A caixa – Parte 37

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Enquanto eu corria esbaforido pela rua, só me lembrava do grito aterrador da Mara ao fundo da ligação, que eu bati na cara da velha.

Tive que parar para respirar. Eu estava mal, suava frio. Me lembrei que fazia um tempão que eu não comia nada. Minha pressão estava baixando. Parei numa pastelaria de um chinês e peguei um sorriso de palmito com caldo de cana.
O pastel estava uma merda. O palmito tinha gosto de barata defumada e o caldo de cana parecia água da limpeza da caixa de gordura. Tampei o nariz afim de não sentir o cheiro de barata que estava no copo e mandei pra dentro. Não havia tempo a perder. Eu não podia me dar ao luxo de deixar a bruxa velha sacanear a Mara. Não depois de tudo que lutamos para ficar juntos.

Pra piorar, o ônibus não passava. Eu estava tão nervoso que lancei mão do dinheiro que o Leonard deu para o velório do Cabelinho.
-Taxi!
O carro parou e enquanto eu me metia lá dentro, pensava na situação.
-Moço, sabe o que é, eu acabei de chegar de viagem… Só tenho dólar.
-Pra onde é a corrida?
-Morumbi.
-Relaxa, garoto. A gente aceita Dólar!

Eu sabia que precisava ter contado ao Leonard, mas seria loucura ir procurar ele quando a Mara corria perigo. Deixei um bilhete na mesa da sacristia e esperava que Leonard ao voltar da rua visse aquilo e viesse me ajudar.

Havia uma pequena retenção no trânsito por causa de uma obra de cabeamento ou gás, não fazia diferença. Era tudo a mesma merda.

Quando o carro encostou na porta da mansão, vi que que o portãozinho lateral estava aberto, balançando com a brisa da tarde. Entrei sorrateiro. Eu estava com os ouvidos apurados, tentando obter alguma pista de onde estaria Mara. A casa estava quieta, não parecia haver sinal de moradores ou empregados.
Entrei e fechei a porta.

Fui até o jardim. Parei perto da piscina. Nenhum sinal de ninguém.

Então eu notei algo incomum. A enorme parede de vidro que dava para a piscina estava toda estilhaçada. O vidro formava montes de cubinhos luminosos brilhando diante dos últimos raios de sol do entardecer.

Entrei pelo buraco da parede de vidro. Subi as escadas de mármore branco e segui pelos corredores na direção dos quartos. Abri de supetão a porta do primeiro quarto. Era um tipo de escritório, misturado com quarto de tevê. Ali estava um monte de tralhas, e entre elas eu vi algo que me interessava, um escudo enorme com duas espadas atravessadas em formato de “X” ornando a parede. Meti a mão e com alguma dificuldade consegui soltar um dos floretes espanhóis. Pelo menos uma arma eu tinha que ter.

Enquanto eu examinava a lâmina, em busca de detectar se a espada afiada tinha fio de ambos os lados, ouvi passos apressados no corredor.
-Quem está aí? – Eu gritei. Mas só ouvi um ruído abafado, que era difícil de identificar.
Saí para o corredor, tentando descobrir quem havia passado ali, mas não vi sinal. O segundo andar era repleto de portas, e quem quer que estivesse ali, poderia ter entrado ou saído de qualquer uma delas.
Empunhei o florete com a mão direita do único braço que me restava. O outro na tipóia não servia para nada, e em momentos como aquele, onde os dois braços faziam falta, eu me odiava por aquilo.

Abri o segundo quarto. Era o do pai da Mara. Vi a enorme cama, um banheiro anexo com uma banheira de hidromassagem tão gigante que daria para criar tilápias dentro. A cama parecia essas de propaganda de loja de edredom. O quarto era lindamente decorado, e ao fundo, uma enorme foto que reconheci na hora, a Mara ainda criança, com cinco anos, talvez menos, abraçada numa mulher lindíssima que julguei ser a mãe dela.

Fui até o banheiro, não havia sinal algum de mara ali. Voltei para o corredor e meu coração quase parou quando no fundo, dei de cara com aquela velha horripilante.

Ela soltou uma grotesca gargalhada quando quase dei um grito de pavor e susto ao dar de cara com ela no fundo do corredor. Estendi a espada no ar, apontando para a velha.
-Maldita!
-Então aí está você…
-Cadê ela?
-A menina está dormindo. Disse a velha, com um sorriso maníaco nos lábios carcomidos.

Imediatamente algo dentro de mim se desarranjou. O que ela quis dizer com “dormindo”? Teria a velha desgraçada matado a Mara?

-Temos que acertar nossas contas, criança. – Disse a velha, batendo o dedo indicador magro e enrugado na palma da outra mão. Enquanto isso ela vinha na minha direção.
-Tudo bem. – Eu disse. Precisava ganhar tempo. Pensar no que fazer. -Mas cadê ela?
-Está no quarto aí! – Disse a velha, estendendo a mão magrela. A porta ao meu lado se abriu de supetão, como se empurrada por uma força invisível.
Vi a Mara enfiada numa linda camisola comprida e com detalhes de rendas e transparências, que me deixou ver seu corpo escultural. Ela parecia em transe e estava nua sob a camisola.
Eu entrei e fui até a beira da cama.

-Mara? Mara? – Eu tentei sacudí-la. Mas foi em vão. Novamente fui surpreendido pela risada assustadora. Olhei para trás e a velha já estava na porta do quarto.
-Eu fiz a minha parte. Agora você faz a sua. – Ela me disse, indo direto ao assunto.
-E como a gente faz? – Eu perguntei, já temendo o que ouviria em resposta. Meus pelos da nuca estavam arrepiados e minha respiração era ofegante.
A velha sorriu. Deu dois passos, vindo na minha direção e eu me armei com o florete.

-Calma, menino. Você esta muito assustado. Não vou te machucar. É disso que você tem medo? Então se acalme. – Ela disse.
Então, ela estendeu a mão fechada, e quando abriu, ali estava um globo ocular. Um olho azul.
-Que isso?
-Isso será o seu olho.
-Mas… Um?
-Posso te dar dois, se você fizer mais um favor. – Disse a velha, toda amável.

-Pera… Calma. Deixa eu ver se entendi. A senhora vai arrancar os meus dois olhos, e vai colocar esse olho azul aí no lugar.
-Isso. Com ele você vai enxergar normalmente, claro. Mas para ganhar dois, tem que fazer um favor pra vovó… -Ela disse. Eu senti um profundo nojo quando ela se referiu a si mesma como a “vovó”.
-E qual seria este favor, “vovó”?
-O velho… O seu amigo… Aquele tal Leonard… – Ela disse. Eu matei logo a charada.
-Quer que eu mate ele?
-Matar? Matar não. Ela riu. Quero que você traga ele para mim.

Ali eu baixei o florete. A ficha finalmente estava caindo.
Eu temia que Leonard estivesse só me usando para pegar a velha, mas no fundo, toda aquela situação, a caixa e tudo mais era uma artimanha da velha e suas bruxas para atraí-lo a uma armadilha. Elas estavam me usando para pegar o Leonard e tirá-lo do caminho delas. Eu era um bucha, um pequeno elemento descartável nessa história toda. Estava no lugar errado, na hora errada, sendo levado como um joguete em meio a colisão de mundos sobrenaturais aos quais o universo cotidiano permaneceria alheio até que fosse tarde demais.

-E não vai doer? – Eu perguntei. A velha sorriu satisfeita, pois sabia que minha pergunta significava uma aceitação.
-Não vai doer. Eu vou lhe dar a paz que você tanto deseja. Vocês dois terão filhos… A velha sem olhos me disse rindo com seus dentes podres.
-E o que acontece depois? Vocês vão invocar um demônio?
-Foi isso que aquele velho babaca te falou, garoto?
-Foi.
A velha começou a rir.
-Tá rindo do que, “vovó”?
-Esses idiotas acham que nós queremos acabar com o mundo deles. Trazer as criaturas primitivas de volta, que foram expulsas para a escuridão muito, muito tempo atrás… É um engano. Elas estão aqui. Elas não querem isso. Se quisessem os seres humanos, frágeis e suscetíveis como são, estariam dominados e escravizados.
-Mas não é isso?
-Caro que não, idiota! – A velha pareceu zangar-se. – Esses imbecis estão redondamente enganados. Só queremos sobreviver, mas eles vem ao longo de séculos caçando nossas filhas. Você devia se perguntar: Por que? Pra que matar tantas de nós? Por que essa campanha secular contra nós? – Ela perguntou, enquanto andava pelo quarto, arrastando suas roupas trapentas e gesticulando no ar. – É uma guerra, menino. E você não tem nada a ver com isso. Portanto, faça a sua parte, eu faço a minha e não nos veremos nunca mais na sua vida. – Ela disse, finalmente parando à minha frente.
-Tá… Mas…
-Sem “mas”, garoto. Vamos logo ao que interessa. Eu não tenho o dia todo.
-Sabe o que é… É que…

Então a velha pareceu perder a paciência.
-Dá logo esta porra desse olho, moleque! – Ela disse, com o dedo em riste apontado pra mim.
Levantei o florete no ar e tentei acertar a velha. A lâmina sibilou num arco e o dedo amputado da velha caiu no chão. Sem sangue, era como um pedaço mumificado de carne ressequida pelo tempo.

-AAAAAAAAAH! – A velha gritou. Suas órbitas vazias pareceram, se expandir numa nuvem escura. O dedo cortado se contorcia feito uma cobra no chão.
-Sai de perto de mim, filha da puta! – Eu gritei, mantendo a espada apontada para ela.
-Eu perdi a paciência com você, vermezinho! – A velha agora falava com uma voz gutural. Ela estendeu a mão sem o dedo.
Uma força descomunal me atingiu, foi como os fortíssimos ventos de um furacão. Fui lançado no ar e ali fiquei, levitando sem poder me soltar. A pressão sobre mim era tamanha que eu não consegui segurar por muito tempo a lâmina e ela caiu no chão. Senti um grande desespero, porque era como se eu fosse explodir com um peso incomensurável me apertando no ar.

A velha abaixou-se e pegou o dedo seco. Ela o aproximou do corte. Horrorizado, eu vi uma série de nervos, e veias se agitando como tentáculos de anêmonas, buscando uns aos outros. Então eles se ligaram, e magicamente ele se fundiu à carne dela novamente.

A velha veio na minha direção. Eu tentei ao máximo lutar, me esforcei o quanto pude para escapar da força invisível que me subjulgava. A velha então meteu aquele dedo com unha comprida e suja no canto do meu olho.
-Nnnnnããããã…. – Eu gemia. A dor era horrível. Ela enfiou o dedo com toda força no meu olho direito e puxou o globo ocular para fora. Então tudo ficou confuso, eu desmaiei de dor.
Acordei no chão, com alguém me sacudindo. Tentei lutar. Eu não via nada, estava tudo confuso e escuro. Tentei acertar um soco na velha, mas agarraram meu braço.
Então em meio a um turbilhão confuso de sons, eu ouvi a voz da Mara.
-Anderson! Andersoooon! – Ela parecia aflita. Estava me sacudindo.
-Que? Cadê ela? cadê a bruxa???
-Ah! Anderson…- Ela gritou e me abraçou chorando. Eu não entendia nada. Estava caído ao lado da cama, no chão do quarto.
Mara me puxou para cima da cama.
-Que bruxa?
-A bruxa que estava aqui.
-Não sei de bruxa. Apareceu foi uma nuvem escura aqui no quarto enquanto eu falava com você no telefone. Me assustei quando ela tomou a forma de uma pessoa. Acho que era um fantasma! Desmaiei de medo e então eu acordei aqui na cama e te vi caído aí no chão.
-Ai… Ai… – Eu disse, tentando abrir os olhos. Uma luz intensa parecia me cegar sempre que eu tentava abrir o olho. A dor era muito forte no olho direito. Eu comecei então a sentir umas estranhas cócegas dentro da cabeça, como se milhares de larvas estivessem me comendo por dentro.
-Ahhhhh! -Gritei.
-O que é? O que foi? – Mara perguntou aflita, tentando em segurar.
-Meu olho!!! Tem uma coisa se mexendo… – Eu gritei tentando apertar o olho direito para fazer parar, mas não parava.
-Anderson! Anderson! Anderson!!!! Calma, calma! – Mara gritava, meio sem saber o que fazer. Aí a sensação horrível parou como num passe de mágica. Eu abri os olhos e estava enxergando normal com o olho esquerdo, mas o direito via tudo horrivelmente embaçado.
Ouvi a voz de Mara com um tom diferente, um tom de medo e pavor.
-AhmeuDeus…
-Que foi?
-Seu olho!!! Seu olho tá um duma cor e outro da outra! – Ela disse.
-A bruxa filha da puta conseguiu. Pegou meu olho. – Eu disse, socando a cama. Tateei as paredes até o banheiro da suíte, onde me olhei no espelho. No olho direito eu via com uma visão turva. O outro, enxergava normalmente. Estarrecido, vi uma mancha escura ao redor da orbita do meu olho direito. Um hematoma horrível. O olho estava injetado de sangue, mas era lindamente azul. Olhei para os lados, ele se movia normalmente.
-Pelo menos ele esta funcionando. -Eu disse.
Mara apareceu atrás de mim.
-Nossa! Isso é impossível… Como pode ser?
-Você chegou a ver a velha? – Perguntei a Mara ainda olhando meu novo olho azul refletido no espelho do banheiro.
-Eu vi a nuvem escura, quando acordei ela estava saindo do quarto. Eu fui até a varanda e vi a nuvem cruzar o jardim, atravessar a parede da churrasqueira e sumir. O que era aquilo, Anderson? Eu tive muito medo.
-Mara… A coisa que apareceu para você. O tal fantasma… É uma bruxa. Não uma bruxa qualquer, dessas que traz a pessoa amada em três dias, mas uma criatura tão antiga quanto se sabe ser possível. Eu havia feito um pacto com ela…
-Pacto? Você tá me assustando, Anderson!
-Sim, foi. Eu morri de medo, mas disse a ela que se ela me ajudasse a te tirar da caixa, eu faria algo por ela em retribuição ao favor… E ela pediu meus dois olhos.
-Você… Você fez isso?
-Fiz. Foi assim que você saiu da caixa. – Eu disse.
Mara não falou nada. Apenas me abraçou e me beijou silenciosamente.
Ela então puxou o laçarote da camisola e o tecido macio de cetim caiu aos seus pés. Não pude acreditar quando vi, refletido no espelho da suíte que ela estava nua a me abraçar.
-Eu te amo. – Ela sussurrou.
-Te amo mais que tudo, Mara. – Tentei responder com a boca na boca dela. E então nossos beijos nos sufocaram.
Ela beijou meu pescoço, e com suas mãos ágeis começou a desabotoar minha camisa.
Mara me puxou e me jogou na cama. Deitou por cima de mim, seu corpo liso, quente e macio.

E então nós fizemos amor a noite inteira.

CONTINUA

29 comentários em “A caixa – Parte 37”

  1. “Vi a enorme cama, um banheiro anexo com uma banheira de hidromassagem tão gigante que daria para criar tilápias dentro. A cama parecia essas de propaganda de loja de edredom.”

    Por causa de trechos assim qu’eu leio todos os capítulos de todas as histórias!

  2. Enfim um fincão… Em algum lugar tem um leitor feliz.

    Incrível que o ser humano pense em sexo vivendo sutuações extremas… O Stephen King que adora isso.

  3. Ahááááááá!!!!!!!….Até que enfim……esse “FINCÃO” foi em minha “homenagem” rsrsrsrs
    Também, depois de tudo que passou até agora o nosso amiguinho estava merecendo isso de “montão”!
    Vai fundo…..garoto!

    • O primeiro ato do filme teria de ser praticamente todo narrado em off, mas o custo de cenários e afins dessa parte (escuridão absoluta) compensaria, financeiramente.

      Imaginem ouvir a narrativa e os sons, num cinema completamente escuro (tela preta)…

  4. Phillipe esse Leonard tem alguma relação com o Leonard da “Lenda de Kuran”? Ou Leonard não é exatamente um nome, mas uma função, tipo caçador de demônios? História excelente por sinal. Parabéns.

  5. Até que enfim o fincão, fiquei uns dias sem ler porque eu estou viajando, e só entrei a net por um pc hoje, até me assustei com o progresso do conto. Li do 33 até o 37 tudo de um vez e em cada capítulo o universo de A Caixa (ou de O Caçador) se abre mais e mais. Daqui a pouco chega na parte 60 e a gente nem nota.

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