A caixa – Parte 35

Leonard apertou minha mão com força. Aquilo selava o pacto.

Ele pediu permissão e após gemer qualquer coisa, saiu do círculo. Não se despediu. Virou-se e foi embora, andando na direção da escuridão do outro lado da rua. Leonard era quase sempre frio e seco, com seu jeitão contido. Talvez ele carregasse um fardo maior do que dava a parecer.

Entrei no prédio cabisbaixo e preocupado. Como eu ia fazer aquilo? Fosse monstro, fosse gente, matar era matar.

E matar violava o quinto Mandamento…

Custei a conseguir pegar a chave de casa e abrir a porta. Meu braço enfaixado tornava as coisas simples em difíceis e as difíceis em impossíveis.  Eu era um aleijado. Como ia conseguir matar o Cabelinho assim? Só havia uma forma: Eu precisaria usar a inteligência.

Entrei em casa, pé ante pé. A casa estava às escuras. Precisei usar o outro braço para achar o interruptor na parede. Quando enfim achei o botão, e a luz se acendeu, levei um susto.

 

Cabelinho estava em pé, parado no meio da sala. Os olhos abertos e fixos, como uma estátua de cera.

 

Eu me tremi todo por dentro. Não disse nada.  Ele não se mexia, não movia um músculo.

Eu fiquei parado também, olhando pra ele. Meu medo é que a coisa dentro dele conseguisse ler pensamentos. Fiquei ali, parado. Ele não disse nada e tãopouco eu.

Comecei a me sentir desconfortável. Talvez a coisa tivesse saído de dentro dele. Talvez ali estivesse apenas o invólucro vazio de Cabelinho. Carne, ossos sangue, mas sem alma.

-Quebrou? – Ele finalmente rompeu o silêncio, de forma súbita. Apontava para o meu braço morto. Foi uma pergunta inesperada e me assustei.

-Levei um tiro.

-Assalto?

-É… – Eu e minha mania terrível de mentir para evitar estender certos assuntos. – Tá fazendo o que aí no meio da sala, bichona?

-Estava te esperando. – Ele disse, dando uns passos na minha direção.

Ali eu me caguei. E se ele pulasse em cima de mim? Será que ele sabia que eu pretendia matá-lo? Talvez tivesse me visto conversando com Leonard no círculo pela janela.

Dei um “S” nele, desviando do Cabelinho com o máximo de agilidade que eu pude. Passei apressado para o quarto.

Ele veio andando naquele jeito estranho, com os braços caídos ao lado do corpo, sem dizer nada, me seguindo pelo apartamento como uma alma penada. Aquilo era deveras assustador.

-Porra, que foi agora?  – Tentei reagir com naturalidade.

-Eu só queria… Te dar um abraço. – Ele disse.

Claro que aquilo era totalmente incomum. Logico que ele não ia me dar abraço porra nenhuma. Certamente ia agarrar e travar na minha garganta, para depois de me matar arrancar os meus olhos e levar para a velha maluca.

-Abraço? Ah, não fode! Vai arrumar uma mulher! – Eu disse, tentando ser engraçado. Bati a porta na cara dele. Assim que tranquei a porta com a chave, caminhei tremendo até a cama.

“Puta que pariu… Esse troço aí vai me matar se eu não matar ele logo.” – Pensei.

Aquela foi uma das mais longas noites da minha vida. Eu passei boa parte dela enfrentando meus valores morais. Quando realmente concluí que não ia ter jeito, me conscientizando que seria um tipo de “auto-defesa-preventiva”, passei o resto da madrugada pensando em como iria fazer para “liquidar a fatura”. Por mais que eu soubesse que ali estava um demoninho animando aquele pedaço de carne que se parecia com meu amigo morto,  a polícia ia acabar me prendendo por assassinato. Eu ia ter que dar um jeito de fazer parecer um acidente, uma tragédia.

Varias coisas entre facadas, explosões de álcool, jogar ele da janela,  passaram pela minha cabeça. Nada parecia realmente efetivo. Pra piorar, Leonard tinha sido claro, eu precisaria queimar o corpo, inutilizando-o ou as bruxas poderiam trazê-lo de volta, e aí certamente eu estaria fodido sem o elemento surpresa.

Eram quase cinco da madruga quando engendrei o que eu considerei ser um bom plano.

Levantei da cama, e fui até a porta. Com todo cuidado, eu rodei a chave, destrancando a porta do quarto. O corredor estava vazio. A casa às escuras.

Ouvi os roncos dele no quarto. Felizmente ele não estava de pé com aquele olhão arregalado no meio da sala.

Tentei não fazer ruído. Fui até a cozinha, e com todo cuidado, passei para a área de serviço. Ali, cheguei na caixa de ferramentas. Sem poder acender a luz do quartinho que estava queimada, fui tateando até achar a caixa. Uma a uma, senti com a ponta dos dedos até achar a chave de fenda certa.

Voltei com ela para o quarto. Cuidadosamente, passei na porta do quarto dele. Pelo som, ele estava dormindo pesado.

Passei para o banheiro. Tranquei a porta.

Com dificuldade, fechei a janelinha do banheiro, que eu achei que nunca fechasse. Precisei passar um pouco de água com sabão na dobradiça para conseguir vencer a ferrugem.

Em seguida, usei a chave de fenda para desmontar o aquecedor à gás.

Com a chave, afrouxei a conexão da mangueira de aço do exaustor, separando-a da saída do queimador. Depois ajustei o queimador para liberar mais gás, o que produziria mais monóxido. Com isso, eu sabia, num banho longo, o gás inodoro do monóxido de carbono iria vazar lentamente para dentro do banheiro. Em alguns minutos ele iria acabar ficando sem ar, e desmaiaria antes mesmo de perceber. A morte se seguiria em instantes. Uma vez com o corpo morto, eu esperava que o demônio dentro dele não pudesse fazer muita coisa. E então, eu teria que dar uma torrada nele, fazendo tudo parecer um acidente.

Fechei a tampa do aquecedor, apaguei a luz e voltei para o meu quarto.

E ali eu fiquei, maquinando o restante dos pequenos detalhes do plano até o amanhecer. Eram quase sete quando eu o ouvi passando  pelo corredor.

Levantei logo depois.

-Bom dia, seu merda! – Eu disse, tentando bancar “o amigão”.

-…´Dia.  – Ele respondeu, indo ate a geladeira. Pegou o leite e encheu o copo. Estava claro que não era ele. Cabelinho não tomaria leite de manhã nem sob a mira de um fuzil.

-Aqui… Hoje eu tava pensando de a gente ir lá na casa da Mara. Quero te apresentar a ela. – Eu disse.

-Tá.

-Bota uma beca maneira, que ela é bacana. Acasa dela fica lá no Morumbi!

-Tá. – Ele respondeu, bebendo o copão numas poucas goladas.

Fiquei ali, em pé, ao lado da pia, fazendo o café, enquanto vi ele levantar, com a boca cheia de cream crackers, pegar a toalha na área e ir tomar o banho.

“É agora a hora da verdade…” – Pensei.

Fiquei “de ouvido em pé”, esperando ouvir o som da porta do banheiro trancando.

Quando finalmente ele bateu a porta, corri na ponta dos pés até o banheiro. Colei o ouvido na porta. Cabelinho tinha o clássico hábito de ligar o chuveiro e ir cagar. Ele gastava uma enormidade de água e gás fazendo aquilo, e essa idiossincrasia do meu amigo foi um dos motivos de várias brigas nossas no passado, porque eu não fazia aquilo e pagava as contas igual a ele. Seu soubesse que um dia aquele hábito horrível estaria tanto ao meu favor, eu não teria criado tanto caso com ele…

Esperei… Nada do som da porta do box ranger, então eu concluí que ele estava lá, ainda sentado no vaso. Talvez estivesse lendo Schopenhauer… Esperei ter feito a sabotagem no aparelho do aquecedor de gás corretamente.

Voltei na cozinha, peguei o pano de chão e molhei ele no tanque. Com o pano formando um comprido rolo, coloquei na soleira da porta do banheiro, evitando a perda do gás por ali.

Olhei no relógio. Agora era só esperar o gás fazer seu trabalho. Eu sabia que o gás era mais pesado que o ar, e se concentraria perto do piso primeiro. Então ele iria enchendo, até preencher a totalidade do banheiro. Sentado no vaso, ele iria desmaiar mais rápido do que se estivesse no banho, de pé. Ainda mais com todos os queimadores ativados no máximo.

Esperei, esperei, esperei indefinidamente, e nada de ouvir o Cabelinho batendo no chão. O chuveiro estava aberto no máximo, como ele sempre fazia.

Então, ouvi o som da porta do box. Foi meio decepcionante. Concluí que ele não tinha morrido. Talvez eu tivesse me enganado, talvez tivesse errado na sabotagem do aparelho. Resolvi esperar mais. Se o plano desse “chabu”  eu ia tentar novamente, e não poderia transparecer a frustração.

Passaram-se uns quinze minutos e então deu um estrondo no banheiro que parecia uma explosão.

“Ele caiu” – Pensei.

Esperei pacientemente por quase uma hora, ouvindo o som do chuveiro jorrando no banheiro. Eu examinei minha consciência, temendo encontrar uma sensação ruim, um gosto amargo na boca, afinal, agora eu já não era mais “virgem de matar”.

Tava tudo igual. Eu não sentia nada. Talvez, se eu tivesse matado ele a tiros, estaria pior. Comecei a pensar que talvez eu fosse um psicopata.

Quando finalmente achei que tinha dado tempo suficiente para morrer mais de vinte Cabelinhos ali dentro, levantei, meti o pé na porta com muita força. Precisei dar belas três bicudas olímpicas para conseguir arrombar a porta do banheiro.

Não dava pra respirar. Com a respiração presa, fechei o registro da água. Cabelinho jazia nu aos meus pés. O corpo todo molhado, caído, como um boneco. A coisa dentro dele talvez ainda tivesse consciência. Ele estava com os olhos abertos, arregalados, apontados para mim. Peguei a toalha e joguei na cabeça dele. Assim, se o bicho ainda estivesse lá, ele não ia me ver.

Fui até a janela, precisei dar umas batidas para ela abrir e o ar entrar. Saí correndo do banheiro, esperando o gás se dissipar.

Meus olhos ardiam terrivelmente, talvez efeito do gás, talvez um efeito psicológico, vai saber.  Abri todas as janelas da casa para poder fazer circular o ar.

Nisso, o telefone tocou.

Fui até a sala, sem saber o que poderia ser.

-Alô?

-Filho da putaaaa! – Era a maluca da Jane.

-Porra você escolhe as piores horas, Jane.

-Quer dizer que você ta com outra, né?

-Hã?

-Não se faz de idiota! Ele me contou. Esse inútil desse seu amigo maconheiro me falou tudo. Agora entendi a sua covardia…

-Contou? Contou o que?

-Contou que você ta namorando outra pessoa. Que vai ficar com ela, que não quer saber de mim.

-Ele disse isso?

-Você não nega, né seu cafajeste? Seu pilantra! Seu desgraçado. A vontade que eu tenho é de te esgan…

PLÁ! – Bati o telefone na cara dela. – Eu adorava fazer isso.

Comecei a contagem: – 5… 4… 3…

Tocou o telefone. Deixei tocar dez vezes, assim a Jane ficava mais puta e era mais divertido.

-Alô?

-Filho da puuuutaaaaa!

-Não enche, ô mocréia!

-Eu vou te matar! Desgraçado!!!

-Porra Jane… Numa boa, cê não tem mais o que fazer não?

-Você é um pilantra. Um canalha! Verme!!! Homem é tudo igual… Bem que minha mãe falou! “Não confia nesse portuuuuga!” Nãããão, eu burra, confiei, eu pensava em casar. Ca-sar com vocêêêê, Anderson!

-Jane… Terminou o show? Posso ir? Acabou, porra. Não quero casar, não gosto de você. Eu cansei, caralho. Toca sua vida! Ô encosto!

-Encosto? Encosto é a puta que o pariu! Você vai pagar car…

PLÁ! – Bati o telefone na cara dela de novo. Aí eu retirei o fone do gancho, travando a linha. 

“O gás já deve ter dissipado”, pensei.

Agora eu precisava achar um jeito de queimar o corpo. Inicialmente eu tinha pensado um plano simplório, de queimar ele com gasolina, mas isso ia dar uma catinga, um fedor insuportável. Tirar ele do prédio ia dar na pinta… Eu tinha que dar outro jeito, e o melhor jeito que achei era botando fogo na casa. Assim, ele ia morrer no incêndio, e tudo faria sentido com a morte causada pela inalação de monóxido de carbono. Como todo mundo sabia que ele era um puta dum maconheiro, vivia bêbado, acendendo cachimbinho no sofá, o incêndio seria totalmente plausível.

Juntei todas as minhas recordações, as fotos, peguei as melhores roupas, documentos, passei a mão na caixinha de dinheiro. Arrumei tudo empaçocado na mochila. Levei a mochila e escondi ela lá na lixeira do corredor. Voltei apressado para o apartamento. Me certifiquei que ninguém havia me visto. Por ser bem cedo, a hora era uma vantagem ao meu favor.

Voltei ate o banheiro, com dificuldade consegui erguer o corpo. Ele era muito pesado. Carreguei ele todo desconjuntado, apoiando com o ombro até o quarto dele. Joguei o cabelinho na cama. Mais difícil ainda foi vestir o roupão nele. Joguei a toalha no chão, do jeito que ele costumava largar.

Depois fui na estante de livros dele, uma estante descomunal com tudo que você puder imaginar de Antropologia, Psicologia, Farmacologia, e Filosofia. Joguei vários livros ao redor dele, como se ele estivesse lendo doidão na hora do incêndio. Incluí até algumas revistinhas pornôs da coleção dele. Joguei tudo sobre a cama. Peguei o corpo, levantei ele da cama e joguei ele no chão, perto da janela. Eu sabia que no caso de uma investigação, o corpo dele na cama daria na pinta de cena armada. Numa situação de incêndio, ele morreria tentando chegar na janela para respirar. No armário  achei a caixa de bagulho dele, e larguei ela perto da cama, com uns baseados parcialmente fumados pelo chão. Isso daria aos peritos a dimensão que ele estava doidão demais para reagir rápido e escapar do incêndio. Aquilo contribuiria para a futura elucidação da investigação, caso ela ocorresse.

Agora tudo que eu precisava era fazer o fogo. Jogar álcool seria burrice. Um simples exame químico indicaria isso como crime premeditado. Eu sabia porque via muito filme policial.  O mais garantido era o curto-circuito.

Peguei o tapete da sala e botei no quarto.  Depois, fui no meu quarto e peguei aquelas cortinas baratas, levei e coloquei as minhas cortinas no quarto do Cabelinho. Abri as portas do armário, espalhei roupas pelo chão.

Montei, na tomada que ficava em baixo da cortina, ao lado da estante de livros, uma mutueira de benjmins, ligando esse monte de tralha numa tomada só. Depois saí pela casa reunindo tudo que puxava muita corrente.  Peguei uma pá de equipamentos eletrônicos, como a televisão, o nintendo, videocassete, gravador e até a torradeira. Liguei a merda toda no quarto, naquela tomada.  Se tudo desse certo, em dois minutos ou a luz da casa ia desligar ou a bosta ia pegar fogo. Não deu outra, após um tempinho com tudo ligado, o beijamin começou a soltar fumaça. Em dois segundos, ele estourou, e uma labareda pegou na cortina. Me impressionei com a velocidade em que a cortina “lambeu”, atingindo a estante de livros. Começou bem, pegando a prateleira das monografias. Papel sulfite queima lindamente. A fumaça surgiu de imediato, acumulando no teto do quarto como uma língua negra.

Entreabri a janela, sabendo que a entrada de ar alimentaria o fogo.

Me apressei em arrancar a torradeira do quarto, deixando somente o videogame, a tevê e o videocassete. Como o piso do apartamento antigo era de taco, seria fácil o fogo se espalhar. No meu quarto, joguei lençóis no chão, deixando partes sobre a cama, o que facilitaria o caminho do fogo. Nisso, o corredor já era só fumaça preta. Ouvi os estalos da estante queimando. Meti uma camisa molhada na cabeça, e dei uma olhada no quarto. Já parecia o inferno.  O fogo estava consumindo a estante de livros, o calor era descomunal. O fogo  já pegava na cama, chegando ate o teto, o armário estava começando a lamber.

Dei uma ultima olhada para o corpo do cabelinho.

O tapete já queimava num fogaréu de quase dois metros, que começava a carbonizar a perna dele. O cheiro de gente queimando era horrível. Então vi uma coisa que me apavorou. O corpo dele começou a dar uns espasmos.

-Puta merda! Ele ainda tá vivo! – Falei assustado.

Estarrecido, vi uma coisa que pareciam patas de aranha surgindo de dentro da boca dele. Uma criatura repleta de espinhos que parecia ter saído do pior pesadelo de um louco começou a abrir espaço em meio a boca do Cabelinho, tentando desesperada, sair de dentro dele. Ela tinha uma cauda comprida e nodosa, espinhosa, escura,  e parecia estar agarrada. O bicho soltava uns ginchos horrendos, e tinha uns vinte, talvez trinta centímetros e se sacudia freneticamente, tentando escapar do fogo. Percebi que era a materialização do demonete.  Resolvi fechar a porta, evitando que a criatura conseguisse vir atrás de mim.

Quando o fogo pegou na cama, subiu uma fumaçona preta e já quase não se via nada. Bati a porta, enquanto tossia miseravelmente. Corri para a sala, tentando alcançar a saída, em meio a fumaça densa que já obliterava a visão. Tranquei a porta da casa, porque eu pensei que isso ia dificultar o trabalho dos bombeiros e do bicho infernal, além de deixar o fogo se alastrar mais.  Peguei a mochila escondida no compartimento da lixeira e desci saltando pelas escadas. Eu precisava dar o fora dali.

Cheguei na portaria a tempo de ver uma pá de gente correndo em direção a porta. O fogo já estava incontrolável no meu andar. O seu Zé, o porteiro, interfonava aos moradores mandando todo mundo descer.  Na rua, uma multidão olhava para cima. Olhei também. Do outro lado da rua eu vi o décimo andar em, chamas. O fogo não só estava consumindo todo o apartamento, como já surgiam labaredas imensas saindo pela janela do meu quarto. Havia muita fumaça saindo do apartamento do lado e eu torci para que o seu Augusto tivesse conseguido escapar também. Só tive sossego quando eu o vi ali perto do bar da esquina, segurando um amontoado de caixas de sapato com seus documentos, fotos e as poucas coisas que ele conseguiu salvar.

Os bombeiros já sinalizavam a aproximação, com as sirenes que podiam ser ouvidas ao longe. Os soldados da PM que rapidamente chegaram em joaninhas e veraneios começaram a dispersar o povo, abrindo um cordão de isolamento na rua. Agora o povo reunido era uma multidão enorme de gente que olhavam para cima assustados. As labaredas se espalhavam e pelo menos dois andares inteiros estavam queimando.

O carro de bombeiros chegou, com a sirene altíssima. Em meio ao povo reunido, vi os homens do quartel de bombeiros montarem as mangueiras. Havia falta de pressão no hidrante. Isso atrasou a operação deles e mais e mais o fogo se alastrou.

“Missão cumprida” – Pensei.

Os bombeiros ativaram a escada magirus, e subiram com ela até as alturas. De lá começaram a disparar os jatos de água, para debelar o fogo. A rua estava fechada, a multidão acompanhava distante, pessoas tiravam fotos, grupinhos discutiam e aposentados contavam como foi testemunhar o incêndio do Andraus.

Eu fiquei ali, lembrando de todas as coisas que eu havia comprado, todos os meus livros… Tudo agora estava virando carvão. Por culpa daquela maldita caixa.

Resolvi sair dali, e caminhei pelas ruas cheias de gente, para longe. Enquanto andava, eventualmente eu olhava para trás e via a enorme coluna de fumaça negra rasgando o céu azul. Era um dia lindo, para contrastar com a violência do incêndio.

Eu não sabia para onde ir. Estava de férias no trabalho, e dadas as condições, não tinha conseguido formular bem o que fazer depois de cumprir a missão dada pelo Leonard. Sem saber o que fazer, peguei o primeiro ônibus para a Paulista, e fui direto para a igreja.

Ao descer do ônibus, encontrei Leonard sentado nas escadas da entrada da igreja, lendo o Jornal do Brasil.

-Missão cumprida! – Eu disse.

-Ótimo. – Ele respondeu. -Agora vamos matar a garota!

-O QUÊ???

CONTINUA

 

Comments

comments

26 comentários em “A caixa – Parte 35”

    • Ou pode ser também aquela mina que levou o Anderson pra conhecer a Augura, acho que é Letícia o nome.
      Cara essa Jane é um porre, fala sério, leva ao pé da letra aquele “velho deitado”, “seria melhor conhecer a sua ex-mulher antes de conhecer sua futura mulher”, hehehehe

    • Pensei a mesma coisa. Acho que vai ser a Mara… Não acredito que a bruxa tirou ela de “boa fé” da caixa e simplesmente jogou Anderson lá.

  1. UAU! “matar a garota?”. Estão agora é que o circo vai pegar fogo (outra vez)!
    Mas, pô PHILLIPE, tinha que botar fogo em tudo?. O cara morava em um apartamento! E os outros moradores, que nada tinha a ver com o caso? E os objetos pessoais, e as memórias? Tudo perdido!. E agora, vai morar aonde? Bagunçou tudo a vida do cara!
    Mas é assim mesmo. Tem que “tocar horror”! Quanto mais inesperado, melhor! Continue…continue…!

  2. Não esqueceu nem os detalhes da precariedade dos bombeiros: “Havia falta de pressão no hidrante. Isso atrasou a operação deles e mais e mais o fogo se alastrou”. kkk bem típico!

  3. Mas como que vai matar a Mara, se ela escapou da caixa por causa da fíbula.

    Se houvesse algo errado com ela, ela já tinha dado cabo do Anderson.

  4. Bem que a mulher poderia ser a louca da Jane. O Anderson liquidaria a baranga com gosto! Aliás, ainda acho que essa Jane tem alguma ligação com tudo que está acontecendo com ele. Mistério…

      • Philipe, já pensou em fazer em 3D o Anderson pra gente ver?

        Eu sei que tem aquele mistério de cada um imaginar os personagens de uma maneira, mas seria interessante saber como tu imagina.

        Aliás, seria legal criar tipo um concurso pro pessoal mandar fotos pegas na web (ou desenhar) de como elas acham que sejam os personagens: Anderson, Mara e Cabelinho.

    • Sim, e ao lado do incêndio do Joelma (74), o incêndio do Andraus de 1972 foi um dos maiores do Brasil. Morreu gente pra caralho. Foi praticamente o 11 de setembro brasileiro, pq o Andraus era uma torre de mais de 30 andares. O incêndio do Andraus foi o que inspirou Hollywood a criar o filme que virou um grande sucesso, “inferno na Torre”. No incêndio, diante das câmeras de Tv as pessoas pulavam para a morte… Tudo televisionado. Um troço grotesco pra caralho.
      http://youtu.be/frs954KKkcc

  5. E falando em fusões de fatos reais com fantasia, por esses dias morreu uma garota ai no rio com monoxido de carbono de um aquecedor a gas de chuveiro, acho que ela até era parente de alguém famoso, você ficou sabendo? Isso te inspirou a bolar um jeito de matar o cabelinho pela 3a vez nesse conto?

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.