As coisas boas do Funk

Eu não gosto de funk. Sinto muito.

Nenhum funk me dá vontade de dançar ou cantar. Parece mais barulho. Acho que eu prefiro ouvir um motor de ônibus.

É claro que eu não estou falando do funk verdadeiro, e sim do funk carioca. Coisas bem diferentes.

Reconheço que esta minha aversão ao funk pode ser em parte atribuída a uma doutrinação classista oriunda de uma formação cultural que sempre prezou pela distinção entre a casa grande e a senzala, onde eu, burguês, branco e nascido distante das classes oprimidas fui adestrado a interpretar como sendo inferior.

No fundo o discurso de que funk é ruim traveste em parte um preconceito arraigado de que musica de periferia é ruim porque pessoas de periferia são ruins. Eu reconheço isso e reconheço também que esta idéia é completamente idiota, uma vez que Cartola, um gênio inegável da música brasileira era favelado. Pixinguinha se não morava no morro (ele morava no Catumbi) vivia entre morros, como o Morro da Conceição, no centro do Rio. Então esta idéia de que pobre não faz musica boa por ser pobre é uma idéia de trouxa. De Zé mané.

O problema é que ocorre uma miséria intelectual ferrada nos dias atuais e isso invariavelmente se reflete na música. No caso, no funk carioca.

A necessidade de letras “que peguem”, isto é, repetitivas e 100% baseadas em refrão como “vai Serginho, vai Serginho…” grudem na sua mente ao ponto de tornarem-se um mantra, se sobrepõe a necessidade de uma música compreensível, para agradar aos miolos. Além do mais, para balançar o “popozão”, não há necessidade nenhuma da música ser compreensível.

Mas vamos pegar por exemplo uma música popular antiga e compará-la a um funk atual. Assim poderemos ver o abismo intelectual que se criou indistintamente em todas as classes sociais do país.

Pixinguinha compôs uma bela valsa e estava durante um bom tempo sem letra. Um dia, enquanto executava a obra na flauta, vinha passando um mecânico do Engenho de Dentro, chamado Otávio de Souza. O cara parou, ouviu por um tempo e se propôs a fazer uma letra.

Era de se esperar que a letra musical escrita por um “mecânico do Engenho de Dentro que vinha passando” fosse um rema-rema idiota. Mas veja só o que saiu:

 

Agora escute o melhor funk que puder e compare.

Talvez daqui a décadas ou séculos, os homens do futuro vejam o valor do funk carioca atual, como ocorreu com o Lundu, o precursor do samba, que era detestado pelos sérios homens da “Sociedade”.

Mas eu sou um cara deste tempo e não do futuro. Eu olho o mundo à minha volta com os olhos do meu tempo. E no aqui, agora, funk é ruim. Pelo menos não sou hipócrita de dizer que gosto porque isso vende, porque a Xuxa diz que acha legal. Porque o Luciano Huck toca no Caldeirão. A única coisa que me atrai no funk é sua bizarrice nativa inexorável, que gera coisas bizarríssimas, como o Mc Serginho e a Lacraia (que é quem realmente faz valer o ingresso)…

 

O problema do Funk, ao meu ver é que ele é hipócrita por natureza, apresentando-se como um campo aberto ao pobre da periferia ascender socialmente. É inegável que existe de fato uma ascensão social no funk, mas esta ascensão não se coaduna com a realidade econômica numa proporção que possa ser considerada justa. Não é. Os funkeiros não ficam ricos. Não há nenhum funkeiro rico, embora milhões de reais sejam movimentados no mercado do funk carioca todos os anos. MAs veja que engraçado, o Dj Marlboro (a quem eu tive a honra de processar) e o Romullo Costa, caras visívelmente distanciados da questão periférica do funk estão cheios da nota. Já teve o ano do Tigrão, do Mc Serginho, etc. A cada ano um novo hit e um novo sucesso embalado como música de verão para as massas. Os sucessos são passageiros, mas a grana preta vai sempre para a mão das mesmas pessoas.

Muita gente que diz que gosta do funk.

Na verdade, essas pessoas podem gostar de outras coisas associadas e acabam a considerar que gostam de funk. Como por exemplo, a alta carga sexual implícita nas danças, letras e coreografias. Quem não gosta de sexo não pode gostar de funk. Mas quem gosta de sexo realmente pode odiar o som mas apreciar a paisagem. O sexo está implícito diretamente e bem claramente, para qualquer burro entender. No ambiente escuro e barulhento. Na mistura de pessoas de todas as classes sociais. Num ambiente que é ao mesmo tempo primal e um campo de batalha onde mulheres disputam seu poder de sedução mais escancarado, chocoalhando as cadeiras e mostrando movimentos de forte cunho erótico.

O funk é em parte um sucesso pela genial mente marketeira pornográfica que embalou-o em uma mistura de sexo e transgressão. Uma receita de sucesso de alto poder de irresistibilidade para muitos jovens de periferia, que viviam num ambiente cujo universo musical ao seu redor que não lhes abria espaço nem sequer para a compreensão.

Além de permitir que um jovem anônimo pobre torne-se um ídolo aclamado por milhares de pessoas nos bailes, o funk funcionou também como uma zona de liberação da tensão social. Até então, havia apenas o carnaval como período de liberação social, mas o advento do funk trouxe um fusuê extra a todos os finais de semana (começando na quinta) e dando um sentido de ser para as quadras, espaços geralmente relegados ao esquecimento nos dias que não eram de jogo nem de carnaval. Mas seja como for, ouvir funk, mesmo com a melhor das intenções é um sofrimento.

Porém, não posso negar que gosto declaradamente de assistir a dois programas absolutamente trash baseados na “estética” do funk e que passam na TV.

1- Furacão 2000 na Tv. Isso passa de tarde, na hora do almoço, acho que na Band. O programa é uma merda, uma edição péssima e o que existe de mais interessante ali é a atual mulher do Don Corleone do Funk. Acho que o Romullo Costa fez melhor negócio saindo fora da “Mãe loura do funk” e pegando aquela moreninha gata lá. Mas a melhor coisa deste programa altamente educacional é quando mostram os bailes:

Numa cena as barangas estão dançando com a empolgação de funcionários publicos. Mas basta a câmera apontar pra elas que começa uma lânguida rebolação com caras e bocas com o melhor da sensualidade suburbana. Coisa que nem o Wando conseguiria.
E ao fundo (como sempre) outras mulheres dançando procrastinadoramente esperando sua vez de aparecer na Tv.

2- Programa Dança Comigo. Apresentado péssimamente por um tal Jonas Santana. O apresentador é um tampinha que parece mais um trocador de ônibus. Este programa de forte cunho Bíblico, passa de madrugada (na rede Tv ou na Band, não sei).

Vi isso umas duas vezes, num domingo às duas da madruga. O programa “Dança Comigo” é gravado em frente a uma parede onde um monte de mulheres que parecem saídas do puteiro mais baixo-nível da Vila Mimosa dançam fazendo caras e bocas para uma câmera que só não é mais ginecológica porque se fosse, sujaria a lente.

O legal deste programa é que ele é absolutamente mambembe. Não tem cenário e nem pauta. Só as mulheres (umas realmente gatas!) rebolando.
Mas aí eu paro e penso… Ora, a maior diferença disso aí para o “Fantasia” do SBT, é que o programa do pobre funkeiro não dá dinheiro para o telespectador, mas pelo menos, enche a mente dos vigias e porteiros de muitas “fantasias”.
Olha essa letra e compare com a letra do “mecânico que vinha passando”. A verdade é que a educação foi “pras cucuias” mesmo. É a miséria intelectual, meu chapa. Não dá pra esperar nada melhor da nossa sociedade idiotizante e alienante, que desde os tempos mais remotos explora a mulher de todas as maneiras imagináveis.

Naquela noite que eu vi este programa, eu só tive sonho pornô.

 

 

29 Comentários

  1. Jordana 3 de abril de 2008
  2. Bruno 4 de abril de 2008
  3. Andre 4 de abril de 2008
  4. Eduardo 4 de abril de 2008
  5. Marilia Pupo 4 de abril de 2008
  6. Megaprime 4 de abril de 2008
  7. Philipe 4 de abril de 2008
  8. Whalietric 4 de abril de 2008
  9. Cristiane 4 de abril de 2008
  10. guiu 4 de abril de 2008
  11. quinha 4 de abril de 2008
  12. Philipe 4 de abril de 2008
  13. Whalietric 4 de abril de 2008
  14. Grasiani 4 de abril de 2008
  15. Patola 4 de abril de 2008
  16. Janaina 4 de abril de 2008
  17. Philipe 4 de abril de 2008
  18. Gabú Lucio 4 de abril de 2008
  19. Gabú Lucio 4 de abril de 2008
  20. Fulano! 5 de abril de 2008
  21. Bruno 5 de abril de 2008
  22. doxX 5 de abril de 2008
  23. Philipe 5 de abril de 2008
  24. Mário 7 de abril de 2008
  25. jean 15 de agosto de 2008
  26. blues boy 4 de setembro de 2009
  27. Paulo 21 de agosto de 2010
  28. Ichijouji Ken 29 de maio de 2011
  29. Ichijouji Ken 29 de maio de 2011


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