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A lasanha da madrugada

January 17th, 2008

Sozinho em casa, esperando uma lasanha Sadia sair do forno eu não tenho porra nenhuma pra fazer. Penso em escrever no blog. Abro a janela mas a tela em branco me oprime. Eu não tenho nenhuma idéia. Penso no meu dia. No que aconteceu.

Penso no meu trabalho, na ralação, nos amigos. Penso na minha mulher. Penso em levantar da cadeira e ir ver Tv. Mas nada de bom passa na tevê e eu sou obrigado a voltar para o escritório onde me espera a maldita tela branca opressora.

O que colocar ali? Uma aventura? Um conto? Uma outra poesia? Ou comentar alguma notícia? Na verdade não estou com vontade de escrever é merda nenhuma. Eu queria jogar.

Tanto jogo maneiro… Esse da Citerion novo… Meter uns tiros. Deve ser legal.

Mas ele é caro e eu não tenho. Além do mais, jogar me vicia. Eu tenho que segurar a vontade de jogar porque se começo, viro a madruga e amanhã é dia de trabalhar.

Madrugada. Apenas o silêncio. Meus pensamentos me dão a sensação clara de ouví-los.

Eu volto-me para a janela. Olho lá para a rua. Passa um fusca e fura o sinal vermelho.

Ele colide violentamente com uma brasilia ou variante. Não dá pra ver direito, porque o poste está com a luz queimada.

O que eu vejo é o fusca acertar a frente da brasília, que pode ser uma variant e rodar, indo parar de encontro ao muro. A buzina dispara. É um ruído irritantemente alto da buzina “bi-bi” típica do fusca. Com a batida, o muro desabou, abrindo um buraco enorme por onde saem dois cães pretos correndo. Podem ser rottweilers. Os cães correm e atacam os caras do posto de gasolina do outro lado da rua que estavam vindo olhar o acidente. O primeiro cão pula sobre o pobre negão agarrando-lhe o braço e derrubando-o no chão. O homem se debate gritando. O outro cão ia atacar o segundo frentista mas dá meia volta e corre para cima do pobre negão que se debate desesprado, com um cão mordendo-lhe o pescoço e o outro puxando pelo braço. È uma carnificina. O frentista atônito tá parado, gritando. Gritando acenando. Em desespero. O colega se debate com os cães.

Nisso eu vejo que o cara da brasília, que agora tenho certeza que na verdade é uma variant, desceu do carro. Ele tem algo na mão.

Só depois dos tiros que eu notei que aquilo era um 38. O primeiro cão cai no chão e o outro ainda morde o pobre negro desfigurado.

O segundo frentista vem correndo com uma vassoura. Acerta vassouradas no cão, erra duas e acerta no colega, que está caido ao chão, aparentemente desmaiado. O cão está em frenesi. O maluco da variant mete mais dois balaços e o cão corre mancando. Não estou certo se todas as balas acertaram o cão. Acho que o negão estava num dia de azar.

O sujeito do fusca está la dentro, do carro, imóvel.

Eu me preocupo que ele tenha morrido na batida com o muro. A buzina disparada ainda. Uma zona. Nos prédios ao redor todo mundo correu para ver. Mas sa janela, já que ninguém é louco de descer para a rua a essa hora. Vejo que uma mulher grita. Ela grita desesperada. Deve estar dentro do fusca, a julgar pelo barulho abafado. A buzina para. No fusca tem um sujeito tentando tirar o cara do carro. Acho que é porteiro do predio da esquina.

Alguém grita lá do predio para não mexer no cara. Mas já é tarde. O sujeito tira o corpo ensanguentado e coloca no asfalto.

Outros dois que não vi de onde saíram estão tentando ver se o frentista morreu destroçado pelo cachorro. O frentista sobrevivente corre para telefonar no orelhão.

Penso como a vida é uma merda. Ningiuém tem celular quando precisa, mas basta você entrar numa porra dum cinema ou teatro para: “…blim, blim, blim-blim-blim.. alô”?

Ao longe, bem longe, há um barulho de sirene. Não sei se é para este acidente. Está bem longe. Agora que a buzina do fusca parou eu posso perceber melhor a cena. Muito do que penso ver, acho que estou ouvindo, já que a falta da luz do poste atrapalha muito acompanhar o desenrolar dos fatos.

Mas mesmo assim, o desenrolar dos fatos é bem interessante agora, já que a mulher em crise desceu do fusca e está estapeando o infeliz ensanguentado estirado no asfalto. O porteiro do predio tenta segurá-la. O povo da janela está.. Está rindo!

Meu Deus, como é que pode isso? O cara deve estar morto lá e neguinho tá rindo…

Ela grita algo como “filho da puta! Não morre. Volta! Sua mulher vai me matar!”

Entendo o motivo do riso. O porteiro tenta conter a mulher. Ela se debate sobre o corpo do cara, parece estar tentando uma ressussitação, mas não sei. Pode ser ódio também.

O maluco da variante voltou pro carro. Está sentado no capô olhando aquela merda. O carro parado no meio do cruzamento. Varios motoqueiros se aglomeram no posto para ver acena. Gente correndo de camisola começa a aparecer. São as velhas da casa 12 que sempre estão lá na igreja e vivem para fofocar. Uma tem até bobs na cabeça. A outra enrolada num penhoar florido de gosto absolutamente duvidoso.

Está a maior falação na rua. Os donos da casa que o muro caiu surgem desesperados. Os dois vem correndo. O marido vira-se e grita para as crianças voltarem pra dentro. Três bacuris de uns quatro a sete anos correm de volta para o buraco do muro. A mulher vê o cão caido morto e começa a gritar. Ela tá tendo um chilique. O marido tenta segurar, mas agora são duas mulheres tendo chiliques. O povo grita das janelas. Não dá pra entender o quê.

O pobre negão está esfacelado ali e ela está ajoelhada alisando o cachorro assassino. Isso não faz sentido.
As velhas se aproximam da mulher que vela o cão morto. Elas apontam para o sujeito da variante. Ele está sozinho sentado no capô. Cabeça baixa. Acho que tá chorando, não sei.

A mulher corre pra lá. A dona do cão está puta. As velhas falaram naturalmente quem foi que matou o… Não ouvi o nome. Parece Ringo, ou bingo, ou Pingo…. Uma merda assim, que não combina com um cachorrão daquele tamanho. Ela vai lá tirar satisfação com o cara. Empurra ele. O marido dela vem correndo tentar acalmá-la. O cara da variant empurra a mulher e ela cai estatelada no chão. Quase mete a cabeça no meio-fio. Os motoboys gritam algo como “ÔôôôÔ…”
O marido dela chega e se mete entre ela e o cara da variant que tava quieto na dele. Começa a discussão. O marido empurra o cara da variant. Ameaça meter a mão na cara. O cara da variant mete a mão no casaco e saca o trabucão novamente. O marido da mulher dá um passo pra trás. O cara da variant avança e mete dois enormes tapões na cara do sujeito, que quase tropeça na mulher. Eu só escuto a parte do “Quer morrer? Quer morrer? Reage, filho da puta! Reage!”

As velhas correm para o ortifruti desesperadas. A gritaria recomeça.

O dono da casa corre com a mulher. A galera grita das janelas que ele amarelou. A maior vaia. O maluco da variant aponta a arma aleatóriamente na direção das janelas. Dá um tiro. E faz-se o mais completo silêncio que eu já testemunhei na vida.

O cara da variant senta novamente sobre o capô e fica isolado. Agopra a rua é apenas silêncio. Todos apenas se olhando desconfiados. A coisa fica tensa.
O barulho da sirene não está mais no ar. Aquilo não era o socorro. E pelo que parece, o socorro vai demorar.

Os porteiros e os vigias do estacionamento junto com os vigias do ortifruti estão colocando uma lona em cima do negão e uns jornais no cara do fusca. A mulher do cara lá do fusca chora desconsolada. Deve ser a amante. Mulher mesmo só chora assim no enterro, e quando tem televisão. Ou então quando o cara é rico.

Um estalo seco ecoa na noite e as velhas gritam. Todo mundo grita, Muita correria. Eu olho pro canto e vejo que o cara da variant está caido sobre o capô. Surge atrás do poste o marido da dona dos cachorros. Ele tá com uma 12 na mão. Parece ser cano serrado ou algo assim.

Agora me lembro que ele é ex-Pm. Puts. Nunca humilhe um ex-pm!
O maluco tá caidão em cima da variant toda fodida. Braços abertos. O revolver caiu. A mulher do ex-pm vem gritando em desespero. Ouço um ruído de batuque eletrônico.

No fim da rua, lá em baixo perto do açougue eu vejo que vira um carro cantando peneu. É um vectra tunado. O som toca um funk no último volume. Ele está muito rapido. Rapido demais. Parece que o cara não está vendo o… Puta que pariu!

O carro vem a toda cantando peneu e entra com a variante, o morto e tudo dentro do posto de gasolina. Eles atingem a bomba e o posto explode em um clarão que ilumina a rua. É um barulho como uma bomba atômica. Eu sinto o som no meu peito. Caio atrás da janela. Vejo que pedaços de pessoas voam. O predio sacode. Eu penso que vai acabar o mundo. Tenho medo que desabe tudo.
Sinto o chiro do óleo e da gasolina. Uma lingua de fogo gigante se precipita sobre o que era o posto. Eu me levanto e olho pela janela. Vejo pessoas em chamas correndo. Muitos corpos se espalham pelo chão. Em meio a fumaça, noto que o posto agora é uma cratera com pedaços de telhado e vigas. Fogo muito fogo. Eu sinto o calor. Não consigo respirar direito. Meus olhos ardem. Os carros estão de cabeça para baixo. Todas as janelas dos prédios em volta explodiram. Tá tudo sem luz. O poste caiu. Eu sinto o chiro da fumaça. O cheiro ruim e ressecado da fumaça escura…

Caralho. A lasanha tá queimando!



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