A caixa – Parte 8

Levei um bom tempo para convencer Mara a parar de chorar. Ela parecia mimada, mas era frágil também. Disse que ninguém falava assim com ela, que ela não admitia isso, que não sei mais o quê, não sei o que lá…

Eu ficava só pensando que estava condenado a morrer, num lugar bizarro, com um bichão enorme no escuro, repleto de sangue e merda, sem o dente, quase morrendo de inanição, junto com o defunto do meu amigo partido ao meio e a patricinha chorando porque “fui rude com ela”.

Eu pedi desculpas pra ela umas trinta vezes, e não parecia adiantar. Então eu me cansei de fazer aquele papel de otário e abri o jogo com ela. Contei toda a nossa situação, que as caixas iriam encolher até nos esmagar. Que não tinha saída das caixas, embora de alguma forma tivéssemos ido parar lá dentro. Inicialmente incrédula, ela foi lentamente, se conscientizando de que era mesmo verdade. Ela tinha sentido o Mungo. Estava vivenciando a vida na caixa. Ou pelo menos o resto de vida que ainda havia. Naquele momento, eu vi Mara amadurecer vinte anos em poucos segundos.

-Quer dizer então que é isso? Que vamos morrer?

-É. – Eu respondi secamente. Não por falta de vontade de falar, mas porque estava tentando economizar todo fio de energia que me restava. Mara ficou em silêncio por uns minutos mas então me fez uma pergunta que eu mesmo ainda não havia me feito, ou se fiz, já não me lembrava mais:

-E qual o sentido de tudo isso? Se o objetivo é nos matar, porque eles desperdiçam a energia, inventando caixas que encolhem, colocando monstros aqui dentro… Por que não meter logo uma bala na nossa cabeça, uma facada no coração, rápido, sem muita papagaiada?

Ela tinha razão. Aquilo parecia muito ilógico. Uma estrutura muito grande para apenas nos matar, algo fácil de fazer. Se a falta de ar não solucionasse, o simples fato de que não havia comida e nem bebida ia dar cabo de nós dois.

Foi quando pensei na bebida que me lembrei de meu último diálogo com seu Alfredo. Ele tinha dito que achou uma garrafa de água na caixa. Achava que o mungo lhe trouxera. Aquilo também era parte do teatro do absurdo no qual estávamos inseridos, mas desde o momento que lembrei da água, eu já não conseguia pensar em mais nada senão em tragar todo seu conteúdo.  Agradeci a Deus por não ser quente ali naquela caixa. Por não haver luz, eu perdia pouco liquido pelo suor, mas já estava gravemente desidratado, porque eu estava há muito tempo sem urinar. Eu sabia que aquilo era um sinal.

Precisava chegar naquela garrafa o quanto antes. Não sei se Alfredo havia tomado a água toda. Eu imaginava que não, porque ele era metódico. Devia ter planejado beber a garrafa de pequenos goles diários, para esticar ao máximo suas expectativas na caixa. Se ele saiu da caixa, talvez a garrafa tenha ido junto, e se isso fosse verdade, ela estaria em algum lugar da minha caixa. Minhas esperanças agora eram encontrar a garrafa antes que a desidratação me matasse. Eu calculei que já devia ter perdido pelo menos cinco quilos naquela merda de caixa. Percebi o quanto tinha sido idiota percorrer a imensidão escura tateando parede. Havia desperdiçado valiosas calorias, primeiro tentando achar uma porta e depois somente para saber se a caixa estava encolhendo ou não.

Eu disse a Mara que iria andar até a caixa de Alfredo, para investigar se a garrafa estava lá. Ela implorou para que eu não fosse. Mara achava que se nós nos mantivéssemos juntos, o Mungo não iria atacar. Tinha medo que eu saísse e logo depois a criatura retornasse para atacá-la. Eu concordei que aquilo era um risco, mas por outro lado, Mara era uma novata na caixa, ainda tinha energias de reserva, e eu estava no osso, “rodando na capa”, como se diz. Eu não podia assinar uma sentença de morte somente para confortar a menina. Pedi desculpas e fui. Eu já ia longe quando ouvi Mara gritar:

-Andersoooon! Não demoraaaaa! E cuidadooo!

Algo dentro de mim ficou feliz de saber que alguém se importava comigo.

O caminho na direção da caixa era uma penúria. Eu praticamente me arrastei. Levantava o minimo possível o pé do chão para andar. Todos meus movimentos agora eram pensados para poupar a energia. Eu ainda estava decidido a sair daquele lugar,  e se Alfredo saiu da caixa, mesmo que por ação do Mungo, isso significava que essa possibilidade existia.

Quando cheguei na caixa ela ainda estava lá. Tateei para poder “ver” a caixa naquele breu. Eu poderia ter usado o celular, mas preferi economizar a bateria dele, pois ela poderia ser útil no futuro. A caixa tinha a altura de uma geladeira. Eu conseguia colocar a mão sobre ela, e me espantei em como ela havia reduzido. Concluí que a caixa encolhia mais rápido sem ninguém dentro.  Então me lembrei da história do gringo. Talvez o gringo não tivesse morrido, e sim saído da caixa. Alfredo pode não ter percebido isso, e entendeu que o fato do gringo não lhe responder era um indício de que ele estava morto. Mas isso poderia ser somente a interpretação distorcida dos fatos. E se o gringo saiu e a caixa encolheu até sumir?

Mas se saiu, como será que ele fez?

Tateei a caixa em busca de uma brecha, ou entrada mas ela parecia lacrada.

-Merda! Merdaaaa! – Eu berrei. Estava puto. Precisava da água, que certamente estava presa ali dentro. Eu sabia que aquilo poderia significar a diferença entre a vida e a morte pra mim.

Então senti o vento.

Era o Mungo. Senti que ele tinha passado perto de mim.

Eu congelei. Abaixei-me em posição fetal perto da caixa, já me preparando para o ataque. Dei-lhe as costas, na esperança de que ele não me acertasse nenhum órgão vital. Mas não houve ataque.

Eu fiquei paradinho, esperando, atento a qualquer pequena alteração no ar. Nem som, nada. O Mungo tinha ido embora. Havia passado por mim. Fiquei feliz de ter escapado de mais essa.

Levantei-me escorando o corpo na caixa. Era melhor voltar para Mara, já que eu tinha dado com os “burros n´água”.

Eu já estava indo quando chutei alguma coisa. O som característico se fez ouvir na caixa: Era a garrafa!

-Puta merda! – Eu gritei de felicidade e desespero, já que eu poderia ter chutado a garrafa para qualquer lugar e seria difícil achar pelo tato na escuridão.

Minutos depois estava eu de cócoras, andando pela caixa, mexendo o braço de um lado para o outro, tentando tocar na garrafa. Eu não achava, mas sabia que ela estava em algum lugar.

Tive que recorrer ao celular de Alfredo, para tentar encontrar a garrafa. Preparei os olhos para a intensa luminosidade que iria queimar minha visão e liguei.

Lá estava a garrafa a dois metros adiante. Seu brilho plástico era a coisa mais bonita que eu via em dias. E para minha completa felicidade, era um garrafão enorme, e cheio! Corri até ele, agarrei-o e após penar um pouco com uma tampa de rosca muito da vagabunda, fortemente atarrachada, consegui abrir.

Beber água foi uma das melhores sensações da minha vida. Ela descia maravilhosamente. E enquanto eu sorvia o precioso líquido, agradeci por Alfredo não ter bebido a água.  Ele era neurótico e devia ter ficado cabreiro com a água. Sua história do faisão do imperador romano deixava claro que ele iria acabar recusando a oferta do Mungo. Quem sabe não foi por isso que o Mungo o matou? Talvez Alfredo tenha tomado tão pouca água que não iria aguentar esperar sua caixa esmagá-lo. Mungo pode ter perdido a paciência com Alfredo e deu cabo dele.

Eu estava tomando a água quando um pensamento súbito ecoou na minha mente, me dizendo para parar. Meu corpo desejava o líquido com sofreguidão, mas a mente racional falou mais alto. Parei de beber no ato. Realmente, se eu tomasse a água toda de uma tacada só, eu poderia ter um problema. A água ia acabar rápido e eu poderia vomitá-la, o que seria um grande desperdício, do líquido tão precioso.

Eu voltei até Mara.

-Anderson? É você?

-Achei a água, Mara!

-Que bom!

Sentei-me ali, do lado do defunto de Alfredo. Coloquei a garrafa do meu lado e fiquei conversando com a Mara. Gradualmente comecei a me sentir um pouco melhor.

Mara me contou pequenos detalhes de sua vida. Sua relação com o ex namorado, que era um galinha e como eles terminaram. Ela me disse que estava deprimida em casa, quando uma amiga ligou para “levantar o astral” dela. Foi essa amiga, uma tal de “Pri” que convenceu Mara a se arrumar e sair, ver gente, tomar um goró numa festa de aniversário de um colega do trabalho que estava rolando numa boate badalada da cidade. Mara foi sem achar graça em porra nenhuma, mas chegando na festa se divertiu um pouco na pista de dança, interessou por um sujeito que era primo do aniversariante. Conversa vai, conversa vem, o cara queria ficar com ela, mas Mara estava ainda naquela fase, como ela mesmo disse, “fechada para balanço” . O sujeito vendo que não ia ter vez, partiu para cima da Pri, e só restou a Mara encher a cara de vodka. Ela saiu da festa abraçada com uma garrafa duma bebida azul. Mara disse que se lembrava que eles estavam no carro à caminho de casa, e todos cantavam. Ela estava vendo tudo rodar no banco de trás, agarrada com a garrafa. Apagou. Acordou na caixa, com a garrafa do lado.

Ali que eu fiquei sabendo que ela estava com a garrafa da bebida azul. Ela não lembrava o nome, e isso também pouco me interessava. Tinha sido com a garrafa que ela bateu na parede de aço fazendo um barulhão quando o Mungo a atacou.  Mara disse que fez isso porque achava que ele fugiria com medo do barulho. Era sensato, já que até então, ela achava que o Mungo era um gorila.

Ela quis saber de mim, e acabei contando minha desventura romântica com a Jane. Como eu acabei com um dente quebrado, dente que aliás já não estava mais na minha boca graças a uma burrada de correr no escuro, por uma aliança de noivado. Mara riu do outro lado. Conversamos bastante, nem sei quanto tempo. A hora parecia confusa na escuridão, e já não tínhamos mais qualquer referencial do dia e da noite. Volta e meia Mara dizia que sentia falta de fumar um cigarro. Eu disse a ela que ela não devia beber o liquido azul, porque era alcoólico, o fígado dela iria aumentar o consumo de água do organismo para metabolizar o álcool, e que aquilo iria acelerar a desidratação dela. Mara concordou.

Ficamos horas e horas conversando sobre diversas coisas, e eu precisava reconhecer que embora quele fosse o pior lugar que eu já estivera na minha vida, o papo com a menina havia amenizado minha sensação de desconforto. Eventualmente eu dava pequenas bebericadas na garrafa d´água. Foi assim até que nós dormimos.

Eu me lembro de ver uma coisa gradualmente ir se acendendo na escuridão da caixa.   Eu mal podia acreditar no que eu via. Inicialmente era só uma coisa branca esfumaçada, meio luminosa, que gradualmente veio se aproximando. Eu fiquei com medo que fosse o Mungo se revelando. Mas quando chegou bem mais perto, eu vi que ali estava o Alfredo. Ele parecia sereno. Estava vestindo uma roupa toda branca. Não disse nada. Apenas acenou para que eu o seguisse. A luminosidade que ele emitia iluminava fracamente o ambiente ao redor. Olhei ao meu lado e vi seu corpo retalhado encostado, todo troncho no canto. Levantei-me e segui o espectro. Ele andou pela lateral da caixa, até parar defronte um desenho. Parecia um ideograma, ou uma letra árabe. Era um rabisco que eu não entendia o que significava. O espectro de Alfredo apontou em silêncio para o ideograma na parede, e ao encostar seu dedo translúcido e brilhante no metal, foi como se um buraco lentamente derretesse na parede da caixa. Gradualmente uma luz potente emergiu.Eu senti pela primeira vez um vento fresco adentrar a caixa. O buraco aumentava a cada segundo, formando uma cavidade oval parecida com uma grande vagina.

Atravessei apressado para o outro lado e vi que a luz que entrava na caixa era a luz da lua. Estava num deserto. A caixa monumental atrás de mim brilhava sob o luar, sumindo ao longe entre as dunas. Olhei o céu límpido e sem nuvens e vi a imensidão da Via Láctea. Eu estava livre!

Respirei profundamente aquele ar gelado e puro. A lua seguia grande no céu, cheia, prateando o cume das dunas que se perdiam de vista.

O espectro estava ao meu lado, em silêncio. Ele foi andando pela duna, alguns passos à minha frente, e então sumiu.

Eu ouvi um rugido aterrador e olhei para trás.

Passando pelo buraco oval na parede da caixa vinha o Mungo. Era uma criatura horrível, tão monstruosa que eu seria incapaz de descrevê-la sem recorrer a adjetivos que jamais fariam jus à sua forma. Ele era preto, com uma bocarra cheia de dentes. Entre os tufos de pelo salteados, não haviam olhos, ou se haviam eram pequenos e eu não consegui registrar, porque no desespero que me deu, saí correndo pela duna.  O corpo preto, forte e peludo era como o de um gigante, com braços enormes e mãos poderosas. Ele corria saltando como um enorme macaco, e tinha uma língua também escura, pendendo baba enquanto saltava aos gritos, vindo atrás de mim.

Eu corria esbaforido duna abaixo, já esperando o momento em que a mão maldita da criatura iria me agarrar. Mas eu caí e comecei a virar cambalhotas descontroladas em meio a areia fria.

Acordei gritando e ouvi meu eco.

-Que foi? Que foi? – Mara perguntava do outro lado.

Me senti aliviado de saber que era um sonho. Eu havia sonhado pela primeira vez naquele lugar.

-Pesadelo… – Eu disse a ela, aliviando a ansiedade da menina. -É estranho acordar de um pesadelo dentro de outro pesadelo.

Mara riu e pareceu dormir novamente.

Mas eu não consegui pregar o olho. Fiquei olhando para a escuridão, com os olhos bem abertos esperando ver o espectro de Alfredo como no sonho.

CONTINUA

 

 

 

 

 

 

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9 comentários em “A caixa – Parte 8”

  1. Philipe, bem que você podia postar mais uma parte hoje, para compensar por você não ter postado ontem! kkkk Imagina a decepção do camarada, ficar entrando aqui o dia todo pra ver a parte 8 e necas! kkkkk O conto tá ótimo, tô doido pra saber o que é o Mungo e porque ele mantém esse pessoal preso aí, se é que realmente é ele quem captura as pessoas e põe nas caixas. Talvez ele seja só uma espécie de guarda, sei lá. kkkk Muita curiosidade!

  2. Philipe, o fato de o Anderson esperar o fantasma do Alfredo é um sinal de que ele está ficando lelé? A história continua com uma tensão crescente e atiçando ainda mais a curiosidade não só minha mas também dos outros leitores, aguardando ansiosamente a continuação.

  3. Muito boa a história, a cada capítulo vai aumentando o suspense. Parabéns. Percebi uma maneira de matar esse monstro ou o que quer que seja, a Mara tem uma garrafa de destilado e percebi que ela fuma, muito provavelmente tenha um isqueiro. Pronto, ta feito o cocktail molotov. hehehehhe

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