Arroz à piamontese

O cara passou despercebido dos outros clientes quando adentrou o salão. Usava um pulôver vinho, calça jeans desbotada e o resto eu não sei porque não dava pra ver. Foi direto a mesa de sempre, mas estava ocupada.
Vi a cara lhe torcer gradualmente as fuças quando notou, já a uns 10 metros, o beijo apaixonado do casal.

O buquê de rosas no assento da cadeira lateral e ovinho barato esquentando nas taças.
Ele não disse nada, mas dava pra ver que não gostou. Aquela era a mesa dele, aquele era o dia dele, os garçons deviam saber. Era o mínimo que se esperava de um restaurante atencioso para com seus fregueses mais tradicionais.
Recolheu seu orgulho ferido e sentou-se em qualquer uma. “Qualquer merda serve” resmungou para o garçom.
Sentou-se e pediu um chopp escuro. Tão logo o garçom rabiscou no bloquinho, ali estava ele. Novamente só. E o restaurante parecia misteriosamente diferente. Assimétrico.
Estava incomodado. A nova mesa parecia destoar do dia-a-dia, parecia estar fora de lugar. Não estava mais no centro de seu espaço-tempo, as dimensões pareciam estranhas, não via mais a rua, não conseguia ouvir a musica, a mesa ficava numa passagem, e a cada três minutos um garçom estabanado passava chutando os pés da mesa, empurrando cadeira. E o cheiro? Ah, maldição! O cheiro era um problema. A cada minuto era cheiro de filé, de peixe, de camarão, de pizza, de macarronada. Aquilo o distraía, ele não podia se concentrar no aroma, no sabor.
Chegou o garçom com o chopp. Escuro, pingando, fez molhação na mesa. Sujou a toalha. Mas que diabos! Que merda de toalha? Veja você… Manchada, vermelha, suja. Um arroz derradeiro deitado, encurvado para cima, ressequido perto do paliteiro. Pobre arroz.
Ele sentiu pena daquele arroz. Pena e nojo.
Achava toalha suja em restaurante muito pior que lençol de motel reciclado.
“É só comida”, diriam. Pois no lençol de motel usado também é só uma comida. Não que fosse nojentinho ou coisa assim. Somente não era certo. Não estava direito.

A solução era fazer vista grossa. Tentou abstrair, bebeu um gole do chopp. Meio quente. Fora do padrão.
Tudo estava fora do padrão.
E o casal? O casal não parava de se beijar, e o vinho, só esquentando na mesa. Teve pena da garrafa. Usada para fazer vista, como algumas mulheres infelizes.
Ah… Mulheres infelizes.

Levantou os dois dedos na iminência de chamar o garçom. Refletido no espelho que recobria uma coluna, se viu. Notou como aquela pose o fazia parecer um santo. Era patética sua imagem e agradeceu por ter tantos pecados nas costas que mal podia endireitar-se na cadeira. Assim, nunca passaria a vergonha de ser canonizado e acabar por estampar um milheiro de santinhos idiotas.
O garçom veio com o bloco ensebado. Pediu medalhão.
-Arroz normal?
-Não. Arroz à piamontese.
-E a carne?
-Bem passada.
-Sim senhor.
O garçom se foi. E ele voltou aos seus pensamentos perdidos.
O casal ainda se beijava loucamente. Ela na cadeira dele. Vergonha. Esses moleques de hoje em dia são assim. Mal se conhecem já enfiam a língua um na garganta do outro. Transfusão de afeto.
O mundo é uma festa de idiotas, onde só os imbecis foram convidados e os otários querem ser penetras.
O chopp acabou. Pediu mais um, que veio sem colarinho e por isso voltou. Veio outro com colarinho.
Depois de quase matar o segundo, surgiu finalmente o medalhão em todo seu esplendor numa caçarola de alumínio toda arranhada e meio suja nas laterais. O Garçom serviu a bolota de carne. Impávida no centro do prato, vestida de bacon, com adornos de molho escuro, madeira, champinhons cortadinhos ocultaram-se sob a colherada de arroz bem quente. O queijo amarelado esparramou-se no prato, recobrindo uma parte da carne.
O garçom habilmente manejou as duas colheres, movendo e cortando o fiapo do queijo que tentava jogar-se da pequena caçarola.
-Bom apetite. – Disse ele.
A primeira garfada explodiu em sua boca. Prazeres inconfessáveis. O arroz a piamontese tinha seus mistérios e uma certa poesia. O molho madeira encorpado, escuro como o sangue de um touro, a lambuzar a carne. Manejou a faca com destreza, tentando cortar a bolota do medalhão, mas estava sem corte. A carne se esfarelava ao passar da lâmina, e o laço de bacon se soltou, debruçando-se vergonhosamente pelo meio do prato, esparramando-se sobre o arroz e tingindo a brancura da louça de um marrom-amarelado.
Aquilo era demais. Um insulto. Faca sem corte, onde já se viu? Sinalizou de longe, pedindo outro chopp. O garçom fez pouco caso. Ele tentou novamente, mas agora o garçom já não olhava mais pra ele. Malditos.
Malditos. Mil vezes malditos. E os dois ali? Ainda se beijando. As rosas pingando no chão. Iam manchar a cadeira. O garçom finalmente veio. Passou direto.
Maldito.
Lá de dentro, o maldito garçom botou a cabeça na quina da pilastra e fez um galeio com a cabeça pra trás. Ele apenas levantou a tulipa seca.
Comunicação simbólica. “um brinde a sua incompetência”, ele pensou. O Garçom acenou positivamente e entrou.
Dois minutos depois, o garçom maldito surgiu com uma tulipa de chopp claro. Sem colarinho.
Maldito. Maldito. Maldito.
Fez sinal novamente, mas o garçom não veio. Estava anotando pedidos. Ele já havia feito o dele. Agora, que bebesse aquele mijo ralo e não enchesse o saco.
O sangue subiu. Ficou com tamanho ódio que podia partir a carne do medalhão com a faca mais cega que o Ray Charles.
O sangue desceu. Misturando-se com o caldo marrom amarelado. O medalhão estava cru por dentro.
Malditos. Malidos, malditos!
O sangue inundou o prato. Estragou o arroz e sua magnífica beleza dourada. Diluiu a potência do molho, envergonhou a estética do prato num caldo bordô.
O garçom vinha.
Pegou o garfo com a mão cerrada. Apertou o cabo até sentir a dor.
O garçom vinha.
Ele se levantou e enfiou o garfo no pescoço do garçom. Alguém gritou. Um copo caiu. O garçom caiu com o garfo cravado na garganta sobre a mesa do casal. O sangue ejaculando para o teto, como um chafariz de prostíbulo. A taça de vinho caiu, misturando o caldo na mesa, diluindo o sangue em matizes rubros.
As pessoas tentavam correr. Ninguém sabia o que acontecia. Outros dois garçons vieram correndo.
Ele pegou a cadeira. Lançou-a no espaço e viu a madeira escura estourar no peito do segundo infeliz. Tentaram agarrá-lo, mas ele se desvencilhou. Somente quando enfiou a faca no olho do homem que se jogou sobre ele, que percebeu que embora cega na carne, a faca cegava que era uma beleza.
Já eram três os corpos no chão. Algumas pessoas corriam para a porta. Ele começou a lançar pratos. O primeiro que voou explodiu no teto em milhares de cacos. Mas o segundo atingiu a porta de blindex. Houve um estouro seco e uma cascata de quadradinhos brilhantes voaram pelo chão. O velho escorregou e puxou com ele as duas filhas. As pessoas caíram, escorregando na farofa brilhante, deixando na escada do restaurante os pedaços de carne fresca.
Surgiu não se sabe de onde um homem com uma arma escura. A confusão não deixou ver o que acontecia. A arma disparou duas vezes e o homem do pulôver vinho voou para trás. Bateu na parede e enfim tombou sobre a mesa. Atrás dele, os dois buracos belamente equidistantes ainda exalavam o cheiro da pólvora. Alguns estavam sob as mesas. O casal caído no chão entre cacos das taças e o corpo do garçom com o garfo na carótida.
Houve finalmente o silêncio e ninguém mais notou a poesia nem o mistério sutil daquele arroz à piamontese.

FIM

14 comentários em “Arroz à piamontese”

  1. BOOA!!!, tava com saudades de uns contos, rsrs muito interessante mesmo, flow e  boa sorte com o curta (aguardando proxima temporada de zumbi) abraços!!!

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