em que ele seria visto novamente. A casa e o trabalho eram os pontos fracos.</p>
<p>Isso explica porque Daniel Lima nunca mais pegou o taxi, ou voltou para casa.</p>
<p>Aqui se dá o desaparecimento dele. E é a partir deste ponto que as páginas do diário foram arrancadas. Ninguém da polícia sabia que fim tinha levado Daniel. Com a alegação de que &#8220;sem corpo não há crime&#8221;, e sem parentes nem amigos para dar pela falta dele, levou um bom tempo para que a polícia entrasse no caso. Foram os vizinhos e a dona do taxi que ele alugava que fizeram a primeira queixa de desaparecimento.</p>
<p>O caso de Daniel parecia só mais um caso de loucura, até aquela madrugada quando a mulher me ligou.</p>
<p>Ela não disse o nome, mas precisei atribuir-lhe um para melhor compreender o que se passou. Chamei-a de Jéssica.</p>
<p>Jéssica não deu muitos detalhes sobre como conheceu Daniel. Ao que parece, ela era uma cliente da locadora, que gostava de conversar com ele sobre filmes. Foi Jéssica quem abrigou Daniel naquela noite.</p>
<p>Segundo ela, Daniel apareceu abatido, fraco e sujo na porta de seu apartamento, pedindo ajuda. Ele parecia desesperado.</p>
<p>Jessica custou a acreditar nele. Daniel precisou contar a situação do passageiro assassinado três vezes antes que ela começasse a acreditar nele. Foi graças à amizade de Jéssica que Daniel fez um grande avanço na investigação de quem eram aqueles homens. Munida de uma câmera, e completamente desconhecida, Jéssica passou a frequentar as imediações do prédio de Daniel, onde filmou e fotografou alguns deles, sem que fosse notada. Jessica passou a ser os olhos e ouvidos de Daniel, que se mantinha trancado no banheiro de empregada da casa dela, escrevendo no diário, vendo os videos e as fotos que ela obtinha e traçando hipóteses.</p>
<p>Uma das paginas do diário descobertas pela polícia no apartamento dele  faz menção ao material da Ylza. Talvez Ylza seja o verdadeiro nome de Jéssica, mas até anteontem, todos pensávamos que Ylza era parte do delírio dele.</p>
<p>Ontem pela manhã, ao chegar no meu escritório, havia um envelope pardo endereçado a mim. Nele estavam umas fotos. E as fotos são estas, senhoras e senhores:</p>
<p><a href="http://www.mundogump.com.br/o-correspondente-parte-2/correspondente3/" rel="attachment wp-att-14165"><img class="aligncenter size-full wp-image-14165" title="correspondente3" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/08/correspondente3.jpg" alt="correspondente3 O correspondente   parte 2" width="452" height="372" /></a></p>
<p><a href="http://www.mundogump.com.br/o-correspondente-parte-2/correspondente2/" rel="attachment wp-att-14166"><img class="aligncenter size-full wp-image-14166" title="correspondente2" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/08/correspondente2.jpg" alt="correspondente2 O correspondente   parte 2" width="346" height="316" /></a></p>
<p><a href="http://www.mundogump.com.br/o-correspondente-parte-2/correspondente1/" rel="attachment wp-att-14167"><img class="aligncenter size-full wp-image-14167" title="correspondente1" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/08/correspondente1.jpg" alt="correspondente1 O correspondente   parte 2" width="333" height="386" /></a></p>
<p>Acredito que essas sejam algumas das imagens que Jéssica fez para Daniel. Esses seriam os homens que estavam cercando a casa dele. Segundo Jéssica contou, os homens misteriosos tem circulado em todos os lugares  em que Daniel frequenta. Eles estão quase sempre de óculos escuros, olhando para a multidão, para as pessoas da rua, para quem entra no prédio. Ora parecem executivos, ora parecem seguranças, e até mesmo policiais. Jéssica disse que Daniel tinha muito medo das incursões dela, pois se fosse pega, ela os levaria diretamente até ele.</p>
<p>Até então, trabalhávamos apenas com a hipótese de um delírio. Mas com essas fotos, a coisa começou a mudar de figura. Por alguma razão, Daniel começou a ser perseguido pelo que parecia organização. Mas por que? Faltava uma causa. E quem seriam esses homens? A Máfia? A polícia? O crime organizado?</p>
<p>Jéssica disse que os homens estavam sempre muito nervosos, muito ansiosos. Eles olhavam as horas o tempo todo e eventualmente falavam em celulares. Ela teve a impressão de que eles não pareciam muito à vontade naquela função, o que indicava que poderia se tratar de uma ação criminosa.</p>
<p>Atendendo a um pedido de Daniel, Jéssica falou ao telefone com seu Carlito, o dono da locadora. Ele estava uma fera com o sumiço de Daniel. Jéssica disse ao seu Carlito que Daniel havia ficado muito abalado com o fim do casamento e que tinha viajado para a casa de parentes.</p>
<p>Seu Carlito contou a Jessica que achava que Daniel havia se metido numa encrenca, pois todo dia homens de terno com cara de polícia iam até a loja para perguntar por ele.</p>
<p>Depois que o velho desligou, Daniel e Jéssica concluíram que certamente os homens estavam monitorando tudo. Isso incluía o telefone da locadora, que certamente estava grampeado. Agora seria uma simples questão de tempo para que a casa de Jéssica fosse invadida.</p>
<p>Temendo serem descobertos, os dois saíram da casa dela. Jessica alugou um quarto de hotel nas proximidades, de modo que com um bionóculo, eles pudessem ver o que se passava na casa dela.</p>
<p>Foi exatamente como eles pensaram que seria. Os homens invadiram a casa dela poucas horas depois, e reviraram tudo. Eles não estavam brincando. Do quarto no hotel, Daniel e Jéssica viram os homens descerem dos carros, entrarem no prédio e voltarem para os carros carregando diversas caixas e partiram. Daniel anotava todos os detalhes do que via no diário. Ele sabia que  naquela altura,  os homens já tinham obtido uma fotografia de Jéssica.</p>
<p>Os dois passaram a noite confabulando quem poderiam ser aqueles homens. E o que eles queriam com um simples taxista e atendente de locadora.</p>
<p>-O homem do taxi. O que morreu. Ele não te disse nada?- Questionou Jéssica.</p>
<p>-Que eu me lembre, não. &#8211; Respondeu Daniel.</p>
<p>-A única hipótese que eu vejo para eles te perseguirem é queima de arquivo. Eles acham que o passageiro falou alguma coisa pra você. &#8211; Ela disse.</p>
<p>-É&#8230; Faz sentido. Mas que merda! Ele não me disse nada. &#8211; Respondeu Daniel.</p>
<p>Nisso, bateram na porta.</p>
<p>Daniel arregalou os olhos assustado. Agora Jéssica estava com uma expressão de desespero. Ela sussurrou:</p>
<p>-São eles!</p>
<p>(continua)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O correspondente &#8211; Parte 1</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Aug 2011 20:33:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Philipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p></p>Tudo que vou contar aqui é a mais completa expressão da verdade. Ou talvez não. Não sei&#8230; Estou a uns meses estudando o diário do Daniel e até hoje não consegui formar uma clara deia do que realmente aconteceu com ele. Não apenas porque o diário do Daniel é uma confusão meio sem pé nem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p></p><blockquote><p>Tudo que vou contar aqui é a mais completa expressão da verdade. Ou talvez não.</p>
<p>Não sei&#8230;</p>
<p>Estou a uns meses estudando o diário do <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/Daniel/' class=''>Daniel</a> e até hoje não consegui formar uma <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/clara/' class=''>clara</a> deia do que realmente aconteceu com ele. Não apenas porque o diário do Daniel é uma confusão meio sem pé nem cabeça, porque ele próprio sempre foi um cara bastante confuso, mas também porque muita coisa do que poderia explicar aquela série de eventos que ocorreram com ele num curto período de dois meses foi deliberadamente removida do diário e escondida em lugares insuspeitos.</p>
<p>Como muitas pessoas que tiveram acesso aos prontuários, eu comecei meu mergulho na personalidade complexa de Daniel pensando que ele começou a sofrer delírios e alucinações.</p>
<p>É estranho como certas pessoas reagem ao stress. E aquele momento específico da vida dele era extremamente estressante. Daniel trabalhava em meio período numa locadora de video, e à noite, alugava um táxi de uma vizinha, com o qual defendia uns trocados nas portas das baladas mais concorridas da cidade. Logo, é perfeitamente compreensível supor que Daniel dormisse pouco, e como todos nós aqui sabemos, a privação do sono é um dos elementos fenomenológicos que podem desencadear surtos. O estudo detalhado dos manuscritos não permite prever exatamente se Daniel era usuário de drogas. Não dá indicativo de consumo alcoólico nem mesmo apresenta qualquer indício de consumo de tabaco, maconha ou qualquer outra droga correntemente disseminada nas grandes cidades.</p>
<p>O que eu posso dizer acerca do que se passou com Daniel é um recorte preto e branco e fragmentado que levei alguns anos para conseguir montar. Pequenas peças colhidas com amigos, parentes, páginas ocultas no motor do carro, escondidas sob o assoalho, páginas codificadas em intrincados padrões matemáticos escondidas dentro de livros&#8230; Mas faltava muita coisa para dar uma certeza do que realmente se passou.</p>
<p>Com o desaparecimento dele, tudo ficou ainda mais complicado. A polícia se meteu, o suposto local do crime foi repetidamente escrutinado sem as necessárias revelações. Mas ainda assim, eu estava obcecado em formar uma ideia básica do que ocorreu, porque fui um dos poucos que conversou com ele antes do desaparecimento. Testemunhei seu medo, seu nervosismo. Sua desesperada necessidade de mostrar que não estava louco.</p>
<p>Só anteontem, quando no meio da madrugada recebi o telefonema de uma mulher que não se identificou,  mas que sabia meu nome, as coisas fizeram um sentido surreal. Como um prisma que decodifica a luz do sol em uma miríade de tons, aquela ligação me deu um novo ponto de vista sobre o desaparecimento de Daniel.</p>
<p>Ela era rouca, mas pela voz, tratava-se de uma mulher ainda jovem. A ligação foi estranha, porque ela não me disse seu nome, nem deu detalhes suficientes para que eu pudesse seguir aquela pista. Mas como ela começou do final, dizendo que Daniel estava morto, e o misterioso porquê de sua morte, eu ouvi atentamente, fazendo rápidas anotações esquemáticas no bloquinho de telefones.</p>
<p>Peço desculpas por me alongar tanto antes de começar a expor o misterioso caso do desaparecimento de Daniel. Mas acredito ser fundamental que esta comissão de inquérito entenda que o que trataremos aqui, caso seja um fato real, expõe um grande risco ao mundo.</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>Após tecer seus breves comentários, o professor Andreas Jacob iniciou a projeção dos slides.</p>
<p>-Este é Daniel. 32 anos. Divorciado.</p>
<p>Bem, divorciado talvez seja uma palavra inapropriada para o que de fato aconteceu. Sua mulher o traiu&#8230; Com o cachorro. &#8211; Ele disse, pigarreando, meio sem graça.</p>
<p>Houve um sussurro na plateia e uma certa consternação. Andreas Jacob pareceu não se intimidar e detalhou:</p>
<p>-Segundo os elementos que surgiram no diário, ao qual Daniel era muito apegado, ele entrou em casa voltando do trabalho mais cedo e ao ouvir um som estranho vindo do quarto, suspeitou que havia alguém na casa.</p>
<p>Daniel então invadiu o cômodo do apartamento e se deparou com uma cena grotesca, onde sua esposa Anna praticava uma cena de sexo com Duke, seu cão da raça Waimaranner. &#8211; Disse Jacob, mostrando um slide com a foto de Duke.</p>
<p><a href="http://www.mundogump.com.br/o-correspondente-parte-1/waimaranner1/" rel="attachment wp-att-14129"><img class="aligncenter size-full wp-image-14129" title="waimaranner1" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/08/waimaranner1.jpg" alt="waimaranner1 O correspondente   Parte 1" width="221" height="166" /></a></p>
<p><span id="more-14127"></span></p>
<p>A plateia começou a se dividir entre os que riam e os que estavam visivelmente embaraçados ante a sugestão de uma traição envolvendo zoofilia. Após beber um gole de água, o doutor Jacob retomou o ponto:</p>
<p>-A junta psiquiátrica que examinou o caso estabeleceu este como o ponto traumático em que Daniel rompeu pela primeira vez o laço com a realidade.</p>
<p>De fato, ele sofreu um grande choque ao entrar no quarto e se deparar com a esposa de quatro na cama, encaixada no seu cão de estimação. Ela ainda tentou se justificar, e conforme Daniel relatou no diário, a abre aspas, vagabunda&#8230; Disse que a culpa dela trepar com o Duke era minha, porque eu era uma merda na cama e não a satisfazia&#8230; Fecha aspas.</p>
<p>Daniel perdeu a cabeça e agrediu a esposa adúltera e zoófila, que numa suposta tentativa de se defender, o atingiu com a base do abajour do criado mudo, acertando-o na cabeça. Ele ficou desacordado por algumas horas, e relata que acordou assustado, em meio a uma poça de sangue no tapete. Ao se levantar, não sabia onde estava. Não reconhecia as coisas e quado se olhou no espelho, sua imagem não parecia corresponder com a pessoa que ele achava que era. Estava muito sujo de sangue, que ainda minava do corte na testa.</p>
<p>Enquanto se limpava na pia do banheiro, começou a lentamente se lembrar das coisas e de tudo que havia acontecido.  Ele não achou a mulher na casa e nem mesmo o cão. Concluiu o óbvio: Havia sido abandonado pela esposa, que levara consigo o cão de estimação ao qual ambos tratavam como um filho.</p>
<p>Daniel fez um curativo precário e saiu de casa. Andou pelas ruas sem destino, sem saber o que faria. Estava transtornado. Ainda em choque. E numa sensação de zonzeira permanente.</p>
<p>Quando deu nove horas, ele cumpriu sua rotina. Pegou o taxi e percorreu a cidade, em busca de passageiros.</p>
<p>Tentou pegar passageiros na porta do shopping, mas estava lotado, porque era perto do dia das mães, e havia muitos taxistas naquela área. Assim, ele rumou para a zona oeste, onde parou na porta de uma boate, mas ainda faltava muito tempo para a hora da saída. Isso deu a ele a oportunidade de escrever em detalhes todo seu sofrimento de descobrir que sua esposa o traía com o cachorro.</p>
<p>Ele  fez tudo que podia para fazer a hora passar. Tentou ler um livro, de espionagem, que enrolava para terminar fazia meses. Mas não conseguia se concentrar. A cada momento, a imagem da mulher de quatro encaixada no Waimaranner, voltava para assombrá-lo.</p>
<p>Daniel ligou o radio, em busca de musica, notícias, piadas, telefonemas&#8230; Ouviu uma reportagem especial sobre pessoas desaparecidas. Isso a princípio parecia apenas um detalhe corriqueiro nas anotações de Daniel, mas gradualmente este foi um dado que se revelou parte do que a junta classificou como &#8220;a base mítica do delírio&#8221;.</p>
<p>Quando foi quinze para as duas, Daniel pegou seus primeiros passageiros. Um casal. O cara estava visivelmente bêbado, e a mulher estava dando um ataque de ciúmes. O taxista narra que a mulher bateu boca praticamente sozinha durante todo o percurso, já que o bêbado apenas olhava pela janela em silêncio.</p>
<p>Ele deixou o casal num bairro próximo e retornou à boate, onde entrou no fim da fila e só foi pegar o segundo passageiro as três e meia da manhã. Esta foi uma corrida que valeu a pena, já que foi até uma cidade vizinha, levando dois casais. No meio do caminho, Daniel conta no diário que os casais começaram uma tremenda sessão de bolinação múltipla no banco de trás. Ante a cena mal iluminada, Daniel jurou ter visto as duas mulheres se beijando. Os casais chegaram a entrada de um prédio e não pediram troco, pagando com uma nota alta. Daniel ficou assistindo as mulheres se agarrando na frente dos maridos, enquanto entravam no prédio. Ele partiu com o taxi pensando sobre a situação que iria ocorrer naquele apartamento. Lembrou-se de sua mulher. Talvez, se ele tivesse sido um cara mais liberal na relação, ela não o tivesse traído com o cachorro.</p>
<p>Até ali, a madrugada transcorria como uma noite normal de quinta-feira, mas entretanto, o passageiro que fez a diferença surgiu quando Daniel voltava para a fila de taxis na saída da boate. UM cara veio correndo e fez sinal para o taxi. Daniel não ia parar, mas o sujeito praticamente se jogou no meio da pista.</p>
<p>Ele parou e o cara entrou como uma bala no banco da frente. Daniel odiava que os passageiros se sentassem ali ao seu lado. Mas não teve jeito. O cara sentou e desatou a falar.</p>
<p>Ele ia para um lugar meio longe. Era um lugar meio ermo, deveras perigoso. Mas o coroa sacou um bolo de dinheiro que faria Daniel levá-lo, nas palavras dele, &#8221; até o inferno&#8221;.</p>
<p>O passageiro era um coroa de uns quarenta anos. Com a barba por fazer, óculos fundo de garrafa e uma vasta cabeleira branca. Ele parecia muito nervoso. Suava frio e olhava pelo retrovisor para ver se não estava sendo seguido. Daniel achou aquilo estranho e questionou o homem se estava tudo bem. O sujeito se identificou como um corretor, que estava sendo perseguido por homens estranhos que queriam pegá-lo.</p>
<p>Neste ponto, não sabemos se o terceiro passageiro já é uma alucinação ou se foi uma pessoa real. A descrição detalhada do passageiro era bastante rica, ao ponto de confundir a junta e a mim sobre o que seria real e o que seria delírio. Sabemos apenas que o homem que Daniel pegou contou a ele que vinha sendo perseguido, grampeado e estudado à distância por homens de terno. Esses homens a princípio apenas olhavam pra ele, seguindo seus passos. O corretor fez uma suposição de que seriam homens do governo, mas ele nunca teve prova alguma disso. Um dia, ele resolveu interceptar um dos homens. Confrontou-o num shopping, dizendo que iria denunciar o caso à polícia. A ação se revelou um tiro pela culatra. Os homens não pararam de persegui-lo mas tornaram-se visivelmente agressivos. Dali em diante, aquelas figuras passaram a persegui-lo dia e noite. O corretor temia que os homens misteriosos tentassem matá-lo.</p>
<p>Ele apenas não sabia o porquê, já que não tinha inimigos, e não conseguia encontrar uma razão para aquele estranho assédio.</p>
<p>Quando o taxi chegou no ponto combinado, o sujeito agradeceu e pediu desculpas pela &#8220;encheção&#8221;. Pagou um extra ao Daniel pela atenção e correu disparado para um beco, sumindo na escuridão. Daniel achou que era só mais um maluco, e ficou contando o dinheiro. Ele já saía com o carro quando notou, ao longe, cerca de uns duzentos metros atrás, um carro vindo devagarzinho, todo apagado. Daniel acelerou o taxi e virou numa esquina. Subiu numa calçada, desligou o carro e apagou os faróis.</p>
<p>Ele ficou ali, parado, a espreita do tal carro. Então resolveu sair e se esconder atrás de uma caçamba-lixeira a uns vinte metros, do outro lado da rua. Seria verdade que o coroa vinha sendo perseguido?</p>
<p>Alguns minutos depois, um carro preto de faróis apagados virou a esquina. Daniel estava abaixado atrás da lixeira e viu quando o carro parou perto do taxi. Do carro, desceu um homem de paletó. Ele foi até o taxi com uma arma na mão. Olhou, olhou, deu a volta no carro. Daniel estava assustado. Sentia que o coração ia sair pela boca. O homem colocou a mão no capô. Daniel Sabia que o homem fazia aquilo para saber se o carro era o taxo dele. O carro estava quente, como era óbvio. E talvez por isso o sujeito tenha começado a vasculhar a área ao redor, em busca dele.</p>
<p>O homem olhou para o outro, que estava ao voltante e fez um sinal negativo com a cabeça.  O cara do carro disse alguma coisa, mas o som saiu abafado e Daniel não conseguiu entender.</p>
<p>O sujeito armado do paletó veio pela rua, e usando uma lanterna de bolso começou a iluminar os nichos e portões das fábricas e depósitos. O sujeito veio lentamente na direção dele.</p>
<p>Daniel estava prestes a sair correndo em desespero quando atrás do carro preto passou o talo corretor correndo feito uma bala. Atravessou a rua correndo e entrou numa viela escura. O homem de paletó levou um susto e correu atrás, afastando-se da caçamba de lixo.</p>
<p>O carro preto continuou ali. Daniel também. Estava ofegante. Sua garganta ardia. Era a adrenalina.</p>
<p>Minutos depois, Daniel ouviu dois estampidos secos.</p>
<p>-É tiro! &#8211; Pensou.</p>
<p>O outro cara desceu do carro e correu para o beco. Daniel agora não sabia se saía de trás da lixeira ou não. Resolveu esperar para ver no que ia dar.</p>
<p>Levou quase uns cinco minutos até que os dois homens de paletó viessem correndo pelo beco, carregando o corpo coroa, o passageiro dele, de bacalhau. Abriram o porta-malas do carro e jogaram o corpo lá. Deram uma geral no ambiente, olhando coma as lanternas para todos os lados. Por sorte, aquela era uma região industrial da cidade, perto do cais do porto, e ninguém apareceu para ver o que acontecia. Se tivesse ocorrido algo assim, esse certamente teria morrido.</p>
<p>Os homens entraram no carro, limpando as mãos num farrapo de estopa. Saíram a toda velocidade.</p>
<p>O taxista se esgueirou atrás da lixeira quando o carro passou por ele. Daniel viu no reflexo da lua, o sujeito dentro do carro. Ele diz que teve a sensação de ter sido visto. O carro dos homens fez uma menção de parar, mas o som de uma sirene ao longe os dissuadiu. Certamente algum vigia de armazém havia escutado os tiros e chamou os policiais. O carro acelerou e dobrou a esquina.</p>
<p>Daniel correu ofegante para o táxi. Estava nervoso. Tinha vontade de vomitar. Seu corte na testa doía. Tudo rodava.</p>
<p>Ele saiu com o carro antes da polícia chegar. Voltou para a fila da boate. Já estava tarde. Era fim de noite e havia poucos taxis na fila.</p>
<p>Os passageiros subsequentes eram o de sempre moleques bem nascidos, bêbados como gambás, falando alto, cantando e eventualmente querendo vomitar.</p>
<p>Após deixar o último deles, Daniel retornou para casa. O dia já começava a querer raiar. Ele teria que pegar as oito em ponto na locadora. Isso daria apenas umas três horas de sono, na melhor das hipóteses.</p>
<p>Mas naquela noite, Daniel não dormiu. A imagem dos homens carregando o cadáver, a sensação de ter sido descoberto pelos assassinos. O medo do coroa&#8230; Aquilo não lhe saiu da cabeça, de modo que ele simplesmente não dormiu.</p>
<p>Tomou um café na padaria. Foi para a locadora. Abriu a porta e sentou no banquinho, esperando poder tirar um cochilo no balcão até que o primeiro cliente pentelho surgisse, com sorte, lá pelas duas da tarde.</p>
<p>Mas enquanto tentava sem sucesso cochilar no balcão, ouviu a sineta que anunciava a entrada de um sócio.</p>
<p>Quando Daniel levantou os olhos, mal pôde acredidar no que via:</p>
<p>Era o homem do paletó. Ele entrou na locadora e agora estava vindo, com uma cara de poucos amigos sob aqueles antiquados óculos escuros tipo Ray Ban, na direção dele.</p>
<p>(continua)</p>
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		<title>A fúria</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Aug 2011 14:07:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Philipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/03/Textos-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p>A agonia dos anjos estremeceu o céu Escurecendo a alma dos mentecaptos O fogo consumiu até a última folha do papel E o sangue gotejou no mato, para a alegria dos carrapatos O sol não surgiu quando deveria A Terra tragou os últimos resquícios da luz E a tristeza de uma agonia fria Foi o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/03/Textos-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p><p>A agonia dos anjos estremeceu o céu<br />
Escurecendo a <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/alma/' class=''>alma</a> dos mentecaptos<br />
O fogo consumiu até a última folha do papel<br />
E o <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/sangue/' class=''>sangue</a> gotejou no mato, para a alegria dos carrapatos</p>
<p>O sol não surgiu quando deveria<br />
A Terra tragou os últimos resquícios da luz<br />
E a tristeza de uma agonia fria<br />
Foi o que restou à carne, para alegria dos urubus</p>
<p>As folhas secas se espalharam pelo ar<br />
Perfumando a morte e decorando as rochas<br />
Enquanto o peito das pedras ainda insistia em pulsar<br />
em cadentes sismos, estendendo abismos, para surpresa das minhocas</p>
<p>Não teve choro, não houve lamentar<br />
Os trovões explodiram nos céus escarlates<br />
E os raios cortaram a imensidão do espaço, Refletindo no mar<br />
que já começava a secar, para desespero das jubartes</p>
<p>O deserto engoliu cidades destroçadas<br />
As areias tragaram as lembranças intactas<br />
e cobriram os corpos das pessoas espalhadas,<br />
apodrecidas e ressecadas, para a alegria das baratas</p>
<p>Quando a vida enfim cessou, num fraco suspiro do vento<br />
Ninguém deu pela falta do planeta, e daquela população,<br />
Já não havia mais esperança, emoção ou pensamento<br />
Encerrava-se o ato derradeiro, para a fúria espetacular da recriação</p>
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		<title>Descontrole</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Aug 2011 20:21:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Philipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/03/Textos-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p>A programação deu revés Com qualidade chinfrim Não passa mais nada que presta Todo canal tá ruim&#8230; Porque é que eu fico assistindo? Este monte de clichê Informações inventadas Com propaganda avontê&#8230; Então eu troco o canal Esperando assistir Alguma coisa que presta Mas tá duro de engolir&#8230; A televisão está uma merda a programação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img width="150" height="150" src="http://www.mundogump.com.br/wp-content/uploads/2011/03/Textos-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail wp-post-image" alt="Textos" title="Textos" /></p><p>A programação deu revés<br />
Com qualidade chinfrim<br />
Não passa mais nada que presta<br />
Todo canal tá ruim&#8230;</p>
<p>Porque é que eu fico assistindo?<br />
Este monte de clichê<br />
Informações inventadas<br />
Com propaganda avontê&#8230;</p>
<p>Então eu troco o canal<br />
Esperando assistir<br />
Alguma coisa que presta<br />
Mas tá duro de engolir&#8230;</p>
<p>A televisão está uma merda<br />
a programação um pesadelo<br />
Eu investi uma fábula<br />
Pra atrofiar meu cerebelo&#8230;</p>
<p>Mas acontece que eu<br />
Resolvi me arriscar<br />
Paguei uma <a href='http://www.mundogump.com.br/lojagump/grana/' class=''>grana</a> esperando<br />
Solução com a TVA&#8230;</p>
<p>Eis que deu mais  um problema<br />
Triste ter que admitir<br />
Propaganda pra todo lado<br />
E reprises a me punir</p>
<p>Devo aceitar meu destino<br />
E ver mais televisão<br />
Vejo qualquer merda que passa<br />
Bosta em alta definição</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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