Archive - dezembro, 2009

Descubra o efeito Kopp-Etchells

O efeito Kopp-Etchells é pouco conhecido. Trata-se de um estranho brilho ou halo luminoso que acontece nos rotores dos helicópteros que operam em locais secos e com muita poeira/areia em suspensão na atmosfera. O efeito é comumente testemunhado por soldados que trabalham nas linhas de frente do Exército Americano no Golfo. Para tirar essas fotos, foi aumentado o tempo de exposição da máquina, mas à olho nu também é possível perceber o efeito. Este efeito é o resultado da eletricidade estática criada pela fricção de materiais dissimilares rapidamente “batendo” uns contra os outros. No caso dos helicópteros a noite, são as pás de titânio/níquel movendo-se através do ar e da poeira.
Também ocorre no solo, mas não é possível ver pois o contato do helicóptero com o solo descarrega a eletricidade estática.

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Jurado de morte – parte 5

Zé Walter se esconde.

Dentro do prédio, fica na portaria, perto do balcão do seu Limair. Ele fica olhando lá pra fora. Será que foi visto? Será que tem alguém no opala? Os vidros escuros não permitem que se veja nada.

-Desgraçado filho da puta.

-Hein? – Pergunta seu Limair.

-Hã… Nada, nada não. Tava aqui pensando alto.

-Ah, tá. Pensei que o senhor estava me xingando.

-Seu Limair, tem telefone aqui na portaria?

-Tem não senhor.

-Droga. Maldita hora que eu botei meu celular no conserto.

-Ah, seu José, esses celulares de hoje são tudo vagabundo. Troço da China. Quebra atoa. Não compensa comprar do caro não. É como eu sempre digo. Celular, vale só pra ligar. Quando vem me oferecendo aqueles cheios de função, com isso, aquilo, emepê não sei das quantas, um monte de sigla, parece até repartição pública, eu já corro logo. O senhor sabe que eu comprei um desses caros, com fone e tudo, que tira até foto, pra minha filha e ela deixou cair na privada? Aí comprei outro e então ela deixou cair na valeta. E o senhor sabe, molhou, já era. Tentamos botar no sol mas ele nunca mais funcionou. Aí eu disse que não ia dar mais. Então ela fez quinze anos e me pediu um celular. Sabe como é. Coração de pai é mole. Comprei mais um pra ela. Mas dois dias depois, ela perdeu o celular. Esqueceu na mesa do bar. Então eu disse pra ela que se ela queria um celular ela teria que comprar com o dinheiro dela. Daí ela fez faxina numa loja do meu compadre e quando recebeu o salário, ela  correu pra loja pra comprar celular. Mas aí viu que não dava o dinheiro e ficou muito amuada, coitadinha. Minha senhora Juventina ficou me enchendo a paciência com pena da menina, e então eu peguei um vale com o seu Joel e completei pra ela comprar o celular. Mas ontem ela chegou em casa toda triste. Foi assaltada no ônibus. Adivinha? Roubaram o celular dela. Agora ela tá fazendo uma rifa do vestido de quinze anos lá na comunidade pra comprar outro celular e…

Zé Walter não ouvia nada sobre a saga da menina que só perdia celular. Enquanto o porteiro detalhava cada pequeno e insignificante detalhe da vida dele, Zé estava pensando uma forma de sair do prédio longe do alcance de quem estivesse de tocaia no opala.

-Seu Limair, desculpa interromper, mas será que o senhor podia me fazer um favor? Eu tenho que levar umas malas na casa de um amigo, e meu carro tá com problema. Dá pro senhor pedir um taxi ali no ponto pra mim e pedir pra ele me pegar na garagem?

-Ué. Dá sim senhor. Mas o ponto é logo ali, ó. -Disse o porteiro apontando a rua. De fato, o ponto do taxi era perto, mas era do outro lado da rua de onde estava o opala.

-Sabe o que é, seu Limair, é que eu ainda não peguei as malas. Será que o senhor pode fazer este favor pra mim? Eu pego lá em cima e levo pra garagem. Aí o senhor chama ele ali fora pra mim e adianta o meu lado.

-Ah, tá. Sim senhor. -Disse o porteiro saindo do balcão.

Zé Walter correu pelas escadas para a garagem. Ficou lá esperando o Taxi. Como o trânsito na rua era mão única, o taxi teria que dar a volta no quarteirão e entrar no prédio, o que levaria ainda alguns minutos.

Enquanto esperava, Zé encostou na parede da lixeira. Ouviu um barulho e viu um rato sair da lixeira e caminhar calmamente pela garagem. Zé olhou em volta. Era irresistível a vontade de matar o rato.

Havia uma vassoura velha, pra lá da aposentadoria, já quase sem piaçava, encostada perto de parede do elevador. Zé pegou a vassoura e foi, pé ante pé, acertar o rato. Mas antes que pudesse se aproximar o suficiente, o rato percebeu a intenção vil daquele homem e correu como uma bala. Mas a garagem estava vazia e o rato correu na direção do fim da garagem, onde não havia saída. Zé correu atrás desferindo vassouradas a torto e a direito, mas sem acertar nenhuma. O rato dando um olé atrás do outro naquele sujeito, que ficava mais e mais puto a cada vez que era feito de bobo pelo roedor.

Zé queria botar todo aquele medo, ódio e sofrimento para fora. Matar o rato da garagem era a melhor maneira de exorcizar seus demônions.

Zé finalmente acertou uma vassourada no rato, que soltou um guincho alto e correu para o canto da parede.

Zé partiu com tudo para esmagar-lhe a cabeça com a vassoura. Porém, vendo-se em franca situação de desvantagem, o rato se transformou no capeta de quatro pernas. Soltando um guincho horroroso, o animal correu pra cima dele, a boca aberta e o dentão espetado pra frente.

-Ai caralho. Putaquepariu!

Zé saltou pra trás assustado. O rato veio pra cima dele querendo atacá-lo e Zé Walter não viu outra alternativa senão fugir. Era ridículo. O cúmulo da vergonha humana uma pessoa, armada com uma vassoura, fugir de um rato de poucos centímetros.  Mas Zé correu desesperado. Não olhou para trás até que não escutou mais nenhum guincho. Quando finalmente parou de correr entre os carros não havia sinal do rato.

Logo depois, subiu um taxi amarelo pela rampa.

O taxista parou em frente o elevador esperando as malas. Mas ali só estava o Zé, suando, segurando aquela  vassoura fodida  e com sua mochila nas costas.

-Pois não? E as malas, doutor?

-Não, não. Desisti das malas. Vou só de mochila mesmo. Mudança de planos, hehehe. Vai ser uma visita rápida.

-Como quiser. A vassoura vai?

-Hã? Não, não. – Disse ele jogando a vassoura na direção da casinha da lixeira.

-Pode entrar por favor. – Disse o Taxista.

Zé Walter entrou no banco de trás.

-Pra onde?

-Toca na direção de Teresópolis. Mais à frente te dou as indicações.

-Sim senhor.

-Amigo, o senhor não repara, mas eu vou dar uma deitadinha aqui, tá?

-Ah… Tudo… Bem. -Disse o taxista estranhando enquanto descia a rampa.

O taxista tão logo chegou na rua já começou uma ladaínha sem fim sobre como ele havia levado passageiros que deitaram no banco de trás. Contou de um episódio que envolvia um casal de amantes gays que no dia dos namorados, ao chegarem de taxi no motel, tava uma fila imensa. Logo depois de alguns minutos na fila, um dos homens viu a filha dele, pretensamente virgem, com o namorado. O cara ficou puto e queria estrangular o namorado da filha, mas estava cagado também. No fim das contas, eles passaram um tempão deitados no banco, para não dar na pinta.

Enquanto o taxista falava sem parar contando casos, falando de futebol, dos filhos, dos taxis, do dia-a dia, da cidade esburacada, dos políticos ladrões, da geopolítica internacional e até da escalação da seleção brasileira, Zé Walter se perguntava se aquele taxista seria mesmo de confiança. Afinal, o homem do opala estava parado em frente ao ponto. O que garantia que aquele cara não estivesse mancomunado com o bigodudo assassino? Nada.

Nisso o taxista manjou que Zé estava alheio à conversa e enfim calou a boca.

Quando o taxista parou de falar, Zé começou a ter cada vez mais certeza de que o taxista estava sabendo de tudo. Estava envolvido de alguma forma. Zé percebeu que quem manda uma carta, sabe bem que a pessoa não vai sossegar em casa esperando a morte. Ela irá arrumar uma forma de sair, de fugir. Zé percebeu com absoluta clareza que se o cara parava o opala assassino na porta da casa dele aquilo tinha um propósito. Não era mera coincidência. O objetivo era claramente criar o medo e impedi-lo de sair com o próprio carro. Sem carro, sem poder sair a pé, qual a alternativa que resta? O taxi, é óbvio. Zé olhava a paisagem lá fora e se dava conta gradualmente que havia sido cuidadosamente empurrado para aquela situação. Ele ficou estático. Duro, catatônico, apenas pensando. Tentou não demonstrar o desespero. Seu coração disparou e ele sentiu o ar lhe faltar. Mas tentou segurar e não transparecer o medo. Volta e meia olhava para o motorista do taxi, que agora dirigia quieto, sem olhar para ele.

Enquanto isso, ia pensando que obviamente tudo havia sido cuidadosamente planejado. Pra que? Para tirá-lo da casa. Fazia sentido. Matar alguém a tiros num prédio no meio da cidade é muito mais arriscado que desovar um corpo num matagal, numa estrada deserta. Zé teria entrado espontaneamente na arapuca. Tão inocente como uma pomba rola, tão puro quanto uma ovelha que avança, resignada, para ser sacrificada.

Zé já podia antever o que se sucederia. O taxista iria errar o caminho, levando-o em outra direção. Iria adentrar uma estrada de chão, onde andaria alguns quilômetros, até chegar numa cabana perdida, onde talvez ele reconheceria a silhueta de um opala preto estacionado na porta. O taxista não devia ser taxista. Zé então percebeu que nunca havia atentado para a existência daquele cara. Ele morava há quinze anos no mesmo prédio, passava diariamente na frente do ponto de taxi e nunca havia visto aquele gordinho careca. Estava ficando cada vez mais óbvio que o motorista era um deles. Talvez um homem da milícia dos Thundercats. Talvez alguem que devesse algum favor ao Lion. Talvez alguém sem escrúpulos que aceita ganhar qualquer dinheiro para transportar um defunto, um cadáver à prestação, ate seu derradeiro lugar neste mundo.

Zé resolveu que no banco de trás era uma presa fácil.

-Moço, quero passar pra frente. Posso?

-Hã? Sim, sim senhor.

-Encosta aí pra mim.

-Sim senhor. – Disse o motorista, encostando o carro.

Zé pensou em abrir a porta e correr. Mas antes que fizesse isso, ao abrir a porta, teve um lampejo de que caso agisse assim o motorista iria matá-lo pelas costas. Certamente que alguém designado para levar o cara que ia ficar sem cabeça de noite teria alguma arma em algum lugar daquele carro. Certamente que ele já devia estar instruído para meter tiro no sujeito caso ele não colaborasse. Então Zé Walter resolveu colaborar.  Entrou no carro novamente, agora no banco da frente, onde podia ter uma visão mais clara do motorista de praça.

Zé olhou com cuidado o sujeito. Aproveitava quando ele ultrapassava caminhão e se concentrava no trâsito para olhar detalhadamente pra ele. Num movimento do braço ao volante, Zé pôde ver que um pelaço de uma tatuagem escapava por baixo da manga da camisa. O sujeito viu que Zé estava olhando muito e arrumou a manga, recobrindo o desenho.

Mas nessa altura Zé já tinha memorizado aquele pedacinho de desenho. Ficou concentrado, tentando identificar o que se encaixava naquilo. Zé não conseguiu identificar de imediato, mas depois de algum tempo, se ligou que era o rabo do Snarf. Sim, o Snarf! Não era águia, não era tubarão nem sereia, não era dragão, coração, tribal nem unicórnio. Nada dessas coisas que se usa em tatuagem. Era um Thundercat! Aquilo não era por acaso.

Zé ficou tentando disfarçar. Agora olhava a paisagem.

Seria aquele cara o próprio assassino ou apenas um transportador dos bandidos?

Nisso o cara falou, dando um baita susto em Zé Walter.

-Pego em que direção, doutor?

Zé tentou manter a compostura e disfarçar o susto.

-Hã? Ah! Pega a próxima entrada na esquerda. -Disse.

O motorista voltou a ficar quieto. Zé voltou a pensar na sua morte. O tempo estava acabando. E agora ele havia saído do conforto seguro do seu lar e estava num lugar ermo, com um homem estranho, gordo, careca e baixinho, que dirigia olhando de rabo de olho pra ele. Tudo levava a crer que a hora derradeira estava galopando em sua direção. Zé precisava agir. Precisava fazer alguma coisa. O mais sensato era tentar obter alguma pista, algum indício. Teve uma idéia, mas não sabia se iria funcionar.

-Tô passando mal. Vou vomitar. -Ele disse.

O taxista se desesperou.

-Calma, doutor, calma. Quer que eu abra o vidro? Desligue o ar? Quer que eu…

Zé aproveitou a aparente confusão do motorista que fuçava no painel freneticamente abrindo vidro, baixando a musica no rádio, e desligando o ar condicionado para escancarar o porta-luvas.

-Tem um saquinho de vômito aqui, moço? -Disse ele remexendo as coisas do porta-luvas. O homem deu um freadão brusco no carro. A mente de Zé estava registrando tudo que podia enquanto mexia nas coisas do cara. O homem meteu a mão e fechou o porta-luvas.

-Não tem saquinho não, moço. -Ele disse fechando a tampa.

Mas já era tarde. Zé tinha anotado mentalmente quase tudo que havia no porta-luvas: Chaves, lanterna, um maço de cigarro, balas, pirulitos, toalha verde, flanela, papéis diversos e mapas. E no fundo, milésimos de segundos antes do cara fechar o porta-luvas daquela maneira afobada, ele viu: Uma coronha.

- Coronha… Coronha… – Ele pensava. O taxista estava andando devagar, no acostamento.

-O senhor está bem? Quer que eu pare o carro? -Perguntou.

Zé imaginou que aquilo era uma estratégia. O cara queria parar o carro porque não tinha certeza se Zé vira ou não a arma.

-Não, não. Só reduz um pouco. O ar vai me fazer bem. – Disse Zé. O plano havia dado certo, mas ele não queria que o cara parasse, pois obrigá-lo a dirigir roubava uma preciosa quantidade de atenção do motorista e aquilo poderia ser estratégico.

Ele precisava se livrar daquele cara. Zé sabia que se o taxista fosse com ele até a chácara do Amarildo era pra saber onde ele estava indo e levar o bigodudo do opala até lá. Ou então iria fingir errar o caminho para desová-lo em algum matagal. Zé rememorou que o sujeito havia fechado o porta-luvas de forma bastante ignorante e parecia irritado com o fato do passageiro fuçar ali. Lógico que aquilo se devia ao fato de haver uma arma no porta-luvas. A melhor chance que ele tinha era conseguir abrir o porta-luvas do carro e sacar a arma. Devia ser um 38 a julgar pela forma da coronha. Zé não teria outra chance. Planejou com cuidado o que iria fazer.

-Já tô bom. Vamos embora. – Disse ele ao gordinho.

-Sim senhor. -Respondeu o motorista, acelerando o carro na estrada.

Zé fez mentalmente todas as ações que teria que executar. O importante era pegar o gordo desprevenido. O elemento surpresa seria fundamental para escapar da arapuca.

Zé ficou atento à estrada. Quando o taxi virou uma curva, ele viu mais à frente, na altura de uns cem metros adiante, um caminhão cegonha, cheio de carros. Aquela era a chance dele. O caminhão era gigantesco e ocupava toda a faixa única da pista, de mão dupla.

Zé retesou seus músculos como um gato à espera do bote. Quando o taxista deu sinal de que iria ultrapassar, Zé olhou fixamente para o porta-luvas.

O taxi então começou o processo de ultrapassagem. Numa fração de segundo, Zé abriu o porta-luvas. O gordinho se assustou:

-Mas o que…

Zé empurrou a cabeça do cara com a outra mão e ele bateu de cabeça no volante. O carro rebolou na pista e bateu na lateral do caminhão, que pareceu nem sentir o baque. O motorista se desesperou e tentou segurar o carro que começou a fazer um zigue-zague na pista. Nisso, vem um caminhão na pista contrária tocando a buzina que mais parece uma buzina de navio.

Zé já fuçava com a mão direita o porta-luvas em busca da coronha.

O Taxista não sabia se lutava com Zé, se controlava o taxi quase desgovernado ou se tirava o carro da pista, pois o caminhão já estava em cima. Optou pelo caminhão. Com um golpe de direção, jogou o taxi no acostamento do outro lado, no último segundo. Nisso Zé alcançou a coronha e apontou o trezoitão na cara do gordo.

-Pára essa porra, filho da puta! -Gritou com a arma na cara do motorista.

-Calma! Calma! -Gritava o motorista.

-Para agora caralho! Joga ali no matagal!

-Onde?

-Aqui, porra. Aqui!

O cara meteu o pé fundo no freio. O carro cantou pneu no acostamento até parar em meio a uma nuvem de fumaça e poeira, no meio de um matagal alto na beira da estrada.

-Fala filho da puta. Fala que tu ia me matar, desgraçado.

-Hã? É dinheiro? Pode levar tudo, moço.

-Dinheiro é a puta que te partiu, seu viado. Seu puto. Baleia, rolha de poço… Tu tava pensando que ia me matar? Que ia me levar pra cova? Se fodeu, seu puia!

-Moço… Calma moço. Calma. Eu não ia fazer nada não. Eu sou motorista de taxi… Tenho família.

-Família de cú é rola, seu bosta. -Pode falar. Quem te contratou? O Bigodudo tá pagando quanto pra você foder com minha vida?

-Hã? Bigodudo?

-Não se faz de besta, seu puto! – Zé dá um “pedala Robinho” na cabeça do sujeito.

-Ai.

-Eu moro há quinze anos naquele prédio. Como que eu nunca te vi no ponto de taxi, sua baleia?

-Moço… Eu… Eu… Eu sou novo no ponto. Entrei pra cooperativa agora. Eu era da rodoviária. Tô cobrindo as férias do Antônio Carlos.

-Vai se foder! E essa porra aí no teu braço? Levanta a manga.

-Moço, fica calmo…

-Fica calmo o caralho! – Levanta logo essa porra dessa manga!

O gordinho lentamente levanta a manga. Ali está um… Dragão.

-Dragão?  -Zé ficou desconsertado.

-Que foi, moço? Não gosta de dragões, né? Por favor, moço. Me libera. Pode levar o carro, o dinheiro…

-Cadê o Snarf?

-Hã? Quê? Do que o senhor tá falando?

-Porra. Eu sei que você é dos Thundercats! Errei quanto à tatuagem, mas vocês não iam dar este mole, né?

-Thundercats? Aquele desenho da… Xuxa?

-Fala desgramado. Pra que a arma no taxi?

-Calma moço. A arma é pra proteção. Eu vivo do taxi. É perigoso. Eu era de outra cooperativa que trabalhava à noite. Na noite tem que andar trepado, moço.

-Cooperativa é a puta da tua mãe. Você tá me jogando caô. Vai, desce. Desce já, filho da puta! -Disse Zé, sacudindo a arma na cara do gordinho.

-Não, moço. Eu tenho família. Tenho criança. Fica calmo. Não faz nada comigo não…

-Desce que eu vou te apagar viadão! -Gritava Zé.

-Não moço. Piedade. Eu faço qualquer coisa. Eu conto tudo! Qualquer coisa que o senhor quiser.

-Conta então do homem do opala.

-Opala? Bom… Tudo bem. O senhor que sabe. O homem do opala para o opala ali todo dia. Ele fica ali fazendo a segurança do mercadinho.

Zé estava atento. Olhava para o taxista com vontade de estourar aqueles miolos gordos.

-Nã mente pra mim caralho!

-Não senhor, não senhor. É verdade, moço. Ele é segurança do mercadinho.

-Fala a verdade porra! -Gritou Zé encostando a arma na cabeça do gordo. Ele viu que o gordo suava em bicas. Suava frio.

-Sim senhor. Eu falo. Eu falo, eu falo, eu fal…

-Ele quer me matar, por que?

-… – Tá bom. Tá bom. Ele quer matar o senhor. Por que eu não sei.

-Não sabe mesmo ou tá querendo morrer, porra?

-…Não sei não, moço. Ele não fala muito. Ele é quietão.

Zé baixou a arma um pouco. Aquilo fazia sentido. Parecia mesmo que o taxista não sabia do motivo que levou Lion a jurar a morte dele. Além do mais, fazia sentido também que o cara fosse segurança no mercadinho e falasse pouco. Todo mundo sabe que quem é segurança em mercadinho costuma ser policial fazendo bico ou ex policial, o que dá no mesmo. É um cara que está acostumado com armas, que já matou, que sabe matar. Tem tudo a ver. E se o Lion queria ele, estando preso, teria que mandar um profissional. Lion tinha dinheiro. Dinheiro de sobra para contratar alguém que conhecesse o lugar, que soubesse em detalhes a rotina dele. O segurança do mercadinho era o cara perfeito.

-Então agora você resolveu falar, né? – E quanto ele te pagou pra me pegar? Qual era o plano?

-Plano?

-Fala porra! – Gritou Zé.

-Ah, o plano… Deixa eu lembrar. O plano era pegar o senhor e levar. E aí… Aí depois, voltar lá… E dizer a ele pra onde eu levei o senhor. Só isso Só isso moço. Eu não sei de mais nada. Me libera, pelamordedeus… -O gordinho já estava chorando. E Zé Walter se compadeceu.

- Tá bom, puia. Tá bom. Desce. Desce e vai andando ali pra frente. Desce a pirambeira sem olhar pra trás, filho da puta! Se olhar eu atiro. Duvida que eu atiro? Hein? Duvida? Duvida?

-Não, não, moço. Não, não. Eu sei. Eu sei. O senhor atira sim. Pode deixar vou descer quietinho. Pode ficar com o taxi, com tudo, moço. Eu só queria pedir..

-Pedir um tiro, baleia?

-Não, moço. Pedir pro senhor me dar pelo menos a fotinho da minha filha. Ali no painel, ó. -Disse ele apontando com a sobrancelha uma foto de uma criança gordinha sorridente colada com durex no painel.

Zé acenou positivamente com a arma.

O gordinho tirou a foto e saiu andando sem olhar para trás no meio do mato.

Zé pulou para o banco do motorista e acelerou o carro de volta para a estrada.

Enquanto dirigia, a toda velocidade, pensava em tudo aquilo. Será que o gordinho falou a verdade? Seria ele só um motorista no lugar errado e na hora errada? Será que ele falou aquilo para poder não levar um tiro?

Zé tinha momentos em que pensava naquilo tudo e todo aquele rolo lhe parecia loucura. Mas era estranho como as coisas se encaixavam. Além do mais ele sabia que não era maluco. Nunca havia tido visões ou ouvido vozes. Não havia malucos na família dele e ele nunca precisou de ajuda para lidar com seus problemas. O olhar maligno de Lion no tribunal nunca mais lhe saiu da cabeça. Não, não podia ser loucura. E o homem da pizza? Ele e a mulher viram o homem. Não era um delírio. Era real. E o telefone cortado? O opala preto… O homem bigodudo que olhou pra ele. Era real. Tudo real. Definitivamente real.

Enquanto dirigia, Zé pensava em como aquilo tudo ia acabar. Como se livrar de um juramento de morte? É um beco sem saída onde o jurado acaba agindo como um boi no matadouro. Não há outro caminho que conduza a um destino diferente que não a morte. Não há fuga. Não tem como escapar, fugir, esconder-se. O cara é poderoso e mais cedo ou mais tarde irá encontrá-lo e cumprir sua promessa. Lion não sossegará enquanto não degolar mais um presunto. Além do mais o ato de misericórdia de não apagar o gordinho do taxi iria cobrar seu preço a qualquer momento. Certamente que a esta hora o gordinho já teria pego carona num caminhão até o posto de estrada mais próximo, de onde ligaria para o bigodudo, ou talvez até para um celular roubado, infiltrado numa vagina suja para dentro do presídio, que seria atendido prontamente pelo próprio Lion.

Então Zé Walter pensou que não havia escapatória. Talvez o melhor fosse pegar aquela arma e estourar os próprios miolos. Acabar de vez com aquilo tudo. Ele mesmo daria conta do serviço. Morrer, aquela altura lhe parecia deveras sensato, pois era melhor que viver eternamente sem saber a que horas Lion “liquidaria a fatura”. Não tem sentido arrancar a cabeça de alguém que se matou. Só o que lhe prendia ao mundo era Gizela. Mas ela acabaria entendendo. Sofreria no início, é verdade, porém, mais cedo ou mais tarde, conheceria alguém de quem ela gostaria e que gostaria também dela. E então, embalada numa nova paixão, com o passar dos dias, meses e quiçá anos, ela acabaria por esquecê-lo totalmente. Primeiro seu rosto, então de sua voz e finalmente de todos os momentos que passaram juntos.

Zé ainda dirigia quando pegou a arma e encostou na têmpora. Ele não saibaio se aquilo iria doer ou não. Acelerou o carro, para caso se algo saísse errado, e ele ainda podia morrer de acidente de trâsito. Mas antes que pudesse apertar o gatilho, teve um flashback onde viu o rato. O rato da garagem. Era uma mensagem do lado mais profundo da sua mente. Um insight de como poderia resolver tudo.

Tal qual o rato, sentia-se acuado. O problema dele começou quando condenou Lion. Lion queria se vingar e por isso o jurou de morte. Logo, o assassínio não era o problema. A morte aí é a consequência de uma sucessão de fatos. A vardadeira causa do problema  é o Lion. Ele sim é o problema. Ele que tem o dinheiro, a influência e o prestígio de mandar matar. Ele sim merece a morte.

Não há melhor forma de escapar de alguém que te jurou de morte do que matando a pessoa. O que o rato faz quando está acuado? Ele ataca. E ataca com tudo.

Zé guardou a arma no console do carro. Jogou o taxi no acostamento e assim que alguns carros passaram, ele fez a volta, pegando a outra pista em sentido oposto. Estava decidido a matar Lion. Cortar o mal pela raiz.

CONTINUA…

O livo sobre pênis grande

Eu tava na livraria com a primeira dama quando me deparei com uma parada tão bizarra que tive que fotografar, pois contando ninguém acredita.
Olha só a brochura:
bpbw O livo sobre pênis grande

Fala sério. Será que alguém compra mesmo isso sem ser com a intenção de zoar o cunhado?
Duvida que é real? Veja aqui.

Certamente Motumbo está neste livro.

O melhor foi ver a cara da coroa na seção de culinária me vendo tirar uma foto da capa desse livro, hahahaha.

Humilhando na bateria de brinquedo

Olha só o que esse cara faz com uma bateria de brinquedo:

Pra acompanhar,aqui está o tiozão dando show na guitarrinha de brinquedo do filho:

E pra fechar com chave de ouro, a japa que dá uma joselitada ingrata no pianinho de brinquedo.

O maior touro do mundo

Olha só o tamanho do colosso que é este bicho, meu.

worldsbiggestbull O maior touro do mundoO nome dele é Field Marshall. A criatura pesa 1,64 toneladas. O dono dele, o comprou há apenas 4 anos atrás e não sabe explicar porque o animal cresceu tanto. Com mais de dois metros de altura, o animal ainda não atingiu seu tamanho final, por ainda ser um “adolescente”.

article123834407b2a7f20 O maior touro do mundo

O Field Marshall vive na fazenda do Sr. Duckett’s em Alstone, Somerset, no Reino Unido.

Haja bife!

Fonte

Microcosmo no jardim

Grilo
Hoje de manhã eu estava de castigo esperando a HP entregar aquele meu Netebook. Enquanto esperava, eu resolvi sair pelo jardim com o presente de natal da primeira dama, uma câmera fotografia Casio Exilim EX-FH20. Daí eu resolvi fazer uns testes com ela. A Nivea é aquele tipo de fotógrafa que ainda não domina os recursos manuais de uma câmera. Gosta de tudo automático, do tipo aponte e clique. Mas eu sou daquele tipo mais tarado, que tenta todos os modos possíveis (e com resultados quase sempre desastrosos).

olhandodajanela Microcosmo no jardim

Olhando da janela

mosquinhacolorida Microcosmo no jardim

Mosquinha de belo colorido

Não sou fotógrafo profissional, mas eu gosto muito de brincar com essas coisas. Principalmente quando o objeto da foto é não-humano. Quando fomos escolher a câmera nova, eu procurei uma que tivesse justamente uma boa quantidade de recursos eletrônicos, mas que também oferecesse um macro bom. Como vocês sabem, eu faço bonequinhos e miniaturas, e graças a isso, sou forçado a buscar sempre fotos de detalhes minúsculos. A nossa câmera antiga me dava altos problemas para obter boas macros. Mas depois do teste de hoje, me considero satisfeito.

aranhazinha Microcosmo no jardim

Dona Aranha. Eu estou criando essa aí.

barbuleta Microcosmo no jardim

bichim1 Microcosmo no jardim

bichim2 Microcosmo no jardim

Microabelhinha. Ela deve ter uns dois milímetros.

bichim3 Microcosmo no jardim

Pernilongo do inferno? Que bicho é esse???

bichim4 Microcosmo no jardim

Amar é: Meter a câmera novinha da mulher num formigueiro.

bichim5 Microcosmo no jardim

bichim6 Microcosmo no jardim

Não me pergunte. Eu não faço a mínima idéia que porra é essa. Cigarras trepando?

borboleta Microcosmo no jardim

florzinha Microcosmo no jardim

florzinha2 Microcosmo no jardim

fmga Microcosmo no jardim

Olha o macro do bagulho, meu.

gigarrinha Microcosmo no jardim

grilim Microcosmo no jardim

grilim2 Microcosmo no jardim

grilim3 Microcosmo no jardim

Grilo radioativo

lesminha Microcosmo no jardim

Lesminha feliz

Tudo que eu fiz foi pegar a câmera, colocar no supermacro e sair pelo meu jardim fotografando a vida silvestre. Brinquei de fotógrafo do Discovery até a hora do almoço e me espantei com a diversidade de espécies que encontrei no meu próprio jardim. Algumas tão minúsculas que me impressionei com o resultado.
Outra coisa interessante é o zoom animal que ela dá. 20X de zoom óptico mais um tanto de zoom digital. Esta foto do lagarto sorrindo, foi feita no zoom máximo, sem o Mal de Parkinson (o nome do meu tripé).

lagartim Microcosmo no jardim

Eu estava a uns 20 metros do animal, que pegava sol no muro. Olha o grau de detalhe que ela dá (vou deixar esta em full resolution):

lagartoclose Microcosmo no jardimClique para ver no tamanho original

Grilo Microcosmo no jardim

Uma parada que ela faz que é foda, muito foda mesmo, é a câmera lenta. Sim, meu. Ela filma em câmera lenta. Ok, não é a Supercâmera do Discovery, mas é o mais perto que eu já vi um equipamento doméstico chegar.

Aqui estão meus testes com a câmera lenta:

Posso dizer que dá pra ver um beija-flor bater asa, meu! Ela alcança a marca de 1000 frames por segundo! icon surprised Microcosmo no jardim mg:

Obviamente que nem tudo são flores. Dois pontos negativos dela me matam de raiva: Um é que ela BEBE bateria. O outro é que o controle focal dela em mono de foco manual é horrendo pra acertar. Infelizmente, os caras da Casio não fizeram a gente girar manualmente o controle da objetiva para obter o foco. Isso ferra a precisão no modo de foco manual. Também achei lentíssimo o tempo de gravação de imagens RAW. Isso porque ao gerar a RAW ele grava também um JPG junto.

Mas no fim das contas, o veredito da câmera foi muito positivo. Volta e meia eu comento alguns produtos que compro e gosto aqui, sem nenhuma intenção comercial. Entenda com isso que EU NÃO ESTOU GANHANDO NADA da CASIO para falar bem dessa câmera.
Minha opinião é de usuário. Se você é fotógrafo profissional, ela pode não te oferecer nenhuma boa vantagem. Mas para quem está começando na fotografia, quem não quer gastar os tubos com jogos de lentes e quem busca um equipamento automático que alie alguns interessantes recursos manuais, essa câmera é ótima. Uma das grandes vantagens é o peso. Ela é leve, sem deixar de ser robusta e não é muito grande ao ponto de precisar de uma mala para transportar. Ela tem ISO 1600 e um modo em que fotografa até 40 fotos por segundo em até 9 megapixel. Fora isso, a câmera faz imagens em JPG e RAW. Além de filmar em HD com 30fps.
Aliás, falando em filmar. Ela tem uma parada que contando assim, parece macumba. Ela filma o passado!
Não, não tô zoando não. É sério. Vamos dizer que vc está filmando uma corrida. O carro passa e vc dispara o botão de filmar tarde demais. Vc não perdeu a filmagem. Ela consegue guardar os 5 segundos ANTERIORES a você apertar o botão! (não me pergunte como. Isso parece mágica pra mim tb!)
Mas nos pontos fracos, o pior é que ela bebe bateria à vera, então não dá pra pensar nela sem considerar a hipótese de levar junto um pacote de baterias de 2500 mAh e o respectivo carregador. A Casio podia pensar em relançar esta câmera com uma tela Oled, para poupar bateria. Percebi que o grande consumo vem da tela TFT de 7,6cm. Outro ponto fraco é a memória interna de apenas 32mb. Fala sério. Hoje em dia com chips gigantescos de espaço em tamanhos minúsculos, custava colocar logo três ou quatro giga de espaço interno nativo na câmera? Então, se vc for filmar, compre um memory card de bom tamanho. Eu comprei um de 2gb e tem dado vazão. Mas eu filmo pouco. Se vc filma muito, sugiro um de 8GB ou mais. Outra parada que eu acho que ela podia ter é bluetooth.
O resto, é só diversão. Espero que curtam as fotos.

camera Microcosmo no jardim

Tem pra vender pelo Gump shopping Mercado Livre.

Jurado de morte – parte 4

O coração de Zé Walter parecia querer sair pela boca, e só voltou a bater normal quando se deu conta de que o soco que ouviu na porta era da mulher dele, preocupada.
-Zé? Abre essa porta, Zé! – Gritou Gizela.
Zé abriu a porta e viu a mulher. Ela estava preocupada. Havia ligado pra ele diversas vezes naquele dia, mas ele não atendeu.
-Porra… Eu dormi. – Disse ele, sentando na cama. Zé já ia contar o seu pesadelo com o bigodudo do opala preto quando Gizela o interrompeu.
-Ligou pra polícia, Zé?
-Não.
-Porra, Zé!
-Calma, Gi. Olha só, eu acho que a polícia tá envolvida. Não vai adiantar eu ligar pra lá, Gi. O cara mandou na careta, ele sabia que eu ou qualquer um que recebesse uma ameaça dessas ia procurar a polícia. Se ainda assim ele mandou a carta, é porque ele sabe que não vai adiantar lhufas ligar pra polícia.
-Humm. Isso é. -Disse Gizela sentando na cama.
-Mas e agora? O que vamos fazer, Zé?
- Não sei, Gi… Olha, vem cá. Tem um carro. Opala. Eu acho que o cara tá…-Zé Walter puxava Gizela para a janela afim de mostrar o opala preto. Mas o carro não estava lá. A vaga esta vazia.
-Carro? O que? -Gizela não etendia.
-Tava ali… Agora saiu, Gi. Um Opala preto. Carro de assassino. Eu vi o carro hoje cedo. Ele tava parado ali naquela vaga onde está a kombi. Tá vendo? Perto da banca. Depois o carro saiu e o vidro abriu. Tinha um homem sinistro dentro.
-Homem sinistro, Zé?
-Isso. Um homem de bigode grisalho. Cara de uns 50, 60 anos. Tava usando um óculos escuro. Ele abriu a janela e olhou pra mim, Gi. Aqui pra cima!
-Porra que estranho, Zé. Mas isso não significa que…
-Gi, quantas vezes você olha pelo vidro do carro para prédios de apartamento? Sobretudo andares altos?
-Nenhuma.
-Viu? Acho que o cara tá envolvido, Gi. Além disso é um opala e opala você sabe…
-Ah, Zé. Porra para com essas fantasias. Isso é só em filme de máfia.
-Ah, mas filme de máfia é inspirado em que? Na realidade, Gi. Na realidade!
-Zé, me escuta. Eu andei o dia todo pensando na tal carta. Eu acho que isso é brincadeira, cara.
-Que isso Gi? Porra quem vai brincar assim com os outros? Isso dá cadeia, meu.
-Ah, sei lá. Vai que é um desses seus amigos sem noção, Zé. Pode ser, por que não?
-… – Zé estava quieto. De fato aquilo poderia se tratar de uma mera brincadeira de mau gosto. Amigos sem noção ele de fato os tinha. E tantos que havia perdido as contas.
-Zé, tu dormiu a tarde inteira, hein? Eu tô ligando desde as duas da tarde aqui pra casa e nada…
-Pois é, mas… Não sei. Acho que é efeito psicológico. Essas coisas de fuga. Se bem que nem dormindo eu escapei da morte.
-Hã?
-É, tive um pesadelo.
-Mas não ouviu o telefone tocar, Zé?
-Não… – Disse Zé Walter, pegando o telefone sem fio. Colocou no ouvido e descobriu:
-Ué. Tá sem linha.
-Sem linha?
-É, olha só…
-Ué…Será que pifou?
Zé Walter e Gizela se entreolharam. Nisso tocou o interfone.
Os dois arregalaram os olhos.
-Tá esperando alguém? -Perguntou Gizela.
-Não, e você?
-Também não. – Disse ela correndo para atender.
Zé Walter correu para a janela, mas não havia sinal do opala preto.
-Alô? Sim? – Gizela falava com o Porteiro no interfone da cozinha.
Zé Walter correu até lá. Ficou gesticulando, afobado, querendo saber do que se tratava. Gizela tirou o telefone do ouvido sussurrou para Zé.
-Você pediu pizza?
-Não.
-Seu Limair? Olha, não pedimos pizza não. Pede pra verificar aí, porque não foi aqui não. Hã? O que? Como assim já subiu? Mas não pediu daqui. Hã? Tá, tá. Tá bom. Boa noite. – Ela se apressou em desligar.
-Ah, não. Vai tomar no cu, Gi! – Disse Zé Walter já andando para trás.
-O babaca mandou subir antes de ligar pra cá. O entregador já tá subindo.
-Fudeu. É o assassino!
-Caralho, e agora, Zé?
-Não sei.
-E agora Zé?
-Não sei, porra. Vamos fazer alguma coisa.
-Mas o que?
-Sei lá. Calma aí. Porra… Caceta… Deixa eu pensar. Putaquepariu, porteiro burro do caralho…
-Pensa logo, Zé. Ele ta subindo.
-Ai caralho, ai caralho…
-Zé, A tv porteiro!
-Isso! Rápido. – Disse Zé correndo para a sala e ligando a Tv. A “Tv porteiro” era um canal da antena coletiva que mostrava as câmeras de segurança do prédio.
A Tv mostrava a garagem. Depois veio o corredor, a portaria, a frente do prédio e finalmente o elevador.
Ali dentro, visto de cima, numa imagem borrada e em preto e branco, estava um homem, usando um capacete preto e… Jaqueta de motoqueiro.
Zé Walter sentiu um arrepio na espinha.
-Zé acho que é um entregador comum. – Disse Gizela.
-Hummm. Não sei. Olha o volume da embalagem. Não parece estufado?
-É. Parece. Quem tá lá com ele? Dá pra ver?
-Acho que é a dona Isolda do 504.
O elevador para no cinco e a velha desce. Fica só o homem de capacete no elevador. Nisso, o homem da pizza olha na direção da câmera. Ele usa óculos escuros do tipo aviador e Zé Walter pôde notar até um pedaço de bigode aparecendo dentro do capacete.
-Caralho, fudeu!
-Que foi? Que foi?
-É ele! O cara do Opala. Que andar que tá? Olha ali no reflexo do espelho. Tá no seis?
-Agora sete.
-Rapido Gi. Vem! – Diz Zé Walter, agarrando Gizela pelo braço e saindo correndo. Eles correm para fora do apartamento.
-Pra onde Zé?
-Por aqui. – Sussurra ele, apontando para as escadas. Os dois enfiam-se nas escadas.
Assim que a porta corta-fogo se fecha eles ouvem o barulho do elevador chegando no andar.
Os dois observam a cena pela greta da porta.
O homem de jaqueta e capacete chega no andar. Ele vai com a caixa da pizza e um papel na mão. Olha cada uma das portas. Mexe no bolso.
Zé Walter e Gizela se entreolham no escuro.
No fim do corredor o homem da pizza tira um papel do bolso. Ele vai até o apartamento deles. Toca a campainha. Como niguém responde, o homem toca duas, três, seis, dez vezes. Nada. Nenhum sinal. Ele então começa a socar a porta. Bate com força três ou quatro vezes, até que ela se abre.
Zé olha para Gizela na escuridão e sussurra:
-Porra, Gi…Você não trancou?
-Vá a merda, Zé. Eu tava pensando que ia morrer. Cê acha que eu ia ter cabeça de trancar a porta? Não deu tempo.
O homem da pizza entra no apartamento e não há mais sinal de vida no corredor.
Na escuridão da porta corta-fogo, Zé Walter e Gizela estão tensos. A respiração presa. O medo é cada vez maior.
O homem da pizza finalmente sai, ainda com a pizza na mão. Vira as costas e chama o elevador. Parece uma eternidade o tempo que leva para que o elevador chegue.
Nisso, o homem da pizza olha para a escada.
O cagaço de Zé Walter atinge proporções bíblicas.
-Fudeu, Gi. ele vai vir pra cá. Ele viu a gente!
-Calma Zé. Calma… -Gizela tenta acalmar.
O homem da pizza começa a vir na direção deles. Parece decidido, como se tivesse visto alguma coisa.
-Fudeu, fudeu…
-Pai nosso que estás no céu… -Os dois sussurravam.
Nisso, o elevador chegou. O homem da pizza ouviu o barulho do elevador e voltou.
Finalmente a porta se abre e o homem da pizza vai embora.
Zé e Gizela se olham, aliviados.
-Ah, meu Deus. Aleluia. Ufa!
-Putaquepariu, caralho, buceta! -Geme Zé. Agira eles estão com a certeza de que o cara da pizza é o assassino.
-E agora? Voltamos? – Pergunta Gizela.
-Não sei. Melhor que ficar aqui deve ser.
Zé e Gisela saem da porta de acesso às escadas com o pé ante pé. Vão rapidamente para o apartamento. Entram e trancam a porta.
Logo que entram percebem que tudo está como deixaram, com a excessão de um detalhe: A tv está desligada.
-Gi você desligou a Televisão?
-Não lembro. Eu acho que não…
-Então foi ele.
-Porra, ele sacou que a gente viu ele.
-É. Veja aí se ele não mexeu em mais nada. -Diz Zé Walter.
Gisela vai até o quarto. Depois até a cozinha.
-Parece que está tudo em ordem.
-Que porra estranha…
-Não tá faltando nada… Calmaí.
-Que foi?
- A carta.
-Tava em cima da cama.
-Não tá.
-Caralho, ele pegou. Ele pegou a carta. Puta que…
-Zé, ele pegou a carta. Ele acabou com a prova. Ele veio aqui para pegar a carta. É isso.
-…Pariu, Gi e agora? Nem se a gente quiser ir na polícia… Ninguém vai acreditar.
-Zé, eu tô com medo.
-Eu também, Gi.
Nisso, o interfone toca. Os dois se entreolham assustados.
Gizela corre para atender.
-Seu Limair? Pode falar, seu Limair.
-…
-Hã? Ah, tá. Tá. Tá certo. Tudo bem. Olha seu Limair, não deixa mais ninguém subir sem a nossa autorização não, viu? Senão vou reclamar com o seu Joel. Ah, e olha, o telefone aqui em casa tá com problema. Se o senhor puder, fala com o seu Waldicley pra ele pedir o reparo, tá? Ok… Boa noite. Té manhã.
-E aí? -Perguntou Zé aflito.
-O cara foi embora. Disse pro seu Limair que foi engano da pizzaria. Que saiu o endereço de entrega errado.
-Porteiro débil mental filho duma vaca! Porra, esse tal Limair não faz nada direito, meu. Vive deixando entrar tudo que é otário, faz confusão com morador, entrega a minha Veja pro cara do andar de cima, é um incompetente. Não sei como deixam uma porra dessas ser porteiro. Ainda mais com o que a gente paga de condomínio. Agora, sobre o que o cara disse, pra mim é caô.
-Pra mim também. Se fosse mesmo o cara da pizzaria, ele ia entrar aqui em casa? Desligar a TV?
-E digo mais… Eu acho que ele que fodeu o telefone.
-Humm. Faz sentido, Zé.
-Certamente ele veio aqui já de caso pensado, para pegar a carta. A carta é a única prova do crime. Ele pegou a carta e saiu fora.
-Mas e agora?
-Agora nada. Agora vamos dormir. Eu acho que eles não vão fazer mais nada hoje. Ainda me resta mais um dia e algumas horas…
-Zé, não fala assim.
-Tá bom, Gi. Tá bom. Vamos dormir.
Os dois tomam um Toddynho cada, depois um banho e vão dormir.
A noite passa arrastada. Nenhum dos dois consegue dormir bem. Zé Porque passou a manhã e tarde dormindo. Gizela porque está abalada com aquilo tudo.
No dia seguinte, Zé acorda com Gizela chamando para tomar café.
Ele vai até a janela. Olha lá para baixo… Nada do opala preto.
Os dois tomam café quase sem dizer uma palavra. Apenas se olham. Os olhares dizem tudo.
-Tenho que trabalhar. -Finalmente Gizela rompe o silêncio.
-Gi, andei pensando. Acho que tenho que sair fora.
-Sair fora?
-Sim. Os caras querem a minha cabeça tal qual um São João Batista.
-Mas pra onde, Zé?
-Gi… Sei lá… Vou ter que dar um “vazari”. Sair de circulação por uns dias. -Diz Zé Waler.
Gizela faz uma cara de choro.
-Calma, Gi. Eu volto Eu prometo. Eu vou dar um tempo. Acho que vou pra casa do Amarildo. Na chácara. Lá naquele buraco, os caras não vão me achar.
-Mas como você vai falar com ele?
-Gi, eu não vou. Deve estar tudo grampeado. Não dá pra confiar. Eu sei onde o Amarildo guarda a chave reserva. Eu pego ela e entro lá. Preciso colocar a cabeça no lugar. Espairecer. Pensar no que fazer. Daí, de lá eu ligo pra ele.
-Tá bom. Mas Zé…
-Oi Gi.
-Cuidado hein? Eu te amo.
-Eu também te amo Gi.
Os dois se beijam de forma agressiva. É o medo. Eles temem não se encontrarem mais.
Gizela sai para o trabalho na fundação com o coração apertado, deixando para trás o marido.
Zé Walter vai para o quarto arrumar uma mochila. Enquanto arruma, ele pensa em uma forma de fugir sem ser visto nem seguido.
Zé tranca a casa, pega o elevador de serviço e desce no playground. Ali ele corre até as palmeiras que enfeitam a parte da frente do prédio. Olha lá de cima. Nem sinal do Opala. Zé estuda meticulosamente o caminho que fará na rua. Ele planeja correr até a rua de trás, onde passará por um beco e chegará a outra rua, onde há uma estação do Metrô.
Do play, Zé desce pelas escadas até o térreo. Ele já se encaminha para a portaria quando vê, do outro lado da rua, o Opala preto estacionando perto da banca.
-Fudeu! -É só o que ele consegue falar.

CONTINUA…

Jurado de morte – parte 3

-Quem tá aí? -Zé Walter resolveu gritar.
Não houve resposta. Apenas mais um soco na porta do quarto. Fosse quem fosse, não estava interessado em conversas.
Zé se desesperou. Só podia ser o bigodudo do opala preto.
Zé Walter voltou na janela. Olhou lá pra baixo novamente. O opala ainda estava lá.
A porta do quarto era esmurrada com violência. Subitamente ela recebeu um enorme baque e chegou a envergar no meio. Zé pegou o telefone e tentou ligar para a polícia.
Sem sinal. Alguém havia cortado o fio do telefone na sala.
Zé olhou ao redor, pensando em como fazer para escapar. Pensou em passar pela janela e andar no parapeito, mas ele era muito estreito. A morte seria certa. Pensou em se esconder sob a cama, mas aquilo pareceu-lhe ridículo demais. O cara certamente estava de tocaia e sabia que ele estava na casa. Chegou na janela e começou a berrar como um louco por socorro. Mas ninguém parecia ouvir. A porta continuava a ser socada e chutada e ao redor da maçaneta uma enorme rachadura se formou. Zé estava atrás da cama quando a porta finalmente cedeu. Do outro lado, estava o homem do opala preto, segurando uma escopeta.
-Perdeu, filho da puta! – Foi só o que ele disse.
O homem puxou o gatilho da escopeta, mas Zé Walter saltou antes, caindo dentro do banheiro.
Zé levantou e tentou fechar a porta. Mas o assassino enfiou o pé entre a porta e o batente. Zé fez toda a força que podia para tentar fechar a porta, mas o bigodudo era extremamente forte. Ele deu um empurrão na porta e Zé tropeçou no tapete embolado. Caiu por cima do vaso sanitário.
A porta do banheiro se abriu lentamente.
O homem entrou, vestindo uma jaqueta de motoqueiro. Seus óculos Ray Ban de aviador, contrastavam com o bigodão grisalho. O assassino não disse nada. Apenas entrou segurando a escopeta. Nas mãos, Zé viu que ele usava luvas cirúrgicas.
-Porra, porra, caralho. Não fode, não fode… – Era só o que Zé conseguiu articular.
O homem da jaqueta preta lentamente apontou a arma na direção dele.
-Na cara não. – Implorou, cobrindo o rosto com as mãos.
O bigodudo do opala parecia alheio a todo aquele sofrimento. Continuou apontando o cano preto na direção da cara de Zé.
O dedo recoberto com borracha esfregou-se sensualmente no gatilho da arma. Zé fechou os olhos e não teve nem tempo de pensar em nada.
Bum! Estourou a cabeça, espalhando sangue e pedaços de miolos nas paredes.
O corpo de Zé agora jazia no banheiro, com o que sobrou do seu crânio enfiado no vaso sanitário. O resto estava escorrendo pelo azulejo branco, tingindo a parede de rosa e se acumulando sobre as pastilhas, no chão banheiro.
-NÃO! -Zé acordou berrando, banhado em suor. Levou dois ou três segundos para se conscientizar que não estava morto no chão do banheiro, mas sim empapado na cama, suando em bicas.
E então, quando ele se deu conta de que havia dormido, e tudo aquilo era um sonho, sentiu-se maravilhosamente feliz. Pegou o cigarro no criado mudo e foi até a janela. Acendeu o cigarro e na primeira baforada que deu, viu parado lá em baixo o opala preto. Na mesma vaga do sonho.
Aquilo o assustou. Foi aí que ele ouviu um soco forte na porta. E dessa vez não era sonho.

CONTINUA…

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