Professores inesquecíveis

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Professores são pessoas que fazem parte de nossa vida por um longo período. Muitos deles passam pela nossa vida durante um ano inteiro. Alguns são péssimos, intragáveis, criaturas detestáveis que desejamos ver queimando na banheira do capeta. Outros, tornam-se marcas indeléveis em nossa vida. Suas aulas nos inspiram e seu conhecimento transborda e constrói. Estilos de professores existem aos montes. Os libertários, os exigentes, os paternalistas, os torturadores, os velhos, os jovens, os malucos e os esquisitos.

Eu posso dizer que vivi e convivi com muitos deles. E embora a grande maioria deles tenha passado incólume pela minha fugaz existência, alguns realmente ficaram tão marcados na minha mente que eu posso recarregá-los em pensamento como só o Spock poderia fazer num Holodeck.

Seria extremamente difícil pensar qual  professor que mais me marcou. Eu convivi com estas pessoas que possuem uma profissão tão bonita durante a maior parte da minha vida, o que gerou um numero bastante grande deles. Chega a ser impossível lembrar de todos. Os que eu me lembro tem um motivo para estarem registrados na minha caixola. Eles me marcaram por uma ou outra razão. Mas vou fazer um esforço de lembrar de alguns.

AS MALVADAS

Quem nunca teve um professor malvado aí levanta o dedo. Aliás, levantar o dedo é coisa dos meus tempos de escola. Será que isso ainda existe hoje em dia? Não sei. Naquele tempo, eu tinha professores que decidiam quem ia para o recreio. Então o que a gente fazia era cruzar os braços sobre a carteira e deitar a cabeça, de modo quase teatral, parecendo mais bonzinho que cachorro com fome. A gente ficava lá, intacto, torcendo para ser chamado e desfrutar daquela rápida sensação de liberdade que dava ao ouvir seu nome e poder disparar como um foguete pelos corredores em direção ao pátio.

Eu percebia claramente uma expressão contida de prazer naquela mulher, que já não me lembro mais o nome dela. Tia qualquer coisa. Eu detestava ela. Eu tinha vontade de dar um tiro nela. Mas eu fingia ser bonzinho para poder sair do campo de concentração.

Não sei bem porque mas os professores malvados foram os que deixaram as marcas mais profundas. E talvez aquela professora, a maldita desgraçada, foi a que mais marcou, por ser a mais maldosa.

A mulher ficava ali, do alto de um tablado olhando para a nossa cara com visível desdém para com a nossa reles existência. Para ela crianças são pessoas em formação, portanto, imperfeitos. Pessoas inconclusas, defeituosas e portanto, menores e menos importantes. Ela era uma cobra.

Escolhia primeiro as meninas. Sempre tem uma menina CDF com cara de retardada que leva borracha cheirosa no estojo do Paraguai que ninguém tinha, com cem mil compartimentos. Essa menina tira notas boas, é meio infantilóide e tem uma mãe rica. Ela usa canetas de 20 cores e SEMPRE, eu disse SEMPRE sai primeiro para o recreio. Que ódio, cara.

A babaca da professora vai chamando um a um e eu percebo que metade da sala já saiu e eu ainda estou lá. Congelado naquela posição. Minhas costas já estão doendo e eu estou quase dormindo e a filha da mãe não fala o meu nome. Quando ela finalmente me chama, faltam uns cinco na sala. Eu vou para o recreio meio feliz e meio puto, por ter perdido um bom pedaço do meu tempo naquela porra de teatrinho de bom aluno.

Essa mesma maldita ficou registrada na minha cabeça porque um dia, na segunda série turma B, ela estava ensinando Matemática.

O que ela fez foi me chamar no quadro para resolver um exercício. Eu fui me tremendo todo, porque eu não sabia resolver. Ela viu que eu não sabia mas mandou que eu resolvesse mesmo assim. Era como se ela pensasse que sob a pressão dela e dos colegas, o conhecimento se cristalizasse magicamente no meu cérebro e eu virasse um gênio bem ali. Mas o efeito foi inverso. Eu não só não sabia resolver aquele arme e efetue como me senti oco. Eu comecei a pensar que não tinha nada dentro da minha cabeça.

Ela não fez nada. Ficou na cadeira dela esperando que eu resolvesse. Eu olhei pra ela com aquela expressão de “me fudi!”. E ela nem estava aí. Ela queria o exercício resolvido. Pra ela, minha obrigação era saber.

Eu sentia aquele monte de gente olhando pra mim. Eu lá na frente e as coisas começaram a ficar ruins.Eu olhava os números e não sabia o que fazer com eles.

Eu falei baixinho pra ela: -Tia eu não sei…

-O que? – Ela gritou. A filha da puta gritou porque queira fazer daquilo um espetáculo. Ela levantou agressivamente e veio na minha direção. Eu senti que estava ficando cada vez menor. Ela me agarrou pelo braço e me sacudiu umas duas vezes. Meus “amigos” começaram a rir.

Ela agarrou a minha mão e resolveu o exercício com a minha mão sendo esmagada na mão dela. Eu não entendi porra nenhuma do que ela fez, mas disse que sim quando ela falou:

-Entendeu agora?

Eu balancei a cabeça porque pensei que seria minha chance de ser liberto daquela predadora de almas e voltar para minha insignificante parcela de espaço em meio aos demais.

– Volta pro seu lugar. – Disse ela, me libertando.

No dia seguinte, eu estava lá desenhando no caderno quando ela viu. Esta mulher tinha uma clara predileção por me torturar. E algo que ela não admitia durante uma aula dela é o prazer do aluno. Pra ela aula boa é aula que faz sofrer. Então não podia mascar chiclete, não podia olhar pela janela, não podia pensar na morte da bezerra. Só podia sofrer e ser torturado naqueles montes de arme e efetue que ela passava.

Daí que quando ela me viu desenhando, foi como uma ofensa pessoal ao modo dela de ser. Ela me agarrou pelo braço, levantou meu desenho para que todos vissem. Todo mundo olhou pra mim. Um ou outro percebeu que eu ia me ferrar novamente e já começou a rir por antecipação.

A mulher me carregou aos safanões até o quadro negro. Ela estava ensinando ver as horas num relógio de ponteiro. Então ela desenhou uma posição um relógio no quadro e perguntou:

-Que horas são?

Óbvio que eu não sabia. Eu tinha passado a aula dela desenhando o He-Man.

-Que horas são? -Ela repetiu nervosa. Eu pensei que ela ia me bater. Então resolvi chutar.

-Duas e meia. – Eu disse.

Errei feio. Era nove e quinze. A mulher começou a gritar que eu era burro, que eu não sabia nada, que ela não sabia o que eu estava fazendo lá. Ela desenhou outra hora no quadro e perguntou novamente.

Sem saber como aquilo funcionava, eu chutei outra vez.

A turma caiu na gargalhada. Todos riam de mim.

Hoje eu sei que muitos ali talvez estivessem rindo de nervoso, porque a situação ficou paulatinamente tensa.

A mulher voltou a me agredir verbalmente dizendo que eu era um completo retardado. Ela conclamou a turma para cantar uma musiquinha depreciativa pra mim e eu fiquei lá na frente sendo ridicularizado pela professora.

Ser ridicularizado por vinte crianças é uma experiência desagradável o bastante para te fazer chorar. Mas você tenta se conter, porque sabe que chorar exporá aquilo como uma fraqueza e todos, sem exceção, irão usar aquilo para te torturar mais tarde, talvez pelo resto do ano letivo. Então o que você faz é engolir o choro e ficar firme. Eu comecei a tentar desfocar a minha visão, para não ver as demais crianças. E foi assim que eu descobri que conseguia fazer isso. Desfocar a visão e ver tudo embaçar sob a minha vontade. Até hoje não sei se isso é um poder exclusivo meu ou se todo mundo pode fazer isso.

Dessa mesma desgraçada, eu lembro do dia que ela estava passando um ditado. Enquanto todo mundo se esforçava para escrever, ela ia passando entre as carteiras olhando como a gente escrevia.

Quando ela passava do meu lado, eu suava frio. Eu senti os olhos dela percorrendo o meu caderno. E então eu vi uma mãozona pegar o meu caderno e arrancar ele da minha carteira. Ela sacudiu o meu caderno no ar.

-Olha só pra isso! Limpeza com”s”! Limpeza é com “s”??? Onde já se viu? É um analfabeto de pai e mãe mesmo!

Eu, que já me sentia burro em Matemática, tive certeza da minha desgraça em todo o resto bem naquele momento. Tudo passou a fazer sentido. Então era isso!

Eu era um analfabeto de pai e mãe. Naquela hora eu escutava pela primeira vez aqueles termos e percebia com certa vergonha, que meu problema mental só podia ter origem genética. Estava claro pra mim que se a professora sabia que meu pai e minha mãe eram analfabetos, eu não podia ser melhor. Eu era o resultado de dois analfabetos. Eu só não sabia o que era um “analfabeto”. Então eu pensei que analfabeto era um tipo de débil mental. Percebi que meus pais podiam ser retardados e fingiam ser espertos para me agradar durante todo o tempo…

Desa forma,  como produto de dois débeis mentais, eu seria um débil mental ainda mais débil mental.

Um débil mental mega super plus.

Aquela mulher maldita foi a professora mais malvada que eu tive. Mas em termos de torturar aluno, aquela não foi a única. Na quarta série, eu testemunhei uma professora pegar um amigo meu, fazer orelhas de burro com jornal e colocar o garoto lá na frente, usando as orelhas de burro, para que todos da turma jogassem bolinhas de papel nele. Eu não joguei, não cantei musiquinha, e achei aquilo muito ruim. Eu sabia como era estar lá na frente. Eu sabia o que ele estava sentindo. Felizmente, o cara fez o que eu não tive coragem de fazer na segunda série. Ele contou para os pais. A estúpida professora foi demitida da escola. E eu me senti  vingado de tabela por aquilo.

PARAGÓ

Paragó era o nome dele. Ele foi um dos professores que conseguiram ficar marcados na minha memória. Eu não sabia quantos anos ele tinha, mas era velho. Velho, sério e carrancudo. Paragó era famoso por dar provas bem difíceis e ser super exigente com presença, com silêncio e tudo mais. Todo mundo tinha medo dele. Eu estava na sétima série. O Paragó era professor de Português. Ele passava um monte de análise sintática pra nós fazermos. Todo dia eram vários quadros de exercícios. Eu fecho os olhos e consigo lembrar da aula do Paragó com absoluta clareza.

Um dia, o Paragó mandou a gente fazer uma redação. Tema livre.  Mínimo de vinte linhas. Porque tinha disso, de número de linhas. Não podia ser menos do que ele estipulava.

Aí eu resolvi inovar e escrevi uma redação que gradualmente foi saindo do controle. Quando eu vi, estava escrevendo um livro. A redação deu sete páginas de caderno. Eu tive vergonha de mostrar pra ele. Achei que ia levar esporro. Quando ele chamou meu número (eu era um número, não tinha nome) fui todo sem graça levar a redação pra ele. O Paragó olhou aquele bolo de folhas de caderno escritas dos dois lados, presas com um clipe.

Era uma história do Conan. Eu sei que parece meio estranho escrever uma história de um cimério bárbaro lutando com criaturas de pedra numa ilha perdida nos confis do Mar Vilayet, mas era o que saiu e eu não podia fazer nada.

O Paragó ficou olhando sério pra minha cara. Ele olhou cuidadosamente a redação. Depois voltou a olhar pra mim e ficou assim. Vários minutos. Eu me cagando quase literalmente.  Nisso, todo o pessoal da turma sacou que tinha algo errado. Então se fez um silêncio constrangedor na sala.

O Paragó ali, impassível, olhando pra minha cara. Ele era naturalmente muito sério em sala de aula. Eu me sentia sob o olhar acusatório de um Juiz, um delegado, um torturador do DOPS.

O Paragó tinha uma verruga gigantesca na lateral do Nariz. Eu tenho este defeito escroto de não conseguir olhar para outra coisa senão para o defeito do sujeito. Eu não tirava o olho daquele verrugão, daquela pelota gigante que parecia que ia explodir na minha cara. E então ele falou:

-Sete páginas?

-…É.

-…

-Muito bom! Foi você mesmo que escreveu isso?

-F..F…Foi.

-Parabéns, 25, você tem jeito pra ser escritor. Se continuar assim, você vai acabar escrevendo livro. Deixa aqui que eu vou ler com cuidado depois. E te digo o que eu achei.

Nossa, meu. Me senti como um jogador que faz o gol na final da copa. Sabe aquele gol da prorrogação que vira o placar e te transforma o cara em herói no último segundo?

Paragó me elogiou. Eu estava nas nuvens. Eu pensei que ia desmaiar.

O Paragó era famoso em alegar que ele dava “O” pra Deus, “B” pra mãe dele, “S” pra ele e o resto era “I” para nós os alunos.

(a escola funcionava num sistema de conceitos, sendo O=ótimo, B=Bom, S=Suficiente e I=Insuficiente.)

Daquele dia em diante, o Paragó passou a me chamar de “garoto da ilha do tesouro” e não mais de 25. Até hoje eu não entendi o apelido, já que o Conan não achava nenhum tesouro na ilha e sim gigantes de pedra, sobreviventes de uma magia negra criada por um rei atlante já morto.

Continua…