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Netuno

Fim de semana de sol, acordei disposto a ir para a praia.

Chegando lá percebi que o dia estava lindo, mas curiosamente quase ninguém se atrevia a entrar na água. Eu achei aquilo estranho, mas abri uma cerveja, tirei a camisa e esqueci da vida.

Papo vai, papo vem, resolvi entrar na água.

Mal entrei entendi o porque da galera não entrar no mar. Tava frio pra caramba. Nadei pra lá, nadei pra cá… Até me acostumar com a friaca. Praia oceânica é fogo.Comecei a pegar confiança. Dei uns mergulhos, nadei para o fundão, fiquei boiando.

Bem eu estava nadando e percebi que o mar aumentou sutilmente de intensidade, em termos de ondas. Elas estavam ficando fortes e grandes. Foi aí que comecei a notar que eu estava sendo gradualmente puxado para o fundo. Cada vez mais… Sabendo nadar, eu tentei me iludir de que não estava acontecendo aquilo e continuei a nadar, devagar, para a areia.

Mas depois de umas braçadas, tentei colocar o pé no chão e… Porra, cadê o chão?

Comecei a me preocupar, afinal não sou lá um exímio nadador. Pra piorar, eu tenho a escrota mania de me sabotar mentalmente nessas situações. Eu abria o olho em baixo da água em busca de ver onde que estava o chão, mas eu não via nada, porque sou míope e porque a água tava turva. Então vem a minha mente maligna e começa a “tocar” os acordes de Tubarão…

Uma coisa roçou na minha perna. Eu sabia que era uma porra dum plástico, mas sabe como é. Eu tava pensando na musica do Tubarão. E não tinha ninguém, absolutamente ninguém nadando perto. E então minha mente lembrou do Discovery e daquele episódio que cansou de repetir sobre como os tubarões confundem surfistas com focas, sobretudo em águas… “Turvas! Puta que pariu! É um tubarão!” Eu pensei.

Eu podia já sentir aquela bocarra cheia de dentes pontiagudos e tortos cravando no meu pânceps (meu músculo mais desenvolvido).

Nadei como o Michael Felps (dos pobres) e em pouco tempo, senti a areia aparecer. Comecei a sair da água o mais rapido que eu podia. Alcancei algumas pessoas, que olhavam pra minha cara com um ar de: “Oh, meu Deus! O que é isso?”

Eu pensei: Porra, será que eu tô com um catarro pendurado no nariz?

Eu vi um cara que estava ali perto nadar desesperadamente mar adentro.

Comecei a acompanhar o cara enquanto saía em direção a areia. Foi quando eu olhei para trás e vi.

Maluco, não era ninguém menos que NETUNO!  Gigante, formado por uma onda monumental que se levantava bem atrás de mim. Não deu tempo nem de encomendar a minha alma. Só consegui falar: Fude…*

Buuum!

ondagiganterio Netuno

NETUNO!

Netuno me pegou num mata-leão, e bateu minha cabeça no chão de areia umas quatro vezes. Eu sabia que estava fodido, e num lampejo de pensamento, juntei os braços perto do corpo e baixei a cabeça, tentando virar uma espécie de “bola” e assim evitar de me quebrar todo.

Eu rodei de tudo que é eixo possível. Era como se eu estivesse nu numa máquina de lavar roupas cheia de giletes. Bati com força naquelas areias grossas da praia de Niterói e comecei a quicar. Com o susto eu não tinha recolhido ar suficiente. Começou a faltar ar. E eu nem sabia onde era o “para cima”. Rodei tanto que senti claramente quando minhas pernas saíram da água. Eu tava desesperado achando que ia morrer, e o pior, morrer de um modo escroto, virando piada na praia. A força da água era uma coisa descomunal. Nunca vi aquilo.

Capotei com tudo para fora da onda. Saí tossindo, os olhos arregalados. Tentando me equilibrar. Tudo rodava e eu não sabia onde estava. A espuma ferveu à minha volta como se eu fosse um sonrisal gigante e imediatamente senti uma força enorme tentando me puxar. Netuno queria mais. Eu meio que – é foda dizer isso – soltei a franga e comecei a correr aos saltos, como uma gazela, para fora do mar. Isso deixou tudo ainda mais detestável.

Minha sunga ameaçou cair. Eu paguei cofrinho peludo na praia e havia cerca de dois quilos de areia no meu fiofó.

E eu ouvi risos. Até agora não sei se as pessoas riam da minha desgraça ou de nervoso, pois a onda que me acertou bem nas fuças era um ondão daquelas que aparece no filme “Náufrago”.

Saí do mar cambaleando, tentando ver se estava ferido. Quando olho para a areia, não conseguia mais me localizar. Pensei que a batida de cabeça no fundo tivesse me afetado o cérebro. Estava tudo muito embaçado. Mas daí me conscientizei que eu estava mesmo era sem óculos e comecei a andar pelo meio das barracas, tentando sair daquele lugar onde as pessoas olhavam pra mim com risinhos cretinos. Caminhei pelo meio das barracas sem ver direito pra onde estava indo, até achar a primeira dama, que olhava aflita para o mar, num lugar totalmente diferente de onde eu fui cuspido.

Eu tava com fome, catei meus bagulhos e fui embora pra casa.

Não vejo a hora de voltar na praia. Netuno vai se ver comigo!

Sou chique, bem. Agora eu tenho homertits!

Ontem eu fui com a primeira dama realizar um sonho de consumo. Comprar uma televisão grande com um home theater. Nós pesquisamos bastante e achamos uma Tv legal (scarlet) lá na Fast. (já tô me preparando para o god of war 3)

Como sempre, a Nivea tinha que fazer alguma coisa antes de comprar a televisão. Revelar fotos. E eu em cólicas para ver logo a porcaria da televisão. Acabou que eu larguei ela revelando as fotos e fui correndo para  a fast. Pra variar, eu tava meio bagunçado, a barba por fazer, cara de urubu cansado… Quando o vendedor me atendeu, ele perguntou o que eu queria. Deu pra ver na cara dele que o tom era:

-Porra, mais um pela-saco que entra aqui pra ver filme e não compra nada…

Eu até entendo o maluco, já que final de mês, raramente alguém compra alguma coisa cara.

-Quer alguma coisa?

-Hummm. Eu queria aquela televisão ali, ó.-Eu disse apontando o monolito sacrossanto do prazer burguês.

O cara fez uma cara assim, de quem desconfia que é pegadinha. Mas eu fiquei firme.

-Só isso? – Ele perguntou num tom que oscilava entre o solícito e o cínico.

-Hummm. Não. Eu quero aquele home theater também.

O cara então deu uma engasgada. Eu pude ver na cara dele que ele realmente começou a achar que eu tava zoando. Mas ainda restava algum fio de esperança no cara e ele perguntou novamente o bordão de todo vendedor que se preze:

-Mais alguma coisa?

Claro que eu não ia comprar mais nada, afinal eu havia acabado de condenar meus parcos caraminguás juntados com todo amor e carinho ao longo de meses de rendimento desse blog. Mas não deu pra me conter.

-Hummm. E quanto que tá esse notebook ali? – Eu perguntei apontando um vaio que é daqueles mais caros (vaio e caro em uma mesma oração constitui pleonasmo vicioso)

O maluco arregalou os olhos. Pude perceber que dentro daquela caixola ele realizava múltiplas operações: Uma das operações visava entender o que estava se passando. Seria um golpe? Uma pegadinha? Já o outro coprocessador aritmético do vendedor, estava fazendo contas para saber a comissão dele, hehehe.

Ele me disse o valor, mas como eu realmente não ia comprar o notebook, eu nem armazenei o valor.

-Ah, tá. Vou levar só a Tv e o home mesmo.

Foi quando o cara sentiu que eu ia realmente comprar e abriu um sorriso. Nisso, a Nivea chegou e  fizemos a compra.

O maluco só faltava levitar de satisfação. Acho que eu ajudei ele a bater a meta.

Mas o que eu mais achei legal naquele lance de comprar com o cara é que o vendedor do setor de eletroeletrônicos da Fast, uma loja que só vende essas merdas, chamava home theater de “homertits”.

Eu achei tão legal o nome do “hormertits” que agora não consigo mais falar home theater. Não sei o que me deu. É engraçado, é meio tosco. Sei lá…

Talvez eu goste porque seja uma palavra que sintetiza duas coisas que eu gosto. No caso, o Homer (simpson) e Tits (seios). Sabe como é? Algo do tipo “bussunda”.

Acho que nunca mais passarei a chamar um home theater de home theater. Não tem nada a ver. Fica um sotaque meio abichalhado, meio fresco, pedante. Ainda mais quando a gente capricha na pronúncia e faz aquela lingüinha de Vicentinho da CUT. Já homertits é legal, porque é um troço descontraído. E ainda lembra o finado e saudoso Mussum.

mussum Sou chique, bem. Agora eu tenho homertits!

Mudando de assunto, não sei se já contei que depois que eu me mudei, o meu telefone passou a receber as chamadas do atendimento ao consumidor de uma empresa de ônibus.

No início, eu achei graça. Aí depois, achei estranho. Dois dias depois, eu tava ficando puto. Agora estou praticamente enlouquecendo e o o problema não resolve.

Toca o telefone de uma em uma hora e é sempre algum otário querendo falar com a Viação Pendotiba. (logo uma das maiores empresas de ônibus de Niterói. Essa empresa é famosa por contratar psicopatas que dirigem feito loucos)

Todo santo dia liga alguém dizendo que esqueceu algo no ônibus. De celular a documento.

Outro dia, chegamos da rua e tinha uma gravação na secretária. Era um velhinho que reclamava que havia perdido um documento no ônibus. E então há um silêncio, seguido de um monte de números, que mais parecem o resultado da tele-sena. (suponho que seja o numero dos documentos, coitado)

Aspas: Isso me lembrou da Tia Solange, na época da faculdade de Medicina, que já esqueceu uma caveira humana no ônibus. Quem achou foi uma senhora, que ao abrir a caixa deu de cara com uma ossada sorrindo pra ela. A velha quase teve um ataque cardíaco, hahaha. Meu avô foi buscar a caveira lá na garagem.

Outro dia, ligou aqui pra casa um velho. Pior é que nego já liga dando esporro. Eu tava trabalhando na minha, em paz… Não dá nem tempo de explicar que ligou errado.

-Alô?

-…Absurdo o que os motoristas de vocês fazem com a gente! Tá pensando o que? -Gritava um velho a plenos pulmões do outro lado, daquele jeito histérico em que não tem como você entrar para dizer que é residência e que a ligação caiu errado.

Quando finalmente eu consegui dizer isso, o velho foi bem grosso comigo e bateu o telefone na minha cara.

Menos de um minuto depois, toca o telespica. Novamente o velho. Novamente o esporro de uma tacada só. Eu gritei com ele que era residência, que tava caindo errado, e novamente o velho, filho de uma égua, gritou um palavrão e bateu o telefone na minha cara. Aí não deu.

Eu fiquei do lado do telespica esperando o desgraçado ligar. Se ele ligou duas vezes, ia certamente ligar uma terceira. Esperei um minuto, dois… Nada.

Que merda, bem na hora que eu queria dar o troco no velho dos infernos, esse puto acerta o número?

Fiquei ali mais um pouco.  Feito um babaca, olhando para a parede… Nada.

Quando eu já ia desistir, tocou. O telespica tocou. Esperei tocar uma, duas, três… Era a hora:

-Viação Pendotiba, bom dia?-Nem me dei ao trabalho de disfarçar a voz.

(e era o velho)

-Bom dia coisa nenhuma! Eu tô aqui a mais de uma hora no ponto da rua (não entendi essa parte pois a dicção do velho era pior que o de uma atriz pornô em cena) e é o terceiro ônibus que passa e não pára. O motorista filho da puta fingiu que não me viu. Eu exijo que vocês tomem uma providência…

-Senhor?

-(ele falou um monte de coisas inúteis e parou) Sim?

-Acontece senhor, que visando oferecer uma melhor imagem para nossos clientes, a direção da companhia resolveu em assembléia que a partir da data de ontem, nenhum ônibus da nossa empresa vai parar para pessoas feias.

-O quêêêêê??? – Gritou o velho. Eu com uma vontade de rir que já estava quase fazendo xixi nas calças. Mas continuei num tom sereno e impessoal, como essas pessoas robotizadas do telemarketing:

-Sim senhor. Naturalmente, o senhor deve ser feio. Por isso, os ônibus da empresa não vão mesmo parar para o senhor.

-Ah, nããão. Não pode ser! Mas você… Você tá… Você só pode estar de sacanagem comigo!

-Não senhor. São as normas da empresa. O ônibus não vai parar para ninguém feio. Só pra pessoas bonitas.

-Mas isso é um absurdo! – Gritava o velho, já ensandecido. -Que diabo de ordem maluca é essa que eu nunca vi isso?

-Os chefes aqui fizeram uma pesquisa e viram que as pessoas achavam os ônibus feios. Como comprar ônibus novo é caro demais, a empresa decidiu embelezar o coletivo com os passageiros. Agora ta proibido gente feia.

-Faça me um favor! Não brinca comigo, moleque. Chama aí o seu supervisor!

-Senhor… Eu não posso fazer nada. Eu sugiro que o senhor tente fazer uma plástica. Quem sabe colocar uma máscara, uma peruca, ou tente se esconder atrás de uma moça bonita aí no ponto.

-Eu vou processar vocês, seus filhos da puta!  Isso é um absurdo! Um absurdoooo! – Gritava o velho.

Aí então ele desligou. Eu quase tive uma síncope de tanto rir.

O mais hilário é imaginar a plaquinha lá na sede da garagem:  ” RECORDE DE QUALIDADE: Estamos a quinze dias sem nenhuma reclamação. Parabéns aos funcionários!”

A árvore

Eu, como quase todo mundo que eu penso que conheço, guardo com carinho na memória alguns momentos marcantes da minha infância.
Sei lá porque, certas memórias surgem do nada, qual uma ejaculação mental precoce, não raro, em horas impróprias. Noutras vezes, essas memórias afloram em bons momentos. São aqueles momentos em que, sem nada melhor para pensar, passamos o scandisk no nosso cérebro. Os melhores momentos para passar o scandisk no cérebro são: Engarrafamentos horrendos, enquanto esperamos elevadores demorados, em salas de espera, em conversas com pessoas chatas, que nem sequer suspeitam que nossas interjeições são meras atitudes automáticas para que elas continuem, verborrágicas, falando, falando, falando todo aquele monte de coisas que você nem sequer sabe do que se trata. Há também bons momentos para pensar durante o banho, antes de pegar no sono, etc.
Nessas horas, minha mente fica processando sei lá o que. Idéias, eu acho. Idéias de posts, coisas que eu tenho que fazer, a minha agenda mental, coisas que eu vi, enfim, a mente humana se diverte à sua própria maneira.
Hoje mesmo, eu estava tomando café da manhã, quando fui assaltado por pensamentos sobre aquela máxima que todo mundo já ouviu:

“A vida de um homem só é completa quando ele escreveu um livro, plantou uma árvore e teve um filho.”

Tal qual uma toalha de renda do norte, cada fio de idéia que surge se trança com outro, e mais outro e os processos se repetem, cruzando idéias e imagens. Lentamente eu percebo que toda uma estrutura de idéias vai invisivelmente se solidificando no ar. Muitas vezes eu me pego no meio de um pensamento que não tem “lé com cré” e me pergunto: ” Mas da onde veio este pensamento?” Então trato de vasculhar a mente tentando refazer, passo a passo, idéia após idéia, o longo fio de trama mental que levou um pensamento a virar outro, completamente distante. Engraçado isso, de que as idéias estão amarradas umas às outras. Eventualmente as memórias preenchem espaços vazios, como as flores das rendas nordestinas.

Então, como eu ia dizendo, eu estava tomando café e surgiu a tal máxima do livro, árvore e filho. Imediatamente me ocorreu encaixar minha vida neste paradigma e ver se sou completo ou não. Logo de cara vi que não sou “completo”, pois não tenho filhos ainda. Mas em compensação, já escrevi o tal livro, e já plantei a tal árvore.
Certamente, no tempo em que a máxima foi cunhada, provavelmente há mais de um século, não havia essas modernidades de internet, ecologia e planejamento familiar.
Minha mente tratou então de imaginar como deveria ser uma releitura de uma máxima assim. Algo mais atual, mais de acordo com os novos tempos. Ficou assim:

” A vida de um homem é completa quando ele escreve algo que sirva para alguém, planta um vegetal e ama e é amado por uma criança.”

Sim, acho que isso soaria melhor. Afinal, hoje em dia, lançar livro é um trabalho hercúleo. Os editores só querem autores consagrados, afinal é a grana deles em jogo. Isso limita o mercado editorial e impede que muitos bons autores não passem de potenciais bons autores. Claro que resta as editoras alternativas, que certamente vão cobrar do autor para fazer o livro dele. “Pagando é fácil”, como dizem os editores donos dessas empresas que trocam o ponto de captação do lucro para antes da publicação da obra.
Por outro lado, escrever na internet é grátis, é rápido e é, sem dúvida alguma, mais gratificante, pois você atinge mais gente. E o que é melhor: sem risco.
Já que na internet qualquer bundão escreve qualquer porcaria, é importante que o texto ajude alguém, ou sirva, de algum modo para o leitor. Ninguém, em momento algum da história da humanidade, escreveu alguma coisa para não provocar efeito. Até as pinturas rupestres do homem primitivo, tinham alguma finalidade. A escrita é uma expressão e sendo assim, provoca efeitos positivos ou não em quem lê. Lógico que existem milhões e milhões de porcarias que passam em brancas nuvens. Mas não consigo conceber alguém escrever o que quer que seja, com este objetivo.

Sobre ter filhos, certamente que o sábio que inventou a tal máxima, não imaginava que alguém poderia não ser dotado desta capacidade física, que o senso comum, na exuberante ingnorância que sempre o marcou, pensa que é algo natural que equipa de fábrica todo ser humano. Infelizmente, para as pessoas com problemas reprodutivos, esta máxima é uma condenação, que informa com todas as letras que a vida de alguém assim jamais será completa. Mas… Será?
A verdade dos fatos é que, tirando causas físicas, fazer filho é fácil. Basta um homem e uma mulher seguir os instintos naturais e nove meses depois, ali está um bacuri – ou mais.
O difícil não é fazer filho. O difícil é criar a criança. O importante, ao meu ver não é derramar espermatozóides e sim amar. É ser amado. Ter filhos, milhares por aí os tem e largam pra lá. São as clássicas máquinas de fazer pivetes, e o que dizer das que enterram, abandonam e jogam no lixo os filhos recém nascidos? Veja que coisa intrigante: O maior ato de amor que uma pessoa que não ama a criança poderia fazer, é dar a mesma para que seja amado por outra.

E a árvore? Foi-se o tempo em que plantar uma árvore era tudo que uma pessoa poderia fazer para melhorar a natureza.
E por que só árvores? E as gramíneas? E as flores? E os arbustos? E as algas? As folhagens? Quem vai defender o reino vegetal? Impor a condição de completude da vida para quem planta apenas árvores é uma injustiça.
Aliás, quando a máxima foi pensada, nem sequer havia a preocupação ecológica. As pessoas simplesmente não pensavam nos recursos naturais. Parecia que haveria sempre mais e mais árvores. Mais e mais água. Que certas coisas nunca acabariam. Com o tempo e a destruição do nosso meio ambiente, descobrimos com tristeza que estávamos (estamos) matando o planeta aos poucos, de forma que estamos vivenciando o maior e mais lento suicídio em massa que uma espécie já provocou em toda a História.
Em um momento de consternação, a humanidade pensou que replantar as árvores eram tudo que poderíamos fazer para recuperar um pouco do que estamos exterminando. Falou-se em “Amazônia, o Pulmão do Mundo”.
O verdadeiro “pulmão do mundo” é o mar. Mas plantar árvores é importante, é legal. Não vai mudar muito o problema que nós humanos criamos pra nós mesmos, mas é bom.
E então eu me lembro aqui da árvore que eu plantei. Gradualmente, surge da escuridão das minhas memórias, a cena daquele fatídico dia, quando eu voltava pra casa vindo da aula de recuperação em Matemática.
Todo mundo de férias e eu estudando feito um desgraçado. O medo de repetir de ano… Num período onde todos tem grande prazer, eu vivenciava momentos bem ruins.
Resolvi inovar e voltar pra casa por um novo caminho. Um caminho que eu nunca havia feito antes, porque desde pequeno, eu odeio a rotina. E também pelo prazer da descoberta, da aventura.
E então, após andar por aí uns 500 metros por ruas que eu não conhecia, eu me deparei com uma casa meio velha. Meio antiquada. A casa tinha uma enorme árvore no quintal. O chão era roxo. Totalmente roxo. Eu olhei pra cima e vi milhares de pequenas frutinhas escuras naquela árvore de verde exuberante.
- Amoras! – Eu pensei.
Imediatamente, pus-me a catar os galhos mais baixos da árvore em busca de amoras. Não sei quanto tempo fiquei ali, catando uma, duas, três, duzentas amoras…
Não precisa dizer que eu sou louco por amoras. Eu tenho dessas coisas. Quando encontro algo que eu gosto, eu como até sair pelos olhos. Foi assim também com jambo, que eu comi tanto que vomitei jambo até pelo nariz.
Naquele dia, eu rapelei a árvore completamente. Quando acabaram todas as amoras em estado comestível que havia na parte da árvore que dava para a rua, eu comecei a subir no muro, visando agarrar amoras mais vermelhas, mais roxinhas e doces, que estavam dando sopa dentro da casa.
Gradualmente, fui me empolgando e vendo que a casa parecia vazia, me arrisquei a pular o muro para dentro daquela residência.
Eu invadi a casa e trepei na árvore. Eu me deliciava com as amoras. Estava tão absorto naquela colheita maravilhosa que esqueci completamente de ler a placa vermelha no portão que dizia: “CUIDADO COM O CÃO”.
Foi então que eu tive o desprazer de conhecer o tal “Cão”.
Era uma besta do apocalipse preta com mais de um metro de altura e olhos injetados de sangue que surgiu não sei de onde. Aquela boca arreganhada cheia de dentes olhando pra mim com o mais profundo ódio.
Eu tratei de escalar a árvore, e o troço ficou pulando lá em baixo.
Tentei jogar amoras na besta, mas a criatura das trevas só ficou ainda mais puta da vida comigo. E começou a querer escalar a árvore.
Não vendo outra saída, fui obrigado a lançar mão do meu poder:
Berrei “Socorro” a plenos pulmões.
Eu berrei tanto que quase fiquei rouco. Mas a porra da rua era meio deserta e ninguém ouviu. O cachorro bravo fazia um escândalo de rosnados e latidos. Ele estava pulando cada vez mais alto. Pra piorar, o tênue galho no qual eu estava desesperadamente agarrado, começou a estalar.
Falando sério que eu pensei que o monstro ia me engolir. Até que ele parou subitamente. Eu estava com os olhos apertados, já esperando pelo pior quando ouvi uma ordem direta:
-Pode tratar de descer daí!
Quando abri os olhos era uma velha, de camisola. Cabelos grandes e brancos. Ela era meio gorda. Muito cheia de rugas. Parecia a Madame Min.
Eu fiquei meio sem ação e ela entendeu que era por causa do cachorro. Então ela prendeu o bicho atrás de um portãozinho na lateral da casa.
Aí eu desci e levei um belo esporro por invadir a casa dela.
Eu tentei me explicar, mas a velha era boa em dar bronca. Tão boa que eu chorei.
Quando eu chorei, ela ficou com pena. Acho que ficou com pena mesmo não por eu ter chorado, coisa de moleque cagão, mas sim quando viu nos meus dedos, camisa e boca que eu estava apenas comendo amoras.
Certamente foi isso, pois eu mais parecia o Bozo com uma bola vermelha ao redor da boca.
Depois de me acalmar, eu comecei a conversar com ela. O tom dela mudou e de bruxa, ela ficou maternal. Ela se chamava de “vovó” e, ou eu me esqueço, ou de fato ela realmente nunca falou seu verdadeiro nome para mim.
A Vovó me disse para nunca mais fazer isso novamente. Que era para nunca entrar na casa de alguém sem ser chamado. Ela disse que o cachorro era bravo mesmo e que se ela não estivesse em casa dormindo, eu poderia morrer.
Eu não tinha dúvida alguma de que ela estava certa. Pedi desculpas e disse que não havia visto a placa porque eu gostava de amoras e queria apenas comer algumas.
Ela olhou para a árvore, a esta altura com muito menos amoras do que sempre, e riu.
-Você quer uma muda dessa arvore? – A Vovó perguntou.
Eu aceitei prontamente. Nessa altura da vida, eu ainda não sabia exatamente o que era uma “muda”, mas tendo em vista ter praticamente dizimado as amoras da árvore da vovó, topei.
Ela entrou na casa. Eu fiquei do lado de fora, sentado no parapeito do pequeno muro, sobre a tampa do registro de água. Do outro lado do portão, o cão preto enorme me olhava fixamente, em silêncio assassino.
Dali a uns minutos a Vovó Voltou, certamente dos fundos da casa, onde deveria haver outro quintal, ou “terreiro” como se chamava. Nas mãos dela, uma garrafa de água mineral, cortada pelo meio, com terra dentro e um diminuto galhinho com umas três folhinhas para fora.
-Aqui está. – Ela disse. E me orientou para plantar a amoreira numa área que não pegasse sol o tempo todo. Eu agradeci e fui embora, carregando meu prêmio.
Cheguei na casa da minha avó e pedi meu avô para me ajudar a plantar a amoreira no jardim, dele. O meu avô sempre gostou de jardim e me ajudou a escolher um bom lugar para plantar.
Cavamos um pouco e com cuidado, transplantamos a árvore-bebê para o local.
O tempo foi passando e o galhinho lentamente se transformou em um graveto, e depois numa vara com muitas folhas e lentamente ela engrossou e se abriu em outras varas.
Mês a mês, eu acompanhava o crescimento da minha árvore. Com felicidade vi surgir as duas primeiras amorinhas.
Meu avô tornou-se o responsável por ela. Podava e sempre avisava quando as amoras apareciam, lá pra meados do fim de junho.
A minha amoreira nunca foi uma árvore como a da tal “Vovó”. Frondosa e cheia de amoras, carregada. A minha dá uma meia dúzia de amoras. Mas mesmo assim, eu descobri que havia naquela árvore, um prazer maior do que apenas os frutos. Ali estava o trabalho meu e do meu avô querido. Estava a materialização da história daquela planta e de nós dois.
Tal qual o tesouro que os heróis das estruturas míticas enfrentam perigos e até a morte para trazer de lugares inimagináveis, a minha amoreira é o meu tesouro e ocupa um lugar eterno no meu coração e no jardim do meu avô.
Domingo, eu estava na casa dos meus avós e conversava com o vô Hugo sobre plantas, árvores e flores. Após inspecionarmos a amoreira, ele me mostrou ou oiti que trouxe para a rua da casa dele numa lata de banha, há mais de cinqüenta anos atrás. E em silêncio, eu admirei aquela árvore enorme. Ali estava a árvore amiga que me viu crescer, brincar e até tacar fogo na vizinha dela. O Oiti é outra árvore do coração. Quase uma pessoa da família. Meu avô nunca esqueceu daquela arvore que ele plantou, e da qual ele recolhe centenas de folhas secas todos os dias, há mais de meio século. E eu nunca esqueci a minha amoreira.

OCULTISMO PARTE 1 – O dia em que eu hipnotizei o Popozinho

Popozinho era o apelido do irmão do… Isso mesmo, Popozão.

Oficialmente o nome dele era Antônio Carlos, mas todo mundo que gostava do cara chamava ele de Popozinho. O Popozinho era um amigão meu que também morava naquele prédio que eu morei, onde eu dei aquela festa e onde eu tive a casa assombrada por fantasmas e onde eu contava casos de assombração para a criançada à meia noite, no playground, junto com aquele meu amigo que morreu e depois apareceu pra mim (conforme combinamos na frente das testemunhas). Aquela foi a primeira vez que eu hipnotizei alguém.

O Popozinho era fã incondicional da banda  Faith no More. E paralelamente eu estava vivendo uma situação bastante peculiar na minha vida de psiconerd. E esta situação, ao qual não pretendo dedicar muitos detalhes por motivos alheios à minha vontade, envolviam pesquisas com ocultismo. Inclusive tenho que reconhecer que os fenômenos que vieram a acontecer na minha casa à posteriori tem ligação direta com a minha entrada neste universo de ordens secretas, invocações, espadas e coisas do tipo, que a grande maioria leva na gozação, mas que à vera, ali, in loco,  podem fazer até o Kojack se arrepiar.

Então naquela época eu estava estudando um livro de alta de magia do século XIX e no livro um grande mago chamado Papus ensinava alguma coisa sobre hipnose. Na verdade no tempo em que o livro fora escrito, os processos cerebrais envolvidos no ato de hipnotizar não estavam totalmente claros e estes fenômenos, hoje totalmente conhecidos pela ciência ainda estavam na casa do ocultismo. Papus citava aquilo como “magnetismo”. Óbvio que o “magnetismo” em questão, não é o mesmo dos ímãs.  Era um tipo de “poder” invísível que se acreditava emanar do mago, como um tipo de ecotoplasma, uma força invisível que permitia controlar a vontade alheia.

Então eu estava lendo aquelas coisas, e à medida em que eu me aprofundava nas pesquisas antigas do ocultismo, comecei a ter vontade de experimentá-las. Nesta época eu ainda não havia entrado para a faculdade e portanto não havia ainda estudado hipnose clínica. Pra mim, aquilo ali era só um monte de experiências. Eu desdenhei do desconhecido. Eu não sabia, mas o meu castigo estava vindo a cavalo. (pelo menos nisso eu me identifico com o Paulo Coelho)

Mas o fato é que nós (eu e os meus amigos do prédio) resolvemos que iríamos experimentar o “magnetismo”. Ante uma platéia formada por adolescentes, pré adolescentes e uma ou duas crianças, eu convidei o Popô – como o popozinho era chamado entre a gente, para ser a cobaia.

Ele topou na hora.

A experiência foi levada à cabo nos fundos do bloco B. Na parte antiga do playground, onde hoje existe um salão de festas. Seguindo à risca meu livro de magia (já posso imaginar os leitores da IURD se benzendo e dizendo “tá amarrado!”) coloquei uma vela na frente do Antônio Carlos, o Popô.  A vela tinha que ser posicionada em um ângulo de 45 graus acima da cabeça da cobaia.A função da vela era clara: Criar um ambiente escuro e funcionar como um ponto de luz. A iluminação produzida mais o balançar da chama e o ângulo desconfortável contribuíam para cansar a mente do sujeito, levando-o a um estado de sonambulismo.

Então, após avisar aos meus amigos da assistência que aquilo era coisa séria, que era para que todos se mantivessem em silêncio, (nem precisava avisar nada. Tava todo mundo meio que com cagaço) estabeleceu-se  um clima clássico de seriedade e sobriedade.

O ambiente foi escurecido e só a vela se manteve acesa. Eu via o fogo bruxuriante da vela iluminando os rostos das crianças, com olhos arregalados. Eu sei que grande parte daquela galera estava com medo. Sei porque eu também estava. Se por acaso minha experiência de magnetismo não funcionasse, seria vergonhoso. Mas se funcionasse como o livro dizia, seria igualmente assustador.

Colocamos o Antônio Carlos no banco de praça que tinha no play, de frente para a vela. Ele ficou olhando para ela, sem se mover, em uma posição totalmente confortável. Ficou assim por um tempo indefinido, mas que me pareceu -pelo menos nas minhas memórias – uns 40 minutos. Todos já estavam ficando cansados. Foi quando notei que o Popô estava começando a se comportar como dizia o livro. Ele estava ficando com sono…

Iniciei a leitura do capítulo de magnetismo. Gradualmente fui estabelecendo comandos e mais comandos. Popô foi gradualmente ficando mais e mais adormecido. Até que eu fiz o teste do livro. O teste consistia em levantar o braço dele dizendo que o braço estava ficando leve… Muito leve. Cada vez mais leve e… Meu Deus! Ele estava mesmo hipnotizado.  O braço do Popô não baixou mais.

Eu olhei satisfeito para o resto da galera. Todos estavam estupefatos com a cena. E então eu pensei… Calma. Mas e se o cara está me ownando? E se ele tá de sacanagem, tipo fingindo?

Então comecei a estabelecer comandos variados. E ele obedecia geral. Isso foi me dando segurança.

Em um determinado momento, o Popô me perguntou:

-Onde que eu estou?

Eu não sabia o que dizer e improvisei: -Você está no camarote do… Faith No More.

A reação do cara me fez crer que não era uma zoação. Ele estava mesmo hipnotizado.

O Popô começou a olhar em volta. Mas de olhos fechados. Alguns meninos da “platéia” começaram a querer rir. Mas eu fiz um sinal e o silêncio voltou.

-Nossa! Que foooda! -Ele dizia. Olhando de um lado para o outro, de olhos fechados. Era como se estivesse dormindo.

E eu continuei: – Tem uma porta ali está vendo?

-Tô.

-Vai até lá.

-Tem alguém aqui comigo. Quem é? – Ele perguntou.

Eu fiquei meio bolado. Achei que ele tava querendo acordar e se referia a galera da “platéia”. E então eu disse:

- É o Mike Patton (o cantor da banda.)

-Mike? É você? – Ele perguntou olhando fixamente para a parede. Eu tive medo da situação e respondi como se fosse o cara.

Novamente Popô teve uma reação interessante. Ele começou a conversar como se estivesse mesmo com o cara. Começou a fazer aquelas perguntas de fã… Eu comecei a responder algumas perguntas. E então ele falou:

-Espera aí você está falando em… Português? -Hahaha. Fui ownado pelo cara hipnotizado. Mas eu não deixei a peteca cair:

-Sim, eu estou aprendendo português. Obrigado por visitar nosso camarote. Agora você precisa ir embora que nós vamos ensaiar.

O Popo ainda quis ir ao “ensaio”, mas eu “o cantor” não deixei. Seguindo os procedimentos de magnetismo do meu livro, eu gradualmente tirei o Popô do transe e ele acordou como se nada tivesse acontecido. Ele não lembrava de nada e o pessoal ficou muito impressionado pelo fato de que o Popô realmente pensava que não havia acontecido nada além de olhar para uma vela. Quando a gente falava pra ele ele simplesmente dizia que era mentira que era impossível. Ele não acreditava mesmo. ele pensava que a gente tinha combinado de mentir pra ele.

Mas ninguém ali estava mais impressionado do que eu. Apesar de achar interessante o que estava naquele livro – Que veio parar em minhas mãos numa situação bastante incomum e que não cabe contar aqui. – Eu não estava levando muita fé. Quando a coisa funcionou exatamente como o livro descrevia, eu realmente fiquei bolado.

De um certa forma, aquela experiência desencadeou em mim um processo de interesse que eu nem imaginava que teria. Mergulhei com tudo naqueles assuntos.

Em outras situações eu hipnotizei outros amigos. Um deles foi o Raul. No dia do Raul, foi tudo bem parecido com o dia do Popozinho, só que com o Raul eu resolvi ousar. Levei o Raul a um estágio de transe mais profundo. O mais profundo que eu havia conseguido até então. E dali em diante, comecei a brincar com a parada.

Uma das experiências – coitado – foi dizer para o Raul que ele estava levitando. Sem peso. Eu joguei o Raul pra cima (não na vera, mas no universo hipnótico) e ele subiu como um foguete. Deu pra ver na expressão dele que ele estava desfrutando de um grande prazer no início, mas que logo depois se tornou medo. Eu ia dizendo para o Raul que ele estava subindo, subindo, subindo cada vez mais alto. E ele começou a sentir frio. Raul me dizia que sentia muito frio. Que estava acabando o ar.

Eu não tinha idéia do que poderia acontecer e então fiz o Raul cair. A galera foi ao delírio. Todos tentandos e manter em silêncio.  O Raul gritava e se sacudia na poltrona, como se realmente estivesse despencando. Imagino que nada cabeça dele era como se aproximar rápido no Google Earth. Pela expressão do cara, devia ser uma das experiências mais aterrorizantes que uma pessoa pode vivenciar.

Meu objetivo era estourar o Raul no chão e ver se ele morreria de verdade (PQp! Olha como eu era mongol!) ou se iria acordar. Mas o pânico do meu amigo foi tamanho que eu não tive coragem. Eu fiz com que ele recuperasse o poder de voar perto do chão. Fiz o Raul voar por alguns lugares bonitos antes de acordá-lo.

Embora a coisa fosse levada a cabo no play como um grande show para a garotada, eu estava usando os meninos do prédio como cobaias dos meus estudos de ocultismo. A experiência com o Raul me deixou intrigado. Eu nao tive coragem de fazer o que pretendia… E se realmente o coração dele parasse? E se ele realmente morresse ali? O que eu ia dizer? Olha a merda que poderia dar!

Então, parei de hipnotizar por alguns dias (até porque depois da hipnose do Raul ficou bem difícil de arrumar cobaias) e resolvi estudar um pouco mais. Meses depois, eu voltei a fazer experiências deste tipo. A mais estranha e constrangedora experiência de hipnose se deu com uma moça. Eu a hipnotizei e meu objetivo era obter a famosa regressão. Eu queria ver se conseguia fazer alguém lembrar de uma vida passada.

O problema é que nada havia me preparado para o que aconteceu.

Ela voltou e estagnou numa determinada idade. Era idade de criança, porque ela falava errado, meio tati-bitati. Por mais que eu tentasse fazer com que ela voltasse ela não voltava. Ela travou ali. E gradualmnete começou a reviver um momento extremamente traumático pra ela. Basicamente, aquela sessão, eu mais assiti do que atuei. A moça voltou a uma idade na infância e reviveu um abuso sexual por parte do pai.

Ela chorava e pedia socorro. Tremia, suava… Se debatia em pleno horror. Eu me senti impotente. Aquele troço ruim de ver e de sentir foi foda. Foi barra pesada. Aquilo mexeu tanto comigo que eu só consegui fazer a moça esquecer tudo que ela viu. Felizmente neste dia, estavam poucas pessoas no play. Nenhuma criança viu aquela cena. E ficou aquela sensação de ter feito uma coisa errada. De ter mexido numa caixa de marimbondos.  Eu nunca mais me esqueci daquela noite.

Eu resolvi não fazer mais experiências com meus amigos. Mas não estava disposto a abandonar o ocultismo.

Decidi comprar novos livros. Num sebo, eu descobri alguns livros interessantes. Um deles ensinava controlar algumas coisas, produzir pequenos fenômenos. E havia o que eu considero o pior e mais assustador de todos. Era impresso com linotipo. Este era um livro sem capa. Com páginas amareladas e ressecadas. Comprei por uma mixaria.  No livro havia muita coisa escrita em hebraico, anotações apagadas a lápis e outras com caneta de tinta, aquelas canetas antigas de tinteiro. Algumas passagens que me pareciam completamente inócuas estavam sublinhadas.

Eu comecei a seguir o estudo do antigo dono daquele livro. Fosse ele quem fosse. E lá no meio, havia algumas páginas que estavam enrugadas e com marcas marrons. Eu presumi que aquilo fosse sangue antigo. Qualquer um ser humano normal olharia para aquela porra e largaria na hora na primeira lata de lixo. Mas o babaca aqui não. O babaca aqui achou maneiro “comprar um livro sem capa num sebo, cheio de pentagramas, escrituras em hebraico ou coisa do tipo, e com marcas de sangue e invocações em latim”. O melhor de tudo era o final do livro. Ele não tinha final. O livro estava apenas despencado, ou seja, era um pedaço de um livro maior. Sendo que as últimas páginas estavam com visíveis marcas de que pegou fogo.

Então eu peguei aquela merda e fiz a pior coisa que eu poderia fazer. Eu comecei a estudar e seguir aquilo. Eu lia fora da ordem -BUUURROOOO! BURRO PRA CARALHO!

E o pior: Eu invoquei uma porra lá que eu nem sabia o que era.

E… Funcionou. (infelizmente)

Esta parte fica para um outro dia.

Professores inesquecíveis

Professores são pessoas que fazem parte de nossa vida por um longo período. Muitos deles passam pela nossa vida durante um ano inteiro. Alguns são péssimos, intragáveis, criaturas detestáveis que desejamos ver queimando na banheira do capeta. Outros, tornam-se marcas indeléveis em nossa vida. Suas aulas nos inspiram e seu conhecimento transborda e constrói. Estilos de professores existem aos montes. Os libertários, os exigentes, os paternalistas, os torturadores, os velhos, os jovens, os malucos e os esquisitos.

Eu posso dizer que vivi e convivi com muitos deles. E embora a grande maioria deles tenha passado incólume pela minha fugaz existência, alguns realmente ficaram tão marcados na minha mente que eu posso recarregá-los em pensamento como só o Spock poderia fazer num Holodeck.

Seria extremamente difícil pensar qual  professor que mais me marcou. Eu convivi com estas pessoas que possuem uma profissão tão bonita durante a maior parte da minha vida, o que gerou um numero bastante grande deles. Chega a ser impossível lembrar de todos. Os que eu me lembro tem um motivo para estarem registrados na minha caixola. Eles me marcaram por uma ou outra razão. Mas vou fazer um esforço de lembrar de alguns.

AS MALVADAS

Quem nunca teve um professor malvado aí levanta o dedo. Aliás, levantar o dedo é coisa dos meus tempos de escola. Será que isso ainda existe hoje em dia? Não sei. Naquele tempo, eu tinha professores que decidiam quem ia para o recreio. Então o que a gente fazia era cruzar os braços sobre a carteira e deitar a cabeça, de modo quase teatral, parecendo mais bonzinho que cachorro com fome. A gente ficava lá, intacto, torcendo para ser chamado e desfrutar daquela rápida sensação de liberdade que dava ao ouvir seu nome e poder disparar como um foguete pelos corredores em direção ao pátio.

Eu percebia claramente uma expressão contida de prazer naquela mulher, que já não me lembro mais o nome dela. Tia qualquer coisa. Eu detestava ela. Eu tinha vontade de dar um tiro nela. Mas eu fingia ser bonzinho para poder sair do campo de concentração.

Não sei bem porque mas os professores malvados foram os que deixaram as marcas mais profundas. E talvez aquela professora, a maldita desgraçada, foi a que mais marcou, por ser a mais maldosa.

A mulher ficava ali, do alto de um tablado olhando para a nossa cara com visível desdém para com a nossa reles existência. Para ela crianças são pessoas em formação, portanto, imperfeitos. Pessoas inconclusas, defeituosas e portanto, menores e menos importantes. Ela era uma cobra.

Escolhia primeiro as meninas. Sempre tem uma menina CDF com cara de retardada que leva borracha cheirosa no estojo do Paraguai que ninguém tinha, com cem mil compartimentos. Essa menina tira notas boas, é meio infantilóide e tem uma mãe rica. Ela usa canetas de 20 cores e SEMPRE, eu disse SEMPRE sai primeiro para o recreio. Que ódio, cara.

A babaca da professora vai chamando um a um e eu percebo que metade da sala já saiu e eu ainda estou lá. Congelado naquela posição. Minhas costas já estão doendo e eu estou quase dormindo e a filha da mãe não fala o meu nome. Quando ela finalmente me chama, faltam uns cinco na sala. Eu vou para o recreio meio feliz e meio puto, por ter perdido um bom pedaço do meu tempo naquela porra de teatrinho de bom aluno.

Essa mesma maldita ficou registrada na minha cabeça porque um dia, na segunda série turma B, ela estava ensinando Matemática.

O que ela fez foi me chamar no quadro para resolver um exercício. Eu fui me tremendo todo, porque eu não sabia resolver. Ela viu que eu não sabia mas mandou que eu resolvesse mesmo assim. Era como se ela pensasse que sob a pressão dela e dos colegas, o conhecimento se cristalizasse magicamente no meu cérebro e eu virasse um gênio bem ali. Mas o efeito foi inverso. Eu não só não sabia resolver aquele arme e efetue como me senti oco. Eu comecei a pensar que não tinha nada dentro da minha cabeça.

Ela não fez nada. Ficou na cadeira dela esperando que eu resolvesse. Eu olhei pra ela com aquela expressão de “me fudi!”. E ela nem estava aí. Ela queria o exercício resolvido. Pra ela, minha obrigação era saber.

Eu sentia aquele monte de gente olhando pra mim. Eu lá na frente e as coisas começaram a ficar ruins.Eu olhava os números e não sabia o que fazer com eles.

Eu falei baixinho pra ela: -Tia eu não sei…

-O que? – Ela gritou. A filha da puta gritou porque queira fazer daquilo um espetáculo. Ela levantou agressivamente e veio na minha direção. Eu senti que estava ficando cada vez menor. Ela me agarrou pelo braço e me sacudiu umas duas vezes. Meus “amigos” começaram a rir.

Ela agarrou a minha mão e resolveu o exercício com a minha mão sendo esmagada na mão dela. Eu não entendi porra nenhuma do que ela fez, mas disse que sim quando ela falou:

-Entendeu agora?

Eu balancei a cabeça porque pensei que seria minha chance de ser liberto daquela predadora de almas e voltar para minha insignificante parcela de espaço em meio aos demais.

- Volta pro seu lugar. – Disse ela, me libertando.

No dia seguinte, eu estava lá desenhando no caderno quando ela viu. Esta mulher tinha uma clara predileção por me torturar. E algo que ela não admitia durante uma aula dela é o prazer do aluno. Pra ela aula boa é aula que faz sofrer. Então não podia mascar chiclete, não podia olhar pela janela, não podia pensar na morte da bezerra. Só podia sofrer e ser torturado naqueles montes de arme e efetue que ela passava.

Daí que quando ela me viu desenhando, foi como uma ofensa pessoal ao modo dela de ser. Ela me agarrou pelo braço, levantou meu desenho para que todos vissem. Todo mundo olhou pra mim. Um ou outro percebeu que eu ia me ferrar novamente e já começou a rir por antecipação.

A mulher me carregou aos safanões até o quadro negro. Ela estava ensinando ver as horas num relógio de ponteiro. Então ela desenhou uma posição um relógio no quadro e perguntou:

-Que horas são?

Óbvio que eu não sabia. Eu tinha passado a aula dela desenhando o He-Man.

-Que horas são? -Ela repetiu nervosa. Eu pensei que ela ia me bater. Então resolvi chutar.

-Duas e meia. – Eu disse.

Errei feio. Era nove e quinze. A mulher começou a gritar que eu era burro, que eu não sabia nada, que ela não sabia o que eu estava fazendo lá. Ela desenhou outra hora no quadro e perguntou novamente.

Sem saber como aquilo funcionava, eu chutei outra vez.

A turma caiu na gargalhada. Todos riam de mim.

Hoje eu sei que muitos ali talvez estivessem rindo de nervoso, porque a situação ficou paulatinamente tensa.

A mulher voltou a me agredir verbalmente dizendo que eu era um completo retardado. Ela conclamou a turma para cantar uma musiquinha depreciativa pra mim e eu fiquei lá na frente sendo ridicularizado pela professora.

Ser ridicularizado por vinte crianças é uma experiência desagradável o bastante para te fazer chorar. Mas você tenta se conter, porque sabe que chorar exporá aquilo como uma fraqueza e todos, sem exceção, irão usar aquilo para te torturar mais tarde, talvez pelo resto do ano letivo. Então o que você faz é engolir o choro e ficar firme. Eu comecei a tentar desfocar a minha visão, para não ver as demais crianças. E foi assim que eu descobri que conseguia fazer isso. Desfocar a visão e ver tudo embaçar sob a minha vontade. Até hoje não sei se isso é um poder exclusivo meu ou se todo mundo pode fazer isso.

Dessa mesma desgraçada, eu lembro do dia que ela estava passando um ditado. Enquanto todo mundo se esforçava para escrever, ela ia passando entre as carteiras olhando como a gente escrevia.

Quando ela passava do meu lado, eu suava frio. Eu senti os olhos dela percorrendo o meu caderno. E então eu vi uma mãozona pegar o meu caderno e arrancar ele da minha carteira. Ela sacudiu o meu caderno no ar.

-Olha só pra isso! Limpeza com”s”! Limpeza é com “s”??? Onde já se viu? É um analfabeto de pai e mãe mesmo!

Eu, que já me sentia burro em Matemática, tive certeza da minha desgraça em todo o resto bem naquele momento. Tudo passou a fazer sentido. Então era isso!

Eu era um analfabeto de pai e mãe. Naquela hora eu escutava pela primeira vez aqueles termos e percebia com certa vergonha, que meu problema mental só podia ter origem genética. Estava claro pra mim que se a professora sabia que meu pai e minha mãe eram analfabetos, eu não podia ser melhor. Eu era o resultado de dois analfabetos. Eu só não sabia o que era um “analfabeto”. Então eu pensei que analfabeto era um tipo de débil mental. Percebi que meus pais podiam ser retardados e fingiam ser espertos para me agradar durante todo o tempo…

Desa forma,  como produto de dois débeis mentais, eu seria um débil mental ainda mais débil mental.

Um débil mental mega super plus.

Aquela mulher maldita foi a professora mais malvada que eu tive. Mas em termos de torturar aluno, aquela não foi a única. Na quarta série, eu testemunhei uma professora pegar um amigo meu, fazer orelhas de burro com jornal e colocar o garoto lá na frente, usando as orelhas de burro, para que todos da turma jogassem bolinhas de papel nele. Eu não joguei, não cantei musiquinha, e achei aquilo muito ruim. Eu sabia como era estar lá na frente. Eu sabia o que ele estava sentindo. Felizmente, o cara fez o que eu não tive coragem de fazer na segunda série. Ele contou para os pais. A estúpida professora foi demitida da escola. E eu me senti  vingado de tabela por aquilo.

PARAGÓ

Paragó era o nome dele. Ele foi um dos professores que conseguiram ficar marcados na minha memória. Eu não sabia quantos anos ele tinha, mas era velho. Velho, sério e carrancudo. Paragó era famoso por dar provas bem difíceis e ser super exigente com presença, com silêncio e tudo mais. Todo mundo tinha medo dele. Eu estava na sétima série. O Paragó era professor de Português. Ele passava um monte de análise sintática pra nós fazermos. Todo dia eram vários quadros de exercícios. Eu fecho os olhos e consigo lembrar da aula do Paragó com absoluta clareza.

Um dia, o Paragó mandou a gente fazer uma redação. Tema livre.  Mínimo de vinte linhas. Porque tinha disso, de número de linhas. Não podia ser menos do que ele estipulava.

Aí eu resolvi inovar e escrevi uma redação que gradualmente foi saindo do controle. Quando eu vi, estava escrevendo um livro. A redação deu sete páginas de caderno. Eu tive vergonha de mostrar pra ele. Achei que ia levar esporro. Quando ele chamou meu número (eu era um número, não tinha nome) fui todo sem graça levar a redação pra ele. O Paragó olhou aquele bolo de folhas de caderno escritas dos dois lados, presas com um clipe.

Era uma história do Conan. Eu sei que parece meio estranho escrever uma história de um cimério bárbaro lutando com criaturas de pedra numa ilha perdida nos confis do Mar Vilayet, mas era o que saiu e eu não podia fazer nada.

O Paragó ficou olhando sério pra minha cara. Ele olhou cuidadosamente a redação. Depois voltou a olhar pra mim e ficou assim. Vários minutos. Eu me cagando quase literalmente.  Nisso, todo o pessoal da turma sacou que tinha algo errado. Então se fez um silêncio constrangedor na sala.

O Paragó ali, impassível, olhando pra minha cara. Ele era naturalmente muito sério em sala de aula. Eu me sentia sob o olhar acusatório de um Juiz, um delegado, um torturador do DOPS.

O Paragó tinha uma verruga gigantesca na lateral do Nariz. Eu tenho este defeito escroto de não conseguir olhar para outra coisa senão para o defeito do sujeito. Eu não tirava o olho daquele verrugão, daquela pelota gigante que parecia que ia explodir na minha cara. E então ele falou:

-Sete páginas?

-…É.

-…

-Muito bom! Foi você mesmo que escreveu isso?

-F..F…Foi.

-Parabéns, 25, você tem jeito pra ser escritor. Se continuar assim, você vai acabar escrevendo livro. Deixa aqui que eu vou ler com cuidado depois. E te digo o que eu achei.

Nossa, meu. Me senti como um jogador que faz o gol na final da copa. Sabe aquele gol da prorrogação que vira o placar e te transforma o cara em herói no último segundo?

Paragó me elogiou. Eu estava nas nuvens. Eu pensei que ia desmaiar.

O Paragó era famoso em alegar que ele dava “O” pra Deus, “B” pra mãe dele, “S” pra ele e o resto era “I” para nós os alunos.

(a escola funcionava num sistema de conceitos, sendo O=ótimo, B=Bom, S=Suficiente e I=Insuficiente.)

Daquele dia em diante, o Paragó passou a me chamar de “garoto da ilha do tesouro” e não mais de 25. Até hoje eu não entendi o apelido, já que o Conan não achava nenhum tesouro na ilha e sim gigantes de pedra, sobreviventes de uma magia negra criada por um rei atlante já morto.

Continua…

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