A busca de Kuran – A viagem

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Quando dei por mim, eu estava sentado junto à janela, embarcado num trem rumo ao Rio de Janeiro.

Leonard era um cara estranho. Falava pouco. Mas quase sempre, o que ele falava estava certo. Eu não sei dizer o que foi exatamente que me fez confiar naquele desconhecido e largar meu mundinho para trás. Passei tantos anos lendo os livros do Julio Verne e aventuras de gibis que me ver protagonizando minha própria aventura pessoal trazia um gosto diferente do que eu estava acostumado.  Era um misto de medo e curiosidade. Eventualmente, enquanto o trem balançava em suas espaçadas e ruidosas serpenteadas pelos caminhos de ferro, eu apertava o rubi azul no meu bolso. Eu esperava que ele ficasse quente ou realizasse qualquer proeza novamente. Inúmeras vezes me perguntei se não estava sonhando, se não havia sido drogado com a bebida da festa ou se tudo aquilo não passava de um sonho muito louco. Tive medo de acordar a qualquer momento com o raio do sol entrando pela janela do quartinho. Talvez por isso eu me mantivesse acordado enquanto todos no vagão pareciam dormir pesadamente.

Leonard dormia ao meu lado. A cabeça caída para trás, a boca aberta, rocando feito um javali raivoso. Olhando assim ele não parecia tão sóbrio e elegante.

Eu não conseguia pregar o olho. Leonard não me falou muito mais do que aquela estranha frase sobre ir para um deserto cujo nome mal sei pronunciar para matar um demônio. O problema disso tudo é que eu não acredito nem um pouco em anjos, santos ou demônios. Mas eu acreditava piamente em milionários entediados em busca de emoção para suas vidas vazias. Eu esperava que com aquele sujeito, eu pudesse descobrir novos lugares, aprender coisas que a escola não poderia me ensinar. Acho que foi apenas por isso que eu topei seguir com ele naquela aventura.

Não pretendo desperdiçar o seu, nem o meu – cada dia mais precioso – tempo, descrevendo em mais detalhes como foi passar a noite inteira acordado chacoalhando no trem ao lado do homem, que dormia feito uma pedra. Mas devo dizer que aquela não foi uma das experiências mais agradáveis da minha vida. A ansiedade me corroía os ossos. Quando ele acordou pela manhã, já estávamos nos aproximando da cidade do Rio.

Ao chegar na Estação Central, eu fiquei impressionado como o Rio parecia mais brilhante. Já era quase a hora do almoço e o sol era escaldante. Leonard como sempre, andava sem falar nada e nem se preocupava se eu estava seguindo-o ou não. Tive a sensação que ele me testava. Em muitos momentos, Leonard parecia simplesmente sumir em meio as pessoas que andavam de um lado a outro da capital.

Eu o seguia como me era possível e sempre me impressionou o fato daquele homem não parecer se cansar.

Nós pegamos um carro de praça e fomos até uma casa. Durante a viagem, o carro passou em vários lugares interessantes da capital. Quando chegou naquela casa, Leonard me apresentou a um homem chamado Petrus. Era um homem de uns 50, talvez 55 anos, grisalho, com um olhar cansado e olhos claros. Petrus, dava pra ver de imediato, não era um brasileiro, mas sim um inglês. Fiquei feliz que Leonard disse a Petrus que eu era o assistente dele. Petrus perguntou da viagem de trem. Entramos na casa dele, que ficava num bairro muito bonito e cheio de árvores.

Petrus nos ofereceu um chá. Nós bebemos. Eu me mantinha em silêncio enquanto Leonard discutia com Petrus alguns planos de viagem. Limitei-me a ouvir na busca de entender melhor o que se passava.

Petrus trouxe uma pilha de livros amarelados e canudos de papel, que revelaram-se mapas, a maioria deles com coisas escritas em um idioma desconhecido, oriental, talvez japonês. Quase todos os mapas eram desenhados à mão.Falavam sobre provisões, camelos, dados meteorológicos, ventos.  Eram coisas que efetivamente, não me interessavam muito, e talvez por isso eu acabei perdendo a atenção no papo dos homens e meus olhos passearam pela decoração daquela casa magnífica.

A casa de Petrus parecia um museu. Pedras de todas as cores e brilhos enfeitavam uma estante de madeira escura. Havia esculturas antigas de diversas épocas, coisas de origem egípcia, grega, e ídolos de madeira negra da áfrica. Máscaras assustadoras estavam penduradas pelas paredes.

Animais empalhados ornavam as mesinhas de canto e uma série de correntes antigas, coisas que eu nem fazia idéia o que eram se espalhavam por todos os lados. Num dos cantos da sala, perto da porta estava um monte de tralha. A princípio eu julguei que era lixo. Umas caixas, cordas esfiapentas, uns ferros e canos.

Nas paredes, pinturas escuras de pessoas que eu não sabia quem eram pareciam olhar pra mim. Um tapete oriental enfeitava uma parede. Um ruído fantasmagórico chamou minha atenção. Ele vinha dos fundos e ali havia uma gaiola de latão brilhante que abrigava uma ave em seu interior. Era um belo papagaio verde, com a cabeça amarela.Em uma das paredes do corredor eu vi machados antigos cruzados e tinha velas pra todos os lados.

Eu fiquei ali observando aquele lugar curioso até que notei que Petrus me olhava diretamente em silêncio. Senti-me mal de invadir assim a privacidade da casa dele, mesmo que com os olhos. Baixei o olhar envergonhado e os dois não falaram nada.

-Levanta.  – Disse Petrus com seu sotaque carregado.

Eu me levantei envergonhado. Achei que iria levar uma esculhambação. Talvez ser expulso daquela casa. Mas os dois ficaram mudos me olhando. Leonard continuou sentado na poltrona de couro. O olhar travado em mim.

-Acho que ele é do tamanho do Marcos. – Disse Petrus.

-Parece que sim. Tem roupas do Marcos aí?

-Por sorte tenho. O Marcos deixou quase todas as roupas dele aqui antes de partir.

Foi aí que entendi que eles estavam me medindo. Notei um grande baú no canto da sala, junto a mesa de mogno. Havia também cordas, garrafas, caixas de madeira, lonas e tapetes enrolados. Era um monte enorme de entulho.

-Como que é mesmo seu nome, garoto?

-Wilson. – Eu disse sorrindo.

-Ah isso! Wilson, tem roupas aqui pra você. Não se preocupe com isso, tudo bem? Também temos comida, e nosso contato em Gibraltar que vai providenciar algumas coisas que serão entregues no caminho.- Petrus disse.

Eu apenas fingi que estava entendendo o que ele dizia. Estava ao sabor dos acontecimentos. Eu sabia que se tudo desse errado eu poderia vender aquele rubi azul e ficaria rico como um rei.

Leonard me pediu que eu saísse um pouco, pois precisavam conversar. Fiquei meio sem graça e fui até o portão. Os homens fecharam a porta e ficaram vários minutos no interior da casa, conversando sabe-se lá o que.

Eu me sentei num banquinho de madeira que havia no jardim da casa de Petrus. E fiquei ali por um longo e interminável tempo. Olhava os carros e pessoas passando pela rua. Comecei a pensar em seu Epaminondas e em como ele deve ter se assustado ao ver que pela primeira vez em dez anos, eu não havia ido trabalhar. Certamente ele devia estar furioso comigo. Deve ter mandado o Carlinhos me procurar no quartinho. Eu não avisei ninguém. Talvez ninguém nem sequer tenha me visto partir…

Após algumas horas de reflexões vazias, minha cabeça estava mais cheia de perguntas que respostas. Vi uma charrete lentamente encostar junto ao meio fio. Dela desceu um homem magro e curtido pelo sol. Ele usava uma camisa branca, imundamente suja.

-Tarde… – Ele disse, mexendo na ponta de um chapéu côco bastante surrado.

-Boa tarde.

E então ele não disse mais nada. Apenas ficou ali, junto ao portão, esperando.

A tarde já ia alta quando a porta se abriu, Petrus e Leonard saíram lá de dentro. O sujeito da charrete entrou na casa e depois de alguns minutos eles começaram a carregar as caixas, mapas, tapetes, cantis, sacolas, enfim, aquele monte de tralhas, e colocar na charrete.

Petrus se aproximou de mim.

-E aí? Vamos?

-Vamos onde? – Perguntei ingenuamente.

-Para o porto. O navio zarpa daqui a algumas horas.

-Navio?

Leonard riu.-Tá pensando que ia de que? De aeroplano?

Eu sorri sem graça, e corri para ajudar o homem da carroça a colocar as coisas.

Quando a carroça lotou, começamos a colocar as coisas que restavam no carro de Petrus. Era pouca coisa, umas caixas e algumas sacolas.

O homem magro do cavalo estalou o chicote e o animal disparou puxando aquele monte de coisas.

Eu, Leonard e Petrus fomos com o carro dele em direção ao porto.

Quando nós chegamos lá, encontramos o vapor Aratu, da Companhia Brasileira Carbonífera de Navegação e Comércio, que nos levaria em uma viagem de mais de um mês pelo ocano Atlântico em direção a Espanha.

A primeira etapa da viagem foi relativamente tranquila e passávamos o dia jogando baralho na pequena e modesta cabine do cargueiro. O Navio viajou até Natal, onde aportou durante dois dias. De lá, seguimos em direção ao leste. E as coisas ficaram ruins já no segundo dia de viagem. Aquela foi de longe a pior viagem da minha vida toda. E olha que eu já viajei muito. Pegamos uma tormenta que balançou o navio durante semanas sem parar. Eu havia vomitado tudo que podia e cheguei a pensar que fosse morrer. Petrus e Leonard também passaram muito mal. Os ventos eram terríveis e as ondas gigantescas em algumas noites pareciam querer engolir o navio. Eu perdi as contas de quantas vezes me martirizei por ter aceitado seguir aquele homem estranho em sua louca “aventura” nos confins do mundo.

Mas durante a viagem, uma coisa muito estranha aconteceu. Num dos dias de tempestade, quando o barco balançava de um lado a outro açoitado por ondas enormes, e a chuva e o vento impediam a visibilidade lá fora, Petrus chegou pra mim e disse que iria dormir por alguns dias. Que eu não deveria me espantar ou achar aquilo estranho. Eu pensei que ele estava maluco, afinal com o sacolejo todo da viagem, era praticamente impossível dormir.

Mas foi o que ele fez. Petrus dormiu, e não acordou mais. Ele passou mais de uma quinzena sem beber ou comer. Apenas dormia. Em muitos dias eu julguei que ele tivesse morrido. O comandante foi chamado para ver. As pessoas começaram a especular se ele não estava com algo contagioso. Temiam que Petrus tivesse entrado em coma. Numa tarde, um homem bateu na porta da nossa cabine. Era o imediato, acompanhado de um homem que disse ser médico e que exigiu ver o estado de Petrus. Leonard era contra, mas acabou cedendo a permissão para o médico examiná-lo. Segundo o médico, seus batimentos cardíacos eram baixos demais, e Petrus praticamente não estava respirando. O médico que estava na viagem disse que o estado dele era grave. Mas nada podia ser feito. O capitão foi até lá e nos confrontou com o fato de que se Petrus morresse na viagem, ele seria jogado ao mar. Tivemos que concordar. O balanço infernal continuava.  Nunca poderia imaginar que eu iria sentir saudades de seu Epaminondas e da Floricultura Bragança.

Quando faltava dois dias para chegarmos à costa da Espanha, Petrus acordou como se houvesse tirado um cochilo rápido. Todos ficamos estupefatos com aquilo, menos Leonard.

Quando o navio aportou em Gibraltar, no sul da Espanha, eu estava certo que a pior fase da minha vida havia passado diante dos meus olhos. Mas estava errado. O que veio a seguir foi incalculavelmente pior.

Em Gibraltar desembarcamos as nossas coisas e pegamos um outro navio vapor, de bandeira grega, chamado Aghios. Este navio era significativamente menor que o Aratu. Ele seguiu pelo Mediterrâneo adentro, sem paradas, seguindo em direção ao leste. À bordo do Aghios, conheci algumas pessoas interessantes, entre eles uma mulher casada, chamada Dulce, que se afeiçoou por mim. E eu por ela. Mas o marido, um médico espanhol cujo nome já não me lembro, fazia uma marcação cerrada e era terrivelmente ciumento. Ele sofria com problemas de coluna e temia que Dulce o traísse comigo. Por conta disso, o homem trancou Dulce na cabine a maior parte da viagem.  O balanço do navio fazia o estado daquele homem piorar, já que as camas à bordo, eram pequenas e duras demais. O navio grego terminou sua viagem em Latakia, na Síria. Lá pegamos um avião.

Eu já não estava aguentando mais o balanço do navio. No último dia da viagem, Leonard me viu sentado junto à murada, olhando o horizonte e perguntou se eu estava gostando da aventura. Apenas olhei pra ele e não respondi. Ele sentou-se ao meu lado e disse que eu devia aproveitar ao máximo, pois aqueles seriam os melhores dias da expedição.

Eu pensei que ele estava brincando.

Em Latakia, um aeroplano nos esperava para nos levar a um lugar muito, muito distante. Eu estava animado, pois viajaria de aeroplano pela primeira vez na minha vida. Era um sonho. Mas o sonho  rapidamente se revelou um pesadelo quando vi finalmente no que eles queriam que eu viajasse. Era um avião caindo aos pedaços. E o piloto era um francês com cara de bêbado. E de fato o era. Contei seis garrafas de uísque vazias dentro da fuselagem.

Petrus e Leonard conversavam muito sobre os planos de viagem. Desenrolavam os mapas antigos e traçavam rotas a todo momento. Em algumas vezes, eles discutiam violentamente e eu cheguei a achar que iriam se estapear.  Mas os dois nunca iam às vias de fato.

Carregamos o aeroplano com nossos equipamentos e provisões. Quando decolamos da Síria, começou a segunda fase da viagem. De aeroplano sobrevoamos grandes regiões desérticas, montanhas rochosas e intermináveis áreas secas. Sempre seguindo para o leste. Voávamos o dia todo. Nossa parada mais longa foi em Bagdá. Desde o navio, durante todo o percurso, eu tentava conversar com Petrus e Leonard sobre o real motivo da nossa viagem, mas eles eram muito reticentes e comedidos. Comecei a ter a impressão de que não confiavam ainda o suficientemente em mim para que pudessem revelar. Leonard dizia que era um homem rico e que planejara aquela viagem com Petrus ao longo de cinco longos anos. Mas as conversas ao pé do ouvido, a troca de olhares suspeitos, as conversas em línguas que eu não entendia nada, as contínuas discussões sobre mapas antigos e bússolas sempre me disseram o contrário. Não era apenas turismo. Não parecia ser turismo. E definitivamente, nenhum daqueles dois homens eram pessoas comuns. Basta perguntar a qualquer um o que acha de uma pessoa capaz de dormir por mais de 15 dias sem beber, comer ou ir ao banheiro e vão te dizer que é impossível. Do mesmo modo, um geólogo poderá dizer que um rubi azul é igualmente impossível e que uma pedra não pega fogo.

Quando eu pensava naqueles pequenos milagres que começavam a se tornar cada vez mais comuns na minha vida, eu tinha medo da frase que Leonard me disse no carro sobre matar um demônio.

Decolamos ainda de madrugada, faltando poucas horas para amanhecer em Bagdá. Aquele seria o percurso mais longo e perigoso do vôo. O piloto, um francês chamado Jean Gerard, parecia um mendigo. Ele tinha os labios queimados pelo sol e a barba por fazer. A camisa era sempre suja e aberta. O inclemente sol do deserto havia queimado seu rosto, produzindo profundas rugas e pés de galinha, que davam a ele uma aparência de velho. Mas ele devia regular a idade com Leonard. Jean Gerard havia me pedido ajuda para colocar tambores de combustível no interior da aeronave. Durante o vôo, faríamos uma parada para reabastecimento em “algum lugar”. O aeroplano de Jean era pequeno, velho e pela aparência geral, e como eu já disse antes, não parecia em muito boas condições. Horas antes da decolagem em Bagdá, enquanto Petrus e Jean examinavam o plano de vôo num mapa carcomido sobre a asa do avião, iluminado parcamente pela luz de uma lamparina de querosene, eu chamei Leonard de lado e contei a ele todo o meu receio sobre o avião.

-É uma lata velha! – Eu disse.

-Você precisa confiar. – Ele respondeu.

-Mas e se nós cairmos? Leonard, olha pra esta coisa! Isso não deve ter manutenção faz muitos anos! – Eu supliquei.

-Wilson, eu também estou com medo. Mas veja, não temos outra opção. O Gerard é o único piloto que tem coragem de voar pra lá.- Ele disse.

Eu baixei minha cabeça e fiquei em silêncio. Sabia que Leonard estava determinado e embora dissesse que sim para me acalmar, o medo não constava em seu dicionário.

Após alguns minutos, acabamos de carregar o aeroplano. Jean mandou que entrássemos e após manobrar na pista de areia batida, decolamos.

Carregado, cheio de combustível e suprimentos o aviãozinho demorou a ganhar altitude. Eu comecei a ter medo. O veículo vibrava muito e o som do vento era aterrador.

Não havia conforto algum no avião e nós ficávamos espremidos entre caixas, latões e baús.

Voamos durante todo o dia. O medo é uma coisa engraçada, porque eu estava morrendo de desespero, mas ainda assim consegui dormir. Só me lembro de acordar com os gritos de Leonard e Jean na cabine. O avião estava balançando terrivelmente e eu sentia muito cheiro de óleo queimando.

-Nós vamos cair! – Leonard gritou.

Olhei para o rosto de Petrus. Ele parecia tranquilo.

Eu devia estar com uma expressão tão desesperada que ele tentou me acalmar.

-Relaxa. Não vamos morrer! – Ele disse com um sorriso.

Aquilo me deixou ainda amais em pânico, porque eu caí na real que estava num avião em queda com um bando de pirados dentro.

E comecei a chorar. O avião tremia e balançava muito.  Ouvi Leonard gritar para Jean se ele conseguiria fazer um pouso de emergência. Jean Gerard não respondeu. Eu olhei pela pequena janelinha oval sob a asa e lá em baixo eu só via montanhas iluminadas pela luz do sol. Eram montanhas e mais montanhas. Não havia estrada nem rio nem coisa alguma que fosse plano. Apenas pedras, rochedos e cânions secos.

Eu concluí que aquele seria o nosso fim.

-Que jeito idiota de morrer! – Eu gritei para Leonard.

-Segurem-se aí! – Gritou Jean, agarrado ao manche.

Ele mergulhou a aeronave. Senti meu corpo ficando sem peso. Eu me preparei para a colisão. Jean deu um golpe com o aeroplano e ele levantou o nariz para o céu. O motor estalou. A fumaceira na cabine deixava o ar irrespirável.

Ouvi uma série de estalos. O motor pipocou de tudo que foi jeito. Vi Leonard e Jean sacudindo alavancas de uma lado a outro lá na frente. Subitamente, uma pequena explosão aconteceu e o motor religou. O avião se inclinou e eu senti o mesmo acelerando. Gradualmente ele começou a subir e só então, já azulado, eu voltei a respirar.

-Viu? – Riu Petrus.

Eu não disse nada. Minha vontade era pular daquela joça e voltar para o meu Brasil querido. Minha vida de carregador de merda estava dando de dez a zero na de aventureiro.

Viajamos cerca de seis horas até descer em uma pista de aterrizagem precária em Farah, um pequeno povoado oculto entre as intransponíveis montanhas do Afeganistão. Mas não fomos até o povoado. Nos mantivemos na pista, que era bem afastada da cidade.

Lá nós reabastecemos a aeronave. Jean desmontou umas peças do motor para retirar a areia que estava entupindo alguma coisa. Passamos a noite acampados no lugar. Jean tirou algumas placas de madeira do avião e fizemos uma fogueira. Era uma noite fria e o céu não tinha nuvens. Acima da minha cabeça, eu vi uma quantidade de estrelas que nunca havia percebido antes. Dormi sob as estrelas agradecendo por não ter morrido na queda do avião.

Acordei sendo sacudido por Leonard. Ainda estava de noite, mas era hora de seguir viagem.

Após o conserto da aeronave, ele passou a voar muito melhor. Levamos alguns dias para chegar no nosso destino final, um lugar chamado Markit. Jean se recusava a voar sobre a China e Petrus me contou que foi preciso uma grande soma de dinheiro para convencer o francês bebum a nos levar na beira do deserto.

-Por que Markit? Perguntei a Petrus, já que Leonard, o meu chefe,  pouco falava.

Petrus me disse que haveria uma equipe nos esperando em Markit.

Quando o pequeno avião pousou na pista improvisada de Markit, fomos recebidos com festa no pequeno povoado. Pessoas de olhos rasgados surgiam de todos os lados e vinham nos abraçar. E em pouco tempo, já estávamos sentados ao redor de uma grande mesa, cheia de comida. Eu esperava encontrar uma meia duzia de pessoas, mas para meu espanto, ali estavam cerca de 11 homens, além de uns vinte orientais nativos, e todos pareciam apenas aguardar a chegada de Petrus e Leonard para se embrenhar no deserto.

Foi Leonard que me apresentou a todos eles como seu assistente pessoal. No grupo, havia gente de tudo quanto era lugar do mundo. Eu não falava nada além de português e graças a isso, acabei ficando amigo de Allan, o intérprete. Allan era um rapaz magro com aparência frágil e óculos fundos de garrafa. Ele estava introspectivo no inicio, mas logo se animou na base do uísque. Allan falava um sem número de línguas entre dialetos que eu nem sabia que existiam. Batemos papo por um longo tempo. Ele contou que estava acampado em Markit há vinte dias. Tinha vindo com o grupo de Kasghar, por uma rota que passava pela Índia. Era a famosa rota da seda.

Todas as pessoas estavam felizes e comemorando nossa chegada. Ela marcava o início da expedição ao seja lá como for, deserto do Taklimakan e seus segredos e mistérios.

Ainda alheios ao futuro, comemorávamos nossa vitória até ali. Nós conversávamos sobre garotas e mulheres bonitas quando um velho oriental que já devia beirar uns 80 anos ou mais, apoiado numa bengala, com aparência funesta se aproximou. Ele parou na nossa frente e falou alguma coisa que eu obviamente não entendi. Em seguida, se virou e saiu.

Allan pareceu ficar pensativo após o velho sair.

-O que ele disse? – Eu perguntei a Allan.

-“Entrem e não sairão” – Ele respondeu com um olhar que deixava transparecer o medo.

CONTINUA

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4 comentários em “A busca de Kuran – A viagem”

  1. por ta muito maneiro tem um q de indiana jones com uncharted… consigo ate imaginar o carinha meio parecido com o drake. ta animal achei q nem ia mais continuar o conto do cacador. 😀

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