A cadeira obscura – Parte 2

– E aí ele fez a cadeira? – Perguntou Renato, intrigado com a história do bode preto.
– Fez. – Disse o menino.
– E tá la dentro?
-Diz o povo que tá, mas não sei. Ninguém tem coragem de entrar aí. Só o Dodó da Fátima que entrou.
-Esse Dodó entrou?
-O Dodó da Fátima entra em qualquer lugar, moço. Até na sua cueca, se bobear. – Riu o menino que segurava a bicicleta.
-O tal do Dodó, entrou e viu o que lá? Ele falou?
-Ele pulou o muro pelos fundos, disse que tem muito mato, mas depois do matagal ele conseguiu quebrar o cadeado da porta da cozinha e entrou. Disse que a casa ta igualzinha e dá pra ver até as marcas pretas do sangue no piso. Mas ta muito suja, tem ninho de rato pra todo lado aí dentro. E o cheiro de enxofre…
-Ah, esse Dodó deve ter inventado isso.
-Ó, é bem capaz, ele é meio mentiroso mesmo, seu moço.
-Mas o que mais ele contou? Ele achou o que la dentro?
-Ele disse que foi entrando, mas ta com muita teia de aranha, a casa ta cheia de aranha, uns aranhão preto que dá medo. O Dodó se caga de medo de aranha, então ele foi rapidinho, disse que só entrou porque era aposta com o Messias da venda. A aposta era de dormir uma noite lá, mas o Dodó ficou com medo e rapou fora.
-Então ele não mexeu em nada?
-Dizem que não… Mas vai saber, né?
-Cê me apresenta o Dodó, garoto?
-Sim senhor, mas cadê o resto do dinheiro do trato?
-Toma aqui.
-Cinquenta Tio?
-Sim, pra você me levar até o Dodó.
-Vem! Vem, a casa da dona Fátima é logo ali depois daquela porteira lá. – Disse o menino, pedalando vigorosamente a bicicleta enferrujada.
Renato o seguiu a passos apressados.
Quando finalmente chegou, sem fôlego, o coração quase saindo pela boca, o menino já estava sobre o muro duma casa de tijolos aparentes, berrando a plenos pulmões pelo tal Dodó.
-Dodóóóóó…. Ô Dodóóóóó….
O garoto berrava quase que como uma sirene e surgiu uma mulher gorda na janela.
-Que é? Acabou o sacolé!
-Dona Fátima, cadê o Dodó? – Ele perguntou. A dona gorda nada disse. Apenas olhou fixamente para Renato, que estava ao lado do menino.
-Que foi? O que ele… Fez? – Disse ela, séria.
-Esse moço aqui tá procurando ele.
-Ih ó, moço… Não sei onde que ele tá não. Tem dez dias que ele sumiu aí. Disse que ia pra São Paulo. – Falou a dona, fechando a cortina sem deixar espaço para que Renato falasse qualquer coisa.

Renato olhou para o menino, que tinha uma expressão estranha.
-Parece que o Tal Dodó já era.
-Já era nada. Espera aí, tio.

O moleque pulou para dentro do quintal e correu para os fundos da casa.
Renato sentou no chão da calçada toda rachada. Agarrou um matinho e ficou picando pedaços, planejando como faria para entrar naquela casa. Certamente, se ela estava fechada há tantas décadas, devia haver algo de valor la dentro. Não era possível que o tal Venâncio tenha acabado com tudo, e com todos. Certamente deveria haver, em algum lugar, um descendente, um parente que pudesse vender os moveis, se bobear até o terreno e a casa. Talvez fosse o melhor… Comprar de porteira fechada, como se dizia.

Renato estava absorto em pensamentos quando um estalo aconteceu e ele se assustou. O portão de ferro abriu e surgiu o menino da bicicleta puxando um homem magro e alto pelo braço. Era um sujeito feio, com olhos fundos, magro, quase raquítico. Podia se contar todas as suas costelas. A pele escura era pontilhada de tatuagens e o cabelo parecia uma escultura. Olhando de longe, ele lembrava até um coqueiro.
-Aqui o Dodó, tio. – Disse o menino.
-Prazer, Dodó.- Disse o sujeito, que parecia ter dezoito, dezenove anos.
– Olá. Sou Renato. Ué… Você não tava em São Paulo?
-Desculpa, moço, é que minha mãe pensou que o senhor era polícia. Sabe como é. – Disse ele, sem graça coçando a nuca.

Dava para ver que o Dodó era o que se chamava antigamente de mau elemento. Devia ser metido em todo tipo de pequenos furtos.Isso explicaria sua fama de “entrar até na cueca dos outros”.

-Nada, rapaz. Tô fora de polícia. O papo aqui é outro: Grana. Segura aí. – Disse Renato, puxando uma nota de cinquenta do bolso.
-Opa, tá falando minha língua. – Disse Dodó agarrando o dinheiro.
-Ó minha comissão, hein, Dodó! Não esquece! – Disse o menino. Mas nem Renato e nem Dodó deram a mínima para o garotinho.
-O papo é o seguinte… Tô querendo dar uma olhada na casa da praça. A do seu Venâncio.
-Sei. Ele já me falou. Já adiantou que o senhor quer saber o que tem dentro e tal… Mas tá cheio de aranha. Tá perigoso lá!
-Tudo bem, pago um extra pelas aranhas, Dodó. Eu quero mesmo é que você me dê cobertura que eu vou entrar lá essa noite.
-Pô, seu Renato. O negócio é o seguinte… Pra entrar lá é melhor de dia, porque a casa ta muito perigosa e já vai escurecer. Olha aí!

Renato olhou para o céu. Dodó estava certo. A noite se aproximava. Mas havia pelo menos uma hora de luz.

-E se a gente for agora?
-Agora?
-Isso.

Dodó olhou para o menino. O garoto fez um joinha estendendo o polegar para cima.
Dodó correu em casa. Voltou com uma camisa de manga comprida e um par de tênis de cano alto. Nas mãos levava uma lanterna grande, do tipo usada para pescar.

-Bora! – Ele disse, já saindo em direção à praça.
Renato correu atrás e poucos minutos depois, os três estavam diante do grande muro que circundava a propriedade. Nos fundos, havia uma casa em obras, cheia de andaimes e calços de madeira. Dodó entrou na obra.
-O caminho é por aqui, seu Renato! – Disse ele, apontando um muro interno da casa em obras. Eles pularam para dentro da construção e dali podiam ver o enorme muro que separava a casa em obras da casa dos Venâncio.
Dodó olhou com cuidado pelo muro, como se buscasse alguma pista.

-Que foi? – Perguntou Renato, intrigado com a hesitação de Dodó.
-Shhhh. Calma. – Ele disse. Virou-se para o garoto e falou: Fica de vigia aí! – Então Dodó fez o sinal da cruz.
-Tá bom! – O menino respondeu.

Dodó deu uns quatro passos para trás e num salto que pareceu até mágica, subiu no ar com um impulso que Renato nunca tinha visto fora de jogos da NBA.
Ele se agarrou no alto do muro, bem na parte onde não havia cacos de vidro. Dali, Dodó ergueu o corpo com incrível facilidade. Parecia um gato. Segundos depois, já estava de pé, equilibrando-se sobre o muro estreito e antigo do casarão.

-O senhor vai ter que pular. Vou agarrar seu braço e te puxo. Disse Dodó esticando o longo e fino braço cheio de tatuagens incompreensíveis.

Renato subiu no quadro da bicicleta e pulou. Dodó agarrou seu braço no ar, e o ergueu. Apesar de magrelo, ele era muito forte.

-Nossa. Que terreno enorme! A casa parece muito maior vista daqui de cima.
-Sim, é verdade. – Respondeu Dodó.
-Mas por que não entramos pela grade da frente?
-O povo não vai gostar de ver a gente entrando aqui. Além do mais, aqueles marimbondos da grade botam qualquer um pra correr. Aqui por trás não tem os marimbondos, mas tem o problema do matagal. Pode ter cobra. A gente vai ter que pular e correr direto na direção da casa.

Renato deu uma boa olhada e percebeu que o mato no terreiro dos fundos do casarão devia estar a quase três metros de altura. Seria uma missão bem difícil saber em que direção correr.

-Tá pronto?
-Vamos! – Disse Renato.
Dodó saltou do muro e afundou no matagal.
Renato pulou logo atrás e foi correndo no vácuo de Dodó. O mato era impenetrável e a luz do dia estava se esvaindo aos poucos, tornando massas escuras cada vez mais presentes no terreno da casa. Nuvens de mosquito se levantaram e pássaros saíram voando. Enquanto dodó corria pelo meio do mato, ele ia falando coisas que Renato tentava entender, mas o som das folhas secas se partindo e do mato tornavam a conversa quase que um monólogo incompreensível. Renato só conseguiu discernir as palavras “vamos”, “logo” e “morcegos”.
Quando finalmente alcançaram a parte de trás da construção, foi um alívio. O matagal ficara para trás.
Ali, diante deles, estava a porta com o enorme cadeado antigo, todo enferrujado.
Dodó habilmente puxou o cadeado e ele se revelou quebrado.

Renato aproveitou para jogar o cadeado no bolso, pois para colecionadores, um cadeado antigo daqueles certamente que valeria algum dinheiro.

Entraram na casa. A pouca luz que adentrava pelo telhado da cozinha, parcialmente desabado, inundava o ambiente. O som que se ouvia eram os ecos dos fragmentos de telhas se partindo sob seus pés.

Dodó magicamente se tornou mudo. Era como se a casa exercesse uma certa pressão. Uma pressão que produzia uma sensação estranha de invasão, e tragava um ar solene com cheiro de poeira e mofo.

Eles foram entrando. As tábuas do piso estavam quase todas afundando e macias, podres e muitas já comidas pelos cupins até só restar uma fina casquinha. Renato em silêncio, apenas torcia para que os cupins não tivessem se refastelado dos móveis antigos. Aliás, todos eles continuavam lá. Intactos, cobertos de uma camada generosa de sujeira, poeira e fuligem.
Dodó acendeu a lanterna. Renato olhou cada móvel da sala. A maioria dos móveis eram franceses, e seu estilo indicava que a casa deveria ter mais de cem anos, com toda certeza.

Avançaram lentamente, passo após passo. Eventualmente, Dodó apontava as grandes aranhas nos cantos, com seus novelos de teias. Dodó usava a lanterna para abrir passagem pelo emaranhado das teias nos estreitos corredores. Rapidamente a casa ficava mais e mais escura, e Renato agradeceu mentalmente pelo magrelo Dodó ter lembrado de pegar a lanterna. As paredes eram puras marcas de água, escorridos estranhos e manchas de umidade, bolor e mofo. Eventualmente, quadros grandes de pintores desconhecidos apareciam, ora entortados nas paredes, ora jogados pelo chão, com molduras destruídas.
Num dos cômodos, Renato viu um antigo cofre de ferro escuro e que estava com a porta aberta, um indício de que já haviam entrado na casa e dilapidado tudo que achavam que tinha valor.

Este é o quarto do seu Venâncio. Disse o Dodó, apontando para uma grande porta no fim do longo corredor. A porta estava trancada, lacrada com um grande X de tapumes de madeira.

-Será que nunca ninguém entrou aí? – Perguntou Renato.
-Acho que não. Dizem que o velho Venâncio morreu aí dentro e trancaram ele.
-Vamos abrir essa merda. – Disse Renato.
-Ei…. Ou! EU não combinei isso. Eu combinei de entrar. Eu não disse que ia levar o senhor lá dentro do quarto do velho!
-Ora, deixe de bobagem, rapaz. Vamos ver que merda que tem aí? Não está curioso? – Perguntou Renato.
-Não… Não. Eu tenho medo. Aliás, respeito. O homem tá morto aí dentro. Todo mundo da vila diz que…
-Ah, foda-se todo mundo da vila. Deve ter coisa de valor aí, Dodó!
-Pô, não leva a mal, seu Renato. Mas eu não tô com um bom pressentimento e…
-Nem por duzentos mangos? – Perguntou Renato mostrando duas notinhas de cem.
-O senhor sabe convencer, hein? – Disse Dodó, pegando as notas e enfiando no bolso da bermuda surrada.
-Ah, agora sim, né?
-Vamos ter que achar alguma ferramenta, Seu Renato. Talvez seja melhor voltar amanhã e…
-Shhhh! Que nada. Vamos nessa agora. Vamos aproveitar o momento.

Renato correu de volta até a cozinha em busca de alguma ferramenta. Nas gavetas, encontrou diversos utensílios, mas nenhum parecia apropriado para arrancar as tábuas pregadas em “X” na porta.

-Achei um ferrão aqui! – Disse Dodó na sala. Ele apareceu na cozinha com uma barra de segurar a porta, uma barra de ferro grossa.

-Uau. Aposto que vamos conseguir arrombar com isso!
-“Vamos”,não! O senhor que vai. Toma aí. – Disse Dodó, estendendo-lhe a barra.

Renato estava decidido e foi até a porta. Enfiando a barra pelos espaços entre as madeiras e fazendo-a de alavanca, conseguiu soltar as placas de madeira. Uma a uma, as placas se soltaram do portal, revelando grandes pregos enferrujados. A porta estava liberada, mas ainda permanecia trancada.

Renato deu um impulso e meteu o pé na porta. Ela fez um grande estrondo e rachou um pouco ao redor da fechadura. Foram precisos três pancadas com o pé, dele e de Dodó para a porta finalmente se partir e ceder, abrindo uma ripa vertical estreita, por onde dava para passar meio corpo.
Assim que a nuvem de poeira esvaneceu, Dodó lhe passou a lanterna.
Renato apontou o facho e olhou lá pra dentro. O que ele viu no quarto, o arrepiou da cabeça aos pés.

CONTINUA

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14 comentários em “A cadeira obscura – Parte 2”

  1. Que sorte entrar de novo no site hoje e encontrar a segunda parte!
    O problema vai ser esperar pela continuação!
    Tu realmente sabe deixar aquele “gancho” que faz o leitor ficar louco de curiosidade, hein?! 🙂

  2. Muito bom, Philipe. Fora desse assunto, estava vasculhando alguns posts até que uma notícia Gump me atraiu nas sugestões acima dos comentários. Quando desci a página, levei um maior cagaço da imagem do maluco. Era um post de um vídeo em que o cara arranca os olhos olhando para uma câmera e manda um sorrisinho no final, então o YouTube cortou a parte violenta. Nem me arrisquei em clicar no link para o original, ainda mais citando os supostos suicídios. 0-0

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