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Diástole do ponto final

Já Turvando o olhar
O calor e o cansaço
Dor no peito a espetar
Espalhando pelo braço

São as últimas batidas
numa franca contração
Você pensa que é fadiga
e se agarra no portão

Quando olha para cima
não acha explicação
Sua perna já fraqueja
Tentando se apoiar no chão

O povo vem correndo, pra assistir e ajudar

Junta gente curiosos,
alguém diz que é possessão,
Chamam polícia ou bombeiros,
emergência ou rabecão
Chama o padre para dar
a extrema-unção

Alguém grita “abre espaço”
no meio da multidão
soca seu peito e até machuca
A morte bafeja na sua nuca
Enquanto o cara te batuca
tentando a reanimação

Mas nada vai dar jeito
Na sua situação
Com os olhos revirados
branco como assombração
Uma moça se benzeu,
Uma velha passou mal
o povo em aflição,
Te cobriu com um jornal

Acenderam uma vela, ali perto do seu pé,

E você percebeu até
como é bom ser atração
em breve vai passear
Deitado no caixão

Seu nome vai surgir
bem na pagina central
Perto de um político
da coluna social

O jornal vai te estampar
de uma forma mais banal
num tom mais funerário
diria até sepulcral
seu nome no obituário;

e então, ponto final

O fim

Textos
Ninguém nunca acreditava naquelas profecias babacas que pregavam o fim do mundo.

Tá. OK… Admito, muita gente otária acreditava. Pessoas se reuniam em igrejas, em cavernas, ficavam peladas na floresta, davam as mãos e esperavam pelo momento derradeiro. E era aquela decepção. Sorrisos amarelos, cara de quem comeu e não gostou, tanta gente consternada de estar viva.
Mas naquele dia foi diferente. O anuncio do fim dos tempos não veio de um pastor ou astrólogo, ou guru de celebridades. A notícia veio de um dos mais renomados laboratórios de pesquisa do mundo.

Com unidades espalhadas por todos os países (pelo menos todos os que estão no G8 e mais uns outros 15) aquele laboratório era o celeiro de cérebros incríveis que afluíam pra lá como cupins voam para as lâmpadas no verão.
Eles haviam finalmente construído o maior e mais poderoso computador jamais visto. Durante anos, um time seleto das melhores mentes alimentou aquela maquina com toda sorte imaginável de informações, esperando que um dia ele pudesse correlacionar todas as coisas e apontar uma luz para a escuridão que oculta alguns dos mais intangíveis segredos do universo: De onde viemos e para onde vamos.

Físicos, astrônomos, cientistas renomados e uma legião de gênios da Matemática, da Computação, trabalharam dia e noite naquele projeto que tinha orçamento anual superior ao PIB de pequenos países.
Quando as simulações começaram a chegar, o mundo se estarreceu. A maquina poderosíssima mostrava planetas desconhecidos orbitando os planetas quase desconhecidos, que só uns poucos mais ligados saberiam se tratar de exoplanetas. A maquina desenhou as galaxias, desenhou colisões fenomenais, desenhou o princípio da vida na Terra. A máquina revelou muitos mistérios e também anunciou tragédias, que ajudaram os cientistas e governos a planejar mudanças ambientais. Milhões de pessoas foram salvas de terremotos, tempestades, furacões, nevascas, avalanches, chuvas torrenciais, tsunamis, enchentes.

A cada dia, o grau de sofisticação da maquina aumentava e os cientistas trabalhavam mais e mais em seus modelos e simulações. Lentamente a taxa de erro da maquina tendeu a zero, e suas previsões inicialmente apoiadas por uma série de sensores especiais e uma rede gigantesca de satélites começaram a se tornar tão precisas que gradualmente somente se usava desses artifícios mais “tradicionais” de tempos em tempos, para aferir a acuidade das simulações.
Com o passar dos anos, a maquina ficava mais e mais inteligente, e mostrava coisas maravilhosas. Ela ensinou ao homem como desvendar os mais profundos segredos do dna, ajudou na elaboração de ligas metálicas revolucionárias, criou remédios para muitas doenças.
As pessoas confiavam na maquina cegamente, afinal ela nunca errava. Até uma tarde, faltando poucos dias para o natal, quando grupo de cientistas holandeses e suecos comemoravam com os chilenos a confraternização de final de ano. Naquele dia, quando estavam quase todos bêbados, alguém teve a ideia de perguntar a maquina quando o mundo acabaria.

Não houve consenso entre os cientistas bêbados, o que era natural. Mas com o teor etílico aumentado, os consensos, raros, tornavam-se dramaticamente inexistentes. Não demorou a confraternização descambou num mar de acusações, insultos, blasfêmias e dedos apontados um na cara do outro. Alguns defendiam que isso nunca poderia ser perguntado para a maquina, já que era considerado “antiético”.
Outros diziam que talvez aquela fosse de fato a grande finalidade existencial da máquina. E muitos ali apenas gritavam, ameaçavam e conclamavam os incautos para que fizessem a pergunta derradeira.
Ninguém conseguia chegar a uma decisão sobre o que eles deviam fazer ou não, e todos falavam ao mesmo tempo. Foi quando ouviu-se um estampido ecoar na sala. O estouro foi tão alto que muitos se jogaram no chão assustados. Quando as pessoas se viraram, na porta da sala estava o Dr. Paruket Veda, um indiano PHD e prêmio Nobel de Matemática. Ele parecia transtornado.

Veda segurava um revólver numa mão e um copo de uísque caubói na outra.
Ocorreu um súbito e constrangedor silêncio na sala. Enquanto todos olhavam para ele, que também não dizia nada, Paruket Veda apontou a arma para o meio da multidão. Em segundos, abriu-se uma longa passagem, como um corredor que conduzia diretamente para o terminal principal da maquina.
Todos os cientistas observavam em silêncio o indiano bêbado dar seus passos vacilantes pelo longo corredor até a mesa onde estava o terminal.
Lentamente, o silêncio foi coberto de sussurros e gestos. Dr. Veda parecia em transe. Escrevia equações complexas na tela. A arma ao seu lado, ao alcance da mão. Ninguém ousou dizer nada. Ninguém ousou tentar impedí-lo.
Após dez minutos de intensa digitação, Dr. Veda Paruket havia inserido a grande pergunta no simulador, o supra-sumo produto da inteligência humana, quiçá planetária.
A máquina inciou sua contagem regressiva para dar o resultado: Dez dias.
Ninguém podia acreditar. Todos secretamente esperavam que a maquina acusasse alguma falha, que apontasse alguma incongruência na pergunta, que justificasse de alguma forma a se negar a responder quando tudo acabaria. Mas ela não fez nada daquilo. Ao contrário, deu uma data precisa em que apontaria o dia final.
Horas depois Paruket Veda era capa dos jornais, era destaque na internet, era estampado em camisetas, sua foto era queimada em protestos, saíam livros sobre ele: “O homem que teve a coragem de fazer a grande pergunta”. Paruket Veda era convidado para entrevistas, para falar em universidades. O povo do mundo aguardava, ansiosos pela grande resposta.
A cada dia, os jornais noticiavam com letras garrafais quantos ainda faltavam. Nunca a maquina havia demorado tanto numa simulação. Cientistas diziam na Tv em programas de debates (já que só se falava sobre isso) que a demora indicava que a maquina pela primeira vez estava usando todo o seu infinito potencial. Todos os seus infinitos bancos de dados, sua nababesca capacidade de cálculo…
E então, o dia finalmente chegou. Naquele dia, todas pessoas se juntaram nas praças. A hora da resposta seria finalmente mostrada, transmitida, televisionada, exibida em celulares, relógios, na internet, em tudo quanto era lugar. Aquela foi uma das maiores mobilizações de todo o planeta. Guerras foram interrompidas, aulas canceladas, inimigos estabeleceram trégua, as lojas fecharam as portas. Nunca se viu tamanha mobilização.

Agora faltavam poucos segundos para a resposta. A ansiedade quase explodindo o peito de todo mundo…Os números iam diminuindo no enorme painel, imagem que era repetida em telões nas praças, parques, universidades, casas e clubes para multidões e espectadores individuais.
Quando surgiu o resultado, foi uma coisa a princípio desconcertante.

“Daqui a dois anos e 111 dias”.

As pessoas se entreolharam assustadas. Não houve maiores explicações. A maquina apontou a data e ela era horrívelmente próxima. Não demorou começaram a surgir pequenos grupos que duvidaram da maquina. Mas até então, ela nunca havia errado. A maquina sempre acertava. Novamente formou-se a discórdia. As pessoas se dividiram entre as que acreditavam que o mundo iria mesmo acabar dali a dois anos e 111 dias e o outro grupo defendia que a maquina errou. “a pergunta é complexa demais” – Diziam uns. “Somente Deus pode dizer isso” – Argumentavam outros.
Coube ao doutor Paruket Veda verificar. A maquina rodou uma outra simulação. Dez dias depois a cena se repetia, todos esperavam ansiosos para saber o que aconteceria.

“Daqui a dois anos e 101 dias”. Disse a máquina, corretamente repetindo a previsão anterior.

As pessoas se desesperaram. Quando a máquina revalidou seus cálculos iniciais, ocorreu uma coisa que durante décadas os Psicólogos poderiam se debruçar, mas somente se a previsão estivesse errada: A depressão global.
Todo mundo ficou triste. Pouca gente foi trabalhar. A vida tinha perdido a graça. Lentamente, as coisas começaram a ficar cada vez mais graves. Faltou comida. Faltou remédios. Surgiam religiões de todos os tipos e não tardou a grupos religiosos fanáticos declararem guerra uns aos outros. Com a miséria e a morte, doenças se alastravam, varrendo cidades inteiras do mapa.
O planeta Terra entrou num parafuso de fome, doenças e guerras por toda parte. Certos de que o mundo ia acabar, ninguém mais se importava com nada. Os saques começaram. A polícia nada fez, os governos que no início ainda tentavam desesperados estabelecer a ordem, rederam-se ao caos. Cidades queimaram. Os dias se passaram arrastados. Alguns não aguentando esperar, quando o auge da depressão global atingiu o clímax, começaram os suicídios globais. Mórbidas competições online apontavam quais grupos estavam na frente em número de suicídios. Era o flash mob dos novos tempos. As pessoas usavam a internet para combinar grandes e espetaculosos suicídios. E ninguém fez nem menção de tentar impedir.

Então um dia, as Tvs que já haviam saído do ar, subitamente retornaram. Uma notícia milagrosa. Paruket Veda, o gênio indiano, havia descoberto uma falha nos cálculos! Aquilo mudava tudo. O mundo não ia mais acabar.
Houve uma súbita reação mundial que ficaria marcada na história do planeta. Todos agora só queriam saber da vida. O fantasma da depressão global desapareceu, as guerras minguaram. Não havia mais por que lutar. A população, agora reduzida a menos de um sexto do que era antes, se recuperava rapidamente, sem nem lembrar dos que haviam sido tragados pela desgraça, depressão e mortes. O mundo agora tinha lugar de sobra para que os conflitos territoriais se extinguissem. Surgiu um governo global. Todas as pessoas que sobreviveram consideravam-se irmãos. E o mundo cantou. Pessoas se abraçavam nas ruas. O sexo era livre. As pessoas já não encontravam lugar para cobranças, para inveja, para a cobiça. Quando o caos se estabeleceu, os primeiros a se matar foram os grandes acumuladores de capital. O governo mundial criou planos, com a ajuda da máquina de reconstrução do planeta. A máquina orientou o que devia ser feito e todos os recursos disponíveis foram investidos em bem estar.
Nunca aquele pequeno planeta azul havia visto tamanha prosperidade. As pessoas eram felizes, a natureza estava em franca recuperação, ajudada pela biogênese científica. A máquina ofereceu soluções para a mudança da matriz energética do planeta…

Os anos se passaram. Todos foram felizes.

Era madrugada quando o Dr. Veda estava no laboratório. Sozinho. Havia dado folga a sua equipe.
Veda estava sentado, calado, em silêncio. O único som que se ouvia naquela sala era o sibilar do ar condicionado. Paruket Veda olhava fixamente para o monitor da maquina. Os números se desenhavam e sumiam da tela. Era uma contagem regressiva. 7… 6… 5… 4… 3… 2… 1…

…zero.

E no braço da Via Láctea, naquele discreto sistema solar, quase medíocre ante a imensidão do cosmos, um insignificante planeta se desintegrou.

FIM

Arroz à piamontese

O cara passou despercebido dos outros clientes quando adentrou o salão. Usava um pulôver vinho, calça jeans desbotada e o resto eu não sei porque não dava pra ver. Foi direto a mesa de sempre, mas estava ocupada.
Vi a cara lhe torcer gradualmente as fuças quando notou, já a uns 10 metros, o beijo apaixonado do casal.

O buquê de rosas no assento da cadeira lateral e ovinho barato esquentando nas taças.
Ele não disse nada, mas dava pra ver que não gostou. Aquela era a mesa dele, aquele era o dia dele, os garçons deviam saber. Era o mínimo que se esperava de um restaurante atencioso para com seus fregueses mais tradicionais.
Recolheu seu orgulho ferido e sentou-se em qualquer uma. “Qualquer merda serve” resmungou para o garçom.
Sentou-se e pediu um chopp escuro. Tão logo o garçom rabiscou no bloquinho, ali estava ele. Novamente só. E o restaurante parecia misteriosamente diferente. Assimétrico.
Estava incomodado. A nova mesa parecia destoar do dia-a-dia, parecia estar fora de lugar. Não estava mais no centro de seu espaço-tempo, as dimensões pareciam estranhas, não via mais a rua, não conseguia ouvir a musica, a mesa ficava numa passagem, e a cada três minutos um garçom estabanado passava chutando os pés da mesa, empurrando cadeira. E o cheiro? Ah, maldição! O cheiro era um problema. A cada minuto era cheiro de filé, de peixe, de camarão, de pizza, de macarronada. Aquilo o distraía, ele não podia se concentrar no aroma, no sabor.
Chegou o garçom com o chopp. Escuro, pingando, fez molhação na mesa. Sujou a toalha. Mas que diabos! Que merda de toalha? Veja você… Manchada, vermelha, suja. Um arroz derradeiro deitado, encurvado para cima, ressequido perto do paliteiro. Pobre arroz.
Ele sentiu pena daquele arroz. Pena e nojo.
Achava toalha suja em restaurante muito pior que lençol de motel reciclado.
“É só comida”, diriam. Pois no lençol de motel usado também é só uma comida. Não que fosse nojentinho ou coisa assim. Somente não era certo. Não estava direito.
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Abdução

Textos
210525 Papel de Parede Abducao 1600x1200 300x225 Abdução

Naquela noite bela
Escura e estrelada
Olhei pela janela
E vi, ali, perto da escada…
Seus olhos escuros
Que me assustaram
Sua boca fina
Não me disse nada
Eu quis correr
Tentei me esconder
Mas perna eu não tinha
Congelei de aflição
foi tudo se apagando
e eu caí no chão
Acordei numa mesa
Sentindo um frio do cão
Era tudo brilhante
Com um ar cortante
Cercado por paredes de metal
Me sentia muito mal
Com a dignidade de um animal
Tinha mais alguém
Que eu não conseguia ver
Tentei virar a cabeça
Mas não podia me mexer
Uma mão gelada
Segurou no meu braço
Minha respiração falhava
Obliterada pelo cagaço
Experiência desesperante
essa que eu sofri
Eu tentei gritar
Sem sucesso, tentei lutar,
pra me libertar
E então eu vi…

Uma criatura ascética
enfiada num macacão
a cara era esquelética
Contrastando com o cabeção
E pálido feito assombração!
Os olhos eram bolotas escuras
Sem emoção,
não parecia triste nem feliz
E quase não tinha nariz.
Certamente não era gente
Era coisa doutro mundo
Ou até do cramulhão
Não me lembro muita coisa
daquela abdução
Acordei congestionado
confuso e tremendo
com aquela situação
Minha cabeça tava doendo
Senti nas pernas um comichão
Vi o brilho sumir no céu
entre as estrelas do firmamento
Tentei esquecer aquele acontecimento
Ninguém ia acreditar
Fiquei chateado
Mas de que adianta chorar
pelo leite já derramado?
Receio de ficar com fama de pirado
Sozinho no pasto e com medo
longe de casa pra dedéu,
Guardei o segredo
que eu levaria pro mausoléu.
O aparelho existe sim senhor
Não quer acreditar? Se esforce.
Admita,
Na calada da noite você também torce
pra não receber uma “visita”.

FIM

O correspondente – parte 4

Textos
Houve um princípio de tumulto no auditório. As pessoas começaram a falar alto sobre a teoria da correspondência. O professor Andreas Jacob não se importou e continuou a narrar o telefonema. Logo, alguns da audiência começaram a solicitar silêncio. E a palestra prosseguiu.

- …Mas vocês não podem simplesmente matar um inocente só porque, sei lá, algum maluco diz que ele é esse tal correspondente aí. – Disse Jéssica.

-Errado. Nós podemos. Pense o seguinte, é um sacrifício necessário para que muitas vidas não sejam perdidas. Milhares de vidas. E durante gerações.

-… – Jéssica ficou sem respostas. Aquilo fazia sentido. Mas ainda assim, não lhe pareceu justo.

-Mais alguma pergunta?

-O que vocês vão fazer comigo?

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O correspondente – Parte 3

Textos
Alguém batia insistentemente na porta.
Jéssica apontou o banheiro. Daniel correu pra lá e já estava prestes a trancar a porta, quando se lembrou do diário. Voltou para pegar.
A porta do quarto continuava a ser esmurrada. Jéssica empurrou Daniel pra dentro do banheiro e em seguida verificou, se estava bem trancado, enquanto gritava um: “Já vai”.
Quando ela abriu a porta do quarto, a primeira coisa que viu foi um canudo preto apontado na cara dela.
Era o cano de um fuzil.

Não houve tempo para que ela parasse para pensar de que maneira aqueles homens haviam conseguido descobrir que os dois estavam no hotel em frente. Empurraram Jéssica na cama e fecharam a porta do quarto. Eram três homens. Dois estavam portando pistolas automáticas e um que parecia o chefe estava segurando o fuzil. Enquanto os dois posicionavam Jéssica com as mãos para trás, sentada na beira da cama de casal, o homem armado foi direto:

-Cadê o Daniel, porra?
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O correspondente – parte 2

Enquanto ele caminhava com seu jeito seguro e frio, a mente de Daniel produziu um sem numero de motivos, perguntas, respostas, e mentiras.

Mesmo que não estivesse em condições de raciocinar tão velozmente, o nervoso, a adrenalina de achar que ia morrer, turbinou a mente dele de tal forma que era como se as coisas acontecessem em câmera lenta. Passo a passo aquele sapato antiquado, meio sujo de lama nas bordas tocava o chão da locadora. O terno era um pouco estreito. Suficientemente estreito para notar que o cara havia feito num alfaiate, o que tambem indicava que ele tinha dinheiro. O bigode era bem aparado, e os cabelos ralos deixavam despontar alguns fios brancos. O rosto era vincado, como o rosto de um marinheiro e o peitoral estufado. Aquilo só poderia indicar duas coisas. Ou o homem do paletó era um velho marinheiro, pescador ou coisa do tipo, ou aquela figura que vinha na direção dele era um soldado ou ex-militar. Sem dúvida, era alguém que passou grande parte de sua juventude exposta ao tempo e ganhou marcas que emolduravam isso. Seu jeito frio e forma de andar expunham uma sensação de segurança, de autoconfiança que raramente ele via nas pessoas comuns. O que indicavam que além de ter dinheiro, o homem do paletó era uma pessoa cuja força de vontade raramente era contestada.

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O correspondente – Parte 1

Tudo que vou contar aqui é a mais completa expressão da verdade. Ou talvez não.

Não sei…

Estou a uns meses estudando o diário do Daniel e até hoje não consegui formar uma clara deia do que realmente aconteceu com ele. Não apenas porque o diário do Daniel é uma confusão meio sem pé nem cabeça, porque ele próprio sempre foi um cara bastante confuso, mas também porque muita coisa do que poderia explicar aquela série de eventos que ocorreram com ele num curto período de dois meses foi deliberadamente removida do diário e escondida em lugares insuspeitos.

Como muitas pessoas que tiveram acesso aos prontuários, eu comecei meu mergulho na personalidade complexa de Daniel pensando que ele começou a sofrer delírios e alucinações.

É estranho como certas pessoas reagem ao stress. E aquele momento específico da vida dele era extremamente estressante. Daniel trabalhava em meio período numa locadora de video, e à noite, alugava um táxi de uma vizinha, com o qual defendia uns trocados nas portas das baladas mais concorridas da cidade. Logo, é perfeitamente compreensível supor que Daniel dormisse pouco, e como todos nós aqui sabemos, a privação do sono é um dos elementos fenomenológicos que podem desencadear surtos. O estudo detalhado dos manuscritos não permite prever exatamente se Daniel era usuário de drogas. Não dá indicativo de consumo alcoólico nem mesmo apresenta qualquer indício de consumo de tabaco, maconha ou qualquer outra droga correntemente disseminada nas grandes cidades.

O que eu posso dizer acerca do que se passou com Daniel é um recorte preto e branco e fragmentado que levei alguns anos para conseguir montar. Pequenas peças colhidas com amigos, parentes, páginas ocultas no motor do carro, escondidas sob o assoalho, páginas codificadas em intrincados padrões matemáticos escondidas dentro de livros… Mas faltava muita coisa para dar uma certeza do que realmente se passou.

Com o desaparecimento dele, tudo ficou ainda mais complicado. A polícia se meteu, o suposto local do crime foi repetidamente escrutinado sem as necessárias revelações. Mas ainda assim, eu estava obcecado em formar uma ideia básica do que ocorreu, porque fui um dos poucos que conversou com ele antes do desaparecimento. Testemunhei seu medo, seu nervosismo. Sua desesperada necessidade de mostrar que não estava louco.

Só anteontem, quando no meio da madrugada recebi o telefonema de uma mulher que não se identificou,  mas que sabia meu nome, as coisas fizeram um sentido surreal. Como um prisma que decodifica a luz do sol em uma miríade de tons, aquela ligação me deu um novo ponto de vista sobre o desaparecimento de Daniel.

Ela era rouca, mas pela voz, tratava-se de uma mulher ainda jovem. A ligação foi estranha, porque ela não me disse seu nome, nem deu detalhes suficientes para que eu pudesse seguir aquela pista. Mas como ela começou do final, dizendo que Daniel estava morto, e o misterioso porquê de sua morte, eu ouvi atentamente, fazendo rápidas anotações esquemáticas no bloquinho de telefones.

Peço desculpas por me alongar tanto antes de começar a expor o misterioso caso do desaparecimento de Daniel. Mas acredito ser fundamental que esta comissão de inquérito entenda que o que trataremos aqui, caso seja um fato real, expõe um grande risco ao mundo.

 

Após tecer seus breves comentários, o professor Andreas Jacob iniciou a projeção dos slides.

-Este é Daniel. 32 anos. Divorciado.

Bem, divorciado talvez seja uma palavra inapropriada para o que de fato aconteceu. Sua mulher o traiu… Com o cachorro. – Ele disse, pigarreando, meio sem graça.

Houve um sussurro na plateia e uma certa consternação. Andreas Jacob pareceu não se intimidar e detalhou:

-Segundo os elementos que surgiram no diário, ao qual Daniel era muito apegado, ele entrou em casa voltando do trabalho mais cedo e ao ouvir um som estranho vindo do quarto, suspeitou que havia alguém na casa.

Daniel então invadiu o cômodo do apartamento e se deparou com uma cena grotesca, onde sua esposa Anna praticava uma cena de sexo com Duke, seu cão da raça Waimaranner. – Disse Jacob, mostrando um slide com a foto de Duke.

waimaranner1 O correspondente   Parte 1

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