A caixa- Parte 7

Eu sussurrei para Alfredo:

-Eu falei com ele.

-Hã?

-Eu falei com ele!

-Não, não. Eu ouvi o que você disse, mas quer dizer que você conseguiu falar com a coisa?

-Sim, ele falou que se chamav* – Subitamente Alfredo me interrompeu, quase gritando:

-Shhhh! Ou! Para! Não fala! Não fala!

-Por que?

-Pô garoto, nunca te falaram que se você chamar pelo nome de um demônio ele vem?

-Você acha que ele é um demônio?

-Garoto, tudo que eu posso dizer é que estamos em caixas que vão encolher até nos esmagar. Não sabemos como viemos parar aqui, e não sabemos o que é essa coisa esta nos rodeando no escuro. Na Disney é que nós não estamos!

Eu achei graça do jeito que ele falava. O velho era bem rabugento, mas eu gradualmente estava me afeiçoando a ele. Me lembro de pensar que com a idade dele eu seria até mais rabugento.

Concordei com ele.

-Você acha que foi ele que trouxe a garrafa de água?

-Só pode ser.

-Por que você acha que ele fez isso?

-Eu não sei. Sei que se ele não tivesse feito isso, eu já teria ido dessa pra melhor.

-Então ele não é mau, pô. – Eu disse, concluindo o óbvio. Do outro lado da chapa o velho riu.

-Assim também pensavam os faisões sempre bem alimentados do Nero, o  Imperador de Roma. O faisão era alimentado com o que tinha de melhor. O faisão devia achar que o Imperador era um cara maravilhoso de dar tantas ervas aromáticas para ele todo dia. Mas na verdade, ele estava sendo temperado vivo, sem saber.

Eu concordei. Ficamos um pouco em silêncio, quando a paz foi subitamente rompida por batidas altas.

-Tá ouvindo? – Ele perguntou.

-Tô sim.

-Aqui tá bem baixo. Mas ouvi umas batidas.

-Eu acho que é a Mara.

-Vai lá ver, garoto. Mas não demora.  – Ele disse.

-Certo, eu já volto. Não sai daí, hein? – Brinquei.

-Não pretendo. – Ele respondeu rindo dentro da caixa.

Atravessei a escuridão insondável correndo na direção de Mara. As batidas estavam constantes, ecoavam na minha caixa, e à medida em que eu me aproximava, estavam ficando cada vez mais altas.

-Mara? Mara? – Eu gritei quando cheguei bem perto das batidas.

-Socorro! Tem um bicho aqui! Tem um bicho! – Ela gritava desesperada, socando a parede com alguma coisa que fazia um belo estrondo.

-Acalme-se! Ele não faz nada! – Eu tentei gritar, mas meus gritos eram abafados pela sucessão de batidas que ela dava.

Comecei a bater também usando o sapato, na expectativa de fazê-la se tocar que precisava parara de bater para podermos nos comunicar. A parede da caixa não parecia muito espessa, porque o som passava com alguma facilidade, mas ela não era tão fina, de modo que sem ser no completo silêncio sepulcral, era impossível ouvir qualquer coisa.

Quando Mara finalmente parou de bater freneticamente na parede, ela desatou a gritar em crescente desespero. Eu tentava gritar do outro lado para que ela parasse, mas ela não só não parava, como parecia gritar ainda mais alto. Ela tava surtada. Só me restou esperar e escutar, para tentar entender o que de fato se passava na caixa de fora.

Ela dava uns berros sucessivos e incompreensíveis, padrão grito de filme de terror. Fosse o que quer que fosse, alguma coisa havia aterrorizado Mara completamente. Comecei a pensar se talvez ela não tivesse conseguido enxergar alguma coisa.

Eu fui ficando também super nervoso com aquela gritaria desesperada, e sem saber o que fazer, comecei a gritar:

-Mungo! Muuuungo!!! Mungo!

Quando gritei mungo pela terceira vez, Mara parou o grito como num passe de mágica. Ouvi uma batida seca contra a chapa da parede.

Então um tipo de vento quente soprou na minha direção e uma coisa me acertou com tamanha violência que me lançou longe, a mais de um metro de onde eu estava. Foi uma pancada brutal no ombro, como se eu tivesse sido atropelado por um ônibus.

Caí no chão, estatelado, batendo a cabeça no piso. Meus olhos estavam ardendo, e eu achei que ia desmaiar novamente. Naquela altura, qualquer ventinho já podia me derrubar, pois ali estava eu, o farrapo-humano. Eu estava nas últimas, a verdade era essa. Ao ser atingido com tamanha brutalidade na escuridão, eu mal conseguia me levantar. Ali caí, ali fiquei.

Senti então uma horrível respiração ofegante no meu ouvido. Era rápida como a respiração de um cachorro. Me caguei de medo. Poucas vezes na vida temi tanto a morte como aquele momento.

Mas a coisa fez um movimento e saltou para longe. Ouvi a pancada do pulo  a alguns metros do meu lado. A lufada de vento que ele carregou me fez ter a sensação de que o que quer que fosse o tal do Mungo,  era uma coisa grande.

Deitei a cabeça no chão e fiquei parado. Lembrei que o velho fingia de morto. Naquela altura do campeonato, eu já quase nem precisava de fingir porra nenhuma.

Eu não sei se dormi, desmaiei, ou sei lá, tive alguma ausência provocada pelo cagaço, mas só me lembro de voltar à mim quando ouvi novamente umas batidas e chamarem meu nome.

-Anderson! Anderson!

Era Mara batendo na parede.

-Que foi? Gemi.

-Ah! Graças a Deus! Você tá aí. Achei que você tinha ido embora.

-Que, que merda foi essa? – Perguntei. Eu estava meio zonzo com a pancada ainda. Tive que me esforçar para entender o que Mara dizia.

-Tinha uma coisa… Uma coisa aqui. Eu tava dormindo e acordei com ela mexendo no meu cabelo. Tentei segurar achando que era você que tinha conseguido passar para esse lado e senti uma mão enorme e gelada.

-Eu não sei o que é, mas me acertou bem no ombro e me jogou longe.

-Eu, eu tive medo. Achei que era um macaco gigante. Um gorila. Mas não dava pra ver nada. Achei que ia me pegar. E você tá bem? Ele te mordeu?

-Ele ficou me cheirando quando eu tava no chão. E aí foi embora pulando.

-AimeuDeusdocéu. Que merda é essa? Que porra de lugar é esse, Anderson? – Mara estava bastante assustada e eu também.

Uma coisa era ouvir o Mungo sussurrar o nome dele perto de mim, outra é ser atropelado por ele.

Eu estava tentando acalmar Mara quando ouvi um horrível grito gorgolejante vindo de trás de mim. Um estrondo absurdo aconteceu bem em cima da minha cabeça e uma coisa me acertou nas costas.

-Ahhhhh!!!!- Eu só gritei desesperado. O Mungo tinha voltado e agora ele ia me destroçar. O peso enorme me acertou nas costas e fiquei nocauteado no chão. Ouvi os pulos do Mungo indo para longe. Do outro lado da chapa Mara berrava histericamente.

Custei a me desvencilhar daquilo. Antes eu achei que era o mungo, mas depois percebi que não era, porque a coisa que estava em cima de mim era quente e molhada. Era um peso enorme e eu estava bem fraco.

Quando saí, me arrastei para longe e fiquei ali, perto do canto da parede, com medo do que fosse aquela merda.

-Cala a boca! cala a boca! – Eu gritava para Mara.

-Que isso? – Ela berrou chorando do outro lado.

-Não sei. Caiu uma coisa aqui. – Eu gritei de volta. Precisei reunir toda minha coragem para voltar nela e mexer. Eu tinha dois grandes medos. O maior deles é que fosse o Mungo. Felizmente não era, mas meu segundo maior medo se confirmou tragicamente. Senti a mão. Era ele.

Alfredo havia sido retirado da caixa, lançado sobre nós com tamanha violência que ele se partiu em dois. O caldo preto que eu sentia em cima de mim era uma mistura de sangue e tripas. Eu descobri isso bem depois, quando localizei o celular dele no bolso do casaco. Ao ligar, parecia que havia um sol dentro da minha caixa. Meus olhos haviam se desacostumado completamente com a escuridão. Precisei virar a luz do aparelho que já apitava a falta de bateria para baixo e levei um tempo até enxergar. A penumbra era clara como o dia pra mim, e vi horrorizado a cena grotesca. Havia uma serpentina de tripas espalhadas pelo chão. Olhei para mim, e vi uma horrível situação. Eu estava todo sujo de fezes, sangue seco, sujeira…

Foi ali a primeira vez que vi o rosto de Alfredo. Era quase como eu o imaginava. Um pouco mais velho e com menos cabelos. Parecia o Jaques Custeau, só era um pouco mais gordo.

Mara ficava fazendo mil perguntas, curiosa com o que se passava. Ela parecia em desespero, e com razão. Evitei descrever a cena horrível para ela. A merda já era suficiente para que eu a piorasse ainda mais com uma adolescente em crise de fobia berrando nos meus ouvidos. Senti pela perda de Alfredo. Tive que conter meu nojo, recolhi seus intestinos espalhados pelo chão e montei do jeito que deu,  o corpo dele. Arrastei as duas metades para o canto, cruzei seus braços e pousei a mão sobre a cabeça dele. Rezei um “Pai Nosso” pela alma do meu amigo.

Agora ali estávamos somente eu e Mara e quem sabe mais algum desgraçado infeliz como nós, que estaria fora da caixa da Mara, numa outra caixa.

-O que a gente faz? E agora?  – Ela perguntava insistente. Era como se ela quisesse que eu tivesse todas as respostas. Eu estava puto e perdi a linha com ela.

-Porra! Não enche o saco, ô filha da puta!

Ela se calou.

Então fez-se um longo silêncio no começo do qual eu fiquei apenas pensando em como gostava da calma e tranquilidade com que meu amigo Alfredo encarava aquela merda toda que acontecia com a gente. Fiquei imaginando como Alfredo havia saído da caixa. Certamente o Mungo conseguia atravessar as paredes. Devia ter se aborrecido com alguma coisa, talvez por eu tê-lo invocado, atrapalhando sua… transa? E então ele atravessou para a minha caixa, entrou na de Alfredo, tirou ele de lá e lançou seu corpo contra mim. Estava claro para mim que o Mungo, fosse ele o que fosse, conseguia atravessar as paredes, migrando de caixa em caixa. A ideia do Mungo bonzinho que uma vez eu formulei havia se esvaído completamente, lavada pelo sangue pegajoso e malcheiroso do seu Alfredo, que agora recobria o meu corpo.

Meus pensamentos e lembranças foram interrompidos por soluços vindos do outro lado da parede. Mara estava chorando.

CONTINUA

 

 

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18 comentários em “A caixa- Parte 7”

  1. Oi, Philipe. Tá muito legal o conto! Acho que já entrei aqui no mundo gump umas 6 vezes hoje para ver se a parte 7 já estava aqui.
    Olha, o site tá dando uns erros aqui. Vira e mexe quando eu tento abrir uma página dá erro no navegador. Tá havendo algum problema no site? Eu já usei dois navegadores para confirmar e com os dois aconteceu o mesmo problema.

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