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O dia em que eu me caguei 2

monografia
Todo mundo já se cagou na vida, é verdade.

Difícil é achar por aí uma pessoa que nunca tenha enchido a fralda da mais natural das massas de escultura. Porém, a ampla maioria das pessoas não gosta de comentar de pequenos incidentes que podem ocorrer na vida adulta.

Encher a fralda tudo bem, mas a cueca? Aí não é “apropriado”. Cagar nas calças depois de burro velho é foda.
Eu não sei explicar porque tanta gente começa a rir quando eu conto deste pequeno incidente ocorrido no interior da minha cueca.
Eu tinha ido na defesa da tese de um grande amigo meu dos tempos de escola, o Paulo Rogério. (ele aparece aqui em posts como o dia do meu pior veto)
No dia marcado, botei uma roupa nova, peguei meu carro e fui para a Puc. Antes de tentar achar uma vaga, coisa cada dia mais impossível nas grandes cidades, parei meu carro no estacionamento do Shopping da Gávea e fui andando até a PUC.
Cheguei no prédio marcado, e encontrei com o Paulo, a esposa e o pai dele. E então começou a defesa que durou muito mais tempo do que eu poderia imaginar. Lembro que no meio da defesa, meus sensores do roskoff emitiram um alerta de que havia uma merda prestes a ser parida, mas no meio da defesa, não dá. Ia ser inconveniente, até porque eu estava incumbido de filmar. Assim, meu cérebro emitiu uma ordem de travamento hermético de furingo a todo custo, que prontamente foi recebido e acatado. A vontade passou e retomei a atenção na defesa da tese, coisa aliás que era muito necessária, pois eu não estava entendendo absolutamente porra nenhuma que o Paulo e a Banca debatiam.
Quando finalmente, depois de deliberarem e o aprovarem, os membros da banca declararam encerrada defesa, os sensores do roskoff novamente voltaram solicitar um pedido de deferimento de liberação de dejetos, que prontamente indeferi, já que estávamos agora nos direcionando para o Shopping da Gávea, onde iriamos fazer um rango comemorativo do novo doutor.
Ora bolas! Quem vai se preocupar com merda sabendo que está prestes a encarar um filé mal passado gigante com batata rostie?

Eu que não sou. E assim, soquei mais comida para dentro, forçando tudo no meio das tripas, e produzindo o que posteriormente seria uma “tragédia anunciada”.
Acabado o rango, conversa vai, conversa vem… Chegou a hora de ir embora.
Nesse momento, após pagar a conta, me despedir dos amigos, me dirigir ao estacionamento e efetivamente pagá-lo, só então, o roskoff emitiu um novo alerta de gravidade média. Alerta laranja!

Mas eu já tinha pago o estacionamento. O período de vigência era de apenas 5 minutos e na hora do rush estava com fila para sair do Shopping da Gávea. Novamente indeferi o pedido do furingo para libertar o kraken. Mentalmente, calculei todo o trajeto que faria de carro até minha casa em Pendotiba, Niterói. Medi quanto tempo havia levado de casa até lá e estimei que com alguma folga poderia soltar a monstruosidade no conforto higiênico da minha própria privada.
Sai com o carro e ao cair na rua, constatei que havia errado nos cálculos. Aquela era a hora do rush, e as vias todas engarrafadas. Perambulei com o carro de retenção em retenção, de engarrafamento em engarrafamento, sempre buscando algum lugar que parecesse viável para dar uma cagada discreta. Mas não havia nada além de bares do baixo gávea, restaurantes com filas nas portas e locais obscuros onde é preferível uma borrada heróica a adentrar.
Finalmente, achei um lugar onde eu poderia dar a luz ao rebento de satã, mas ali também seria inviável, já que não havia vagas. A urgência interna me fez optar por pegar atalhos e fazer algumas proezas heróicas no trânsito (leia barbeiragens horríveis) na busca por recuperar os minutos perdidos no trânsito repleto de carros.
“A solução é o aeroporto!” Pensei. Eu pisei fundo, ignorando pardais e o próprio risco de vida. A cada segundo que passava a pressão interna era maior e pensei desconcertado, que talvez eu acabasse explodindo em uma montanha de merda.
O aterro cheio de carro. Mas pelo menos estava andando. Mais de uma vez torci para engarrafar completamente, de modo que eu pudesse dar uma corridinha deselegante até uma moita do Burle Marx e contribuir para o paisagismo com uma camada generosa de adubo. Mas os carros estavam andando lentamente. Para quem está vivendo o desespero de se cagar, os carros andando devagar eram muito piores que tudo parado.
Tentei pensar em outra coisa, distrair minha mente. Os monges sabem como fazer essas coisas… Dizem que os ninjas e os mestres shaolin conseguem até parar o coração. Talvez com uma boa mentalização eu conseguisse parar o charutamento do cocô. Liguei o radio na esperança de ouvir notícias, mas não deu certo. Mudei para musica e piorou.
Abri as janelas, na esperança que uma lufada do vento gelado da noite me livrasse da sensação de que eu vomitaria merda em poucos minutos.
Eu estava suando frio e me senti encabulado de imaginar que se continuasse sentindo as tripas dando nós eu iria acabar tendo que fazer uma promessa ou rezar para algum santo das causas impossíveis. Já imaginei minhas orações chegando no céu e uma porrada de anjos burocratas rindo da minha cara.
Lembrei de uma macumbinha que a gente fazia na infância quando via um cachorro de rua tentando cagar. A gente trançava os dedos mindinhos e puxava um contra o outro com força, e quanto mais forte fazíamos isso, mais o cú do cachorro trancava e não saía nada. Finalmente, depois de mais de trinta anos, descobri a razão real daquela parada e vergonhosamente tive que apelar para a macumbinha do dedo mindinho.
Talvez funcionasse apenas com cachorros, porque não mudou nada. Aliás, fazendo força a vontade aumentou, e pra piorar, notei que distraído em pensamentos imbecis de como fazer travar o cocô do cachorro, eu havia perdido a entrada do aeroporto e até já tinha subido a perimetral.
“Puta que pariu. Vou me cagar! Puta que pariu, vou me cagar!” Eu só pensava nisso.
A perimetral parada como sempre.
O desespero estava chegando ao clímax quando comecei a dirigir feito o Ayrton Senna. Passei em espaços que até agora me pergunto como não resultou em tragédia. Fiz ultrapassagens que só com o patrocínio do KY seria possível.
Caí finalmente na ponte.
A cada minuto eu consultava meu roskoff na esperança de que todo aquele pandemônio nas minhas tripas fossem um pum fora do lugar. Mas não.
Pnesei em dar uma de louco e parar na ponte. Apontar o brioco para o mar e dar de comer aos peixes. Mas ali não tem acostamento, e já imaginei a cena do meu carro sendo atingido por um caminhão e no dia seguinte a notícia:

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Desesperado, vi a ponte repleta de carros e caminhões. Quando o carro já estava se aproximando do vão central, senti um estranho alívio que me renovou as esperanças de que talvez a merda tivesse dado ré.
Me concentrei no ato de dirigir. Eu precisava chegar em casa rápido e cada milésimo de segundo contava. Algo me dizia que aquela súbita aliviada na pressão intestinal não duraria para sempre. Foi quando eu estava na descida do vão central, quase chegando na praça do pedágio que tive uma sensação incomum de que eu estava prestes a parir um sumô.
Só tive tempo de gritar um “puta que pariu!” e senti uma bengala gigante de merda sólida escapulir para minha cueca. Porra como é difícil dirigir e cagar ao mesmo tempo!
Me assustei ao sentir que não era uma diarréia líquida, mas sima um mastro de bosta fossilizadamente dura. Eu estava agora na praça do pedágio. E não parava de sair merda do meu rabo. A minha cueca foi enchendo e eu senti uma pasta de cocô quente inundar meu saco. Já havia esquecido como era assustadoramente quente o cocô. Minha mente enviou uma ordem de fechar as comportas, mas aquilo parecia impossível. O merdelhê era tamanho que o esfíncter não consegua nem cortar ele no meio. Então joguei todo o meu centro de gravidade para o meio do banco do carro, tentando conter a pressão.
Quando chegou minha vez de pagar o padágio, só então notei que o dinheiro estava na carteira, no bolso de trás. Tentei ser rápido, tirar a carteira do bolso sem provocar um maremoto de bosta dentro do carro. A moça do pedágio ficou olhando para a minha cara, enquanto eu praticava aquele estranho contorcionismo, ao mesmo tempo que fazia uma expressão facial que lembrava a do Dedé Santana:
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Eu temia que o cheiro de merda denunciasse minha constrangedora situação, e assim, abri uma pequena greta no vidro por onde estendi a notinha. A moça pareceu levar décadas para me dar o troco. Talvez ela tivesse percebido a situação.

Ah, as mulheres e sua maldade sádica nata…

Tão logo a cancela levantou, acelerei meu bólido com sabor de esgoto na direção da minha casa. Agora o pior ja havia acontecido e não haveria mais solução. Calculei que iria dar PT (Perda Total) no banco do carro. Mas então, ao descer a ponte, novamente senti a dor nas tripas.
- Puta que pariu! Não pode ser… Ah, não!!! – eu berrei dentro do carro.

Mas era.

Uma diarréia dramática ameaçava explodir tudo dentro da minha cueca.
Peguei o telefone desesperado e liguei pra casa.
“Amor… Eu me caguei!” – Eu disse quando a Nivea atendeu.
Ela custou a entender o que eu estava falando. Depois custou a me responder, pois quando ela finalmente entendeu que eu tinha cagado nas calças, começou a rir descontroladamente e não falava mais nada comigo.
Eu pedia, em completo desespero que ela providenciasse uma operação de guerra na casa, forrando com jornais, lona, plástico ou seja la que merda que fosse, um caminho direto da porta até o vaso.
Disparei com o carro feito um foguete. Passei em sinal vermelho, ultrapassei pela direita, subi em paralelepípedo com a roda…
Finalmente, dali a poucos minutos, eu chegava no prédio.

Ao chegar no meu bloco, notei que havia uma festa no salão gourmet, bem onde eu teria que passar pra ir pra casa. Estava cheio de gente, a maioria vizinhos.
-Puta merda. Todo mundo vai ver que eu me caguei. E agora?
Parei o carro e iniciei o protocolo de ejeção. Eu precisaria usar toda minha habilidade jedi, afim de evitar que a cueca transbordasse de bosta e piorasse a situação do carro.
Aquela era literalmente, uma situação de merda.
Andei apressado com a merda charutando no rabo.

A diarréia já dava anúncios que vinha sem freio. Eu temi que uma copiosa cornucópia de cocô eclodisse pelas pernas da minha calça bem na hora que eu passasse na frente da festa dos vizinhos. Assim, fui pelo outro lado do prédio, andando como um daqueles caras que disputam marcha atlética nas olimpíadas. Eu me sentia a Charlene balançando a cauda. A chegar perto do elevador, notei varias pessoas ali esperando para subir, incluindo aquele senhor distinto do sexto andar. Temi virar a piada do condomínio e então recuei. A solução era subir pelas escadas.

Após os três primeiros degraus, eu notei que talvez tivesse sido mais inteligente segurar firme e esperar para subir sozinho no elevador. A cada degrau, um pouco de bosta ejetava do meu rabo, e a cueca que estava repleta de concreto marrom começou a molhar. Nunca cinco malditos andares foram tanto. Eu sentia que ia explodir. A porta trancada!
Atochei o dedo na campaínha.
A Nivea demorou eras para abrir a porta. Pensei que ela estivesse realizando o procedimento de emergência que eu pedi. Quando ela abriu a porta, ainda estava se mijando de rir, e o que é pior, no telefone, contando para minha sogra que eu tinha me cagado nas calças. Pra piorar, ela não havia colocado plástico nem jornal nem nada no caminho e os tapetes do banheiro ainda eram os brancos! Eu fiquei puto mas não deu tempo nem de chiar. Corri como “The flash” para o vaso, e tão logo arriei as cuecas, espalhando merda por todo o banheiro, explodi num jato nauseabundo, um chafariz de dejetos entremeados com profusões de bombas e explosões. A Nivea não parava de rir de mim. Quando consegui reunir forças para levantar, vi consternado, a imagem do maior looser de todos os tempos, nu, combalido e com merda até no umbigo. Era a perfeita materialização da escrotice humana. Tinha um milho no meu pinto!
Joguei a calça fora, junto com a cueca. Depois de tomar banho, tive que dar uma geral no banheiro que precisou de três dias e duas faxinas sérias para ser descontaminado.

O dia em que eu me caguei – 1

monografia
Poucas coisas na vida são tão constrangedoras quanto fazer cocô na calça. Eu me lembro de um dia em que estava na escola. Eu estava na segunda série. Lembro claramente da vontade de fazer cocô que me atacou subitamente numa aula de matemática. Mas eu era daquele tipo tão miseravelmente tímido que não tive coragem de falar com a professora (aquela) que eu queria ir no banheiro. E mesmo que na remota hipótese de criar tamanha galhardia, seria tão inútil quanto pedir que uma pedra recitasse Shakespeare.

(mais…)

A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

Um close do monstro com o maior realismo que eu conseguia fazer em 2003
Hoje esbarrei com um demo do trabalho do Guga no Vimeo e resolvi colocar aqui.

Se a vida da gente fosse um filme, obviamente nós seríamos os protagonistas. Ao nosso redor, teríamos um sem número de atores coadjuvantes. E eventualmente, teríamos as participações especiais. Sem falar nos bilhões de figurantes, cada qual, protagonizando seus próprios filmes.

Guga Millet foi um dos caras que fez participação especial na minha vida. Eu não me lembro exatamente quando foi e em que circunstância conheci este cara, mas me lembro claramente de ao começar a conversar com o Guga, ter uma impressão de já conhecer ele há um longo tempo. Isso pode acontecer com todo mundo, e às vezes, a sensação de ser velho amigo de uma pessoa que acabamos de conhecer é uma coisa tão intensa que parece nos sugerir aquele papo de lembranças de vidas passadas.
Me aconteceu com um punhado de pessoas até hoje, sendo uma das mais estranhas uma circunstância ocorrida em Juiz de Fora, nos anos 80, quando eu atravessei a rua pra falar com um cara que até então eu nunca tinha visto mais gordo, porém a sensação era de conhecê-lo há anos. Estranhamente, ele também tinha a mesma sensação, mas não conseguimos encontrar nenhum ponto de ligação entre nós dois. Assim, nos cumprimentamos e seguimos nosso caminho. Até hoje guardo a bizarra memória de encontrar alguém que eu conheço e simultaneamente não conheço.

O Guga entrou no meu filme justamente como diretor de fotografia cinematográfica. Desta vez não estou me referindo à minha vida, mas sim a meu filme, um filme de verdade. Um projeto absolutamente maluco de épico grego cujo orçamento inteiro limitou-se a cerca de vinte reais. O filme chamava-se “A sombra do Invasor”. Uma aventura épica na forma de curta-metragem. O filme, escrito em 2002, se passa na Grécia, num período pré-helênico. Ele conta a história de um pescador grego que tem a filha sequestrada para ser ofertada como alimento e divertimento sexual do minotauro. O cara não se conforma e parte sozinho para resgar a filha no labirinto da criatura. “A sombra do Invasor” (todo falado em grego arcaico e sem legendas) era só uma ideia maluca que iniciei com um amigo chamado Guilherme Oliveira, e que – a minha sina – acabou engavetado por falta de dinheiro para ser feito com a mínima decência que o projeto merecia.

O Guga surgiu apresentado pelo Luis Ratts, que era nosso produtor no Sombra. O Guga tinha uma grande experiência com cinema, já tendo, naquela época, trabalhado em inúmeros projetos de comerciais, Tv e cinema, onde havia ganho prêmios. Pra nós, que estávamos no primeiro degrau da longa escadaria da carreira, aquele cara na nossa equipe era como ter o Zidane querendo jogar numa pelada de várzea que nem dinheiro pra comprar uniforme tinha.

Segundo o Guga, o que o atraiu a entrar num projeto mambembe daqueles era a temática, um épico brasileiro, no melhor estilo Conan (o nosso filme até prestava uma homenagem ao filme “Conan o Barbaro”) nas cienas iniciais. Fora isso, era todo um conjunto de efeitos de fantasia, com monstros feitos em computação gráfica de 3 metros de altura, cenários escalafobéticos misturando live action e extensões digitais, matte paintings e tudo mais que a gente pudesse enfiar para fazer um épico como “nunca se viu na história deste país”.

E isso bem antes da era Lula, (quando as coisas que nunca anteriormente haviam sido vistas na história da nação atropelavam-se a cada semana).

O Guga me disse certa vez, que sempre quis trabalhar num filme assim, épico. Toda a equipe, que se resumia a umas vinte pessoas, estava com a mesma vontade. Acreditávamos que se consegíssemos fazer algo suficientemente escalafobético sem grana, atrairíamos a atenção e conseguiríamos alçar vôos maiores. Já sonhávamos em fundar uma produtora tupiniquim para fazer filmes de ficção científica e block busters padrão gringo.

Imediatamente, eu notei que o Guga não pouparia esforços para fazer meu roteiro-delírio-overdose-de-coca-cola duma madrugada pré-blog em realidade, porque ele já tinha feito loucuras na carreira, como escalar o Aconcágua com uma câmera cinematográfica de 60 Kg nas costas, afim de gravar um documentário. Guga parecia o cara certo. E era.

Não tardou para que eu convocasse diversos amigos da faculdade de Belas Artes da UFRJ para me ajudar na parte de arte. Nosso storyboard, antes simploriamente esquematizado a lápis ficou assim:

ASDI1 A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

ASDI2 A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

ASDI3 A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

ASDI4 A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

Fizemos varias ilustrações, tentando criar um “clima” para a obra. Usamos aquarela, lápis de cor, tinta acrílica, etc. Eu criei esculturas do minotauro, fiz uma quantidade enorme de versões dele em 3d, fiz até a espada do grego, em aço couro e durepoxi. A espada hoje decora minha casa.

minotauroASDI1 A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

O minotauro

sombra menino A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

Arte de pré-produção em lapis de cor sobre papel craft

gregofilme 652x1024 A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

Arte de pré-produção em lapis de cor sobre papel craft


Eu também comecei a estudar a técnica do matte painting, comecei a fazer testes de cenários 3d, misturando fotos e objetos tridimensionais. Era uma oportunidade de estudo e de tentar algo inovador.

mattepaisagem A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

Teste de matte painting. Acredite ou não, isso aí é em Niterói

entrada labirinto A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

A entrada do labirinto - Teste de matte painting

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Teste de matte painting e color correction (A casa em primeiro plano é uma ruína em Niterói)

monstrocg A Sombra do Invasor e a fotografia de Guga Millet

Um close do monstro com o maior realismo que eu conseguia fazer em 2003

Foi graças a produção de arte, que mostrei para um compositor de cinema americano que trabalhava para Hollywood, que ganhamos a autorização de uso da trilha dele, gravada com a Orquestra Sinfônica de Moscou.  Ele se amarrou no projeto, que nas palavras dele era “um projeto ousado” e me mandou um material que tinha, e que era uma sobra de um projeto de jogo da Atari, gravado com orquestra real, com líricos femininos reais, cantado em latim. O cara me mandou uma versão que acabou não sendo usada, mas que era uma música absolutamente fodástica, e o projeto caseiro e sem recursos ganhou ares de Lord of The Rings.

Curiosamente, foi quando o filme começou a morrer. Aquilo que inicialmente seria gravado em mini Dv (porque nem dinheiro pra DV merreca a gente tinha naquele tempo) já não cabia mais num formatinho pobre e chapado. Era necessário densidade, profundidade, grão. E isso só com câmera cinematográfica. E como qualquer Zé Ruela sabe, câmera cinematográfica envolve luz cimatográfica, envolve traquitanas, gruas, telecine, kinescopagem, envolve maquinista, motorista, eletricista, um monte de “ista” e isso custa caro.
Numa reunião no Parque Lage, o Luis Ratts o Guilherme e o Renato resolveram que iriam abandonar o projeto se ele não fosse feito em película.
O meu filme acabou não saindo, mas ele permitiu que eu aprendesse muita coisa e isso se deu com os meus amigos, e ouvindo e vendo o Guga trabalhar. Infelizmente, a ideia não foi para a frente, mas foi graças a este filme, que este blog aqui existe. Isso porque (também não lembro exatamente como) um dos componentes da nossa equipe era o Brunno Vieira, responsável técnico pelo fórum do filme. O Brunno se mostrou um grande amigo, e ele tinha um blog chamado “Virou Kibe”. Na época eu achava a “moda” dos blogs a coisa mais babaca do mundo, mas eu comecei a ler o blog do Brunno e gostei. Durante um tempo eu fui apenas leitor mas então um belo dia, resolvi criar o meu. E deu nisso aqui.

O projeto acabou me gerando diversos amigos, que hoje são leitores aqui do blog.

No fim das contas, tenho pena de não ter conseguido fazer este filme, mesmo que com recursos limitados e efeitos meia-boca. Mas se um dia eu ficar rico, vocês vão ver!

Estou de volta ao Brasil

Cheguei ontem de noite. A nossa volta ao Brasil foi tumultuada. Após embarcar 13:00 da tarde no Chile, chegamos em SP ás 4 da tarde. Como eu fui com minhas milhas, não deu pra escolher vôo muito bom, e a merda é que eu tive que esperar até às nove da noite quando seria minha escala para o Rio.
Em Sp começaram os problemas. A primeira constatação foi a mais óbvia. O Brasil tem que fazer grandes mudanças logo. Do jeito que está parece piada.
O aeroporto de Guarulhos está abarrotado de avião, e com isso, abarrotado de gente, saindo pelo ladrão. Não tem nem lugar pra sentar. O sistema de som é pior que de igrejinha de periferia, não se entende nada, muito barulho, muita bagunça. Pessoas jogadas dormindo pelos cantos.
Eu gosto do Brasil, mas tenho que reconhecer que a sensação de chegar aqui é parecida com a que o cara tem quando desembarca no Congo ou Somália. O avião para no meio do pátio e a galera desce por uma escadinha, todo mundo se aperta num busum que anda tanto, mas tanto, que parece que vai vir pro Rio pela Dutra.
Aí todo mundo é liberado numa portinha muito da safada onde em meio a agitação aglomeração, pessoas com malas imensas e um monte de brasileiro cara de pau – que no exterior não age assim mas no Brasil fica querendo furar fila, temos que prestar atenção num funcionário mais desmunhecado que o Paínho gritar como um feirante apontando caminhos diferentes para quem deve pegar conexão e quem vai fazer alfândega.
Guarulhos é um labirinto criado por uma mente maligna. Parece que o arquiteto daquela merda fez de sacanagem um monte de pegadinha pra enrolar o turista.
A começar pelos lugares onde você pode comer. Tudo lotado, comida ruim, mal servida, e cara como se fosse de ouro. Aí vem o atraso no seu vôo. Aliás, no seu e no da torcida do flamengo toda. Em pouco tempo, não resta o que fazer senão contemplar sua existência.
Justo no lugar onde o sujeito vai sentir sua vida desperdiçando-se como um eterno conta-gotas de sangue hemofílico, a internet sem fio é paga. Você sente um nó na garganta de lembrar o monte de internet gratuitas que tem em tudo que é birosca no exterior e num ato supremo de resignação, aceita o cruel destino de pagar uns cobres pelo acesso, já que não há mais coisa melhor para fazer.
Para sua surpresa, é necessário comprar um cartão, mas só vende do outro lado do vidro, que te separa dos que efetivamente estão na terra (do lado dos que fizeram o embarque, você mesmo no chão, está considerado “no ar”). Ou seja, internet tem, mas na verdade não tem.

Dormir é impossível. Um chinês fala aquele monte de coisa ininteligível na desconfortável cadeira atrás da sua, e você só realmente presta atenção nele depois que o cara dá uma tosse de ogro no qual você pode jurar que foi atingido na nuca por um perdigoto verde, desses que vem rodando no ar como uma boleadeira gaúcha.

Em meio a balburdia que se tornou o maior aeroporto do Brasil, o colapso social somado ao colapso operacional produzem um colapso de paciência no passageiro que fica tentando entender por que diabos é tão difícil colocar uma porra duma televisãozinha, (nem precisa ser de plasma, pode ser até de tubo) passando um filme ou outra merda qualquer. Ou que tipo de miserável tem a ideia sacana de cobrar pelo acesso à internet no aeroporto enquanto os políticos acham bonito colocar internet gratuita na favela e na praia.
Eu fico imaginando a merda de imagem que a gente está oferecendo ao turista mundial. E nisso eu acho graça, porque nós somos um país que sempre se preocupou mais com a imagem do que com o conteúdo. O Brasil, olhando de fora, parece muito com uma “socialaite” dessas estilo “new richie”, que quer saber qual o mais caro vestido do Valentino e as festas mais badaladas, mas tão logo abre a boca, só sai merda. E a merda, é suprema. A merda vai grudar na testa do Brasil de forma tão indelével, que não tem vestido bonito e caro que dê jeito. Não tem colar de brilhante, jóia ou acessório que desfaça a impressão grotesca que é a falta de conteúdo. E a constatação mais dramática é que estamos esvaziados envoltos em papel de presente. Fomos vendidos no exterior como um diamante do BRIC.
Até no conflito do Irã X EUA, palestinos e israelenses a gente se meteu. Tentamos fazer bonito no Haiti, bancamos mais do que podíamos para pegar de uma só bocada a copa e a olimpíada, baixamos as calças para entrar no conselho de segurança da ONU.
Tudo isso para que? Para melhorar a sua vida? A minha? Não. Você acredita em discurso? Em “legado?”

Eu não.

Eu acredito em: Amigos do rei, lei de Gerson e empreiteiros felizes.
O fato é que tudo aqui é pra fazer bonito. Pra sair bem na foto.
O Brasil é o típico esfarrapado que quer de qualquer forma entrar na festa dos bacanas. Somos o “Beto Rockfeller” da geopolítica internacional.
O Brasil carta pra todo lado que é o foda, que é a bola da vez, mas a bola da vez, o país “dos caras”, é uma merda dum paiseco de mentalidade colonial metido a grande, só que nem sequer tem um aeroporto que preste.

Embora eu me preocupe com a imagem terrível que estamos oferecendo aos turistas que aqui desembarcam, muitos deles vindos de países desenvolvidos em que os contrastes de desigualdade são inexistentes ou em tons pastéis, o que me deixa mais estarrecido é saber – como brasileiro que sou – que nós estamos pagando uma fábula para esta porra avançar na velocidade de um fórmula um, mas nos dão a “velocidade de cruzeiro” digna de um carrinho de rolimã. E ainda dizem que devemos botar as mãos para o céu e agradecer, já que podia ser pior.

Após ouvir  que meu voo ia sair duas horas atrasado, senti o alívio de ter alguma informação. Mesmo que seja uma má notícia, é melhor que zero notícia.
Quando finalmente o tempo parou de se arrastar, pude entrar no cata-corno lotado de gente que ia pegar o voo pra Paris com escala no Rio.
Descobri no momento que entrei naquela aeronave que eu estava premiado a sentar-me no cu do aeroplano. Esta é aquela dupla de poltronas que fica tão no rabo da aeronave, que você viaja ouvindo os pensamentos das comissárias de bordo.
O chato é que no avião você entra pela frente. Dá de cara com as mega gigantes poltronas da primeira classe, com suas telas de LCD que mais parecem cinemas portáteis.
Não nego que eu sempre tive inveja dos bacanas que vão na primeira classe. Viajar de avião faz você contemplar seu lugar no universo. A aeronave, como a escola, o trabalho e até o condomínio, representa a sociedade. Uns poucos no controle. Uma meia-duzia de bacanas em poltronas largas, com edredons, tomando champanhe e escolhendo se vão comer vitela, bobó de camarão, ou cordeiro com ervas finas, e após uma divisória, a massa. A senzala, onde vão os pés-rapados como você, todos apertados, todos espremidos, todos tentando ver um filme repetido numa telinha do tamanho do meu relógio.
Ao passar pela casa grande, eu, legítimo membro da senzala, notei que ali estava um careca com cara igual a esta:
austinpowersmikemyersas Estou de volta ao Brasil

O careca milionariamente escroto, olhava pra mim, com ar de desdém similar ao da foto. Engraçado isso dos caras da primeira classe entrarem no avião primeiro que o “resto”, porque parece que a empresa faz isso só para dar a eles o gostinho de olhar bem dentro dos olhos dos demais e pensar: “Seu fodido! Veja como eu sou melhor que você, seu merda!”

Resignado, ou melhor, humilhado, entrei pela senzala adentro até me instalar do lado do último banheiro. Era a senzala da senzala.

Pelo menos eu tinha uma janela para poder ver nuvem de uma ponta a outra da viagem e esquecer minha pobreza.
Tão logo o bagulho decolou, eu vi pela janelinha que a asa do avião estava batendo. Parecia um grande passarinho.
Então eu falei com a primeira dama: “Segura aí que eu acho que esta porra vai balançar!”
Mal eu falei isso, o vôo se tornou um remake do primeiro episódio de Lost. Aquela joça sacudiu com tamanha violência que um monte de coisas atrás da gente despencou. Ouvi as comissárias gritando. O refrigerante espatifou no chão e molhou tudo. A comida espalhou pelo corredor. Foi sinistro.
Quando as comissárias começam a gritar, chorar ou rezar, pode ter certeza que você está tecnicamente fodido, meu camarada.
Não deu outra. O avião começou uma sucessão de gravidade zero que me fez sentir um astronauta. Todo mundo em siçêncio sepulcral. Engraçado essa coisa de neguinho morrer quieto. Eu sempre pensei que quando um avião vai cair, surge uma louca histérica que começa a gritar e chorar. Mas no mundo real, nego fica mudo, meio que agindo com uma naturalidade forçada que parece servir para se iludir de que nada está acontecendo.

A sensação do balanço, eu confesso, é até gostosinha, quando você se desprende do aterrador medo de morrer. O duro é que esse desprendimento dura meio segundo entre um vácuo e outro.

É nessas horas que você constata que não devia ter aceitado ver aquelas malditas fotos do acidente dos mamonas nem do vôo da Gol. Eu olhava as pessoas em volta e em meio ao barulhão sacolejante do avião, eu tinha uma visão privilegiada da cauda. Todo mundo em silêncio. Alguns não disfarçavam o pânico e se agarravam tão forte na poltrona que não dava pra saber onde começava a pessoa e onde acabava a cadeira.
A Nivea por sua vez, efetuou uma “operação dentista”.
A “operação dentista” é o típico ato inconsciente da mulher de esmagar sua mão, modulando a força de acordo com o grau de perrengue que a situação propõe. Descobri este efeito na infância, quando esmigalhei a mão da minha mãe numa ida ao dentista.
A cada balançada, a Nivea esmigalhava minha mão com tanta força que eu pensei que ia quebrar. Como uma turbulência é algo variável, ela comprimiu minha mão como se fosse um coração de atleta.
No meio do bagulho, eu me surpreendi ao perceber que eu estava ficando enjoado. Foi uma grande surpresa, na medida em que eu sempre andei de montanha russa, rotor, twister e todo aquele monte de coisa de pirado que tem nos parques temáticos sem grandes problemas. Mas naquele avião, cinco mil e tantos metros de altura, eu comecei a sentir um “Aretuza feelings” tomar conta do meu ser.
O pior de vomitar no meio da tremedeira é que você nunca sabe quando deve chamar o Raul. Chamar o Raul no momento errado significará emporcalhar toda a maldita aeronave com os restos de coxinha com agenesia de requeijão lá do Havana.
Então fechei os olhos e concentrei-me em não vomitar. Os piores balanços começaram a diminuir e o piloto falou pelo radio que iria começar o pouso. Quando o avião tocou o solo, um carinha lá do meio aplaudiu. Sozinho.

Ficou no vácuo de mais de duzentas pessoas que estavam em choque e não conseguiam largar as poltronas para bater palmas. Minha mão estava moída. A Nivea olhou pra mim e só disse um eloquente:
“Puuuuta quiu paríííu, hein?”
Acenei positivamente com a cabeça e ela disse que eu estava amarelo.
Quando descemos do avião, eu dei uma última olhada para a massa de pessoas que deviam estar felizes como pinto no lixo, afinal, iam para Paris.
Mas depois do Guarulhos-Galeão com escala na ilha de LOST, nenhum daqueles pobres coitados inspirava sequer uma ponta de inveja. Todos eles tinham os olhos arregalados e uma expressão de desespero como as dos cristãos à espera de serem jogados aos leões.
Eu passei e olhei bem na cara do careca metido da primeira classe. Ele e sua impávida riqueza parisiense. Então me virei e falei alto com a Nivea:

Porra, se aqui foi assim, não quero nem imaginar a merda que vai ser sobre o Atlântico!
E então, eu fui pra casa, deixando atrás de mim uma alma atormentada de primeira classe.

FIM

Obs: Na verdade tem uma parte que eu não contei. Custamos a pegar nossas malas que chegaram molhadas. Ao desembarcar, encontramos a minha família que estava com meu primo, que viajaria no mesmo dia. O voo dele foi cancelado com algumas pessoas já embarcadas. Isso significou HORAS de espera para a empresa devolver as malas dele. Segundo a companhia os hoteis do Rio, Niterói e adjacências estavam todos lotados e por isso, eles hospedaram todos os passageiros (não é piada) em ITAIPAVA. E mandaram os caras pra lá de taxi!

O fato é que eu só cheguei em casa duas e paulada da manhã.

Minha mãe, o Freddy Krueger

Quando eu era mais novo, na escola, rolou uma atividade da aula de artes que era fazer um comercial. Os alunos tinham que criar um produto e em seguida, criar uma propaganda para ilustrar o produto.

Lembro que na minha carteira, quando ouvi aquilo, um sonho se criou na minha mente. Era a minha grande chance. Eu faria algo incrível, tão impressionante e realista que deixaria toda a escola, o bairro e talvez até o país boquiaberto. Eu seria descoberto e aclamado como um dos maiores diretores mirins do mundo.s George Lucas e Steven Spielberg pagariam tributos para trabalhar comigo.

Aquela era a chance que eu esperava, para mostrar que não era só um boçal com bigodinho de Cantinflas e ruim de Matemática. Eu me vingaria de todos que riram do meu veto. Eu mostraria a eles o meu valor. Eu seria enfim alguém. O maior diretor de cinema de todos os tempos!

Com desprezo olhei meus amigos se articulando em grupinhos. Pobres mortais.

Olhei ao meu redor e percebi – pela primeira vez com grande satisfação – que ninguém da sala queria fazer o trabalho comigo. Eu estava avulso.

Avulso como eu queria!

Enquanto os meus amigos faziam carros que voavam, prédios submarinos e toda sorte de produtos idiotas e  improváveis, eu resolvi criar um produto que fosse factível. Eu sabia que os motoristas de caminhão tomavam remédios para emagrecer, visando o efeito colateral, a insônia desgraçada que os famosos “arrebites” causam. Após pesquisar o cotidiano dos motoristas de caminhão, eu soube que eles dirigiam muitas horas, em uma jornada de trabalho insana, sem descanso. Muitos deles tomavam café com coca-cola, outros mascavam chicletes, tudo para espantar o sono.

Eu vi nesse problema um mercado potencial (que ainda existe) para um chiclete que não deixava a pessoa dormir. Na fórmula, uma série de excitantes do sistema nervoso deixariam a pessoa acordada. Escrevi praticamente uma bula de remédio e submeti ao professor, como uma prévia do que ele poderia esperar.

O professor adorou minha ideia e aprovou o meu produto. Começava então a fase da campanha. O filme, que enfim, me deixaria famoso.

Ao ver que tinha um produto que não deixava a pessoa dormir, eu percebi que o caminho mais fácil seria usar o tio Freddy como garoto propaganda:

freddykruegerp Minha mãe, o Freddy Krueger

Freddy era simpático (à sua própria maneira, claro) e era suficientemente bem humorado-cretino para vender um chiclete à prova de sono. Foi aí que começou a megalomania, o problema de sempre.

Enquanto os meus colegas da turma se contentavam em cartazes de cartolina, e mockups de espuma e isopor, eu resolvi fazer um comercial “de verdade”, para a Tv. O meu plano incluía contratar Robert Eglound, e com ele, fazer um video divulgando o meu chiclete.

Após muito trabalho (não existia internet ainda) descobri numa antiga edição de terror da revista SET o endereço de um estúdio em Los Angeles. Eu entrei em contato com o estúdio tentando – olha o grau insano de inocência do demente! – um contato direto com Robert Eglound, o ator que interpretava o Freddy Krueger. É óbvio que esta abordagem não funcionou. Até hoje estou sem respostas deles.

Vendo que o prazo se aproximava, eu busquei ajuda no único lugar que era possível: Em casa mesmo. Por sorte, minha mãe tinha um casaco listrado igual ao do Freddy. As linhas que deveriam ser pretas eram cinza, e um pouco ais estreitas, mas eu pensei que talvez fosse possível resolver isso colocando uma gelatina feita de papel celofane na frente da câmera.

Eu levei uns dois dias construindo a luva. E ficou bastante parecida. Faltava o chapéu.

Vendo meu perrengue, minha mãe saiu comigo pelo Rio de Janeiro em busca de um chapéu para o Freddy. Minha mãe era mestre em apoiar as minhas maluquices. Andamos um dia inteiro pelo centro do Rio e quando achamos… O Chapéu era uma fortuna. Eu tinha uns trocados economizados da merenda. Não dava nem pra uma parcela do chapéu, mas a minha mãe comprou mesmo assim pra me ajudar.

O chapéu que mais parecia com o do Freddy  era um modelo PRADA. (pode imaginar a facada que foi?)

Aquilo acabou com TODO o orçamento da minha produção. Meus planos de contratar o dublador oficial do Freddy Krueger no Brasil foram para o ralo. Também não havia dinheiro para conseguir um ator.

O jeito foi convencer a minha mãe a virar o Freddy Krueger.Poucas mães do mundo se prestariam ao que ela fez. Foram seis horas ininterruptas de maquiagem, na qual eu converti minha mãe no monstro da série “A hora do pesadelo”.

Para fazer a maquiagem eu usei toneladas de algodão com goma laca. O acabamento foi feito usando base de maquiagem e corantes alimentícios. Infelizmente, não havia câmera digital nesta época, a máquina do meu pai vivia sem filme, e não há registros do resultado, mas eu asseguro a vocês que foi um dos trabalhos de maquiagem mais complexos que eu fiz na vida. Quando nós acabamos, não era mais minha mãe. Era o Freddy! Até hoje, quando me lembro, me impressiono da forma realista que ficou.

Minha mãe amarrou uma espécie de fita sobre os seios, sumindo com eles. Nós fiamos treinando um pouco e olhando de longe, era absolutamente impressionante o resultado. O celofane vermelho na frente da câmera (color correction de pobre) deu certinho como eu queria.

O problema todo era a questão da voz, pois por mais que ela tentasse faz uma voz de Freddy Krueger, tava claro que era a minha mãe, ou no máximo um Freddy Krueger gay.

A solução de última hora foi selecionar trechos aleatórios das falas do monstro no filme. Gravei com meu aparelho de som e montei usando fita cassete. No final, estávamos com frases (que não significavam nada) com a voz do Freddy original.

A ideia era essa. Minha mãe dublaria, e depois eu colocaria uma legenda com o texto do comercial.

Aí veio o problema. Minha mãe não conseguia dublar aquela porra nem pelo cacete. Ela começava bem, mas no meio da frase desatava a errar a mímica e saia a voz quando ela tava de boca fechada, hahaha. Quando ela finalmente acertou, vez um movimento com a luva e uma das garras saiu voando.

E nós fomos assim, filmando continuamente, uma cena atrás da outra, sem claquete (porque eu nem sequer sabia que isso existia) para tentar achar uma versão em que o meu “Freddy” acertasse. Minha mãe foi atriz de teatro, então pra ela não era difícil pegar o jeitão do Freddy. O duro era casar a interpretação dela com o Freddy pré gravado.

Foram umas vinte versões. Em nenhuma a minha mãe conseguia acertar a interpretação do Freddy. Quando ela finalmente pareceu acertar, deu uma puta duma desmunhecada e ficou o um “Freddy Krueger GLS”.

O mais hilário era que a cada erro eu gritava: Porraaaaaaaa!

Então era um troço que ficava assim: “Porra! – vai. Porraaaa! – vai, ação! Porraaaa…”

No fim, o chapéu estourou totalmente o orçamento e isso jogou por terra a minha pretensão de editar o vídeo, colocar a legenda e mandar dublar nos estúdios Ebert Richers.

Eu me senti um fracassado completo. O dia da apresentação chegou. Meus amigos estavam com seus cartazes e mockups babacas de espuma… E eu era um idiota que não tinha nada além de um vídeo de um Freddy Krueger gay ejetando navalhas ao som de um “porraaaaaa”.

Mas ante o risco de uma nota baixa, levei o vídeo para mostrar ao professor, na tentativa vã de que, ao me ver humilhado, ele tivesse compaixão e me desse uma nota mínima, me deixando de lado na apresentação.Naquele dia, na hora em que bateu o recreio eu fui procurar o professor de artes. Encontrei-o na sala de artes, arrumando tudo.

Pedi licença para ter uma conversa com ele.

Ele veio sério, com cara de que iria ouvir o clássico “o cachorro comeu meu trabalho”. Mas eu contei a verdade dos fatos. Era importante pra mim expor meu fracasso previamente para não arriscar a pele em um novo vexame coletivo para toda a escola.

Ao ouvir minhas justificativas para o fracasso, o cara apenas ria. Eu não entendi aquilo. Achei que ele era retardado ou coisa parecida, pois eu estava li, diante dele, contando toda a minha desgraça de não conseguir contratar o ator de Hollywood, tendo que usar a mãe, gastando todo o dinheiro de meses de merenda num chapéu idiota e não podendo editar nem dublar e legendar o material bruto e o babaca apenas ria. E em seguida perguntava: “Você tá falando sério?”

Eu disse que sim. Ele ficou mais sério e disse que queria ver a fita. Meio sem graça eu peguei a fita na mochila e trêmulo, estendi pra ele.  Ele guardou e me liberou para voltar ao recreio.

Quando acabou a aula de Geografia da Arquidésia, chegou a hora da aula de artes. Todo mundo empolgado de mostrar seus comerciais. Algumas meninas até ensaiaram um teatrinho tosco lá.

Eu fui, na esperança de que, à aquela altura, o professor me olharia com piedade e conteria sua ânsia de me reprovar.

Logo que eu entrei na sala, dei de cara com um monolito negro no centro da sala de artes. Gelei. O monolito negro era uma pequena caixa com rodas, onde havia uma espécie de gaveta de onde podia se ver um videocassete. E acima, no interior de um compartimento fechado com chave, estava uma enorme TELEVISÃO.

Nunca me senti tão ferrado na vida quanto no dia que me deparei com o monolito de video do professor Jesuíno. Aquilo só poderia significar uma coisa. Algo seria exibido em video para os alunos.

Tentei me acalmar, pensando que talvez alguém tivesse a ideia de gravar seus comerciais de espuma e isopor em casa. Afinal, câmera de VHS era algo caro, mas que muita gente tinha.

O professor nem olhava pra mim. Ele foi chamando e um a um, os grupinhos foram expondo seus comerciais. Tinha de tudo: carro que mudava de cor, avião que virava submarino… Eu fui ganhando confiança quando vi que o professor havia me pulado.

Quando tudo parecia ter terminado… Alguns já até levantavam para sair, o professor mandou todo mundo sentar em roda ao redor do aparelho do professor Jesuíno. E eu comecei a sentir que “a hora do pesadelo” era um nome apropriado para aquele meu projeto.

O professor me chamou lá na frente. Me senti um peixe. Foi como se um anzol invisível agarrasse meu pulmão e me tirasse fora da água. tentando não pensar na situação, me levantei e dei alguns passos vacilantes em direção ao professor.

Ele apontou pra mim e disse ao pessoal: “Olha, turma. Este é o trabalho do Philipe.”

Me senti traído. Eu só queria que ele mantivesse aquela desgraça em segredo, mas ao contrário ele expôs para todo mundo ver.

Os alunos se espantaram de ver o making of (não se chamava making of, era a câmera que eu ligava de vez em quando  enquanto maquiava minha mãe) e à media em que minha mãe ia tendo a cara coberta de cola, algodão e base de maquiagem, eu vi os olhares ficando cada vez mais arregalados.

Se naquele colégio alguém ainda tinha duvidas da minha sanidade, aquele video acabava com toda e qualquer duvida.

Após a sessão de maquiagem. O professor pausou o video e fez uma mini-entrevista comigo. Perguntou da ideia, perguntou do projeto como um todo. Eu explicava, reticente, aquilo tudo que havia falado para ele antes. Eu disse que queria contratar o ator de Hollywood… Todo mundo ria. Eu dizia que ia fazer a dublagem nos estúdios Ebert Richers. Todo mundo ria. Eu explicava a coisa da luva, do chapéu, do estouro o do orçamento, e todo mundo ria.

Eu não estava entendendo nada, afinal, não vai nada de engraçado naquela merda. Eu queria fazer o troço sério. Quando eu disse que meu plano era mandar pro Steven Spielberg. Aí neguinho já tava chorando de rir.

Eu ri amarelo também, mais para não parecer um babaca do que qualquer outra coisa.

O professor avisou que era para o pessoal prestar atenção e tascou o dedão no play e vimos as vinte versões do comercial que nunca deu certo.

A cada versão, neguinho se escangalhava mais de rir. O “Pooorraaaa” virava um bordão e cada vez que ele surgia, sempre no fim do video, mais a galera ia ao delírio.

No final, eu estava bem sem graça. E todo mundo morrendo de rir.  O professor vltou a falar, limpando as lágrimas. Disse que estava feliz, e que não acreditava que alguém fosse levar tão a sério a proposta.

Me devolveu a fita e mandou todo mundo bater palmas. Novamente fiquei sem graça. Eu queria sumir e a porra dos aplausos nunca acabavam.

Cerca de uns cinco anos depois,  minha mãe que era psicóloga de uma menina, disse que ela contou na sessão que havia visto um video na escola de um cara que maquiava a cara da mãe dele. Foi assim que descobri que o professor tinha feito uma cópia do meu video e que todo ano passava para os alunos. Se bobear, ele passa isso até hoje.

Quando a paciente contou isso, minha mãe não se conteve e contou que o Freddy Krueger era ela.

Daí uns dias, os pais da menina tiraram ela da “psicóloga”, hahahaha. Por que será?

Memórias do passado

Hoje eu acordei e fiquei deitado na cama, sentindo frio. Comecei a pensar no frio e nessa coisa de acordar cedo. Imediatamente me veio a memória algumas lembranças do meu passado. Engraçado essa coisa de lembrar do passado. Eu acho que é simples lembrarmos de grandes momentos da nossa existência. Aqueles momentos em que sentimos grande felicidade, grande tristeza ou grande arrependimento. São raras as vezes em que as memórias nos trazem à baila fatos corriqueiros do dia a dia. É como se a nossa cabeça selecionasse apenas os momentos mais interessantes para guardar. Sem que percebamos, a mente da gente age como um diretor de Hollywood, que vai podando e cortando seu próprio filme até deixar apenas o que é indispensável. Lá eles fazem isso por uma questão financeira, mas na nossa cabeça, certamente que a razão é outra. Provavelmente é por uma questão de compactação de dados. Tudo que não é considerado importante vai sendo compactado numa massa amorfa de pensamentos, ideias e lembranças e varrido para debaixo do tapete da nossa consciência. Mas essas coisas não somem. Elas estão lá, no escuro sótão das memórias do passado.

Então eu resolvi lançar mão de uma “operação resgate”, para tentar obter algo meramente corriqueiro e sem importância que esteja preso no éter.

Após pensar nisso, eu fiquei ali, olhando para o teto, buscando nas profundezas das minhas memórias alguns elementos simplórios. São situações comuns, que não mereciam qualquer destaque na minha vida, mas que por alguma razão eu consegui resgatar. Obviamente que se eu consegui resgatar, é porque essas foram as que estavam na superfície, e se estavam ali tem alguma importância, por mais que eu as renegue. Foram centenas de pequenas cenas que vieram, das quais selecionarei algumas para comentar. A começar pelo frio.

1- O frio

Estava um calor do cacete naquele dia. Eu suava em bicas enquanto andava, apressado, para chegar a tempo da primeira aula. Minha camisa empapada de suor dava testemunho dos 40 graus à sombra. Ao meu redor, tudo era um deserto só e o chão escaldante emanava um bafo quente diabólico. Eu só conseguia pensar na piscina azulzinha do Caer – o clube. Pra piorar o calor, eu precisava andar depressa, o que me fazia ter mais calor, suar mais e sentir mais sede. Eu atravessava uma rua e sentia o asfalto colando na sola do meu tênis.

Aquela era uma maneira muito engenhosa de bloquear a friaca maldita que fazia em Três Rios às seis e meia da manhã. Eu imaginava o mais quente dos dias de verão na Etiópia. Eu usava a imaginação para me iludir que estava tão quente, mas tão quente que algumas raras vezes me peguei sentindo calor de fato. Quando isso acontecia, eu me surpreendia e voltava imediatamente a sentir o frio cortante me doer as juntas.

Era assim que eu criava coragem para ir pra escola. Aquele período da minha vida durou meros dois anos, mas parece ter sido uns dez. Havíamos mudado de Juiz de Fora, e iríamos para Niterói. Nesse meio tempo, morei dois anos em Três Rios. Eu morava na casa da minha avó e estudava do outro lado da cidade, o que me obrigava a sair de casa super cedo para ir pra aula. Junho era um frio desgramado, mas eu tinha que ir. Enquanto me vestia, sentia o corpo congelando. Pensar no calor escaldante do deserto era a forma efetiva de me enganar.

(mais…)

O dia em que eu quase morri no motel

Tem tempo que eu não conto nenhuma dessas coisas da minha vida. Hoje eu estava lá no twitter e acabei conversando com o @e_d_e_n sobre zona do baixo meretrício.
Olha, não adianta tampar o sol com a peneira e se fazer de santo que você sabe bem do que eu estou falando. Estou falando de Zona. Puteiro, diversão ou Relax. As casas de diversões adultas, a casa da luz vermelha.
Curiosamente, eu nunca fui num puteiro na vida. Ora, Isso não é nenhuma vergonha, uma vez que eu também nunca havia tomado cachaça na vida até o Porto Cai na Rede acontecer. E minha mulher nunca mascou um chiclete em todos os dias de sua existência. Ou seja, querendo ou não, sempre tem alguma coisa em que a gente é virgem.

Eu, como todas as pessoas que não sabem o que é uma casa da luz vermelha, sempre imaginei que o lugar fosse aquele tipo de local com uma decoração meio decadente, estilo anos 40/50. Com mulheres maravilhosas e sensuais vestindo apenas langeries e plumas, se projetando lânguidas sobre as mesas de seus clientes, homens de porte, sérios, fumando charuto, bebendo conhaque e vestindo pesadas casacas escuras.
Esta idéia do que era uma zona terminou no dia em que meu irmão foi numa e me contou como era. O local era famoso como “rua da lama”, na cidade do interior na qual crescemos.
Hoje, dado a passagem inexorável do tempo, já não me lembro com a riqueza de detalhes que deveria lembrar da descrição do local. Mas o que ele contou foi um balde de água fria na zona de teledramaturgia Global que até então eu idealizava.

A zona da rua da lama era um lugar caindo aos pedaços, com uma escrota luz vermelha na entrada. O lugar ficava lá nos confins de uma rua que quando chovia, fazia completo jus ao seu nome. A rua começava nas proximidades da rodoviária, perto do rio que cortava a cidade e se estendia para grotões suspeitos e lugares que a mente humana não consegue conceber. Lá dentro, em meio a um ruído estourado de caixa de som velha, tocava um “funk melody” e sob as poucas luzes coloridas que piscavam na “pista”, que na verdade era um microscópico espaço aberto entre as mesas carcomidas, estavam se requebrando seres tão horrendos que fariam o Clive Backer ter pesadelos.

Meu primo (que não falarei o nome, mas que todos da minha família imediatamente saberão que é o Diogo, já que ele era o inseparável companheiro de farra do André) estava com ele neste dia. Eles disseram que foram na zona para “zoar”. Ora, eu nunca me imaginei indo numa zona “zoar” mas sim para dar uns amassos nas putas ultra-gatas das novelas e minisséries. Mas foi o que eles disseram. O lugar estava cheio de putas gordas e pelancudas. Para se ter uma idéia do naipe do local, a garota mais gata lá era magra como um esqueleto, careca como um fugitivo da FEBEM e ostentava uma desprivilegiada dentição em tom gema de ovo no qual faltavam um goleiro e dois atacantes.

Essa piranha mais gata de todas tinha um famoso piercing no umbigo que foi a única coisa do qual o Diogo teve coragem de se aproximar… E beijar. (patrocínio saquinhos de vômito Gump) Obviamente devo ressaltar que meu primo e meu irmão deviam estar em avançado estado de adulteração de combustível com álcool anidro para terem a coragem de depositar a boca naquele umbigo encardido.
Uma das coisas que mais me causou espanto foi a descrição que eles deram do copo da zona. Inicialmente eles pensaram que se tratava de um copo de vidro jateado, mas após alguns goles na cerveja choca e cara, descobriram que o copo estava apenas ensebado.

Ah, nada como uma viagem antropológica nas zonas do baixo meretrício de cidade pequena… É como um safari em que a morte lhe espreita a qualquer momento.

Eu já estava entregue a devaneios quando o Eden comentou que seria legal ilustrar um post assim com fotos. Então fiquei imaginando que tipo de problema poderia acontecer numa zona caso algum aventureiro lançasse mão de uma maquina fotográfica ou celular que tira fotos naquele ambiente.
Imagino que o tamanho do fusuê seja inversamente proporcional ao tamanho da cidade, já que em cidades pequenas, todo mundo se conhece e qualquer coisinha se torna motivo para grandes escândalos.
O fato é que isso me lembrou que quando eu era mais novo, naquela fase entre um adolescente e um adulto, havia na cidade um programa de radio com o curioso nome de “Sapeca Iaiá”.
O Sapeca Iaiá passava na rádio, na parte de manhã, logo cedo e era um programa muito bem bolado para desgraçar a vida das pessoas.
Imagine você que o Sapeca Iaiá contava quem tentou o suicídio, quem morreu, quem matou e por que. Ele contava podres que todo mundo queria esconder e para piorar, o pessoal dizia que o “Sapeca” colocava olheiros escondidos perto das entradas dos motéis, para divulgar queme stava indo com quem nos motéis. Eles chegavam a contar as placas dos carros.

Pessoalmente, eu nunca ouvi o Sapeca Iaiá contar as placas de carro que entravam nos 2 motéis da cidade, mas nunca duvidei de que eles pudessem realmente chegar neste ponto. O Sapeca começou como uma espécie de boletim criminal, mas que rapidamente evoluiu para uma espécie de coluna social podre da cidade. Então a galera comentava coisas do sapeca, que como era muito cedo, eu nunca sabia se era verdade ou não.
Mas naquele tempo em que eu estava começando a descobrir o sexo, motéis e tudo mais, o medo do “sapeca Iaiá” era foda.
O pior de tudo era que a minha namorada na época tinha uma tia idosa, que adorava ouvir a porra do sapeca Iaiá. Estava traçada a desgraceira que facilmente poderia se abater sobre a minha pessoa.

Na primeira vez que eu fui ao motel na vida, traçamos um plano que mais parecia uma operação de guerra. A operação envolveu uma peruca pra ela e uma bela grana pra mim. Ocorre que com medo de ser reconhecida e ficar “falada” na cidade, ela me obrigou a ir numa outra cidade, pegar um taxi lá e ir de táxi da outra cidade para o motel. Nem era tão distante, mas isso somado a peruca e óculos escuros dava um quê de emoção na parada.

Por minha insistência ela aceitou levar uma garrafa de Contini, um tipo de martini vagabundo de segunda linha que havia naquele tempo. A garota costumava ter uma certa dificuldade de relaxar e a bebida dava uma ajudada nessas horas. Ela colocou a garrafa na bolsa e tampamos na perna para a cidade vizinha.
Viajar para uma outra cidade só pra voltar de lá pra onde saímos era estranho, mas nada se comparou ao jeito como falamos com o “seu Mazinho”.
Nunca mais me esqueci do seu Mazinho, o homem que tinha um dente tão bizarro naquela boca que aquilo ficou registrado para sempre na minha memória. Descrever o seu Mazinho era fácil. Pegue o zeca pagodinho, misture com o Agepê e com o Latino, bata no liquidificador, envelheça 100 anos e coloque um dente inteiriço na arcada inferior da boca do cara e teremos o seu Mazinho.

Agora coloque na cena um carro tão velho que testemunhou a criação do jardim do Éden e teremos a fubica vagabunda, amarrada com arames e com coisas penduradas ao redor do vidro que nos levou ao motel Free Love, o templo do amor e da paixão.
Ocorre que a vergonha nos impediu de dizer ao seu Mazinho que queríamos ir ao motel. Nós apenas nos limitamos a dizer a cidade de onde tínhamos saído. O seu Mazinho crente que ia nos levar pra lá, quando veio chegando a porta do motel eu disse entre dentes e suando frio:
-Entra ali, moço.

Seu mazinho olhou de modo obsceno pelo espelho retrovisor. A menina envergonhada olhou fixamente pelo vidro do carro para o lado de fora, fazendo que como se não fosse com ela. Tipo: “tive um AVC e estou toda paralizada. E surda.”

Seu Mazinho sorriu maliciosamente, com aquela cara de tarado bem-passado.
Balançou a cabeça positivamente e virou o volante com tamanho desespero que eu achei que a peça ia sair na mão dele.

Entramos no motel e a atendente atendeu o interfone. Foi um suplício para falar que eu queria um quarto bom, pois a acustica do porteiro eletrônico era péssima e o seu Mazinho tinha que gritar tudo que a moça sussurava do outro lado. Nisso a meina do meu lado ainda congelada em carbonith, olhando fixamente agora para uma parede de chapisco.
Eu para não fazer feio, paguei logo a suíte presidencial de vinte e cinco reais! (uma fortuna na época) Era um quarto enorme, que tinha banheira de hidromassagem, algo que me obrigou a quase um curso prático de bombeiro hidráulico para fazer funcionar. Além disso tinha sauna, e filminho pornô. U-huuu!
Pagamos o seu Mazinho que me chamou de lado, fez um sinal que minha mente não captou com a mão e sussurrou:
-Quer que eu volte que hora, campeão?

Aquilo me doeu. Ele podia ter falar o que quisesse, mas o “campeão” no fim daquela frase fez com que eu me sentisse um merda completo. Sabe aquele tipo de gente que quanto mais elogia mais você se sente um merda? Tudo que eu queria era apertar um botão para que o seu Mazinho sumisse da minha frente. Eu fiquei com raiva porque eu sabia que o Mazinho estava desconfiado que alguém ali era virgem. Por instantes tive medo que Mazinho fosse um espião do Sapeca Iaiá.

Ele ficou ali, esperando eu dizer a que horas ia acabar. “Acabar?” como assim acabar? É tipo um restaurante que voicê entra come e sai? Cinema tem hora para acabar mas o sexo? Sexo com uma pessoa que a gente gosta deveria ser eterno. Então eu disse a ele para me dar o cartão com o telefone do ponto e a gente chamaria ele.
Mazinho me passou um cartão tão velho e carcomido que mal dava para entender os múmeros. Então partiu, para nosso alívio.

Entramos no quarto e ela tirou aquela peruca ridícula.
Sabe como são as coisas… Nós mal chegamos, abrimos a garrafa de Contine e mandamos ver no goró. Em seguida, com os parafusos mais soltos, não deu outra. Bateu um tesão feladaputa e começamos a arrancar as roupas feito dois pitados. Arranquei as calças dela, ela tirou minha cueca, jogou meus sapatos longe. E já partimos com tudo para os finalmente, sem nem ao menos desfrutar de toda aquela imensidão de tecnologia que se resumia ao controle digital da Tv e da sauna e o radinho que tocava Julio Iglesias no console da cama.
Ela tinha uma espécie de paranóia de alguém do motel ouvir os gritos e gemidos e então fui obrigado a aumentar o volume do canal “bíblico”, algo que na minha cabeça nunca fez muito sentido, afinal isso só fazia produzir mais e mais altos sons dos gemidos naquele quarto. Mas tem mulher que tem dessas coisas.

Os momentos de amor ficaram para a história mas o que mais me marcou naquele dia foi a porra da sauna. Eis que após o sexo e cheia de Contine na cabeça, a garota dormiu. Eu fiquei vendo o filminho de sacanagem até que a cena atracou num fuque-fique que não acabava mais. Eu estava ficabdo de saco cheio e resolvi fazer uma sauna para me preparar para a segunda rodada.

Fui peladão, lépido e faceiro para a sauna. Liguei a maquininha no máximo e fechei a porta de vidro.
Quando a coisa começou a esquentar muito, eu resolvi sair para tomar a ducha. Mas cadê que a porta abria?
A porta travou, mané.
No início era só uma preocupação. Até achei engraçado. Mas com o passar do tempo, comecei a sentir um cagaço leve e foi se tornando um cagação.

Eu comecei a ficar preocupado. Era o meu sapato, um mocassim que havia agarrado sob a porta de vidro da sauna, de tal modo que a maldita não abria. Pra opiorar eu havia colocado a sauna no maximo e o calor estava de matar.
A minha pulseira começou a queimar. O anel começou a queimar, o relógio queimava como brasa. Eu estava ficando tonto. Comecei a gritar e ela desmaiado na na cama. Senti vontade de vomitar todo o Contini e tive vontade de matar o capeta desgraçado que inventou aquela bebida doce.
Eu gritava, pedia socorro e nada. A tevê estava no máximo e eu mesmo só ouvia os gemidos da cena de sacanagem lá fora.

Sério mesmo que eu pensei que ia morrer logo na minha primeira vez num motel. Comecei a dar ombradas na porta na intenção de abrir, mas cada batida que eu dava, a maldição do mocassim enfiava mais e mais sob a porta e ela ficava mais e mais emperrada. Pra piorar, o vidro estava quente como brasa e chegou numa hora que simplesmente eu já não tinha forças para me mexer. O ar estava faltando e eu comecei a ver tudo meio sem foco.

Eu me sentei no tablado de madeira e comecei a me despedir da vida. Eu já podia ver a manchete do sapeca iaiá. Já podia imaginar a tia dela ouvindo os nomes e a descrição da cena tragicômica que resultou numa morte de um moleque magro e nu numa sauna. Eu imaginei as minhas fotos com partes pudendas a mostra no jornal municipal e a vergonha generalizada que me acompanharia ainda por três ou quatro encarnações.
Foi aí que fui salvo pela pura sorte. Ela acordou do porre e veio me procurar. Acho que por pouco ali e eu teria ido dessa para melhor naquela sauna. Após alguma luta com meu sapato, ela conseguiu arrancá-lo da soleira da porta e abriu a sauna. Eu me joguei lá de dentro sobre a cama e acho que apaguei por uns dois minutos.

Quando voltei a dar sinal, ela estava desesperada, com o olhão arregalado olhando pra mim.
Só nos restou dar uma arrumada no visual e ligar para o seu Mazinho nos levar de volta à civilização. Levou mais de um ano para termos coragem de voltar ao motel novamente. E quando voltamos, eu bati o carro no motel. Mas isso é uma outra história.

Netuno

Fim de semana de sol, acordei disposto a ir para a praia.

Chegando lá percebi que o dia estava lindo, mas curiosamente quase ninguém se atrevia a entrar na água. Eu achei aquilo estranho, mas abri uma cerveja, tirei a camisa e esqueci da vida.

Papo vai, papo vem, resolvi entrar na água.

Mal entrei entendi o porque da galera não entrar no mar. Tava frio pra caramba. Nadei pra lá, nadei pra cá… Até me acostumar com a friaca. Praia oceânica é fogo.Comecei a pegar confiança. Dei uns mergulhos, nadei para o fundão, fiquei boiando.

Bem eu estava nadando e percebi que o mar aumentou sutilmente de intensidade, em termos de ondas. Elas estavam ficando fortes e grandes. Foi aí que comecei a notar que eu estava sendo gradualmente puxado para o fundo. Cada vez mais… Sabendo nadar, eu tentei me iludir de que não estava acontecendo aquilo e continuei a nadar, devagar, para a areia.

Mas depois de umas braçadas, tentei colocar o pé no chão e… Porra, cadê o chão?

Comecei a me preocupar, afinal não sou lá um exímio nadador. Pra piorar, eu tenho a escrota mania de me sabotar mentalmente nessas situações. Eu abria o olho em baixo da água em busca de ver onde que estava o chão, mas eu não via nada, porque sou míope e porque a água tava turva. Então vem a minha mente maligna e começa a “tocar” os acordes de Tubarão…

Uma coisa roçou na minha perna. Eu sabia que era uma porra dum plástico, mas sabe como é. Eu tava pensando na musica do Tubarão. E não tinha ninguém, absolutamente ninguém nadando perto. E então minha mente lembrou do Discovery e daquele episódio que cansou de repetir sobre como os tubarões confundem surfistas com focas, sobretudo em águas… “Turvas! Puta que pariu! É um tubarão!” Eu pensei.

Eu podia já sentir aquela bocarra cheia de dentes pontiagudos e tortos cravando no meu pânceps (meu músculo mais desenvolvido).

Nadei como o Michael Felps (dos pobres) e em pouco tempo, senti a areia aparecer. Comecei a sair da água o mais rapido que eu podia. Alcancei algumas pessoas, que olhavam pra minha cara com um ar de: “Oh, meu Deus! O que é isso?”

Eu pensei: Porra, será que eu tô com um catarro pendurado no nariz?

Eu vi um cara que estava ali perto nadar desesperadamente mar adentro.

Comecei a acompanhar o cara enquanto saía em direção a areia. Foi quando eu olhei para trás e vi.

Maluco, não era ninguém menos que NETUNO!  Gigante, formado por uma onda monumental que se levantava bem atrás de mim. Não deu tempo nem de encomendar a minha alma. Só consegui falar: Fude…*

Buuum!

ondagiganterio Netuno

NETUNO!

Netuno me pegou num mata-leão, e bateu minha cabeça no chão de areia umas quatro vezes. Eu sabia que estava fodido, e num lampejo de pensamento, juntei os braços perto do corpo e baixei a cabeça, tentando virar uma espécie de “bola” e assim evitar de me quebrar todo.

Eu rodei de tudo que é eixo possível. Era como se eu estivesse nu numa máquina de lavar roupas cheia de giletes. Bati com força naquelas areias grossas da praia de Niterói e comecei a quicar. Com o susto eu não tinha recolhido ar suficiente. Começou a faltar ar. E eu nem sabia onde era o “para cima”. Rodei tanto que senti claramente quando minhas pernas saíram da água. Eu tava desesperado achando que ia morrer, e o pior, morrer de um modo escroto, virando piada na praia. A força da água era uma coisa descomunal. Nunca vi aquilo.

Capotei com tudo para fora da onda. Saí tossindo, os olhos arregalados. Tentando me equilibrar. Tudo rodava e eu não sabia onde estava. A espuma ferveu à minha volta como se eu fosse um sonrisal gigante e imediatamente senti uma força enorme tentando me puxar. Netuno queria mais. Eu meio que – é foda dizer isso – soltei a franga e comecei a correr aos saltos, como uma gazela, para fora do mar. Isso deixou tudo ainda mais detestável.

Minha sunga ameaçou cair. Eu paguei cofrinho peludo na praia e havia cerca de dois quilos de areia no meu fiofó.

E eu ouvi risos. Até agora não sei se as pessoas riam da minha desgraça ou de nervoso, pois a onda que me acertou bem nas fuças era um ondão daquelas que aparece no filme “Náufrago”.

Saí do mar cambaleando, tentando ver se estava ferido. Quando olho para a areia, não conseguia mais me localizar. Pensei que a batida de cabeça no fundo tivesse me afetado o cérebro. Estava tudo muito embaçado. Mas daí me conscientizei que eu estava mesmo era sem óculos e comecei a andar pelo meio das barracas, tentando sair daquele lugar onde as pessoas olhavam pra mim com risinhos cretinos. Caminhei pelo meio das barracas sem ver direito pra onde estava indo, até achar a primeira dama, que olhava aflita para o mar, num lugar totalmente diferente de onde eu fui cuspido.

Eu tava com fome, catei meus bagulhos e fui embora pra casa.

Não vejo a hora de voltar na praia. Netuno vai se ver comigo!

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