A arte da caça – Parte 1

-Nome?
-Laerte Soares Giancarlo Motta
-Idade?
-46
-Estado Civil?
-Casado.

Ok, Senhor Laerte. Vou dar entrada na sua ficha. Aguarde um momentinho que o gerente já vai atendê-lo. -Disse a recepcionista do hotel.
Laerte era um alto executivo do grupo Ágape Sistemas. Formado em Administração numa das melhores universidades do país, com pós graduação no exterior e longa trajetória empresarial.
Era inegavelmente um homem atraente, com anos de prática no mercado de soluções em TI.

Quando o gerente chegou, Laerte ficou ali conversando com ele sobe a troca do apartamento. Laerte é o que chamamos popularmente de “pegador invetado”. O apartamento em questão era um apart-hotel, usado apenas como garçoniere.

Após acertarem as contas, Laerte saiu do hotel todo feliz com um novo apartamento com vista para o mar.
Pegou o carrão, e enquanto dirigia, negociava a venda de uma chácara pelo viva voz do celular.
No fim do dia, chegou em casa e como sempre fazia, encontrou sua mulher. Ela rotineiramente reclamou das notas do filho, reclamou do carro, da mãe dela, da empregada e tudo mais.
Laerte nem ligou, afinal estava acostumado a desligar sua mente na presença da esposa.
Ligou a Tv e dormiu.
No dia seguinte, rotina diária. Laerte acordou cedo, chamou os filhos para a escola e de lá foi para o trabalho.
O dia transcorreu sem grandes problemas. Fecharam dois contratos e fizeram algumas reuniões.
No fim do dia, Laerte chamou o pessoal para ir ao Diabólico´s para fazer happy hour.
No fim das contas, apenas Laerte, Carvalho e Zé Mário foram ao Diabolico´s.
O lugar era um tipo de pub de alto nível, com bebidas caras, luz fraca, musica alta e muita gente. Principalmente mulheres.
Laerte nunca disfarçou sua habilidade de conquistador dos amigos do escritório. Volta e meia ele aparecia acompanhado de mocinhas, quase sempre de classe média baixa, com o qual se envolvia.
Isso conferiu à esposa dele o apelido carinhoso de “madame galhada”. Madame galhada era como as secretárias do grupo se acostumaram a chamar a mulher de Laerte, de tão voraz sua sanha de pegador.

Mal chegou no Diabolico´s, Laerte pediu um uísque. Do outro loado da mesa, havia um grupo de  quatro moças, todas  muito bonitas. Laerte lançou olhares sedutores para uma loura.

-Porra que gata, hein? -Comentou Carvalho.

-Deliciosa. -Limitou-se a dizer Laerte.

-Vai com calma que essa porra tá cheia de puta. -Disse Zé Mário.

-Porra, Zé Mário, deixa de ser viado, cara! Tá com medo de puta porque? E daí? -Disse Laerte rindo e bebendo uma talagada de uísque 12 anos.

-Não, não, não é isso… -Tentou se explicar Zé Mário.

-Ah, Zé. Vai se foder! Só podia ser o Zé mesmo. Por isso que tá desse jeito. Não come ninguém.  -Riu Carvalho.  

Zé Mário era um cara diferente. Ele também era casado. Mas nunca passava do flerte inicial. Não porque fosse honesto ou carola. Tinha medo. Apenas isso. Talvez fosse pelo medo, talvez fosse por medo de assumir sua real relação afetiva com a “patroa”. Mas seja como for, Zé fez o que costumava fazer nesses locais. Levantou-se e saiu.

-Vou vazar. – Disse ele.

-Porra Zé? Que foi? Ficou puto cara? Qual é. A gente tava brincando. Senta aí. -Disse Laerte. 

-Não, não. Só vim tomar uma dose mesmo. Eu disse que tinha que sair mais cedo hoje. Vai ter aniversário da minha sobrinha. Sabe como é. Afilhada… Não tem como não ir. -Disse ele jogando uma nota de vinte reais na mesa.

-Beleza.

-Vai lá.  – Os homens se cumprimentaram. E Zé Mário saiu.

Enquanto os homens se despediam, Laerte manteve o olhar fixo na moça.

Agora estavam apenas Carvalho, o feio e rico gerente geral da companhia e Laerte, o coroa bonitão metido a rico. Laerte  já totalmente desinibido pela bebida, deu um tchauzinho para a moça. Que sorriu e retribuiu.

-Tá dando mole. -Disse Carvalho.

-Pois é. Que merda. – Comentou Laerte.

-Ué? – Levantou o copo em tom inquisidor o velho Carvalho.

-Seguinte, meu amigo. Eu explico: Mulher quando me dá mole, perde a graça. Não tem desafio…

-Ah, saquei.  Deu mole você já perde logo o interesse?

-Totalmente. Sabe, cara? Este negócio de paquera é assim. É uma caçada. O homem é um predador. Alguns são meros idiotas, como o Zé Mario. Mas outros… Outros são caçadores vorazes, que não conseguem se contentar  com uma. Algumas pessoas não tendem isso. Pensam que somos filhos da puta, que somos sacanas. Mas sacana é o sistema que tenta obrigar um cara como eu a ficar com uma mulher só, tendo tanta mulher gostosinha no mundo, entende? Não podemos negar o que somos. Somos caçadores. A arte da conquista é a arte da caça.

-Claro, meu.  Mas eu prefiro putas. – Concordou Carvalho. Após alguns drinks ele olhou no relógio:

– Ah… Cara? Vou ter que sair também. Já tá ficando tarde e eu tenho reunião com os coreanos amanhã.  Vou nessa, meu velho.  – Disse Carvalho, levantando-se da mesa.

-Tudo bem. Um abraço Carvalhão. Até amanhã.

Depois que Carvalho saiu, Laerte ficou um tempo na mesa. As moças se levantaram e saíram. E ele ficou ali, pensando em sua vida, até que viu, longe, lá no fim da Diabolico´s , uma moça.

Ela estava sozinha em uma mesa, bebendo um estranho coquetel de cor azul.

Era linda. Laerte imediatamente começou a reparar naquela moça. Devia ter por volta de uns 20, 25 anos. Era bem jovem e estava com uma pilha de apostilas sob a bolsa. As apostilas indicavam que ela era uma estudante, talvez uma daquelas universitárias gostosas que estudavam direito na faculdade ao lado do pub.

Laerte ficou com as antenas ligadas, esperando algum sinal de que a moça estivesse desacompanhada.

Percebeu quando duas outras meninas, mais feias que ela, sentaram-se à mesa. Pelo seu conhecimento de “gavião”, Laerte sabia que aquilo significava uma coisa boa. Mulheres saindo juntas diminuem a chance dela estar acompanhada. 

Depois de pouco tempo, seus olhares se cruzaram por um breve segundo. A moça olhou pra ele e virou o rosto.

Aquilo deixou Laerte maluco. Ele sentiu-se desafiado. Ficou de lá, encarando fixamente a moça, que volta e meia cruzava o olhar com ele. Mas ela não esboçava qualquer reação que indicasse facilidade. E para piorar, estava em um grupo de três.

Laerte concentrou toda sua atenção naquela moça. Ela tinha gestos leves e firmes, parecia séria e conversava animadamente com as amigas. Não tinha ar espalhafatoso, era bastante contida e não fosse pela grande experiência ao se aproximar de mulheres, Laerte poderia até pensar que ela não se interessou por ele.

Quando as duas amigas dela foram ao banheiro, Laerte viu a chance de se aproximar.

Levantou e foi direto falar com ela.

-Oi?

-Oi. Disse ela. – A moça tinha um tom estranho, como se quisesse rir. Aquele tom foi fatal para que Laerte se sentisse no domínio da situação. Aos olhos de um leigo não significava nada, mas para o experiente Don Juan, aquele era o inequívoco sinal de que ela estava disfarçando seu interesse por aquele homem grisalho.

-Sabe que eu não consigo tirar os olhos de você? – Perguntou ele. Aquela era uma cantada barata e pueril. Mas ao mesmo tempo era a verdade, e era direto, sem rodeios.

A moça começou a ficar sem graça.

Laerte imediatamente sentiu que estava numa rota que conduziria inevitavelmente para uma abordagem fracassada. E então corrigiu:

-Eu sei que é uma cantada barata. Mas podia ser pior, né?  -Disse ele sorrindo.

A moça sorriu e concordou com a cabeça.

-Laerte emendou: – O que é isso que você está bebendo?  

-Ah, é um coquetel aí. Esqueci o nome…

-Falando em nome, meu nome é Laerte. Prazer.  

-Muito prazer, Jéssica.  

Os dois apertaram as mãos como amigos e vendo a chance, Laerte perguntou:

-Posso sentar aqui? Prometo que saio assim que suas amigas chegarem. Sabe como é. Tá cheio de gavião por aqui.  -Disse rindo.

-Claro. Senta aí. – Disse ela rindo.

-Então, Jéssica? O que você faz?

-Estudo Psicologia.

-Nossa que legal…

O papo transcorreu normalmente e gradualmente começou a esquentar. As amigas dela apareceram, mas vendo que Jéssica estava conversando animadamente com Laerte, as moças chegaram, foram apresentadas e disseram que teriam que ir embora, para um compromisso.

Laerte já estava meio alto de birita, mas percebeu uns olhares e sorrisos cúmplices entre as moças. Aquilo indicava uma única coisa: ia rolar!

Jéssica acabou ficando para trás, e o papo com Laerte rendeu.

Conversa vai conversa vem, Laerte tentava sempre ficar no meio termo entre o amigo engraçado e o sedutor romântico. Até o momento em que os dois finalmente se beijaram.

Laerte sabia que estava no caminho certo. O passo seguinte seria levar a moça lá para o “matadouro”.

-Tá na hora. Tenho que ir.  -Disse Jéssica.

-Te levo em casa.  -Disse ele.

 -Não não precisa. Estou de carro aí.

-Me dá seu telefone?

-Pra que? Um homem como você não vai me ligar. -Disse ela.

-Eu ligo. -Disse Laerte, beijando a moça no pescoço. Enquanto ela anotava, num pedaço de guardanapo, ele pensava:

-Pra te comer eu ligo até para o capeta em pessoa!

Jéssica anotou o telefone celular no pedaço de guardanapo, despediram-se com um ardente último beijo e saíram, cada um para um lado da avenida.

Laerte entrou em seu carro pensando que era uma pena não terminar aquela noite no aparthotel com ela. Das moças que ele pegava nas happy hours era raro não terminar a noite na cama com alguma mocinha. A tal Jéssica era perfeita. Linda, escultural e inteligente. Ele sabia que ela tinha visto a marca da aliança em seu dedo, mas não falara nada. Aquilo era um bom sinal. 

-Fica frio, Laertão. Essa você ainda vai comer! -Disse ele para si mesmo enquanto dirigia para casa.

No dia seguinte, acordou com uma ressaca leve. Teve que agüentar a mulher dele enchendo o saco e foi para o trabalho. Chegando lá encontrou Carvalho e Zé Mário no café.

-E aí? – Perguntou Carvalho.

-A noite rendeu, bicho.

-Sério?

-Peguei uma moça sensacional ontem.

-Comeu? 

-Não…

-Caraca! Não comeu?

-Pô, ela fez o maior jogo duro. Não rolou.

-Hummm. Moça de família é assim. Faz jogo duro.

-Por isso prefiro putas. -Riu Carvalho.  

-Então você ficou só nos  beijinhos? -Questionou Zé Mário.

-Ontem só. Mas fica frio. Já já eu passo o rodo nessa aí. -Disse ele sorrindo com o copo de café na mão.

-Esse é o Laertão. El matador! – Riram os amigos. E foram trabalhar.

No meio do expediente a mente de Laerte foi assaltada por lembranças daquela mulher. O gosto do batom dela ainda estava na memória dele e Laerte lutava para concentrar-se no trabalho. Mas todo momento a lembrança de Jéssica o tomava de assalto.

Ele resolveu ligar.

Combinaram de se encontrar para um cinema. Laerte ligou pra casa e avisou a empregada que teria um jantar de negócios com clientes. Que não era para Zuza esperar ele para jantar.

Até o fim do dia, ele ficou com a Jéssica na cabeça. Sua meta era clara. Ele tinha que comer aquela mulher de qualquer jeito.

-…Ou não me chamo Laerton, el matador! -Disse ele, se olhando no espelho.

No fim do expediente, Laerte deu um trato no visual e saiu, direto para o shopping.   

  Chegando lá, encontrou Jéssica esperando por ele. Trocaram beijos ardentes e foram assistir ao filme. Agarraram-se no cinema durante toda a sessão.

No fim da noite ele convidou a moça para conhecer o apart hotel, mas ela recusou. Laerte começou a perceber que estava enfrentando a mulher mais jogo duro que havia conhecido.

Dias depois, ele continuava com a moça na cabeça. Planejou uma artimanha  infalível para comer Jéssica.

-O velho truque do congresso. – Disse ele no café para os amigos.

-Ah, esse é infalível. Completou Carvalho.   

-Mas como você vai fazer com a madame.. Quer dizer, com a sua esposa? – Perguntou Zé, quase revelando o apelido secreto da esposa de Laerte.

-Ah, a dona patroa deixa comigo que eu dobro. O lance é a Jéssica aceitar viajar comigo. Aquela potranca me deixa maluco, cara! É ultra gostosa.

-Mete bronca matador! – Incentivaram os amigos.

Duas semanas depois, Laerte e Jéssica estavam na cama, em Búzios. Depois de fazer amor selvagemente naquele hotel cinco estrelas, Laerte era um homem realizado.

A moça dormia, exausta de tanto sexo.  Enquanto isso, Laerte pensava sobre aquela coisa de ser um caçador.

Anos e anos comendo mulheres de todos os tipos na rua, ele nunca havia sentido o que sentia por aquela moça. Não era amor… Certamente. Era uma coisa diferente, uma coisa de paixão, de loucura.  

Meses depois, os dois namoravam.

Era uma coisa estranha aquele namoro, pois Jéssica sempre soube da mulher de Laerte, mas nunca perguntou nada. Ela era a outra e estava ciente disso. Desde que começaram a namorar, a vida de Laerte mudou radicalmente. Ele começou a  dedicar sua hora de almoço a tórridas sessões de sexo selvagem com Jéssica em hotéis do centro.

Volta e meia ele a pegava na porta da faculdade e dali iam direto para o Motel.

Certa vez, antes de irem a um show, Jéssica perguntou se ele podia buscá-la em casa. Laerte aceitou e foi até o lugar indicado num mapinha mal ilustrado numa folha de fichário.

Ao chegar no lugar marcado, ele estava numa rua de casas do subúrbio carioca. Só relaxou quando viu surgir a Jéssica atrás de um muro baixo, pintado de cor de rosa. Ela estava metida num shortinho jeans diminuto e todo puído. Usava um top sensual e ao mesmo tempo suburbano. Disse que ia tomar banho ainda.

 Jéssica perguntou se Laerte gostaria de conhecer os pais dela. Em circunstâncias normais, Laerte encararia aquilo como um sinal inequívoco que estava prestes a se ferrar, mas inebriado pelo desejo, acabou aceitando.

Os dois entraram na casinha do subúrbio, onde Jéssica apresentou um velho gordo e careca ao Laerte.

-Esse é o meu pai. Pai, este é o meu namorado, o Laerte.

A coisa foi mais solene do que parecia. Laerte tremia feito vara verde. Ele manteve a mão esquerda o tempo todo dentro do paletó para que a marca da aliança não causasse problemas. Tomou o café da Dona Marta, mãe da moça. Conversou sobre política, novelas, futebol e criminalidade com o gordão. Minutos depois, surgiu Jéssica toda arrumada.  Despediram-se e saíram.

-Meu pai gostou de você. – Disse ela.

-Sério? Tipo… Como você sabe?

-Você está vivo. – Ela riu.

-Tá brincando né?

-Não, não. Quer dizer, mais ou menos. Ele é da uma milícia. Ele era matador. Hoje já não mata mais. Virou evangélico. Mas fica tranqüilo… Ele é de paz.

Durante o resto da noite Laerte ficou pensativo sobre como pode alguém que é ex-matador, membro de milícia “ser de paz.”        

Foram ao show, ao Motel e Laerte levou a moça pra casa.

Durante o dia, conversando com os amigos no café, ele contou o episódio.

-…E então ela disse que ele era de uma milícia. Ex-matador.

-Ca-ra-lho! -Limitou-se a dizer Carvalho.

-Mas cara… Quem te viu, quem te vê! Em outros tempos, se ela te convidasse para ir em casa você chutava ela do carro. -Comentou Zé Mário.

-Pois é. Mas agora é diferente. Tá rolando um clima, e o sexo… O sexo é bom demais. O Sexo com a Jéssica compensa tudo. Até aquela família escrota.   

Alguns dias depois, Laerte estava no telefone ouvindo sua esposa se lamentar e reclamar que ele não era mais presente, que nunca parava em casa, que ela havia esquecido o que era ter um marido. Laerte reclamou da mulher, de seus hábitos consumistas. Os dois discutiam no telefone quando bateram na porta.

A secretária entrou e sinalizou que havia alguém esperando por ele lá fora.

Laerte bateu o telefone na cara da esposa e atendeu a secretária.

-Que foi?

-A moça, a Jéssica está aí fora aguardando para falar com o senhor. – Disse a secretária.

-Manda entrar. Manda entrar! – Disse ele.

A moça entrou e os dois se beijaram. Mas Jéssica estava estranha. Pensativa.

-O que houve? -Perguntou Laerte entre beijinhos.

-… Não sei como te dizer. -Disse ela.

-Que foi? Conta comigo, pode se abrir.

-Bom, não tem porque ficar de rodeios. Vamos direto ao assunto. Eu estou grávida!

PÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃNNNNNN!

Uma espécie de gongo tocou na cabeça de Laerte. Ele se sentia numa típica cena final da novela das oito.

Tudo rodou. Laerte pareceu que estava acordando de um sonho.

-O que?

-Grávida! Eu. O filho, seu. – Disse Jéssica.

-Mas… Mas…

-Tá aqui o resultado do exame. -Disse ela, puxando um envelope da bolsa. No envelope estava uma pasta com a ultra-sonografia.

-Puta que pairiu! Me fodi. -Foi o que Laerte pensou ao ler aquilo.

Ele ficou tão desconcertado que precisou sentar. Ele não sabia o que dizer. Então falou qualquer coisa.

-E o que nós vamos fazer?

-Ué. Ter o neném. – Disse a moça.

-…

-Que foi? – Perguntou ela.

-Nada, é que… Bem… Sei lá. Eu acho que…

-Não tá feliz?

-Não, quer dizer, estou! É que … Você me pegou assim… de surpresa.  

-Já comecei a pensar no nome… – Disse ela.

Cada frase que Jéssica dizia só fazia aumentar mais a velocidade do carrossel de emoções desesperadoras que embaralhavam a mente de Laerte. Ele precisava de tempo, de ar.

-Eu vou ter que sair… Para uma… Uma reunião. -Ele disse.

-Tudo bem, eu sei como é. Vida de executivo. A gente se vê mais tarde. Eu te ligo. Beijo querido. – Disse ela despedindo-se dele e saindo da sala.

Dois mintos depois, Laerte vomitou no cesto de lixo.

 Dias após o episódio, ele estava tomando um chopp com os amigos.

-Parabéns papai! – Disse Zé Mário.

-Zoa, filho da puuuta! – Falou Laerte.

-Porra Zé. Deixa o cara. Ele tá fodido. – Comentou Carvalho. -E aí, Zé? O que você vai fazer?

-Sei lá, Carvalho. Não sei mesmo. Tô ferrado.

-Mas tu foi muito burro mesmo. Não usou camisinha?

-Porra, sei lá, cara. Usei, mas teve uns dias que não usei. Pode ter furado… Ou foi nesses dias que…

-SUUUPER ZOIDÃO! – Gritou Zé Mário fazendo pose de super-homem.

-Cara isso é sério. Vamos falar sério.

-Laerte, você sabe a merda que isso vai dar, não é?

-Sei.

-Golpe da barriga é foda.

-Cara ela vai te tomar tudo que você  tem. A madame, quer dizer, a Zuza, vai dar um pití.

-Meu casamento vai pro saco de vez.

– Liga o foda-se. Pergunta a ela quem garante que o filho é teu.  

-E o que eu vou dizer pro pai dela? O sujeito matador da milícia?

-Ex-matador.

-Ex matador é igual a ex-viado. Conhece ex-viado? -Perguntou Laerte, visivelmente nervoso.

-Conheço. Você. – Riu Zé Mário.  

-É, porra. Respeita o maluco. O cara tá fodido, Zé. Tu fica aí zoando. Babaquice.

-Calma, Carvalho. Tô tentando descontrair, porra.

-É por essas e outras que eu prefiro comer puta. Não tem que conquistar, não tem perigo de engravidar… Suas vantagens… Dinheiro resolve tudo. Sabe como é.  – Disse Carvalho.  

-Ei! É isso. – Gritou Laerte.

-Hã?

-Cara, dinheiro resolve tudo. Vou convencer ela a fazer um aborto, porra.

-Hum… – Disse Carvalho. Isso é imoral… Mas foda-se a moral.

-Que se foda a moral! -Repetiu Laerte. E todos brindaram com cafezinho.

No dia seguinte, os dois se encontraram num restaurante. Era hora de almoço.

Conversa vai, conversa vem… Laerte tocou no assunto. Disse que achava que o relacionamento deles era de longo prazo,mas que um bebê naquela altura do campeonato não era uma boa idéia. Que atrapalharia a relação deles, que ia causar problemas pra ela, para a faculdade, para o estágio.

Especialista em negociação sob pressão, Laerte tentava expor da melhor maneira que o melhor seria Jéssica abortar. Ele se manteve frio ao ver os olhos da moça se encherem de lágrimas. Ela alegou que ele não gostava dela, que só a queria usar, que ela não queria ser um problema pra ele… Que aquilo era contra a religião dela…

Mas usando todo seu poder de persuasão, Laerte, el matador,  conseguiu convencê-la.

-Como vamos fazer então? – Ela perguntou.

-Eu… Não sei. Tem um monte de clínica aí. Eu vejo uma, eu te levo e você faz. Isso não vai mudar nada entre nós.

-Mas… Eu tenho medo.

-Eu sei, querida. mas é melhor passar pelo medo agora do que sofrer o resto da vida com problema.

-Gravidez não é problema.

-Claro que não, mas veja, não é o momento. Você mesma sabe disso. Eu te dou todo o suporte. Eu faço tudo que for necessário, docinho.   

-A Carla da minha sala já fez um aborto.

-Onde?

-Não sei. Em algum lugar aí. Sei que é alto nível. Seguro. Discreto. Eu posso perguntar a ela.

-Então pergunta, Jéssica. Eu pago o que precisar, vou te dar todo o apoio.  

No dia seguinte, Jéssica foi no escritório novamente.

-E aí? descobriu? – Perguntou Laerte, aflito.

-Sim. É uma casa. Fica em Laranjeiras.

-Laranjeiras? Porra, endereço nobre hein?

-Sim. Só pra elite. Os médicos lá são os melhores.

-Mas… Quanto custa?

-Cento e noventa e cinco mil e quinhentos.  -Disse ela.

Laerte engasgou. Começou a tossir de nervoso.

-Ai… Puta que pariu.

-Que foi? -Perguntou Jéssica.

-Caro. É muito caro! 

-Porra! Que merda! O filho é teu, sabia? Você que quer que eu tire e agora… – Ela começou a falar bem alto.

-Schhhhhh! Laerte tentou calar a moça. Mas ela não parava de brigar.

-Eu pago, eu pago! -Disse ele desesperado.

Então ela ficou quieta. Os dois ficaram se olhando em silêncio durante alguns minutos. Laerte pensava na merda que poderia dar caso o pai assassino da moça descobrisse tudo aquilo. Vendo pela ótica do problema potencial que ele havia se metido,  duzentos mil reais nem era tanta grana.

-Fica calma. Eu vou levantar essa grana. – Disse ele. E emendou: – Mas não fala nada com seus pais.

-Não, isso fica só entre nós. Vou ligar e marcar.

A moça se despediu e saiu.  

Laerte ficou na sala. Nervoso. Não sabia o que fazer.

Nisso Carvalho entrou na sala trazendo um relatório.

-Que é? que foi?

-Porra… Me fodi companheiro.

-Que é? Ela não topou o aborto?

-Topou. Mas fomos ver e ela quer fazer numa clínica clandestina das Laranjeiras, que cobra quase duzentos mil, cara!

-Nossa. Caro mesmo.

-Pois é.

-Mas pensa o seguinte. Imagina que você ache uma clínica mais barata. Tá cheio de açougue aí. Imagina se eles fazem uma barbeiragem com a filha do matador… Olha o tamanho da merda!

– Puta que pariu! Como que eu vou pagar essa merda? Sem minha mulher descobrir? 

-Hummm. Laerte, você tá ferrado meu amigo. Eu vou te dar uma idéia. Sabe aquele carrão que eu comprei?

-E daí?

-Chega em casa com ele. Diz que comprou. A vista, em dinheiro, com a grana lá da chácara.

-Porra a Zuza vai me matar! A chácara era dos tios dela. Tava no meu nome por causa do leão.

-Calma. O plano é o seguinte. Você chega com meu carro e diz que comprou como investimento. Que vai vender e ganhar 10% do valor dele. É um carrão, e ele vale muito, você  sabe, é blindado.

-Certo.

-E então você vai ser “assaltado” e vão te levar o carro antes de fazer o seguro. A grana some, e pronto, você  paga o aborto da sua namoradinha com o dinheiro lá da chácara dos coroas.

-Carvalho, você é dez, cara. Eu te amo meu amigo!

-Porra, sem viadagens, por favor! Toma aí a chave. – Disse Carvalho jogando a chave do carrão importado dele.

 Naquela noite, “Laerte, el matador” chegou em casa no carro novo. 

Como previsto, a dona Zuza, ou madame galhada, deu o maior pití da paróquia quando soube que ele havia gasto todo o dinheiro da chácara num carro novo.

Laerte tentou usar sua lábia de vendedor de enciclopédia para justificar que venderia o carro ganhando 10% de lucro, o que daria um excelente investimento.

No fim das contas, a madame galhada acabou aceitando a idéia.

No dia seguinte, Laerte se encontrou com Jéssica.

-Consegui.

-Porra você demorou!

-É que tive que inventar uma história pro gerente do banco. Demora sacar toda essa grana em dinheiro.

-Conseguiu todo o dinheiro? – Ela perguntou.

-Sim. Tá na mala no porta malas do carro.   

Os dois entraram no carro e foram para Laranjeiras.

Ao chegar lá, demoraram a achar o tal sobrado. Era uma casa que não dava a entender ser uma clínica de aborto. Tinha muros altos e um interfone.

-Tem certeza que devemos fazer isso Laerte? – Jéssica perguntou, apreensiva.

-Meu amor… Eu te amo. Eu quero ficar com você pra sempre. Mas um bebê agora vai atrapalhar a nossa vida.

-Ela tocou o interfone. Depois de dois toques, uma voz metálica atendeu.

-Pois não?

Jéssica olhou para Laerte. Seus olhos imploravam para que ele deseistisse do aborto e assumisse o filho dela. Mas ele se manteve firme. Segurou na mão dela e acenou positivamente com a cabeça. Ela baixou os olhos e falou.

-Eu vim… Pra… Consulta.

-Nome?

-É a Jéssica.

O portão se abriu e os dois entraram.

Ali dentro era uma sala normal, com uma mesa antiga de madeira escura e uma velha sentada ao lado de um telefone.

– Você é a próxima. Trouxe o dinheiro? -Perguntou a velha, indo direto ao assunto.

Jéssica apenas olhou para Laerte, que abanou a cabeça positivamente. Ele colocou a mala de dinheiro sobre a mesa de madeira.

A velha conferiu o dinheiro e levou a mala para uma sala.

Depois voltou e pediu que Jéssica entrasse.

Jéssica beijou Laerte e se dirigiu para o interior da casa. Laerte passou ali os momentos mais angustiantes da vida dele. E se ela morresse? E se desse uma complicação? Toda sorte de pensamentos negativos marretavam sua mente sem piedade.

Uma hora depois, a moça saiu, amparada por uma enfermeira.

-Ela está fraca. Tem que ficar deitada por pelo menos seis horas. Se ela tiver sangramento, se tiver febre, dá este remedinho aqui. Se não passar, leva correndo pra um hospital. – Disse a enfermeira.

-Pode deixar. – Disse Laerte, sentindo o maior alívio da sua vida.

Ele levou a moça para o apart hotel e deixou ela lá por uns dias. Ele deu uma desculpa no trabalho que ia viajar e ficou com ela.

Uma semana depois Laerte contava vantagens novamente na mesa do bar.

-Quando liguei pra Zuza, tinha que ver. Digno do Oscar, cara! E ela ficou maluca achando que eles tinham me seqüestrado.

-Caramba, você é muito cara de pau mesmo, hein? Eu não sei como você consegue, cara. -Disse Zé Mário.

-A idéia genial de fazer o carro ser roubado foi do Carvalho. Um brinde ao Carvalho.  Saúde Carvalhão! -Disse Laerte.

Os amigos brindaram.

-Mas e a moça… A tal Jéssica? Como ficou?

-Bom, depois que eu me certifiquei que ela tava legal, que não tinha mais risco, eu disse a ela que estava reavaliando a minha relação, que não era justo enganar minha esposa e tal… Ela ficou triste, mas entendeu. Demos um basta na nossa história. Eu saí fora, cancelei o apart hotel e troquei até de telefone. Essa eu não quero ver nem pintada de ouro. Rapaz, em golpe da barriga eu não caio nunca mais. Quase me dei mal nessa. Mas consegui escapar. O pior era o pai matador.

Os homens brindam novamente e comemoram. Laerte continua a se vangloriar de seus feitos.

-Mas agora cê vai tomar jeito, né? -Pergunta Carvalho.

– …Agora continuo solto na pista, pegador. Volta e meia eu tô traçando uma gatinha. Mas agora com camisinha. Porque você sabe. Eu sou um caçador… É a minha natureza. 

  FIM DA PARTE 1

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35 comentários em “A arte da caça – Parte 1”

  1. Isso poderia virar um seriado da Globo que seria muito melhor que a maioria que está aí… Já imagino até o nome… “Solto na Pista”, onde contaria as “peripécias” do garanhão Laerte.. 😛

  2. Caramba, você descreveu aí o tipo de homem que eu mais enojo e desprezo.

    Mas quero ver a continuação, ainda acho que o Laerte vai ter a dele.

    Você escreve muito bem, parabéns.

  3. Sugestão pra continuação: a gravidez era falsa, assim como a clínica. O esquema foi todo armado pelo Carvalho pra conseguir pagar pelo carro que comprou. Nada pessoal, apenas negócios… :B

    • Na verdade, volta e meia eu coloco uns contos aqui. Dá uma olhada na categoria contos. Desde o incicio do blog ele serve de depósito para todo tipo de conto que eu invento. Eu diminuí nos ultimos meses em função de estar com um conto gigante em desenvolvimento, o relato de um mib. Mas agora que o relato acabou voltei com os menores e rápidos.

  4. Aew philipe, ser’a que depois dessa ai, vai ter neguinho dizendo por ai que tu engravidou a filha dele, e tava contando a hist’oria real, e q vai matar vc e adjacencias?
    vai saber…

  5. Legal seria se a tal Jéssica tivesse engambelado o cara – a gravidez foi falsa e ela rachou a grana com o pessoal da clínica.

    Mas a histórica é muito boa – típico executivo zona sul FDP que quer que todo mundo se foda.

    Parabéns!

  6. Boa estória, mas previsível.

    Já até prevejo as próximas partes: Ele, se achando tão fodão, por ter escapado, vai descobrir que foi feito de otário. A menina e a clínica, na verdade, era só fachada. A gravidez também, o teste era falso. Ela desviou os 200 mil todo pra ela (teve que dar um pouco para os cúmplices, mas é detalhe).

  7. Devido ao nome do clube onde ele conheceu a Jessica, a safadeza da menina e a frase “vou ateh falar com o capeta pra comer ela” – eu diria que a Jessica nao eh uma pessoa comun…. vamos esperar pra ver. Ateh agora ta parecendo aquela minisserie da Anita, hehehe, mas ainda acho que tem sobrenatural nessa historia… Sera que o bebe abortado vai voltar para assombrar o Laerte? Sera a Jessica uma diabinha querendo acabar com a vida do nosso protagonista? Sera que a Madame Galhada esta envolvida nisso tudo e planeja um golpe para acabar com a vida de seu marido infiel e fpd? Ou sera o pai da Jessica uma especie de serial killer tipo o Dexter. hohoho

    Nao percam o proximo capitulo dessa excelente aventura.

  8. Pra mim o Laerte CAIU sim no golpe… a menina nunca esteve grávida… conseguiu uma ultra qualquer com as amigas de medicina da faculdade. Combinou o lance da clínica fake e levou 200mil do otário…
    Em tempo, o pai dela era apenas trocador de ônibus aposentado… 🙂

    Sensacional o texto!

  9. Eu acho que a mulherzinha estava grávida porra nenhuma, já que nem apareceu barriga, conseguiu 200 mil do canalha e volta depois com sede de mais dinheiro!

    Ótimo conto e aguardo a continuação!

  10. Eu acho que a mulher aplicou o golpe nele. Ele viu ultra som ou algum outro teste mais preciso (e fácil de forjar) que um sanguíneo?? Creio que não era uma clinica de aborto, mas uma fachada pra organização embolsar R$ 200.000,00.
    O que uma garota de classe média baixa faria em um bar onde cada copo d’agua deve custar 10 reais??
    Todos os elementos: pai-matador, cara rico, esposa, conhecimento previo de metido a garanhão, convergem para minha idéia ^^
    Vou esperar pra ver se acertei =)

  11. Er…
    No final ele descobre que ela era uma puta contratada pelo Carvalho e que não estava gravida porra nenhuma, foi só pra trar a grana do otario Hahahahhahahha

  12. Pô Philipe

    Parabéns para você!

    Seu blog está se diferenciando bastante, com conteúdo original.

    Tomara que só progrida na blogosfera brasileira, e que te dê cada vez mais lucro.

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