A caixa – Parte 13

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Lá estava eu, com o livro no colo. Examinei detalhadamente a foto do cara.
-É ele!
-Não pode ser, bicho. – Disse Cabelinho abrindo a sua indefectível latinha.
-Cara eu tenho certeza absoluta. Esse cabelo que liga na barba… Essa cara de quem ta dormindo. A pintura na testa… É esse cara em pessoa.
-Como que pode? – Me perguntou Cabelinho acendendo o cigarrinho do capeta.
-Não sei, cara. Não sei… – Eu respondi. Ficamos em silêncio por uns minutos.

Cabelinho tragou, e então olhou pra mim com os olhos vermelhos e a respiração presa.

-Já sei! Você já viu este livro antes. A imagem desse cara ficou armazenada na sua cabeça. É isso. Caso resolvido. Agora vamos beber. – Falando com a respiração presa ele ficava com uma voz engraçada e rouca que lembrava a do Pato Donald.

-Alto lá! Eu nunca vi este livro na vida. – Eu disse.
Cabelinho soltou a fumaça.
-Tá servido? – Me estendeu o baseado que a esta altura já se resumia a uma ponta fumegante.
-Você sabe que eu não curto.
-Sei. Se curtisse não estaria todo encucado com um guru indiano. Meu, olha aí essa foto. Esse cara já nem deve estar vivo mais. Deve ter morrido. Isso aí deve ser foto dos anos sessenta. Certamente, você quando era moleque deve ter visto essa imagem. A cabeça da gente é foda, rapá. Ficou registrado.

Aceitei o argumento do meu amigo, mas aquilo me deixou completamente com a pulga atrás da orelha.
Ele queria muito ir para um barzinho de uma amiga dele, uma tal de Cíntia, que ele dizia que estava prestes a pegar. Conhecendo o Cabelinho de outros carnavais, isso significava que ele apenas tinha discutido Descartes com ela em alguma rodinha de maconha do campus. Agradeci o convite e deixei o cara ir sozinho.

Fiquei trancado em casa. Meu trabalho foi para o saco no ato. Eu estava obcecado pela foto daquele sujeito magro e cabeludo. Se fosse mesmo verdade que meu cérebro estava montando recortes de lembranças e imagens armazenadas em algum lugar da minha mente ao longo da vida, por que logo ele?
Outra coisa que me intrigava absurdamente era o guarda-chuva. A foto não mostrava o sadduh de guarda-chuva mas ele sempre apareceu pra mim usando um. Se fosse como o Cabelinho havia sugerido, eu devia ter visto o monge segurando um guarda-chuva, mas na foto não tem isso.

Interpretei o guarda-chuva como um elemento simbólico da aparição. Mas o que ele simbolizava era uma incógnita para mim.

Tomei um banho, jantei meu miojão, e fui deitar. Aquela noite foi uma merda. Maldito livro. Ao ver o Guru, todas as lembranças daquele lugar horrível vieram com carga total, o que me fez fritar bolinho na cama.
Devia ser umas três e paulada da madrugada e Cabelinho não voltou. Concluí que ele tinha conseguido comer a tal da Cíntia.
Levantei e fui beber água. O Miojo tinha me dado uma azia ferrada. Enquanto eu bebia a água me lembrei claramente da sensação maravilhosa de beber a água que encontrei na caixa. Era incrível como aquele líquido sem forma nem cor podia se tornar a diferença entre a vida e a morte.
Em meio à cozinha escura, na madrugada silenciosa, fiquei pensando na morte. Como a escuridão da cozinha somada com o silêncio me faziam recordar a caixa. Mas então um cão latiu ao longe e eu ouvi uma sirene à distância. Como era bom estar de volta à aquele mundo imperfeito, cheio de problemas, mas maravilhoso. Definitivamente as coisas mais belas do mundo exterior eram as amizades. Na caixa senti grande sofrimento de não ver, de ter medo, de sentir sede e dor, mas a falta do outro era o que doía mais. De longe. A amizade é a coisa mais importante da vida. Lembrei de Alfredo…

Então uma ideia tomou de assalto a minha mente: “Alfredo”. Se o guru existia, será que Alfredo também?

Peguei meu caderninho de anotações. Eu precisava pensar e felizmente, fora da caixa, eu poderia pensar do jeito que eu gostava, anotando e fazendo diagramas mentais.
Eu tentei tomar nota de algumas coisas que Alfredo havia me dito na caixa, e que eu me lembrava. O tempo estava contra mim. Eu havia conversado muitas coisas com Alfredo, mas lembrar, eu lembrava de pouca coisa. Ele havia me dito que gostava de ouvir o trem passar… Ele era viúvo, morava sozinho perto da linha do trem. Alfredo era paulista… Morava em… Onde era mesmo?
Depois de alguns minutos, o nome apareceu: Cruzeiro.
Anotei Cruzeiro-SP na caderneta e voltei a pensar em tudo que havíamos conversado.
Alfredo tinha me dito que achou que havia desmaiado no banheiro. Se eu fui atropelado por um caminhão, Alfredo poderia também ter sofrido um acidente que o jogou na caixa? EU precisava descobrir mais sobre aquilo.
Deixei um bilhete para o Cabelinho dizendo que ia viajar à trabalho. No dia seguinte, liguei para Marina no jornal e disse para ela segurar as pontas. Era uma quinta-feira, e eu dei como desculpa que visitaria uma instituição de Yoga no interior, um tipo de Spa alternativo. Marina desenrolou pra mim o esquema da viagem, mas nenhum carro estava disponível, de modo que eu disse que eu ia bancar eu mesmo um bate-volta ao interior. Combinei de voltar na segunda com a história pronta. Peguei o ônibus na rodoviária. Fui direto para Cruzeiro.
Cheguei na cidade de tarde. Fazia calor e a rodoviária de Cruzeiro, no centro da cidade, era bem precária.
Desembarquei lá e saí pelas ruas da cidade, em busca de algum hotel.
Peguei um carro de praça, que me indicou um pequeno hotel chamado Caravela, que ficava no centro. O sol já estava quase sumindo no horizonte quando voltei para a rua.
Como eu faria para descobrir mais sobre seu Alfredo, um ferroviário aposentado? Isso é, se ele existisse mesmo.

Meu primeiro passo foi seguir a pista do ferroviário. O Cléssio, que era motorista do táxi no ponto em frente a rodoviária me levou até a associação dos ferroviários. Cheguei lá e estava fechando. Uma moça com visível mau humor me atendeu. Eu expliquei que era de um jornal e menti dizendo que fazia uma matéria sobre pessoas que tem hábitos incomuns, como acordar de madrugada para ouvir o trem. A moça riu e disse que se eu queria maluco era para procurar no hospício. Achei ela bem grosseira, mas mantive a civilidade, Perguntei se havia como ver na listagem dos associados se havia algum Alfredo. Ela disse que já estava fechando e que tinha até desligado o computador.
Aí não teve jeito. Tive que turar uma notinha de cinquenta e estender para ela, pela “hora extra”. Ela aceitou de imediato e de uma secretária de mau humor se tornou minha grande amiga do peito. Era incrível, quase mágico o poder do dinheiro sob certas pessoas.
-Alfredo de que?
-Eu não sei. Tem como puxar todos os Alfredos?
-Tem, mas tem certeza que o nome é esse? Não é Afrânio, ou Fred?
-Não senhora. É Alfredo mesmo.
Minutos depois ela imprimia numa grande e barulhenta impressora matricial da Prológica uma listagem de ferroviários aposentados chamados Alfredo.
Agradeci e voltei para o táxi de Cléssio, que me levou de volta para o hotel.
Tomei uma ducha liguei o ar condicionado, pois fazia grande calor em Cruzeiro naqueles dias. Fiquei vendo televisão até pegar no sono.
Acordei no dia seguinte sentindo o cheirinho do café. Os passarinhos faziam algazarra perto da minha janela. Fazia tempo que eu não dormia tão bem. Se sonhei, não devia ser importante, pois não havia ficado nenhuma lembrança.
Tomei outro banho, desci para tomar o café. Havia bolo de laranja, algo que eu não comia fazia tempo.
Minutos depois eu já estava na praça, com a listagem na mão. Na lista, estavam 55 Alfredos que eram ex-ferroviários e seus respectivos endereços.
Meu segundo passo foi ir na central de atendimento ao turista, da secretaria municipal. Ali consegui um mapa da cidade e boas dicas de lugares para almoçar.
O mapa mostrava claramente as linhas do trem e as ruas ao redor.
Foi um trabalho penoso posicionar cada um dos endereços no mapa. Numerei cada Alfredo e marquei com caneta no mapa onde estava a casa. Dos 55 Alfredos iniciais, apenas sete estavam posicionados junto aos trilhos.

Caminhei até o ponto da rodoviária e encontrei o Cléssio.
-E aí patrão?
-Vai ser uma corrida longa hoje, Cléssio!
-Vamos nessa!

Fomos em cada um dos endereços. O primeiro endereço mostrou-se um tiro nágua. A casa havia sido demolida e construíram um bar no lugar. O dono do bar disse que o tal Alfredo ja tinha morrido fazia trinta anos.
O segundo endereço era promissor. Uma casa afastada, perto da linha do trem. Chegamos la e fomos recebidos por uma cachorrada danada que latia insistentemente. Uma senhora veio ao portão. Perguntei de Alfredo e ela disse que ele estava lá dentro. Eu mal podia acreditar. Fui lá falar com ele. Logo ao entrar, encontrei um velhinho enfiado num casaco de frio e com boné. Lá fora, fazia um calor dos diabos, mas o velho estava de roupa de frio. A casa era realmente bem úmida, com paredes mofadas, o que justificava a roupa. Conversei um pouco com o velho, sobre ferrovia e tal… Mas não era ele. Dava para saber porque ele não falava do mesmo jeito.
Voltei para o táxi e assim foi, erro atrás de erro, até o fim do dia, quando constatei que nenhum daqueles Alfredos era o que eu procurava. Voltei para o hotel cabisbaixo. Havia perdido uma boa grana de táxi e almoço, mas não tinha obtido o sucesso.
Talvez Alfredo não existisse. Em certos momentos, eu me sentia ridículo naquela busca. Talvez Alfredo não fosse registrado na associação dos ferroviários de Cruzeiro.
Jantei uma sopa num restaurante bacaninha perto da praça e fui dormir.
No dia seguinte, era um sábado e eu teria pouco tempo de busca, pois pretendia voltar para a capital e acabar de escrever a matéria. Fui direto ao hospital da cidade. Cheguei lá e comecei a fazer perguntas.
O primeiro a quem perguntei era um maqueiro que estava fumando um cigarro do lado de fora, junto com duas auxiliares de enfermagem. O Hospital parecia bem vazio. Ninguém sabia dizer nada. Achei que temiam que eu fosse fazer uma matéria sobre as más condições hospitalares. Expliquei que estava procurando um velho amigo, que se chamava Alfredo. Infelizmente eu não sabia dar muitos detalhes além de que ele era viúvo, cheio de manias e tal.
A moça consultou o computador e não achou nenhum Alfredo internado.
Eu já estava indo embora quando ao chegar na porta do táxi, tive uma ideia. Voltei correndo para o hospital e perguntei sobre pacientes em coma. A moça consultou o computador, mas disse que não havia ninguém de nome Alfredo no CTI ou em coma no hospital.
Fiquei puto… Era mais um erro. Talvez realmente não houvesse Alfredo e eu estivesse apenas ficado maluco querendo acreditar numa fantasia mental.
Eu já estava entrando no carro quando o maqueiro veio na minha direção. Pedi que Cléssio esperasse. Abri o vidro e ele abaixou-se junto à janela do carro.
-Esse tal Alfredo que o senhor procura é um bem velhinho, forte, com cabelos brancos…
-Sim, parece esse mesmo! – Eu disse animado.
-Olha, infelizmente, esse veio a óbito. Eu não disse porque eticamente, sabe como é, a gente não pode…
-Sei, sei. Relaxa. Sou amigo dele faz tempo. Ele esteve em coma aí, não foi?
-Sim senhor. Ficou em coma muito tempo aqui, coitado. Parece que o velho caiu no banheiro.
-Tem muito tempo que ele morreu?
-Não… -Ele disse. Eu não sei dizer o dia certo, mas não tem muito tempo não. Coisa de um mês mais ou menos. Engraçado que…
-Que? -Indaguei curioso.
-Engraçado que parecia que ele ia sair dessa. O estado dele estava bom, funções vitais, tudo. lembro que o Doutor Carlos até comentou que se surpreendeu. O Velho morreu duma hora pra outra. Uma coisa triste.
-É… – Eu gemi. – E a família?
-Ih, rapaz, isso eu não sei. A gente fica aqui no hospital, gente entra, gente sai… Sabe como é.
-Sei sim. – Eu disse. Mas logo o maqueiro me interrompeu:
-Olha, se você der um pulo na Funerária Santa Clara, é capaz de o Marcinho da funerária saber te informar mais sobre a família. Eu tenho quase certeza que o corpo foi para a Santa Clara. Fica aqui no centro mesmo. – Ele disse, tragando a guimba do cigarro. Deu dois tapinhas de leve no capô, como que encerrando o papo. Eu tomei notas no caderninho, agradeci e pedi para Cléssio tocar o carro para a funerária.

Cheguei lá e estava fechado. Concluí que talvez estivesse fechada para almoço.
De posse daquela pista, fui direto para o IML de Cruzeiro, na Av. Theodoro Quartim. Lá consegui obter as informações que eu queria. Um idoso que se chamava, na verdade, Aluísio Alfredo havia morrido no hospital da cidade. O funcionário me mostrou o atestado de óbito no computador.

Voltei para a funerária e lá chegando, encontrei o tal do Márcio, que havia voltado do almoço. Ele disse que se lembrava do caso sim, e me informou que o enterro e velório foram pagos pela família do idoso, que era quase toda do Rio. Felizmente, numa agenda ensebada da gaveta, Márcio sacou o endereço do velho. Agradeci e entrei no táxi. Passei o papel para Cléssio.

-Bora! – Ele disse, antes de acelerar o Santana.

Minutos depois, chegávamos a uma chácara, nos fundos da linha do trem. Notei o mato alto e plantas bonitas cheias de flores na entrada. A casa aparecia abandonada.
Forcei o portão, que abriu sem dificuldade, já que a corrente que o prendia estava solta. Cléssio ficou esperando no carro.
Entrei na casa, e fiquei batendo palmas igual um bocó, sem sucesso. Não veio ninguém, então eu fui entrando.
A casa se descortinou após uma entrada com plantas altas e num jardim que devia ter um gramado, agora era um matagal.
Subi no alpendre e bati. Ninguém veio. A campaínha não funcionava e concluí que desligaram, a luz.
Eu forcei a porta, mas estava trancada. Dei a volta e achei a entrada dos fundos, perto de um tanque de concreto escurecido pelo limo ressecado.
A porta dos fundos abriu fácil, pois estava apenas encostada.

-Olá? Alguém aí? – Gritei. Nada. Não houve resposta nem eco, nem nada.

Entrei na casa e cheguei na sala. Parecia arrumadinha. O cheiro era de mofo. Havia pó acumulado no sofá de curvim e uma antiga televisão ostentava uma bela teia de aranha entre as duas antenas abertas em V sobre o aparelho. Tinha um piano velho num canto da parede.

Eu entrei e comecei a vasculhar a casa, esperava encontrar uma foto. mas na sala não havia nada.
Subi as escadas de madeira que estalavam sob meus pés. Cheguei no quarto.
Ali havia uma cama de casal, toda bagunçada. Os lençóis estavam embolados. Vi a lanterna no criado mudo.
-Puta merda! – Falei baixinho.
Sobre a cômoda, no canto do quarto haviam uns retratos. Reconheci imediatamente numa velha foto embaçada e amarelada porque pegava sol na cômoda. Era ele. Velho, sorrindo, ao lado de uma senhora que julguei ser sua esposa. Engraçado como ele parecia uma versão gorda do Jaques Custeau. A sensação de dar de cara com ele foi algo que não sei descrever.
Eu estava entretido olhando aquela foto quando ouvi um barulho atrás de mim.

Soltei um gemido de susto quando me virei.

CONTINUA

15 comentários em “A caixa – Parte 13”

  1. Tá dando uma surra legal em várious outros contos seus! Me pergunto se fosse uma mini-série, como iria se passar dentro da escuridão da caixa.

  2. O amigo ali em cima tem razão, A Caixa tá superando outros contos seus aqui. Só não supera Zumbi e a Busca de Kuran porque eles estão para mim no mesmo patamar que A Caixa. Estou gostando cada vez mais do conto.

  3. muitíssimo legal Felipe,há anos que eu acompanho o blog, e um conto que o pessoal não comenta muito que eu adorei foi o “cartão negro”.
    Esse conto daria quase um Longa.
    Tenho um amigo que adora seus contos também e tínhamos muita vontade de filmar com seus roteiros.
    seria interessante.
    o que você acha?

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