A cadeira obscura – Parte 5

Renato foi até a porta. Já havia se passado pelo menos dois minutos sem nenhum som. O riso de criança havia sumido, e as batidas haviam cessado.

Ele encostou o ouvido na porta para se certificar. Fosse quem fosse que estivesse fazendo aquilo, certamente queria perturbá-lo. Renato voltou para a cama e sentou-se ali. Já não conseguiria mais dormir. Aquilo tudo parecia estranhamente anormal. Sentiu-se tonto. A curiosidade lhe corroía por dentro.

Renato foi até a porta novamente, decidido a abrir. Num só golpe,desvirou a chave e puxou a maçaneta pensando em “seja o que Deus quiser!”

Deparou-se com um corredor escuro, iluminado no fim pela luz fraca que vinha da recepção no primeiro andar.

Ao longo do enorme corredor, só se viam as portas escuras. Meia dúzia delas. Quem quer que tivesse batido na porta dele, devia ter fugido.

Renato estava satisfeito e aliviado. Então fechou a porta e ia voltar para cama quando, ao se virar,  ficou petrificado com uma visão atormentadora: Havia um bode preto enorme sobre a cama, olhando para ele.

Um zumbido aterrador se apossou de seus ouvidos e Renato caiu no chão, tendo uma convulsão.

Acordou na cama, se debatendo em meio a uma poça de suor. Os seus olhos ardiam. Desesperado, procurou pelo quarto inteiro, mas não havia sinal do bode. A pizza ainda estava sob a mesinha com moscas passeando sobre o queijo.

-Puuuta que pariu! Foi um pesadelo. Um pesadelo! – Comemorou.

Foi até o banheiro, molhou o rosto. Meteu a roupa e desceu. Fez check out no quarto e como o hotel não tinha café da manhã, ele precisou ir até a padaria que havia na esquina.

Ali tomou um café preto bem amargo com um pedaço de pão. A cena do bode preto sobre a cama não lhe saía da cabeça.

-Malditos pesadelos! Isso que dá comer pizza igual um glutão antes de dormir.

Renato foi até o orelhão da rua e ligou para Mark, em Curitiba. Mark era seu sócio, um americano aposentado, que investiu dinheiro no projeto das lojas dele. Mark tomava conta da loja dos Estados Unidos, e Brasil, enquanto Renato era responsável pela loja na Alemanha.

Mark ficou intrigado com a história da cadeira, do bode e dos assassinatos na casa grande.

-Compra a cadeira! – Disse Mark.

Renato explicou que o caso da cadeira era mais complicado, porque ela estava na casa abandonada, naquele pequeno lugarejo onde o povo tinha medo até de passar em frente. Contou da dificuldade de encontrar os parentes do Venâncio e disse que achara apenas um primo, que não parecia estar disposto a negociar a casa.

-Precisamos da cadeira, Renato! – Respondeu Mark, rispidamente. – Dê seu jeito!

-Acho que pode não sair barato pra nós. – Disse Renato, escondendo de Mark o detalhe do armário ter virado de cabeça para baixo. – O velho disse que sabe que as terras deveriam ser dele… Prevejo que ele pode querer levar vantagem tentando ganhar uma bela grana por conta das questões fundiárias das terras…

-Entendo… Olha,  faz o seguinte, me liga lá pras três da tarde. Acho que podemos fazer um esquema de ponte, garantindo o nosso. Teve um cliente ricaço que certa vez apareceu aqui querendo me vender um livro encadernado em pele humana do século XVII… Ele certamente se interessará pela cadeira que você descreveu. Vou negociar com ele, tentar despertar o cara. Se rolar, te falo e a gente aperta o velho na negociação.

Renato concordou e reconheceu que seria mais seguro para os negócios se deixasse Mark fazer uma “ponte”.
Assim que desligou, Renato ligou para o ponto de taxi. Atendeu um tal de Hugo, e Renato mandou chamar o seu Flávio.

Seu Flávio custou a atender, e quando finalmente atendeu ao chamado, achou estranho:

-Meu filho é mais fácil e mais barato pegar um taxi aí mesmo do que eu ir aí te buscar.

-Sabe o que é, seu Flavio, é que eu gostei da conversa de ontem e queria ter mais um bocado de prosa com o senhor. Pode vir que eu pago.

O velho concordou e eles marcaram na praça, em frente a igreja da matriz.

Renato foi até a praça, e sentou-se num banco de concreto onde podia admirar as crianças brincando tranquilamente no parquinho. A praça era repleta de grandes e bonitas árvores e o sol se filtrava através das folhas dando ao lugar uma bela paisagem.  Renato estava absorto olhando para a árvore e pensando em como negociaria a compra dos móveis e da tal cadeira obscura quando um som lhe aterrorizou.

-Béééééééééééé – Um bode berrou bem perto dele.

Renato deu um grito de pavor e caiu sentado no chão, ao lado do banco da praça. O grito de Renato foi tão desesperado, que as pessoas chegaram a sair das lojas, e até da igreja para ver oq eu tinha acontecido. Muitos já estavam rindo da cena quando o jornaleiro, um homem gordo de bigode farto veio até ele.

-Calma, rapaz. É só o bodinho da praça. – Disse o gordão. – Ele está ai levando as crianças para passear de charrete há uns cinco anos, nunca mordeu ninguém.

Renato estava sem ar, assustado. Levantou-se com a ajuda do jornaleiro, meio sem graça. Notou as pessoas rindo dele.

-Sabe o que é? Acho que tenho fobia desses bichos… Essa noite sonhei com um que me perseguia.

-Eu sei como é, minha filha se pela de medo é de barata… – Disse o jornaleiro, sorrindo.

Renato voltou para o banco da praça, pediu um jornal e ficou lendo, tentando esperar que a vergonha passasse.

Minutos depois, sua leitura era despertada por uma buzina ridícula. O corcel branco estava estacionado bem na frente dele.  Renato foi até seu Flávio.

-Demorei? – Perguntou o velho.

-Nada, tudo bem… Eu estava distraído, nem sei. – Respondeu Renato, acenando para o jornaleiro.

-Pra onde, professor?

-Vamos lá pra vila… – Disse Renato.

Enquanto seu Flávio viajava com seu carro velho em velocidade de lesma pela estrada, Renato puxou a conversa.

-Sabe, seu Flávio… Eu pensei naquele lance que o senhor falou ontem, de que estava doido para ver se aquela casa abandonada desabasse logo, e acho que posso te ajudar. Eu tenho um conhecido, que é dono duma empresa de demolição, e se o senhor quiser, eu posso falar com ele…

-Demolir a casa do Venâncio?

-Sim, porque sem ela la, naquele terrenão enorme, dá pro senhor abrir até um negócio…

-É verdade… -Disse o velho. – Meu sonho era botar tudo abaixo e fazer um estacionamento ali. Estacionamento é o melhor negócio, porque o dinheiro entra, não precisa de muito empregado… Não dá aporrinhação. Não gasta gasolina…

-Então… Como o senhor é o único parente, acho que o senhor poderia autorizar, eu posso ver com meu amigo e ele faz um preço camarada para o senhor.

-Ah, meu filho, mas aí que mora o problema. Não tenho dinheiro. A praça mal dá o que me serve para comer e morar…

-Olha, seu Flávio, o senhor foi tão legal comigo, que posso falar pro meu amigo e quem sabe a gente não acerta esse pagamento com material de demolição? Ele joga a casa no chão e a gente fica com as coisas velhas e quebradas que puderem ser revendidas, assim, a gente quebra seu galho e o senhor não vai precisar pagar nada, ainda vai se livrar do entulho.

O velho nada disse, apenas dirigiu, completamente mudo, por pelo menos dois quilômetros. Sem saber o que esperar, Renato ficou em silêncio.

Quando já estavam prestes a pegar à esquerda na estrada de terra que levava para a Vila o velho socou o volante e disse. – Tudo bem… Eu topo, mas com uma condição.

-Que condição?

-Se acharmos ouro ou jóias, ou qualquer outra riqueza lá, é tudo meu.

-Bom, acho uma coisa sensata, afinal, a casa é da família do senhor, né, logo tudo que está dentro também é. Agora, meu amigo vai precisar dos móveis velhos para vender.

-Ah, pode ficar com eles, aquela merda deve estar cheia de cupim a essa hora…

-E a tal cadeira também… Aquela do…

-Cruz credo, aquilo pode ficar de graça! Pode levar na hora, pode explodir aquela merda. Não quero nem olhar pra aquilo!  – Disse o velho, estacionando o carro na praça da vila, em frente ao casarão.

Renato abriu um sorriso de orelha a orelha. Era justamente o que ele queria que acontecesse.

-Então aperta aqui. Vou usar o telefone do ponto para ligar pra ele e ver quando ele pode vir aqui fazer seu estacionamento, meu amigo! – Disse Renato estendendo-lhe a mão.

Os dois apertaram as mãos e minutos depois Renato dava as boas notícias para o Mark.

-A cadeira é nossa de graça mais todos os móveis!

-Porra, como conseguiu isso, guri?

-Prometi que íamos demolir a casa para ele fazer um estacionamento.

-Só isso? Demolir?

-A casa já tá meio caminho andado. Basta um sopro. – Riu Renato.

-Bom, então, fica aí. Estou mandando o Junior com os três filhos mais o caminhão aí. Eles vão tirar tudo e depois a gente acerta com eles o por fora para botarem a casa abaixo.

-Mark?

-Fala.

-E o defunto?

-Bom, você me disse que ninguém sabia que o morto estava lá dentro…

-Sim, o povo diz essas coisas… Mas certeza ninguém tem. Só eu que vi o véio lá. Caveirão mesmo.

-Deixa quieto, a gente enterra ele nos escombros mesmo. Senão vai dar polícia, vai dar bombeiro, pode complicar. Se o Patrimônio Histórico descobre a casa pode dar merda e embolar tudo. Temos que botar abaixo sem alarde.

-Ok. Vamos fazer isso. Manda os meninos e manda eles trazerem a minha mochila, ficou la no meu carro aí no estacionamento.

-Tudo bem.

-Você conseguiu falar com o cliente lá? O cavernoso?

-Sim, falei com ele e a princípio ele se interessou muito. Quer ver para fechar o negócio. Mas se você tivesse aí uma foto, facilitaria bastante.

-Negativo, não tenho. Só entro na casa com os meninos mais o Junior!

-Eles devem estar chegando aí amanhã. Entra lá, traz a cadeira e vamos fazer um dinheiro bom!

Renato se despediu de Mark.

Foi até o corcel branco e disse ao seu Flavio: – Os caras da demolição já chegam amanhã!

-Tão rápido?

-Claro! Vamos logo botar essa monstruosidade abaixo. – Disse ele.

O velho deu de ombros. – Tomara que tenha algum ouro lá!

Renato saiu e andou pela pracinha, em busca de um lugar para comer. Achou uma pensão chamada “prato caseiro”. Ali ele sentou-se numa velha mesa de sucupira e pediu um combinado de comida mineira.

Renato estava comendo calmamente, se deliciando com um pedaço de aipim frito que desmanchava na boca quando alguém sentou-se à mesa com ele. Era o Dodó da Fátima.  Parecia nervoso.

-E aí, Dodó.

-Oi Seu Renato. Desculpa aí atrapalhar seu almoço. Vi o senhor atravessando a praça e…

-Como que está? Fica à vontade. Pega um prato. Come aqui comigo esse feijão tropeiro!

Dodó não se fez de rogado e encheu o prato de comida. Pediu uma cerveja.

Enquanto comia, Dodó olhou nos olhos de Renato e disse: – Tenho uma coisa estranha para te falar, seu Renato.

-Que foi?

-Sonhei com ele.

-Ele?

-O bode. Ele apareceu pra mim de noite, em cima da minha cama…

CONTINUA

 

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9 comentários em “A cadeira obscura – Parte 5”

  1. Bah, Philipe…….tu deixa a gente só na vontade de saber o desfecho do negócio. Tá ok, vamos imaginando o final, até que chegue! Abraços, parabéns pelo teu trabalho.

  2. Parabens Philipe. Muito legal o conto. Interessante que ao ler, fiquei com a impressão de que a qualquer momento, apareceria o Leonard! Ahh. tem um parte em que parece trocado o nome do Renato e Flavio “-Olha, seu Renato, o senhor foi tão legal comigo,…”.

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