A arte da caça – Parte 2

Antes de começar a ler este texto, sugiro que você leia a parte 1.

Um ônibus corta a estrada no entardecer…

Lá dentro estão famílias, pessoas voltando para suas casas, homens em busca de emprego na capital, enfim, todas essas pessoas que diariamente percorrem as estradas do Brasil em busca de uma vida melhor.

Na poltrona 45 está Kátia. Ela tem os olhos inchados de chorar. Enquanto muitos dormem, Kátia apenas mantém os olhos fechados. Ela relembra os últimos anos de sua conturbada vida.

Para saldar uma dívida de jogo, Kátia foi vendida pelo pai aos treze anos para um homem chamado “Divino”.  Divino era dono de uma pequena rede de bordéis para caminhoneiros. Durante boa parte de sua infância e adolescência, ela viveu a barbárie de ser explorada sexualmente em locais sem nenhuma higiene ou condição de vida.

As memórias surgem em flashes na mente de Kátia. Os espancamentos, as tentativas de fuga. Os dias em que passou acorrentada ao pé da cama, as surras. As torturas e a morte das amigas. A venda do corpo por um prato de comida. 

Kátia se lembra bem de Carlinhos Aguiar. Ele era um homem grande, com um pênis enorme.  Este homem era  segurança de uma loja de produtos rurais no centro de Exu.

Muitas das cicatrizes que Katia levava no corpo se deviam à brutalidade daquele homem. Mas Carlinhos Aguiar tinha um ponto fraco. Ele era “leso das idéias”. Cabeça fraca. Facilmente manipulável. Durante cerca de três anos, Kátia foi  forçada a fazer sexo com aquele homem. Com o passar do tempo, o sofrimento começou a dar lugar a uma relação de afeto. Digo, afeto por parte dele, já que para ela sempre foi uma violência. Carlinhos Aguiar era um bruto e sempre seria um bruto. Mas os brutos também amam. E quando menos esperava, Carlinhos estava completamente apaixonado por aquela menina de 16 anos.

Kátia viu naquela fraqueza uma chance de escapar do seu martírio. Ao longo de meses ela iludiu Carlinhos Aguiar que sentia desejo por ele. Ela manipulou cuidadosamente aquele homem de quase dois metros de altura, até que finalmente aconteceu. Ele propôs casamento á Kátia.

Mas havia um impedimento. Kátia era propriedade do Divino.

Carlinhos Aguiar tentou negociar o passe dela com o Divino, mas não teve jeito. O velho Divino era astucioso como uma cobra. Percebeu que Kátia estava manipulando o enorme sujeito para escapar. Ele negou a venda e deu uma surra em Kátia com vara de marmelo.  Deixou a menina de castigo, sem comida por vários dias para que ela ficasse fraca. Proibiu que Carlinhos Aguiar encontrasse com Kátia e liberou a Thereza a Sílvia e a Djanira para atenderem Carlinhos, pela metade do preço.

Meses se passaram sem que Kátia conseguisse sair do quarto. Estava novamente amarrada à cama, sem comida e fraca. Ela olhava o teto e só pensava em morrer para que aquele sofrimento acabasse. Como sempre acontecera, periodicamente o Divino ia até o quarto dela para se satisfazer. Ele tinha predileção por ela.

Enquanto o velho a penetrava, Kátia em silêncio desejava a morte daquele homem desgraçado e rezava para que aquilo acabasse logo.  Dia após dia, noite após noite, ela pensou em formas de matar Divino. Estava claro pra ela que só matando aquela figura abjeta ela seria livre novamente.

Se ao menos ela tivesse uma arma… Mas isso era impossível, já que ela passava todos os dias nua, amarrada à cama.

Sua única companheira era Elisete. Elisete chegara no bordel do divino quando Kátia tinha quinze anos. Ela era mais nova. Tinha 10 anos. Elisete testemunhou grande parte dos sofrimentos de Kátia, mas ao contrário desta, Elisete nunca desejou fugir. Ela aceitava seu destino com um misto de desesperança e sabedoria. Era Elisete, que durante o fim da madrugada ia até o quarto de Kátia para levar-lhe uma maçã e um pouco de água. Elisete tratava das feridas, dos cortes infeccionados feitos pela vara de marmelo.

Naquela noite, Katia pediu a Elisete que levasse um pedido até Carlinhos Aguiar. O pedido era lacônico, estranho. Elisete não entendeu direito o que significava, mas aceitou ajudar a amiga.

Numa tarde de final de semana, enquanto os homens viam jogo na Tv com as meninas no colo, Elisete se aproximou de Carlinhos. Ela falou algo no ouvido dele, e Carlinhos arregalou os olhos.

Os dois levantaram-se e foram para um dos quartos. Carlinhos pagou a taxa de dez reais pela menina e dez pelo quarto e subiram. Uma vez no quarto, Elisete falou sobre o recado de Kátia. Era pedia para ele comprar um vidro de chumbinho, aquele material químico que mata e seca o rato.

Carlinhos estava habituado a aquele material. A loja em que era segurança e vendedor negociava com  ração, sementes e etc. E sempre dá muito rato nesses lugares. Os homens que trabalham com cereais sempre tem chumbinho.

Carlinhos não entendeu a princípio para que era o chumbinho. Mas aceitou o favor. Dias depois, ele trouxe o pequeno vidro com a substância cinza dentro e entregou a Elisete.

No fim da madrgada, quando o sol já aparecia e todos dormiam na zona, Elisete foi ter com Kátia.

 Kátia disse a ela que o produto era para matar um rato que entrava no quarto dela à noite. Elisete não acreditou, obviamente. A menina era jovem, mas havia perdido sua inocência há muitos anos.  E foi por isso que Kátia resolveu contar a verdade.

Uma semana depois, chegava o dia do aniversário do Divino. A casa estava em festa e as mulheres arrumadas. A casa estava cheia, e teve churrasco, fogos, forró e muita animação. Divino estava feliz e bebia sem parar, abraçado por vereadores, guardas e homens da prefeitura.

 Foi neste dia, no interior da cozinha, quando ninguém estava olhando, que Elisete colocou chumbinho de matar rato na cerveja do Divino.

 Kátia ia se lembrando daquilo tudo. Escutava o barulho do ônibus e ouvindo o ronco do motor, ela ainda se lembrava do estrebucho que ele deu, caindo para trás com a cadeira, se sacudindo todo, revirando os olhos e babando uma espuma branca.

A cena ocorreu bem no meio da  noite de sábado. Na promoção de aniversário, todas as meninas estavam pela metade do preço. Quando ele caiu e começou a dar o ataque, muita gente achou que era coisa atôa. Mas quando ele começou a ficar pálido e frio, as pessoas já gritavam, correria, homens disparavam para seus carros e caminhões numa tentativa desesperada de evitar a mácula em sua honra. Sim, porque 99,9% dos clientes do Divino eram pais de família, que iam à missa, comungavam e bancavam de bons samaritanos.

Só ela sabia da devassidão, da decadência moral de muitos deles. Quando divino começou seu longo passeeio em direção ao inferno, foi a oportunidade que Kátia e Elisete encontraram de fugir.

Aproveitaram-se da confusão para saquear o caixa. Elisete juntou um bolo de notas e enfiou na calcinha. Foi até divino que estava cercado de curiosos ignorantes que não faziam muito além de segurá-lo.  Elisete conseguiu pegar a chave da corrente no cinto dele sem que ninguém percebesse. O homem gemia e se debatia em desespero. Elisete aproveitou-se da confusão e correu para o quarto no fim do corredor.  Ela tirou Kátia de lá.

As duas correram cambaleando na escuridão do sertão, evitando a estrada. Ao longe, no frio da noite, elas viram os carros da polícia passando na estrada, indo na direção da zona do Divino.

Kátia se movia com dificuldade. Os dias deitada na cama haviam prejudicado seriamente sua saúde. Para evitar a morte por esgotamento físico,  andavam durante a noite e descansavam durante o dia. Quando finalmente elas conseguiram pegar carona com um caminhoneiro que seguia para Mossoró, levando trabalhadores de uma fazenda, Kátia pensou que era um milagre. Mas milagres são gratuitos e o caminhoneiro pediu uma bela grana para deixar que elas subissem na caçamba.

Durante a viagem, foram alimentadas com rapadura e beberam água dos colonos. Na entrada da cidade, as duas se dirigiram a um pequeno bazar, onde compraram roupas menos espalhafatosas.

Com as novas roupas, após almoçarem, elas pegaram um ônibus para São Paulo, onde buscariam vida nova.

 Kátia sentia as lágrimas rolarem pelo rosto quando lembrava de todo o sacrifício até ali. Ao seu lado, Elisete dormia profundamente.

Quando as duas finalmente chegaram na cidade de São Paulo, ficaram assustadas com o tamanho das coisas. Prédios, luzes, confusão. Muita, muita gente e o barulho ensurdecedor das ruas, lotadas de carros.

Com pouco dinheiro, sem ter onde morar ou qualquer perspectiva de trabalho, as duas acabaram voltando a se prostituir. Mas aquela era a primeira vez que as duas viam dinheiro vivo em troca de seu trabalho.

Em pouco tempo, Kátia e Elisete começaram a perceber que não teriam muito futuro apenas na prostituição, até porque elas atuavam num bairro decadente, entre traficantes e travestis. Kátia sempre dizia que prostituta de rua ganha mal. Estava certa.

Em tempo de vacas magras, começaram a praticar assaltos e pequenos furtos para sobreviver. Um dia, estavam roubando alimento num supermercado quando foram pegas pela segurança. Após terem que devolver o produto do furto, foram encaminhadas à polícia.

Uma vez no camburão, um dos meganhas olhou pela grade e propôs alguns favores sexuais em troca da liberdade. Elas toparam de imediato e os quatro acabaram numa longa sessão de sexo grupal num terreno baldio nos fundos de um estacionamento. Após se satisfazerem, os policiais liberaram as meninas, e advertiram Kátia e Elisete que elas não poderiam mais voltar no mercadinho, ou seriam presas de verdade.

As duas acabaram soltas e de volta às ruas, dormiram numa praça. Ficaram alguns dias esmolando e vivendo de restos de salgadinhos na porta de uma pastelaria.  Elas ficaram nessa vida de sexo mal pago e esmolas até que finalmente Elisete conseguiu dinheiro para comprar uma caixa de drops.

Logo que tentou vender drops nos ônibus municipais, Kátia percebeu que era extremamente difícil obter sucesso ali. Os motoristas na ampla maioria das vezes, não deixavam que elas subissem no lotação. Elas permaneceram tentando até que Elisete surgiu com uma idéia de seduzir motoristas e trocadores para conquistar sua simpatia.

O plano foi posto em prática e rapidamente surtiu efeito. Aleijados, velhos e deficientes mentais amargavam o dissabor de não entrar nos coletivos, mas bastava um sinal e um olhar que exalava sexo para que elas adentrassem o veículo. Com poucos vendedores ambulantes nos coletivos, elas rapidamente angariaram um bom dinheiro. Claro que este tipo de trabalho envolvia alguns sacrifícios, como eventualmente dar para fiscais, motoristas e cobradores. Mas o volume de dinheiro compensava.

Assim elas puderam pagar um pequeno quarto de hotel, uma espelunca que cobrava dez reais ao dia, com direito a  chuveiro frio. Eventualmente, era ali que elas atendiam aos clientes.    

Com o sucesso da venda de drops nos ônibus do centro da cidade, rapidamente as duas começaram a investir em “novos negócios”.

Os “novos negócios” eram o agenciamento de pivetes para vender balas nos sinais. Foi mais ou menos nesse período que elas conheceram o Tião. O nome dele era Sebastião. Nunca falou o sobrenome e nem mesmo elas tinham certeza se o nome real era este. Ele usava muitos.  Tião era 171.

171 era como ele chamava sua profissão. Tudo consistia em aplicar pequenos golpes, nos quais Tião iludia as pessoas a pensar que iriam enriquecer. Sua habilidade maior era com o famoso golpe do bilhete premiado.  Neste golpe, Tião, um exímio ator, se passava por um velho caipira do interior. Ele se fazia passar por um homem humilde e andava pelas praças do centro da cidade perguntando a idosas onde ficava uma determinada agência da Caixa Econômica Federal.

Antes que a vítima pudesse lhe dizer o local indagado, ele mostrava um bilhete de loteria e dizia estar indo buscar o prêmio.  Tião sacava de um saco plastico um documento com achancela timbrada da Caixa, atestando que aqueles números de fato eram premiados.

Isso imediatamente despertava a cobiça nas vítimas, as quais Tião pedia que o acompanhasse. A caminho da Caixa Econômica, Tião dizia estar aflito com uma doença de sua filha, que precisava voltar para pegar um ônibus que sairia dali a picos minutos. Para isso, Tião comprava um bilhete de ônibus horas antes de aplicar o golpe.  Enquanto se dirigia até o banco, ele perguntava as horas de modo insistente, e dizendo não poder perder o ônibus, propunha  à vítima de lhe vender o bilhete premiado por uma ridícula fração do seu valor.

Pensando em ganhar uma fábula em cima do velho e inocente homem do campo, muitas senhoras sacavam todas suas economias para lhe comprar o bilhete. Em alguns casos, ele obtinha até jóias.

Tião era especialista em se passar por analfabeto. Pensando em tirar proveito da inocência do homem do campo, muitas pessoas davam todo seu dinheiro em troca do bilhete premiado, que obviamente, não valia nada.

Raras eram as que davam parte na polícia, uma vez que para isso teriam que  assumir sua má fé em tirar proveito de um suposto homem do campo.

O esquema de venda de balas no sinal com os pivetes começou a ir de mal a pior quando o crack chegou a São Paulo. Eles se viciavam rapidamente e acabavam roubando o dinheiro das balas, causando prejuízo.

Em paralelo, Tião ganhava mais e mais dinheiro com os golpes. Eventualmente, Kátia participava de alguns dos golpes, ganhando uma pequena comissão.

Então a delegacia de defraudações iniciou uma séria investigação de estelionato nas praças de São Paulo, colocando agentes disfarçados. Tião viu sua mina de ouro ruir como um efêmero castelo de areia. Quando seus dois principais comparsas foram presos no Paraná aplicando o golpe  da máquina de fabricar dinheiro, ele começou a temer que cerdo ou tarde, dedurariam ele.

Tião apareceu o hotel com duas malas, uma delas cheia de dinheiro, e se despediu das meninas. Disse que estava se mudando para o Rio. Contou a elas que tinha uma boa reserva e que iria “dar um tempo”.

Cerca de dois  anos se passaram e o empreendimento das balas no sinal já não dava nem uma fração do que gerou no passado. O numero de miseráveis em São Paulo aumentou dramaticamente, fazendo com que surgisse toda sorte de concorrência. 

Foi num desses dias quentes que Kátia recebeu um telefonema. Era Tião.

-Kaká? É o Tião.

-E aí Tiãozinho? Quanto tempo.  Como está aí no Rio?

-Uma maravilha, Kaká. Comprei uma casinha. Estou indo à praia quase todo dia. A vida aqui está boa.

-Mas diga, Tiãozinho, tem aplicado? -Perguntou Kátia.

Tião riu do outro lado da linha e não falou nada. Imediatamente, Kátia entendeu o que aquilo significava. Tião estava “aplicando” como nunca. E então ele rompeu o silêncio.

-Kaká, vocês querem vir pra cá? Eu tô precisando de uma ajuda aqui. Inventei um sistema novo. Trabalho bom. Retorno muito acima da média. Coisa fina! Mas eu preciso de gente de confiança. Vocês duas ainda estão naquela perda de tempo de agenciar pivete?

-Pois é, Tiãozinho. O mar aqui não tá pra peixe. A gente tava mesmo pensando em mudar de ramo. Abrir uma casa noturna…

-Ah! babaquice, Kaká. Esquece essa porra de zona. Zona já deu dinheiro. Hoje isso não dá nem pro gasto. Vem pra cá que eu tenho coisa boa. É 20% pra cada uma.

-20%?

-Isso. -Respondeu Tião.

-Nós vamos.  

-Quando?

-Embarcamos hoje à noite! -Disse ela. Do outro lado Tião soltou uma gargalhada.

-Vocês estão mesmo muito mais fodidas do que eu imaginei. -Ele riu.

-Me passa o endereço aí. -Disse Kátia. Ela anotou num pedaço de papel de pão e depois desligou. 

Ao lado dela, fumando um cigarro e olhando para o teto, estava Elisete. As duas se entreolharam e sorriram.

Na tarde do dia seguinte, desembarcavam na Rodoviária Novo Rio as duas moças.

Horas depois, estavam os três numa casa de subúrbio com muros cor de rosa. Tião mostrava um papel todo rabiscado à caneta. Orglhoso, ele explicava o novo golpe.

Era um plano bem elaborado. Durante dois anos que viveu no Rio, Tião passou o tempo todo pensando em um novo golpe. Seu alvo eram altos executivos. Para estudá-los, ele arrumou emprego de faxineiro num pub. Graças à proximidade do pub com o centro empresarial, ele e gradualmente começou a observar o comportamento dos homens. Com a ajuda de garçons ele traçou perfis e levantou informações sobre os homens que freqüentavam o lugar. Tião ainda não sabia o que fazer com aqueles dados, mas tinha a sensação que eles serviriam para alguma coisa.

Tião estava na praia quando finalmente teve a idéia que mudaria sua vida. E foi então que ele elaborou o plano e ligou para Kátia e Elisete.

O primeiro passo do empreendimento envolveu contratar e treinar cerca de seis meninas. Kátia e Elisete estavam encarregadas de descobrir os talentos e preparar as garotas.

O processo de treinamento envolvia retirar todo e qualquer sinal de comportamento de puta dessas garotas. Paralelamente, Tião investiu uma grana em gráficas, gerando toda uma papelaria falsa de laboratórios de análises patológicas.

O plano era elaborado e consistiu em plantar essas meninas em diversos pubs, freqüentados por empresários de diferentes setores. As mulheres não poderiam, sob hipótese alguma, parecer interessada nos executivos. Elas deveriam se posicionar no ângulo de visão dos homens e agir como se não tivessem interesse.

Durante sua “pesquisa de campo”, Tião notou que mulheres oferecidas produziam uma alta taxa de rejeição por parte de alguns homens. Entretanto, mulheres que pareciam sérias e distantes, atraíam estes homens como abelhas no mel.

As moças eram vestidas com roupas sóbrias. Parte da “fantasia” envolvia carregar apostilas ou algum livro de Ciências Humanas.  Posteriormente, Tião aperfeiçoou o plano, adicionando “amigas” para a moça. Essas amigas tinham a função de fazer alguma algazarra de modo a atrair os olhares para o grupo, para em seguida saírem de cena, largando a “alvo” sozinha. Assim elas conseguiam despertar e direcionar o interesse dos homens para a mulher-alvo.

Haviam regras estritas para o plano. A maior delas era: Nunca, sob hipotese alguma, fazer sexo na primeira noite. Nem, na segunda e nem na terceira. A mulher deveria demonstrar interesse, mas a relação não poderia passar de beijos. Tião percebeu que quanto mais alta a aposta, mais antecipação era criada. Tião sabia que tudo não passava de um jogo. Quanto mais as mulheres resistissem aos apelos dos homens, mais frágeis e inconseqüentes eles se tornavam buscando atingir o sexo.

Com tanto investimento masculino, a camisinha e coisas do tipo eram completamente esquecidas na hora “H”.  

Para ressaltar o alto “padrão intelectual” das moças, elas eram plantadas na porta de universidades, carregando apostilas xerocadas. Isso ajudava a criar uma idéia de menina universitária. Dali, direto para o motel. Outra regra calara era nunca questionar o fato dos homens serem casados. Tudo devia parecer perfeitamente normal. Elas deveriam ser as melhores amantes. Sempre prontas para o sexo, sem questionar ou cobrar.

Tão logo os executivos eram atraídos, as mulheres deviam se comportar como perfeitas amantes. Mas a parte fundamental do plano era “o dia de conhecer a família”.   

Imediatamente após se tornarem “namoradinhas” dos homens, em seu quase total número casados, era criado um enredo no qual o homem era apresentado à família da jovem.

O pai era sempre interpretado pelo próprio Tião. Para o papel da mãe, Tião escalou dona Neuza, uma velha conhecida dele desde os tempos do bilhete premiado. Ela fazia o papel de mãe. Entrava muda e saía calada, servindo basicamente de figurante, fazendo e oferecendo o cafezinho para o “namorado da filha”.

Durante a semana, eram três ou quatro “filhas”, trazendo seus namorados para “os pais” conhecerem. Ele, um ex-matador, membro de milícias. Ela uma senhora religiosa totalmente submissa.

Não tinha homem que não caísse naquela esparrela. Todos eram muito profissionais.

O passo seguinte era esperar uns dias. Então a “filha” aparecia no trabalho do namorado com um laudo falso de exame de gravidez. O resultado era quase sempre o mesmo. 90% dos homens se viam encurralados. Eles pensavam que a gravidez era real. Os laudos falsos com carimbo e chancela de laboratórios verdadeiros ressaltava o aspecto de realismo, dando mais credibilidade aos golpes.

Como os homens eram escolhidos cuidadosamente baseados por uma série de fatores, entre eles a posição na empresa, o relógio, o carro, o sapato e etc, ficava fácil saber o perfil psicológico da vítima. Todos eles optavam pela saída covarde de sugerir um aborto. Eles pensavam que a idéia era deles e nunca que foram cuidadosamente direcionados para pensar aquilo.

As mulheres então tinham o papel de recusar a proposta e afirmar que iriam ter o bebê. Isso desestabilizava facilmente os homens, deixando-os propensos a subir o cacife e questionar pouco, ou mesmo não questionar.

As mulheres então finalmente aceitavam a idéia de tirarem os bebês, e sugeriam uma clínica clandestina de aborto em particular.

A tal clínica era uma casa localizada em Laranjeiras, que Tião alugava por uma bela grana. Era caro, de fato, mas a localização associada com as condições ambientais contribuíam para que os homens pensassem se tratar de uma clínica de alto nível. Isso subia o valor do golpe, que variava de 50 a 200 mil reais por aplicação.

Tião pagava a esposa do Benício, que cumpria pela pelo golpe da máquina de dinheiro no Paraná, para atuar como a secretária. Uma das meninas atuava como a enfermeira. O trabalho era simples. As moças chegavam carregando os trouxas com envelopes cheios de dinheiro vivo. Por dia eram duas meninas. Sempre na parte da manhã. Tão logo o trouxa pagava, a moça era levada para o interior da casa. Ali ela recebia sua parte no pagamento, cerca de 12% do valor bruto do golpe. Após receber sua parte, lá nos fundos ela ficava vendo Tv por cerca de uma hora até que finalmente saída da sala, convalescendo, amparada pela falsa enfermeira. Todos os homens acreditavam ter se livrado do pesadelo da amante grávida e em poucos dias se livravam da menina.

E assim a garota estava apta a aplicar novamente o golpe do falso aborto. Cada menina aplicava o golpe em dois homens simultaneamente, gerando um cachê de quase 50mil reais no fim do mês, fazendo sexo com apenas dois homens, comendo do bom e do melhor, viajando, ganhando jóias, roupas e outros mimos.

Durante um ano, Tião, Kátia e Elisete  mantiveram um time de sete “filhas”, cada qual aplicando o falso aborto em dois executivos simultaneamente. Ninguém nunca descobriu. 

Certa vez, uma das meninas em treinamento perguntou a Kátia o que ela achava de viver desses golpes polpudos em executivos garanhões.

-…Jana, você não sabe o que é trabalhar num puteiro sujo, sendo comida por homens que te fariam vomitar, sem ganhar nada por isso? Eu sou uma sobrevivente. Eu me vingo do que me fizeram em cada um desses desgraçados.  E eles sempre vem. Cada vez em maior número. Cada vez mais convencidos, mais trouxas. Eles não podem evitar serem feitos de palhaços. Eu não posso evitar tirar dinheiro deles. Porque você sabe… Somos caçadoras. É a nossa natureza.

FIM

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56 comentários em “A arte da caça – Parte 2”

    • O livro tá pronto. Tá escrito já. Só preciso pegar e acabar as correções e mandar publicar. Como a galera parou de pedir achei que tinha passado o interesse.

      • Se a publicação depende do número de pedidos encarecidos, então aqui vai mais um. E já peço pela pré-venda!

        😀

        Mais uma excelente história, tem gente que nasce pra escrever mesmo…

      • cara se voce escrever um livro
        eu vou querer um exemplar autografado
        compro na hora
        mas vai ter que ter muito mais historias que no site (que eu inclusive ja li todas)
        mas ia ser bem vendido
        pelo tanto de fans que adoram as suas historias eu não duvido

  1. Li os dois textos, e tenho que admitir. A idéia é genial!
    Eu não consegui imaginar em qual parte do segundo texto ele ia se emendar com o primeiro.
    Realmente muito bom.
    Ficam aqui os meus parabéns.
    Grande Abraço!

  2. eu gostei da 1ª parte, mesmo sabendo que estava incompleta. Eu desconfiava de uma armação, mas eu nunca pensei que a continuação terie esse desfecho, muito bom, merece aplausos, pois normalmente ninguem descreve o outro lado, pois quando só se ve um lado da história é facil ver quem é o vilão e quem é o mocinho, mas quando se mostra os dois lados, depende do ponto de vista e dos ideais de cada leitor, aposto que vai ter gente achando o laerte culpado, pois ele traia a esposa, mas vai ter gente achando a “Jéssica” a culpada, por extorquir dinheiro de um homem enganado-o.

    • Sim. Acho que o cerne do texto está em mostrar que há sempre um microcosmo num macrocosmo. Os dois são predadores. Há uma mensagem velada no segundo texto, que muita gente nem nota (o que eu vou fazer agora é chato como ter que explicar a piada) que é o fato da Kátia se considerar uma predadora. Do mesmo modo que no fim da parte 1, Laerte se considerava. Mas a verdade dos fatos é que Kátia continua sendo presa. Ela vem sendo presa desde o início. Kátia nunca se libertou de suas prisões elas apenas mudaram de forma. Ela é usada e descartada e este é seu destino. è usada pelo pai, é usada pelo divino, é é usada pelo Tião. No fim, ela pensa controlar seu destino, mas Tião mantém o controle sobre a vida dela. Então sob certos aspectos ela é um passarinho que apenas mudou para uma gaiola maior. Este é o núcleo do texto, a idéia central. Nunca somos livres, nunca somos os predadores. Podemos agir como, pensar que somos, bancar o rei da cocada preta dentro do nosso microcosmo, mas num nível macro, somos apenas gado, servido a propósitos obscuros e nunca nos damos conta disso.
      O chato é pensar que pouca gente vai fazer essa reflexão. Mas se divertir já tá bom.

      • Profundo demais heim! Queria um exemplar do livro, vc vende pelo site? Queria saber o preço e se poderia ser autografado. Acompanho seu blog desde o endereço antigo (acho que 2006), adoro seu trabalho. Parabenss

  3. :argh: Man what’a hell? Imprecionante, muito bom, você tem o dom.
    Ao ler a primeira parte achei a história meio roteiro de novela, mais com essa segunda parte me convenci de que estava vendo roteior de filme gringo ao nivel de crash. Fabuloso cara, se escrever histórias assim para você é fácial você devia mudar para um emprego mais rentável 😎 . Só elogios, ótimo final, bem na cara do safado e convencido!!!!

    • Eu concordo, mas tenho medo deste tipo de texto que cresce demais e acaba dominando tudo. Ocorre que eu preciso colocar coisas aqui direto, a necessidade de uma alta rotatividade impõe que eu limite um pouco o tamanho dos contos. Em geral, quanto ais longos os textos, menos visitantes os lêem.

  4. Huahuahua, caramba, adorei o final da história.

    No final, o Laerte que se achava o vencedor fora enganado o tempo todo e nem desconfiou. Muito bom mesmo, mais uma vez, parabéns pela história.

  5. aqui rolou algo semelhante com meu melhor amigo, mas ela nao contava que eu era medico, e casado com a dona do laboratorio daonde ela fez o exame que nunca existiu…

    mas isso sempre tem de monte por ai… se nao igual, parecido.. mto parecido.

  6. Muito bom. A narrativa é dinâmica, elaborada. Te coloca no ambiente da história, você quase consegue sentir o ambiente criado à sua volta. Apesar de curto e meio previsível, o conto é muito bem elaborado. A narrativa se parece muito com a de livros consagrados e best selers. Palmas para vc Philipe. E sim, histórias como essa, com um pouco mais de apuro e voltadas para séries ou curtas podem dar bons frutos. A muito estamos precisando no brasil de ares novos e enredos novos. Chega de obras repaginadas do inicio do século passado.
    Parabéns novamente.

    PS: Continue assim como vc sempre foi, não caia na cilada do orgulho pelos louros recebidos.

  7. Cara Está de Parabéns meeeeesmo! como outros já disseram digno de um best seller, leio o mundogump há 1 ano aproximadamente, entro pelo menos umas 2 vezes por dia para conferir o blog mas praticamente nunca comento os posts, sempre fico me regulando não sei porque, talvez receio de não ter algo a acrescentar, porém desta vez não consegui segurar, tenho que deixar meu comentario e parabenizá-lo pela genialidade, a ambientação é incrivel, muito bom mesmo.

  8. Philipe, realmente você escreve muito bem, tem um dom com as palavras e eu adoro seus textos.
    No entanto, você comete um erro de ortografia gravíssimo que já reparei em vários de seus posts (não sendo um mero erro por desatenção ou digitação).
    As palavras ‘prévia’, ‘diária’, ‘simultânea’, dentre outras que não me recordo no momento, perdem o acento quando têm o sulfixo ‘mente’ adicionado (‘previamente’, ‘diariamente’, ‘simultaneamente’).
    Isso ocorre pois a sílaba tônica passa a ser o ‘men’ (que também não leva acento), além de só serem acentuadas as sílabas oxítonas, paroxítonas ou proparoxítonas. Nunca a quarta ou quinta sílaba, como você faz com essas palavras.
    Fica aqui a dica para que seus textos sejam ainda melhores.

  9. Realmente você está de parabéns!
    A estória é bem detalhada e o enredo muito bem feito.
    Fico imaginando que alguém mal intencionado pode pegar a sua idéia e tentar colocar o golpe em prática.
    Acho que muitos “caçadores” iriam cair nessa de verdade.
    Quando puder manda mais contos.
    Abraços

  10. Gostei muito da historia, axei legal a caracterização dos personagens, a 1ª fico com uma qstão no ar, e vc soube encaxar as duas de uma forma muito dinâmica, um roteriro sem furos e nunca fugindo aos padrões da 1ª historia.
    Gostei msmo, parabens!

  11. Então cara , direto e reto eu fiko pensando nisso…sera que agente que controla mesmo a nossa vida ? Sera que nos somos apenas marionetes na mão daqueles que estão no poder ? Daqueles que controlam as redes de tv , de radio , que controlam os governos ?
    Porque eu percebo constantemente infinitas coisas que eu acho que faço por que eu quero..mais na verdade eu só quero aquilo porque alguma coisa me fez querer aquilo , e muitas vezes eu sei o que me fez querer aquilo mais mesmo assim eu não busco deixar de querer entendem ? Eu sei que ta meio enrolado , mais essa é uma reflexão que toma muito tempo do meu dia ultimamente…por exemplo , eu ja fazia essa reflexão antes deste post , mais se eu não fizesse , eu ia ler este post e ia começar a fazer , então , eu estaria sendo influenciado por este blog….enfim , eu acho que ninguem faz nada sem ser influenciado ou manipulado por algo ou por outras pessoas…apesar de que há uma diferença entre ser manipulado e ser influenciado , uma diferença bem estreita , mais há..É mais ou menos isso que eu penso , e eu não acho que deu pra eu me expressar muito bem , e eu num vo consegui coloca tudo aqui porque eu duvido que alguem ta lendo ate esse ponto , imagina se eu fosse por todas minhas reflexões aqui.auhauha , mais pra finaliza Philipe , esse texto foi muito bom mesmo , e o final foi perfeito , hahaha !

    Grande Abraço !

  12. show de bola a história realmente daria um bom filme
    eu achei que vc tava estacionado sobre a parada do livro, lança sim que a galera vai curtir.
    parabéns philip

  13. Fim?! Como assim Fim?!
    Continua escrevendo, tá muito massa!!
    O que vai acotnecer com A Kátia? E com o Laerte? E com o Tião e as moças??
    Ahhhh eu preciso sabeeer!!

  14. Olá meu filho,

    Vejo satisfeita que vc continua um cara genial com as palavras. Nao é corujice de mae ja que tantos escreveram gostando de suas estórias, que eu já lia desde seus tempos de 1 grau…
    Que bom que a sua professora te desafiou a escrever um conto por dia…

  15. Li a primeira parte tentando descobrir o final. Errei feio… rs. E outra vez fiquei surpreso com o poder que você tem em prender nossa atenção. Digno de aplausos. Parabéns, velho.

  16. Excelente, já tinha lido uma vez mas não comentei, agora que eu reli, esse texto está ótimo, e essa esquema que os trambiqueiros do conto usaram, digno de um gênio. Parabéns, e como eu não canso de dizer, você é 10000000!

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