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Zumbi – Parte 6

- O que? Ela é a filha daquele desgraçado?
-Shhh! – Clarck tampou a boca de David Carlyle. Ele parecia nervoso.
O velho médico olhava insistentemente para o relógio e eventualmente sobre o ombro, como se estivesse sendo vigiado. David percebeu o nervosismo da Clarck. Acenou com a cabeça e o medico destampou seus lábios.
David fez sinal com as mãos e moveu a cabeça em um tom questionador. Certamente havia algo de errado.
Clarck pareceu não querer contar. Baixou a cabeça.

-Você precisa descansar. E colocar gelo nesse joelho aí. Eu vou sair agora. Logo mais eu volto para ver como você está.

-Calmaí, Clarck. Eu vou ficar aqui nesta cabana? Esta não é sua barraca?
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Zumbi – Parte 5

Passo após passo, aquela coisa cambaleou na direção de David Carlyle.
Ele tentou se mover, se soltar das correntes, de modo que o zumbi não percebesse, mas elas estavam muito apertadas. David contemplou sua morte como um copo prestes a transbordar sendo enchido com conta-gotas. Tudo que ele queria é que aquilo acabasse logo. Que aquele morto infecto avançasse sobre ele e que o espetáculo grotesco da carnificina se iniciasse. Mas o desgraçado era lento demais.
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Zumbi – Parte 4

David ficou parado, não ousou olhar para trás. Ficou ali, olhando a barra de chocolate na mão.Então escutou uma voz vindo das costas, que disse:

- Quem é você, ladrão filho da puta?

David fez menção de olhar para trás, mas a pessoa socou o cano da arma na nuca dele, machucando-o. Antes que David ousasse dizer qualquer coisa, a pessoa tornou a falar.

- O gato comeu sua língua, seu rato? Coloque as mãos onde eu possa ver.

David jogou o chocolate no chão e abriu os braços para cima. A pessoa puxou pela gola do sobretudo, tirando-o da mesa e empurrou contra a parede.

Nisso, ele ouviu a voz de mais duas pessoas. Uma era de uma pessoa mais jovem, e a outra de um senhor.

“Quem é ele, Sam?”

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Zumbi – parte 3

David Carlyle correu cautelosamente por entre os destroços da rua. Os olhos sempre fixos na fraca luz âmbar que surgia e bruxulheava dentro daquele apartamento ao longe.
Sabia que eram velas. E se havia velas, certamente havia gente normal escondida lá dentro, em algum lugar.

David correu pela rua, pois a chance de enxergar alguma coisa na escuridão era maior. Se ao menos ele tivesse um isqueiro ou algo assim, tudo seria mais facil. Mas ele não tinha. O odor fétido da cidade se espalhava por todo lado, deixando difícil de respirar. Era como um gás de amoníaco. David sabia que o cheiro era pior no lugar em que os mortos se acumulavam.

Subitamente ele tropeçou um pedaço de lata sem querer e a lata bateu em alguma coisa, fazendo um barulhão danado. O barulho ecoou nas ruas vazias.
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Zumbi – Parte 2

David Carlyle estava sozinho naquela cidade escura e inóspita. Sua mente tentava processar e compreender o que havia acontecido.

“Talvez tenham jogado uma bomba nuclear” – Pensou.

Andou por uma longa avenida, desviando de carros engavetados, ônibus enfiados em lojas e restos de corpos humanos ressecados pelo sol.

David olhou os arredores e como ninguém respondia aso seus gritos, começou a se perguntar por quanto tempo ele ficara dentro daquele armário.

Ele andava sem destino, os olhos prescrutando as lojas, os bares, etc. A maior parte deles estava fechada. Mas alguns estavam vazios. O sol já tingia de cor de rosa o firmamento.

Enquanto andava, teve a sensação de que vira algo passar correndo entre os carros.

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Zumbi – Parte 1

Textos
No meio da escuridão, só resta o silêncio.
Ao longe, gritos ecoam entre os carros capotados e os pedaços de carne repletos de moscas varejeiras. Parado ao lado de um alambrado enferrujado, nos fundos de um estacionamento, está um zumbi. Como todo zumbi, ele tem os olhos revirados e parece fitar o vazio, com sua mente sem pensamentos. Aquele zumbi foi alguém importante. Eu não sei o nome dele, nem o que ele fazia, mas sei que era importante, porque é o único zumbi com colar de ouro e diamantes naquela região. A julgar pelo estilo de colar, daria para apostar que foi um rapper ou gangster urbano dos subúrbios. O casaco chique deve ter-lhe custado uma pequena fortuna, e agora está rasgado e manchado de sangue e lama.
E é apenas isso. Um zumbi parado, como uma estátua, ao lado do alambrado.

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Efeito Okinawa

Numa sala branca, quase hospitalar, está uma mesa. O vidro grande na lateral reflete o que se passa no interior da sala. Nela, há apenas um velho japonês fumando um cigarro. Ele está sentado na cabeceira da mesa de madeira escura, olhando para o vazio.
No fim mal iluminado da sala, a porta se abre e entram dois outros orientais. Eles falam em japonês. Os três homens se cumprimentam solenemente. E então há um silêncio perturbador naquela pequena sala.
O policial mais gordo traz consigo alguns papeis, que joga pesadamente sobre a mesa.
Impassível, na outra ponta da mesa, o velho continua a fumar.

-Então senhor Takahashi?
-… – O velho se mantém em silêncio.
-Vai colaborar com a polícia? Já demos um tempo ao senhor.
-O velho apenas sorri. Apaga demoradamente a guimba do cigarro num cinzeiro carcomido no canto da mesa.
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O criminoso da rua Madison

Carl deu a última tragada no cigarro, que já era uma pequena guimba entre seus dedos. Apreciou a escuridão daquela noite gélida.

A neve havia finalmente parado de cair e o silêncio parecia egolfar a cidade como num vácuo opressor. Carl estava no escuro, segurando o taco de baseball. Na cintura, o revólver.

Seus músculos retesados aguardavam o momento de agir. Aquele era o oitavo dia em que Carl ficava no escuro, armado, pronto para o combate. Carl morava na rua Madison desde que nasceu. Cresceu andando de bicicleta naquela rua. Fez amigos, inimigos, conheceu Sarah, namorou com ela, apanhou dos dois irmãos dela, depois ficou sem ver Sarah por quase vinte anos, porque ela se mudou. Quando se reencontraram por acidente no metrô de Nova York, ela já estava casada, com filhos gêmeos.

Após Sarah, Carl nunca amou ninguém.  Se alistou na Marinha  e virou fuzileiro.

Carl perdeu os pais, testemunhou quando o bairro começou a gradualmente entrar em uma espécie de decomposição social. Quando os primeiros traficantes surgiram, no início da década de 80, todos os que podiam se mudaram. Viu o bairro de brancos se tornar um bairro negro e depois, quando nem os negros aguentaram o rojão,  o bairro Bowling virou um bairro de chicanos.

O bairro se chamava Bowling porque nos anos trinta havia um boliche famoso no fim da rua Madison. Grandes campeonatos mundiais aconteceram naquele local. Hoje, só resta um monte de ruínas que sobraram de um cinema decadente que abriu no local onde existira o boliche. De fato, as pessoas faziam piada com o estado de degradação daquele local, onde a polícia nunca ia. O bairro, repleto de bandidos, gangues, traficantes e viciadas doentes, que se prostituíam nos canteiros e becos, era famoso pela prostituição que corria tão solta que o bairro já era chamado de “Blowing”.

Os que não podiam, acabaram gradualmente abandonando as casas e indo viver em outros lugares. Apenas uma meia dúzia de corajosos havia resolvido ficar na Madison, a despeito dos traficantes e das gangues, que agora tornavam a vida naquele local um inferno. As casas ao redor da dele, já haviam sido invadidas e saqueadas. Eventualmente, mafiosos vindos da Rússia desfilavam em carrões imponentes. Chefões mal encarados se atracavam com mulheres voluptuosas da Europa Oriental enquanto eram atentamente vigiados por capangas armados. Ninguém ousava mexer com aqueles caras. Eram os novos donos do pedaço.

Mas no fim daquele ano, alguma coisa aconteceu que atrapalhou os “negócios”. Os chefões mafiosos, cheios de joias, carrões mulheres, charutos, casacos de pele de foca e vodka sumiram de uma hora para outra. E faltou droga.

Carl sabia que os viciados em crack estavam entrando em crise. Aquele inverno havia sido severo demais, e por alguma razão que ele não saberia explicar, a droga não havia chegado ao distribuidor. Quando falta de um lado, alguém lucra mais do outro. Isso é um fato. Quando o preço do crack disparou, os maloqueiros começaram a se desesperar como siris na lata de um pescador.

Sem ter como obter dinheiro, e com menos gente nas ruas devido ao frio, mendigar já não dava certo. Foi quando as invasões nas casas começaram a se tornar mais e mais comuns. Fazia mais ou menos uns nove dias que a casa da senhora Huppert havia sido invadida na calada da noite.

A idosa fora surpreendida quando via Tv. Segundo a noticia patética que saiu nos jornais, a senhora Huppert tentou gritar por socorro, mas foi violentamente chutada pelo invasor, que levou suas recordações de família. A viúva morreu com traumatismo craniano e hemorragia interna. O mais triste de tudo, é que a senhora Huppert não havia sido a única. Outras pessoas como a família Slinks no fim da rua tiveram a casa arrombada. Equipamentos eletrônicos, dinheiro, e joias foram levados. Os Slinks foram amarrados no sótão, e a Nora, a filha mais nova, sofreu abuso sexual.

Carl não estava disposto a ter a casa dos pais dele arrombada. E era por isso que resolveu montar guarda e surpreender o maluco, caso cometesse o erro de invadir a sua casa. Noite após noite, ele montava guarda ao lado da porta, esperando que um dia alguém tentasse invadir. Carl só entregava os pontos e ia dormir quando o sol já iluminava o matagal da casa em frente.

A noite parecia não passar. Ex-militar e combatente, Carl sabia como era duro passar a madrugara acordado, montando guarda. Ele agora vivia sozinho naquela casa, e sem família, só podia se lembrar dos natais felizes que passava com os pais em suas memórias.

Era natal. Carl se surpreendeu ao perceber aquele detalhe peculiar. Imaginou as pessoas felizes, comemorando ao redor de grandes mesas fartas e bebendo vinho. Crianças abrindo presentes entre gritos e correria. Agora, pra ele, o natal era um dia como outro qualquer. Até mais triste do que o normal, pois era quando Carl se lembrava dos pais, há muito falecidos. Os pensamentos de Carl se apagaram como um passe de mágica, quando seus ouvidos escutaram um leve estalo na tábua da varanda.

Ele prendeu a respiração e ficou escutando. O ruído cessara tão subitamente quanto ocorrera. Carl se manteve alerta. Esperou. Mas não aconteceu nada. – “Talvez seja um gato”  – Tentou justificar mentalmente.

Mas então a maçaneta da porta lentamente girou. Carl arregalou os olhos. Era aquele o momento. Ele se encostou na parede, perto da janela. Segurou o taco com as duas mãos retesadas. A maçaneta girou lenta e silenciosamente, até que fez um “clik”.

Carl esperou. Estava ofegante, ele sempre ficava ofegante em situações de combate.

Lembrou as instruções do sargento James que sempre eram de fazer uma boa base. Carl dobrou levemente os joelhos e afastou as pernas. Na porta, um outro clique se fez ouvir.

Ele sabia o que aquilo se tratava. O meliante vagabundo estava usando algum tipo de gazua para abrir a porta. Não parecia ser um mero gatuno maloqueiro querendo comprar uma pedra. O silêncio e o cuidado com que ele girara a maçaneta, a forma cuidadosa com que ia gradualmente testando o segredo da porta da sala, mostravam a Carl que ali talvez estivesse um profissional.

Carl esperou. Ele tiraria proveito do elemento surpresa.

Click.- A porta abriu.

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