A caixa – Parte 20

– Anderson! – Mara gritou em algum lugar da caixa.

Eu pulei da maca. E caminhei na direção dela.

-Maraaa! – Eu gritei também.

-Onde você tá?

-Vem vindo na direção da voz!

Ficamos gritando e após alguns minutos de caminhada no breu total, eu esbarrei nela.

Finalmente nos encontramos na caixa. Abracei Mara e senti que ela me agarrava forte. Ela tremia. Senti o perfume do cabelo dela, e beijei seu pescoço com suavidade. Eu estava morto de saudade daquela mulher. Eu me sentia um pateta, ma a distância me deixara completamente apaixonado por ela.

Ficamos ali, abraçados por um bom tempo. Ela então me beijou no rosto, nos olhos, na boca novamente. Beijos de pavor.

-Onde você estava? Pensei que tivesse morrido! – Ela disse.

-Eu… Eu… – Eu fiquei na duvida se contava a ela que havia saído. Preferi ganhar um tempo. – Você tá bem? A coisa te agarrou e fugiu.

-Eu não sei… Acho que desmaiei. Acho que a coisa me soltou  e fugiu.

-Eu si porque. Ele veio atrás de mim!

-De você?

-É. Ele quase me matou. Mas… Mara…

-Fala Anderson! – Ela disse, fazendo carinho no meu rosto.

-Eu saí.

-Saiu? Como assim saiu?

-Vem , senta aqui. – Eu disse, ajudando a Mara a se sentar no chão da caixa. Ela parceia confusa.

-Olha, eu não havia te dito, mas depois que o Mungo te pegou, eu vi um poste.

-O que? Um poste? – Ela disse, rindo.

-Sim, tinha um poste aqui na caixa. Eu sei que parece viagem, que parece delírio. Não precisa acreditar em mim. Mas eu me arrastei até ele.

-… Tá. E aí?

-Eu vi que tinha um… Um indu, um tipo de guru debaixo do poste. E ele me apontou o poste. Foi assim que eu saí. Eu me agarrei no ferro e levei um choque. Nisso, o mungo me agarrou, mas então eu acordei no qrato dum hospital.

-Ah, conta outra, pô. – Ela disse, visivelmente chateada. Mara estava achando que eu curtia com a cara dela.

-Calma. Calma. Olha, olha só, Mara. Me dá sua mão.

-Que? Que isso? – Ela disse, assustada, quando eu agarrei a mão dela e coloquei na minha camisa.

Ela não disse nada por um tempo. Ficou apalpando.

-Viu? Eu tô com outra roupa. E mais. Lembra quando estávamos juntos? Eu tava quase morto.

-É verdade… Mas… – Mara ainda parecia relutante em acreditar em mim. Então dei o golpe fatal.

-Seu pai se chama Stênio. Ele tem uns 60 anos, talvez menos um pouco, é meio barrigudo e usa uma barba curta, grisalha. E ele tem um relógio de ouro e gosta de usar uma camisa jeans.  – Eu disparei.

Mara abriu a boca a chorar. Agarrou no meu ombro e chorou feito uma criança. Ela sabia que eu tinha saído.

-Calma, calma…

-Meu pai! Como ele está? Ah, meu Deus! Ele deve estar preocupado. – Ela parecia desesperada, aos soluços…

-Espere, escute, Mara. Eu saí, está bem? Eu estive lá fora. Eu encontrei a casa do seu Alfredo, eu achei você!

-Eu? Mas eu estou aqui!

-Então, Mara. É isso que eu tenho que te dizer. Você está aqui, mas está lá também.

-Hã? Como assim? Estou confusa.

-Você está no hospital, Mara. Está em coma. Seu pai está lá com… – Eu estava dizendo quando um clarão branco me atingiu.

Abri os olhos e vi uma lanterna apontada pra eles. Os médicos estavam examinando minhas funções vitais. Vi que estava recebendo oxigênio por balão, numa maca, num corredor do hospital.

-Está acordando! – Uma pessoa fora do meu ângulo de visão disse. Eu estava vendo tudo embaçado. Tentei tossir e doeu muito o meu peito.

-Calma. Calma. Ajuda aqui. – Disse a enfermeira. Os maqueiros me ajudaram. Me sentaram perto da parede.

-Você tá bem? Pode me ouvir? – Disse o médico.

-Posso. Posso. – Eu disse, afobado para tirarem aquela mascara da minha cara.

Eu precisava cuspir. Trouxeram um baldinho de lixo e eu cuspi o sangue dentro dele.

-Você sabe onde está? – Ele perguntou.

-Sei. Tô no hospital. Vim ver a… Minha namorada. – Eu disse.

-Por que o homem te bateu?

-É o ex- dela. – Eu disse e todos riram.

-Ah! Tá explicado! – Disse a enfermeira.

Eu estava meio puto. Pela primeira vez havia saído da caixa antes do que eu queria. Eu tinha tanto para dizer a Mara! Que bosta!

Tentei me levantar, mas eles quiseram me impedir. Disseram que eu estava tonto, que tinha tido uma concussão. Eu retruquei. Disse que estava bem. Me fizeram um curativo, e estancaram o sangue do meu nariz.

-Se você sentir alguma coisa, liga pra mim. – Disse o médico, me estendendo o cartão dele.  Agradeci, pedi desculpas pelo “mal jeito” e saí.

Saí do hospital com a certeza que o sangue do meu nariz não era decorrente da surra, mas sim de voltar à caixa. Cedo ou tarde a previsão de Serge se cumpriria e eu estaria de volta à caixa.

Não havia ônibus. Era feriado nacional, e os poucos que passavam eram de hora em hora.

Caminhei um longo trecho até chegar ao metrô. Enquanto andava, mancava porque minhas costelas doíam a cada passada. A dor no peito era horrível.

Então, como se eu já não estivesse fodido o suficiente, vivi um dos momentos mais escrotos de toda minha existência.

Eu estava andando quando subitamente um mar de lama voou no ar e me atingiu em cheio. Não tive qualquer reação senão virar a cara para o muro e deixar a onda preta e marrom me acertar nos flancos.

Pouco mais de vinte metros à frente parou um Puma conversível.  Esfreguei a água preta que pingava no meu rosto, vinda do meu cabelo. Eu estava empaçocado de sujeira. Enchi o pulmão de ar para gritar um sonoro ” filho da puuutaaaa” quando reconheci o rosto sorridente ao voltante, olhando para mim pelo retrovisor.

Era o Marco Aurélio. O maior filho da puta que o mundo já conheceu.

Eu não tinha forças para gritar palavrões. Levantei meu dedo do meio. Vi que ele estava se escangalhando de rir no carrão. Ele levantou a mão e me devolveu o sinal com o dedo. Acelerou o Puma e sumiu algumas ruas à frente.

Se eu tivesse que enumerar as pessoas que mais odiei em toda a minha vida, Marco Aurélio encabeçaria a lista. Desde aquele episódio onde Marco Aurélio deu uma de bom moço e evitou minha demissão planejada por Cássio, o pela-saco de barbicha de cabrito montês  e sotaque de baiano que chefiou a redação,  ele nunca desceu pela minha garganta. Pensando bem, se eu tivesse que enumerar as pessoas que mais odiei na vida, Cássio e e Marco Aurélio estariam empatados cabeça a cabeça no primeiro lugar, seguidos de perto pelo namoradinho-playboy-valentão.

Agora eu estava em maus lençóis. Todo sujo, cagado de lama da sarjeta, não conseguiria pegar um taxi, pois nenhum motorista ia me querer fedendo no carro dele. Tive que ir andando até o metrô. Na composição, as pessoas me olhavam ressabiadas.  Então notei que meu nariz estava vertendo sangue novamente. Limpei com a parte que ainda estava limpa da camisa e fez um borrão sangrento horrível.

Ainda andei um pedação da estação do metrô até a república onde eu morava com o Cabelinho.

Cheguei em casa quase desmaiando de cansaço, de dores e de ódio. Cabelinho estava no sofá, com um cigarro entre os dedos e uma pilha de livros do lado. Ele levou um susto quando me viu.

-Caralho! – Que houve? Foi atropelado?

-Quase isso. – Eu disse, indo direto pro banheiro.

-Vai que eu pego a toalha. – Ele disse, entrando pela área de serviço.

Entrei no banho apressado. Deixei a porta aberta pra ele me ajudar com a toalha.

Meu amigo jogou a toalha por cima do ferro da cortina do box.

-Caralho, meu. Que bosta que deu? – Perguntou o Cabelinho.

-Porra, nem te conto, meu.  Fui lá no hospital, igual um prego. Levei flores e tudo pra Mara.

-Hummmm… Xonaaaaado!

-Porra… Eu disse.

-Tá, conta. Que merda deu aí no seu olho?

-Tá roxo?

-Roxo? Tá quase preto, véio! Tu levou uma bifa nos córnio?

-Não só uma bifa. Fui surrado.

-Mas… Como assim? Foram os manos? Assalto, meu?

-Não, Cabelinho. A Mara tinha um namorado. Um palyboyzinho, meu. Tinha que ver o “naipe” do cara…

-Mas, meu, como que alguém mete a porrada no outro assim num hospital? Ninguém fez nada?

-O cara foi foda. Traíra. Travou o elevador. Eu dei a primeira porrada, mas aí ele me acertou os ovos.

-Unnnng! – Gemeu o Cabelinho, sentado no bidê.

-Imagina, né? Daí eu caí e ele ó… Só na bica. Plafu! PLafu! Plafu! – Eu disse, batendo as costas duma mão na palma da outra.

-Cruzes, meu.

-Quando achei que ele ia parar, ele veio de “marreta”. Só na orelha… Pêi!,Pêi! Aí como que tá! – Eu disse, abrindo a greta da cortina pra ele ver.

-Puuuta que la vai fumaça, Anderson! Parece uma couve-flor!

-Filho da puta aquele merdinha.

-Tu não deu parte?

-Eu pensei em dar… Mas olha que merda.

-Tem mais merda?

-Eu tava indo para pegar o metrô e passou sabe quem? O Marco Aurélio.

-Quem?

-O Marco Aurélio, pô. Aquele pau nas coxas da redação.

-Ah, o que não deixou o Cássio te demitir?

-Esse mesmo. A filhadaputice em pessoa. Estava num puma conversível. Ele passou na poça só pra me jogar água.

-Porra… Esse tem lugar cativo no inferno.

-É um desgraçado. Passou e ainda parou, meu.

-Ah, não. Parou?

-Pra trepudiar! Ficou rindo pelo retrovisor.

-Tu não tacou uma pedra nele? Um pau, uma coisa assim?

-Foi muito répido. Fiquei sem ação. E eu tava muito prejudicado, mané.  – Eu disse, já me enxugando.

-Cara… Que bosta, meu.

-Mas aí. Aconteceu de novo!

-O que?

-Eu fui na caixa, Cabelinho. Outra vez!

-Outra vez? Puta merda, mermão!

-Cara quando o maluco me comeu na porrada, eu fui a nocaute. Daí, acordei na caixa. Eu achei a Mara, véio! – Eu dizia, empolgado, com a toalha amarrada na cintura.

-Cara… Tá foda esse olho aí, hein? Tu ta parecendo o Rocky Balboa!

-Não enche, bichona. O lance é que eu fui lá na caixa, achei a Mara e contei a ela que eu tinha conseguido sair. A gente se beijou e tudo mais!

-Aííí! Esse é o meu garoto! Todo fodido e ainda sacou um beijão na mulher! Sabor sangue!!! – Riu Cabelinho.

-Ah, pode crer. – Eu disse, meio sem graça. – O murro do maluco me cortou um naco da parte de dentro da bochecha. Ó.

-Isso vai dar afta. – Ele falou olhando o interior da minha boca enquanto eu puxava o lábio com o dedo. – Tem que tomar uma cervejnha ou um conhaque, pra “cauterizar”!

Fui para o quarto e mudei a roupa. Cabelinho voltou pra sala e preparou dois copinhos de conhaque.

-Aí! Dá um bochecho e manda pra dentro. – Disse ele, me estendendo a tacinha. Toma logo que isso arrepia até os cabelinhos do cu!

-Obrigado por esta imagem inspiradora. – Eu disse, virando o goró que mais parecia produto de limpeza. – Eeeeeeeeita porra! – Gemi com o gosto horrível.

-Tu é fraco! – Ele respondeu, enquanto acendia outro maconhão.

Enquanto preparava o cigarro, Cabelinho disse:

-Cara, tá ligado que eu ainda não acredito nesse lance de que você vai para um lugar… Sei lá, essa caixa. Eu acho que isso aí é tudo na sua cabeça, mano. Mas… Em todo caso, a mente humana é foda, meu. Ela produz fenômenos que até hoje a Ciência não compreende, tá ligado?

-Tô. – Falei, abrindo a janela e  sentando no almofadão da sala.

-Então, me lembrei de uma mina lá da universidade, que tem uma amiga que é… Não vai rir, promete?

-Prometo. – Eu disse, fazendo o juramento de escoteiro.

-Bruxa!

-Ah, porra! – Eu disse.

-Meu, tu prometeu, véi!

-Tá, e daí?

-Daí que vamos dizer que essa merda de caixa aí seja na tua cabeça. E se a Bruxa, sei lá, tem um poder aí sobre isso, tá ligado? Se ela te tira dessas “crises”?

-Crises a puta que te pariu! Eu fui mesmo lá na caixa, cara! Como você explica o guru, a Mara… E o coroa de Cruzeiro? E tem ainda lá o professor Serge, que também já esteve na caixa!

-Ah, meu. Me desculpa mas eu não consigo levar fé nessa porra. Sei lá, inconsciente coletivo… Mil coisas, tá ligado?

-Ah, foda-se. E a tal bruxa!

-Pelo que ouvi falar, é coroa mas ainda tá gostosa! Mó piranha.

-Não, porra. Tô falando do nível de bruxisse dela. Ou sei lá como chamam isso. Será que ela  consegue mesmo me ajudar a tirar Mara da caixa?

-Meu, só falando com ela.

-Liga e marca, que amanhã a gente vai lá. – Eu disse, me levantando do almofadão.

-Tu vai onde? – Ele perguntou.

-Meu, vou arriar o esqueleto. Eu tô pregadaço. Hoje vou dormir antes das oito.  – Gemi antes de me jogar na cama, de luz acesa e tudo. Cabelinho veio atrás.

-Porra, meu. Vai enfumaçar meu quarto!

-Ops, foi mal, foi mal. Vou apagar a luz para vossa majestade! Bons sonhos, alteza! Sonhe com a Mara… – Ele disse, encostando a porta. Então abriu de supetão e disse: – E com o Muuungo! – E bateu a porta,  morrendo de rir.

Eu fiquei na cama, no escuro, viajando no meu beijo na Mara. O abraço seu corpo frágil colado ao meu. O cheiro de seu cabelo…

Então, foi como se dessem uma pedrada no vidro da janela. Me levantei de supetão. Fui até a janela e vi alguma coisa no parapeito. Eu estava vendo meio embaçado devido ao soco, e abri a janela. Era um besouro grande, azulado sob a luz da lua.

-Caralho! – Eu sussurrei. E aí as coisas ficaram realmente bizarras, porque inesperadamente, o besouro me respondeu!

-É você que procura por Leonard? – Disse a fina vozinha que saiu do inseto. Eu dei um pulo para trás de susto.

CONTINUA

 

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11 comentários em “A caixa – Parte 20”

  1. Eita que agora o negócio virou papo de esquizofrênico kkkkkkkkkkkkkkkkk, muito legal, só falta dizer que o besouro é Wilson O Sexto kkkkkkkkkkkkkk, tô brincando, mas a cada capítulo o conto vai ficando cada vez melhor e mais viciante, ansioso pela parte 21.

  2. Pô, Phillipe, ta dando uma de Harry Potter, agora? Inventando neguim que vira bicho? Brincadeira, véio, a estória ta bombando legal. Boa de se ler nesse inverno, aqui.

  3. Caramba! Viciei nessa historia!!! Caracaa comecei com a parte 1 ontem e acabo de ler a parte 21.. Parabéns Philipe, acaba de ganhar mais uma leitora assídua! Já pensou em escrever um livro e pubicá-lo? Eu acredito que vc tem mto potencial.. Parabéns.

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