A busca de Kuran – O primeiro passo no desconhecido

Eu estava atrás da pedra em forma de bola, e por isso os membros do grupo não viram quando eu me virei e dei de cara com… Aquilo.

Era um homem velho, de aparência decrépita, que estava me olhando fixamente. A esquálida mão agarrada firma no meu braço. Ele vestia um manto preto e não parecia feliz. O misterioso velho fez uma coisa ainda mais estranha que sua aparência. Ele falou sem mexer a boca. Ele falou dentro da minha cabeça.

-O que você faz aqui?  – Ele perguntava, insistente.

Eu estava completamente borrado de medo e não consegui responder. Estava tremendo e achei que ia ter um colapso nervoso. Eu tentei me desvencilhar daquela estranha figura de manto, e quando ele me soltou, eu caí em meio aos ossos. A câmera se soltou da minha mão e rolou pelo chão.  Senti a maior fraqueza que alguém poderia sentir. Do chão, eu vi o homem velho, descalço, vindo na minha direção. Ele habilmente desviou dos ossos.

Por uma fração de segundo, tive raiva de Leonard e sua babaquice de me mandar sozinho para aquele lugar. Estava claro que o lugar não era comum. Aquela pedra, aqueles ossos, o meu sonho. Agora eu via, do chão, fraco que não conseguia sequer me levantar, o estranho e pálido velho vindo na minha direção. O medo me consumiu. Achei que ia desmaiar. Mas a estranha figura parou a cerca de um metro de onde eu estava e ficou apenas olhando pra mim e seus risos ecoaram dentro da minha cabeça. Senti uma energia pesada emanando dele.

O velho abriu um sorriso com seus dentes podres. E tornou a falar na minha cabeça.

-Você é um verme. Um nada. Você não vale um segundo da minha atenção. Vá embora. Volte para o lugar de onde você nunca devia ter saído. Você não sabe quem você é. Não sabe o que está fazendo aqui, não sabe nem que lugar é este e muito menos imagina quem sou eu. Com toda sua ignorância, é um milagre que esteja vivo. Você não é digno de pena, mas eu não vou matá-lo. Vou dar uma chance para que reúna seus amigos e saia do meu deserto. Vá embora, profanador. Vá embora enquanto ainda há tempo. Não haverá outro aviso.

-Quem é você? – Foi tudo que eu consegui balbuciar.

-Eu sou o seu medo. Eu sou o horror. Eu sou a morte e a desolação. Eu sou o aviso final. Eu sou o guardião. Agora vá embora. Saia daqui. E não retorne jamais.  – Ele disse. As palavras ecoavam na minha cabeça como bombas. Tudo começou a escurecer e a última coisa que eu vi foram os olhos injetados do velho apontados pra mim.

Desmaiei.

Não sei exatamente quanto tempo passei caído ali em meio aos despojos humanos, mas subitamente despertei em meio aos ossos. A câmera caída à minha frente. Ao meu lado, estava um crânio sem os dentes. O calor era avassalador. Minha garganta estava cheia de areia. Comecei a tossir freneticamente.

Levantei-me. Peguei a câmera e saí cambaleando, dando a volta na pedra.

Ao longe, vi Leonard acenando. Me esforcei para voltar rápido até eles. Mas eu me sentia fraco.

Quando eles viram que eu estava cambaleando, vieram correndo. Antes que eles chegassem onde eu estava, desmaiei novamente.

No momento em que tornei abrir os olhos, dei de cara com o velho profeta, que passava um pano molhado na minha testa. Eu estava dentro da tenda. O profeta desatou a gritar e rapidamente Leonard entrou na tenda.

-Leonard! – Eu exclamei assustado. Mas interrompi quando o vi fazer sinal para que eu esperasse. Leonard então pediu com sinais para que o Profeta saísse da cabana. Ele queria conversar em particular comigo.

Quando o profeta finalmente entendeu e nos deixou sozinhos, comecei a conversa.

-Temos que dar o fora daqui, Leonard! – Eu estava assustado, com medo, na verdade, eu estava completamente desesperado.

-O que ele disse? – Perguntou o líder da expedição, sentando-se ao meu lado.

-Hã? O quê? Como você sabe? – Eu estava impressionado, pois  não havia dito nada sobre meu encontro com a figura misteriosa atrás da pedra. Como Leonard poderia saber?

Leonard Sorriu com ar misterioso. – Ele apareceu pra você, não foi? Diga, Wilson. O que você viu lá?

-Está cheio de ossos lá, como no meu sonho. Eu fui até lá, atrás da pedra tem ossos de muita gente espalhado. Eu estava tirando fotos e uma coisa agarrou meu braço. Era um velho.

-Um velho?

-Sim, um velho veio, quase uma múmia. Ele tinha cara de mau. Vestia uma roupa comprida, preta. Disse que era pra eu sair dali, que eu não era nada, não era ninguém.

-O que mais que ele disse?

– Eu não sei bem… Estava com medo. Ele agarrou meu braço e eu fiquei fraco. Caí no chão sem forças. O velho ficou rindo pra mim. Falava sem mexer a boca, na minha cabeça. Ele disse que era pra nós sairmos do deserto dele, que é para irmos embora enquanto é tempo. Eu ainda perguntei quem era ele, e ele disse que era o guardião… Ele surgiu do nada. Num minuto eu estava sozinho tirando fotos, no outro ele estava ao meu lado, agarrado no meu braço, ung! – Mostrei o braço ao Leonard. As marcas fundas dos dedos do guardião estavam desenhadas no meu braço.

Enquanto eu contava, Leonard acendia o cachimbo. Deu uma baforada e ficou me olhando.

-Porra, não vai falar nada? Vamos dar no pé, Leonard! Aquilo lá… Aquilo não é desse mundo!

Leonard riu. Era raro ele rir. Mas continuou quieto, fumando. Eu detestava aquilo nele. Leonard era um homem de pouco falar. Seus gestos eram contidos e ele raramente surgia como um professor, oferecendo conhecimentos gratuitamente. Mas não sei o que deu nele, talvez pena de me ver daquele jeito e então Leonard começou a me contar a verdade.

-Wilson… Você encontrou um guardião de círculo. Parabéns, não são todos os que saem vivos desta experiência. – Ele disse, entre baforadas no cachimbo. Então prosseguiu calmamente.  – Ele está aqui…  Para nos impedir de realizar o intento. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde ele iria aparecer. Quando os camelos sinalizaram, seus pesadelos mostraram o local, eu sabia que teríamos o primeiro encontro com o guardião.

-Leonard, pelo amor de Deus, cara. Para com essa palhaçada! Me diga, o que está acontecendo aqui? Eu quero ir embora, eu quero voltar pro Brasil, Leonard! Eu já estava quase chorando.

-Perdão, Wilson. Isso é impossível. – Ele disse, me olhando com ar sério.  – Agora estamos no meio da jornada. Nós vamos resgatar Kuran.

-Que diabos você está falando, Leonard? Eu não estou entendendo nada. Por favor, me conte a verdade.

-Tudo bem, Wilson. A verdade é que eu sou um mago. Eu pertenço a uma escola iniciática do século XV cujo nome você ainda não pode saber. Durante séculos os membros da minha ordem buscaram consertar um grande erro, ocorrido num ritual em roma, no ano de 1345. Magos negros abriram um portão e desde então uma série de entidades dos níveis inferiores se espalharam pela Terra. Evidentemente, essas entidades não desejam ser expulsas de volta para o lugar de onde vieram, e farão de tudo para impedir. Não é por outra razão que os numerários da minha ordem estão cada vez menores. Estamos caçando e sendo caçados.

Eu estava perplexo.  – Caçados?

-Sim. Mas não estamos facilitando pra eles. -Disse Leonard sorrindo, com o cachimbo pendendo no canto da boca.

-Todos os membros da caravana são… Magos?

-Claro que não, meu jovem. Só eu e o Petrus.  O resto são soldados mercenários, tradutores, uigures, locais… A maioria trabalha para caçadores de tesouros.

-Eu achava que você era um caçador de tesouros, Leonard.

-Eu sei. A maioria dos magos que se embrenha em locais remotos usa isso como disfarce. Existe um grande numero de artefatos antigos, pertencentes a escolas iniciáticas diversas. Esses itens eram escondidos a sete chaves e não raro, acabavam enterrados com deuses-divindades-reis. No dia a dia, vivemos como pessoas normais. Ninguém sai fazendo conjurações pelo meio da rua. Assim, quando um de nós realiza missões em busca de artefatos, somos confundidos pelos materialistas com caçadores de tesouros, profanadores de túmulos e até homens da ciência. Do mesmo jeito que você, quase ninguém acredita quando digo que estou indo matar um demônio. – Ele riu.

-Mas… Por que me contou a verdade? Por que não me contratou como os outros, oferecendo dinheiro e atiçando a cobiça de encontrar riquezas incalculáveis?

-Eu nunca te contratei. Você veio com suas próprias pernas. Mas você sabe melhor que ninguém que nossa relação é diferente. Desde que meu discípulo morreu eu estive em busca de outro a quem pudesse ensinar. Você era promissor.

-Eu?

-Sim. Por isso o teste com o rubi. Ainda está com ele?

-Sim… Está aqui no meu bolso. – Eu disse.

-Mas o seu discípulo, ele morreu?

-Morreu.

-Como?

-Foi caçado.

-Oh, merda…  – Eu disse. – Então quer dizer que o último que ocupou meu lugar morreu?

-Morreu.

-Mas espere… E se eu não quiser? E se eu não aceitar ser seu discípulo.

-Você aceitou.

-Aceitei?

-Sim.

-Ah, tá. – Eu disse, meio sem entender. Na verdade mesmo, eu levei algum tempo pra entender porque ele me escolheu.

-Vou te mostrar uma coisa. – Ele disse, tentando me animar. Leonard parecia empolgado. Mexeu na mochila no fundo da barraca e de lá tirou uma caixa de madeira escura que pareia um pequeno baú. Estendeu pra mim.

-Tá. O que é isso?  – Perguntei.

-Abra e veja.

Quando eu abri, ali estava uma adaga ricamente adornada com pedras preciosas. O interior da caixa era forrado de veludo vermelho e aquilo se refletia na arma esplendorosa.

-Meu Deus! É linda! – Exclamei. – Isso deve valer uma fortuna.

-Isso vale muito mais que dinheiro. O ouro que recobre esta arma já foi um ídolo ancestral. Pessas fizeram sacrifícios humanos e banharam com sangue o ouro que está na sua frente num tempo em que este deserto nem existia. – Ele disse com orgulho.

-Cruz credo. – Eu fechei a caixa e estendi pra ele.

-Nossa missão tem a ver com esta arma antiga. Ela pertenceu ao Rasputin, sabia?

-Quem?

-Ah, deixa pra lá. – Leonard disse, guardando a caixa com cuidado na mochila. – Você se sente bem?

-Tô bem. Eu acho… Nossa aquilo foi muito ruim.

-Ele drenou boa parte da sua energia vital. Eles são assim mesmo. Vá se acostumando. – Disse Leonard.

-Então aquele é o demônio que você veio matar? – Indaguei.

-Não. Aquele é apenas o guardião. O fato do guardião ter aparecido pra você aqui indica que estamos chegando perto. Vem, levanta, Vamos embora. Perdemos tempo demais aqui.

Ao sair da cabana, percebi que já se descortinava o manto da noite. Sob as ordens do Profeta, os uigures desmontaram o acampamento e era noite alta quando finalmente partimos. Olhei para trás e me senti feliz de ver a pedra redonda ficando cada vez menor até sumir na escuridão. Ainda hoje, tantos anos após aquela aventura ainda me pego pensando naquele estranho lugar. Certamente a pedra e as caveiras ainda estão lá, em silêncio, no meio do nada.

O vento do deserto esfriou bastante. Eu tremia como uma vara verde e por mais agasalhado que eu estivesse, o frio entrava, congelante. Senti o nariz dormente.

Mas agora eu me sentia empolgado, eu havia sido escolhido por Leonard para aprender o ocultismo, que não nego, me fascinava. Algo de bom ele devia ter visto em mim.

Naquela noite, enquanto caminhávamos em silêncio,  senti uma súbita saudade da minha família. Eu perdi meus pais quando tinha apenas três anos e cresci criado por um padre chamado Afrânio, que cuidou de mim como um pai adotivo. Ele era severo, ríspido, mas igualmente carinhoso. Tomou conta de mim, me vestiu e me alimentou até os doze anos. Quando Padre Afrânio morreu, emigrei sozinho, com a cara e coragem para São Paulo. Então, da minha família mesmo eu nem tinha lembrança. Não sabia se tinha irmãos ou não, e nem mesmo sabia os nomes dos meus avós. A única coisa que o padre me contou sobre os meus pais é que eles vinham do sul. Minha mãe chamava-se Alda e meu pai chamava Marcos.  Os dois morreram num incêndio. Eu fui salvo por um vizinho e todos disseram que havia sido um milagre eu escapar das chamas.

Desta forma, minha família inteira resumiu-se ao padre, e eu sentia falta dele. Curiosamente, apesar de ter crescido nos fundos da Igreja, nunca fui muito chegado numa missa. Aquilo frustrou o padre bastante, mas me mantive firme. Eu sabia que aquele não seria o meu caminho.

Eu sentia saudades do padre quando vi passar no céu uma luz.

-Uma estrela cadente! – Apontou Joseph.

Continuamos nosso percurso iluminando o caminho com as tochas. Leonard ia na frente, segurando o lampião e atrás dele, o Profeta, o líder dos cameleiros orientava os homens que puxavam os animais. Agora os camelos andavam mais devagar pois estavam carregados com a preciosa água. Ao lado da caravana, iam os soldados. Ao fundo, Edgard, o risadinha e Joseph Frankiel, que havia se tornado muito, muito chato com o decorrer da viagem. Joseph não parada de reclamar de bolhas nos pés. De fato, a areia penetrava em nossas botas de lona, e a fricção constante era suficiente para destruir o moral do mais empenhado dos homens. O fotógrafo alemão não era do tipo que reclamava atoa, e todos sabíamos que ele realmente estava sofrendo. Felizmente, ele havia resolvido nos seguir por conta própria e por isso não poderia colocar a culpa em ninguém.

Durante a jornada, era comum que eventualmente alguém se distanciasse do grupo. Quem mais fazia isso era Joseph, para tirar belas fotos da caravana. Mas não era raro que em situações críticas, nós nos afastássemos do grupo em busca de privacidade, sobretudo nos dias do surto de diarreia. Como o deserto era vasto, e nosso progresso lento,  bastava uma corrida e em pouco tempo estávamos reunidos na caravana.

Enquanto andávamos, na minha cabeça iam passando um misto de lembranças, medos, desejos, saudades. Eu sentia saudade das coisas mais simples, um banho de rio, um filme da matinê…

Fui despertado da distração absorta dos meus pensamentos e lembranças quando todos ouvimos um grito horrendo. Paramos a caravana e os uigures que estavam com as tochas iluminaram ao redor. Os camelos pareciam nervosos, dando trabalho aos cameleiros. Os homens da legião estrangeira apontaram suas armas para a escuridão do deserto.

-Socorro! – Ouvimos o grito abafado.

-É o russo! – Falou Robin Broca com a arma na mão.

-Alguém tá vendo ele? – Perguntou Leonard. Ninguém estava.

-Ele sumiu! – Alguém disse.

-Socorro! Socorro! – Ele gritava. Nós podíamos ouví-lo mas era difícil saber de onde vinha o som. A noite escura não ajudava.

Um dos uigures avistou alguma coisa na escuridão, e correu com a tocha na direção. Eu fui correndo atrás.

-Pára! Pára Wilson! – Gritou Leonard.

Eu parei a tempo de ver o Uigur despencar no chão, a menos de seis metros de onde eu estava. Ele foi afundando até o peito de uma só vez. Quanto mais se debatia, mais afundava. Os homens vieram até onde eu estava. Edgard Lukashenco era apenas uma mão, desesperada, agitando-se para fora da areia, tentando agarrar em alguma coisa. Ante nosso olhar de pavor, o homem uigur vendo o russo sumir no chão, desatou a gritar em total desespero. Mas foi impossível ajudá-lo. Nenhum dos outros Uigures se arriscou a se aproximar para salvar o amigo com medo de padecer do mesmo destino trágico. Ele gradualmente afundou enquanto chorava implorando ajuda. Quando seu rosto finalmente sumiu na areia, só restou um pequeno cone com areia escorrendo para dentro.

-O deserto os comeu. – Disse Leonard, baixando a cabeça.

Eu que nunca tinha testemunhado uma cena mais horrorosa na minha vida nem sabia o que dizer. Todos os homens da caravana viraram de costas para o buraco e foram embora.

-A partir de agora, ninguém se separa da caravana! – Gritou Leonard. – Vamos em frente! Avante!

Habilmente, Leonard colocou um dos camelos andando na frente e se posicionou no meio da caravana. De tempos em tempos, ele consultava a bússola e o mapa para podermos saber em que direção ir.

O que antes me parecia apenas uma vastidão desprovida de vida, agora se mostrava um campo da morte, uma armadilha para incautos e irresponsáveis como nós. Durante meses a imagem do Uigur desaparecendo lentamente enquanto estendia desesperado os braços para nós não me saiu da cabeça.

Já havíamos retornado a vastidão das dunas imensas e fofas. Eu pisava na areia com medo, temendo que a qualquer momento aquele lugar maldito  também me tragasse. Com uma tocha a menos, e dois homens desfalcados no grupo, o moral da turma estava baixo. Todos estavam andando em um silêncio mórbido e triste. A madrugada já ia alta e nós nos encontrávamos perdidos num labirinto infinito de dunas elevadas que se estendiam para o sul por quilômetros e quilômetros.

Naquela mesma madrugada, o camelo da frente despencou do alto de uma duna. Não sei se ele dormiu, desequilibrou com o peso ou foi vítima do cansaço. Só sei que foi uma gritaria danada quando o bicho de repente sumiu. O infeliz animal era o maior e mais forte da caravana e  desceu a duna que era gigantesca rolando. Descemos atrás.

Foi doloroso ver o animal contorcendo-se em agonia enquanto ajudávamos a se por de pé. Mas os esforços foram em vão. O pescoço do animal estava quebrado ou deslocado, girando descontroladamente de um lado para o outro. O meu impulso foi de pegar uma das armas e terminar de vez com o sofrimento do pobre animal, mas os cameleiros e Leonard se opuseram.O profeta colocou delicadamente a mão no focinho do camelo e disse alguma coisa, movendo a cabeça negativamente. Interpretei que ele dizia que o nariz do camelo estava frio e por isso o animal estava condenado.

O alvorecer já se iniciava e Leonard esperava que o camelo morresse naturalmente antes do dia raiar.Posteriormente, ele me disse a verdade: ” Os uigures acham que dá azar matar um camelo no deserto. Atrai maus fluidos.” Leonard temia que se eu matasse o animal, ficaria com pecha de atrair o azar para nossa expedição. E isso após perder dois homens engolidos pelas areias não parecia ser mesmo um bom negócio.

-Você não pode fazer nada para aplacar o sofrimento do animal? – Implorei.

-Posso. Eu posso eliminar o sofrimento dele imediatamente. Mas isso envolveria conjurar, e os Uigures veriam. Isso abalaria a segurança da missão. Os Uigures são muito supersticiosos, e cedo ou tarde, acabaríamos com punhais enterrados nas nossas gargantas. Isso é algo que você deve saber. Sempre seja o mais discreto que puder. Isso inclui os franceses, os ingleses, os portugueses e todos os demais, tirando o Petrus. – Em seguida, Leonard recostou na duna, cobriu a cara com o chapéu e dormiu.

Mas ao amanhecer, o camelo ainda estava vivo. Ele foi enfraquecendo cada vez mais, caído desamparadamente de lado enquanto sua resistência se esvaía a cada tentativa fracassada de se levantar.

-Se ele não conseguir retomar seu lugar na caravana, não nos restará outra alternativa senão matá-lo. – Disse Leonard. Esperamos cerca de uma hora, mas não houve jeito. Assim que o dia raiou em definitivo, os cameleiros se reuniram com o profeta e rezaram virados para Meca.  Nos ficamos sentados na duna, apreciando o trabalho dele. Em seguida, o profeta se ergueu e orientou os outros uigures a puxar o camelo, pela corda que prendia a cabeça às pernas do camelo, de modo que o animal também se voltasse para Meca.

Em seguida, o profeta apoiou com cuidado o joelho no pescoço do camelo. Ele afiou cuidadosamente o punhal de lâmina longa e fina que levava na cintura, e como um último gesto de respeito, curvou-se em reverência, até que seus lábios estivessem próximos à orelha do camelo. Então ele rezou.  O camelo foi lentamente se acalmando. Eu nunca soube se ele pedia perdão a si mesmo, a Alá ou ao camelo pelo ato de sacrifício. A execução se deu num único e preciso golpe. O animal estrebuchou, tremeu e estancou como uma estátua no segundo seguinte.

Quando se levantou, o profeta estava chorando. A execução do camelo teve um efeito devastador sobre nós. A atmosfera era sombria enquanto nos levantávamos e empacotávamos as coisas do camelo morto, distribuindo-as como fosse possível entre nós e nos dois camelos que haviam sobrado.  Antes de partirmos, um dos Uigures pegou um cutelo afiado e com algum trabalho, decepou uma das pernas traseiras do camelo morto. A carne foi cortada em grandes pedaços e ensacada para uso posterior. Contra todas as adversidades, não poderíamos desperdiçar a comida. Os outros dois camelos, que estavam sobrecarregados de coisas agora pareciam arredios e nervosos, tentando fugir de nós o tempo todo.

-Eles acham que terão o mesmo destino! – Comentou Joseph.

Contemplei com o coração oprimido o contorno das colinas de areia no leste. Elas pareciam cada vez mais feias, deformadas, cruéis e intransponíveis. Nosso destino estava mais ameaçador do que nunca.

Emparelhei com Leonard na caminhada.

-Ainda não te agradeci por ter salvo minha vida. Eu teria caído no buraco se você não me mandasse parar. -Eu disse.

Leonard me abraçou, apoiando seu braço esquerdo sobre meus ombros e não disse nada. Não precisava. Aquele simples gesto de carinho já dizia tudo.

Eu estava feliz por ter encontrado meu mestre. Ele estava feliz por ter reencontrado seu discípulo…

Àquela altura eu ainda não sabia das minhas encarnações anteriores.

CONTINUA

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5 comentários em “A busca de Kuran – O primeiro passo no desconhecido”

  1. Magos! Gostei. Agora tudo faz mais sentido… Ou quase tudo…. Estou gostando deste conto, mais esta faltando alguma coisa… sei lá… david, zumbis! To brincando hehehe.

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