Três casos “baratos”

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Baygon | Aventuras | baratas, coleções, maluca

Este post é pro Fernando, que vive reclamando que eu parei de contar casos meus aqui. Então pra recuperar o “delay”, vou meter logo três de uma só vez. Segura aí Fernandão! – E se não acreditar, pergunta pra minha vó que ela confirma! Metade das coleções eu fiz quando morei com ela.

Me lembrei agora de contar três casos envolvendo baratas.
Muitas pessoas tem nojo de barata. Outras tem medo. Algumas tem tamanho pavor que apenas o ato de olhar uma inocente barata de esgoto com suas perninhas peludas e casco lustroso pode causar um pânico superior a ver o demônio em pessoa deitado sensualmente na sua cama de noite.

CASO 1 – O DIA EM QUE EU COLECIONEI BARATAS

Eu tinha uns doze anos e estava com uma estranha mania de colecionar. Eu não colecionava coisas. Eu colecionava coleções, o que é algo bastante perturbador. Sobretudo quando as coleções ( vou citar apenas algumas) eram:

– Chicletes comidos – e o detalhe sórdido: Nem sempre por mim!

– Maços de cigarro – Obviamente eu não fumava. Então eu andava pela cidade inteira olhando latas de lixo em busca de maços de cigarro usados para completar minha coleção. Acabei tendo que jogar fora pelo cheiro nauseabundo de fumo que deu no meu armário. Minha mãe não gostou nada de ver aquilo.

– Cuspe. – É triste admitir, mas eu colecionei cuspe por uns três meses. Arrumei um vidrão grande de maionese e todo dia eu dava umas seis cuspidas ali dentro. A diversão acabou quando minha mãe achou o vidro debaixo da minha cama e me perguntou o que era aquela “cola” no vidro e eu respondi.

– Minhocas – Colecionei minhocas por um tempo curto. A coleção não foi pra frente porque não dava pra ver quantas eu tinha. Joguei a terra com as minhocas fora. Elas devem estar até hoje no quintal da minha avó.

– Revista de sacanagem tipo trash – Eu gostava de colecionar as revistas mais vagabundamente escrotas. Essas são uns reprints da década de 70 com suecas de peitões. Reconhecer a revista é fácil. Elas costumam ter um plastiquinho vermelho na frente e sempre ficam escondidas no alto no canto mais escuro das bancas de jornal. Das piores que eu tive foram: As rainhas bizarraas do S&M ( hahaha, levei uns seis anos com a revista pra descobrir o que era o tal do S&M. Inocente, eu achava que era a editora!) e o clássico dos clássicos: CELINA – A gravidinha insaciável. (O título fala por si. Imagine algo de revirar o estômago de qualquer legista. Agora imagina isso grávido. )

– Comandos em ação – Tentei levar a sério minha coleção de comandos em ação. Mas isso se tornou um trabalho impossível tendo dois irmãos menores ávidos por brincar. Considerando que parte da minha coleção vinha diretamente dos presentes de natal e aniversário deles, o mínimo que eu pude fazer foi manter a coleção por algumas semanas.

-Seleções – Ah, esta foi a minha melhor coleção, sem dúvida. A mais útil. Talvez esta tenha sido a coisa mais útil que eu fiz em toda minha infância. Eu colecionei a revista Seleções do Reader´s Digest durante anos e anos. Pra falar a verdade eu ainda tenho várias. Comecei em grande estilo pelas edições de 1954 e fui em diante, tentando nos sebos encontrar aquelas revistas já amareladas pelo tempo. Aquele monte de contos, histórias e “flagrantes da vida real” estão armazenados nas minhas memórias mais profundas, vindo à tona eventualmente no meio de um texto, uma conversa com amigos ou mesmo quando estou sozinho pensando no chuveiro. Eu li com certeza umas 600 seleções. E lia mesmo. Tudinho. Aquilo me ajudou bastante. HOje eu vejo o tempo idiota que perdi na escola escrevendo babaquices na aula de português. Se eu pudesse voltar no tempo, entraria na escola com um helicóptero e me resgataria em meio a uma saraivada de balas na cara da professora. Me levaria para uma base militar secreta no fundo de um vulcão numa ilha perdida no Pacífico Sul e ali abriria uma pesada porta de aço, revelando toda uma coleção desta maravilhosa revista. Daí eu falaria pro moleque: LEIA! Daqui a dez anos eu volto.

Eu também colecionei ioiôs. Eram de todos os tipos, de madeira, plastico, da Coca-Cola, da Fanta, do Guaraná, do camelô, grande, pequeno, todos os tipos. A coleção se perdeu em alguma das inúmeras mudanças da minha família.

Eu colecionei dinheiro. Ok,. esta é uma coleção normal e comum. Mas colecionei em notas e moedas. Numismática. Confesso que peguei meio caminha andado por ter herdado a coleção de numismática de meu bisavô. Graças a uma série de planos governamentais escrotos, minha coleção aumentou bastante desde que ganhei. Esta eu tenho até hoje. ( em algum lugar aqui em casa. Ou seria na casa da minha mãe? Talvez na da minha avó.)

Selos – Colecionar selos foi uma bela estratégia de sobrevivência infantil quando se estuda numa escola católica opressora. O Padre Jaime, diretor na época, colecionava selos. Dar-se bem com o diretor sempre foi uma das minhas melhores prerrogativas. As notas eram um fiasco, mas eu me dava bem coma cúpula. Sempre me dei. Desde o Seu Joel do colégio Entre-Rios. Saí de sala várias vezes alegando que ia falar com o diretor. O motivo, trocar selos. Melhor que decorar monômios.

Chaveiros – A minha coleção de chaveiros era de dar inveja. Tinha todo tipo de chaveiro imaginável. Um inclusive era uma granada da segunda guerra mundial. O legal é que a argola era no lugar da argola da granada real, o que lhe conferia um aspecto mais realista e bizarro. Tamanho e peso reais. Outro chaveiro bem legal era o de gilete. Igualzinho uma gilete normal. De metal e tudo só que sem corte. Eu tinha um chaveiro algema também. Muito legal.

– Plástico – Eu colecionei plástico. Plástico era o nome dos adesivos de carro na época. Esta coleção veio de brinde na coleção de moedas. O meu tio Carlos José me deu. Ele colecionava desde garoto, então era plastico que não acabava mais. Este meu tio é o pai do Fernando Kling, que é leitor cativo do Mundo Gump. O que significa que esta coleção deveria ser dele. Mas ele nem era nascido e perdeu, hehehe.

– Bonés – Eu colecionei bonés por um tempo. Juntei uma boa quantidade. Teve um ano que eu acho que passei uns 300 dias usando um boné. Daí um belo dia eu desisti. Desfiz a coleção, ditribuindo os bonés para meus amigos.

-Bola de gude – Eu entrei numa de juntar bola de gude. Quando eu consegui juntar mais de 500 bolinhas desisti também. Não tinha onde guardar.

– Baratas. Finalmente. A coleção final. A piração derradeira que deixaria qualquer mãe aflita procurando frenéticamente nas páginas amarelas por “psicólogos infantis”.
A ídéia surgiu da necessidade de colecionar coisas vivas. Como minhocas tinha sido um fracasso, bem como formigas, decidi que artrópodes seriam mais legais.
Arrumei um velho aquário e mobiliei-o com troncos, pedras e pedaços de papelão amassados. Fiz uma tampa com uma tela metálica de trama bem fina e saí em campo em busca de alguns “ítens”.
Achei a minha primeira barata voadora no lixão do prédio. Era uma bitela preta meio molhada. peguei ela dando uma vassourada de leve em cima. Ela ficou meio boba e eu joguei um vidro de maionese ( ou seria de azeitonas?) em cima.
Naquela semana juntei umas trinta baratas. Todo dia depois da aula eu ia pra garagem caçar.
Eu não podia dar mole com minha coleção de baratas. Minha mãe estava na minha cola. Ela havia descoberto a coleção de chicletes comidos e de cuspe. Ela também havia visto minha coleção de maços de cigarro usados no armário. Então eu inventei uma capa protetora para o meu aquário ( uma velha fronha de travesseiro furada em cima.) e escondi cuidadosamente “as meninas” sob minha cama.
Era difícil de dormir porque de noite elas ficavam muito ativas. Sem contar que elas fediam muito nos dias quentes. Eu podia ouvi-las roendo os pedaços de papelão molhados que eu dava de alimento. Também dava pra ouví-las voando dentro do aquário.
Por alguma estranha razão alheia a minha vontade, as baratas enjoaram de comer o papelão, tornando-se CANIBAIS!
Então virou tipo um Vale-tudo. A porrada comia. Logo uma barata começou a adquirir a supremacia. Ela era uma bela baratona castanha, com asas protuberantes e uma bunda gigante. As antenas dela era grandes ao ponto de quase tocarem a tampa do aquário.
Em pouco tempo, das trinta e tantas, só restava “THE BIG JACK” a barata jedi. O Chuck Norris com hexoesqueleto e seis pernas peludas. Eu tentava repor as baratas da coleção. Mas Big Jack virou uma assassina potencial. Não sobrava nada. Só pedacinhos crocantes de suas vítimas pelos cantos do aquário.
Tive tanta pena do BIG JACK que acabei libertando-a num novo ambiente onde ela poderia exercitar sua fúria serial killer voraz. Ela voltou para a garagem. Minha mãe mais uma vez descobriu que eu estava com uma coleção bizarra. E eu levei mais uma bronca. – Um item de coleção que eu já estava acumulando fazia tempo.
E este foi o fim glorioso de minha coleção de baratas.

SEGUNDO CASO BARATO – O dia em que a barata me enganou

Eu havia acabado de casar com a Nivea. Recém casados, pouca grana. Fomos morar numa cobertura.
hahaha, Calma. Não sou rico. Era a casa do zelador. Eu morava num pequeno apartamento de dois cômodos no alto de um prédio velho e pequeno que mais parecia o INAMPS. Só tinha velho e doente. Com destaque para os porteiros mais inacreditáveis que alguém já viu. nesta época, a minha sala tinha uma bela vista: Para um cano torto do telhado em meio a antenas tortas e telhas de amianto.
O pior é que o apartamento ficava quente pra caralho. O sol pegava bem no meu teto. e nesta época meu escritório não tinha janelas, nem ar condicionado. O calor era tamanho que no quarto o blackout ( um plastico que a gente usa pra segurar o sol) derreteu!
Então coberturas e topos de edifício normalmente concentram muitas baratas. O calor deixa as baratas histéricas.
Mas eu era feliz. ( e sou.) Eu estava casado havia pouco tempo e aquilo ( aquela merda) era o que nós podíamos pagar.
Um dia, ou melhor uma madrugada, fez tamanho calor que eu não aguentei. Resolvi ir até a cozinha beber água.
Quando eu cheguei na cozinha e acendi a luz:

PÂ! Tinha uma porra duma baratona enorme bem no meio da cozinha. No meião. Sem nenhum lugar pra esconder. Eu vi que a barata parou por um segundo.
De uma hora para outra, a barata deu um pulo pra trás e parou.
Morreu.
– Caralho! – Pensei eu. Será que eu havia virado um Jedi? Meus poderes mentais haviam se aperfeiçoado ao ponto de matar uma barata sem nem ao menos pegar num chinelo?
Eu não acreditava no que meus olhos viam. A barata ficou durinha. Parecia infarto.
– Será que barata enfarta? – Pensei com meus botões.
Fui até ela. Abaixei olhei pra ela. Paradinha. Nem com a minha aproximação sísmica ( bati forte os pés no chão) ela se moveu. Eu fiquei ali uns três segundos olhando pra ela. Um cadáver. Peguei um palito de fósforo e toquei na antena dela. ( com um certo cagaço, eu assumo)
Mas nada aconteceu. Ela estava catatônicamente morta.
Peguei uma vassoura. Joguei ela como se fosse uma bola de hókei pela cozinha. Nada. Nem um movimento sequer.
Aí eu me convenci. A porra da barata havia morrido do coração.
Peguei a barata pela antena, fui até a janela e joguei pro alto.
Na luz da cozinha eu vi o cadáver da barata ganhar vida em pleno ar e sair voando.
– Filha da puta! – Pensei eu.
Um mamífero, vertebrado, adulto. Com um cérebro centenas de vezes mais potente que o dela fui ludibriado com tamanha facilidade por aquela atuação cínica. Bebi minha água e fui dormir convicto que havia descoberto a mistura do einstein com o Jack Nicholson das baratas.

Terceira história barata: O dia em que eu escaneei uma barata

Eu estava preparando meu portfolio de ilustração. Então resolvi criar uma imagem de publicidade ficcional para o inseticida Baygon.
O desafio era fazer uma barata morta num pequeno caixão. Tudo em 3d, com o maior realismo possível naquele tempo.
Eu modelei pacientemente a barata, o caixão, a lata de spray. Mas faltavam as texturas. Do caixão e da lata foi fácil. Mas e da barata?
Saí mais uma vez em campo em busca de uma bela baratona voadora. Foi relativamente fácil achar uma bela barata num quartinho que havia lá em casa, e que era cheio de caixas com livros e quinquilharias. Joguei uma dose de baygon na barata ( já que eu não seria enganado outra vez) e a matei.
O problema é que o baygon deixa a superfície de quitina da barata meio esbranquiçado.
Então, para total nojo e desespero da minha mulher e empregada eu fiquei a tarde inteira polindo a barata com a ajuda de um pincel e azeite.
Depois escaneei a barata e texturizei o modelo. Isso me rendeu umas boas gargalhadas na editora Abril quando eu explicava aquela inusitada peça no portfolio, mas acabei saindo de lá sem serviço nenhum, hehe. Acho que pensaram que eu não era muito normal.
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