A caixa – Parte 19

Agradeci a atenção do professor e saí. Era o início da madrugada, e a chuva que havia castigado a Capital horas antes já havia amainado bem.

Saí meio desnorteado. A caixa era uma maldição. Eu desejava nunca ter passado por aquilo. O professor Serge me levou até o portão. Agradeci mais uma vez e apertei sua mão esquelética e nodosa.
Fui andando pela calçada com a clara sensação de que ele não havia me dito tudo que ele sabia. Talvez tivesse querendo me poupar de uma condenação mais trágica, sei lá.

Enquanto eu andava cabisbaixo pela cidade, saltando poças, atravessando as ruas para evitar os bolsões d´água. Havia um sem número de bueiros entupidos para todos os lados. Algumas árvores haviam caído, arrancando fios de telefone, tv a cabo e toda sorte de porcarias que penduram neles, para enfeiar ainda mais a cidade. Certos quarteirões estavam sem luz e felizmente eu tinha minha lanterninha comigo.

Eu estava tão focado no que Serge havia me dito, em toda aquela merda de se não voltar para a caixa vou morrer e coisa e tal, que nem me dei conta que estava andando com companhia. Só me dei conta quando saltei uma poça e ele saltou também.
Olhei para trás e levei um susto. Um homem velho, com uma barba nojenta, vestindo trapos rotos estava muito perto de mim. No escuro, eu me assustei com aquela figura.

-Que isso? – Eu gritei, apontando a lanterna na cara dele.
-Opa, opa! Gente boa!! – Ele gritou, saltando de lado. Senti o bafo de pinga a mais de um metro.

Era um velho mendigo, que carregava nas costas um amarradinho de pedaços de papelão e sacos plásticos. Primeiro eu pensei que ele ia me assaltar, mas ele não pareceu agressivo. Estava mais para um pinguço. Suas calças eram duas vezes maiores que seu corpo esquálido, de modo que ele amarrou com um barbante. Ao redor do pescoço desciam uns três barbantes, que amarravam garrafas de plastico com líquidos estranhos dentro, que supus ser pinga, gasolina ou outra coisa assim. EM seus ombros descia um cobertor peleja todo sujo, que lembrava até a capa do Velho do Rio na novela Pantanal, que estava passando na Manchete.

-Qual é? – Perguntei, meio ressabiado.
-Qual é o que?
-Qual é a tua aí, mermão? – Perguntei, tentando bancar o “mano perigoso”, apontando a lanterna na cara dele. Vi que ele era um vesgo e um dos olhos nem sequer devia funcionar, porque era turvo.
O velho parou, me olhou de cima abaixo. E começou a rir. Seu riso, inicialmente limitado a um hi-hi-hi- baixo, ganhou um ar dramático, e cresceu a um ris megalomaníaco, que ecoou nas vielas do centro. Aquilo me encheu de medo. Eu não disse nada, apenas segui em frente, atravessando a avenida apressado. Peguei a Rua Sergipe e segui em frente. Ele ficou do outro lado e me seguiu pelo outro lado da rua, gritando coisas desconexas.

-Vai, vai, seu playboysinho de merda! – Ele gritou. Eu já ia longe, mas no silêncio do início da madrugada após o temporal, estava um silêncio enorme na cidade e dava para ouvir o mendigão louco com clareza.
-Não fode, ô maluco! – Eu incorri na besteira de gritar pra ele enquanto apontava meu dedo do meio num gesto não muito ecumênico. O velho parou, deu uma nova risada e berrou de lá.
-Vai… Vai seguindo seu caminho, ô seu morto! Aproveita que falta pouco pra você voltar pra caixa!

-Quê??? – Eu parei no ato.
O mendigo ficou parado, do outro lado da rua. Havia uma grande poça entre a calçada e o asfalto e ele não tinha como pular.
Voltei pela calçada e fiquei na frente dele, mas do outro lado da rua.

-O que foi que você disse, velho? -Indaguei, autoritário. Ele parecia fora do ar. Olhava para o céu, feito um doido varrido. Olhou para mim e sorriu sua dentadura mais desfalcada que o congresso às sextas. -Repete! – Desafiei, vendo que ele tinha “dado Tilt”.

-A caixa… – Ele disse. E começou a rir.
-O que tem a caixa? – Eu perguntei, já sentindo um arrepio na coluna.
-A caixa vai te pegar. Você já está morto. Você vai voltar para ela. É você na caixa lá, seu corpo no caixão aqui.- Ele disse, apontando para o muro. Era o cemitério da Consolação.

Eu me sentia num misto de burrice e terror, ouvindo aquele velho decrépito na escuridão da madrugada paulista. Mas não perdi aquela chance. Lutei contra meus instintos de correr com medo e provoquei: -E a Mara?
-Ela vai sair! – Ele gritou. Pegou a garrafa que estava pendurada no pescoço, deu uma golada longa, arrotou e começou a rir. Parecia possuído.
Meu coração batia acelerado.
-Como que eu faço para me livrar da caixa? – Gritei.
-Hihihi! – Ele ria com a boca quase sem dentes. – Não dá! -Você só sai morto!
-Eu estou vendo… Ali… Você, ó… Tá caído no asfalto. Ela vai chorar! – Ele disse, apontando com sua mão trêmula um lugar na rua.
Então surgiram uns homens na esquina, que pareciam carregar um terceiro, bêbado. Ele estava cantando e os três falavam alto, certamente saindo de alguma bebedeira. O mendigo louco olhou para eles e coçou o cabelo emaranhado. Jogou o cobertor peleja para a frente, se ajeitou debaixo de uma marquise e ficou ali, quietinho.

Eu fiquei queto. Os homens passaram, olharam pra mim e nada disseram. Eu achei eles meio mal encarados, e me assustou a forma como me olharam. Eles seguiram em frente e dobraram na esquina do cemitério. Eu tive medo que voltassem. Os acompanhei com o olhar até perdê-los de vista. Quando eles sumiram na esquina, me virei para o mendigo e não vi nada além do trapo velho que ele usava para se cobrir jogado no chão sob a marquise, do outro lado da rua.

Atravessei e fui até lá. Não havia nem sinal do velho. Só o cobertor fedido e sujo de lama.
Olhei para todos os lados e ele havia desaparecido no ar, Não havia tempo de correr até a outra esquina e não tinha beco, nem viela, nem passagem, portão ou reentrância para se esconder. Ele não conseguiria correr a esquina inteira no tempo que passei olhando os homens bêbados nem se fosse atleta olímpico.

Aquilo era muito estranho e se eu já estava com medo até ali, meu coração quase saiu pela boca. Corri feito um condenado até a Av. Angélica onde consegui enfim, um táxi.
Entrei no Táxi tava tocando Xitãozinho e Chororó. O ar condicionado era congelante. Dei meu endereço e torci para chegar logo.

Quando cheguei em casa, a madrugada já ia alta. Cabelinho dormia no sofá com a televisão ligada. Tomei um banho, e capotei na cama.
Mas não dormi. Só pensava naquela risada estranha do mendigo. Como ele sumiu? E a história de Serge? Eu ia mesmo morrer? Meus penamentos rodavam em carrossel, e acabavam invariavelmente em Mara. Então lembrava da caixa, de minha recaída no taxi do cearense. O medo da caixa voltar era perene. Não me lembro de dormir, apenas de acordar.
Acordei com o barulho da porta da geladeira batendo.
Levantei e fui até a cozinha.
-Fala bichona! Te acordei? Foi mal. – Disse cabelinho com um copo de leite na mão enquanto misturava o Nescau.
-Não, tá safo.
-E aí? Qual é a boa? Aliás, onde que tu foi ontem, véi? Cheguei e cê não estava…
-Cara… Se liga tenho que te contar um porrilhão de coisa, meu.
-Tá. Calmaí. Tu viu o requeijão?
-Venceu, porra.
-Não, meu. Eu comprei outro.
-Cara tu comprou outro já tem quinze dias, porra. Metade eu comi.
-E a outra metade, seu pau no cu?
-Venceu, ué!
-Ah, você é foda. Que merda. Vou comer pão seco mesmo então. – Disse ele, sentando na cadeira ao contrário, arrancando um pedaço de pão e enfiando na boca. – Conta logo. – Disse Cabelinho com a boca cheia de miolo de pão.

Contei a ele. Felizmente era feriado, e não precisávamos trabalhar. Ficamos ali na mesa da cozinha, comendo pão seco com café e Nescau a manhã inteira. Cabelinho prometeu ouvir em silêncio até o final. Contei em detalhes, todos os que me lembrei, incluindo a história que Serge me contou e o meu insólito encontro com o velho mendigo que sumiu no ar.
Cabelinho ouvia em silêncio, um silêncio peculiar, incomum, quase contemplativo.

-Então quer dizer que você voltou na caixa pela terceira vez? – Ele perguntou.
-Sim, cara.
-Meu… Isso ta bizarro. Mas vamos pensar. Então você falou com o chefe do centro de Yoga lá de Higienópolis e tal.
-Isso.
-Bom, o cara esteve na caixa, e ele saiu. Se ele saiu você pode sair, porra.
-Mas aí que está, ele disse que não saiu, tá ligado… Tipo assim, “ele foi saído”.
-Porra a gente tem que achar esse camarada que falou o lance a pra ele. Se ele falar esse lance aí procê, você sai também.
-Aí que está. Ele não sabe quem era o sujeito, e nem mesmo lembra o que foi que o cara falou, meu.
-E o lance do velho?
-O que tem o velho?
-Meu… Tipo, pra mim está claro. Você realmente foi la em Higienópolis e tal, falou lá com o coroa do centro de Yoga. Aí ficou meio perturbado com o que ele te disse e imaginou o mendigo.
-Imaginei? Não, não. Ele tava lá.
-Véio, claro que não tava. Tá ligado quando vc disse que passaram uns caras, olhando para sua cara com expressão esquisita?
-Tô.
-Então, imagina você saindo da balada numa rua deserta de madrugada, vê um cara discutindo com a parede? Você não olha pra ele com cara esquisita? – Ele me disse, arregalando um olhão e fazendo cara de maluco pra mim. Eu morri de rir.

-De fato.
-Então. Tá explicado o mendigo.
-Hummm. Mas e o cobertor? O cobertor tava lá.
-Lixo, caralho! A cidade inundou, porra. Tá cheia de lixo.
-E como ele sabia da caixa e coisa e tal?
-O que prova de uma vez por todas que tu deu uma viajada, tu que inventou o velho. Esse lance que o francês te deu lá, dele ser chá de daime, hahaha.

Eu ri meio sem graça. Levantei-me da mesa.
-Onde cê vai?
-Vou me arrumar, vou lá no Hospital ver a Mara. Quer ir?
-Não vai dar. Vou ter que ler uns livros aí.
-Tá safo. Eu te dou notícias. – Eu disse, indo para o meu quarto.

Minutos depois eu estava no busum, indo para o hospital. Segurava na mão um ramalhete de flores do campo. Sentia que precisava ver a Mara. O sol estava à pino, formando grandes nuvens de poeira fina, que era o que sobrava depois da enxurrada. Os carros passavam apressados, levantando o pó no ar.
Cheguei no hospital no início do horário de visitas. Fui direto para o quarto. Estranhei ao chegar lá. Tinha um cara diferente sentado conversando com o pai dela.
-Bom dia. – Eu disse.
-Opa. – Falou o pai dela.
-Oi. – Respondi. Notando que o outro sujeito nem sequer olhou pra mim.
Fui direto para a cama ver a Mara.

-Ele disse que é um amigo dela… – Ouvi o pai dela sussurrar para o sujeitinho. De cara, pelo tom, saquei quem era. Era o pela saco do ex namorado. O tal que aprontou com ela. Tava fazendo o papel de bom moço.

-E ela? – Perguntei ao seu Stênio, o pai de Mara.
-Na mesma. – Ele disse. – à aquela altura, saber que tudo estava “na mesma” era um grande alívio. Meu medo é que ela morresse na caixa. Notei que o sujeitinho me fuzilava com os olhos.
-Eu.. Eu trouxe aqui… – Disse eu, meio sem graça. O seu Stênio sorriu. Era a primeira vez que eu o via sorrir. Ele pegou as flores e arrumou ali perto da janela, num lugar próprio.

Então meio que fiquei no vácuo. Os dois me olhando, o sujeitinho sentado no sofá, como uma estátua de pedra. Por alguns segundos fixei meu olhar nele. Notei sua barba cuidadosamente escamoteada, camisa de marca gringa com a logo grandona no peito. Seu relógio fodão, com mais funções que um painel de avião a jato. Na camisa, um óculos Ray Ban Aviator espelhado. Ele tinha um cordão de ouro aparecendo no canto da gola e o corte de cabelo era o da moda penteado com gel. O diagnóstico saiu na hora. Um Playboy filhinho de papai.

– Bom, se vocês me dão licença, já vou indo. – Eu disse, meio sem graça, porque o sujeito estava me encarando de uma forma não muito amistosa.

-Té logo, meu filho. – Disse seu Stênio.

Eu fui saindo e quando entrei no elevador, já com pensamentos voltados para a caixa, vi a porta abrir novamente. Era o carinha. Ele entrou, não disse nada e esperou a porta do elevador fechar.
Assim que o elevador começou a descer, ele deu um socão no botão de emergência. O elevador deu um estalo e travou entre dois andares.

-Qual é? -Eu disse a ele.
-Aí, Zé Ruela… – Ele disse, me agarrando pela gola da camisa. Nossa discussão foi bem direta. Quer dizer, bem direto. Virei-lhe um jab no meio da cara. Até quebrou os óculos.
O sujeito não deixou barato e para poupar tempo, posso dizer que ele me surrou. Eu até coloquei um soco bem no meio da fuça dele, mas logo em seguida ele me acertou uma joelhada no saco, que me tirou do combate no ato. Eu caí co chão do elevador e ele começou a me chutar as costelas. Eu levei umas boas bicudas no peito antes da terceira bicuda do tênis Nike zero-bala acertar os meus braços. Eu tentava fechar a guarda, e quando ele sacou isso começou a desferir “marretadas” com o braço. Tomei duas na orelha, que ficou vermelha e inchada por dois dias depois daquele nosso encontro. Felizmente, como era o horário de visitas, tinha muita gente esperando o elevador e começaram a socar a porta. Eu que não era bobo, e estava apanhando, comecei a gritar. Acho que um funcionário do hospital ativou a chave e o elevador desceu. Quando abriram a porta ele saiu feito uma bala, me deixando convalescente no chão, em meio a uma poça de sangue.

-Que isso! – Gritou o Enfermeiro que abriu a porta. Uma pequena multidão de auxiliares de enfermagem, faxineiras e maqueiros se reuniu na porta do elevador. Pessoas gritavam. Me pegaram de um jeito estranho e me jogaram numa maca. Eu tava mal. Minha boca estava cheia de sangue. Meu nariz tava doendo muito e eu não enxergava direito. Nem conseguia falar.
-Quem fez isso? – Foi o que ouvi do médico que veio correndo quando as enfermeiras chamaram. Foi a última coisa que eu ouvi.

E lá estava eu novamente. Com passagem só de ida para a caixa.
Me levantei com cuidado. A maca tinha ido junto. Estava, como sempre, tudo escuro.

-Aquele filho da puta desgraçado! – Gemi baixinho lembrando que havia deixado a lanterna em casa. Cuspi o sangue no chão. Ainda estavam doendo as minhas costelas.

-Anderson? – Ouvi uma voz conhecida. Era Ela!

CONTINUA

Related Post

8 comentários em “A caixa – Parte 19”

  1. Fica dica que saiu um erro escroto alí: “Meu narix tava doendo muito”

    E essa parte da luta me lembrou uma vez que um ex de uma ex minha veio querer “conversar” e eu quase apago o cara com um bastão de metal que arranquei de uma barraca de venda, bati tanto que ele começou a chorar e pediu “dicupa”. hahaha

    Literalmente dei sorte, diferente do Anderson.

  2. Fala Philipe!
    Notei de umas partes pra cá que você está pontuando a história em 1990. “…na novela Pantanal, que estava passando na Manchete”, “Entrei no Táxi tava tocando Xitãozinho e Chororó.” (artista nacional mais tocado naquele ano), “…eu estava dentro Fiat Elba novinho em folha.” (Parou de produzir em 1996)… entre outros detalhes.

    Não seria um problema o fato do Alfredo ter um CELULAR dentro da caixa, sendo que em 1990 os celulares eram tijolos enormes, tipo isso: http://www.youtube.com/watch?v=694TX2lQ7Uo

    No mais o conto está espetacular. Vale uma publicação hein!? Já cogitou a publicação digital? Sai mais barata e acho que vai te render uma boa grana!

    • Boa pergunta, Catu. A história se passa realmente no inicio da década de 90, eu imagino que seja em setembro de 1991. Por isso, a apresentação de Pantanal era a segunda, que começou em junho de 1991. Os celulares daquele tempo, no Brasil eram item de mega-super-luxo, (acho que ate falei isso no texto) nos anos 90 o aparelho mais comum aqui era o Motorola DPC 650, que tinha tela de resistência, por isso podia iluminar o ambiente, e a bateria não durava nem dois dias. Os aparelhos que vieram depois já tinham tela de cristal liquido monocromática, mas no escuro eles eram totalmente pretos. Nos EUA durante os anos 90 surgiam os primeiros celulares mais avançados, que levaram quase uma década para aportar aqui: http://www.artmakers.com.br/img/?di=F8YO

      Eu ja pensei em publicar, do jeito que fiz com o zumbi, mas preciso primeiro ver que tamanho esse troço vai ter, pra ver se compensa fazer híbrido físico-digital ou somente digital.

  3. Pelo menos sabemos que o Anderson vai sair de novo da caixa. Agora, isso que dá não dar trela pra mendigo, agora vai ficar sem a palavrinha mágica pra sair da caixa e nem vai poder dar o “fincão” na Mara no mundo real. hahahahahahahahaha

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

shares