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O pedinte

March 8th, 2010 12 Comments

CENA 1 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

Plano geral de uma praça. Lugar bonito, embora não haja muita gente. Uma senhora vem passando, andando lentamente.

A idosa senta-se num banquinho da praça.

Close na idosa. Olhar perdido.

Pequenos inserts de detalhes da velha. A mão trêmula apóia-se numa bengala antiquada.

CENA 2 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

Uma criancinha passa num velocípede. A câmera acompanha.

A criança olha para a velha.

Close na idosa. Olhar fixo na criança. A velha sorri.

Close nos olhos da criança.

Plano médio da praça. A criancinha se afasta com o velocípede até sair do enquadramento.

CENA 3 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

Entra pela lateral do quadro um mendigo, roto, sujo, cabelo desgrenhado. Barba e cabelos enormes e amassados.  A Câmera acompanha.

O mendigo senta-se ao lado da velha.

Plano médio  da praça. A velha e o mendigo estão sentados com o olhar perdido, olham para a frente.

A velha vira a cabeça para o mendigo.

O mendigo olha para a frente, fixamente. Ele tem o olhar perdido.

VELHA: Quanto você quer para sentar em outro banco?

O mendigo olha para a velha.

MENDIGO: Trinta.

VELHA: Vinte.

MENDIGO: Vinte e oito.

VELHA: Vinte e cinco.

MENDIGO: Fechado.

A velha abre uma pequena bolsa, já fora de moda e retira um bolinho de notas. Ela entrega ao mendigo.

O mendigo pega o bolo de notas e guarda no bolso.

CENA 4 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

O mendigo levanta e sai. A Câmera se mantém fixa.

A velha tem o olhar perdido. Close no olhar da velha. Expressão fria. Ela fita o vazio.

CENA 5- EXTERIOR – RUA -DIA

Musica incidental. Mendigo caminha pela rua.

Planos diversos do mendigo andando por ruas e becos.

Mendigo desce pelas escadas do metrô.

CENA 6- INTERIOR – METRÔ – DIA

Há um velho sentado num banco. Ele espera o metrô.

Close no olhar do velho. Tem os olhos perdidos.

Mendigo entra pela lateral do quadro e se senta-se ao lado do velho.

Mendigo olha fixamente para a frente. O velho idem.

Velho vira-se para o mendigo.

VELHO: Você poderia sentar em outro lugar?

MENDIGO: Depende.

VELHO: Quanto?

MENDIGO: Quarenta e dois.

VELHO: Pago dez.

MENDIGO: Quarenta e dois.

O velho hesita.

MENDIGO: Quarenta e dois.

VELHO: Vinte.

MENDIGO: Vinte e cinco.

VELHO: Fechado.

O velho mexe na pasta. Pega um bolo de notas e entrega ao mendigo. O Mendigo guarda as notas no bolso, levanta-se e sai. A Câmera permanece fixa no velho.

CENA 7 – EXTERIOR – RUA – TARDE

Musica incidental. Mendigo caminha pela rua. Passa em locais desertos. Corredores, escadas, ruas desertas.

CENA 8 – EXTERIOR – RUA – NOITE

Plano geral de uma avenida. Carros passam na frente de bares e restaurantes. Pessoas comendo, se divertindo.

Mendigo surge ao fundo. Caminha pela avenida. Para em frente a um bar e olha as pessoas comendo. Algumas pessoas param de falar, olham para ele e tornam a conversar como se ele fosse invisível.

O mendigo olha para o lado e sai do enquadramento.

CENA 9- EXTERIOR – RUA – NOITE

Uma prostituta está encostada num poste.

O Mendigo surge e para ao lado dela.

A prostituta tem o olhar perdido. Close no olhar da prostituta.

Ela olha para o lado. O Mendigo está ali, parado.

PROSTITUTA: Qual é?

O mendigo não responde. Ele tem o olhar parado. Olha para o infinito.

PROSTITUTA: Ei.

O mendigo olha para a prostituta.

PROSTITUTA: Tá me atrasando a vida, meu. Dá pra ser ou tá difícil? Tá espantando a clientela, mermão.

MENDIGO: Faço pra você por trinta reais.

PROSTITUTA: Porra, trinta? Não dá pra negociar não?

MENDIGO: Não.

PROSTITUTA: Ah, vai se foder. Olha, só tenho quinze aqui, mas tem este vale do motel. Tá dando desconto de 50%, tá afim?

MENDIGO: Tá bom.

A prostituta pega o dinheiro na bolsinha de couro vermelho. Junta o papelzinho do motel e entrega ao mendigo. Ele coloca o dinheiro no bolso e sai. A prostituta volta a olhar para o vazio.

CENA 10 – EXTERIOR – BECO ESCURO -NOITE

O mendigo entra num beco escuro. Caminha com dificuldade entre latões de lixo e tranqueiras espalhadas pela rua.

Vai até uma porta. Pega uma chave do bolso e abre. A luz ilumina o beco. O mendigo entra.

CENA11 – INTERIOR – CORREDOR -NOITE

O Mendigo caminha por um corredor cheio de canos e cabos. É um lugar diferente, com aparência que lembra o interior de um submarino.

O mendigo vai até o centro de uma câmara. Ele fica parado, olhando para o vazio.

Surge um jovem. O Jovem para em frente ao mendigo.

O mendigo não olha nos olhos do jovem. Olha para a frente. Olhar fixo.

O Jovem estende a mão. O Mendigo enfia a mão no bolso e retira o dinheiro. Entrega ao jovem.

JOVEM: Total?

MENDIGO: 65 mais um vale motel com desconto de 50%.

JOVEM: Hummm. Tá bom. Ontem foi melhor hein?

MENDIGO: Zonas mais rentáveis no setor 15.

JOVEM: Tá. Eu sei. E a taxa da bateria?

MENDIGO: Bateria em 22%.

JOVEM: Tudo bem. Por hoje chega. Vou aproveitar para fazer a atualização do firmware, beleza? Pode entrar em modo de hibernação.

O mendigo fecha os olhos. O rapaz mexe nas costas do mendigo. Retira um cabo preto que estende até uma tomada.

O Jovem abre um notebook e digita algumas coisas. Pluga um cabo usb do computador nas costas do mendigo. No notebook surge uma barra de download que começa a carregar.

Ele levanta da cadeira, olha para o robô parado no meio da sala. Apaga as luzes, sai e fecha a porta. A câmera fica.

FIM

Sobem os créditos finais.

O pacto

March 1st, 2010 18 Comments

O nome dele era Raul Oliveira de Castro, mas seus amigos apenas o conheciam como “Castrinho”.
Não vou perder o nosso tempo aqui dizendo a história da vida dele. Basta dizer que Castrinho cresceu órfão, criado por uma tia carola, que trabalhava na Igreja da matriz de uma cidade que já me esqueci o nome, mas que fica ali no sul da Bahia. Ele passou a infância vendo televisão. Sonhava em ser um astro da música sertaneja ou algo que o valha. A tia de Castrinho morreu quando ele entrava na adolescência. A morte da Tia, enquanto varria o altar foi o que deu nele a vontade de viajar. Sumir. Cair no mundo. Roubou o dinheiro da caixinha da igreja e fugiu num ônibus carcomido para o sul. Cresceu sozinho, penou para arranjar emprego. O primeiro foi de vigia noturno.
Os dias passavam de forma igual. Até que a empresa faliu e ele foi demitido. Castrinho viveu na rua da amargura, sem emprego, sem comida, sem dinheiro. Mendigou.
Estava na fase mendigo, sentado no banco de uma praça quando conheceu um paraibano que estava indo para o Rio com três filhos, tentar a carreira de violeiro.
Castrinho não tardou a obter os trocados que dariam para seguir o retirante em busca de seus sonhos.
Mas no meio da estrada o caminhão que os transportava ilegalmente sofreu um acidente e quase todos morreram. Castrinho ficou muito machucado. Levado para um hospital público, recebeu os cuidados médicos que lhe salvaram a vida. Quando finalmente se recuperou, ele chegou ao Rio de Janeiro, com uma mão na frente e outra atrás. Ficou embasbacado com a beleza daquela cidade. Mas tão logo a estupefação passou, a realidade cobrou seu preço. A cidade estava loteada. Não havia local em que ele pudesse se encostar para tirar uma soneca que não houvesse mendigos. Assim, ele virou um tipo de andarilho, um mendigo maltrapilho que andava de um lugar a outro da cidade, esmolando, pedindo e comendo os restos de sanduíche que os bacanas jogavam nas lixeiras das lanchonetes da zona sul.
Um dia, ele encontrou uma revista velha no chão e parou para folheá-la.
Era uma antiga revista de celebridades. Castrinho o andarilho sujo, mendicante, estava vendo o que gostaria de ser mas não era. A revista mostrava aquele monte de gente bonita e famosa, passeando em lugares paradisíacos, praias maravilhosas de águas verdinhas, outros em banheiras de espuma, repletos de pétalas de rosas. Mulheres bonitas, festas e encontros nas casas luxuosas e em palácios.
Ele olhava as fotos e pensava em estar ali, desfrutando daquela felicidade, daquele prazer. Imaginava o sabor da carne, o aroma do vinho e até o frio das montanhas nevadas onde uma família de bacanas esquiava.
Alguns ele reconhecia das novelas na Tv. Outros não. Mesmo andarilho, Castrinho nunca havia deixado de ver as novelas da televisão. Na falta de um aparelho, ele corria para as portas das lojas de eletrodomésticos, onde sempre havia uma boa alma para deixar um aparelho ligado na vitrine.
Naquele dia, após ver e rever a revista velha até decorá-la, ele resolveu seguir caminho para a loja. O comércio começava a fechar as portas e os camelôs já se retiravam para a direção do trem quando Castrinho chegou na porta da loja. Mas neste dia fatídico, ao contrário de todos os outros, não havia Tv ligada.
Isso o obrigou a sair em caminhada apressada, em busca de algum lugar que tivesse uma Tv.
Chegou a um boteco. Ali ele filou a televisão por alguns minutos, até que foi expulso pelo português, dono do bar sob a desculpa de que ele espantava a freguesia. Sem dinheiro para consumir e comprar sua permanência no local, baixou a cabeça e saiu, sentindo-se o fracasso em pessoa.
Andou alguns metros quando uma mão pesada bateu no ombro dele. Castrinho se assustou. Era um velho, que havia visto o dono do bar maltratá-lo.
-Calma, meu rapaz.
-Hã? Que foi?
-Eu vi o que o babaca fez com você. Injustiça eu não aguento.
-…
-Venha, venha comigo. Você gosta de ver televisão?
-Ah, gosto sim senhor. Eu adoro. Vejo todo dia.

E então no caminho de volta para o bar, Castrinho contou ao velho que via novela todos os dias, desde criança. O velho se intrigou.
-Mas você não é um mendigo então?
-Não, não senhor. Eu sou apenas um desempregado. Eu tento, mas não tenho como me virar sem dinheiro. Até pra vender bala no sinal é preciso de dinheiro inicial.
-Mas você nunca tentou por exemplo, ser flanelinha? É uma forma de conseguir algum dinheiro.
-É, sim senhor. Mas o problema é que não dá pra ser flanelinha aqui no Rio, porque toda rua já tem um. E eles me expulsam. Até me ameaçaram de morte outro dia ali na avenida. Como resultado, só sobram as ruas ruins, onde para pouco carro. Nessas eu trabalhei e faço isso sempre que posso, mas o resultado não chega a cinco reais. A maioria também dá calote no flanelinha. Diz que vai pagar depois e não paga.
-Ah, entendo.

Os dois entraram no bar. O português bateu no balcão.
-Mas que porra é essa? Não mandei…
-Ele é meu convidado, seu Mário!
-Convidado o caramba. Ele é um mendigo, pô!
-Né nada, seu Mário.
-Não quero nem saber. Vão embora os dois daqui então. -Disse o portuga apontando pra rua com um abridor na mão. O povo do bar riu.
E os dois saíram.

-Putaquepariu. -reclamou o velho.
-Desculpa, moço. Eu não queria fazer o senhor passar vexame. -Disse Castrinho.
-Ah, garoto, Eu conheço o seu Mário desde moleque. Esse cara tá ficando esclerosado. Não esquenta. Olha, quer saber? Vamos lá pro meu estabelecimento, que lá tem televisão. Não é boa como a do bar, mas serve pra ver a novela e o jornal.

E assim Castrinho prosseguiu com aquele senhor até um restaurante, que não era muito ruim, mas também não era grande coisa. Cerca de vinte mesas e uma cozinha apertada.
Ali os dois sentaram-se numa mesa, o velho pegou uma garrafa de cerveja, que Castrinho prontamente recusou, dizendo que não bebia. O velho sorriu, serviu a cerveja só pra ele mesmo e ambos assistiram ao Jornal Nacional e à novela.
Quando acabou a sessão de TV, Castrinho levantou-se para ir embora.
O velho o interpelou, dizendo.
-Escuta, rapaz. Eu fui com a sua cara.
-Ah, o senhor é muito generoso, disse o jovem. Agora preciso ir embora, porque amanhã eu tenho que…
-Olha, você tá morando onde?
-Sabe o viaduto que tem ali perto da praça…
-Viaduto? Você tá morando debaixo de um viaduto?
-Pois é…
-Olha, eu não estou acostumado a fazer isso, mas se você quiser, eu posso te empregar. E deixo você dormir aqui no Restaurante. Você trabalha como vigia aqui pra mim, faz uma limpeza no salão, e eu te ajudo, pagando aí um troco. Já adianto que não posso pagar muito, pois o ponto aqui é uma desgraça. Mas já é alguma coisa, e você pode ver televisão o quanto quiser. O que me diz?
Castrinho apenas abriu um sorriso e estendeu a mão suja para o velho.
-Ah, rapaz, vamos começar com um banho e um corte nessa barba e cabelo. Que tal?
Castrinho assentiu com a cabeça e os dois saíram para a barbearia do seu Nicolau, que ficava ligada à casa dele e funcionava 24 horas.
Passaram-se alguns meses e agora Castrinho era uma espécie de garçom-faxineiro-faz-tudo-vigia do restaurante.
Não ganhava bem. Na verdade ganhava muito mal. Muitas noites passava limpando a sujeira. Levou algum tempo para que ele percebesse que o homem generoso que lhe oferecera uma chance na vida estava capitalizando em cima dele. O velho em pouco tempo despediu o garçom, o servente, o vigia e a faxineira. Pelo preço da metade do salário dela tinha um homem que fazia tudo aquilo.
Castrinho começou a sentir-se como um passarinho preso numa gaiola.
Com o pouco que recebia ele comprava a revista de celebridades e passava as noites assistindo a novelas e filmes, aos quais sabia de cor o nome de cada um dos atores.
Numa noite, houve um blecaute na região. Sem tv só restou-lhe acender uma vela e folhear uma revista no salão vazio do restaurante já fechado. Lá estavam aquelas pessoas felizes, desfrutando a vida que lhe foi duramente negada.
Castrinho tinha no coração o desejo de ser famoso, ser rico, poderoso como aquela gente. Sucesso, fama.
Aquilo acontecia com tantas pessoas, porque justamente com ele nada dava certo?
Fechou os olhos e odiou a própria vida. Sentiu uma estranha raiva crescer dentro de si e subitamente teve um insight que poderia fazer tudo aquilo se resolver. Estava decidido.
Ele ia vender a alma para o diabo.
O dia seguinte, quando o restaurante fechou, Castrinho saiu em busca de uma forma de realizar seu plano de vida. à medida em que andava pelas ruas do Centro, pensava no pacto. Estava claro pra ele que se fosse para ficar famoso por meios naturais não haveria muitas chances. Apenas o poder de um pacto com Belzebú poderia colocá-lo no universo dos bacanas, dos bem de vida.
Então Castrinho tratou de buscar uma forma de contatar Satã. Comprou na banca de revistas usadas um livro de São Cipriano que prometia o contato com o capeta. Tentou fazer todo aquele rapapé de invocação, mas falhou miseravelmente. Nem satã, nem espírito ou qualquer outra aparição surgiu e só restou a ele limpar a sujeirada de pentagrama de sal no chão do salão do restaurante.
Deprimido, mas ainda assim decidido que apenas Satã poderia tirá-lo daquela vida invisível e desgraçada, tentou outra alternativa. Certamente que haveria uma forma de contatar o príncipe das trevas. Mas como fazer isso? O diabo não ficava dando plantão na calçada. Seria necessário fazer alguma coisa. Tão logo conseguiu fechar o restaurante, correu para uma lan house que havia na esquina e no Google descobriu tudo que podia sobre pacto com o Diabo. Viu trechos de obras clássicas que referenciavam estes pactos e notou que na ampla maioria das vezes, o pacto com o coisa ruim se dava por interesse deste último. Nunca a partir do interesse do dono da alma.
Voltou para o restaurante mais triste do que nunca.
Então naquela noite acordou com uma idéia na cabeça. Basicamente, tudo que ele viu sobre pactos com o demônio e venda de almas para o capeta envolviam o diabo aparecer para a pessoa, mas em lugar algum ele leu que o processo inverso não fosse possível.
-Se ninguém tentou, não significa que não seja possível. Significa apenas que ninguém tentou. -Ele disse em voz alta no salão escuro do restaurante. E tornou a dormir, dessa vez, mais feliz.
No dia seguinte, serviu os pratos, lavou a louça e limpou o restaurante. O trabalho era árduo e isso o cansava muito. Os clientes eram grosseiros e não raro, metidos. Mas ele enfrentava aquilo tudo com esperanças de ser bem sucedido na venda de seu mais precioso bem, a alma.
A idéia de anunciar sua alma no jornal foi uma consequência de ver um senhor que tomava o café após o almoço lendo os classificados.
Quando ele finalmente conseguiu fechar o restaurante, correu até o telefone público e ligou para o departamento de anúncios, onde colocou um anuncio, que dizia apenas:
Vendo a minha alma. Tratar com Castrinho.
Não colocou telefone nem endereço, porque obviamente o príncipe das trevas teria o poder de localizá-lo fosse onde fosse.
Mas não surtiu efeito. Castrinho pagou para o anuncio aparecer no jornal de domingo, mas nem isso teve efeito. Sentiu-se o mais burro de todos os mortais. Certamente que o capeta não lia jornais.
Passaram-se alguns dias até que uma nova idéia surgiu na mente de Castrinho. A idéia surgiu quando ele procurava para ver se o anuncio estava saindo direito no jornal. Logo abaixo do anuncio dele estava o anuncio de um tal “Chiquinho Belzebú”, que se dizia encarregado das artes demoníacas na Terra.
Aquilo lhe pareceu ser viável, na medida em que alguém importante como o diabo não perderia seu tempo trabalhando em pessoa na compra e venda de almas.
Juntou algum dinheiro, suas parcas economias e procurou o Chiquinho Belzebu. Seguiu o endereço e foi dar numa casa muito bonita, toda pintada de preto, com uma estrela vermelha na porta. Não havia letreiro ou coisa do tipo. Ele entrou e tocou a campainha. Da porta surgiu uma menina magrinha.
-Pois não?
-Eu queria falar com o Chiquinho…
-Ah, tá. – A menina deu-lhe às costas e gritou lá pra dentro: -Ô paaaaaaaai! Mais um!
Surgiu na porta um homem negro, careca, com um bigodão. A aparência era assustadora. Ele usava uma camisa de cetim vermelho e uma capa preta. O homem veio solenemente até a porta.
-Pois não?
-O senhor é…
-Sou.
-Eu queria… Bem, o senhor sabe, eu queria vender minha alma.
O homem negro ficou ali, olhando pra ele, com uma expressão enigmática. Balançou a cabeça positivamente. -Vai custar cem reais.
Castrinho apanhou todo o dinheiro que tinha.
-Só tenho oitenta e cinco. Dá pra fazer?
O homem acenou com a cabeça. Pegou o bolo de notas da mão dele e enfiou no próprio bolso sem contar.
Pegou uma moeda do outro bolso e passou na cabeça dele sete vezes sussurrando uma coisa qualquer que Castrinho não ouviu direito. Então o Chiquinho Belzebú falou:
Agora pode entrar.
Castrinho entrou e foi direto segundo o homem, que ia entrando pela casa adentro. Subiu umas escadas de madeira. Castrinho sentia medo e p medo só aumentou quando ele entrou numa sala toda pintada de preto, com uma estrela vermelha no chão. Ali Chiquinho apontou para o centro da estrela e disse: Deita ali.
Castrinho obedeceu.
Então o tal Chiquinho falou um monte de coisa, invocou o Satã, o capeta, Lucifer e mais uns trinta nomes diferentes. Acendeu uma tocha e circulou com ela ao redor da estrela. Mas o capeta não apareceu.
Castrinho esperava algum tipo de reação mágica, uma atividade sobrenatural qualquer, e de decepcionou quando o homem apenas disse.
-Pronto, acabou.
Ele vestiu-se. Agradeceu e saiu dali puto da vida, sabendo que foi engrupido em oitenta e cinco preciosos reais.
Voltou a trabalhar no restaurante. Entre um prato e outro, um pedido e outro, começou a pensar no destino e naquele monte de trapalhada que se metera tentando em vão vender a alma para o demônio e se tornar rico e famoso.
Foi num dia de chuva que Castrinho percebeu que só poderia realmente se aproximar se Satã se fizesse por onde. Maldades. Ele deveria ser maligno, agir com desprezo pela alma e pela vida humana e talvez assim atraísse a atenção de Lúcifer para si.
Então Castrinho começou sua vida de diabruras, cuspindo na comida, molhando os bifes na água da privada.
Fez toda sorte de maldades que pode fazer sem correr o risco de ser preso. O ápice de sua maldade foi colocar detergente no molho de pimenta.
No fim do dia ele saía para chutar animais e praticar vandalismos. Passou por uma rua onde crianças jogavam bola e bicou a bola dos moleques, quebrando uma janela. Saiu correndo deixando os garotos levarem a culpa.
Arranhou carros com um parafuso. Passou a atravessar a rua toda vez que via uma igreja.
Mas por mais maligno e diabrurento que fosse, Castrinho nunca obteve sucesso em atrair o capeta.
Um dia decidiu que faria a maior maldade que poderia fazer. Comprou remédio para rato e estava decidido a matar um velhinho que comia sempre no restaurante. Sim, a morte, a violação do sexto sagrado mandamento. O desprezo para com a vida humana. Se aquilo não atraísse a atenção de Satã, nada mais o faria.
Colocou o chumbinho sob o queijo do filé a parmegiana que o velho comia todo santo dia. Levou até a mesa. Ficou ali, parado, vendo o velho partir o bife. O velho estava prestes a levar o bife até a boca, a saborear o primeiro e talvez o último pedaço de carne de sua refeição, quando o velho teve um ataque. Caiu para trás, se remexendo freneticamente.
Castrinho se assustou. O velho espumava pelo canto da boca. Ele esperava por aquela morte, mas não imaginava que ela fosse acontecer sem mesmo que o velho colocasse a comida envenenada na boca.
As pessoas cahamaram a ambulância, mas quando o SAMU chegou, mais de quarenta minutos depois, o velho já havia morrido. Antes que Castrinho pudesse assassiná-lo.
derrame cerebral, disseram os médicos.
Um fracasso em pessoa. Era o que Castrinho sentia de si mesmo. Nem mesmo para matar um velho estúpido ele servia. Estava claro pra ele que este era o motivo pelo qual o capeta nunca iria querer sua alma.
Voltou a se deprimir.
Começou a pensar em tudo em toda aquele monte de besteiras que fez buscando a fama e fortuna. Nada dera certo. Então percebeu que estava cometendo um erro terrível. Na busca por aproximar-se do diabo, ele estava na verdade desvalorizando seu principal produto, a sua alma.
Afinal de contas, pensando racionalmente na relação de oferta e procura, qual seria a vantagem para o dêmo de ter uma alma de um praticante de maldades como ele? A arte do malefício já o tornara um servo de Satã. E dessa forma, para que Satã iria pagar algum favor por uma alma que já o pertencia?
Neste dia, Castrinho percebeu o quão era idiota e resolveu mudar.
Torou-se uma boa pessoa. Buscou o caminho da luz. Passou a frequentar a igreja, confessou e se arrependeu de seus pecados. Mas nunca, em nenhum momento fraquejou com relação ao seu objetivo primordial, que era a venda da própria alma ao Satã. Caiu na esteira de dizer isso ao pároco quando se confessava e acabou expulso da igreja.
Comprou uma bíblia de segunda mão e buscou nos ensinamentos tudo o que podia para se tornar uma pessoa boa e valorizar sua alma. Fundou com amigos garçons uma igreja. O restaurante tão logo começou a se encher de fiéis. O velho abriu uma filial, e convidou-o para ser gerente.
Mas ele durou pouco no emprego de gerente do restaurante, porque a igreja ia de vento em popa. Os fiéis aumentavam a cada dia.
E ele investia cada vez mais tempo, esforço e dinheiro em fazer o bem, em trazer as pessoas do fundo do poço para a luz divina de Deus.
Comprou carros, rádios, jornais e diversas casas. Abriu filiais da igreja em países pobres da África e da Ìndia. Apareceu na Tv em horário nobre, pregando a multidões que o exultavam: Aleluia Pastor!
Castrinho já não era mais o mesmo. Agora ele era apenas o pastor Castro, o homem de Deus.
Trabalhou com os fracos, os pobres, os viciados e recuperou os enfermos. Fez paralíticos andarem, expulsou o coisa ruim das pessoas e escreveu livros com seus pensamentos sobre uma vida pura e ímpia.
Casou-se, constituiu família, teve uma filha com a esposa e comprou uma casa de luxo em Miami.
Certa noite, Castrinho, digo, pastor Castro, estava a contar dinheiro, como sempre fazia no fim do expediente da Igreja quando uma pessoa bateu à porta. Era normal que os assistentes sociais da igreja trouxessem pessoas doentes e fracas para conversar com ele e se confessar. Guardou os bolos de notas no cofre sob a mesa de carvalho antiga. Ao abrir a porta, tudo que viu foi um homem baixinho, com a cara enrugada, os olhos fundos e avermelhados que pareciam estar embebidos na cachaça.
-Pois não, irmão?
-Pastor Castro?
-Isso mesmo. Em pessoa. E sua graça?
-Não tenho graça. Eu sou sem graça mesmo. – Sorriu em dentes amarelados o homem. -Posso entrar?
-Sim, fique à vontade. -Disse Castrinho, apontando uma cadeira de espaldar alto com o símbolo da igreja talhado no formão.
O homem sentou-se e foi direto ao assunto.
-Vim tratar de negócios.
-Negócios?
-Sim senhor.
-Que negócios? Alguma rádio?
-Não, não senhor. Eu vim negociar sua alma. -Disse o homem, sorrindo.
Castrinho achou aquilo estranho. Naquela altura da vida, já havia se esquecido da vida medíocre, do pacto com o diabo, do desejo da fama e fortuna.
-O que?
-Sim, o pacto, pastor Castro. O pacto.
-Que pacto?
-O pacto que o senhor fez.
Então Castrinho olhou no fundo dos olhos avermelhados daquele homem e se lembrou. E um frio lhe percorreu a espinha.
-Mas… Mas… O Chiquinho Belzebu… Quer dizer que…
O homem apenas assentiu com a cabeça. Abriu sua boca marcada por rugas e sorriu com os dentes amarelados.
-Funcionou.

FIM

Jurado de morte – Parte 9

January 27th, 2010 46 Comments

Zé agarrou-se ao tronco com tanta força que parou de sentir os dedos. Fechou os olhos e preparou-se para morrer.
Em seguida, outro tiro foi disparado. Mas não houve grito nem nada do tipo. Apenas um silêncio.
Zé abriu os olhos e olhou para baixo. De cima do galho, ele podia ver por entre a fresta do portão os homens colocando munição em varias armas. Eram todas armas de grosso calibre. A fresta era estreita, então não dava para ver muito, mas pelo pouco que viu, Zé Walter notou um arsenal digno de filme de guerra.
Ele ficou ali, agarrado ao tronco, vendo os homens testando as armas. Volta e meia um deles dava um tiro para o ar.
Um tempo depois varias vans dobraram a esquina da rua estreita e subiram a rua na direção da casa, como uma carreata silenciosa.
Da primeira van desceu um sujeito forte que fez sinal com a mão para as outras. As vans pararam e desligaram os motores.
Zé olhava da árvore, mas estava escuro e não dava para ver muito bem, mas lhe pareceu que as vans estavam cheias de gente. Zé contou sete vans no total. Calculou de cabeça que ali deviam estar cerca de quarenta bandidos aguardando alguma coisa.
O fortão bateu três vezes no portão de ferro. Dali a um tempo o portão abriu e o Buda saiu, segurando um fuzil.
Os dois se cumprimentaram e ficaram conversando na frente da casa. Zé estava muito alto, bem em cima deles. Não dava pra escutar o que eles estavam dizendo, mas pareciam combinar uma estratégia qualquer. O Buda pegou do bolso da bermuda um mapa e mostrou ao cara forte. Das vans desceram varios homens que se juntaram ao bolinho na porta da casa.
Zé teve medo que algum deles olhasse para cima. Com aquele monte de bandidos e armas, se isso acontecesse, ele seria transformado em peneira.
O Buda passou as informações nos mapas para alguns homens, que voltaram para as vans. Em seguida dois sujeitos magrelos trajando apenas bermudas brancas, que mais pareciam escravos de filme ou novela surgiuram de dentro da casa, carregando uma caixa pesada. Os caras abriram a caixa e Zé Walter viu uma enorme quantidade de armas ali dentro. Os homens saíam das vans e vinham em fila, receber o armamento. Revólveres, pistolas, metralhadoras… A quantidade de armas distribuídas era impressionante.
Quando as armas já estavam no fim, surgiu o Lion na porta. Ele foi cumprimentado por varios dos bandidos. Eles conversaram um pouco.
Ajeitaram-se em uma roda e oraram à Deus para saírem vitoriosos naquele bonde.

Zé ficou agarrado ao galho, olhando fixamente para ele. Era ele mesmo. Aquele sujeito dos olhos vazios e escuros. Assassino de mais de 500 pessoas, ali, bem debaixo dele, orando a Deus. Lion virava a cabeça para cima diversas vezes na oração. Cada vez que ele virava para cima, Zé temia ser descoberto. Mas felizmente, Lion orava com os olhos fechados.
A oração dos bandidos já terminava quando Zé escutou um pequeno estalo no galho em que se agarrava.
Seu coração quase parou pela segunda vez. O galho não ia aguentar. Ele era pesado demais.
Zé anteveu a cena dramática que aconteceria. O galho ia se partir e ele ia cair em cheio em cima do Buda, bem ao lado do Lion e seus amigos, armados até os dentes. E então, se não morresse na queda, ele seria levado para dentro daquela casa e sofreria torturas sem fim até que sua cabeça fosse decepada pela espada justiceira.
Zé começou a rezar mentalmente. Prendeu a respiração e os pequenos estalos pararam.
Nisso, os homens já voltavam para suas respectivas vans. Zé Walter respirou lenta e pausadamente, fazendo um esforço sobre-humano para parar de tremer de medo.
O Buda e o sujeito com cara de maluco saíram e entraram na Van preta. Lentamente as sete vans saíram em direção a rua de cima, seguidas pela van preta. Lion acenou para Buda e para o maluco e esperou até eles virarem a esquina.
Então, ele ficou na condição perfeita para que Zé Walter fizesse seu trabalho.
Zé lentamente levou a mão na cintura para pegar o revólver. Pegou, apontou… Mas o galho voltou a estalar. Estalos cada vez mais altos. E Zé abortou o tiro que pretendia dar.
Lion entrou na casa e fechou o portão de ferro com uma batida forte que ecoou na noite.

Zé moveu-se lentamente, com medo do galho quebrar. Quando ele finalmente saiu de cima do galho, o mesmo partiu e ficou pendurado na árvore.
Zé Walter sentiu um profundo alívio ao ver que se tivesse atirado ele teria despencado certeiramente de cara na calçada.
Zé ficou de pé, apoiado num outro galho mais acima. Agora ajanela de vidro quebrado estava mais distante, mas ainda era uma distância que ele achava que conseguiria saltar.
Olhou em volta, e não viu viva-alma naquela rua escura.
Zé Walter mirou a janela, agachou-se contra o galho em que estava em pé, colocou o revólver na cintura e retesou todos os músculos. Benzeu-se pedindo proteção a Deus e saltou no ar, com os braços abertos.
Zé Voou direto na direção da janela de vidros quebrados, e agarrou-se a mesma, espatifando a cara em um vidro, que caiu lá em baixo. Zé ficou pendurado, toscamente pendurado, com meio corpo para fora daquela janela. Então usando as pernas conseguiu se arrastar para dentro da casa. Quando ele caiu naquele cômodo escuro, suava em bicas e seu rosto doía.
Ele não via nada. Estava tudo escuro.
Tateou em direção oposta a janela e esfregou a mão na parede até encontrar um interruptor. Quando acendeu a luz, percebeu que estava num quarto cheio de entulhos. Quadros, mesas, cadeiras, armários, um monte de coisa velha acumulada. O quarto mais parecia um brechó.
Zé torceu para que a porta estivesse aberta. Desligou a luz por precaução e girou a maçaneta lentamente. A porta fez um “click” baixo e abriu. Zé olhou pela fresta. Não havia ninguém. Era um corredor mal iluminado que dava acesso a uma escada que descia para o andar de baixo. E do outro lado, tinham duas portas. Zé já ia sair quando ouviu um barulho nas escadas. Ele voltou para dentro do cômodo-depósito e ficou com a arma na mão, de prontidão.
Viu pela fresta um dos negros de bermuda branca vindo calmamente pelo corredor. O negro passou direto pelo quarto-depósito e foi até uma das portas no fim do corredor. Lá ele entrou no que parecia ser um banheiro e a julgar pelo barulho que ouviu, Zé Walter percebeu que o negro estava urinando.
Esperou até que o negro passasse de volta. O homem veio e passou direto, indo para o andar de baixo. Zé foi até a escada. Lá de cima ele ouvia o som de uma televisão, misturado com uma musica Funk e escutava também o Lion falando num radio ou walk talkie.
Zé desceu as escadas com o máximo de cuidado. O revólver do taxista na mão. Ele olhou bem e viu que um dos negros estava lavando o carro, uma caminhonete de cabine dupla num jardim. A caminhonete era preta, com um enorme símbolo da milícia Thundercats estampado no capô. Era a caminhonete que tocava o funk alto. E dentro da casa, sentado na frente de uma televisão gigantesca que passava um filme pornô, sem camisa, segurando uma lata de cerveja numa mão e um walk talkie na outra, estava o Lion. Zé não conseguiu ver onde estava o outro negro. Ao que parecia, os dois eram os guarda-costas do Lion.
Zé pensou em pegar a arma e dar um tiro de lá do alto da escada no Lion, mas aquilo se mostraria um erro. Certamente que os dois negões iriam reagir, atirando nele. A casa devia estar repleta de armas malocadas em todos os cantos possíveis e imagináveis.
Assim, Zé se conteve mais uma vez. Esperou Lion parar de falar no Walk Talkie.
Quando Lion parou de falar, concentrou-se no filme. Tomou um gole de cerveja e ficou admirando duas louras peitudas que se atracavam com volúpia. Zé esperou pacientemente o momento certo de dar o bote.
Olhou da escada e pela janela da sala viu que o negão do carro estava terminando o serviço. O sujeito entrou na sala e virou-se para Lion:
-Patrão, o carro tá pronto.
-Beleza, valeu.
-Porra, que peitão, hein?
-Senta aí, pô. Bora ver o filme!
-Ah, não vai dar, patrão. Eu tenho que ir pra casa. Dona encrenca tá esperando.
-Ah, tá safo. Quer uma grana?
-Não, não precisa não senhor.
-Ah, neguinho. Vai a merda. – Disse Lion pegando uma caixa na estante. Da caixa ele pegou umas notas de dinheiro. – Toma essa porra. Tu lavou o carro, cumpadi. Toma aí. Compra uma roupa nova pra dona encrenca lá. – Disse rindo. O negro abaixou, recolheu as oito notas e agradeceu.
-Valeu, patrão. Mais alguma coisa?
-Não, não. Tá safo. Pode ir.
-Então até manhã. – Disse o guarda-costas, vestindo uma camisa encardida do Flamengo.
Lion colocou o DVD pornô em pause e levantou-se para levar o negro até a porta.
Da escada, Zé Walter via tudo. Ele desceu com cuidado e correu para a cozinha.
Da cozinha, ele viu pela janela de serviço o outro guarda-costas arrumando varias caixas no quintal. Zé pegou a maior faca de cozinha que viu, abaixou-se e saiu pela porta dos fundos. Esgueirou-se pelas caixas no quintal e ficou parado perto de uma piscina, na espreita do negro.
Quando o guarda-costas passou por ele, carregando uma pesada caixa de madeira, Zé Saltou sobre o homem, aragarrando-o num mata-leão e tampando a boca dele. Em seguida, enfiou-lhe a faca na garganta. Um jorro quente de sangue espirrou para entro da piscina. O negro tentou se debater e Zé arrancou a faca da garganta do negro e tornou a cravar novamente, dessa vez no peito. O guarda-costas ainda tentou se debater um pouco, mas perdeu rapidamente as forças. Zé Puxou o corpo ele para a parte mais escura do jardim e ocultou-o atrás de umas folhagens.
Em seguida, correu abaixado até a janela dos fundos. Olho de lá e viu, pela cozinha, que Lion estava novamente na sala.
Zé Walter não pensava em nada além de matar o desgraçado que o jurou de morte.
Correu para dentro da cozinha e de lá observou a sala. O líder da milícia ainda assistia ao filme pornô.
Entre uma ceveja e outra, lion estava cheirando cocaína na mesa de centro.
Zé andou silenciosamente até o sofá em que Lion estava deitado. Em silêncio, colocou a arma na nuca do homem. Lion deu um pulo com o susto.
-Mas que porra é essa? -Perguntou surpreso.
-Surpresa, filho da puta! Sou eu!
-Hã? Quem é você?
-Eu? Ah, vai se foder, seu merda. Vai dizer que não sabe quem eu sou?
-… – Eu te conheço… Você tava preso?
-Não, seu filho da puta. Eu que te coloquei lá. E você me ameaçou de morte. Tá lembrado, seu porra?
-O que?
-Não se faz de retardado, seu otário.
-Mas, mas… Calma, rapaz. É dinheiro? Eu tenho dinheiro aqui. Muito dinheiro. Guarda essa arma. Olha, quer um teco? Tá um teco aí. Essa é da pura!
-Guarda arma é o caralho. Teco é a puta que te pariu, seu esterco humano. Chegou tua hora seu Lion.
-Mas… Eu nem te conheço, rapaz. Que porra é essa? O que foi que eu te fiz?
-Você cometeu um erro, Lion. Você disse que ia me matar. Agora quem vai deitar é você.
-Mas… Mas. Eu não falei nada disso. Você tá maluco.
-Maluco? Eu? Não se faz de imbecil, que isso não vai mudar nada. Eu vim aqui não é por dinheiro nem por merda nenhuma sua. Eu vim pra fazer justiça. Eu vou te matar antes que você me mate.
-Calma, garoto. Calma. Vamos conversar. Dá um teco aí, porra. Você tá careta?
-Quer conversar, seu Lion? Então tá. Conversa com o capeta! – Disse Zé Walter antes de apertar o gatilho com toda força na direção da cara de Lion.
O tiro estourou e o corpo de Lion voou para trás, batendo sobre a televisão onde as duas louras peitudas ainda gemiam.
O corpo inclinou para frente e bateu enm cheio na mesa de centro, de vidro, estourando tudo numa nuvem de cacos de vidro e cocaína. Na nuca, Zé Walter viu o buraco do tiro.

-Toma mais, ô filho da puta.- Disse Zé, disparando mais três tiros no corpo, só pra “garantir”.

Subitamente, ele sentiu um alivio, mas um alívio tão avassalador de ter dado cabo do homem que o jurou de morte, que nem podia acreditar. Sua vontade era sair gritando de felicidade, dando tiros para cima.
Zé abriu a caixa na estante e pegou um maço gordo de notas. Enfiou todo o dinheiro que podia nos bolsos. Depois pensou em como sair dali. Pensou em Gisela. Prometeu a si mesmo que iria com ela fazer a viagem dos sonhos deles.
Ele já estava se dirigindo para o portão quando teve um novo insight.
Se ele saísse e largasse o corpo de lion daquele jeito, os homens do bonde quando voltassem iriam saber que alguém matou o chefe. Quem mataria Lion? Não demoraria alguém perceberia que o homem que matou Lion só podia ser ele.
Zé parou e pensou em alternativas. Voltou para dentro da casa. Atravessou a cozinha e foi para a área externa, onde estava a caminhonete. Olhou pelo vidro e viu a chave na ignição.
Voltou então para a casa, e subindo para o segundo andar entrou nos quartos. No quarto do fim do corredor, mal abriu a porta ele viu um bandeirão com o símbolo dos thundercats na parede. Do lado, estava um cofre. E na parede, sob um facho de luz dicróica, estava ela, a famigerada Espada Justiceira.
Uma réplica perfeita da espada do personagem do desenho.
-Caralho, que foda. -Disse Zé olhando a espada. A lâmina, afiadíssima.
Zé pensou naquela arma e em todos os que ela degolou.
Ele pegou a arma e desceu para a sala, disposto a vingar todos os mortos de uma só vez.
Entre gemidos de prazer e gritos obscenos vindos da Tv, ele desferiu um golpe preciso naquele corpo que derramou tanto sangue no tapete de pêlo branco que este ficou cor de rosa.
Zé agarrou Lion pelos cabelos e olhou bem nos olhos negros. Agora, virados para cima e embebidos em sangue, eles não poareciam tão ameaçadores.
Surgiu um barulho no radio. Alguém falou alguma coisa, mas o sinal era ruim e Zé não entendeu nada.
Zé pegou o walk talkie e guardou no bolso. Jogou a cabeça de Lion sobre o sofá e saiu. Pegou a caminhonete e foi para rua.
Fechou os vidros fumê, e partiu na direção do Morro do Carrapato. Já estava querendo amanhecer o dia quando Zé Walter chegou ao morro do Carrapato.
Zé desceu da caminhonete e fui até uma padaria que acabava de abrir. Ali ele chegou para o antendente e pediu um café.
O atendente colocou um café numa pequena xícara.
-Aí.
-Senhor?
-Tu sabe onde que tem uma boca de fumo aqui? -Disse entre goles de café.
O atendente sorriu maliciosamente.
-É do preto ou do branco?
-Dos dois.
-Ah, tô ligado. Se o senhor quiser, eu tenho aqui…
-Não, não. Eu quero em quantidade. Negócios, você sabe como é, né? Foi o Lion que me mandou vir comprar um bagulho do bom aí pra uma festa que ele vai dar.
-Ah, tô ligado. Tô ligado. – Disse o atendente do balcão sussurrando. -Então, tu ta vendo aquela rua ali? Perto da borracharia? Vai até o final e dobra a direita. É a casa azul com placa do sacolé. Pode dizer que foi o Dunga que indicou? É que eu ganho comissão.
-Claro, Dunguinha. Tua comissão tá garantida, meu chapa.
Zé tomou o restante do café, pagou e partiu com a caminhonete na direção indicada. Foi até o fim da rua. Virou cuidadosamente a caminhonete para a posição de saída. Então bateu na porta da casa azul com pleca de sacolé.
-Quem é? -Perguntou uma voz do outro lado da porta.
-Sou amigo do Dunga lá da padaria.
-Quer sacolé?
-Quero.
Uma pequena abertura na porta se abriu. Do outro lado, olhos avermelhados na escuridão.
-Qual sabor?
-Todos.
-Todos?
-É. -Disse Zé Walter, mostrando o bolinho de dinheiro.
Calmaí.
Então Zé escutou uma série de barulhos de trancas e a porta se abriu.
Zé viu que o atendente da porta era um molecote mgrelo de uns doze anos.
Dois negros estavam sentados numa sala vendo Tv. Perto da parede, um adolescente de uns dezessete anos pesava trouxinhas de cocaína numa pequena balança. Zé viu uma arma sobre a mesa.

Da cozinha veio um sujeito grande, com quase dois metros, de bigode, sem camisa e cabelão pixaím black power.
-Coé?
-Beleza?
-Tu vai levar quanto?
-Vou levar tudo.
-Porra, tudo? – O bandido arrelagou os olhos.
-Tudo. Você ouviu.
-Quanto vc tem aí?
-Tenho uns seis mil.
-Rá, rá, rá, rá! Seis mil não dá pra quase nada, ô pela saco.
-Que pena. -Disse Zé sacando a arma e acertando logo três tiros no peito do traficante. O cara caiu por cima do sofá, que capotou para trás com o peso. O moleque que pesava as trouxas levantou tentando alcançar um 765 que estava na mesa. Zé Acertou o moleque na cabeça. Os miolos e sangue se espalharam pela lateral da parede, tal qual uma pintura pós moderna do Jackson Pollock.
Entraram correndo dois outros pivetes armados vindos da cozinha. Zé Sacou o 765 da mesa e matou os dois antes que chegassem na sala.
O moleque que abriu a porta ficou parado, petrificado, com medo.
-O dinheiro. Eu quero o dinheiro, porra! -Disse Zé para o moleque.
O moleque apenas olhava pra ele, petrificado.
-Anda viadinho! – Zé Bateu com a arma nele. -Cadê o dinheiro, porra?
O moleque apenas apontou para a geladeira na cozinha.
Zé agarrou o moleque pelo braço e foi até a cozinha. Abriu a geladeira e viu uma quantidade absurda de dinheiro. Pacotes e mais pacotes de dinheiro.
-Caralho! É muito dinheiro. Vamos moleque, me ajuda a levar este dinheiro aqui lá pro Lion.
-Tio.. Calmaí, eles vão me matar… – Implorava o moleque com lágrimas nos olhos.
-Prefere que eu te mate então, seu puto? -Disse apontando o 765 na cara do garoto, que imediatamente concordou.
Ele foi soluçando com um saco de lixo cheio de dinheiro até o carro. Zé abriu a caçamba da caminhonete e o moleque jogou o dinheiro na caçamba. No total, Zé Walter e o menino levaram três sacos de dinheiro até o carro. Zé olhou bem dentro da cara do moleque. Apontou a arma.
-Olha aí, neguinho. Tu não vai falar nada que foi o Lion que mandou roubar a tua boca não, hein? Se falar o bicho vai pegar. Eu volto e vou escrotizar você e sua família.
O menino apenas acenou com a cabeça positivamente.
Zé pisou fundo no acelerador, descendo o morro a toda velocidade com a caminhonete dos Thundercats.

Em seguida, ele rumou na direção da estrada para as quebradas do Lion, na direção de Viçoso Jardim. O sol já estava raiando quando Zé chegou nas proximidades de um lixão, onde muitas famílias garimpavam um pouco de comida.
Zé jogou o carro num matagal das proximidades. Ele desceu do carro, pegou os dois sacos cheios de dinheiro e jogou lá no meio do lixão. Zé pegou um dos sacos, colocou nas costas e foi para a estrada.
Pegou um ônibus parador na estrada para Viçoso Jardim. Da janela do lotação, ele viu à distância, as pessoas miseráveis comemorando com o saco cheio de dinheiro. Aquilo o deixou feliz. Zé Desceu nas proximidades de onde havia deixado a Parati, perto da banca de jornal.
Ele abriu o carro, jogou o saco de dinheiro dentro. E esperou.
Algum tempo depois, ele viu passar as sete vans com homens armados até os dentes, saindo em disparada da casa. Era o bonde da morte.
Zé abaixou-se e esperou deitado no carro até o bonde passar. Enquanto esperava ele pensava para onde aqueles homens teriam ido.
Depois de algum tempo, quando a rua pareceu voltar ao normal, Zé Walter saiu com a Parati do cunhado de volta para casa.
Enquanto dirigia, Zé Walter lembrou que estava com o Walk Talkie de Lion. Aumentou o volume do aparelho e ouviu uma conversa:
-Tão onde? – Perguntava uma pessoa.
-Estão na base. Atirando. Veio a favela toda. Vem pra cá. Vem pra cá logo, porra! Eles tão matando todo mundo! -Gritava uma outra voz em meio a ruidos e estampidos.
Zé Walter sorriu. Aquele era o fim dos Thundercats.
Ele escutou no rádio que os traficantes da favela do Carrapato não quiseram deixar barato o roubo na boca de fumo. Como previsto, o aviãozinho do tráfico dera com a língua nos dentes, e todos os soldados dos Thundercats pensaram que foram os traficantes do Carrapato que mataram Lion. Zé descobriu pelo radio que o sujeito gigante da boca de fumo era o “Diagonal”, marginal perigoso, procurado há anos pela polícia. Diagonal era o lider de uma facção do crme organizado que visava o controle total das favelas. Por isso era desafeto direto do Lion. Zé Walter literalmente atirou no que viu e matou o que não viu.
O Rádio do carro dava conta de uma guerra sem precedentes entre as milícias do Viçoso Jardim e os comandos unidos das favelas, com prejuízos e incontáveis baixas para os dois lados.
Zé rumou para a casa de Armando. Tocou a campaínha e entregou o carro. A esposa dele atendeu. Sarita disse que Armando tinha ido trabalhar.
Zé entregou a Sarita a chave da Parati e pegou um ônibus para casa.
Ele estava morrendo de saudade de Gizela. Planejou chegar de surpresa, com o dinheiro e sair em seguida para comprar passagens para as Ilhas Gregas e Paris, o sonho da mulher dele.
Desceu do ponto com o saco de dinheiro nas costas sentindo-se o próprio papai noel. Ao chegar no predio, seu Limair estava na portaria, cheio de dedos.
-Seu José… Seu José… -Tentava falar o porteiro, gaguejando.
Zé percebeu que algo estava errado no tom grave na voz do porteiro. Olhou na cara do seu Limair, que perdeu a fala.
Zé Walter correu para o elevador e disparou para casa. Chegando lá, deu de cara com a polícia. Várias pessoas mexiam na casa, tirando fotos.
-O que é isso? – Perguntou.
-O senhor é o dono da casa? -Perguntou-lhe um policial anotando coisas num bloco.
-Sou.
-Meu nome é detetive Barros. Dona… Deixa eu ver aqui. Gi…
-Gizela. É minha mulher. O que houve? Fala pelo amor de Deus!
-Bom, Seu José. Sua esposa, como posso dizer, sofreu um atentado.
-O que?
-Pois, é. O IML já removeu o corpo, seu José. Está a sua disposição para reconhecimen…
-Mas… Mas… Não! Não é possível! – Zé Walter caiu de joelhos. Sentia o mundo desabando.
-Pois é, seu José. Os vizinhos acordaram esta noite com os tiros.
Zé Walter estava desconsolado. Apenas chorava. O policial continuou.
-Eles ligaram para a polícia e a patrulha que faz a segurança no bairro subiu. Encontraram sua esposa morta, esfaqueada. No quarto com ela estava uma outra mulher, que mais tarde foi identificada como Dona Sarah. Ela disse que era sua ex-namorada. Parece que ela tem problemas psiquiátricos. Ela estava repetindo uma coisa sobre ter avisado que ia matar a dona Gizela porque roubou o senhor dela… Que agora o caminho estava livre, que ela iria casar com o senhor. Ela estava completamente fora de si, seu José. Sinto muito… Tudo indica que foi um crime premeditado por uma pessoa com problemas mentais e…

Zé Walter já não mais ouvia o que o policial dizia. Ele estava tonto. Fechou os olhos. Sentiu que ia desmaiar. Chorou desconsoladamente até perder as forças e cair desmaiado no corredor do prédio.

FIM

Jurado de morte – parte 8

January 26th, 2010 4 Comments

Zé Walter dirigia o carro sentindo um estranho misto de emoções. Medo, angústia e uma estranha euforia coabitavam seu coração.
Enquanto dirigia ele pensava em como descobrir o paradeiro do tal Lion. Sem pistas nem idéias, partiu na direção do bairro Viçoso Jardim, um bairro pobre, tomado por algumas favelas e fábricas desativadas.
Zé chegou ao bairro na parte da tarde. Já escurecia quando ele finalmente estacionou a a Parati de Armando perto de uma pracinha.
Dali, Zé resolveu seguir a pé. Foi direto ao ponto onde umas duas vans com a marca dos Thudercats aguardavam a lotação completar.
Zé Walter teve o impulso de perguntar de cara para o sujeito da van onde encontrar o Lion, mas sabendo que ele fugiu do presídio, aquilo seria uma pergunta suicida. Certamente ele seria tomado por um policial civil e isso implicaria em sentença de morte naquele bairro perigoso, dominado pelas milícias e pelo tráfico, que disputavam uma guerra permanente pelo poder.
Zé Walter fez o oposto. Foi até o cara do espetinho. Um camelô que vendia espetinhos de “churrasco de gato”. Na verdade, os espetinhos eram de carne de boi e frango, assadas na brasa de uma minúscula churrasqueira de ferro fundido, toda encardida. Zé sentou ali no meio fio, perto de uma lata de lixo transbordante e ficou parado, degustando um churrasco de gato.
Não demorou, novas vans chegaram ao ponto final, e delas desceram os motoristas. Em menos de cinco minutos, uma pequena reuião de motoristas de van aconteceu na banca do churrasquinho de gato. Zé estava na lateral, obscurecido pela mal cheirosa lata de lixo, cheia de bagulho nojento e moscas.
O local era ruim, mas Zé podia ouvir perfeitamente a conversa dos motoristas. Falaram de futebol, de mulher, de problemas familiares, contaram piadas, falaram de desemprego, política, religião…
Zé já não aguentava mais ficar ali, parado do lado do latão de lixo. E nada dos desgraçados falarem do Lion. Só conversavam amenidades. Levou um bom tempo nisso. Tanto tempo, que Zé Walter já pensava em desistir e tentar outra abordagem. Foi nessa hora que chegou um velho gordão e careca, junto com um motorista de van com cara de maluco.
Os homens saudaram efusivamente o velho, um tal de Buda, e não demorou, o tom da conversa diminuiu.
O velho gritou para o “mineiro” do churrasquinho que queria aquele “clássico”.
Das gargalhadas e risadas em alto e bom som, agora os homens falavam entre dentes. A altura que eles falavam baixou tão consideravelmente que não tardou para que beirasse o incompreensivel. Zé esticava o mais que podia o pescoço para ouvir alguma informação, mas só distinguia poucas palavras.
O tal mineiro, o cara do churrasquinho, se aproximou do grupo trazendo um espetinho só de gordura. O velho Buda agarrou o espetinho de nacos amarelos de gordura de boi, pingando copiosamente e começou a comer feito um animal. Zé sentiu vontade de vomitar vendo o Buda comer gordura pura. Enquanto o “Mineiro” estava perto, e eles pararam de falar. Aquilo era suspeito. Assim que o “mineiro” voltou para a churrasqueira, eles retomaram a conversa.
Quando você não consegue ouvir uma frase completa, precisa de muita atenção, pois uma outra palavra ou duas na frase de resposta, pode lançar pistas fundamentais na construção das palavras que ficaram faltando. Zé fazia assim e gradualmente, consegiu descobrir que o tal Lion estava sendo chamado de “rei”. Aquilo foi fácil descobrir, já que Lion é a mesma coisa que Leão. E Leão é “o rei da floresta”.
Em seguida, ele soube que o Leão, estava em outra “jaula”. E que já tinha mandado afiar o “facão”. No meio disso, sobravam palavras disconexas e incompreensíveis. Mas ele conseguiu perceber que os homens falavam em “bonde” em “banco” e em “derrubar geral”. Um deles falou algo que não deu pra saber o que era, mas fez com as mãos um movimento estranho, como o de colocar uma caixa sobre uma mesa. Depois fez um movimento simulando correr e fez um barulho assim “booooom!”. Zé compreendeu que aquilo só podia significar que Lion planejava explodir alguma coisa. Mas o que seria? Um banco?
Não era impossível. A quadrilha estava crescendo rapidamente e não demoraria a se desmembrar novamente para ocupar outras comunidades carentes da cidade. Isso explicaria o “bonde” e explicaria também a necessidade de roubar um banco para cobrir o alto custo de uma operação de guerra. Os milicianos roubam bancos porque sabem que bancos possuem seguro. Roubar bancos é menos prejudicial à imagem da milícia nas comunidades do que aumentar as taxas que os mantém. Além do mais, com o aumento substancial na entrada de dinheiro, eles podem dispor de mais armamento e melhor qualidade nas proteções necessárias para entrar em confronto com os traficantes. Certamente que “derrubar geral” significava entrar nas favelas escrotizando todos os soldados dos comandos que as controlavam, assumindo o controle e estabelecendo os novos padrões “thundercats” de conduta e arrecadação.
Zé continuou de ouvido em pé para descobrir mais informações e soube que o tal “Bonde” sairia naquela madrugada. O Rei controlaria tudo por rádio, da “jaula”. Como Lion não estava mais preso, a tal nova jaula seria algum tipo de esconderijo. Era previsível que Lion não voltasse para seu quartel-general em função de estar ainda procurado pela polícia.
A informação mais importante daquela noite e que valeu as horas desperdiçadas ao lado daquela lixeira nojenta de onde pingava um suquinho de lixo marrom-esverdeado, surgiu com o velho barrigudo, o tal “buda”. O Buda falava um pouco mais alto que os motoristas e Zé pôde ouvir com total clareza que ele iria se encontrar com o Rei dali a algumas horas para acertar o lance do bonde.
Zé ficou ali mais uns minutos. Comeu outro churrasquinho e esperou.
Depois de mais dois churrasuqinhos “clássicos” de banha amarela, o Buda deu-se por satisfeito e saiu dali com o motorista com cara de pirado.
Zé levantou-se e saiu atrás, guardando cerca de vinte metros deles por precaução.
Os dois caminharam pela avenida de acesso à pracinha até chegarem numa van preta, sem placa, que estava estacionada na porta de uma garagem.
Zé marcou bem a Van e correu para o lado oposto, para pegar a Parati.
Assim que entrou na Parati, ele viu a van passar por ele com os dois sentados na frente.
Zé esperou ainda alguns poucos minutos até que houvesse uma brecha no trâsito para que ele pudesse pegar o caminho na outra mão.
Quando finalmente conseguiu, ele ainda podia ver a van preta ao longe, mas havia vários carros entre os dois. Isso ajudava um pouco a mantê-lo longe da vista dos dois.
À medida em que o tempo foi passando, Zé percebeu que eles estavam saindo do bairro Viçoso Jardim e entravam numas quebradas distantes. Eles entraram por ruas cada vez menos movimentadas de modo que chegou um momento em que só havia a Parati, um fusquinha com adesivos evangélicos e a van preta.
Zé teve medo que com a redução do tráfego, eles desconfiassem que estavam sendo seguidos. Então aumentou a distância entre os carros, mas mantendo a van sempre ao alcance da vista.
Os homens pararam o carro numa rua estreita perto da entrada de um morro. Zé parou perto de uma banca de jornal, uma esquina antes.
A hora estava bem avançada e era o início da madrugada. Zé Walter desceu do carro e se esgueirou pelos muros, para ver os dois andando, sozinhos na rua estreita. Eles andaram, pararam e olharam em volta. Zé temeu ter sido visto. Espremeu-se num muro recuado e torceu para não dar merda. Por sorte, não deu.
Então Zé escutou os dois darem três socos num portão de ferro. Dali a um tempo, o portão abriu e eles enraram.
Zé correu até o portão na tentativa de escutar alguma coisa, mas não ouvia muita coisa além de um funk tocando lá dentro e algumas risadas.
Zé tentou descobrir uma forma de invadir o lugar, mas o esconderijo de Lion parecia intransponível. Era apenas um grande portão de ferro, sem pintura, só no zarcão, com alguns posteres de bailes Funk rasgados colados na frente. Não havia nenhum símbolo ou marca que ligasse o local com a milícia dos Thundercats.
Zé atravessou a rua e tentou olhar de longe, na esperança de ver alguma coisa. Mas não havia nada que indicasse uma forma de acesso.
Então ele percebeu que havia uma árvore, uma amendoeira, que tinha uns galhos baixos e lá em cima, um galho se aproximava bastante de uma janela com vidros quebrados no segundo andar da casa.
Zé correu para a amendoeira e começou a escalar. Como não tinha preparo físico ou experiência em escalar árvores ele se arranhou e teve que tentar pelo menos três vezes antes de conseguir atingir o galho principal.
Ele finalmente conseguiu e rapidamente foi escalando a árvore, até estar a cerca de dez metros do chão.
A janela com vidro quebrado estava a menos de um mísero metro dele. Zé esticou-se o mais que pôde, mas o galho era fino e ele ficou com medo de quebrar. Foi nessa hora que ele ouviu um tiro. Um tiro tão alto que seu coração quase saiu pela boca.
-Puta que pariu! Me viram! -Pensou.
(continua)

Jurado de morte – parte 7

January 20th, 2010 24 Comments

Zé Walter comprou imediatamente aquele jornal. Sentou-se no meio fio do posto, perto do jardim, e começou a ler.

11 FOGEM DE PRESÍDIO – LION E ELIAS BAGACEIRO NA RUA DE NOVO

Onze presos conseguiram fugir na noite de ontem da P 2 de Presidente Wilson, presídio de segurança máxima na região metropolitana da cidade. Os fugitivos escaparam usando uma corda conhecida como Teresa, feita com lençóis.

A Polícia Militar procura os onze fugitivos e fez a recontagem dos detentos no fim da tarde. A penitenciária abriga presos de alta periculosidade, entre eles alguns líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC), Terceiro Comando, Amigos dos amigos (ADA) e de facções diversas, como a milícia Thundercats. Os principais fugitivos, conhecidos como “estrelas” seriam Elias Soares de Pimentel Braga, o “Elias Bagaceiro” e Janilson Cunha de Bastos Coelho, o “Lion”, famoso por decepar a cabeça de seus desafetos a golpes de espadadas.

Há dificuldades para se obter informações sobre a fuga. “Não temos autorização neste momento para dar informação a respeito da fuga”, resumiu, irritado, o agente penitenciário Antônio Silva. Segundo ele, a direção do presídio estava reunida para analisar a situação. Por meio da Assessoria de Imprensa, a Secretaria da Administração Penitenciária  limitou-se a informar que vai apurar em que circunstâncias ocorreu a fuga. A SAP não divulgou a lista completa dos  nomes dos fugitivos e nem confirmou se há líderes do PCC entre eles.Segundo informações não oficiais colhidas por O GLOBO, apenas Lion, o líder da milícia Thundercats está entre os fugitivos célebres.

CABEÇAS VÃO ROLAR – A MARCA DA MILÍCIA

Nos últimos meses, as atenções se voltaram para a expansão desenfreada das milícias nas favelas da cidade. Formados por policiais e ex-policiais militares, bombeiros, vigilantes, agentes penitenciários e militares, muitos deles moradores das comunidades, esses grupos cobram uma taxa dos moradores, em troca de proteção e repressão ao tráfico de drogas. Instaladas inicialmente na Zona Oeste da cidade, elas chegaram ao subúrbio, às vias de acesso à cidade e regiões periféricas consideradas estratégicas. A Prefeitura calcula que 55 favelas já estão em poder das milícias. Já a Secretaria de Segurança suspeita que o número seja maior.

Em março de 2000, O GLOBO  já noticiava o surgimento destes grupos. Na época, atuavam em 42 comunidades, onde traficantes tinham sido expulsos. Desde então, os paramilitares vêm ampliando o território, impondo taxas de proteção a moradores de favelas e até bairros. As regiões afetadas pelo poder paralelo do crime, são marcadas por símbolos que deixam claras as zonas de ação dos grupos.  Os símbolos variam de formas geométricas simples a complexos artifícios que passariam desapercebidos das pessoas que não conhecem o local. Eles vão de triângulos verdes que são pintados nos muros de casas, a formas complexas, cuidadosamente grafitadas, como o símbolo dos Thundercats, desenho animado bastante popular na década de 80.

Levantamento do jornal com base em investigações da Corregedoria Geral Unificada das Polícias e da Subsecretaria de Inteligência, publicado em janeiro, indica a participação de 179 policiais, a maioria militares, em 18 grupos. Entre os citados figuram um tenente-coronel, um major, três capitães e cinco tenentes.

Os números comprovam que em um ano foram agregadas 30 novas comunidades à área de domínio das milícias. Na esteira da expansão de poder, os grupos também passaram a atuar na agiotagem e exploração de centrais clandestinas de TV a cabo. Conhecidas como “Gatonet”, as redes clandestinas somam pelo menos 600 mil usuários na região metropolitana da cidade, o que daria dois assinantes informais para cada assinante formal, segundo estimativas da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Na ocasião, o ex-secretário Nacional Antidrogas Walter Fanganiello Maierovitch comparou a atuação das milícias à da máfia italiana:

- Em um primeiro momento, eles cobram para garantir a segurança, mantendo as comunidades numa espécie de camisa-de-força. Em seguida começa o flagelo do terror.

Algumas milícias possuem características próprias para suas execuções. É o caso da milícia Thundercats, que ficou conhecida por torturar e degolar a golpes de espada e facão as pessoas que não compartilham de seus preceitos. Sabe-se que os Thundercats já mataram 500 pessoas nos últimos cinco anos. Segundo o inspetor da polícia Civil Robson Cruzoé de  Almeida, o líder da Thundercats Janilson Cunha de Bastos Coelho, o “Lion”, seria um poderoso e perigoso psicopata, com ligações na polícia e no mercado de transporte clandestino. Lion teria inventado o golpe da “espada justiceira” e desde então não parou mais de matar.

A notícia da fuga de Lion na noite de ontem causou alvoroço entre os moradores de Viçoso Jardim. Lojas amanheceram fechadas e  as vans irregulares desapareceram das ruas, deixando um saldo de milhares de moradores das comunidades próximas sem acesso ao trabalho e bastante irritados. Procurados por O GLOBO, nenhum morador da região quis se pronunciar. Todos temem falar alguma coisa que Lion não goste e terem suas cabeças decepadas.

“Causa espanto que em pleno século XXI as pessoas ainda tenham medo de perderem as cabeças, como na Revolução Francesa” – Diz o professor de sociologia Dr. Ibrain Paiva Swift, da Universidade Federal Fluminense.

A polícia prometeu empenho em localizar e trazer de volta os 11 foragidos, mas a julgar pelo medo das pessoas, é praticamente certo que com Lion novamente nas ruas, “cabeças vão rolar”.

Zé Walter fechou o jornal. Ele tremia. Com Lion nas ruas o problema de encontrar e “cortar o mal pela raiz” se complicava muito. Era certo que a polícia havia facilitado aquela fuga. Lion era um homem poderoso, com uma rede de informações e contatos que dava pra perder de vista. Obviamente aquilo facilitou as coisas.

Zé Walter não duvidava que inclusive a fuga dos onze era apenas uma desculpa para não dar tanto impacto para o fato de que Lion fugiria sozinho. Com onze meliantes nas ruas, ficava mais simples encontrar um ou outro e enrolar a pressão popular de que a polícia estava trabalhando. E fariam isso até que a memória curta do brasileiro se encarregasse de apagar todos os vestígios daquele pequeno golpe, custeado com dinheiro sujo.

Zé tentou se conter. Se acalmar. Precisava por as idéias em ordem.  Olhou a hora diversas vezes. Nada do Armando chegar no posto Gauchão do Brejo.  Quando finalmente Armando apareceu, Zé já não agüentava mais esperar e já pensava em pegar um ônibus parador na rua de trás do posto, até a rodoviária e de lá correr a pé até sua casa.

-Fala mermão! – Gritou Armando de dentro da Parati.

-Porra, tu demorou pra caralho, seu viado.   -Respondeu Zé Walter, entrando no carro.

Os dois ficaram um tempo no posto Gauchão do Brejo. Armando queria saber tudo com detalhes. Zé não perdeu tempo e contou-lhe tudo que acontecera até ali. Toda aquela história sobre ser ameaçado de morte, fuga, homem da pizza, bigodudo sinistro do Opala preto, motorista gordinho, balconista magrelo do posto, o roubo do Escort XR3 e etc.

À medida em que contava toda a saga dos seus últimos dias, Zé Walter explicava também suas conjecturas mentais. Armando inicialmente falante e interessado, gradualmente adquiriu uma postura mais e mais assustada. Quando Zé acabou de lhe contar o que havia se passado com ele, notou que seu interlocutor estava esquisito, com os olhos arregalados, olhando para ele.

-O que foi porra?

-…

-Fala, Armando. Que é? Tá bolado?

-Cara… Como que eu vou te dizer isso? Ai meu Deus… Bom,  cara… Se liga, acho que você está doente.

-Que merda é essa que você tá falando seu bosta?

-Meu… Isso aí, cara. Eu já vi isso num filme uma vez, meu. Isso é nóia cara. Tu tá tomando remédio?

-Ah, porra. Vai se foder, Armando. Eu te liguei pra você me ajudar e você aparece com esta conversa fiada de maluquice, meu? Tu acha que eu sou maluco? Olha bem pra minha cara, porra. Olha. Porra olha aqui. Aqui, nas fuças. E agora, agora fala, eu sou maluco?

-Cara… Me larga. Me larga. Pára, calmaí. Meu, Zé, você é um amigão, cara. A gente trabalha junto e porra, meu… A gente cresceu junto, né? Tu sabe que eu sou brother, que eu não vou te sacanear. Mas meu..  Isso aí é loucura. Tu deu uma surtada, cara. Uma surtada assim, de leve. Não quer dizer que você seja…

-Eu não sou maluco porra! Eu não sou maluco! – Zé gritava dentro do carro. E o fato de gritar que não é maluco é uma coisa que faz qualquer pessoa parecer realmente maluco. As pessoas do posto começaram a olhar para eles, e vendo que estavam chamando atenção, Zé pediu para Armando sair com o carro.

Armando acelerou a Parati para a estrada e durante vários minutos ambos ficaram em silêncio no carro. Zé Walter estava visivelmente irritado.

Armando quebrou o gelo:

-Zé?

-Fala.

-Zé, você tem alguma prova concreta de que isso que você me contou aconteceu?

-Como assim?

-Tipo, cadê o papel da ameaça?

-Pois é… O cara levou.

-Cara? Que cara?

-O cara da pizza, que invadiu a nossa casa. Porra, tu não prestou atenção não, seu viadinho?

-Ah, tá. O cara da pizzaria que entrou no seu apartamento com uma pizza que você não pediu, que mexeu na sua televisão e que você acha que foi lá pra te matar. Mas que não existe testemunha, né?

-… – Zé ficou pensativo. De fato, tirando a Gizela, ninguém tinha visto o homem da pizza.

-Tá, mas isso é irrelevante. Veja por exemplo o revolver do taxista, ó.  – Disse já tirando o 38 da cintura.

Armando quase perdeu o controle do carro quando viu a arma reluzir do lado dele.

-Caralho! Vira isso pra lá, porra!

Zé Walter riu e guardou a arma. Pela primeira vez podia ver, na expressão do cunhado que ele começava a acreditar no que Zé tinha contado.

-Meu Deus, cara… O que foi que você fez? Tu não matou o cara, né?

-Não, não… Foi como eu disse, mandei ele vazar pelo mato adentro. E eu fui embora com o taxi.

-E o que a gente vai fazer, Zé?

-Eu não sei ainda. Quando eu te liguei, eu até falei em chamar o Timbú. Meu plano era matar o Lion.

-Hã? Tá maluco? Que porra é essa? Pirou, Zé?

-Não, cara. O jeito é esse mesmo. O cara vai me cercar até me pegar. Se eu derrubar ele antes, eu escapo.

-Mas Zé, tu não é assassino, cara. Tu é Arquiteto.

-Exato. Aí que entra o Timbú.

-Cê tá pirado mesmo. Rapaz, o Timbú né brincadeira não, meu. O cara é mau. Eu tenho até medo dele.

-Que se foda. Você fala isso porque não é a tua cabeça que vai ser decepada com aquela porra de espada justiceira, meu. Se ponha no meu lugar. Imagina teus filhos sem pai… Vendo a foto da tua cabeça em cima de um muro da Zona Oeste, na capa do jornal…

-Pára, pára. Chega. Olha aqui, Zé… No início eu pensei que você estava ficando lelé. Mas agora pelo que eu vejo é sério mesmo o negócio.

-Pois é. Tô te falando. É sério mesmo. O cara quer me matar. Ele não vai descansar enquanto minha cabeça não for parar na sala de troféus dele. Mas não vai adiantar chamar o Timbú mais.

-Por que?

-O cara fugiu.

-Fugiu? Tá zoando.

-Não. Tá na capa do jornal. O cara fugiu com mais onze malucos na noite de ontem.

-E agora Zé?

-Agora que eu não sei mais o que a gente faz. O cara fugiu e vai se reorganizar. E aí vai vir atrás de mim…

-Ou…

-Ou o que, porra?

-Ou ele fugiu do presídio para poder te matar. -Disse Armando sorrindo.

Aquela frase de Armando deu um estalo na cabeça de Zé Walter. De fato, fazia algum sentido. Se o bigodudo do Opala/homem da pizza, tivessem passado sua posição e localização, Lion saberia exatamente o que fazer para dar cabo da vida dele. Obcecado por matar o jurado que o condenou, Lion então teria investido uma fábula de dinheiro numa bem elaborada fuga. Em seguida, na rua, dedicaria seu tempo a caçar e matar seu desafeto e então, quem sabe, voltar ao presídio, de onde continuaria a controlar seus negócios sujos, com a tranquilidade e paz que compete a todo facínora.

-É. Não tem jeito.

-Não tem jeito o que? – Perguntou Armando.

-A gente tem que achar o lugar onde o Lion está.

-… – Armando apenas olhou para ele, com os olhos arregalados de pavor. -Tá falando sério?

-Tô. Nunca falei tão sério em toda minha vida.

-Ai meu Deus do céu. -Armando gemeu apertando as mãos no volante. Estava suando.

-Se você não quiser se envolver, eu vou entender. Só peço que você me empreste seu carro. O resto eu faço.

-Ai Zé… Não acredito que você teria coragem de uma porra dessas.

-E aí? É com você agora. Tá dentro ou está fora?

-Tô… Fora. Cara, eu tenho filhos… Sabe como é que é…

-Eu sei, eu sei. Entendo você. Deixa comigo, cara.

Os dois continuaram em silêncio no resto da viagem. Armando parou na porta da casa dele.

-Tem certeza que quer fazer isso, Zé?

-Tenho.

-Bom. Sua cabeça é seu guia, meu amigo. -Disse Armando, abraçando Zé Walter.

-Valeu meu brother. Eu devolvo sua Parati. Eu juro.

Armando saiu do carro e ficou olhando até Zé Walter sair com o carro e virar a esquina, na direção da comunidade de Viçoso Jardim.

(Continua…)

Jurado de morte – Parte 6

January 12th, 2010 11 Comments

Zé Waler dirigia velozmente aquele táxi. Enquanto guiava pelas tortuosas estradas, ele ia pensando como faria para matar Lion.

O presidio é algo feito para manter a sociedade a salvo dos bandidos, mas isso também dificulta as coisas quando se trata de tentar matar alguém lá dentro.

Enquanto esperava para ultrapassar uma van, lembrou-se da mulher. Pensou como foi burro de optar por aquela fuga, desesperada, para a casa de campo do Amarildo. E se o bigodudo resolve se vingar na Gizela?

Aquele pensamento o arrepiou. Ele estava tão desesperado para fugir que não pensou o suficiente para garantir a segurança da própria mulher.

Sentiu um estranho nó na garganta. Há dois dias que a vontade de chorar estava entupida em sua garganta como se fosse uma casca de pipoca. Tentou abstrair Gizela. Voltou-se para a estrada. Concentrou toda sua atenção por varios minutos em dirigir o taxi, fazendo o percurso de volta na maior velocidade que podia. Sorriu quando imaginou que o taxista balofo iria receber aquelas multas no atacado e no varejo.

Zé estava disposto a apagar Lion. Mas como fazer isso? Devia ser de um modo rápido, eficiente, sem testemunhas e de forma instantânea. Mas não… Antes ele iria deixar bem claro para o Thundercat maldito que ele estava morrendo porque se meteu a besta com a pessoa errada.

Ele que se meta de macho lá para as negas dele. Pois agora ele mexeu com o cara errado. Ele é Zé Walter…

-Armado e perigoso… – Disse sorrindo para si mesmo, olhando no retrovisor do taxi.

Zé sentia uma estranha euforia. Uma louca energia que tomava seu coração e o órgão já disparava só de imaginar o dedo no gatilho com o trabuco na cara de Lion. O que se sucederia era difícil de imaginar, mas seria apenas eles dois naquela cela imunda. Então haveria o estampido e em seguida, o alívio… Ele estaria livre.

Zé sentiu o estômago doer. Estava com fome.

Caiu em si que não comia fazia muito tempo. No nervoso da situação no taxi, não sentira fome, mas agora passado aquela parte do pesadelo, a fome veio galopante.Olhou para o painel e viu que o combustível já estava nas últimas.

Zé estacionou na beira da estrada, numa rede de lanchonetes especializada em pão com linguiça anexa a um posto de gasolina.

Correu lá pra dentro e já pediu logo dois pães com linguiça e queijo, mais um refrigerante de 500ml.

O atendente magrinho olhou pra ele de cima abaixo.

-Tá com fome, hein patrão?

-Pago ali? – Perguntou Zé Walter.

-Sim senhor. Ali no caixa.

Zé desembrulhou o dinheiro embolado no bolso que iria usar para pagar o taxi. Pagou a comida e sentou-se em uma mesa no canto. Perto da janela. Dali ele podia ver o taxi. E uma meia duzia meninas-frentistas que usavam calça de ginástica tão justa que permitiam aos motoristas de caminhão que passavam por ali antever todos os detalhes de sua anatomia sexual.

Zé ficou ali pensando naquelas mulheres. Tinha uma que realmente tinha um corpo escultural, mas o rosto dela era mais feio que o do capeta.

Zé estava absorto observando as reentrâncias que se formavam nas calças de ginástica. Ele pensava se seria uma obrigatoriedade as mulheres frentistas daquele po0sto não usarem calcinha.

Nisso, o magrelo do balcão chegou com os pães com linguiça e o copão de refrigerante.

-Bom apetite, moço. – Disse o magrelo.

Zé achou estranho e percebeu que o magrelo do balcão havia olhado de uma forma diferente pra ele.

Enquanto saboreava o pão com linguiça, Zé vasculhava sua mente em busca de respostas para muitas perguntas. Sua cabeça estava confusa, pensando em varias possibilidades ao mesmo tempo. Mas enquanto comia, deteve sua atenção por breves momentos naquele rapaz. De tempos em tempos, o magrelo do balcão olhava pra ele.  Olhava, olhava e quando percebia que Zé estava olhando de volta, desviava o olhar de forma brusca e disfarçava, passando um pano encardido em cima do balcão de metal.

A lanchonete estava meio vazia. E entravam uns poucos gatos pingados.

Zé ficou disfarçando e olhando para o sujeito. Notou que ele olhava detidamente para o Taxi do lado de fora. E então olhava pra ele.

Estava ficando cada vez mais claro para Zé Walter que o magrelo do balcão não era flor que se cheirasse. Naquela altura do campeonato, não seria de se espantar que o magrelo estivesse mancomunado com os assassinos.  Ele estava olhando o taxi, quando pegou um pedaço de papel de pão e anotou alguma coisa. Zé sentiu um novo arrepio. Certamente que o magrelo agora estava anotando a placa do Taxi.

Zé não esboçou reação. Mas o pão com linguiça perdeu imediatamente todo o seu sabor. Enquanto mastigava aquela massa amorfa e sem gosto, Zé traçava um plano e produzia explicações potenciais para aquele comportamento do balconista.

Certamente que o balconista da lanchonete devia conhecer muita gente. Era um entra e sai enorme ali. Sobretudo nos horários de pico, como na hora do almoço. Será que ele conhecia o gordinho? Talvez fosse isso. O Magrelo estava achando estranho que o motorista do taxi fosse outra pessoa que não o gordinho.

Nisso, o telefone celular do magrelo tocou, lá atrás do balcão. Zé acompanhou com os olhos e viu quando o magrelo entendeu. Não dava pra ler os lábios, pois aquilo se passava bem longe, mas certamente que o magrelo estava falando com alguém sobre ele. O magrelo apoiou-se sobre o balcão e ficou falando, falando. Falava e olhava pra ele. Depois olhava para o Taxi. E então voltava a olhar pra ele.

Zé pensou que talvez pudesse ser uma ligação do próprio motorista do taxi. Naquela altura, ele já teria conseguido chegar a um bar, uma mercearia, um lugar qualquer na beira da estrada que tivesse um telefone. Sabendo quanto o carro tinha de gasolina, não seria difícil que o gordinho calculasse com razoável precisão que Zé teria que abastecer. Como esses taxistas conhecem Deus e o mundo, era provável que em algum papelote dobrado e amassado, ele encontrasse números.  Números escritos de caneta, já borrados e manchados pelo tempo, mas que ainda fossem possíveis de serem decifrados. E então o gordinho ligaria, desesperado, tentando saber com alguém do posto se o taxi dele, roubado, estava passando por lá.

O magrelo continuava, a falar. Falava baixo, quase sussurrando, mas sem perder o sorriso cínico que o caracterizava. Continuava a olhar de rabo de olho para Zé Walter.

Zé sabia que durante tanto tempo de conversa, certamente os dois estavam tramando algum tipo de plano sórdido para impedi-lo de voltar. Tomou o resto de refrigerante que havia no copo e foi para o banheiro urinar.

Passou bem perto do balcão, onde o magrelo falava no telefone. Tentou ouvir alguma coisa, mas deu azar e não conseguiu distinguir nenhuma só palavra que o magrelo falava. Enquanto passava, foi acompanhado pelo olhar do balconista.

Ao chegar no banheiro, ele estava bem sujo. Paredes escurecidas por vazamentos antigos, e rabiscos nas portas do sanitário. Zé escolheu uma baia aleatoriamente. Enquanto urinava, notou que alguém havia entrado no banheiro. Ao se virar, deu de cara com o magrelo. O magrelo andou lentamente, olhando nos olhos dele e entrou no último  sanitário.

Zé Walter saiu do banheiro rapidamente. Imaginou que aquilo poderia ser algum tipo de armadilha.

Voltou para o salão e olhou em volta. Nem sinal do celular do magrelo.

Nisso um homem encostou a mão no ombro de Zé, que assustou-se.

-Ei, moço. O senhor que é o dono do taxi ali?

-N..não, não.

-Ué. Não?

-Não, não. Não senhor. Não sou não. Não sou não senhor.  -Disse balançando a cabeça.

-Uai, sô. Mas o rapaz do balcão me disse…

-O senhor me dá licença? Só um minuto… – Disse Zé Walter, saindo apressado.

Ele havia sido descoberto. Certamente o magrelo tinha recebido a ligação do gordinho, que por sua vez já devia ter alertado todos os bandidos da quadrilha do Lion. Aquele homem parrudo só podia ser um deles. Zé correu para fora da lanchonete. Disparou para o estacionamento em frente, onde deu a volta no taxi. Abriu o porta-luvas e tirou a arma. Colocou a arma na cintura, cobrindo com a camisa para disfarçar. Fechou o taxi e correu. Ele correu até o posto, onde passou a andar por entre os caminhões estacionados. Volta e meia abaixava-se e olhava por baixo da longarina, tentando ver algo de diferente na lanchonete.

Viu então que o homem grande saiu junto com o magrelo do balcão e ficaram olhando para todos os lados. Certamente que procuravam por ele. Desceram as escadinhas e foram até o estacionamento. Ali circularam o taxi e ficaram procurando…

Zé estava certo que aqueles dois estavam no encalço dele. Não havia mais como escapar. Provavelmente o Lion já teria determinado, diretamente do presídio que algum veículo o interceptasse na estrada. Zé Walter se odiou pela estupidez de parar naquela lanchonete.

Foi quando notou um velho Escort XR3 com um casal que entrava no posto. A moça desceu e foi andando para a lanchonete do pão com linguiça. O jovem rapaz que dirigia foi até uma daquelas moças que não usavam calcinha e pediu para encher o tanque. Depois de encher o tanque , ele foi até a mangueira de ar calibrar os pneus. Deixou o carro ligado e começou a encher os pneus do Escort uma  um. Enquanto o jovem enchia o pneu traseiro, Zé esgueirou-se pelo jardim do posto e correu como uma bala para dentro do carro.

Antes que o rapaz pudesse perceber, Zé Walter já estava dando ré a toda velocidade com o carro dele. Na confusão, ele arrancou um pedaço da mangueira de calibragem, disparando o ar da mangueira, que serpenteou no ar como uma cobra. O rapaz desatou a gritar e a moça veio correndo com um pão na mão de dentro da lanchonete.

-Ladrão! Ladrão. – Todo mundo gritava.

Zé deu um cavalo de pau com o Escort e entrou na estrada, desviando de um caminhão. Pisou fundo no acelerador. Enquanto dirigia tentava vasculhar sua memória para saber se o magrelo ou o grandão o teriam visto roubar o Escort. Teve a sensação de que não vira nenhum dos dois na hora do roubo, mas não tinha certeza.

Ele já tinha dirigido alguns quilômetros quando notou que a direção estava pesada.

-Puta que pariu! O pneu! – Falou sozinho.

O carro estava anormalmente pesado. Zé encostou o Escort roubado num acostamento, perto de uma bica.

Desceu e viu o tamanho da cagada. O pneu de trás estava vazio. Completamente vazio, ainda com o bico da mangueira de calibragem engatado. Na pressa, ele arrancou com o carro e o bico que enchia passou a fazer o favor de esvaziar todo o pneu.

Zé sentiu que estava lascado. Certamente que dali a poucos minutos alguma patrulhinha viria em seu encalço.

Abriu o porta-malas. Estava lotado. Zé saiu jogando tudo para fora. Edredom, colchão, mantimentos, latas gaiolas, sacolas de roupas e malas velhas. Finalmente alcançou o estepe. Vazio.

-Caralho! Tá vazio. – Disse.

Ficou pensando no que fazer. Não havia como escapar, só tinha estrada e matagal para onde quer que olhasse. Foi quando surgiu uma Brasília verde-abacate que encostou atrás do Escort.

Desceu um velhinho.

-Opa.

-Oi.

-Furou?

-Pois é…

-E o estepe?

-Vazio.

-Quer ajuda aí?

-Bom… Pode ser. Será que o senhor poderia me fazer um favor? Preciso muito ir até o posto mais próximo, pra encher o pneu. O senhor pode me levar?

-Claro, filho. Entra aí.

Zé Walter entrou no carro do velho.

-E as coisas? Não vai guardar?

-Ah… Sim, é.. Pois é, né? As coisas. Mas tá safo. A minha mulher guarda.

-Mulher?

-Ah.. é. Veja bem… É… A minha mulher, o senhor sabe…

-Ah, já sei. Nem precisa falar. Tá no matinho, né? A minha finada Jacinta era bem assim, não podia viajar. Mal botava o pé na rua já queria fazer xixi, coitada. Mulher tem disso, né?

-Exatamente, meu senhor.

-Carlão.  Muito Prazer. Sua graça?

-Zé… Zenilton. Zenilton.

-Nome diferente, né? -Perguntou o velho.

-Pois é. Coisas do meu pai.  – Disse Zé Walter, disfarçando o ato falho que quase entrega o próprio nome.

Os dois saíram com a brasilia verde abacate e foram até um posto nas redondezas. Chegando lá, o velho Carlão se despediu e foi embora.

Zé Walter correu até o frentista.

-Ei companheiro, tem orelhão aqui?

-Tem sim senhor. Ali, perto da lateral. Do lado do banheiro tem um… Só não sei se tá funcionando. Ele é meio doido. Tem dia que funciona, dia que não funciona. Se chover, já viu…

-Ok, obrigado. – Disse Zé, largando o frentista falando sozinho.

Zé Walter chegou no oroelhão que pra sua felicidade, estava num dos dias bons. Ligou para casa. Ninguém atendeu. O telefone chamou, chamou e nada de atender.

Zé achou aquilo estranho. Era a hora em que a Gizela estaria em casa. Tentou ligar para o celular dela, mas estava desligado. Zé ligou então para Armando, seu cunhado.

-Alô?

-Armando, aqui é o Zé…

-Coé, negão?

-Porra Armando. Tu não sabe atnder telefone não, cara? Por que demora tanto pra atender esta porra, caralho?

-Fala logo, véi. Eu tava vendo filme do Van Damme. Agora tá pausado aqui e as crianças tão enchendo o saco.

-Armando, preciso de um grande favor seu, cara.

-Porra Zé. Eu não tenho dinheiro cara. Se é grana…

-Não, viadão. Não é grana não, seu bicha. O lance é outro.

-Que foi? Cara que voz é essa? Que que está acontecendo?

-Eu tô numa roubada. Me fodi aqui. A coisa é séria. Preciso da sua ajuda.

-Fala logo, porra. O que houve? Calmaí. … Sarita? Ô Sarita?  Porra liga logo esta merda desses filme aí pros moleques. Não, não. Não vou ver não… TOma uma atitude, ué. Você é a mãe, porra. … É o Zé. Zé da Gi. Ele tá com problemas. Depois eu falo. Né isso não. Ôôô Sarita, não enche, porra.  Bota o filme lá e diz que se eles sairem na porrada de novo eu vou desligar o dvd!  Foi mal. Zé? Tá aí, Zé?

-Tô.

-Fala aí, Zé. Onde que você tá, cara.

-Eu tô num posto…. Deixa eu ver. Gauchão do Brejo. Indo na estrada de Teresópolis. Não dá pra explicar tudo agora, pois é uma parada bem sinistra.

-Tem a ver com a Gi? Vocês brigaram?

-Não, não. Armando, é merda mesmo, cara. Querem me matar.

-Hã? Porra não é primeiro de abril…

-Seu puto! Você acha que eu vou brincar com uma porra dessas? Eu tô lascado mesmo!

-Ah, Zé. Que merda. No que você se meteu? Tá fazendo o que aí nesse posto?

-Cara, não tenho créditos. A porra aqui vai cair. Vem me buscar que eu te conto. Vou precisar muito da sua ajuda.

-Ok. Eu tô indo praí. Mas…

-Armando, tu tá ligado naquele teu chapa dos tempos do exército? Aquele que você me falou. O chapa-quente.

-Caralho. Que porra é essa? O Timbú? Tu tá falando do Timbú?

-Isso.

-Não sai daí. Fica aí, cara. Ó… Fica calmo. Procura um lugar abrigado e não dá mole. Daqui a mais ou menos uma hora eu tô chegando. Aí você me explica a merda federal que você se meteu pra estar querendo falar com o Timbú.

-Ok. Anotou o nome do posto?

-Gaucho né?

-Gauchão do Brejo.

-Tá. Tá. Tô ligado. Tô indo cara. Não sai daí.

Zé Walter desligou o telefone. Olhou em volta, Ninguém olhava pra ele. Apalpou a arma na cintura. A sensação era incômoda, mas a arma ali dava uma certa segurança. Zé foi para a loja de conveniência do posto e ficou folheando uma revista. Olhou várias revistas. Deu uma lida num quadrinho do Super homem, olhou um manual pratico de fotografias e imaginou o que haveria por trás do novo fascículo da série “Posições para amar”. Então deu uma olhada nas revistas semanais, e finalmente nos jornais. Subitamente, uma manchete com letras garrafais chamou sua atenção:

Continua…

Jurado de morte – parte 5

December 29th, 2009 17 Comments

Zé Walter se esconde.

Dentro do prédio, fica na portaria, perto do balcão do seu Limair. Ele fica olhando lá pra fora. Será que foi visto? Será que tem alguém no opala? Os vidros escuros não permitem que se veja nada.

-Desgraçado filho da puta.

-Hein? – Pergunta seu Limair.

-Hã… Nada, nada não. Tava aqui pensando alto.

-Ah, tá. Pensei que o senhor estava me xingando.

-Seu Limair, tem telefone aqui na portaria?

-Tem não senhor.

-Droga. Maldita hora que eu botei meu celular no conserto.

-Ah, seu José, esses celulares de hoje são tudo vagabundo. Troço da China. Quebra atoa. Não compensa comprar do caro não. É como eu sempre digo. Celular, vale só pra ligar. Quando vem me oferecendo aqueles cheios de função, com isso, aquilo, emepê não sei das quantas, um monte de sigla, parece até repartição pública, eu já corro logo. O senhor sabe que eu comprei um desses caros, com fone e tudo, que tira até foto, pra minha filha e ela deixou cair na privada? Aí comprei outro e então ela deixou cair na valeta. E o senhor sabe, molhou, já era. Tentamos botar no sol mas ele nunca mais funcionou. Aí eu disse que não ia dar mais. Então ela fez quinze anos e me pediu um celular. Sabe como é. Coração de pai é mole. Comprei mais um pra ela. Mas dois dias depois, ela perdeu o celular. Esqueceu na mesa do bar. Então eu disse pra ela que se ela queria um celular ela teria que comprar com o dinheiro dela. Daí ela fez faxina numa loja do meu compadre e quando recebeu o salário, ela  correu pra loja pra comprar celular. Mas aí viu que não dava o dinheiro e ficou muito amuada, coitadinha. Minha senhora Juventina ficou me enchendo a paciência com pena da menina, e então eu peguei um vale com o seu Joel e completei pra ela comprar o celular. Mas ontem ela chegou em casa toda triste. Foi assaltada no ônibus. Adivinha? Roubaram o celular dela. Agora ela tá fazendo uma rifa do vestido de quinze anos lá na comunidade pra comprar outro celular e…

Zé Walter não ouvia nada sobre a saga da menina que só perdia celular. Enquanto o porteiro detalhava cada pequeno e insignificante detalhe da vida dele, Zé estava pensando uma forma de sair do prédio longe do alcance de quem estivesse de tocaia no opala.

-Seu Limair, desculpa interromper, mas será que o senhor podia me fazer um favor? Eu tenho que levar umas malas na casa de um amigo, e meu carro tá com problema. Dá pro senhor pedir um taxi ali no ponto pra mim e pedir pra ele me pegar na garagem?

-Ué. Dá sim senhor. Mas o ponto é logo ali, ó. -Disse o porteiro apontando a rua. De fato, o ponto do taxi era perto, mas era do outro lado da rua de onde estava o opala.

-Sabe o que é, seu Limair, é que eu ainda não peguei as malas. Será que o senhor pode fazer este favor pra mim? Eu pego lá em cima e levo pra garagem. Aí o senhor chama ele ali fora pra mim e adianta o meu lado.

-Ah, tá. Sim senhor. -Disse o porteiro saindo do balcão.

Zé Walter correu pelas escadas para a garagem. Ficou lá esperando o Taxi. Como o trânsito na rua era mão única, o taxi teria que dar a volta no quarteirão e entrar no prédio, o que levaria ainda alguns minutos.

Enquanto esperava, Zé encostou na parede da lixeira. Ouviu um barulho e viu um rato sair da lixeira e caminhar calmamente pela garagem. Zé olhou em volta. Era irresistível a vontade de matar o rato.

Havia uma vassoura velha, pra lá da aposentadoria, já quase sem piaçava, encostada perto de parede do elevador. Zé pegou a vassoura e foi, pé ante pé, acertar o rato. Mas antes que pudesse se aproximar o suficiente, o rato percebeu a intenção vil daquele homem e correu como uma bala. Mas a garagem estava vazia e o rato correu na direção do fim da garagem, onde não havia saída. Zé correu atrás desferindo vassouradas a torto e a direito, mas sem acertar nenhuma. O rato dando um olé atrás do outro naquele sujeito, que ficava mais e mais puto a cada vez que era feito de bobo pelo roedor.

Zé queria botar todo aquele medo, ódio e sofrimento para fora. Matar o rato da garagem era a melhor maneira de exorcizar seus demônions.

Zé finalmente acertou uma vassourada no rato, que soltou um guincho alto e correu para o canto da parede.

Zé partiu com tudo para esmagar-lhe a cabeça com a vassoura. Porém, vendo-se em franca situação de desvantagem, o rato se transformou no capeta de quatro pernas. Soltando um guincho horroroso, o animal correu pra cima dele, a boca aberta e o dentão espetado pra frente.

-Ai caralho. Putaquepariu!

Zé saltou pra trás assustado. O rato veio pra cima dele querendo atacá-lo e Zé Walter não viu outra alternativa senão fugir. Era ridículo. O cúmulo da vergonha humana uma pessoa, armada com uma vassoura, fugir de um rato de poucos centímetros.  Mas Zé correu desesperado. Não olhou para trás até que não escutou mais nenhum guincho. Quando finalmente parou de correr entre os carros não havia sinal do rato.

Logo depois, subiu um taxi amarelo pela rampa.

O taxista parou em frente o elevador esperando as malas. Mas ali só estava o Zé, suando, segurando aquela  vassoura fodida  e com sua mochila nas costas.

-Pois não? E as malas, doutor?

-Não, não. Desisti das malas. Vou só de mochila mesmo. Mudança de planos, hehehe. Vai ser uma visita rápida.

-Como quiser. A vassoura vai?

-Hã? Não, não. – Disse ele jogando a vassoura na direção da casinha da lixeira.

-Pode entrar por favor. – Disse o Taxista.

Zé Walter entrou no banco de trás.

-Pra onde?

-Toca na direção de Teresópolis. Mais à frente te dou as indicações.

-Sim senhor.

-Amigo, o senhor não repara, mas eu vou dar uma deitadinha aqui, tá?

-Ah… Tudo… Bem. -Disse o taxista estranhando enquanto descia a rampa.

O taxista tão logo chegou na rua já começou uma ladaínha sem fim sobre como ele havia levado passageiros que deitaram no banco de trás. Contou de um episódio que envolvia um casal de amantes gays que no dia dos namorados, ao chegarem de taxi no motel, tava uma fila imensa. Logo depois de alguns minutos na fila, um dos homens viu a filha dele, pretensamente virgem, com o namorado. O cara ficou puto e queria estrangular o namorado da filha, mas estava cagado também. No fim das contas, eles passaram um tempão deitados no banco, para não dar na pinta.

Enquanto o taxista falava sem parar contando casos, falando de futebol, dos filhos, dos taxis, do dia-a dia, da cidade esburacada, dos políticos ladrões, da geopolítica internacional e até da escalação da seleção brasileira, Zé Walter se perguntava se aquele taxista seria mesmo de confiança. Afinal, o homem do opala estava parado em frente ao ponto. O que garantia que aquele cara não estivesse mancomunado com o bigodudo assassino? Nada.

Nisso o taxista manjou que Zé estava alheio à conversa e enfim calou a boca.

Quando o taxista parou de falar, Zé começou a ter cada vez mais certeza de que o taxista estava sabendo de tudo. Estava envolvido de alguma forma. Zé percebeu que quem manda uma carta, sabe bem que a pessoa não vai sossegar em casa esperando a morte. Ela irá arrumar uma forma de sair, de fugir. Zé percebeu com absoluta clareza que se o cara parava o opala assassino na porta da casa dele aquilo tinha um propósito. Não era mera coincidência. O objetivo era claramente criar o medo e impedi-lo de sair com o próprio carro. Sem carro, sem poder sair a pé, qual a alternativa que resta? O taxi, é óbvio. Zé olhava a paisagem lá fora e se dava conta gradualmente que havia sido cuidadosamente empurrado para aquela situação. Ele ficou estático. Duro, catatônico, apenas pensando. Tentou não demonstrar o desespero. Seu coração disparou e ele sentiu o ar lhe faltar. Mas tentou segurar e não transparecer o medo. Volta e meia olhava para o motorista do taxi, que agora dirigia quieto, sem olhar para ele.

Enquanto isso, ia pensando que obviamente tudo havia sido cuidadosamente planejado. Pra que? Para tirá-lo da casa. Fazia sentido. Matar alguém a tiros num prédio no meio da cidade é muito mais arriscado que desovar um corpo num matagal, numa estrada deserta. Zé teria entrado espontaneamente na arapuca. Tão inocente como uma pomba rola, tão puro quanto uma ovelha que avança, resignada, para ser sacrificada.

Zé já podia antever o que se sucederia. O taxista iria errar o caminho, levando-o em outra direção. Iria adentrar uma estrada de chão, onde andaria alguns quilômetros, até chegar numa cabana perdida, onde talvez ele reconheceria a silhueta de um opala preto estacionado na porta. O taxista não devia ser taxista. Zé então percebeu que nunca havia atentado para a existência daquele cara. Ele morava há quinze anos no mesmo prédio, passava diariamente na frente do ponto de taxi e nunca havia visto aquele gordinho careca. Estava ficando cada vez mais óbvio que o motorista era um deles. Talvez um homem da milícia dos Thundercats. Talvez alguem que devesse algum favor ao Lion. Talvez alguém sem escrúpulos que aceita ganhar qualquer dinheiro para transportar um defunto, um cadáver à prestação, ate seu derradeiro lugar neste mundo.

Zé resolveu que no banco de trás era uma presa fácil.

-Moço, quero passar pra frente. Posso?

-Hã? Sim, sim senhor.

-Encosta aí pra mim.

-Sim senhor. – Disse o motorista, encostando o carro.

Zé pensou em abrir a porta e correr. Mas antes que fizesse isso, ao abrir a porta, teve um lampejo de que caso agisse assim o motorista iria matá-lo pelas costas. Certamente que alguém designado para levar o cara que ia ficar sem cabeça de noite teria alguma arma em algum lugar daquele carro. Certamente que ele já devia estar instruído para meter tiro no sujeito caso ele não colaborasse. Então Zé Walter resolveu colaborar.  Entrou no carro novamente, agora no banco da frente, onde podia ter uma visão mais clara do motorista de praça.

Zé olhou com cuidado o sujeito. Aproveitava quando ele ultrapassava caminhão e se concentrava no trâsito para olhar detalhadamente pra ele. Num movimento do braço ao volante, Zé pôde ver que um pelaço de uma tatuagem escapava por baixo da manga da camisa. O sujeito viu que Zé estava olhando muito e arrumou a manga, recobrindo o desenho.

Mas nessa altura Zé já tinha memorizado aquele pedacinho de desenho. Ficou concentrado, tentando identificar o que se encaixava naquilo. Zé não conseguiu identificar de imediato, mas depois de algum tempo, se ligou que era o rabo do Snarf. Sim, o Snarf! Não era águia, não era tubarão nem sereia, não era dragão, coração, tribal nem unicórnio. Nada dessas coisas que se usa em tatuagem. Era um Thundercat! Aquilo não era por acaso.

Zé ficou tentando disfarçar. Agora olhava a paisagem.

Seria aquele cara o próprio assassino ou apenas um transportador dos bandidos?

Nisso o cara falou, dando um baita susto em Zé Walter.

-Pego em que direção, doutor?

Zé tentou manter a compostura e disfarçar o susto.

-Hã? Ah! Pega a próxima entrada na esquerda. -Disse.

O motorista voltou a ficar quieto. Zé voltou a pensar na sua morte. O tempo estava acabando. E agora ele havia saído do conforto seguro do seu lar e estava num lugar ermo, com um homem estranho, gordo, careca e baixinho, que dirigia olhando de rabo de olho pra ele. Tudo levava a crer que a hora derradeira estava galopando em sua direção. Zé precisava agir. Precisava fazer alguma coisa. O mais sensato era tentar obter alguma pista, algum indício. Teve uma idéia, mas não sabia se iria funcionar.

-Tô passando mal. Vou vomitar. -Ele disse.

O taxista se desesperou.

-Calma, doutor, calma. Quer que eu abra o vidro? Desligue o ar? Quer que eu…

Zé aproveitou a aparente confusão do motorista que fuçava no painel freneticamente abrindo vidro, baixando a musica no rádio, e desligando o ar condicionado para escancarar o porta-luvas.

-Tem um saquinho de vômito aqui, moço? -Disse ele remexendo as coisas do porta-luvas. O homem deu um freadão brusco no carro. A mente de Zé estava registrando tudo que podia enquanto mexia nas coisas do cara. O homem meteu a mão e fechou o porta-luvas.

-Não tem saquinho não, moço. -Ele disse fechando a tampa.

Mas já era tarde. Zé tinha anotado mentalmente quase tudo que havia no porta-luvas: Chaves, lanterna, um maço de cigarro, balas, pirulitos, toalha verde, flanela, papéis diversos e mapas. E no fundo, milésimos de segundos antes do cara fechar o porta-luvas daquela maneira afobada, ele viu: Uma coronha.

- Coronha… Coronha… – Ele pensava. O taxista estava andando devagar, no acostamento.

-O senhor está bem? Quer que eu pare o carro? -Perguntou.

Zé imaginou que aquilo era uma estratégia. O cara queria parar o carro porque não tinha certeza se Zé vira ou não a arma.

-Não, não. Só reduz um pouco. O ar vai me fazer bem. – Disse Zé. O plano havia dado certo, mas ele não queria que o cara parasse, pois obrigá-lo a dirigir roubava uma preciosa quantidade de atenção do motorista e aquilo poderia ser estratégico.

Ele precisava se livrar daquele cara. Zé sabia que se o taxista fosse com ele até a chácara do Amarildo era pra saber onde ele estava indo e levar o bigodudo do opala até lá. Ou então iria fingir errar o caminho para desová-lo em algum matagal. Zé rememorou que o sujeito havia fechado o porta-luvas de forma bastante ignorante e parecia irritado com o fato do passageiro fuçar ali. Lógico que aquilo se devia ao fato de haver uma arma no porta-luvas. A melhor chance que ele tinha era conseguir abrir o porta-luvas do carro e sacar a arma. Devia ser um 38 a julgar pela forma da coronha. Zé não teria outra chance. Planejou com cuidado o que iria fazer.

-Já tô bom. Vamos embora. – Disse ele ao gordinho.

-Sim senhor. -Respondeu o motorista, acelerando o carro na estrada.

Zé fez mentalmente todas as ações que teria que executar. O importante era pegar o gordo desprevenido. O elemento surpresa seria fundamental para escapar da arapuca.

Zé ficou atento à estrada. Quando o taxi virou uma curva, ele viu mais à frente, na altura de uns cem metros adiante, um caminhão cegonha, cheio de carros. Aquela era a chance dele. O caminhão era gigantesco e ocupava toda a faixa única da pista, de mão dupla.

Zé retesou seus músculos como um gato à espera do bote. Quando o taxista deu sinal de que iria ultrapassar, Zé olhou fixamente para o porta-luvas.

O taxi então começou o processo de ultrapassagem. Numa fração de segundo, Zé abriu o porta-luvas. O gordinho se assustou:

-Mas o que…

Zé empurrou a cabeça do cara com a outra mão e ele bateu de cabeça no volante. O carro rebolou na pista e bateu na lateral do caminhão, que pareceu nem sentir o baque. O motorista se desesperou e tentou segurar o carro que começou a fazer um zigue-zague na pista. Nisso, vem um caminhão na pista contrária tocando a buzina que mais parece uma buzina de navio.

Zé já fuçava com a mão direita o porta-luvas em busca da coronha.

O Taxista não sabia se lutava com Zé, se controlava o taxi quase desgovernado ou se tirava o carro da pista, pois o caminhão já estava em cima. Optou pelo caminhão. Com um golpe de direção, jogou o taxi no acostamento do outro lado, no último segundo. Nisso Zé alcançou a coronha e apontou o trezoitão na cara do gordo.

-Pára essa porra, filho da puta! -Gritou com a arma na cara do motorista.

-Calma! Calma! -Gritava o motorista.

-Para agora caralho! Joga ali no matagal!

-Onde?

-Aqui, porra. Aqui!

O cara meteu o pé fundo no freio. O carro cantou pneu no acostamento até parar em meio a uma nuvem de fumaça e poeira, no meio de um matagal alto na beira da estrada.

-Fala filho da puta. Fala que tu ia me matar, desgraçado.

-Hã? É dinheiro? Pode levar tudo, moço.

-Dinheiro é a puta que te partiu, seu viado. Seu puto. Baleia, rolha de poço… Tu tava pensando que ia me matar? Que ia me levar pra cova? Se fodeu, seu puia!

-Moço… Calma moço. Calma. Eu não ia fazer nada não. Eu sou motorista de taxi… Tenho família.

-Família de cú é rola, seu bosta. -Pode falar. Quem te contratou? O Bigodudo tá pagando quanto pra você foder com minha vida?

-Hã? Bigodudo?

-Não se faz de besta, seu puto! – Zé dá um “pedala Robinho” na cabeça do sujeito.

-Ai.

-Eu moro há quinze anos naquele prédio. Como que eu nunca te vi no ponto de taxi, sua baleia?

-Moço… Eu… Eu… Eu sou novo no ponto. Entrei pra cooperativa agora. Eu era da rodoviária. Tô cobrindo as férias do Antônio Carlos.

-Vai se foder! E essa porra aí no teu braço? Levanta a manga.

-Moço, fica calmo…

-Fica calmo o caralho! – Levanta logo essa porra dessa manga!

O gordinho lentamente levanta a manga. Ali está um… Dragão.

-Dragão?  -Zé ficou desconsertado.

-Que foi, moço? Não gosta de dragões, né? Por favor, moço. Me libera. Pode levar o carro, o dinheiro…

-Cadê o Snarf?

-Hã? Quê? Do que o senhor tá falando?

-Porra. Eu sei que você é dos Thundercats! Errei quanto à tatuagem, mas vocês não iam dar este mole, né?

-Thundercats? Aquele desenho da… Xuxa?

-Fala desgramado. Pra que a arma no taxi?

-Calma moço. A arma é pra proteção. Eu vivo do taxi. É perigoso. Eu era de outra cooperativa que trabalhava à noite. Na noite tem que andar trepado, moço.

-Cooperativa é a puta da tua mãe. Você tá me jogando caô. Vai, desce. Desce já, filho da puta! -Disse Zé, sacudindo a arma na cara do gordinho.

-Não, moço. Eu tenho família. Tenho criança. Fica calmo. Não faz nada comigo não…

-Desce que eu vou te apagar viadão! -Gritava Zé.

-Não moço. Piedade. Eu faço qualquer coisa. Eu conto tudo! Qualquer coisa que o senhor quiser.

-Conta então do homem do opala.

-Opala? Bom… Tudo bem. O senhor que sabe. O homem do opala para o opala ali todo dia. Ele fica ali fazendo a segurança do mercadinho.

Zé estava atento. Olhava para o taxista com vontade de estourar aqueles miolos gordos.

-Nã mente pra mim caralho!

-Não senhor, não senhor. É verdade, moço. Ele é segurança do mercadinho.

-Fala a verdade porra! -Gritou Zé encostando a arma na cabeça do gordo. Ele viu que o gordo suava em bicas. Suava frio.

-Sim senhor. Eu falo. Eu falo, eu falo, eu fal…

-Ele quer me matar, por que?

-… – Tá bom. Tá bom. Ele quer matar o senhor. Por que eu não sei.

-Não sabe mesmo ou tá querendo morrer, porra?

-…Não sei não, moço. Ele não fala muito. Ele é quietão.

Zé baixou a arma um pouco. Aquilo fazia sentido. Parecia mesmo que o taxista não sabia do motivo que levou Lion a jurar a morte dele. Além do mais, fazia sentido também que o cara fosse segurança no mercadinho e falasse pouco. Todo mundo sabe que quem é segurança em mercadinho costuma ser policial fazendo bico ou ex policial, o que dá no mesmo. É um cara que está acostumado com armas, que já matou, que sabe matar. Tem tudo a ver. E se o Lion queria ele, estando preso, teria que mandar um profissional. Lion tinha dinheiro. Dinheiro de sobra para contratar alguém que conhecesse o lugar, que soubesse em detalhes a rotina dele. O segurança do mercadinho era o cara perfeito.

-Então agora você resolveu falar, né? – E quanto ele te pagou pra me pegar? Qual era o plano?

-Plano?

-Fala porra! – Gritou Zé.

-Ah, o plano… Deixa eu lembrar. O plano era pegar o senhor e levar. E aí… Aí depois, voltar lá… E dizer a ele pra onde eu levei o senhor. Só isso Só isso moço. Eu não sei de mais nada. Me libera, pelamordedeus… -O gordinho já estava chorando. E Zé Walter se compadeceu.

- Tá bom, puia. Tá bom. Desce. Desce e vai andando ali pra frente. Desce a pirambeira sem olhar pra trás, filho da puta! Se olhar eu atiro. Duvida que eu atiro? Hein? Duvida? Duvida?

-Não, não, moço. Não, não. Eu sei. Eu sei. O senhor atira sim. Pode deixar vou descer quietinho. Pode ficar com o taxi, com tudo, moço. Eu só queria pedir..

-Pedir um tiro, baleia?

-Não, moço. Pedir pro senhor me dar pelo menos a fotinho da minha filha. Ali no painel, ó. -Disse ele apontando com a sobrancelha uma foto de uma criança gordinha sorridente colada com durex no painel.

Zé acenou positivamente com a arma.

O gordinho tirou a foto e saiu andando sem olhar para trás no meio do mato.

Zé pulou para o banco do motorista e acelerou o carro de volta para a estrada.

Enquanto dirigia, a toda velocidade, pensava em tudo aquilo. Será que o gordinho falou a verdade? Seria ele só um motorista no lugar errado e na hora errada? Será que ele falou aquilo para poder não levar um tiro?

Zé tinha momentos em que pensava naquilo tudo e todo aquele rolo lhe parecia loucura. Mas era estranho como as coisas se encaixavam. Além do mais ele sabia que não era maluco. Nunca havia tido visões ou ouvido vozes. Não havia malucos na família dele e ele nunca precisou de ajuda para lidar com seus problemas. O olhar maligno de Lion no tribunal nunca mais lhe saiu da cabeça. Não, não podia ser loucura. E o homem da pizza? Ele e a mulher viram o homem. Não era um delírio. Era real. E o telefone cortado? O opala preto… O homem bigodudo que olhou pra ele. Era real. Tudo real. Definitivamente real.

Enquanto dirigia, Zé pensava em como aquilo tudo ia acabar. Como se livrar de um juramento de morte? É um beco sem saída onde o jurado acaba agindo como um boi no matadouro. Não há outro caminho que conduza a um destino diferente que não a morte. Não há fuga. Não tem como escapar, fugir, esconder-se. O cara é poderoso e mais cedo ou mais tarde irá encontrá-lo e cumprir sua promessa. Lion não sossegará enquanto não degolar mais um presunto. Além do mais o ato de misericórdia de não apagar o gordinho do taxi iria cobrar seu preço a qualquer momento. Certamente que a esta hora o gordinho já teria pego carona num caminhão até o posto de estrada mais próximo, de onde ligaria para o bigodudo, ou talvez até para um celular roubado, infiltrado numa vagina suja para dentro do presídio, que seria atendido prontamente pelo próprio Lion.

Então Zé Walter pensou que não havia escapatória. Talvez o melhor fosse pegar aquela arma e estourar os próprios miolos. Acabar de vez com aquilo tudo. Ele mesmo daria conta do serviço. Morrer, aquela altura lhe parecia deveras sensato, pois era melhor que viver eternamente sem saber a que horas Lion “liquidaria a fatura”. Não tem sentido arrancar a cabeça de alguém que se matou. Só o que lhe prendia ao mundo era Gizela. Mas ela acabaria entendendo. Sofreria no início, é verdade, porém, mais cedo ou mais tarde, conheceria alguém de quem ela gostaria e que gostaria também dela. E então, embalada numa nova paixão, com o passar dos dias, meses e quiçá anos, ela acabaria por esquecê-lo totalmente. Primeiro seu rosto, então de sua voz e finalmente de todos os momentos que passaram juntos.

Zé ainda dirigia quando pegou a arma e encostou na têmpora. Ele não saibaio se aquilo iria doer ou não. Acelerou o carro, para caso se algo saísse errado, e ele ainda podia morrer de acidente de trâsito. Mas antes que pudesse apertar o gatilho, teve um flashback onde viu o rato. O rato da garagem. Era uma mensagem do lado mais profundo da sua mente. Um insight de como poderia resolver tudo.

Tal qual o rato, sentia-se acuado. O problema dele começou quando condenou Lion. Lion queria se vingar e por isso o jurou de morte. Logo, o assassínio não era o problema. A morte aí é a consequência de uma sucessão de fatos. A vardadeira causa do problema  é o Lion. Ele sim é o problema. Ele que tem o dinheiro, a influência e o prestígio de mandar matar. Ele sim merece a morte.

Não há melhor forma de escapar de alguém que te jurou de morte do que matando a pessoa. O que o rato faz quando está acuado? Ele ataca. E ataca com tudo.

Zé guardou a arma no console do carro. Jogou o taxi no acostamento e assim que alguns carros passaram, ele fez a volta, pegando a outra pista em sentido oposto. Estava decidido a matar Lion. Cortar o mal pela raiz.

CONTINUA…

Jurado de morte – parte 4

December 28th, 2009 9 Comments

O coração de Zé Walter parecia querer sair pela boca, e só voltou a bater normal quando se deu conta de que o soco que ouviu na porta era da mulher dele, preocupada.
-Zé? Abre essa porta, Zé! – Gritou Gizela.
Zé abriu a porta e viu a mulher. Ela estava preocupada. Havia ligado pra ele diversas vezes naquele dia, mas ele não atendeu.
-Porra… Eu dormi. – Disse ele, sentando na cama. Zé já ia contar o seu pesadelo com o bigodudo do opala preto quando Gizela o interrompeu.
-Ligou pra polícia, Zé?
-Não.
-Porra, Zé!
-Calma, Gi. Olha só, eu acho que a polícia tá envolvida. Não vai adiantar eu ligar pra lá, Gi. O cara mandou na careta, ele sabia que eu ou qualquer um que recebesse uma ameaça dessas ia procurar a polícia. Se ainda assim ele mandou a carta, é porque ele sabe que não vai adiantar lhufas ligar pra polícia.
-Humm. Isso é. -Disse Gizela sentando na cama.
-Mas e agora? O que vamos fazer, Zé?
- Não sei, Gi… Olha, vem cá. Tem um carro. Opala. Eu acho que o cara tá…-Zé Walter puxava Gizela para a janela afim de mostrar o opala preto. Mas o carro não estava lá. A vaga esta vazia.
-Carro? O que? -Gizela não etendia.
-Tava ali… Agora saiu, Gi. Um Opala preto. Carro de assassino. Eu vi o carro hoje cedo. Ele tava parado ali naquela vaga onde está a kombi. Tá vendo? Perto da banca. Depois o carro saiu e o vidro abriu. Tinha um homem sinistro dentro.
-Homem sinistro, Zé?
-Isso. Um homem de bigode grisalho. Cara de uns 50, 60 anos. Tava usando um óculos escuro. Ele abriu a janela e olhou pra mim, Gi. Aqui pra cima!
-Porra que estranho, Zé. Mas isso não significa que…
-Gi, quantas vezes você olha pelo vidro do carro para prédios de apartamento? Sobretudo andares altos?
-Nenhuma.
-Viu? Acho que o cara tá envolvido, Gi. Além disso é um opala e opala você sabe…
-Ah, Zé. Porra para com essas fantasias. Isso é só em filme de máfia.
-Ah, mas filme de máfia é inspirado em que? Na realidade, Gi. Na realidade!
-Zé, me escuta. Eu andei o dia todo pensando na tal carta. Eu acho que isso é brincadeira, cara.
-Que isso Gi? Porra quem vai brincar assim com os outros? Isso dá cadeia, meu.
-Ah, sei lá. Vai que é um desses seus amigos sem noção, Zé. Pode ser, por que não?
-… – Zé estava quieto. De fato aquilo poderia se tratar de uma mera brincadeira de mau gosto. Amigos sem noção ele de fato os tinha. E tantos que havia perdido as contas.
-Zé, tu dormiu a tarde inteira, hein? Eu tô ligando desde as duas da tarde aqui pra casa e nada…
-Pois é, mas… Não sei. Acho que é efeito psicológico. Essas coisas de fuga. Se bem que nem dormindo eu escapei da morte.
-Hã?
-É, tive um pesadelo.
-Mas não ouviu o telefone tocar, Zé?
-Não… – Disse Zé Walter, pegando o telefone sem fio. Colocou no ouvido e descobriu:
-Ué. Tá sem linha.
-Sem linha?
-É, olha só…
-Ué…Será que pifou?
Zé Walter e Gizela se entreolharam. Nisso tocou o interfone.
Os dois arregalaram os olhos.
-Tá esperando alguém? -Perguntou Gizela.
-Não, e você?
-Também não. – Disse ela correndo para atender.
Zé Walter correu para a janela, mas não havia sinal do opala preto.
-Alô? Sim? – Gizela falava com o Porteiro no interfone da cozinha.
Zé Walter correu até lá. Ficou gesticulando, afobado, querendo saber do que se tratava. Gizela tirou o telefone do ouvido sussurrou para Zé.
-Você pediu pizza?
-Não.
-Seu Limair? Olha, não pedimos pizza não. Pede pra verificar aí, porque não foi aqui não. Hã? O que? Como assim já subiu? Mas não pediu daqui. Hã? Tá, tá. Tá bom. Boa noite. – Ela se apressou em desligar.
-Ah, não. Vai tomar no cu, Gi! – Disse Zé Walter já andando para trás.
-O babaca mandou subir antes de ligar pra cá. O entregador já tá subindo.
-Fudeu. É o assassino!
-Caralho, e agora, Zé?
-Não sei.
-E agora Zé?
-Não sei, porra. Vamos fazer alguma coisa.
-Mas o que?
-Sei lá. Calma aí. Porra… Caceta… Deixa eu pensar. Putaquepariu, porteiro burro do caralho…
-Pensa logo, Zé. Ele ta subindo.
-Ai caralho, ai caralho…
-Zé, A tv porteiro!
-Isso! Rápido. – Disse Zé correndo para a sala e ligando a Tv. A “Tv porteiro” era um canal da antena coletiva que mostrava as câmeras de segurança do prédio.
A Tv mostrava a garagem. Depois veio o corredor, a portaria, a frente do prédio e finalmente o elevador.
Ali dentro, visto de cima, numa imagem borrada e em preto e branco, estava um homem, usando um capacete preto e… Jaqueta de motoqueiro.
Zé Walter sentiu um arrepio na espinha.
-Zé acho que é um entregador comum. – Disse Gizela.
-Hummm. Não sei. Olha o volume da embalagem. Não parece estufado?
-É. Parece. Quem tá lá com ele? Dá pra ver?
-Acho que é a dona Isolda do 504.
O elevador para no cinco e a velha desce. Fica só o homem de capacete no elevador. Nisso, o homem da pizza olha na direção da câmera. Ele usa óculos escuros do tipo aviador e Zé Walter pôde notar até um pedaço de bigode aparecendo dentro do capacete.
-Caralho, fudeu!
-Que foi? Que foi?
-É ele! O cara do Opala. Que andar que tá? Olha ali no reflexo do espelho. Tá no seis?
-Agora sete.
-Rapido Gi. Vem! – Diz Zé Walter, agarrando Gizela pelo braço e saindo correndo. Eles correm para fora do apartamento.
-Pra onde Zé?
-Por aqui. – Sussurra ele, apontando para as escadas. Os dois enfiam-se nas escadas.
Assim que a porta corta-fogo se fecha eles ouvem o barulho do elevador chegando no andar.
Os dois observam a cena pela greta da porta.
O homem de jaqueta e capacete chega no andar. Ele vai com a caixa da pizza e um papel na mão. Olha cada uma das portas. Mexe no bolso.
Zé Walter e Gizela se entreolham no escuro.
No fim do corredor o homem da pizza tira um papel do bolso. Ele vai até o apartamento deles. Toca a campainha. Como niguém responde, o homem toca duas, três, seis, dez vezes. Nada. Nenhum sinal. Ele então começa a socar a porta. Bate com força três ou quatro vezes, até que ela se abre.
Zé olha para Gizela na escuridão e sussurra:
-Porra, Gi…Você não trancou?
-Vá a merda, Zé. Eu tava pensando que ia morrer. Cê acha que eu ia ter cabeça de trancar a porta? Não deu tempo.
O homem da pizza entra no apartamento e não há mais sinal de vida no corredor.
Na escuridão da porta corta-fogo, Zé Walter e Gizela estão tensos. A respiração presa. O medo é cada vez maior.
O homem da pizza finalmente sai, ainda com a pizza na mão. Vira as costas e chama o elevador. Parece uma eternidade o tempo que leva para que o elevador chegue.
Nisso, o homem da pizza olha para a escada.
O cagaço de Zé Walter atinge proporções bíblicas.
-Fudeu, Gi. ele vai vir pra cá. Ele viu a gente!
-Calma Zé. Calma… -Gizela tenta acalmar.
O homem da pizza começa a vir na direção deles. Parece decidido, como se tivesse visto alguma coisa.
-Fudeu, fudeu…
-Pai nosso que estás no céu… -Os dois sussurravam.
Nisso, o elevador chegou. O homem da pizza ouviu o barulho do elevador e voltou.
Finalmente a porta se abre e o homem da pizza vai embora.
Zé e Gizela se olham, aliviados.
-Ah, meu Deus. Aleluia. Ufa!
-Putaquepariu, caralho, buceta! -Geme Zé. Agira eles estão com a certeza de que o cara da pizza é o assassino.
-E agora? Voltamos? – Pergunta Gizela.
-Não sei. Melhor que ficar aqui deve ser.
Zé e Gisela saem da porta de acesso às escadas com o pé ante pé. Vão rapidamente para o apartamento. Entram e trancam a porta.
Logo que entram percebem que tudo está como deixaram, com a excessão de um detalhe: A tv está desligada.
-Gi você desligou a Televisão?
-Não lembro. Eu acho que não…
-Então foi ele.
-Porra, ele sacou que a gente viu ele.
-É. Veja aí se ele não mexeu em mais nada. -Diz Zé Walter.
Gisela vai até o quarto. Depois até a cozinha.
-Parece que está tudo em ordem.
-Que porra estranha…
-Não tá faltando nada… Calmaí.
-Que foi?
- A carta.
-Tava em cima da cama.
-Não tá.
-Caralho, ele pegou. Ele pegou a carta. Puta que…
-Zé, ele pegou a carta. Ele acabou com a prova. Ele veio aqui para pegar a carta. É isso.
-…Pariu, Gi e agora? Nem se a gente quiser ir na polícia… Ninguém vai acreditar.
-Zé, eu tô com medo.
-Eu também, Gi.
Nisso, o interfone toca. Os dois se entreolham assustados.
Gizela corre para atender.
-Seu Limair? Pode falar, seu Limair.
-…
-Hã? Ah, tá. Tá. Tá certo. Tudo bem. Olha seu Limair, não deixa mais ninguém subir sem a nossa autorização não, viu? Senão vou reclamar com o seu Joel. Ah, e olha, o telefone aqui em casa tá com problema. Se o senhor puder, fala com o seu Waldicley pra ele pedir o reparo, tá? Ok… Boa noite. Té manhã.
-E aí? -Perguntou Zé aflito.
-O cara foi embora. Disse pro seu Limair que foi engano da pizzaria. Que saiu o endereço de entrega errado.
-Porteiro débil mental filho duma vaca! Porra, esse tal Limair não faz nada direito, meu. Vive deixando entrar tudo que é otário, faz confusão com morador, entrega a minha Veja pro cara do andar de cima, é um incompetente. Não sei como deixam uma porra dessas ser porteiro. Ainda mais com o que a gente paga de condomínio. Agora, sobre o que o cara disse, pra mim é caô.
-Pra mim também. Se fosse mesmo o cara da pizzaria, ele ia entrar aqui em casa? Desligar a TV?
-E digo mais… Eu acho que ele que fodeu o telefone.
-Humm. Faz sentido, Zé.
-Certamente ele veio aqui já de caso pensado, para pegar a carta. A carta é a única prova do crime. Ele pegou a carta e saiu fora.
-Mas e agora?
-Agora nada. Agora vamos dormir. Eu acho que eles não vão fazer mais nada hoje. Ainda me resta mais um dia e algumas horas…
-Zé, não fala assim.
-Tá bom, Gi. Tá bom. Vamos dormir.
Os dois tomam um Toddynho cada, depois um banho e vão dormir.
A noite passa arrastada. Nenhum dos dois consegue dormir bem. Zé Porque passou a manhã e tarde dormindo. Gizela porque está abalada com aquilo tudo.
No dia seguinte, Zé acorda com Gizela chamando para tomar café.
Ele vai até a janela. Olha lá para baixo… Nada do opala preto.
Os dois tomam café quase sem dizer uma palavra. Apenas se olham. Os olhares dizem tudo.
-Tenho que trabalhar. -Finalmente Gizela rompe o silêncio.
-Gi, andei pensando. Acho que tenho que sair fora.
-Sair fora?
-Sim. Os caras querem a minha cabeça tal qual um São João Batista.
-Mas pra onde, Zé?
-Gi… Sei lá… Vou ter que dar um “vazari”. Sair de circulação por uns dias. -Diz Zé Waler.
Gizela faz uma cara de choro.
-Calma, Gi. Eu volto Eu prometo. Eu vou dar um tempo. Acho que vou pra casa do Amarildo. Na chácara. Lá naquele buraco, os caras não vão me achar.
-Mas como você vai falar com ele?
-Gi, eu não vou. Deve estar tudo grampeado. Não dá pra confiar. Eu sei onde o Amarildo guarda a chave reserva. Eu pego ela e entro lá. Preciso colocar a cabeça no lugar. Espairecer. Pensar no que fazer. Daí, de lá eu ligo pra ele.
-Tá bom. Mas Zé…
-Oi Gi.
-Cuidado hein? Eu te amo.
-Eu também te amo Gi.
Os dois se beijam de forma agressiva. É o medo. Eles temem não se encontrarem mais.
Gizela sai para o trabalho na fundação com o coração apertado, deixando para trás o marido.
Zé Walter vai para o quarto arrumar uma mochila. Enquanto arruma, ele pensa em uma forma de fugir sem ser visto nem seguido.
Zé tranca a casa, pega o elevador de serviço e desce no playground. Ali ele corre até as palmeiras que enfeitam a parte da frente do prédio. Olha lá de cima. Nem sinal do Opala. Zé estuda meticulosamente o caminho que fará na rua. Ele planeja correr até a rua de trás, onde passará por um beco e chegará a outra rua, onde há uma estação do Metrô.
Do play, Zé desce pelas escadas até o térreo. Ele já se encaminha para a portaria quando vê, do outro lado da rua, o Opala preto estacionando perto da banca.
-Fudeu! -É só o que ele consegue falar.

CONTINUA…

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