A caixa – Parte 16

Não era possível que eu estivesse de volta naquele lugar.

Eu estava sentado no metrô poucos minutos antes, e agora me encontrava deitado, no escuro. O que aconteceu?

Tateei o chão e senti, com horror, a ponta dos meus dedos encostarem na superfície estéril e gelada da caixa. Eu estava de volta à aquele lugar desgraçado.

Levantei-me e gritei: Alôôô? Tem alguém aí?

Nada. Apenas o silêncio aterrador ao qual eu já havia desacostumado.

Um pensamento invadiu minha mente: E se eu nunca saí da caixa? E se minhas lembranças do mundo externo fossem apenas ilusões?

Pus-me a andar pela escuridão enquanto pensava na caixa. E se minhas memórias todas fossem falsas? E se agora eu estivesse naquele momento inicial, quando cheguei pela primeira vez na caixa? E se na caixa o tempo não existe e a realidade é apenas uma frágil ilusão  como o reflexo na superfície de um lago, que se altera com a simples mudança do vento?

Lá estava eu, sozinho, no escuro, perdido em pensamentos e devaneios.

-Alguém aí? Eeeei! – Eu gritava, mas nunca vinha resposta.

Teria sido a Mara, o Guru, o seu Alfredo, tudo uma brincadeira mental em que me vi enredado?

Então, para meu grande espanto, quando eu já gritava para cumprir minha obrigação, sem esperanças de resgate, ouvi uma resposta:

-Socorro! – Era um grito longe, distante, tão fraco que pensei que talvez fosse o meu eco, ou uma ilusão auditiva.

-Tem alguém aí? – Berrei a plenos pulmões.

-Anderson! – Era a voz dela. Era Mara!

-Maaaaraaaa!

-Socorro!  – Ela gritou.

Eu corri na direção da voz, não via a hora de abraçar Mara.

Então ouvi um rugido assustador vindo da escuridão atrás de mim.

As pesadas  batidas estavam de volta. Era o Mungo. Ele devia ter me ouvido e veio pra cima.

Mara ainda estava longe, gritando por socorro. E o som das pesadas batidas do Mungo eram cada vez mais altas. Eu corri como pude, mas fui atingido nas costas. Senti aquelas mãos enormes e frias me agarranado a garganta. O Mungo me levantou no ar como se eu fosse um brinquedo. O ar faltava. As mãos poderosas pareciam de pedra de tão duras e meu pescoço frágil foi lentamente esmagado. Antes de perder os sentidos sem ar, ouvi as risadas graves e baixas do Mungo.

Então eu abri os olhos e me deparei com um monte de gente ao meu redor, me abanando.  Eu estava no chão do metrô, caído, todo descojuntado. Eu demorei alguns segundos para entender. Eu ainda estava sem ar. Uma velha olhava na minha cara gritando : “Respira! Respira!”

Eu aspirei fundo. Meu pulmão se encheu de ar e me senti um pouco tonto. Tentei me levantar. Um homem disse que eu não podia levantar até os médicos chegarem.Eu empurrei ele e levantei. Estava todo sem graça, com o vagão inteiro olhando pra mim. O metrô estava parado na estação, com as portas abertas, esperando o resgate de emergência da estação chegar. O homem gritou para o condutor que estava junto à porta, segurando um radiocomunicador:

-Ele acordou! Tá tudo bem.

O condutor apertou o botão que fez um barulhinho e disse – Q05. Q05 na plataforma três.

Eu não fazia a menor ideia do que era o tal do Q05, mas fosse o que fosse, certamente tinha a ver comigo. Limpei minha blusa suja. Eu estava vomitado. Pedi licença meio sem graça e em silencio as pessoas me deixaram passar. Eu saí na plataforma sem saber que estação era aquela. Queria sair dali o mais depressa possível.

“Que vergonha, meu.”  – Pensei.

Saí no Butantã. Ali eu peguei um taxi, o primeiro que passou e mandei seguir em direção à minha casa.

Enquanto o taxista dirigia, tentando puxar assunto de futebol, eu só tinha em minha mente aquela sensação horrível do mungo me estrangulando. Teria sido um delírio? Um sonho? Eu tinha voltado lá?  Eu não sabia. Estava chovendo uma garoa fina como quase sempre acontecia naquela hora, e olhei as gotinhas escorrendo no vidro do taxi.

-Você passou mal e desmaiou. – Disse o Cabelinho, quando eu contei a ele, enquanto estendia minha toalha de banho na área de serviço.

-Sim… Mas quem me garante que eu não voltei na caixa? Ouvi a Mara! Ela estava gritando socorro. – Eu disse, a caminho da sala.

-Hummm. Nunca saberemos. – Ele disse. – O que você comeu no almoço?

-Eu pedi um sanduba com suco de caju.

-Ah, então foi isso. Você passou mal. Aquele sanduba do Gomes é uma merda. A última vez que eu comi me deu um piriri de três dias.

-E como foi que eu estava sem ar?

-Sei lá, pô. Vai que você vomitou dormindo, e aspirou o vômito, acabou sem ar, aí desmaiou. Ou isso ou pode ter tido um ataque epipléptico. Né?

-Epilepsia? Eu não tenho isso.

-Não tinha, você quer dizer. Depois da batida no acidente, podem ficar sequelas que demoram a aparecer, meu camarada.

-Ou… Vamos dizer que eu vomitei e desmaiei, como você sugeriu. E se nisso eu fui parar na caixa? Se em coma eu fui, por que diabos desmaiado eu não iria?

-É… – Disse cabelinho coçando o queixo. – Até que faz sentido.

Ficamos algum tempo em silêncio contemplando o quadro do Jimmy Hendrix que o Cabelinho tinha pendurado na parede da sala da  nossa república, para decorar o “apertamento”. Então meu amigo quebrou o silêncio com novas perguntas.

-E a Mara hein?

-Ela gritava socorro. – Eu disse.

-Não, pô. A Mara lá no hospital, Mané!

-Ah, sim.

-Bem que você falou que ela era gata. Ela está meio amarrotada, mas você tinha razão, Anderson. O pai dela é gente boa, né?

– Gente boa sim. – Eu disse. Cabelinho estava acendendo o baseado. Deu uma tragada e disse com aquela voz entupida:

-Será que ela vai acordar naturalmente… tipo você?  – Depois soltou a fumaça densa e fedida.

-Abre a janela, pô. Tu vai catingar a casa toda, caralho. – Eu disse, levantando para abrir a janela.

Enquanto eu abria, vi os carros lá em baixo, tudo engarrafado. A perfeita visão de Sampa na hora do rush. Senti o vento gelado no rosto, com cheiro de fumaça de carro. Pensei na pergunta de Cabelinho e em como aquela pergunta não havia saído da minha cabeça o dia todo.

-Eu gostaria. Mas não sei se ela vai conseguir.

-Como que foi que você saiu mesmo? Conta outra vez?

-Cara eu vi um poste… – Eu comecei a contar e nisso, Cabelinho se escangalhou de rir. 

-Que foi, seu merda?

-Lembrei do tal Guru de fraldão com um… hahahahaha… Guarda-chuva…. hahahahaha. É muito escroto isso, cumpadi.

-Mas foi assim. Eu vi o poste falhar. O Mungo vinha pra cima de mim, aí eu agarrei no poste e levei um choque. Acordei na cama do hospital.

-Tá ligado que isso aí é tudo simbólico, né Anderson?

-Tô, meu. Mas o Guru, véi. O Guru tava lá mesmo. Aquele do livro.

-Cara… Deixa eu te falar um lance. Calmaí. – Cabelinho deu mais uma tragada no cigarro. Tive que esperar ele ficar segurando a fumaça e depois soltar, para cima,  como uma locomotiva Baldwin 1874. – …Muito louco, bicho… Então, o lance é: Se o Guru apareceu pra você, ele pode aparecer pra ela, tá ligado? E aí ele salva ela, tipo salvou você, meu.

-É… Eu não tinha pensado nisso. – Eu disse, saindo da janela e sentando no sofá.

-A gente só tem que… Achar o Guru, meu. Daí a gente convence ele de ir la na caixa e salvar ela. – Falou Cabelinho. Mas então, ele olhou para a brasa do cigarro e perguntou: Mas como vamos achar esse “caboco”?

-Cara, não sei, mas essa ideia é boa. Se a gente não fizer nada, tem o risco dela acabar morrendo na caixa. A caixa está lá, seja onde for, encolhendo dia a dia. Se não agirmos rapido…

-Isso sem contar o tal do monstro lá que a essa altura pode estar comendo ela no sentido literal ou figurado. – Riu Cabelinho. Eu não achei nenhuma graça naquela brincadeira. Ele viu isso na minha cara.

-Foi mal aí.

-Seu merda!

-Opa!

-Olha, acho que um jeito de achar o tal do Guru é indo com o livro la no centro Rasmann Yôga, que está anunciando no jornal. Vou ver com a Monique quem é o chefe lá e converso com ele.

-Mas tu vai contar o lance da caixa?

-Sei lá… Se der pé eu conto.

-Cê que sabe, mas ele vai achar que você saiu do hospício, não da caixa. – Cabelinho disse, se levantando e pegando a mochila, uma velha mochila toda carcomida, que na verdade, era uma antiguidade. Aquela era uma mochila da FEB, usada na Segunda Guerra, que o Cabelinho tinha comprado num Brechó de antiguidades lá no Itaím por uma fábula de dinheiro.

-Vai aonde?

-Vou no cinema com a Cíntia. Sabe como é…

-Sei. Sei. Vamos ver se agora tu come, né? Porque esse zero a zero de vocês ta parecendo até o treino do Íbis, aquele time que nunca ganha.

-Não fode. Se eu comer vou trazer a calcinha de troféu. – Cabelinho disse, fechando a porta.

-Aí eu vou colocar numa moldura ali na parede! – Gritei. Ouvi cabelinho rindo no corredor.

Lá estava eu sozinho novamente. Eu havia saído da caixa, mas a caixa não havia saído de mim. Eu estava obcecado com a caixa nos meus pensamentos de forma quase permanente. Tinha que dar um jeito de tirar a Mara de lá.  Se eu saí ela poderia sair também.

Peguei o telefone e liguei para a Monique. Minutos depois ela me ligou de volta com o telefone de um tal Serge Bachelet, o dono do Rasmann Yôga.

Telefonei para o tal do Serge. Na primeira vez que liguei,  chamou até cair a ligação.  Mas eu insisti, e então uma voz com indefectível sotaque francês atendeu.

-Pois não?

-É o Serge?

-Sim.  – Ele respondeu do outro lado da linha.

Eu me apresentei, disse que era o repórter do jornal. Contei a ele que havia pego uns livros para escrever sobre a Yoga e coisa e tal, e num deles, um livro de capa branca, havia numa pagina central a foto de uma meia duzia de Gurus indianos.

-Sadduhs. – Ele me interrompeu.

-Isso mesmo. – Eu disse. Pedi desculpas e retomei. Eu disse que havia um, que eu tinha visto, num sonho. Eu havia falado com ele. O tal Serge pareceu, não se importar nem um pouco com o fato de eu ter sonhado com aquele sujeito da Índia, mas tudo mudou quando eu disse que ele estava sob um poste de luz, segurando um guarda-chuva.

-Paraplouie?

-Hã?

-Um guarda-chuva? Você disse um guarda-chuva?

-Sim… – Eu falei.

-Onde você está? – Serge Bachelet parecia ter ficado tenso, nervoso.

-Estou em minha casa…

-Venha pra cá, rápido! – Ele disse, aflito.

CONTINUA

 

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