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A lasanha da madrugada

Sozinho em casa, esperando uma lasanha Sadia sair do forno eu não tenho porra nenhuma pra fazer. Penso em escrever no blog. Abro a janela mas a tela em branco me oprime. Eu não tenho nenhuma idéia. Penso no meu dia. No que aconteceu.

Penso no meu trabalho, na ralação, nos amigos. Penso na minha mulher. Penso em levantar da cadeira e ir ver Tv. Mas nada de bom passa na tevê e eu sou obrigado a voltar para o escritório onde me espera a maldita tela branca opressora.

O que colocar ali? Uma aventura? Um conto? Uma outra poesia? Ou comentar alguma notícia? Na verdade não estou com vontade de escrever é merda nenhuma. Eu queria jogar.

Tanto jogo maneiro… Esse da Citerion novo… Meter uns tiros. Deve ser legal.

Mas ele é caro e eu não tenho. Além do mais, jogar me vicia. Eu tenho que segurar a vontade de jogar porque se começo, viro a madruga e amanhã é dia de trabalhar.

Madrugada. Apenas o silêncio. Meus pensamentos me dão a sensação clara de ouví-los.

Eu volto-me para a janela. Olho lá para a rua. Passa um fusca e fura o sinal vermelho.

Ele colide violentamente com uma brasilia ou variante. Não dá pra ver direito, porque o poste está com a luz queimada.

O que eu vejo é o fusca acertar a frente da brasília, que pode ser uma variant e rodar, indo parar de encontro ao muro. A buzina dispara. É um ruído irritantemente alto da buzina “bi-bi” típica do fusca. Com a batida, o muro desabou, abrindo um buraco enorme por onde saem dois cães pretos correndo. Podem ser rottweilers. Os cães correm e atacam os caras do posto de gasolina do outro lado da rua que estavam vindo olhar o acidente. O primeiro cão pula sobre o pobre negão agarrando-lhe o braço e derrubando-o no chão. O homem se debate gritando. O outro cão ia atacar o segundo frentista mas dá meia volta e corre para cima do pobre negão que se debate desesprado, com um cão mordendo-lhe o pescoço e o outro puxando pelo braço. È uma carnificina. O frentista atônito tá parado, gritando. Gritando acenando. Em desespero. O colega se debate com os cães.

Nisso eu vejo que o cara da brasília, que agora tenho certeza que na verdade é uma variant, desceu do carro. Ele tem algo na mão.

Só depois dos tiros que eu notei que aquilo era um 38. O primeiro cão cai no chão e o outro ainda morde o pobre negro desfigurado.

O segundo frentista vem correndo com uma vassoura. Acerta vassouradas no cão, erra duas e acerta no colega, que está caido ao chão, aparentemente desmaiado. O cão está em frenesi. O maluco da variant mete mais dois balaços e o cão corre mancando. Não estou certo se todas as balas acertaram o cão. Acho que o negão estava num dia de azar.

O sujeito do fusca está la dentro, do carro, imóvel.

Eu me preocupo que ele tenha morrido na batida com o muro. A buzina disparada ainda. Uma zona. Nos prédios ao redor todo mundo correu para ver. Mas sa janela, já que ninguém é louco de descer para a rua a essa hora. Vejo que uma mulher grita. Ela grita desesperada. Deve estar dentro do fusca, a julgar pelo barulho abafado. A buzina para. No fusca tem um sujeito tentando tirar o cara do carro. Acho que é porteiro do predio da esquina.

Alguém grita lá do predio para não mexer no cara. Mas já é tarde. O sujeito tira o corpo ensanguentado e coloca no asfalto.

Outros dois que não vi de onde saíram estão tentando ver se o frentista morreu destroçado pelo cachorro. O frentista sobrevivente corre para telefonar no orelhão.

Penso como a vida é uma merda. Ningiuém tem celular quando precisa, mas basta você entrar numa porra dum cinema ou teatro para: “…blim, blim, blim-blim-blim.. alô”?

Ao longe, bem longe, há um barulho de sirene. Não sei se é para este acidente. Está bem longe. Agora que a buzina do fusca parou eu posso perceber melhor a cena. Muito do que penso ver, acho que estou ouvindo, já que a falta da luz do poste atrapalha muito acompanhar o desenrolar dos fatos.

Mas mesmo assim, o desenrolar dos fatos é bem interessante agora, já que a mulher em crise desceu do fusca e está estapeando o infeliz ensanguentado estirado no asfalto. O porteiro do predio tenta segurá-la. O povo da janela está.. Está rindo!

Meu Deus, como é que pode isso? O cara deve estar morto lá e neguinho tá rindo…

Ela grita algo como “filho da puta! Não morre. Volta! Sua mulher vai me matar!”

Entendo o motivo do riso. O porteiro tenta conter a mulher. Ela se debate sobre o corpo do cara, parece estar tentando uma ressussitação, mas não sei. Pode ser ódio também.

O maluco da variante voltou pro carro. Está sentado no capô olhando aquela merda. O carro parado no meio do cruzamento. Varios motoqueiros se aglomeram no posto para ver acena. Gente correndo de camisola começa a aparecer. São as velhas da casa 12 que sempre estão lá na igreja e vivem para fofocar. Uma tem até bobs na cabeça. A outra enrolada num penhoar florido de gosto absolutamente duvidoso.

Está a maior falação na rua. Os donos da casa que o muro caiu surgem desesperados. Os dois vem correndo. O marido vira-se e grita para as crianças voltarem pra dentro. Três bacuris de uns quatro a sete anos correm de volta para o buraco do muro. A mulher vê o cão caido morto e começa a gritar. Ela tá tendo um chilique. O marido tenta segurar, mas agora são duas mulheres tendo chiliques. O povo grita das janelas. Não dá pra entender o quê.

O pobre negão está esfacelado ali e ela está ajoelhada alisando o cachorro assassino. Isso não faz sentido.
As velhas se aproximam da mulher que vela o cão morto. Elas apontam para o sujeito da variante. Ele está sozinho sentado no capô. Cabeça baixa. Acho que tá chorando, não sei.

A mulher corre pra lá. A dona do cão está puta. As velhas falaram naturalmente quem foi que matou o… Não ouvi o nome. Parece Ringo, ou bingo, ou Pingo…. Uma merda assim, que não combina com um cachorrão daquele tamanho. Ela vai lá tirar satisfação com o cara. Empurra ele. O marido dela vem correndo tentar acalmá-la. O cara da variant empurra a mulher e ela cai estatelada no chão. Quase mete a cabeça no meio-fio. Os motoboys gritam algo como “ÔôôôÔ…”
O marido dela chega e se mete entre ela e o cara da variant que tava quieto na dele. Começa a discussão. O marido empurra o cara da variant. Ameaça meter a mão na cara. O cara da variant mete a mão no casaco e saca o trabucão novamente. O marido da mulher dá um passo pra trás. O cara da variant avança e mete dois enormes tapões na cara do sujeito, que quase tropeça na mulher. Eu só escuto a parte do “Quer morrer? Quer morrer? Reage, filho da puta! Reage!”

As velhas correm para o ortifruti desesperadas. A gritaria recomeça.

O dono da casa corre com a mulher. A galera grita das janelas que ele amarelou. A maior vaia. O maluco da variant aponta a arma aleatóriamente na direção das janelas. Dá um tiro. E faz-se o mais completo silêncio que eu já testemunhei na vida.

O cara da variant senta novamente sobre o capô e fica isolado. Agopra a rua é apenas silêncio. Todos apenas se olhando desconfiados. A coisa fica tensa.
O barulho da sirene não está mais no ar. Aquilo não era o socorro. E pelo que parece, o socorro vai demorar.

Os porteiros e os vigias do estacionamento junto com os vigias do ortifruti estão colocando uma lona em cima do negão e uns jornais no cara do fusca. A mulher do cara lá do fusca chora desconsolada. Deve ser a amante. Mulher mesmo só chora assim no enterro, e quando tem televisão. Ou então quando o cara é rico.

Um estalo seco ecoa na noite e as velhas gritam. Todo mundo grita, Muita correria. Eu olho pro canto e vejo que o cara da variant está caido sobre o capô. Surge atrás do poste o marido da dona dos cachorros. Ele tá com uma 12 na mão. Parece ser cano serrado ou algo assim.

Agora me lembro que ele é ex-Pm. Puts. Nunca humilhe um ex-pm!
O maluco tá caidão em cima da variant toda fodida. Braços abertos. O revolver caiu. A mulher do ex-pm vem gritando em desespero. Ouço um ruído de batuque eletrônico.

No fim da rua, lá em baixo perto do açougue eu vejo que vira um carro cantando peneu. É um vectra tunado. O som toca um funk no último volume. Ele está muito rapido. Rapido demais. Parece que o cara não está vendo o… Puta que pariu!

O carro vem a toda cantando peneu e entra com a variante, o morto e tudo dentro do posto de gasolina. Eles atingem a bomba e o posto explode em um clarão que ilumina a rua. É um barulho como uma bomba atômica. Eu sinto o som no meu peito. Caio atrás da janela. Vejo que pedaços de pessoas voam. O predio sacode. Eu penso que vai acabar o mundo. Tenho medo que desabe tudo.
Sinto o chiro do óleo e da gasolina. Uma lingua de fogo gigante se precipita sobre o que era o posto. Eu me levanto e olho pela janela. Vejo pessoas em chamas correndo. Muitos corpos se espalham pelo chão. Em meio a fumaça, noto que o posto agora é uma cratera com pedaços de telhado e vigas. Fogo muito fogo. Eu sinto o calor. Não consigo respirar direito. Meus olhos ardem. Os carros estão de cabeça para baixo. Todas as janelas dos prédios em volta explodiram. Tá tudo sem luz. O poste caiu. Eu sinto o chiro da fumaça. O cheiro ruim e ressecado da fumaça escura…

Caralho. A lasanha tá queimando!

Fragmentos da vida de Maria Thereza de Jesus

Quando eu conheci Maria Thereza de Jesus, ela estava sentada no banco da praça. Era um dia quente de verão. Eu me sentei ao lado dela simplesmente por não haver outro lugar onde me esconder do sol inclemente. Nem havia prado para reparar naquela mulher que parecia ter uns quatro anos a mais que eu, e que guardava uma beleza incomum. Na verdade mesmo, só percebi o quanto a dona Maria Thereza era bonita bem depois.

Naquela tarde conversamos amenidades. Nem cheguei a me apresentar. Durante algum tempo eu fiquei ali me refrescando do calor sob a sombra de uma antiga árvore. Mas deu o meu horário, então pedi licença a dama e parti. Estranhamente, naquela noite o calor foi muito forte e eu abri a janela para entrar um ar. Eu morava numa pensão para estudantes que era muito quente. Fiquei na janela por um tempo fumando um cigarro. A janela dava vista para a praça. Foi quando eu olhei para a praça que vi algo estranho.

Eu parecia estar vendo alguma coisa fantasmagórica. Lá, no meio da escuridão, sentada no banco da praça estava a Thereza.

Vesti o paletó de desci em direção à praça.

Lá estava ela. Quieta. Solene. O olhar perdido em meio aos jardins.

Sentei-me novamente ao lado dela e não disse nada. Eu fiquei em silêncio e podia ouvir o respirar pesado de Thereza. Achei que ela estava triste. Hesitei em romper o silêncio ao perguntar-lhe o que uma dama fazia aquela hora da noite na praça sentada no mesmo banco em que passara a manhã toda. Fiquei pensando sobre como as costas de Thereza deviam estar doendo, pois o banco da praça era bem duro.

Ela não falava nada. Apenas olhava para o jardim, sentindo o perfume daquelas flores que exalam seu perfume na escuridão. As damas da noite.

Eu pensava mil maneiras de me introduzir naquele momento solitário da Thereza. Não queria parecer inconveniente. Mas não queria parecer insensível ao fato de que de algum modo, aquela mulher inegavelmente sofria.

Eu pensava, pensava e não tinha nenhuma boa idéia. Fazia ensaios mentais, testando cada uma das abordagens. E então, inesperadamente, ela me interrompeu os pensamentos com uma frase.

- Esta noite está sem lua. – Ela disse. Nossa, era justamente a frase perfeita. A frase que eu deveria ter usado e não usei.
- Sim, é verdade. A propósito, a senhora está aqui desde hoje pela manhã?
-Estou.
-Nossa. A senhora não está sentindo dor nas costas? – Perguntei incrédulo.
-Não, não. Estou bem.
-Espera por alguém?
-Sim, espero.
-Estou incomodando a senhora? -Perguntei torcendo por uma negativa.
-Não, não. A pessoa que espero ainda não veio. Está chegando.
-Eu poderia perguntar quem é? Seria muito intrometimento?
-Bem, não. Nem um pouco. Eu sei que parece estranho estar aqui sozinha na praça. Mas eu namorado volta da Inglaterra hoje.
-Ah. Entendo. Quer que eu saia? Se ele chegar e ver que conversamos…
-Não não. Não seja tolo. – Ela deu um riso que misturava pena e desprezo pela simples idéia de eu, aquela figura pobre e esquálida, causar algum transtorno de ciúmes no namorado dela. Eu me senti mal. E ela continuou. – Meu namorado é mais velho. Ele entende que você está apenas preocupado comigo. É um cavalheiro. Você vai ver.
-Ah… – Eu já ia completar a minha frase quando parou um belo carro do outro lado da praça. Um homem de uniforme impecável e quepe desceu e contornou o veículo. Ele abriu a porta e eu vi um belo par de sapatos italianos reluzirem com a iluminação do poste. Um homem alto desceu. Ele estava enfiado num terno bem cortado que eu teria que trabalhar anos para pagar. Ali estava um homem de cabelos brancos e ar aristocrata. Ele apenas moveu levemente o queixo para baixo e o motorista retornou ao carro. O homem carregava um belo buquê de flores rubras. Atravessou a praça. Eu podia ouvir o coração daquela mulher disparar ao meu lado. O cavalheiro se aproximou de nós. Como manda a etiqueta, me levantei para saudá-lo. Dona Thereza fez as apresentações, me apresentando como um amigo que lhe fez companhia por causa da noite escura. O nome do homem era Oscar.

Oscar é nome de rico. Aliás, isso já dava para saber só de ver o carro. Devia ser empresário dono de metade da cidade. Eu já ouvira falar dele na Radio Nacional. O sobrenome inglês não me saiu da memória por um bom tempo. Eu pude admirar aquele homem que era como eu sempre desejei ser. Belo, rico, desejado. Com estirpe. O cabelo gomalinado e um belo anel de rubi no dedo. E o relógio? Ele olhou as horas para calcular vinda do Rio de Janeiro até Petrópolis e eu fiquei até atordoado ao ver aquela maravilhosa peça de arte suíça brilhar na mão do homem. Não me contive e elogiei o relógio. O cavalheiro sorriu e contou as vantagens do cronógrafo de quartzo. Acho que em toda minha vida nunca amealharei fortuna que dê para pagar nem sequer o ponteiro daquilo.

- Como foi a viagem, senhor Oscar?

-Muito bem. Fui ter com a Rainha. Sabe como são essas solenidades. Aliás, falado em rainha… Essas são para a minha rainha. – Ele estendeu o buquê de flores. E a dona Thereza abriu um belo sorriso.

O homem contou que voltava de Londres num navio. Primeira classe, é claro. Trouxe-lhe um presente. Eu me intriguei porque pensei que o presente eram as flores, mas o homem acenou para o motorista. O carro acendeu os faróis e circundou a praça. Thereza estava atônita como eu. O carro parou na nossa frente. O homem abriu a porta de trás e lá estava um belo urso de pelúcia. Enorme.

Ela adorou. Estava em êxtase. Eu achei que devia me retirar e já ia pedindo licença quando o homem falou que aquele também não era o presente. Enfiou a mão no bolso do paletó e dali retirou uma caixa. Uma caixa pequena.

É joia! – Pensei cá com meus botões. Thereza deu um passo para trás. Assustada. Eu vi nos olhos dela naqueles segundos que antecederam a abertura da caixinha preta, que ela assustou-se com a possibilidade de ver uma aliança de ouro ali dentro. E em seguida ouvir um pedido. Um pedido que ela ansiava há muito, mas que igualmente a aterrorizava.

O homem abriu a caixa e não era o anel. Thereza respirou. Era um belo broche. Um broche de pedras. Ametistas, cristais e esmeraldas. Lindo. Eles se abraçaram. Ali estava um homem apaixonado. Um homem outrora tão poderoso, agora escravizado daquela mulher, que temia ver uma aliança na caixa. Eu pedi licença e vi que dona Thereza e o senhor Oscar Sinclair entraram no carro. Nos despedimos cordialmente. Ele acenou e o carro partiu. Eu voltei para a pensão. Fui dormir pensando na noite de amor perfeita daqueles dois e senti uma certa raiva daquele cara.

Um mês depois, eu passava pela praça quando vi Thereza novamente. Ela estava sentada no banco secando os olhos. Fui até lá.
Ela estava novamente com o olhar parado. Cumprimentou-me, mas tinha a expressão mais triste. E o rosto inchado.

-Como vai o sr. Oscar? – Indaguei.
- Não sei.
-Não?
-Terminamos.
-Nossa.
-Não foi traição se o senhor quer saber. – Disse-me ela num tom de defesa.
-Entendo, senhora Thereza. Que pena. Formavam um belo casal.
-Sim. Belo. Reconheço. Todos me diziam isso. Mas eu não podia ficar com aquele homem. Eu não tinha certeza se o amava. Não estava preparada… Estava confusa…
-Ele a pediu em casamento?
-Sim, como sabe?
-Imaginei que seria naquele dia que nos vimos pela última vez. Até achei que o anel estava na caixa do broche de ametista. -Disse eu. Mas ela pareceu me ignorar, continuando a falar. E então eu compreendi que ela não falava comigo. Falava para si mesma, buscando uma explicação para o inimaginável fato de ter negado o pedido nupcial do poderoso Oscar Sinclair.

-…Ele não me negou nada. Me deu tudo. Do bom, do melhor e além. Me prometeu viagens inesquecíveis, me prometeu o mundo. Quando conheci Oscar eu era pobre. Meus pais haviam morrido. Aquele homem surgiu do nada e nos apaixonamos. Ele tocou meu coração com tamanha devoção. Comecei a querer casar com ele. Mas um dia, na missa, eu fui tomada de um pensamento que acho ter sido uma inspiração do Senhor…

- E o que o Senhor disse?

-…Onde ele dizia que tamanha devoção deveria ser devolvida com juros e correção. E eu não amava aquele homem o bastante para pagar tamanho tributo. Quando ele enfim me pediu em casamento, assustada eu disse não.

-Oh. Que pena. Que história triste, senhora Thereza.
-Me chame de Thereza. Não sou tão velha nem casada para ser tratada de senhora.
-É sinal de respeito.
- Eu sei. Prefiro Thereza apenas. Therezinha.
-Certo… Therezinha.
-Bem, desculpe derramar sobre o senhor essas tristezas da vida.
-Ah, não é nada. Sei que passarão logo. A senhora, digo, você sabe que é melhor ser honesta e franca com essas coisas do amor.
-Tem razão, meu amigo. Espero que sim.
-Adeus. Até breve.
-Até.

Parti deixando a minha amiga na praça. De longe ainda olhei para trás. Lá estava ela. No mesmo banco de sempre. Secando os olhos. Pensei que ela iria ficar para titia.

Não ficou. O tempo passou novamente e quando tornei a vê-la, me assustei. Não foi na praça. Foi na feira. Outrora uma boneca de louça num caro vestido branco, agora ela estava suja, vestia uma roupa antiquada e carregava um saco com bananas, alguns legumes e duas garrafas de mel. Ainda bonita. Linda. Mas bem triste. Me ofereci para carregar o fardo para ela. Notei que ela escondia coma manga da blusa hematomas nos braços. Fingi não percebê-los. Tornei a tentar carregar as sacolas. Mas ela não quis. Eu insisti e praticamente tive que arrancar o saco com a feira dos braços dela. Foi ali que eu vi o tamanho do orgulho daquela mulher. No caminho da casa dela fomos conversando.

Ela me contou que conheceu um outro homem. Um homem mais moço que Oscar. Apaixonou-se por este homem. Mas o maldito era dado a esbórnias. Batia nela. Um português de nome Antônio. Ele era dono de um bar num bairro distante. Chegava e casa tarde fedendo a pinga e queria o jantar na mesa. Se o jantar não estivesse posto ele brigava e comia até direto no fogão tal qual um animal. Era um mau caráter. Ele explorava Thereza, pelo que eu entendi.
Thereza contava-me sua história e as lágrimas corriam-lhe pelo rosto, descendo em uma cascata de brilhante sob a luz do sol até pingar do queixo. Eu senti ódio daquele maldito.
Numa noite, o português chegou completamente transtornado do bar. Acusou Thereza de roubar-lhe dinheiro. Ante as negativas da mulher, ele deu um belo tapa nela. Thereza caiu chorando na cama. Sofria pelo amor, mas gostava do português. O homem vasculhou sob a cama. Abriu armários. Revirou as gavetas da pequena cômoda em busca de provas. Estava neurótico. As crises só aumentaram e ele ficou mais e mais agressivo. Queria pinga. Obrigava a pobre Thereza a fazer todos os seus desejos. Um dia, encasquetou que Thereza o traía. Então passou a dar incertas na casa. Passou a olhar sob a cama, circundar a casa com facão em punho sempre que chegava na surdina. Embrenhou-se na mata ao redor da casinha para encontrar o “safado”. Chamava Thereza de perdida, vadia, piranha. e outros termos impronunciáveis. Ele sempre batia nela. Na falta do suposto homem, ele imaginava um. Imaginava homens do passado. Indagava pelos nomes dos homens da vida de Thereza. Queria saber tudo. Quem eram, onde estavam. Começou a perseguir a própria sombra. Passou a cobrir o espelho da cômoda para não ver o seu próprio reflexo ao lado de Thereza. O homem começou a ter ciúmes do reflexo…

A pobre Thereza não suportou aquela relação doentia. Sofrendo, decidiu dar um basta naquela vida. Numa noite que Antônio chegou bêbado e avançou sobre ela, Thereza estendeu-lhe o facão na direção da garganta. Ameaçaram-se, lutaram. Thereza estocou-lhe a faca no braço. Abriu um buraco e jorrou sangue. O Português ficou ainda mais ensandecido do que já era. Expulsou a mulher de casa ameaçando matá-la caso voltasse. Ela saiu do casebre jurando nunca mais olhar na cara dele.

Quando chegamos na casa dela, era uma casinha pequena, perto da praça. E eu ainda morava na pensão.
Perguntei se ela estava com alguém. Ela disse que não. Que estava se recuperando. Trabalhava numa livraria. Nos despedimos e eu parti de volta para meus afazeres na repartição. Naquele dia, enquanto carimbava notas, não deixava de pensar aquela mulher, Cada encontro nosso ficava marcado como que esculpido na minha memória. Eu podia ouvir sua voz, ver seus olhos. Eu podia sentir cada lágrima dela correr pelo rosto perfeito que ela tinha. Eu só não podia parar de imaginar os lábios daquela mulher nos meus. O calor daquele corpo…

Parei de carimbar e fiquei apenas pensando.

No fim do expediente, quando bateu seis horas, saí em disparada para a pensão. Tomei um banho. Coloquei minha melhor roupa e fui até a casa dela. Bati palmas. Ela abriu a janela. Estava de camisola. Eu notei pela alça.
Apenas nos olhamos e não precisei dizer nada. Os olhos dela encontraram os meus. E ela apenas sorriu pra mim e compreendeu. Eu empurrei o portãozinho e entrei em silencio naquela casa. Nos eencontramos na sala. Ela se aproximou e eu enlacei o pescoço dela com os braços. Demos um beijo apaixonado. Nossos corações pareciam que iriam sair pela boca. Fizemos amor até o dia seguinte.

Nunca mais nos separamos.

FIM

Este foi mais um texto do experimento de coca-cola + abstinência + a primeira música que toca na playlist. Neste caso, a música foi Terezinha, do Chico Buarque cantado pela Maria Bethânia. (ouça aí pra ver se encaixa com o conto)

Ronda

Duas e meia da madrugada.

Um cachorro cheio de pulgas abana seu rabo e olha pra mim com seus olhos pidões. Eu olho para eles e depois torno a me virar sobre o balcão, dando-lhe às minhas costas. Torno a observar atentamente a nata que recobre o caldo de uma carne assada. Eu reconheço aquela travessa. Ela está ali há 15 dias. Intacta. Talvez isso talvez explique a nata.

Um velho gordo toma cerveja sozinho ao fundo do bar.

Ele pede um pedaço de carne assada e arroz. A moça olha pra mim e meio que sorri. Eu penso: ” mais um vai ter caganeira no mundo”.

Eu olho para o último pedaço de coxinha que estou comendo. É um pedaço seco e sem frango, que ainda recobre um palito de dente quebrado. Olho pra trás e não precisava, pois eu sabia que aqueles olhos pidões, famintos e mendicantes das míseras migalhas, que imploram por qualquer merda ainda estão apontados para mim.

Eu tiro o palito e jogo para o cão. O pedaço seco de coxinha nem toca o piso de ardósia fosco do bar. O cão pega no ar e dá cabo dele tão rapidamente que me intriga se de fato joguei alguma coisa ou foi apenas imaginação. Em seguida, é o cão que me dá as costas. Ele avança pelo bar e prostra-se em frente ao outro homem. Cão esperto.

Eu estou ali já tem quase uma hora e meia esperando um pessoa. E ela não vem.

Olho cada detalhe daquele lugar infecto. As paredes de azulejos azulados. O São Jorge sobre seu cavalo branco espeta um pedaço quebrado de dragão na imagem de gesso coberta com poeira escura. A poeira escura dá o tom ao local. Ela se acumula na fina teia de aranha que revoa no teto. Noto que o ventilador que está quebrado tem uns fios soltos. A mancha de gordura revela que em algum tempo no passado aqueles fios desciam pela parede até uma caixa de luz enferrujada que está parcialmente encoberta por caixas de cerveja vazias.

Podemos dar nota para um bar pé sujo pelo número de porcarias que pendem no teto e das caixas de cerveja vazias que ladeiam as portas de entrada enferrujadas e sujas de graxa. Aquele era um bar pé sujo profissional. Mesmo que as paredes e as portas não berrassem isso aos meus olhos já acostumados a restaurantes de estrada e becos infectos, os freqüentadores fariam isso.

Há uma fauna rica que freqüenta o lugar. No fundo do bar está o velho solitário, que bebe sozinho. Ele come uma garfada com vontade. Enfia um pedaço substancial de carne assada com nata bacteriana na boca e um pedaço de couve ainda fica pendurado no canto da boca, onde pontinhos de farofa lhe caem sobre a barriga.

No outro canto estão dois homens. Discutem futebol. Eles também estão ali todos os dias.

E na porta uma velha mesa de sinuca, ou bilhar. Empenada, mas em franca utilização. Ela é palco de uma guerra silenciosa entre os cobras do taco. Eles tomam cerveja segurando o copo pela borda. No dedo mindinho está sempre um cigarro a amarelar os dedos magros e os bigodes brancos. E na outra mão, o taco ensebado com o qual fazem suas jogadas.

Passa uma moça. É a empregada de um dos apartamentos do final da rua. Ela leva o menino e olha com o olhar comprido lá pra dentro. O jogo pára como num intervalo de futebol. Os olhos dela movem-se rapidamente, um a um, buscando em cada figura semi-viva daquela caverna urbana, alguém que ela conhece. Mas ele não está ali. E ela se vai, sem reduzir o passo, rebolando as ancas e levando o filho da patroa pela mão, e consigo, todos os nossos olhares transbordantes de desejo. O desejo… Eis a fraca chama de vida que ainda resta em cada um de nós.

Eu olho as horas. Peço mais uma branquinha.

Enquanto a moça enche o copinho à minha frente, eu continuo a observar meus companheiros do purgatório. Ali está um cara, olhando hipnotizado para uma televisão Telefunken com mais chuviscos que imagem, de onde inclusive pende na ponta de uma antena uma bolinha esfiapenta de bombril.

Ele olha atento para um jogo qualquer no Maraca.

Atrás dele, na rua, numa mesa de metal da Kaiser, estão seis garrafas de cerveja vazias, um prato com uns ossos e outro com algo não identificado, mas que à primeira vista e do ângulo que estou, parece ser bolinho de bacalhau. Nesta mesa estão dois homens e duas mulheres.

Os homens aparentam ter entre trinta e três, trinta e quatro. Ou quem sabe um pouco além. Não mais que quarenta. Um é mais velho, a julgar pelos cabelos brancos.

Eles são negros. Um está de camisa. Uma camisa do vasco. O outro sem. Ambos usam anéis e pulseiras douradas. O sem camisa é o mais velho e tem um cordão grosso que parece ser de ouro, onde um anel pende a balançar quando ele se inclina para pegar a cerveja. Ele passa a mão no ombro da moça e ela sorri sem graça.

Eu fico olhando. Sempre estou ali. Estou ali olhando. Olho para fora para não ter que pensar. Olhar para dentro é sofrer.

Os homens contam piadas picantes. Eu tento escutar, mas a Tv Telefunken geme seu chiado alto e eu não ouço grandes coisas além de propagandas das Casas Pernambucanas.

As mulheres levantam-se. Elas vem juntas até o interior do bar. A moça sai de cima do balcão onde apóia os peitos e arrasta aquela carcaça cansada até aquele mini-biombo onde uma placa de papelão mal escrita deixa ver: Caixa.

Elas pedem cigarro. Uma pega um Halls. E eu sei o que vai acontecer.

O Halls é o signo materializado do prenúncio do beijo na Boca. É como quando a mulher mexe no cabelo alisado com Enê. E elas já fizeram isso a quarenta e dois minutos atrás, emitindo o primeiro sinal. O Halls sabor cereja. Eu me lembro por instantes de fragmentos do meu passado, quando sentia o sabor de Halls de cereja, cerveja e cigarro na boca de uma mulher. É um sabor ruim. Um sabor ruim que me faz lembrar da noite, da madrugada. De festas e de sexo. Então é um sabor ruim mas que é bom.

As moças voltam. E eu me lembro que esqueci de observá-las. De anotar mentalmente cada curva. Cada decote sensual de onde podem se ver dois potentes lacto-mísseis a ocultarem-se sob um decote minúsculo de malha. Elas usam sandálias baratas. Não são Havaianas, mas sandálias que imitam as Havaianas. E estão sujas. Um par é verde. O outro vermelho. Eles pendem balançando na ponta dos dedos. Os dedos tem um esmalte vermelho escuro. Uma pontinha descascada.

Um dos homens não para de olhar para os pés de uma delas.

Pobre fetichista. Todo homem é fetichista num certo grau. Fetiche e mentira. Eis a alma do homem.
Muitas vezes, o homem que diz que não tem fetiche por pés, é porque tem a mentira em maior grau no sangue.

E o pé da moça é belo, reconheço. Mas as coxas são mais. Elas estão enfiadas em apertadas calças de lycra suburbana, onde eu consigo prever onde estará cada uma das estrias e celulites ocultas e uma calcinha cor da pele. Mas isso não importa. As mulheres são belas apesar das calcinhas cor da pele.

Os cabelos negros foram alisados com fortes doses de Enê. A raiz revela umas voltinhas denunciadoras do cabelo negro. Apenas baseado nisso posso supor que são passistas. As passistas são as primeiras a alisar os cabelos, para ter o que balançar na avenida. Além disso, são mulatas. Quase como as do Sargentelli. Mas essas são as legítimas mulatas suburbanas do gueto pobre. Não posso dizer se são mulatas de nascimento, de praia ou de profissão. Só sei que são deliciosamente suburbanas nos modos. Riem alto. O sorriso é largo, cheio de dentes, branquíssimos. Os lábios, portadores de uma camada de batom de cor ainda mais escura que os esmaltes das unhas. Elas e eles se entreolham de um jeito sacana. A mais velha é mais esperta. Mais madura. Deve ser uns oito anos mais velha que a outra, novinha. A novinha tem os pés lindos. A mais velha, não. Ela tem uma pata de drácula. Porém, ainda assim, é mais sensual. Mais gostosa de corpo.

Mais atrevida. Atre-vida. Vida. Ela é vivida. Sim, bem mais. E sabe o que deve fazer, e quando. Até o momento em que deve rir e como a gargalhada dela termina num lento murmurar gosso, um ronronar que remete qualquer homem ao gemido de prazer feminino. O mais belo dos sons.

A outra é mais inocente. Está ali aprendendo o ofício. Ela observa a amiga atentamente. Talvez sejam primas, eu penso. Parecem-se levemente. Então eu vejo algo com um brilho discreto na mesa. A mais nova pega na bolsinha pendurada na cadeira da Kaiser. Tira um maço de cigarros. Ela fuma Cigarros Vila Rica. Os cigarros do Gerson. Eu pensei que esta merda não existisse mais.

Um dos homens, apressa-se em futucar as calças. Ele retira um isqueiro e galantemente atende aos anseios de fogo da jovem. A mais velha faz um gracejo sobre ter ou não ter fogo. E toma um gole de cerveja. Eu vejo a marca indefectível dos lábios grossos na borda do copo e penso naquelas marcas em minha pele.

Eu torno a olhar as horas. Olho para o relógio de parede. O relógio está apoiado precáriamente em uma lata de massa de tomate, ao lado de uma folhinha. É um estreita prateleira de onde pende um mostruário de vários blisteres de Sonrisal e barbeadores. O bar é cheio de prateleiras. As mais altas ostentam empoeiradas garrafas de vinho Galiotto. Pinga e chonhaque vagabundo sem marca enchem as restantes. Todos os donos de bares desse tipo amam exibir pelas paredes essas garrafas feias de cachaça.

Homens entram e saem do bar. Um desses avulsos entra e senta-se ao meu lado. Ele tem uma suvaqueira que dá uma impressão de que esfregou um cadáver de gambá sob as axilas. O homem usa um boné todo respingado e eu sei que ele é pintor de parede. O homem estende uma nota de mil cruzeiros e pega um copinho de conhaque. Ele vira o copo e pede mais um. A moça esperta espera até que a nota saia da emboleira daquele bolso sujo e vá até o balcão. Só então ela enche novamente o copo. Ele toma. E se satisfaz. Pergunta sobre o jogo para o homem da tevê. O homem da Tevê toma um gole na cerveja, a esta altura quente, e confirma o placar de dois a zero.

O pintor solta um palavrão e sai.

Eu torno a observar a mesa de fora. Ali ainda estão os casais. Agora a mais nova está passando o pé dela sobre o pé do cara mais velho. É uma coisa discreta, sob a mesa. O outro ainda troca olhares com a mais velha. Eu acendo um cigarro. Estou sem isqueiro e a moça do balcão acende pra mim. A moça do balcão é a Regina – eu chamava ela de Gina até dois anos atrás, mas hoje ela já atende por Gi. A Gi quis casar comigo tem uns cinco anos. O pior é que eu também pensei em casar com ela. Só que o pai dela era matador. Eu tive medo. Hesitei. Este foi meu erro.

Outro corajoso arriscou e levou. Fez três filhos nela e depois sumiu. Foi comprar cigarro e não voltou mais. É por isso que a Gi me olha com olhar sofrido. Um olhar sofrido de abandono. De falta. De carência. Um olhar que não nega seu amor, seu carinho, nem diz que me esqueceu. Mas eu finjo de morto. Eu sei que a Gi está despertando alguma coisa num traficante da área. Nao sou bobo. Todo informante da civil sabe das coisas. Não que eu seja dedo. Mas sabe como é. Tenho amigos. Amigos que tem amigos. As coisas vazam. Antes da Gi, antes das crianças sem pai, está a minha vida. Então eu só vou ao bar. Olho pra ela, bebo e fumo no balcão. Eu mantenho a Gi ligada a aparelhos. Sei que se eu for embora ela morre. Talvez se mate. Mas eu finjo não notar isso.

Trago o cigarro. Olho novamente para fora.

Do outro lado da rua, onde os carros estão estacionados, eu vejo uma variante marrom e um Fusca. Como tem Fusca no Brasil… Puta que pariu.

Sorrio achando graça da minha rima infantil.

Eu vejo que o homem mais novo levanta-se e pega na mão da mulata mais velha. Eles saem, abraçados. A morena balança as ancas largas de parideira. O que é uma mulher senhora de sua própria sensualidade…

Os outros dois, continuam lá. O homem sem camisa, que traz a aliança pendurada no cordão de ouro olha em silêncio para a mocinha bonita. Ela morde a ponta da unha, displicentemente olhando para ele. Ele lentamente leva a mão como se fosse pegar o copo. Pega o dela. Ela apenas olha.

Ele bebe.

Ela sorri e diz algo sobre segredos. Agora quem sorri de um jeito sacana é ele.

No outro canto da porta, os três caras comemoram uma vitória no bilhar.

Do outro lado da rua, na porta do Fusca, está uma mulher parada. Uma mulher branca. Quarenta e poucos. Magra. Cabelo liso pintado. Ela tem lágrimas nos olhos. Está parada. Uma estátua de cera. Parece um fantasma. Olha fixamente para o bar. Eu tento fazer a balística daquele olhar sofrido e vejo que ela olha para o homem que bebe com outra mulher na mesa de bar mal iluminada.

É noite. A luz do poste ilumina a fachada daquele bar e alheio a tudo isso, está o casal na mesa.
Ali a mulatinha pega na mão dele. Ele sorri. Ela levanta-se Vai até ele e o beija. É um beijo longo. Delicado. Sensual, que vai esquentando. Eu percebo as línguas dançando num bailado erótico.

Volto-me para o fantasma do outro lado da rua, encoberta pelo poste, que pacientemente continua olhando a cena. Ela tenta limpar os olhos com as mãos. Trêmula. E vejo que ela segura uma bolsa de couro antiquada nos ombros.

Eu tenho pena daquela mulher. Mais uma a descobrir na pele a desgraça da vida. Olho as horas. A alta madrugada denuncia o drama familiar do homem que não voltou para casa.

A pobre mulher abre a bolsa para pegar o lenço.

Eu sinto pena. Penso na minha.

Ela retira algo. Algo que brilha. Um carro passa. Uma rural Willys. Quando o carro se vai, a mulher está vindo. Ela atravessa a rua, prostra-se à frente da mesa do casal, em silêncio marcial. A situação é de uma certa solenidade. Todos olham. O homem empalidece. Não há gritos, nem palavrões. Apenas o silencio. O Olhar frio. As lágrimas tremendo no interior das órbitas. A mulher se assusta ao ver que a outra aponta um revólver. Alguém grita. Os homens do bilhar jogam-se para dentro do bar. A garrafa cai da beira da mesa. O cão sai correndo.

O homem tenta levantar da mesa. Tenta segurar a mulher.

Dois tiros. No peito. A mulata grita. Gi abaixa-se sob o balcão. E eu vejo o corpo do homem tombar. A mesa vira. As garrafas caem em sonoro estardalhaço. Copos se quebram.

A mulata tenta correr para o bar. Mas ela tropeça na soleira e é alvejada nas costas. No primeiro tiro ela já cai. Cai na frente do velho da Tv. Ele cola o corpo no azulejo ensebado. Tem os olhos arregalados para o corpo. Corre os olhos para a mulher que avança armada na nossa direção. Eu me mantenho firme. Já o velho cobre a cabeça com as mãos e escorrega a bunda na cadeira tentando se proteger de um modo instintivo.
A mulher triste adentra o bar. Ela olha para o corpo da outra caído. Soca mais dois tiros nas costas da mulata dos pés bonitos. O corpo resfolegueia atingindo pelos tiros. O sangue se espalha no chão esverdeado.

Eu apenas observo.

Ela olha pra mim. A arma quente na mão. O cheiro de pólvora no ar. As lágrimas ainda correndo pelo rosto inchado. O olhar fundo. Os lábios tremendo devagar. Ela contém um vulcão em erupção interna. Um turbilhão de desejos e sentimentos. Uma sensação de nenhum futuro, nenhum presente. Apenas um passado que avança sobre suas memórias com lembranças tristes como uma faca afiada.

Nossos olhares se tocam num abraço triste.
Ela leva a arma até a têmpora. Eu estou imóvel. Ela fecha os olhos e dispara, estourando sangue, miolos e tufos de cabelo ruivo sobre o caixa. O corpo cai desfalecido. Quando o corpo bate no chão, ela abre a mão e dela cai uma aliança que rola pelo chão do bar na direção da rua.

E há um súbito silêncio. Num pequeno instante, um fragmento fugaz da realidade me faz notar que todos estão escondidos e apenas eu testemunhei aquela mulher transtornada assassinar duas pessoas e em seguida dar cabo da própria vida. O instante irrompe em gritarias, em pessoas correndo par as ruas. Vem um monte de gente correndo para ver. Gi chora de susto, medo e também de felicidade. Felicidade de saber que o tiro que ela ouviu atrás da geladeira não era a minha despedida.

Eu me levanto do banquinho. Passo pelo corpo da pobre mulata caída na poça de sangue. Olho para o corpo do homem sob mesa. Os braços abertos entre os cacos de vidro e a poça de cerveja que ainda goteja da garrafa. O brilho da lâmpada do poste estoura e vejo que a aliança da mulher rolou e veio se alojar ao lado da pequena aliança de ouro amarrado no cordão do homem. Faço o sinal da cruz e ganho as ruas. Sumo na escuridão já ouvindo as sirenes surgindo ao longe.

FIM

 

Este foi um texto inspirado pela música RONDA interpretado pela Maria Bethânia. (no bom e velho método de criação à base de um copo de Coca-Cola )

Um roteiro de Coca-Cola

Eu estava a um tempinho sem tomar coca-cola. A crise de abstinência me obrigou a descer ali na padaria e comprar uma garrafa do néctar negro. Aditivo cerebral.
Engraçado que quando fico um tempinho sem tomar coca-cola, dá uma dor de cabeça do caramba. Mas quando tomo… Sai de baixo.
Uma enxurrada louca de idéias dos mais variados tipos e uma empolgação de sair fazendo um monte de coisa. Esculpir, pintar, escrever. As histórias surgem na minha mente aos borbotões. Umas boas, outras bem ruins.

Então aqui estou eu, pronto para psico-coca-cola-grafar o primeiro roteiro que advirá deste copo. É uma experiência científica e eu garanto pra vocês que as idéias serão idéias originais e não doideiras requentadas encostas no fundo da minha caixola.Vamos ver o que sai.

Vou tomar o primeiro gole.

Até agora nada. Em geral é assim mesmo. Leva um tempo.
Preciso de um método. Um método científico que desencadeie o surto, digo, que desencadeie a onda das idéias, que eu vou direcionar para um roteiro potencial para Hollywood:

Ok. Estou ligando o Media Player. Vou colocar no aleatório e a biblioteca vai ser toda a pasta de mp3. Umas duas mil musicas que vão de clássicos a trash metal, passando por samba, eletrônico e musica folclórica.

A primeira musica já está tocando. Ummmm… É de mistério. Meio eletrônica.

(ok, passaram-se três minutos exatamente)
Agora são quatro minutos desde que tomei o primeiro gole. Neste meio tempo, já tomei mais dois.

Aí vem:

- A PENITENCIÁRIA

Utah – Ano 2026. Uma estranha doença atinge a sociedade, fazendo com que um gigantesco número de psicopatas omicidas canibais aumente tão dramaticamente nos Estados Unidos que as autoridades se vêem obrigadas a juntar todos eles em uma prisão de segurança máxima, enquanto cientistas estudam um medicamento capaz de deter a agressividade. Entre os cientistas está um casal de pesquisadores que se odeiam. Ela é Martina Jones, PHD em neurobiologia. Ele um ganhador esnobe do premio nobel Hugh Barskeville. Juntos eles identificam um gene que poderia ser alterado mudando o comportamento dos assassinos.
È uma noite de tempestade quando eles isolam o gene e testam nas cobaias. Os selvagens babuínos ficam calmos e dóceis.
Eles testam o medicamento em um dos presos. È uma jovem bonita. Ela está toda amarrada. Um dos pesquisadores lê a ficha dela. É uma maníaca famosa por sua agressividade. Uma ficha criminal que daria arrepios no Jason. Ela está toda amarrada com grossas correntes em uma mesa, e mesmo assim, se debate até sair sangue.
A seringa é esvaziada em seu braço. O líquido percorre o tubo lentamente até entrar na corrente sanguínea. Lentamente, ela pára de se debater e gritar como uma louca. Ela se acalma e muda radicalmente o comportamento. Está calma. Uma lágrima sai de seu olho.
A equipe comemora. Abrem champanhe. Pegam o babuíno assassino no colo. Brincam com ele. Levam-no para uma cela com outros macacos. Ele está calmo e plácido.
Todos ficam felizes. Ligam para os investidores. Marcam uma coletiva para o dia seguinte.
Eles saem e resolvem ir para um pub próximo comemorar. Chamam Willy, o estagiário. Este é um jovem nerd com headphones nos ouvidos e cara de maluco. Willy não quer sair e vai ficar de plantão. A equipe sai.
Estão bebendo no pub, felizes.
Willy está na sala. Apenas a cela da jovem psicopata amarrada está acesa. Willy está vendo sacanagem na internet com os phones tocando Led Zepellin no último volume. Willy se levanta e vai até o painel na parede. Com uma chave de fenda, ele despluga uns fios. È o sistema de detecção de fumaça. Willy volta para a cadeira e acende um baseado.
Continua a ver mulher pelada.
Willy tem uma brilhante idéia. Ele olha pra trás. A jovem amarrada veste apenas aquela roupinha de hospital. Willy levanta-se e vai até a parede de vidro que o separa da moça.
Eles se entreolham de um modo sacana. Ela sorri pra ele. Willy tira do bolso o cartão de liberação de acesso. O sorriso tímido da moça se transforma em um belo sorriso.

No pub o casal de colegas continua suas alfinetadas e indiretas agressivas. É um climão chato. Dois dos pesquisadores resolvem ir para casa.

Vemos no interior da cela, Willy agarrado à mocinha fazendo sexo de modo selvagem. ao primeiro plano fora da vista dele estão os varios computadores rodando simulações tridimensionais da nova molécula e fazendo varreduras genéticas.
Vemos então o final da análise do simulador. Os relatórios são impressos em graficos coloridos. Subitamente uma barra vermelha percorre toda a tela. As canetas oscilam vigrosanmente como um terremoto. Na tela surge uma mensagem de erro. “INSTABILIDADE IDENTIFICADA” “Abortar procedimento.” Vemos uma imagem ruim vinda da câmera de segurança da jaula onde babuíno dócilizado pela droga, agora reunido com os demais, sofre um surto agressivo. Ele mata todos os babuínos da cela. E bate a cabeça nas grades tentando alcançar os macacos da jaula vizinha até que estoura os próprios miolos.

A pesquisadora Dra. Martina Jones descobre que esqueceu a carteira no laboratório. Ela tenta ligar para Willy, mas o telefone toca e ninguém atende.
Vemos o telefone tocar insistentemente até que uma mão feminina cheia de sangue tira o aparelho do gancho.
Ela acha aquilo estranho. Hugh diz que deve ser o temporal, mas Martina está decidida a voltar ao laboratório.
Dr. Hugh se oferece para levá-la até o escritório. Ela estranha a atitude, mas ele revela que tem medo que ela divulgue a pesquisa sem citar o nome dele. Ambos discutem. Eles estão entrando no presídio. Uma gigantesca construção erguida no interior de uma gigantesca cratera no meio do deserto. São paredes de aço e portas pesadas. Na entrada, eles identificam as digitais. Caminham pelos corredores mal iluminados até a unidade de pesquisa.

Ao chegarem no interior da unidade, encontram a porta de acesso aberta. Eles se entreolham.
Vão até a sala dos guardas no fim do corredor. Não há ninguém. As chaves de acesso às áreas restritas sumiram.
Hugh corre até a sala de controle e encontra o corpo de Willy todo comido. Os intestinos espalhados pela sala branca. As pegadas de um pé tamanho 35 saem dali e descem pelo corredor. Martina pega as leituras do computador. Ela está desesperada. Uma mão toca o ombro dela. Ela se assusta. Dá um grito. É Hugh fazendo sinal para ela fazer silêncio. Ele aponta para a tela de segurança. Os babuínos estão mortos. Martina aponta os resultados da simulação. Ambos se entreolham preocupados.

Lá fora a tempestade piora. Raios cortam o céu. As luzes começam a oscilar.
Hugh tenta telefonar de celular, sem sucesso. Não há sinal.
Martina tenta passar o cartão de segurança para trancar o acesso, mas o computador recusa. Ela olha e vê que o painel de controle foi aberto e os fios estão arrancados.

Hugh aponta para a tela de segurança. Vemos que a maluca está comendo um dos guardas num canto. Hugh maneja a câmera. Na sala da segurança, dois níveis abaixo, a moça, nua, cstá comendo um gguarda pelo pescoço. Ela nota a câmera girar com a luzinha acesa e apontar pra ela.
Na tela Hug e Marrtina contemplam com horror a cena. Ela parece um animal. Levanta-se olha para os lados. Vê a câmera. Ela se aproxima da cmâmera olha bem dentro da objetiva. Parece que está vendo Hugh e Martina.
Eles sentem medo. Ela morde a câmera e o sinal passa a transmitir apenas ruídos.
Hugh faz sinal para Martina e eles saem da sala de pesquisas.
Vão até as escadas. Sobem um nível. No meio das escadas eles ouvem os gemidos vindo do andar abaixo. É ela.
Eles andam apressados. Vão para a sala de segurança nivel quatro. Ali, numa cabine fechada, com grades está um guarda gordo. Ele vê futebol num velho monitor e come um sanduíche.
Hugh e Martina batem na janela. O guarda se assuta. Ela abre a sala. Hugh e martina explicam o que está acontecendo.
O guarda pega o monitor e digita uns códigos. Ouve-se um sirene. ” Alerta de segurança” Toda a unidade deve ser evacuada. Alerta de segurança. Vemos várias portas de acesso sendo travadas. Na entrada principal uma gigantesca porta de concreto sobe do chão. O prédio gigante afunda em um grande buraco.
O guarda está tranqüilo. Ele diz que agora o prédio está isolado. Ninguém entra ou sai da unidade até que o código de acesso seja novamente ativado. E que só com o cartão de segurança é possível passar de uma unidade para outra.
Martina se pergunta se é mesmo seguro.
No monitor de segurança atrás deles vemos a moça abrir com o cartão de Willy cada uma das celas. Milhares de malucos saem correndo.
Martina percebe o movimento e grita apontando o monitor. Todos se assutam. O guarda se desespera.
Ele diz que não sabia que um dos presos tinha um dos cartões de acesso.
Na tela, a moça está abrindo as celas e liberando as portas. Malucos correm para todos os lados. Uns brigam entre si. É um caos. Pessoas estouram a cabeça das outras com cadeiras. A turba enfurecida corre pelas escadas.

O guarda gordinho, Hugh e Martina tem que correr pelos infinitos e escuros corredores da penitenciária em busca de salvar a própria vida. É um lugar infestado dos mais perigosos malucos assassinos canibais. A única chance dos dois é conseguir escapar de uma unidade de segurança máxima projetada para que a fuga seja completamente impossível.

[Opa, estou retomando a história. Vamos à continuação...]

Hugh e Martina correm desesperados, acompanhados do guarda gordinho conhecido apenas por senhor Smith.
O Senhor Smith explica que eles precisam alcançar a parte mais alta da penitenciária. O Nivel K.
O Nivel K é onde está o centro nervoso de toda estrutura, um super computador.
Enquanto correm o senhor Smith explica a natureza do prédio.
Trata-se de uma estrutura de paredes triplas de concreto, capaz de aguentar uma hecatombe nuclear. O prédio foi desenvolvido inicialmente para abrir uma base de operações militares, quando a guerra entre os Estados Unidos e a Coréia Saudita foi deflagrada no ano de 2018. Quando a coréia saudita foi esmagada pelas armas de destruição em massa norte-americanas, o prédio estava em sua fase final de construção e o governo adaptou as instalações para transformar a estrutura em um presídio de segurança máxima. O problema da doença surgiu com pequenos casos em 2022 e rapidamente se espalhou pelo país. O rastro de morte começou a ficar incontrolável e a única solução foi exterminar os doentes. O extermínio dos assassinos canibais tornou-se a única alternativa para lidar com o caos, até que o governo preocupado com a situação e pressionado pela sociedade civil e sobretudo pelos eleitores, optou por direcionar uma força especial de segurança para capturar e conduzir os doentes para esta unidade. Eles foram mantidos em regime fechado de isolamento completo até que uma cura para a doença fosse descoberta.
Como o prédio foi criado para conter uma guerra nuclear, ao ser ativada a chave de emergência, poderosos macacos hidráulicos descem toda a estrutura para o interior da cratera. A maciça estrutura é enterrada e desaparece na paisagem, prendendo todos em seu interior. Este sistema foi adaptado quando o prédio virou um presídio, porque com o enterramento do edifício, as fugas e rebeliões tornariam-se impossíveis.

Os três chegam no sexto andar. A porta está trancada. Nenhum cartão é aceito pela leitora e o sistema de reconhecimento de digitais recusa o acesso do grupo.
Hugh estranha aquele grau de segurança. Ele diz a Martina que nunca teve acesso além do sexto andar, porque ali funcionava um escritório de pesquisas biológicas governamentais. Porém o laboratório foi desativado dois anos antes da pesquisa do gene de cura da doença ser iniciado.
O senhor Smith está desesperado. Ele entra em um estado de histeria. Começa a bater na porta, tentando derrubá-la. Ele está em pânico. Grita insistente que “todos vão morrer”.
Martina preocupa-se com o comportamento de Smith.
Hugh agarra o gordinho pelo pescoço e dá uns dois tabefes na cara dele. O senhor Smith volta à razão.
Hugh começa a interrogá-lo.
Smith não tem outra saída senão explicar que o sistema de emergência máximo uma vez desencadeado além de afundar a estrutura carrega uma série de protocolos de segurança pensados para conter uma rebelião.
Martina está visívelmente preocupada. Os gritos já começam a ecoar nos andares mais baixos das escadas.
Martina interpela Hugh e diz que os loucos canibais estão subindo.

O senhor Smith continua a contar. A penitenciária, como ela é chamada, começará a ativar um a um os protocolos de segurança. O primeiro deles é travar os acessos de entrada e saída do prédio. E isso inclui dutos e tubulações.
A água é cortada. Em duas horas a energia elétrica será cortada. Se os códigos de restauro do sistema não forem corretamente digitados, o computador central do nivel K irá presumir que a rebelião tornou-se incontrolável e o protocolo de emergência total será ativado.
Este protocolo irá cortar o suprimento de oxigênio. O prédio ficará enterrado por dois dias, Um gás venenoso será liberado no interior do prédio aniquilando toda e qualquer forma de vida. Então quando todos estiverem mortos filtros especiais entrarão em ação retirando o gás e purificando a unidade. O gás será sugado gerando um vácuo. Este vácuo visa eliminar potenciais doenças e contaminações bioquímicas. Neste período, o prédio ficará totalmente isolado do mundo. Uma vez iniciado o procedimento de emergência máximo, a penitenciária não pode ser detida. Ela entra nos procedimentos independentemente do acesso externo. E como já foi explicado, a estrutura foi feita para suportar várias bombas nucleares.

Neste momento a luz se apaga. A escuridão toma conta da unidade.
O senhor Smith pega uma pequena lanterninha de bolso. Ele ilumina o próprio rosto.
Todos se perguntam se a luz caiu devido à tempestade ou se teria sido uma ação dos malucos.
Smith olha no relógio e não acredita. Ele diz que o desligamento não poderia ser parte do protocolo, porque não havia decorrido tempo suficiente. A menos que…
Hugh exige saber o que mais Smith sabe.
Smith apenas diz que não tem certeza, mas supõe que exista alguém dentro das áreas superiores que teria alterado o sistema do computador para que os ciclos de emergência fossem mais rápidos.

Hugh chega a conclusão que é o fim da linha.
Martina estranha que a chave de acesso do chefe da segurança não tenha efeito sobre as portas.
O senhor Smith explica que uma vez ouviu falar que havia um segundo chefe da segurança. Os níveis de segurança são tão rígidos acima do sexto andar que ele nunca viu esta pessoa. Apenas ouviu falar dele. Os mais antigos chamavam este cara de “o zelador”.

O barulho da turba enfurecida começa a aumentar. Os três chegam a conclusão de que a mulher está abrindo as áreas restritas com o cartão de Willy. Eles querem sair.
Smith diz que não há saída. Eles estão presos. Os malucos, milhares deles, estão subindo as escadas vindo na mesma direção. Será uma questão de tempo para que eles sejam mortos.
Martina tenta novamente o celular. Não há sinal. Smith explica que bloqueadores instalados em todo o prédio impedem o sinal em diferentes frequencias quando a emergência é iniciada.
Smith aponta a lanterna para o próprio rosto. Ele teve uma idéia.

Eles resolvem descer um nível, indo em direção aos malucos canibais e tentar chegar na unidade médica, onde há uma sala de quarentena biológica. Usando os códigos da Dra. Martina eles poderiam iniciar um protocolo de contaminação viral e assim a sala de quarentena seria fechada herméticamente durante quarenta dias, o que impediria os malucos de entrar. Além disso, com a quarentena ativa, o sistema de emergência máximo não teria como liberar o gás mortal nem fazer o vácuo. Ao descerem correndo as escadas, eles chegam ao nível médico quase junto com os primeiros malucos.
Smith dispara tiros contra os canibais. Estoura a cabeça de um e derruba outro.
Hugh e Martina correm desesperados tentando alcançar o final de um longo corredor. Smith tenta dar cobertura.
Ele resiste o quanto pode, atirando nos maníacos canibais. As balas acabam e Smith saca uma tonfa do cinto. Atinge dois maníacos com golpes de tonfa, mas são muitos e a turba enfurecida salta sobre ele com dentes arreganhados. A carnificina grotesca começa. Smith é morto a dentadas.

Martina entra na sala de quarentena. Hugh improvisa uma barricada com duas macas atrás da porta de madeira que dá acesso a área de toxinas biológicas. Ele acha que isso deterá os malucos por alguns instantes.
Hugh digita alguma coisa nos computadores. Uma luz ultravioleta inunda a sala completamente esterilizada no final do corredor. A voz metálica e impessoal do computador soa pelas caixas de som: ” Protocolo de quarentena biológica ativado. Atenção, a sala da quarentena será pressurizada em dez segundos. 10… 9… 8… “
Os malucos estão se chocando contra as portas. Eles batem violentamente nas grades. As macas estão cedendo. A porta começa a rachar. O computador continua a contagem.
“5… 4… 3..”
A porta cede. Uma onda de malucos grotescos deformados entra no corredor e correm em direção aos dois. Hugh termina de digitar no computador e puxa o fio. A tela apaga. Ele corre para a sala ao lado e salta. A mão de um dos malucos quase consegue agarrá-lo. Por um triz ele entra na sala e uma forte porta de vidro blindado desce do teto. Os malucos se aglomeram na porta de vidro. Hugh está caído no chão sobre Martina. Eles se olham. Olham para a porta.
Os malucos batem com força no vidro. Em seguida uma porta de aço grossa corre lateralmente e esmaga dois malucos estourando os miolos entre a porta de vidro blindada e a de aço.
Martina grita de medo.
Na sala tudo é roxo. As luzes ultravioleta inundam o ambiente. Hugh levanta-se e vai até um pequeno painel na parede. Ele olha as leituras.
Hugh diz a Martina que o sistema está pressurizando a sala.
Ela pergunta a Hugh o que ele estava fazendo no computador da sala do chefe da emergência biológica. Hugh explica que precisou transferir os controles da sala do chegfe da emergência para a parte interna da sala de contaminação, dessa maneira eles talvez tenham alguma chance.

Martina e Hugh ficam se olhando durante algum tempo. Começa a pintar um clima.
Hugh se aproxima lentamente. Ele olha nos olhos de Martina. Ela está sem ar. Parece que ele vai beijá-la. Martina fecha os olhos esperando pelo beijo. Hugh chega perto e diz no ouvido de Martina que é para ela disfarçar e observar que havia uma câmera dentro do compartimento que estava se movendo e apontando pra eles.
Martina percebe que está dando na pinta e resolve mudar de assunto. Ela está irritada. Desconcertada.
Ela olha para a câmera e a luz da mesma se apaga. Eles chegam a conclusão que estavam sendo espionados. Hugh vai até a câmera e usando um copo de metal desfere alguns golpes nela, inutilizando-a. Ambos sentam no chão frio da sala de quarentena. Começam a desconfiar do tal “zelador”. O homem no nível seis já está ciente do caos. Ela levanta uma possibilidade de foi ele que, por algum motivo, alterou os procedimentos emergenciais. Eles começam a desconfiar de que o zelador esteja querendo matar a todos.

Hugh pega o computador e começa a digitar. Ele diz a Martina que alguém está fechando as portas de acesso ao computador central. Martina pergunta se Hugh sabe invadir o sistema. Hugh diz que essa coisa de hacker que invade qualquer coisa é palhaçada de filme. Ele não faz a menor idéia de como acessar.
O sistema é então totalmente bloqueado. Há uma chave de trinta e seis dígitos sendo exigida para acessar o terminal.

Martina e Hugh começam a ficar desesperados novamente. Eles se tocam que se o zelador quer matar a todos, ele poderá alterar os procedimentos da quarentena e abrir as portas.
Hugh e Martina tentam varias senhas, frases, nomes, mas não tem sucesso. Eles começam a discutir.
Voltam às turras.
Hugh começa a culpar Martina e aquela carteira estúpida por toda aquela situação. Martina culpa Hugh e seu péssimo trabalho com a proteína pelo caos.
Hugh esculhamba Martina. Ela fica furiosa e arremessa um becker metálico na direção dele. Hugh abaixa-se e o becker atinge o teclado, derrubando-o da pequena pratelira na parede.
Atrás do teclado está um esparadrapo com uma palavra escrita à caneta. É uma palavra estranha. “dimetiladimeditildilafenilpirazolona”.
Martina corre até o computador e digita a palavra. O sistema aceita.
Eles comemoram. Se abraçam. Hugh beija Martina pela primeira vez.
Ela fica encabulada.
Se desculpam meio sem graça e colocam a culpa na emoção.
Hugh assume o computador e começa a vasculhar os dados da segurança.
Varias pastas estão bloqueadas.
Algumas estão pedindo senhas de 36 dígitos. Martina sugere que eles tentem a mesma senha, afinal, guardar duas senhas de tantos dígitos é quase impossível.
Hugh entra com “dimetiladimeditildilafenilpirazolona” O sistema recusa.
Eles se entreolham. Aparentemente a pessoa que criou esta senha conseguia guardar palavras bem complicadas.
Eles começam a pensar sobre a palavra. Martina é neurobióloga e Hugh um ganhador do prêmio Nobel de neuroquímica quântica.
Eles discutem sobre as bases químicas do di-metila. Começam a pensar nas cadeias de meditildilafenil.
Depois de alghum tempo e umas contas feitas com o batom de Martina nas paredes de aço, eles encontram uma fórmula. Contando as cadeias, chegam à conclusão que a senha seria bimetafenildimetilnossulfonatosódico.
Eles tentam e descobrem que esta é a senha.
Aparentemente, a pessoa que usava aquela máquina, o chefe da contaminação, tinha algum envolvimento direto com o zelador.
Nas pastas protegidas estão dados da pesquisa e documentos com chancela militar.
Os cientistas ficam atônitos ao descobrir que alguém espionava a pesquisa deles. Numa das pastas está um diário. Eles começam a ler e descobrem que estão sendo manipulados a desenvolver não exatamente uma cura, mas sim uma doença.
Preocupados, eles descobrem que alguém nos altos escalões do ministério da defesa e guerra quer adaptar a estranha doença para uma arma letal. Ao isolarem uma cura transgênica, os dois criaram a peça que faltava no quebra-cabeça dos militares. Agora eles eram dispensáveis.
Martina pede a Hugh que acesse os protocolos de segurança para ver a situação da penitenciária.
Hugh digita mais uma vez o primeiro código e acessa os dados do computador central da área K.
Lá estão as contagens regressivas para a entrada no protocolo máximo de segurança. O prédio está sem luz. As portas dos níveis inferiores estão sendo gradativamente trancadas. O prédio já afundou em sua sepultura de pedra escavada na rocha fria do deserto. Não há comunicação com o meio exterior. A água e o ar externo estão bloqueados. Faltam poucas horas para a liberação do gás venenoso.
Hugh descobre que o zelador alterou os parâmetros da sala de quarentena. O computador está contando o tempo muito mais rápido. Ele está passando um dia a cada meia hora.
Martina faz as contas e chega a terrível conclusão de que em 18 horas as portas se abrirão automáticamente. O prédio estará contaminado pelo gás venenoso e eles morrerão.
Hugh tenta modificar os parâmetros mas não há acesso. O zelador alterou o sistema de segurança para que só do sexto nível em diante seja possível acessar o computador central no nível K.
Hugh e Martina concluem que precisam subir de volta até o sexto nível e passar pela porta bloqueada de alguma maneira. Ou então morrerão. Mas para isso eles precisam sair da sala da quarentena e enfrentar os malucos. Precisam também descobrir como destravar aquela porta no sexto nível.
Hugh pensa por alguns instantes.
Martina surge com uma idéia. Eles podem tentar localizar o cartão de acesso do chefe da contaminação biológica. A julgar pelas evidências no computador, ele sabia o tempo todo da espionagem governamental na pesquisa dos dois, e portanto, devia ter livre acesso às áreas restritas do prédio.
Martina e Hugh bolam um plano para passarem desapercebidos pelos malucos do corredor.
Usando o computador, através das câmeras de segurança, Hugh descobre que só há dois malucos cambaleando pelo saguão da área médica. Os doidos canibais se espalharam pelo prédio. Na porta de aço que protege a área de quarentena, estão os corpos esmagados de dois malucos.
Maryttina fica vigiando os doidos que cambaleiam. Quando eles chegam no final do corredor, ela faz o sinal.
Eles não podem perder tempo. Hugh aciona o comando que despressuriza a sala da quarentena. A luz ultravioleta se apaga. As portas se abrem. Martina salta pelo corredor da sala de quarentena para a sala do chefe da contaminação biológica. Um dos malucos do corredor perecebe o movimento e vem correndo. Martina está abrindo as gavetas mexendo nos papéis em busca do cartão. Ela não encontra. Um maluco salta sobre ela com os dentes arreganhados. MAtitna luca com o louco. Ele baba em frenesi. Mas é atingido na cabeça pelo extintor de incendio. O maluco cai de lado e uma nova pancada muito mais forte esfacela a cabeça do canibal. Martina fica em choque. Hugh está escondido atrás da porta para liquidar os canibais.
Ele aponta para um armário. Está trancado. Martina lembra de ter visto uma pequena chave na gaveta. Ela pega a chave e abre o armário. Ali está o cartão.
Hugh olha pela quina da porta. O maluco no final do corredor está parado, batendo a cabeça na parede, tentando morder o próprio reflexo no espelho.
Hugo lentamente puxa o corpo esmagado de um dos malucos pela perna. Ele arrasta o cadáver para a sala do chefe da segurança biológica.
Tranca a porta. Ele faz sinal para que Martina retire o macacão laranja do maluco e vista. Martina pega o corpo esmagado com nojo e veste o macacão. Dá duas dela ali dentro, mas mesmo assim ela veste. É um macacão todo sujo e ensangüentado. O de Hugh tem pedaços do cérebro do antigo dono recobrindo ele. Ele diz que eles tem que ir andando como os malucos, cambaleando até o sexto nível, onde poderão usar o cartão para acessar a área restrita. Mas primeiro precisam fazer um sacrifício. O sacrifício é embeber as mãos de sangue nos corpos esmigalhados do chão e passar no rosto e cabelos, de modo que fiquem irreconhecíveis. Martina tem um mini-pití de nojo, mas aceita fazer isso para não morrer.

Hugh e Martina saem cambaleando. Estão cobertos de sangue e vísceras. Totalmente irreconhecíveis. Parecem zumbis.
Eles passam com medo perto do maluco que morde o espelho. A criatura para e olha pra eles.
Começa a se aproximar de Martina. Ela fica parada.
O maluco chega bem perto dela, e começa a cheirar. Ela fica paradinha. Os olhos fechados. O maluco cheirando na orelha dela.
Hugh cerra o punho preparado para atacar o doido, mas então o maluco vira-se, voltando-se para o espelho recomeça a morder a própria imagem.
Hugh e Martina passam cambaelando. Chegam no saguão onde está os pedaços remanescentes do senhor Smith.
Duas criancinhas estão comendo os intestinos dele.
Martina vê a lanterna e a tonfa. Hugh acena positivamente com a cabeça. Martina olha para os lados e lentamente se aproxima para pegar a lanterna.
Uma das crianças vê e salta sobre ela.
Hugh corre e mete um bico na criancinha. Ela quebra o pescoço. A outra criança aponta pra eles emitindo um grito pavoroso.
Em outros nivel mais abaixo, vários malucos vão e vem. Alguns arrastando corpos e membros amputados. O olhar perdido, com zumbis. Eles ouvem o grito. Começam a correr para as escadas.
Martina pega a tonfa e mete uma paulada na cara da criança. Os ossos esmigalham afundando o crânio. O corpo do guri desfalece.
O maluco do espelho vem correndo. Os dentes arreganhados. A boca sanguinolenta. Hugh e Martina correm pelas escadas para o andar superior. As criaturas vem correndo atrás.
Eles estão sendo perseguidos pelas escadas. Com a lanterna, Martina ilumina o vão das escadas. Várias mãos, algumas com dedos faltando vão subindo.
Eles correm escada acima.
Chegam na porta.
Hugh passa o cartão.
Nada acontece. Ele tenta novamente.
mais uma vez nada acontece.
Os gritos e gemidos guturais vão ficando mais fortes. Os canibais estão cada vez mais perto.
Martina pega o cartão esfrega na roupa tenta limpar o sangue da taja magnética e passa na leitora.
Um barulho acontece. Um barulho de tranca. a porta grossa se abre. parece a porta de um cofre.
Eles entram pela porta adentro para uma área escura. Do outro lado dezenas de maníacos se aglomeram berrando e gritando. eles tentam segurar a porta. Hugh e Martina puxam vigorosamente. A porta vai e vem. Os malucos são muito fortes. Hugh grita para martina fazer alguma coisa.
Ela pega a lanterna e olha em volta. Na parede, tem um machado de emergência.
Ela mete o pé na portinha de vidro e pega o machado.
Os braços vão aumentando na greta. Hugh usa todas as suas forças para impedir a entrada dos malucos canibais.
Martina pega o machado e começa a desferir machadadas, contanaod os braços. esguichos de sangue jorram a cada machadada. Varios braços são amputados e a porta finalmente bate e tranca.
Hugh cai no chão exausto. Do outro lado eles podem ver os estampidos secos de todos os socos e gritos das criaturas ecoando.
Martina abraça Hugh. Eles se beijam novamente.
Click.
Um barulho e uma arma está apontada para a cabeça deles.
É um velho careca. A cara enrugada. Ele veste um avental. Usa um par de óculos nenebrosamente antigos e circulares. Assemelha-se a um médico nazista.
O velho sorri de modo malicioso.
Hugh pergunta se ele é o zelador. O velho apenas concorda com a cabeça.
Ele afasta-se apontando a arma. Faz sinal para que Martina saia de perto do machado.
Chega até um painel na parede e aciona uns comandos.
A luz se acende. É um grande salão com maquinas de todos os tipos. Ao fundo um grande tanque escuro.
Hugh começa a fazer perguntas.
O velho não responde. Ele está em silêncio. Apontando a arma. Um sorriso maníaco no rosto.
Hugh para de perguntar e começa a afirmar. Ele diz que o velho trabalha para os militares e que está desenvolvendo uma arma biológica para guerra.
O velho se irrita. Ele atira em Hugh. Mas erra.
Martina grita de susto. O velho aponta a arma pra ela.
Diz ao Hugh que se ele continuar falando demais irá matar a moça.
Hugh aceita e fica em silêncio. O velho manda os dois irem para o canto. Ambos obedecem.
Hugh observa um monte de fios e tubos indo até o grande tanque escuro.
Súbitamente, alguma coisa se move na escuridão do líquido.
Hugh e Martina trocam olhares estupefatos.
O velho percebe o interesse deles. Sorri e aciona uns botões. Uma luz esverdeada acende dentro do tanque. Há uma criatura enorme ali dentro.
Hug está completamente sem ação. O velho então explica que a doença é apenas uma parte da grande revolução que ele está desenvolvendo para o governo. O velho aponta para umas antigas fotografias coladas na parede. É uma família. Um homem, uma mulher e duas crianças.
Ele diz que é sua família. Todos morreram na guerra contra a Coréia Saudita.O velho vai ficando cada vez mais irritado.
A partir de então ele jurou construir uma arma para aniquilar todos os inimigos de seu país.
Martina interrompe e diz que o velho é um louco.
O velho sorri e aponta a criatura. É um homem gigante, super forte. Parece até o incrível Hulk.

O velho diz que aquela será a desgraça dos inimigos da américa. Ele pretende fabricar várias daquelas criaturas usando a doença dos maníacos assassinos.

[continua daqui a pouco. Vou almoçar. ]
[continuando]

Hugh diz a Martina que aquele homem era o espião. O velho cientista concorda. Ele diz que trabalha na busca pelo super soldado, uma criatura com os genes modificados e musculatura hípertrofiada. Só que a manipulação dos genes gerou problemas genéticos inesperados, como a doença do ódio e o canibalismo desenfreado. Inicialmente, o projeto era feito com crianças, mas devido a um vazamento nas amostras, a doença se espalhou. O governo tentou como pode ocultar a origem da doença.
A pesquisa do super soldado estava parada porque o gene não conseguia estabilizar-se. eles criavam o soldado gigante mas ele ficava incontrolável. Assim, o velho recebeu ordens do governo para espionar a pesquisa que buscava a cura e desenvolver novos genes usando informações obtidas na pesquisa dos dois. Quando o remédio provou finalmente conseguiu manter a estabilidade mental dos contaminados, ainda que por uma pequena fração de tempo, ele concluiu que plano era perfeito.

Só que quando ele descobriu que o soro não estava estável já era tarde demais. Ele havia dado seqüencia ao despertar da criatura, que estava sendo mantida adormecida graças ao suprimento de uma dose potente de tranquilizante dissolvida em em um soro hiperbárico no qual o ser estava mergulhado.

Hugh faz perguntas. São perguntas técnicas complicadas envolvendo a estabilidade cromossomial dos genes que geraram aquele corpo gigante.
O velho se satisfaz explicando detalhes do procedimento que inventou.
Enquanto ele fala, Martina lentamente pega um estilete na mesa. O velho olha pra ela. Ela oculta o estilete a tempo.
O velho percebe no entanto, que ela escondeu alguma coisa. Ele vai até ela. A arma apontada na cabeça dela. O velho lentamente enfia a mão no bolso de Martina em busca do objeto. è um momento tenso. Hugh tem os olhos fixos no velho. os músculos retesados. Martina está suando de nervoso.
Ele tira o cartão de acesso. Com o estilete na outra mão, Martina desfere um corte no rosto do velho. Ele grita e vira-se. Martina toma o cartão da mão dele.
Hugh aproveita a chance e rapidamente passa uma banda no velho. Martina desvia a cabeça no momento exato em que ele atira e o velho dispara para o alto. A bala ricocheteia numa placa metálica e acerta o tanque no fundo da sala. A substância malcheirosa começa a escapar, derramando-se pelo chão. O tanque começa a esvaziar enquanto os três lutam pela arma. O velho alcança a arma, mas é atingido por uma cadeirada de Martina. A arma torna a cair no chão. Hugh e o velho cientista começam a trocar socos.
Martina tenta intervir. Ela pega a arma no chão e aponta para os dois.
Enquanto isso, no interior do tanque a enorme criatura abre os olhos.
Um alarme dispara na sala.
O velho empalidece. Hugh percebe que há algo errado. Ambos olham na direção do tanque.
Numa explosão, a porta do tanque é destruída e a enorme criatura de três metros sai rugindo.
A luta recomeça. A criatura vem disparada na direção deles, jogando mesas e cadeiras para o alto. É um colosso muscular em completo frenesi de ódio. Martina aponta a arma e faz vários disparos contra o monstro. As balas perfuram o corpo dele, mas ele parece tomado de tamanha fúria que continua a avançar para cima dos três. Hugh salta de lado e escapa do soco da temível criatura. Martina corre e pula por cima de uma mesa.
Eles tentam alcançar a porta que está ao lado do tanque hiperbárico destruído pela criatura.
O monstro vem na direção do velho. O cientista se ergue anda lentamente para trás. A criatura abre a enorme boca. Estende as mãos para agarrá-lo. O velho enfia a mão no bolso e apanha um cartão preto. Ele estende o cartão até o sensor, sem tirar os olhos do monstro. Ao encostar o cartão no sensor, a porta se destranca. O monstro aperta a cabeça do velho contra a parede, esfacelando seu corpo como um graveto. A porta se abre e centenas de malucos invadem o laboratório. Eles pulam sobre o gigante. O monstro começa a lutar com aquele bando de malucos. Corpos voam pelos artes. Pessoas são quebradas ao meio. Mas são muitos loucos. Velhos, mulheres, crianças, gordos, magros. Todos em completa crise de ódio. Gritando e babando. Mordendo e saltando por cima do monstro gigante.
No final da sala, abaixados atrás de uma mesa convenientemente virada para encobrir sua presença estão Hugh e Martina.
Eles tentam abrir a porta usando o cartão. A porta se abre, revelando um lance de escadas.
Hugh diz que deve ser aquele o acesso ao nível superior. Eles se levantam bem a tempo de ver que os maníacos canibais descontrolados empilhados sobre o corpo morto do gigante descobrem a presença deles. Vários dos malucos gritam aquele berro horrível apontando para eles. Mais e mais malucos entram na sala pela outra porta. A multidão de seres sem pele e com pedaços de corpos na boca corre na direção deles. Alguns correm de quatro, como animais.
Martina e Hugh tentam fechar a porta, mas novamente aquele monte de braços começa a lutar, segurando a mesma, impedindo-os de fechá-la. Hugh e Martina preparam-se para correr. Eles contam até três e disparam a subir pelas escadas. A porta se abre e a turba enfurecida vem atrás gritando.

Eles sobem o mais rápido que podem pelas escadas. São vários andares. Martina tropeça.
Hugh pega ela pelo braço e puxa.
Eles tornam a correr escada acima.
Chegam a uma porta amarela. Martina passa novamente o cartão. A porta se abre. Eles entram e a porta se fecha bem a tempo deles verem os malucos chegando a um centímetro da porta. Hugh corre até um console preto no meio da sala. O console tem uma tampa de vidro e uma pequena tela. A tela mostra a contagem regressiva para iniciar o procedimento de aniquilação. ” 8… 7… 6… 5… Hugh quebra a caixa de vidro e ali está um botão vermelho. Ele olha para Martina.
Ela pergunta se ele deve mesmo apertá-lo. Eles apenas olham um para o outro.
4.. 3… 2…

É dia. Helicópteros passam voando e agora vemos vários carros de bombeiroe caminhos do exército com símbolos de biohazard. Soldados vestindo trajes amarelos e contadores radioativos correm de um lado para o outro. Na frente do monte de carros de bombeiro, ambulâncias e helicópteros, está terminando de subir das profundezas do solo a gigantesca estrutura.
Há um enorme silêncio quando o prédio inteiro chega finalmente ao nível do chão.
Em dezenas de barricadas soldados do exército apontam seus rifles.
Metralhadores estão preparadas em trincheiras apontadas para a gigantesca porta de aço.
Há apenas um enorme silencio. A tensão toma conta do ambiente.
Os soldados apontam suas armas. Atiradores de elite posicionados em cima de pick ups pretas mascam chiclete.

Há apenas o som do vento.
Um estalo ecoa no deserto. Lentamente a pesada porta de aço é recolhida para baixo.
Todos estão tensos. O atirador de elite acaricia o gatilho com a ponta dos dedos.
A porta de aço entra para o chão e revela outra porta. A porta de entrada normal. Uma luz vermelha se acende sobre ela. A porta se abre. Ali estão Hugh e Martina. Abraçados. Estão cansados e sujos. Eles cambaleiam para fora do enorme prédio. Os paramédicos e bombeiros correm para socorrê-los.

A câmera se afasta. Sobem os créditos finais.

FIM

Enquanto os créditos finais sobem, vemos num box lateral a cena dos soldados da Swat vestindo aquelas roupas de contaminação entrando com as metralhadores com aquelas lanternas nas salas. Um dos soldados anda pelo corredor. No teto ele ilumina com a lanterna do rifle. ” àrea de contaminação. Acesso restrito” O soldado avança pelo meio dos corpos e pedaços humanos no corredor. O soldado ouve um barulho de gás no fim do corredor. Ele pega o rádio e informa que vai investigar o setor dois. Vira-se para dois outros que estão perto e faz sinal para que eles cubram outro lado. Os soldados se espalham.
Então ele chega perto de uma sala de vidro iluminada por uma luz roxa. Ele tenta iluminar com a lanterna o que há ali dentro. A sala está meio enevoada. O soldado vê a placa. “Sala de descontaminação”.
Ele vai iluminando pelo chão e vemos um pé. Um pé feminino tamanho 35. Lentamente, o soldado vai passando a lanterna e vemos o corpo sensualmente despido de uma mulher. Ela levanta a cabeça e sorri para o soldado. O soldado leva um susto. É a maníaca do início. Ela sorri de maneira sacana. O soldado começa a olhar de modo também sacana.
O soldado olha para os lados. Não há ninguém. A porta se abre e ele entra.
A cena se fecha em fade in e só ouvimos um grito.
FIM

Minha aventura no assalto (combo)

Eu voltava da escola e estava num ônibus.
Engraçado como num lotação, os lugares com janela são os primeiros a acabar. Eu entrei e ali estava um belo lugar na janela. Quando vi, sentou um sujeito mal-encarado do meu lado.
Imediatamente o meu “sentido aranha” começou a apitar alerta vermelho.
Eu estava acuado no canto da parede. O cara já sentado ao meu lado limitava meu acesso ao corredor.
Eu comecei a me sentir como um antílope africano meio bolado, vendo algo amarelo rastejando atrás de uma moita próxima. O problema dos antílopes é que els só correm quando tem certeza absoluta de que estão fodidos. É estranho dizer isso, mas nós, os humanos, os metidos da cadeia alimentar, aqueles que julgam terem sido feitos “a imagem e semelhança de Deus” tem EXATAMENTE o comportamento do mais besta e retardado antílope do Serengetti.

O sujeito não tirava aquele olhão comprido de cima do meu relógio e eu comecei a ficar bolado.
Algo dentro do meu ser me dizia:
- Você vai ser assaltado, seu burro. Fuja!
Eu relutei. Pensei: Será que não estou sendo preconceituoso? Será que o cara não é apenas um cidadão de bem que não teve condições de se vestir direito, fazer a barba direito? E essa cicatriz medonha no meio da cara dele? Será que não foi um acidente de trabalho? Um acidente quando ele era criança?
Será que estou com preconceito pelo fato do cara ter uma cara de ladrão?

O próprio sujeito estranho interrompeu meus pensamentos com a frase que parecia dizer tudo:

- Que horas são, playboy?

- Senti um calafrio. A voz dentro da minha cabeça berrava sem parar que eu iria ser assaltado. Antes de respondê-lo, numa fração de segundos meu cérebro começou a maquinar a razão daquela pergunta. Comecei a pensar… A aquela devia ser uma pergunta retórica do bandido.

Veja a que ponto chegamos. Bandidos requintados ao ponto de gerar perguntas retóricas para que suas vítimas dessem uma última olhada no bem antes de vê-lo trocar, assim deliberadamente, de mãos.

O hiato que se seguiu à pergunta do “Escadinha” já estava ficando incômodo. Eu tinha que dizer alguma coisa.

- São cinco e dez. – Eu disse apressado. E levantei de imediato, me antecipando ao provável bote. Fingi ver um parente na rua e gritei pela janela do ônibus:
- Marquinho! Me espera!
Eu sei lá quem diabos é o tal do “Marquinho”! Deve ser amigo do Harakiri.

Mas sei que eu levantei e saí atropelando o sujeito que não fez nenhum esforço em me deixar passar. Eu meio que pulei as pernas dele e ganhei o corredor.
Levantei e corri lá pra frente. Desci do ônibus com a sensação de alívio e prazer que só um antílope que escapa das garras dos guepardos se dá ao direito de sentir.

Continuei andando para casa. A descida prematura do busum me fez andar uma caminhada gigante a pé.
Eu fui tranqüilamente, me sentindo o ás da malandragem carioca.
E então comecei a pensar se o cara não era mesmo um trabalhador que só queria saber as horas. Que garantias eu tinha de que aquilo era um assalto?
Teria eu sido uma vítima de meu próprio preconceito racial-socio-cultural? O cara naturalmente sentiu que eu amarelei. Que eu fugi. E se ele não fosse um assaltante? Como deve ser uma merda sentir-se uma ameaça social. Comecei a sofrer por ter feito o pobre trabalhador sentir-se um bandido. Fiquei ali, andando e pensando, sobre os negros e a situação escrota do preconceito racial e social do Brasil.
Senti uma coisa espetando minhas costas. E pra meu espanto, a frase que ouvi no pé do ouvido me fez tremer de cagaço:

- Passa o relógio. – Disse a voz. Por um segundo eu vi um filme na minha cabeça. O cara ia mesmo me assaltar. Ele viu que eu tentei fugir e abortou o assalto. Resolveu recuperar o elemento surpresa e desceu um ponto depois. Distraído eu nem vi que ele resolveu me pegar pelas costas.

Quando olhei para trás, de rabo de olho, vi que não era o tal cara. Era um outro. Bem mais novo. Mais novo do que eu. Mas também com a maior pinta de marginal que você pode imaginar. E o pior, estava armado.
As pessoas na rua passavam e fingiam não ver o que acontecia ali, em plena luz do dia.
O cara estava com um canivete.
Eu não tinha outra saída senão apelar mais uma vez para o “Efeito Gump”.
Efeito Gump é o que acontece comigo numa situação de forte estress emocional. Nestas situações bizarras, eu fico calmo e não raro, personifico os mais estranhos personagens. E neste dia, o cara deu o azar da vida dele. *Eu personifiquei o evangélico mais evangelista que você já viu. Nem o Edir Macêdo, Bispo Soares, Silas Malafaia se comparavam ao CAÔ que eu mandei no cara.
Foi uma coisa mais ou menos assim:

-Cê quer o relógio?
-Passa. Passa o relógio ou eu te furo.
-Calma. Não precisa roubar o relógio, meu irmão. eu te DOU o relógio de presente. Você quer?
- Quero. Dá aí. Dá aí.
- Então, Irmão… Sabe porque eu tenho este relógio?
- Dá logo porra.
- (fingindo não me intimidar com o canivete todo enferrujado) Eu era um ladrão.
- Tu era ladrão?
- Era. Eu era ladrão e um dia precisei sacar o “berro” e atirei num cara. Mas ele não morreu. Ele apontou a arma pra mim e…
- E o que?
- Atirou, porra. – disse eu dando aquele tapinha de amigo no braço do meliante. Ele abaixou o canivete.
- Porra ele atirou? E acertou?
- Acertou, irmão. Bem aqui ó. – Disse eu levantando a blusa e apontando um lugar qualquer onde não se via porra nenhuma, afinal, nunca levei tiro na vida. E continuei: – Tá vendo a cicatriz?
-Tô, tô… – Então a bala entrou aqui e saiu nas costas.
- Caralho.
- Pois é, irmão. E o pior não é isso.
- Tu foi pro hospital?
- Fui, mas o pior aconteceu depois.
- Aconteceu o quê?
- Meu irmão, eu vi uma luz. Era uma luz branca. Que surgiu assim, ó. Pá! Na minha frente. E então eu vi uma coisa. Não vou dizer que era santo, nem que era espírito. Mas apareceu uma forma ali na luz e eu senti que estava liberto. Que não era a hora de morrer.
Quando eu abri o olho, eu já tava num hospital. Pensei que tivesse morrido.
A enfermeira falou que tinha morrido mas voltei.
- Puta merda!
- Quando eu voltei, estava livre meu irmão. Eu olhei meu rosto no espelho e vi que Deus em pessoa tinha me libertado. Ele mandou eu voltar. E só depois que eu descobri o porque.
- Por que? – Todo curioso o moleque.
- Porque eu tinha que libertar as pessoas.
- Libertar?
- É, irmão. Quanta gente você conhece que tá na merda? Roubando, cheirando, fumando, matando? Uma porrada, né? Então. Esses.
- Tu é crente?
- Não.
- Ué. Não?
- Não. Deus não precisa dessas coisas de igreja, de culto, de bandinha, nem terno e nem Bíblia. Deus precisa sabe do quê?
- Hã?
- Do seu compromisso. Da sua alma. Não é santo, não é banda, não é construção que vai te dar isso. Conseguir isso é a coisa mais difícil. Mas não é impossível.
Veja você por exemplo. Tu já ia me assaltar. Ia pegar o relógio, né? Eu sei cara. Eu entendo. Você acha que resolveu roubar meu relógio atôa? Logo eu? No meio de tanta gente? Olha o tamanho da cidade. Olha em volta.
Você acha que isso acontece assim, do nada?
Irmão, você foi mandando pra falar comigo. O relógio, quem me mandou usar foi Deus. O relógio é só uma isca. Você veio. Se veio, é porque Deus quer ver você liberto.
Cê quer se libertar?
-… Quero. Acho que sim.
- Irmão, presta atenção. Isso que eu vou te falar é importante. Deus te dá a chance. Ele não muda você. Ele pode fazer isso. Ele fez isso comigo. Mas ele não quer impor sua mudança. Ele quer que VOCÊ (apontando no peito dele, bem no coração) mude. Ele quer que VOCÊ saia da vida que você entrou, mas saia com as suas pernas. Esta é a chance. Pode ser que não haja outra.
-… – O moleque bolado.
- Joga fora essa merda. – Eu disse. Agora num tom mais autoritário, como que revestido do poder de Deus.
E para meu espanto, o moleque jogou a porra do canivete no canteiro.
- Agora fecha os olhos. Fecha os olhos e concentra. Você vai fazer uma conexão. Uma ligação com Deus.
Sei lá o que me deu para falar aquilo, mas eu peguei no braço do cara. Ele ali, de olho fechado eu orei com ele. E quando eu vi eu já tava falando no ouvido dele.
- Aceita Jesus.
- Eu aceito.
-Aceita Jesus, porra!
- Eu aceito.
- Agora! ( eu dei um grito) Aceitaaaaa! – O moleque caiu de joelhos. Ele chorava.
Para meu mais absoluto espanto, eu havia convertido o meu primeiro fiel.
Conversamos um pouco sobre música, sobre esportes e ele foi embora, todo agradecido. Ele morava no bairro do Coelho em São Gonçalo.
Antes dele ir, eu falei que ele deveria entrar para uma igreja. Eu não ia dizer qual. Todas as igrejas são de Deus. Mas que Deus apontaria a igreja certa pra ele.
E fui embora.
Com o meu relógio.
Menos um bandido no mundo. *

Ok, ok. Eu admito. Tudo que está entre os * eu inventei. Não consegui me conter e a aventura real virou um conto.
O fato real é que o cara era mesmo mais novo que eu e realmente estava com um canivete enferrujado apontado pra mim.
Eu comecei a falar com ele que aquilo ia “dar merda” pro lado dele e tal. Falei que ele não sabia de quem eu era filho. Que ele ia se dar mal. Meio que num tom de ameaça no estilo “quem avisa amigo é”.
E ele amarelou. Foi só isso. Ele deve ter pensado que eu era filho de polícia ou pior, de bandido e desistiu do assalto. Eu acabei conversando com ele e ele me contou que era de São Gonçalo, do bairro Coelho (um bairro barra-pesada, ao que parece). Paguei uma coca-cola pro cara e batemos papo por algum tempo. Aquele era o segundo assalto dele.
Ele não me roubou e eu fui pra casa.
Mas a parte inventada é bem mais legal, né?
Gostei deste post combo aventura-conto. Parece até piada do Costinha, que no meio da piada ele contava outra.

Arnaldo, o homem que queria demais

Arnaldo, o homem que queria demais

Arnaldo era um velho professor de Geografia aposentado. Vivia sozinho. Bem, não exatamente sozinho, uma vez que estava sempre acompanhado de um gato, vulgo Mimi e um papagaio de estimação mudo, cujo nome ridículo era Bozó.
Tenho pena dos papagaios. Nomes ridículos sempre lhes caem bem. Ainda mais quando são mudos.
Arnaldo tinha uma bela biblioteca.
Na falta de uma mulher, um homem não deve deixar de possuir uma bela e vistosa biblioteca, com volumes clássicos e obscuros. Leitura amena, densa, e mesmo eventualmente, uma ou outra enciclopédia. E ali, espremida milimétricamente entre dois livros de Geologia pré-cambriana, uma revistinha de sacanagem.
Na escrivaninha, Arnaldo mantinha com extremo capricho uma velha máquina de escrever do princípio do século XX, onde escrevia seus poemas. Sim, Arnaldo era um poeta.
Poeta dos bons. Só lido por si mesmo.
Omisso, humilde, Arnaldo assinava Alfredo.
Quando um homem chega ao ponto de inventar um pseudônimo para si mesmo, ainda mais quando se é todo e absoluto público de suas próprias peças, ele é um solitário.
Por natureza o escritor é um só. Mesmo que na companhia dos outros, observa o mundo com os olhos de quem narra os fatos. Narra para si mesmo e com isso rouba de si parte da experiência vivida. Isso pode soar estranho, mas quem escreve, entenderá.
Arnaldo via o mundo com os melancólicos olhos da poesia. Mas secretamennte, desejava ser conhecido, embora o medo lhe impedisse de mostrar seus textos ao mundo.
Não era medo de não ser compreendido. No início até era. Porém, conforme o tempo varreu a vida de Arnaldo, ele acabou sozinho. Por dentro e por fora.
O medo maior era da certeza de se descobrir em meio ao inexorável fato de que agora ele era um solitário total.
Certas pessoas sofrem da falta de complacência da vida. Arnaldo era um deles.
Certa noite, acordou e ficou a olhar para o teto, pensando na vida. Resolveu se matar.
Eu nunca entendi porque Arnaldo decidiu dar cabo de sua própria vida apenas olhando para uma sanca no teto de um apartamento pequeno em Copacabana.
A vida é cheia de mistérios, mas o tempo se encarrega de revelá-los ou enterrá-los no esquecimento da eternidade.
Arnaldo pegou o jornal e arrumou cuidadosamente sobre a mesa da cozinha. Escreveu uma meia dúzia de versos metrificados, como convinha a uma solene decisão de colocar um ponto final na própria vida. Queimou seus escritos no banheiro. Todos. Menos o que deixou na máquina. Nele, Alfredo dedicou sua morte a um amigo desconhecido. O vizinho. Arnaldo queria ser um poeta famoso. Queria ter um apartamento novo. Queria sair com belas mulheres. Queria ser reconhecido pela sua arte. Queria ser imortalizado na poesia, e desejo supremo, na música.
Ele queria ser amigo de um sujeito do apartamento do lado. Era um outro velho, muito esperto, que quando não estava viajando cercado de mulheres lindas, estava cheio de birita na TV. O vizinho era um gênio. Também poeta. Porém, famoso.
Várias vezes Arnaldo desejou bater naquela porta escura do apartamento ao lado e mostrar os versos que escrevia. Mas não tinha peito para tal, visto que sentia-se muito aquém do vizinho. Arnaldo colocou um remédio na água de Mimi. Trancou as janelas, pegou Bozó na área e colocou delicadamente sobre a pia.
Caminhou pesadamente até o antiquado fogão e ligou o gás.
Sentou-se na cadeira da cozinha, abriu o jornal e dentro dele havia uma página arrancada de um livro.
Era uma poesia. Do vizinho. Leu e releu. Leu novamente.
O gás tomou conta da cozinha. Arnaldo respirou fundo o gás e viu as letras dançarem.
Morreu sobre o soneto da felicidade.
Arnaldo era um homem chamado Alfredo. Um homem que queria demais.

Fim

A viagem de Uk

ah9302 A viagem de Uk
A viagem de Uk

Uk ergueu-se e olhou para a frente. Do alto da colina onde olhava, Uk via o deserto púrpura que parecia mágico com os últimos raios do sol. Uk apreciou por alguns instantes o milagre do sol. Até que os raios foram ficando fracos e começaram a sumir atrás de um monte rochoso que cortava o horizonte.
Então o pequeno rapaz sentiu o peso de sua lâmina de bronze. Este era o primeiro sinal do medo.
O medo é desta maneira. Ele surge aos poucos. Cada raio de luz que não cruza o firmamento adiciona um punhado do mais profundo medo na alma do homem. É assim desde o princípio dos tempos.

Eu poderia contar aqui a história de Uk. Contar que ele era um dos dois irmãos Barat que sobreviveram a tomada de Uadi Abbad. Mas não falarei sobre isso. Não há tempo para contar tamanha aventura, que seguramente tomaria alguns dias.
O que eu posso dizer sobre este pobre garoto de vinte e dois anos, que trêmulo desce com cuidado o monte de pedra de onde estava em direção a uma planície rochosa ainda quente, é que ele foi enviado pelo faraó Netjerkhet em pessoa.
O ano é 2630 A.C. e Uk partiu de Thebas na manhã de dois dias atrás. Ele caminhou a passos largos seguido por dois escravos carregando respectivamente: dois camelos, água, comida e algumas armas.
Na noite do primeiro dia, um dos escravos fugiu. Foi durante a noite, e quando o outro escravo deu pela falta, o infeliz havia sumido e carregado consigo uma cabaça de água.
Uk sentiu raiva de si mesmo, pois ainda no início da jornada percebeu que aquele pobre diabo iria fraquejar. Pensou que devia tê-lo matado para poupar a água. A água naquela região é um bem escasso e precioso. No sol inclemente, a morte espreita a cada minuto.
O segundo escravo morreu no dia seguinte. Caiu ao subir um rochedo e bateu a cabeça. Uma morte estúpida, sem dúvida.
Dali em diante, Uk seguiu sozinho orientando-se pela lua e pelo sol. Ele carregava consigo desenhos e esquemas dos sacerdotes para saber em que direção seguir.
Após descer o monte, os pés de Uk doíam. Ele olhou em volta, tentando encontrar algum vestígio de movimento, mas não havia nada. Apenas o vento e seu silvo triste.
Uk sentou-se no chão. Pensou que faltava pouco para alcançar seu objetivo.
O rapaz olhou para o céu e viu as estrelas. Então ele ajoelhou-se e rezou para Knhum, para Satis e para Anukis. Pediu piedade para consigo.
Do alto do céu, as estrelas apenas olhavam, no silêncio da eternidade.
Uk abriu a sacola que carregava amarrada às costas e dali retirou um pouco de palha. Com as mãos, cavou um pequeno buraco no chão.
Do fundo da sacola, Uk pegou as pedras de fazer fogo e pôs-se a bater uma contra a outra com violência. A cada batida uma minúscula fagulha brilhante emergia. Uk repetiu isso até que uma das pequenas fagulhas queimou a palha e uma fraca chama laranja surgiu.
Ele pegou então a tocha que carregava apagada e acendeu com o fogo. O vento ajudou e a tocha incendiou-se, iluminando a escuridão.
Ele continuou a caminhar usando a tocha como lanterna. Esperto que era, Uk decidiu só dormir na luz do dia para não ser pego de surpresa na noite.
Andou algumas horas e já tinha os pensamentos perdidos em músicas e lembranças de Thebas quando um ruído chamou-lhe a atenção.
Não era bem um gemido. Era como um ar saindo de uma abertura. Uk virou-se e nada mais ouviu. Apenas o silêncio.
Levantou a tocha o mais alto que pôde para melhorar sua visão na direção do som, mas nada via além das pedras. Grandes, médias e pequenas. Mas só pedras.
Uk permaneceu imóvel em completo silêncio por vários e intermináveis minutos. E só o que ouviu foi o crepitar do fogo da tocha alimentada pelo alcatrão.
Começou a pensar se o som não era uma ilusão, um sonho, um delírio auditivo. Talvez fosse.

Uk estava sozinho já havia algum tempo e nessas situações, um deslizamento de terra ou pedrinha que rola pode assumir proporções titânicas.
Mas Uk resolveu prosseguir.
Ao virar-se, deu de cara com a criatura. Ela estava na frente dele. Meio abaixada. A cabeça virada para baixo. Os olhos brilhavam como se fossem faíscas de puro fogo.
Ela era enorme. Bem maior do que haviam lhe falado. Pelo menos uma vez e meia o tamanho dele em pé. E ela estava de quatro.
A criatura não se movia. Uk também não. Ele lentamente deu um passo para trás.
A criatura levantou-se e deu um passo em absoluto silêncio para a frente. Na direção dele. Era o balé da morte. A situação ficou tensa. E uma gota de suor desceu o rosto de Uk com velocidade. A luz da tocha iluminava o corpanzil peludo da fera.
Era um corpo gigante de leão coberto com uma densa pelagem grossa que parecia uma ovelha. As garras eram de leão. Na fraca luz que ainda iluminava a criatura, ele viu as enormes asas que os sacerdotes haviam lhe falado.
Iluminada pela luz estava o rosto da mulher. Lindo. Perfeito. Os cabelos longos a cair sobre o colo, onde uns pêlos começavam a aparecer ainda fracos e juntavam-se nos tufos que recobriam o corpo do monstro. Ela ficou ali, olhando fixamente para ele.
Uk não ousou recusar o olhar e não desviou o os olhos da esfinge. Esfinge era como eles a chamavam. Uk tateou lentamente até o cabo da espada. O bronze gelado tocou-lhe os dedos.
Uk estava retesado, não aguentando mais a dor nos músculos.
Então ele saltou para trás.
A Esfinge arregalou a boca. Ninguém acreditaria se eu dissesse o monte de dentes pontiagudos que surgiram daquela boca de mulher. Ela saltou por cima dele, mirando-lhe na cabeça e batendo as asas pretas. Uk jogou-se para trás o quanto pôde e sentiu o hálito de carne pútrida da fera, e num rápido movimento, acertou-lhe uma espadada no ventre.
Ele tentou uma estocada, mas a julgar pelo jeito desajeitado com que manejou a arma, apenas conseguiu obter um corte. A cabeça de mulher deu um urro. O enorme bicho caiu três metros adiante. Uk estava ainda no chão quando viu a esfinge levantar-se e se sentar. Parecia um grande cão sentado e olhando pra ele. A mulher olhou-o nos olhos como sempre fazia.
Era uma besta do inferno enviada por Hades como haviam lhe dito. Uk deveria matá-la e retornaria a Tebas como um herói.
E numa voz de trovão que ressoou por vários e vários metros dali, a mulher com asas e corpo de leão finalmente falou:
- – Ela disse em um dialeto antigo, que Uk se lembrava fracamente. Era o dialeto do povo do leste. Seus avós eram sacerdotes e Uk aprendeu com seu avô a língua dos antigos.
- Besta do inferno. Volte para teu criador e liberte os campos, o povo e os animais desta terra. – Disse ele, seguindo o ensinamento dos sacerdotes do faraó.
E então a esfinge não disse mais nada. Ela apenas riu.
Um riso grosso, que fez Uk sentir um medo maior do que tudo que havia sentido antes.
O enorme animal avançou novamente para cima do pobre Uk, que tentou desviar, mas foi atingido no peito por uma patada do pesado animal. Uk voou no ar e acertou uma rocha. Caiu estatelado no chão. Meio tonto, ele tentava entender o que havia acontecido. Notou que o animal puxava da perna traseira esquerda.
Tentou levantar-se e sentiu uma enorme dor nas costelas. devia ter quebrado algum osso na batida contra a rocha.
O animal tornou a investir contra Uk. A boca escancarada cheia daqueles dentes e as garras cruzaram o ar como lâminas.
Uk pulou de lado, desta vez para o lado certo. O animal mordeu apenas o ar.
Uk aproveitou a oportunidade e vendo-se sem a espada abaixou-se e pegou uma pedra. Não era grande, mas tinha algum peso, e acertou uma pedrada na cara do bicho.
O animal virou a cabeça sangrando e ficou realmente irritado.
Uk correu como pôde para alcançar a tocha. Ele ouviu novamente o silvo de ar atrás de si e então o pesado animal desceu do céu sobre ele como fosse uma águia gigante. As asas abertas eram enormes e o vento que produziam levantou um monte de areia. Uk abaixou-se de olhos fechados e tateou até encontrar a tocha. Ele pegou a tocha e saiu girando o fogo no ar sem poder abrir os olhos.
O pesado animal evitava o fogo como podia, saltando de banda e batendo as asas freneticamente.
Uk afastou-se um pouco da criatura. Ele pisou em alguma coisa dura e quando a besta investiu novamente sobre ele, Uk abaixou-se para pegar.
O animal caiu em cheio sobre Uk. A bocarra pronta para o bote. Uk pegou aquilo que estava ali no chão e enfiou-lhe na boca. Era um fêmur de alguém ou algum bicho. Bem, tenho que ser sincero e contar que era fêmur de gente mesmo.
Uk não era o primeiro, e ao que parecia, não seria o último a enfrentar a esfinge de Hades.
Mas o caso é que ele atochou aquele ossão guela abaixo do monstro. A criatura recuou. Virou-se de costas pra Uk, tossindo um tossido gutural e tentando em vão retirar o osso da garganta.
Foi a chance de ouro que Uk procurava. Ele correu até a espada e empunhou-a.
Virou-se para procurar a esfinge e ela não estava mais lá.
Havia desaparecido. Ele olhou em volta e não havia sinal da monstruosa mulher gigante de asas e corpo de leão.
Uk pegou a tocha e logo após levantar-se Já sentindo-se o herói vitorioso de Thebas, sentiu uma coisa fria tocar-lhe os ombros. Um arrepio percorreu seu corpo de alto a baixo. Uk olhou para cima e o que viu foi a cara da esfinge, toda babada de sangue. Os olhos de pássaro amarelos injetados de ódio.
A boca grande do monstro se abriu e foi a vez de Uk se juntar à pilha de ossos carcomidos que se acumulariam nos cantos daquele deserto esquecido. Os ossos de Uk ficaram ali por mil cento e treze anos anos. Até que um dia, surgiu um rapaz chamado Édipo no alto daquelas montanhas e apreciou os últimos raios de sol púrpura banhando a planície rochosa.

Fim

-

O caçador

Já estou de saco cheio de esperar.
Um mosquito desgraçado teima em me aporrinhar os ouvidos tentando me morder…

Nós resolvemos usar uma cabra velha morta doada pelo vilarejo do qual nem mesmo me lembro o nome, que fica a uns cem quilômetros rio abaixo.
Custou a escurecer hoje, depois dessa maldita chuva tropical. Pelo que vejo a única coisa pontual neste lado do país. Ela vem, dia após dia, com o abafamento que se dá sempre que chove aqui. Talvez por isso eu me incomode tanto em ficar molhado, como um macaco escondido aqui nesta moita falsa com o rifle pesando nas mãos esperando nosso convidado aparecer…
Tentamos a mesma coisa já fazem três malditos dias, e nada.
Parece que ele sabe de nós, de nossas intenções, de minhas esperanças…

Pelo menos os inseto irritantes se foram e os animais idiotas do mato sossegaram finalmente, deixando um silêncio para que eu pudesse pensar um pouco; se é que é possível com este cheiro de podre que sai do defunto de cabra dependurado no alto da árvore aqui bem na minha frente.
Realmente, eu sei que parece idiota ficar pensando isso agora, mas quando eu falei com o pessoal do grupo ninguém acreditou em mim. Diziam que eu estava sendo alvo de uma piadinha de mal gosto feita por um pajé qualquer. Mas quem se importa realmente com isso?

Ora… A quem estou tentando enganar? Eu me importo!

Se o bicho maldito não aparecer logo, eu vou acabar desistindo de ficar aqui no mato, com os insetos, esperando e esperando…

-Um ruído ecoou no súbito silêncio da floresta Amazônica.
-Ops! Será que é ele? Será que é o bicho? Existe mesmo? – Era um som gutural, abafado e pesado de algo grande movimentando-se por dentro do mato. Galhos quebrando, poças da chuva explodindo à todos os lados. Animais em disparada rompiam o silêncio. Estes, pobres animais, dominados pelo pânico eram os que haviam ficado para trás na discreta fuga em massa minutos atrás.
O som continuava, aumentando sua trajetória indicando a proximidade do gigante.
-Lá vem ele. Só pode ser…O pajé estava certo mesmo. Ele não era maluco como eu já começava a pensar.

Meu Deus! Não estou conseguindo me controlar…Não existem elefantes na floresta do Brasil. Eles sobreviveram mesmo.
Está vindo! Está vindo! Pegar a arma, Baixar a isca, preparar mira telescópica, apontar…

- A imensa cabeça escura surgiu por entre os galhos grossos do alto da mata. Parou. Parecia saber da presença do caçador ali, grudado na árvore. Petrificado de medo o suficiente para não esboçar nenhum movimento.
O dinossauro soltou um grunhido estranho, meio oco. Parecia um trompete tocado num velho disco em baixa rotação. Os diminutos olhos moviam-se com dificuldade tentando enxergar algo.

-Aimeudeus! Ele me viu..- Pensou.

O animal lentamente iniciou um avanço em direção a ele. Os olhos fixos nele.
- Fugir!!!! Tenho que fugir!- Mas não conseguia. Estava todo urinado… Em alguns segundos ele seria o primeiro homem da história a morrer comido por um dinossauro.

Foi quando, de trás dele, pulou um outro daqueles, que ele nem mesmo sabia o nome certo. Era da mesma espécie. Um pouco menor, porém.

- Puts! Tô no meio da briga! Existe mais de um…dinoss…- Não deu tempo para continuar o pensamento. A briga tinha se iniciado. Os dois gigantes animais se degladiavam com mordidas numa gritaria selvagem. As caudas imensas batiam em árvores derrubando folhas para todos os lados. O som era altíssimo. Gritos e urros podiam ser ouvidos a quilômetros, o que não adiantava nada, uma vez que ele estava no meio da maior floresta do planeta, mais de oito dias de distância do afluente que o levou até aquele vale.
Ele havia chegado até lá seguindo cegamente a localização imprecisa e mal desenhada numa folha de caderno por um índio garimpeiro que conhecera na zona do baixo meretrício, entre um peitinho e uma garrafa de pinga…

Claro, que, a princípio, ele como qualquer pessoa normal, havia achado que tudo não passava de mentira daquela figura desdentada e enrugada. Mas quando ele me olhou firme no único olho do índio que além de velho, desdentado e enrugado, era caolho, usando olho de vidro de cor diferente do outro, provavelmente fruto de uma troca generosa de meio quilo de ouro com contrabandistas de cocaína que tinham um barracão na sua aldeia. Ele viu a verdade. Viu o medo e compreendeu que aquele era mesmo o último lugar selvagem do planeta Terra.
Os índios passavam cocaína por dentro da mata, nas trilhas que o povo daquele velho e enrugado garimpeiro haviam construído até Manaus.
Realmente ainda haviam dinossauros no Brasil.
O primeiro deles parecia estar ganhando a posse sobre o defunto da cabrita pendurada na árvore. Os dentões haviam manchado de sangue tudo à volta. Os bichos brigavam no chão espalhando uma poeirada danada no ar.
Subitamente, um deles parou. Estava morto. O outro, mais escuro, provavelmente um macho, mais forte, levantava-se nas duas patas traseiras com certa dificuldade. Estava todo arranhado e mordido, com feridas profundas por todos os lados do corpo. Uma fileira de buracos minava um sangue grosso da coxa dele. Uma artéria rompida fazia daqueles buracos uma pequena cascata de sangue escuro. Mas o animal parecia não se importar. Virou-se para a cabra cadavérica e esticou o pescoço em seua direção.

Era a chance que ele estava esperando. Preparou o rifle de matar elefante, mirou no meio da cabeça do bicho e mandou ver no gatilho.
O eco do tiro em explosão ecoou na floresta. Ao longe, papagaios coloridos levantaram vôos gritando. E fez-se um interminável silêncio.
O animal retesou todo o corpo e ficou parado. Aquela imensa estátua negra no interior da floresta Amazônica petrificou como se fosse de pedra.

O caçador havia errado o tiro. O animal virou a cabeça na direção dele e abriu a boca de dois metros. Iniciando com ela um movimento de todo o gigantesco corpo em uma marcha assassina para cima do caçador, que desesperado tropeçava em galhos e catava “cavacos” na tentativa de fugir.
Toda a floresta à sua volta tremia com a corrida do dinossauro atrás dele. Parecia a selvagem caçada de uma galinha a uma barata. O animal alcançava-o a cada enorme passada.
O caçador sentiu o bafo quente do animal no seu cangote. Os dentes fecharam-se à sua volta. Perfuraram sua barriga e ele não mais sentiu as pernas. Tudo escureceu.
O dinossauro sacudia o que restava do corpo do caçador par os lados até que se arrebentou no meio e jogando a enorme cabeça de lado ele abocanhou todo o tronco superior e enfim pôde engolir. Girou com habilidade seu corpanzil pelo meio das àrvores e voltou-se para a floresta passo a passo. Ia sumindo no meio da mata, tragado aos poucos pela imensidão verde. O som dos pesados passos do dinossauro sumia lentamente enquanto um ou outro passarinho se atrevia a cantar. As cigarras do anoitecer reiniciaram seu canto e a floresta voltou a sua paz atribulada.
Os dinossauros não mais foram vistos e assim, estão até hoje no interior da floresta amazônica do mesmo jeito que o índio.
E por falar no índio, ele está bem, com seus descombinados olhos vesgos e pele enrugada, ainda na zona, entre um peitinho e uma garrafa de pinga, convencendo outro aventureiro estrangeiro a capturar a maior criatura de todos os tempos.

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