Archive - novembro, 2009

Top 10 clipes românticos antigos

Eu tava aqui vendo uns videos no you tube e me lembrei que os anos 80 e o início dos 90 rolava uns clipes românticos bem curioso e estranhos. Limitei a lista a clipes internacionais, para facilitar, além do mais nos anos 80 tinha pouco lipe nacional. Resolvi compilar minha listinha preferida dos dez clipes no “mela cueca style”. Óbvio que vai ficar faltando coisa aí. Mas é o que eu achei.

1- Nothing gonna change my love for you

Praia deserta, sujeito com a loura num cavalo… Era isso que eu sonhava em fazer naqueles antigos anos de 1988. Acabou que eu consegui. Na lua de mel eu fui parar numa ilha deserta com a Nivea, mas não foi tão romântico como aparecia no videoclipe e na minha imaginação de pré adolescente.

2- Wicked Game de 1989
Este é um clipe que além de ser o preferido da minha mãe, é de uma fotografia espetacular. Ainda no clássico da fantasia ilha-praia deserta-e-sacanagem-na-beira-do-mar.
Nada mal. Sabia que este cara pegador aí (Cris Isaak) é o pai do pequeno buda, no filme do Bertolucci? Acho que foi assim que o bacuri veio ao mundo, hehehe. Fica fazendo esses clipes com mulheres gostosas peladas, dá nisso…
A musica é boa demais. Difícil evitar uma pegação quando isso toca. Se não me falha a memória, a mulher que corre só de calcinha é uma modelo russa chamada Helena Christensen, Dinamarquesa (obrigado aos leitores que corrigiram).

3-Making love out of nothing at all – Air Supply
Tá aí uma musica boa que tem um título difícil pra caramba. Começa com um draminha básico. A moça é linda (apesar do cabelo ridículo do início do clipe ela dá show na parte em que o mundo roda em volta dela) e o casal não convence, os efeitos especiais são do tipo Chaves, mas é como eu disse, a história é o de menos. Ela é só o pano de fundo para a trilha ótima da banda Air Supply, que fez parte de dez entre dez novelas da globo. É puramente comercial, mas é bom.

4- Hello – Lionel Richie
Aqui temos uma interpretação que parece ridícula hoje, mas no passado deve ter sido boa. Muito blablablá até a musica realmente começar. Isso era típico de um tempo em que não era tudo tão corrido, ou tão compactado para rodar no you tube. Há um melodrama implícito no clipe, que é o amor do professor pela aluna cega. O clipe parece uma piada, mas é um clássico. E a musica, apesar de hoje só tocar na Antena um light FM e no Good Times 98, é boa, né?

Clipe com historinha é legal.

5- Take on me – A-ha
POucas bandas ficaram marcadas nos anos 80 como o A-ha. Em termos de musica Take on me é legal, tem uma paradinha legal com o baixo e teclado, mas não impressiona tanto quanto o clipe, considerado por muita gente (eu inclusive) um dos dez clipes atisticamente mais legais de toda a história. O Take on me também tem uma historinha – literalmente. Só achei esta versão de péssima qualidade, filmado de uma TV.

6- Eternal Flame – Bangles
Puts, isso tocava nos hi-fis, que eram umas festinhas que a galera agitava pra rolar uma pegação. Bangles é a trilha sonora mais mela-cueca dos anos 80. Se não for a maior é uma das maiores, com certeza. A melodia é legal. E a voz da mulher lembrava do Freddy Mercury prateado. O clipe eu desconhecia, mas tá aí. Essa musica do Bangles toca no radio até hoje. Impressionante.

7-Material Girl -Madonna
Naquele tempo todo mundo sonhava em pegar a Madonna. E nesse clipe o carinha chega junto e pega a rainha do materialismo. Ficou marcado a cena em que ela imita Marilyn Monroe. Bom clipe, com historinha. E a musica é uma das melhores da Madonna.

8-Strange love – Depechemode
O Depechemode deve ser uma das bandas que mais tocou no tempo em que eu ia em boate tentar (eu disse tentar) pegar mulher. Naquele tempo era mais difícil ficar com as meninas e no interior ainda era pior. Rolava uma espécie de auto-valorização da menina. Elas disputavam quem dava mais vetos na noite. Então, sagrar-se vencedor na batalha do acasalamento era tarefa árdua que já não existe mais.
O clipe do Strange Love tem um look de pesadelo, com uma mulher gata se alisando. Erotic bad dream.
Comercial até o talo, como convinha à época. Acho que isso ainda toca.

9- La isla Bonita – Madonna
Madonna dá show em mais um clipe clássico dos anos 80. Uma mulher dividida dos subúrbios novaiorquinos se vê na iminência de escolher entre o amante latino e a vida casta dedicada à igreja. O resultado prático foi ótimo. Destaque para o coroa que dança requebrando com dois sacos de mercado nas mãos.
O fato é: A musica é das melhores que se poderia esperar, e poucos clipes em todos os tempos conseguiram retratar a dualidade da mulher de forma tão bela.


10- Endless Love – Lionel Richie e Diana Ross

Ok, chegamos ao nível máximo de mela cueca possível. Endlesse Love fez parte da história de amor de incontáveis casais e até eu já fiz amor ao som disso aí. Então não dava pra fechar com outra chave de ouro que não Endless Love. A musica é linda. Pena que acho que ela não tem um videoclipe. A musica foi gravada nos anos 70, quando os clipes não eram comuns. Isso não impediu que muitas pessoas resolvessem o problema, usando trechos de filmes românticos. Existem milhões, trilhões deles no you tube. Escolher foi difícil, pois alguns são bem legais.
Então a versão original, com os dois cantando é esta aqui. E a versão de clipe home made que eu achei mais legal é esta, do filme homônimo, do Franco Zefirelli (o cara que sabe fazer melhor um filme de amor no universo) Estrelando Brookie Shields, em todo seu esplendor e erótica magnificência juvenil.

Tragédia Cigana parte 5 – Final

(Continuação da parte 4)

-Caro senhor. Vim humildemente pedir a mão de sua filha em casamento. – Disse, Dimitri em Romani, como manda a tradição para momentos solenes.

-O que? Qual delas? Elas nem tem quinze anos ainda!

-Não, não, meu senhor. Eu gostaria de desposar sua filha Sandra.- Disse Dimitri apontando na direção da parte da tenda em que estavam as mulheres com o corpo de Sandra.

Imediatamente Zaid empalideceu.

-O que? Minha filha está morta, moço.

-Eu sei, meu senhor. Mas mesmo assim. Sempre amei sua filha. Peço humildemente que me conceda sua filha em casamento, mesmo morta. Eu a honrarei como marido para todo o sempre.

Zaid ficou sem saber o que falar nem fazer. Aquela era a situação mais estranha com o qual já havia de deparado até então. Um casamento entre um vivo e um morto. Seria possível?

-Veja, meu rapaz. Não entendi. Você está querendo casar-se com uma mulher morta. Ela não poderá plantar, nem colher, nem criar ou ter filhos. Ela estará morta. Morta e enterrada. Não vejo o porque.

-Meu senhor… – Disse Dimitri buscando algum argumento para justificar o pedido bizarro. – …Sua filha aceitou casar-se comigo, antes de… Bem, o senhor sabe. Antes daquele desgraçado fazer o que fez.

-Ela aceitou?

-Sim senhor. Ela aceitou casar-se comigo e foi por isso que ele a matou. -Disse Dimitri olhando para o chão.

Zaid ficou em silêncio. Agora tudo fazia total sentido. O sonho. Era aquilo que o sonho queria dizer. Os pensamentos de Zaid foram interrompidos por Dimtri:

-Senhor, obviamente que mesmo ela estando morta, terei prazer em pagar o dote. Tenho algumas economias, caso queira saber. Faço isso apenas e tão somente pelo amor que nutri pela sua filha quando estava viva.

- Veja, meu jovem. Se era este o último desejo de minha filha, e mesmo morta, eu acho que podemos realmente dar um jeito nisso. Eu concedo a mão dela, coitada, a você.

Os homens se cumprimentaram e Dimitri saiu da cabana, todo feliz.Correu para a barraca de Zatana. A velha estava mexendo nuns guardados.

-Senhora, onde está a Mikaela?

-Ah… Você. – Falou a velha. – Eu quero mesmo falar com você. Senta aí, grandão.

Dimitri tinha medo daquela velha. Ele apressou-se em obedecer.

-Então é você que vai casar com a moça?

-Sim senhora. Eu mesmo. Eu fiz tudo como a Mikaela mandou. Falei com Zaid agora e ele aceitou me casar com a filha dele. Mesmo estando Morta.

-Hahahahaha. Morta? Ela está viva, rapaz.

-Mas como? – Questionou Dimitri.

-Isso não te interessa saber. O que você deve saber é que tão logo se case com a filha de Zaid, terá que colocar esta massa de folhas na boca dela. Coloque com água. E em pouco tempo, ela vai acordar como se tivesse dormido. Quando ela acordar, já estará casada e será sua. Não haverá nada que ninguém possa fazer para separar vocês.

-Isso é bruxaria! – Gritou Dimitri assustado.

-Isso é solução para todos os seus problemas, grandão. Agora vai, sai da minha cabana que eu preciso ficar sozinha. A Mikaela está lá fora.

-Sim senhora. – Disse Dimitri, saindo sem dar as costas para a bruxa.

Do outro lado do acampamento, o bigodudo olhava as estrelas. Alexander apenas esperava, pesnando em seu infortúnio. Súbitamente ele ouviu um “clock”.

O cigano bigodudo caiu duro de cara na lama. Alexander olhou para a mata e não viu ninguém. Enfim percebeu o brilho do sangue numa pedra próximo da cabeça do guarda.

Da mata saiu o velho Ephraim.

-Velho…

-Garoto.

-Eu não sou culpado. Foi uma armação da bruxa.

-Eu sei, garoto. Poupe seu fôlego. Eu te criei. Conheço bem o meu gado. – Disse o velho desamarrando Alexander.

-Eles querem me condenar a morte.

-E vão. – Falou Ephraim. – Ao que parece, Mikaela disse para todos da aldeia que você abusou dela. Sandra apareceu morta e a Velha Zatanna disse que viu você matando Sandra. Além do mais, Zaid pegou você enforcando a velha de mais de oitenta anos… Você caiu como um pato.Todos na aldeia acham que você endoidou e teve gente que disse que viu você matando o pobre Alifi.

-Mas não fui eu.

-Não interessa agora. O importante é que você fuja para a floresta enquanto pode, ou vão matar você.

-Sim, farei isso. Mas velho…

-Sim?

-O Dimitri. Nós lutamos. Ele estava tentando violar Sandra.- Disse Alexander. O velho Ephraim ficou pensativo.

-Ah… Que pena. – Disse o velho. – A gente trata, cria, dá comida, faz de tudo por eles e o que recebemos em troca? Alguém a quem não podemos confiar. Obrigado por me contar.Agora vá. Corra para o alto da montanha. Perto da pedra do pássaro tem uma caverna. Fique lá. Eu levarei comida mais tarde.

-Sim, velho. Obrigado. – Disse Alexander abraçado Ephraim.

Alexander correu para o mato e começou a escalar a ecosta da montanha, sumindo por entre as árvores.

Nisso o bigodudo gemeu e começou a se mexer. Ephraim correu por entre as carroças e desapareceu.

O bigodudo recobrou a consciência. Olhou para a estaca que prendia Alexander e viu as cordas cortadas.

-Ele fugiu! Maldito.

O bigodudo entrou no meio do acampamento gritando da fuga do prisioneiro.

Zaid correu para saber. Viu o ferimento na cabeça do guarda.

-Ele foi ajudado por alguém. – Concluiu Zaid.

Nisso, Petra, a mãe de Sandra surgiu da cabana.

-Ela está pronta, Zaid. Tem certeza que vai casar nossa filha morta?

-Sim. Vou. Dessa forma ela irá para a eternidade compromissada. Sei que isso não soluciona, mas ameniza a minha dor de saber que minha querida Sandra, a alegria da minha vida, foi violada e morta por aquele monstro. Será um funeral-casamento. -Disse ele, olhando para o chão com os braços cruzados.

-Que seja. Ela está pronta.

-Então mande as mulheres do nosso clã se prepararem. Esta noite teremos um casamento, e depois, um funeral.

Zaid virou-se para Ephraim que vinha passando.

-Ephraim, vou casar Sandra. Reúna o seu povo. É hoje à noite.

-Hã? Ficou louco meu amigo? Ela está…

-Sim, eu sei. Morta. Mas eu a darei em casamento ao grandão. Aquele que você criou. O da cicatriz.

-Dimitri?

-Sim. Ele mesmo.

Ephraim ficou atônito. Nunca havia escutado falar num casamento entre uma morta e um vivo.

Ephraim acenou com a cabeça e saiu. Foi correndo contar ao Alexander. Escalou com dificuldade aquela montanha.

Ao chegar na caverna, Alexander não estava.

-Droga. Que moleque burro. Onde será que ele se meteu? – Perguntou-se Ephraim.

Subitamente Alexander saltou sobre ele. O jovem tinha o punhal na mão e quase atingiu o velho.

-Droga velho. Quase o matei. Pensei que era algum homem do Zaid. -Disse sem graça, guardando o punhal.

-Eu falei que vinha, seu tonto. Agora escute com atenção. Eu descobri que o Dimitri vai se casar com Sandra. Esta noite.

-Impossível. Ela está…

-Isso mesmo. Morta. Ela vai casar morta mesmo. Alexander, acho que Dimitri surtou, ou está endemoniado.

Alexander sentou-se no chão da caverna.

-Maldição. Como você descobriu?

-Zaid me contou. Mandou reunir nosso povo. O casamento será às pressas, pois logo depois é o funeral.

-Quando?

-Amanhã à noite.

-Pobre Sandra. Pior que eu não posso ir lá. Eles me matarão.

-Bem, meu jovem. Aqui está a comida e uma manta para passar a noite. Fará frio aqui. Amanhã eu volto.

-Até amanhã, velho. Obrigado.

-Adeus. -Disse Ephraim, descendo a encosta.

Lá em baixo, no interior da aldeia, estava Mikaela. Aos gritos com Zatanna.

-Mas ele fugiu! Como vai casar comigo fugido?-Berrava furiosa a loura.

-Calma, pequena ninfa. Para tudo tem jeito nessa vida. Até para a morte.

-Vamos afastar o problema da filha de Zaid primeiro. Vamos forçar o casamento dela com o fortão feioso e então depois que ela se casar e ressuscitar, estará impedida para o jovem Alexander para sempre. Então nós daremos um jeito de encontrá-lo. Sem a morte da jovem para pressionar, ele não poderá ser condenado a morte, mas será pressionado a casar-se com você porque ele violou nossa lei dormindo com você naquela noite.

Mikaela ficou queita. O plano da velha Zatanna fazia sentido.

Mikaela deitou-se na cama e dormiu.

Naquela madrugada o frio e o vento maltrataram Alexander. As feridas no rosto ardiam e os hematomas nos braços doíam. Ele tremia como uma vara verde, enrolado na manta de Ephraim.Durante a torturante madrugada pensou em muitas coisas e jurou para si mesmo que não permitiria que a sua amada, mesmo morta, fosse desposada pelo seu primo desgraçado. Aquele maldito brutamontes que tentou estuprá-la. Dimitri merecia a morte.

No dia seguinte, quando o sol raiou, uma bandeira vermelha estava fincada no centro da aldeia. Nela, o nome dos noivos.

Os amigos de Dimitri entraram tocando musica na cabana de Zaid. No centro da cabana, uma grande mesa estava preparada, cheia de comida. Os homens sentaram-se à volta. As mulheres, as irmãs de Sandra e outras e jovens ficaram em pé, ao redor olhando.

Os homens conversaram em Romani. Ephraim sentou-se de frente para Zaid. De um lado os parentes e amigos do noivo. Do outro, Zaid, seu cunhado, os irmãos e amigos do outro clã.

Ephraim estava visivelmente abatido e Zaid notou a tristeza no olhar do velho quando este recitou o pedido de casamento oficial, como manda a tradição. Zaid concedeu. E eles simularam a negociação da jovem morta. Eprhaim olhou para os rapazes, tirou um saco de couro cheio de moedas de ouro e entregou a Zaid. As mulheres trouxeram uma bebida forte, a Proska. Os homens beberam.
Quando todos saíram da cabana, o centro do acampamento já estava cheio de ciganos. De um lado surgiu Dimitri. Vestido nas roupas tradicionais de seu povo. Os convidados vão juntando-se às danças, animados por um conjunto. No meio da praça central, duas grandes mesas, são arrumadas. As mulheres trazem uma padiola branca, ornada com flores. No meio, coberta por um véu fino, está Sandra. Ela vesta o branco, a cor das noivas. Seu cabelo ornado com muitas flores e uma profusão de jóias de ouro adorna seu corpo. Ela está linda, parece um anjo.
Archon, o velho ancião, dá início ao ritual do casamento. Com um pequeno punhal decorado finamente ele faz um pequeno corte no pulso de Sandra. Repete o procedimento no pulso de Dimitri.
Com um lenço vermelho, ele lentamente enrola os pulsos, de Sandra, morta, e Dimitri, simbolizando a união eterna. Dimitri inclina-se sobre o corpo frio de Sandra e coloca um pouco da massa verde que Zatanna lhe deu na boca da jovem.
-Que isso? – Sussurra Petra no ouvido do marido.
-Não sei. Deve ser parte do ritual deles. – Respondeu Zaid.

Subitamente, um grito ecoa no meio do povo. Todos olham para a mata, de onde sai Alexander.

Zaid olha com ódio para Alexander.
-Desgraçado. Peguem ele! – Grita para os homens da aldeia, que sacam seus punhais.
-Esperem! – Berra Ephraim, jogando-se na frente dos homens.
- Deixem ele falar. -Diz o velho.
-Eu não matei esta mulher! Ela não pode casar com ele! – Grita Alexander em meio a floresta apontando Dimitri. – Ela foi envenenada.
-Você desonrou minha filha, maldito. Deixe que ao menos ela se case.
-Não. Eu não posso. Ele é o canalha. Ele tentou desonrar sua filha, Zaid! -Gritou Alexander.
Zaid olhou seriamente para Dimitri.
-Isso é verdade? – Perguntou levantando-se da mesa.
Dimitri demorou a responder. Procurava na mente alguma justificativa. Não encontrando, apelou para a mais fácil.
-Eu te desafio! – Gritou Dimitri, sacando seu punhal e apontando para Alexander.
-Isso é verdade? – Continuou a gritar Zaid. Nisso as mulheres já choravam as crianças haviam se enfiado sob as mesas e os velhos tentavam entender o que se passava ali.
-Eu aceito seu desafio, desgraçado. Vai pagar pelo que você fez a Sandra! – Gritou Alexander.
Zaid sentou-se sem saber o que fazer.

Alexander entrou no grande círculo. Dimitri avançou sobre ele com o punhal em riste.
Os dois lutaram ferozmente. Dimitri era muito mais forte e bateu com violência em Alexander.
Alexander perdeu a consciência por um breve momento e caiu.
Dimitri partiu para cima dele e levantou o punhal para uma estocada no peito do primo.
-Não! – Gritou Sandra.
O povo se assustou. Muitos levantaram e saíram correndo de susto.
Zaid arregalou os olhos como nunca havia feito na vida.

Estava tonto, Tudo rodou. Ele caiu desmaiado.

-Papapai! – Gritaram as meinas.

Petra abriu a boca a chorar como uma criança. Todos estavam surpresos. Sandra acabava de ressuscitar.
Dimitri olhou pra ela por um breve segundo. E desferiu o golpe.

Ephraim salta sobre Alexander, tentando proteger o jovem. O golpe de Dimitri atinge em cheio as costas de Ephraim.

- Nããããão! – Grita Dimitri, vendo que matou o pai adotivo.

Dimitri cai de joelhos. O velho tosse. Vira-se para Dimitri e desfere um suonoro tapa na cara do jovem. Dimitri aceita o tapa em silÇencio. Baixa a cabeça. Ephraim olha para Alexander. Uma baba sanguinolenta escorre da boca do velho Eprhaim.

Alexander recobra a consciência a tempo de ver o velho dar seu último suspiro.

-Velho? – Geme Alexander no chão.

-Seja… feliz… meu… filh*

Ephraim não consegue terminar a frase e cai sobre o rapaz.

-Malditoooo! – Grita Alexander. Tomado de uma força sobre-humana, ele empurra o corpo do velho de lado. Pega seu punhal e lança-se no ar sobre Dimitri.

Os dois engalfinham-se num ferrenho combate. Dimitri é muito mais forte e facilmente desarma o primo. Ele soca a cabeça de Alexander no chão, e este perde a consciência novamente.

Sandra salta da padiola e corre na direção da luta. As mulheres gritam. Os homens agitam os braços em desepero. As crianças choram.

Dimitri pega o punhal no chão.

-Ela nunca será sua!- Grita ele para o jovem Alexander. Em seguida, enterra a lâmina no peito do jovem, com toda força.

- Nãããããããããããããããããããããão! Berrou Sandra em desespero, cambaelando, ainda zonza.

-Mikaela correu empurrando a multidão. Foi a primeira a chegar no corpo de Alexander.

A loura tinha lágrimas nos olhos, vermelhos de chorar.

Enquanto isso, o povo gritava apotando para Dimitri o corpo de Ephraim e Alexander:

-Assassino! Assassino! Assassino!

Dimitri ajoelhou ao lado do corpo de Ephraim e chorou.

-Eu não queria isso. Não queria. – Disse Mikaela. Ela sussurrou em vão palavras de amor segurando a cabeça de Alexander, quase desfalecido.

-Alexander olhou nos olhos da loura. Cuspiu na cara dela. E com o pouco de forças que ainda tinha a empurro para longe dele.

Mikaela foi chutada na cara por Sandra. A loura caiu pra trás. Sandra saltou sobre ela e esmurrou furiosamente o rosto da jovem. Mikaela reagiu, jogando Sandra de lado e chutando-a. Mikaela afastou-se. Tentou engatinhar na direção da lâmina de Alexander. Sandra por sua vez, correu para Alexander.

-Meu amor. – Disse Sandra abraçando o corpo do jovem.

-Não diga… Nada. Eu te… Amo. -Falou o jovem. E então fechou os olhos e parou de respirar.

Mikaela saltou com a lâmina para cima de Sandra, que desviou do golpe. Elas rolaram no chão, tentando em vão se esfaquear. Sandra socou a cabeça de Mikaela no chão e desarmou a jovem. Mikaela desmaiou. Com o punhal na mão ela correu. Não em direção a Mikaela que estava caída, mas na direção de Dimitri. O enorme cigano estava de costas, ajoelhado chorando ao lado do corpo inerte do velho Ephraim. Sandra cravou-lhe o punhal no pescoço. No susto, Dimitri levantou-se. O sangue espirrou alto. Dimitri deu um soco em Sandra, que caiu no chão.

Ele cambaelou de um lado para o outro, segurando a ferida aberta no pescoço, de onde uma cascata de sangue escorria, tingindo a roupa branca do noivo de rubro.

O povo cigano gritou de horror. Dimitri caiu de costas, no meio da fogueira, espalhando uma nuvem de detritos, poeira e fumaça no céu. Em pouco tempo, a fogueira aumentou e o corpo forte do cigano foi engolido pelas chamas, liberando um cheiro horrível no ar.

O povo finalmente correu para dentro do círculo e levantaram Mikaela, que estava desmaiada.

Sandra voltou-se para Alexander. Ele estava morto. Ela chorou. O povo se aproximou. Zaid se recuperava. Olhou a cena e não entendeu.

-O que aconteceu aqui? – Ele perguntou, vendo os corpos no chão e o homem que queimava na fogueira. Petra explicou o que havia acontecido.

-Minha Filha! Gritou Zaid, correndo na direção dela.

-Pai. -Falou Sandra, com os olhos cheios de lágrimas. – Ele morreu, pai.

- Eu sei, minha filha.

- Eu quero me casar com ele, pai. Mesmo morto.

-Impossível, minha filha. Você já casou. Disse Zaid olhando o corpo que lentamente se carbonizava no meio da fogueira.

-Não!

-Eu não posso fazer nada, Sandra. Disse Zaid.

Sandra olhou para o chão. Ali estava o punhal de Dimitri. Abaixou-se e pegou. Olhou para Zaid e Petra com um olhar de despedida.

-Não, minha filha.-Berrou Zaid.

-Não. – Gritou petra.

-Não! – Gritou o povo cigano.

Não houve quem pudesse impedir. Sandra pegou o punhal e cravou na própria garganta. Caiu abraçada sobre o corpo de Alexander.

As pessoas correram para acudir, mas já era tarde. Ela respirou ainda duas vezes e finalmente morreu.

O povo não podia acreditar no que acabaram de asssitir. Mikaela chorava copiosamente.

Horas depois, os corpos já haviam sido recolhidos. As pessoas recuperavam-se da dor. Os rituais funerários de Ephraim, Alexander e Sandra eram preparados.

Zaid mandou chamar os homens, que trouxeram Mikaela até a cabana dele.

Zaid obrigou Mikaela a contar todo o plano. Mikaela entregou Zatanna, que foi morta por apedrejamento pelo povo. Zaid expulsou Mikaela da aldeia. Horas depois, sozinha na floresta, sem povo, sem a tia, sem ninguém, desesperada, percebendo que nunca mais conseguiria ter Alexander pra ela, jogou-se do penhasco.

O povo cigano fez o funeral como de costume. Os mortos foram postos em camas turcas, bem no centro do acampamento, sob uma barraca branca montada ali. Cada um deles estava enfeitado com suas melhores roupas e Sandra estava coberta de todas as suas jóias. Os demais pertences de Alexander, Ephraim e Sandra foram distribuídos entre os membros do grupo como presentes. Sob as camas foi estendido um tapete. Em redor da cama, no chão, foram colocados vários pires com velas acesas. Em roda, os homens choravam em silêncio, enquanto as ciganas entoavam cânticos em Romani, chorando alto. No decorrer desse velório corria, por vezes, de mão em mão, a partir de Petra, um vasilhame com chá, de que todos bebiam.
E todos os potes, bacias e vasilhas que continham água e se encontravam nas barracas foram esvaziados, mantendo-se assim até o terceiro dia, quando finalmente os artesãos terminaram de fazer os três caixões. Os corpos foram colocados nos caixões pelos homens. As mulheres choravam.
Uma carroça levou o cortejo adiante na floresta até perto da cachoeira. Ali, num lugar sereno e plano, os homens já haviam cavado as duas sepulturas. Uma para o casal e outra para o Velho líder Kalderash.
Zaid e Petra choraram quando os corpos foram enterrados. As sepulturas foram cobertas com pedras.
O povo saiu em silêncio. Três dias depois, ainda guardavam o luto quando colocaram um pote com água no centro do acampamento. As pessoas se juntaram e esperaram indefinidamente. Ninguém falava nada. Era um ritual de silêncio com quase cem pessoas. Foi quando do meio da floresta, três mariposas surgiram. Voaram de um lado para outro, sob os olhares sérios das pessoas daquele povo e desceram no prato, onde beberam água. Enfim, levantaram vôo e retornaram para a floresta.
Em silêncio, o povo cigano desmontou as barracas, reuniu os acampamentos e se separou. Cada comitiva seguiu seu curso, cheios de tristeza e resignação.
Na floresta, ao lado da cachoeira, ficaram para trás as duas sepulturas. Duas placas cuidadosamente talhadas estampavam o nome dos três:
Ephraim Kovankzionish
Alexander Kovankzionish
Sandra Rosa Madalena

FIM

Este conto foi uma homenagem à musica do Sidney Magal.

Tragédia Cigana – Parte 4

(Continuação da parte 3)

Sandra então correu até as carroças. Olhou uma a uma até encontrar, na carroça de Alexander, os dois, dormindo abraçados e nus entre as peles.

-Maldito. – Gemeu Sandra. Uma dor profunda percorreu seu corpo e era como se uma faca quente tivesse transpassado seu coração. As lágrimas verteram de seus olhos e ela recuou. Voltou correndo, chorando em silêncio para a cabana de Zaid. Sandra chorou a noite inteira. Como pôde, aquele homem que ela tanto amou, o homem que ela prometeu seu coração, que iria fugir com ela naquela noite, dar-se a uma fraqueza daquelas? Com o coração sangrando, Sandra sentiu que perdia ali o amor de sua vida e chorou até o amanhecer.

Quando o dia finalmente raiou, Alexander abriu os olhos. Sentia-se ainda zonzo. Uma dor de cabeça das piores estourava sua mente. A primeira coisa que ele viu foi Mikaela de costas. Alexander ficou imóvel. Lentamente espiou por baixo das peles e viu que ela estava nua. Pior ele também. Ela ainda dormia, quando Alexander saltou da cama. Vestiu desesperadamente as roupas e começou a gritar.

-Que isso? O que você está fazendo aqui? O que eu estou fazendo aqui? Por que você está… pelada?

Mikaela se virou lentamente. Espreguiçou-se e limitou-se a dizer:

-Bom dia meu amor. – Ela ainda estava deitada, nua, sob as peles.

-O que significa isso? Que diabos eu estou fazendo nessa carroça com você?- Perguntou Alexander, se arrumando.

-Não lembra nada mesmo, Alex? Da nossa noite de amor?

-Não. Não! Impossível. Eu só me lembro de ficar tonto vendo a dança das meninas.

-Foi o vinho. -Riu Mikaela. – depois você veio atrás de mim, todo amoroso, disse que iria casar comigo se eu dormisse com você. E eu acabei não resistindo.

-Não. Não. Impossível. Eu não gosto de você. Sai daqui. veste suas roupas e saia.

-Meu amor. Deixa disso. Deita aqui que eu vou te…

-Sai, desgraçada! – Gritou Alexander.

Mikaela percebeu que a coisa estava feia. Ela se levantou em silêncio e se vestiu. Alexander continuou a escorraçar a loura para fora da cabana.

-Você prometeu casar comigo quando estava bêbado. Eu me deitei com você. Agora seja homem e cumpra o que prometeu. Ela jogou na cara dele.

-Nunca, maldita. Nem morto.

-Isso é o que veremos. -Disse Mikaela jurando vingança. Ela saiu da carroça e foi na direção da cabana de Zatanna.

Mikaela entrou na caba e viu Zatanna preparando uma poção.

-Deu certo, minha pequena ninfa? – Perguntou Zatanna.

-Não, Tia. Ele acordou e me expulsou da carroça. O desgraçado…

-Calma, menina. Isso vai mudar quando ele descobrir que a mulher que ama morreu. Tudo tem a sua hora.

Enquanto isso, do outro lado do acampamento, Sandra carregava água num balde. Ela estava triste. Sentia-se um frangalho.

Dimitri surgiu da mata.

-Sandra.

-Oi.

-Quer ajuda para levar o balde?

-Não, não.

-Me dá aqui. Eu ajudo.

-Não, não precisa.

-Me dá! – Disse ele de modo agressivo, agarrando o balde da mão dela e colocando no chão.

-Sandra… -Disse Dimitri, aproximando-se ainda mais dela.

-Sai, estou com pressa. -Disse a jovem tentando se desvencilhar do forte cigano.

-Eu te amo.

-Eu não. Eu amo… Eu amava o seu primo. -Disse Sandra, com tristeza no olhar.

-Sandra, ele não é homem pra você. Ele não te merece. Ele dormiu com a Mikaela aos olhos de toda aldeia ontem.

Sandra começa a chorar.

-Não chore Sandra. Você tem a mim. Eu te amo mais que tudo. Fica comigo. -Disse Dimitri num rompante.

Sandra estava confusa. Dimitri tentou beijá-la. Sandra o empurrou. Mas ele era forte e agarrou Sandra pela nuca, empurrando-a contra ele. Alexander subjugou Sandra, tentando um beijo à força, agressivo.

Sandra se desesperou. Ela se debateu como pôde, tentando impedir Dimitri. Mas ele era mais forte.

Nisso, Alexander surgiu correndo. Saltou sobre Dimitri e caíram os três na lama. Sandra rastejou para longe dos dois homens que se engalfinharam em uma luta feroz.

Dimitri socava Alexander. Alexander pegou uma pedra e acertou a cabeça de Dimitri que começou a sangrar. Os dois trocavam socos e pontapés na lama.

De longe, no meio das plantas, Mikaela assistia a tudo. Ela percebeu que Dimitri colocava o plano dela em risco. Correu de volta para a cabana, onde estava a tia. Mikaela explicou a cena que presenciou na floresta. Após pensar brevemente, a decrépita velha Zatanna surgiu com a solução. Zatanna disse a Mikaela que ela devia correr para chamar Zaid e os homens do conselho.

Orientada pela velha tia bruxa, Mikaela sujou o vestido de lama e rasgou a alça do vestido, expondo uma parte do seio. Correu na direção da casa de Zaid.

Zaid dormia pesado quando Mikaela entrou na cabana aos gritos. O grande cigano assustou-se.

-O que é isso? – Perguntou Zaid assustado. Olhou para Mikaela e perguntou – O que aconteceu?

-Zaid, fui atacada. O sobrinho de Ephraim está fora de si. Está atacando as mulheres da aldeia. Ele tentou me… Interrompeu dramaticamente sua atuação, chorando.

Calma, criança. Fique aqui com Petra. Deixe que eu cuido disso.
MIkaela reuniu forças e gritou quanto o chefe cigano saía afobado pela cabana afora.

- Zaid, meu senhor. Sua filha. Agora ele está tentando agarrar sua filha. Lá perto da mina!

Zaid disparou de volta para o interior da cabana um piscar de olhos. Pegou o facão, colocou no cinto e saiu correndo para juntar os homens da aldeia.

Enquanto isso, perto da mina os dois primos se esmurravam. Dimitri era muito mais forte que Alexander. Agarrou o primo e ergueu no ar.

Sandra gritou:

-Nãããão! – Correu para tentar impedir, mas Dimitri lançou Alexander contra o tronco de uma árvore.

-Toma isso desgraçado!-Gritou Dimitri.

Alexander atingiu o tronco em cheio e caiu desmaiado de cara na lama. Dimitri então empurrou Sandra que caiu e bateu a cabeça. Ele ouviu o som de galhos estalando na floresta. Vendo os dois caídos no chão, em meio a uma poça de sangue e lama, resolveu fugir. Dimitri correu para o meio da mata, sumindo entre as árvores.

Em seguida, surgiu Zatanna. Ela viu os dois caídos. Rapidamente percebeu que ambos respiravam. Zatanna Pegou um chifre que trazia na cintura e encheu com a água da mina. Retirou um frasco de cristal do vestido e derramou duas gotas de um líquido preto na água.

Ela levantou Sandra, que estava atordoada.

-Tome, querida. Já passou, já passou. Beba. Isso. Beba tudo.

Sandra bebeu o líquido e fez uma cara feia. Tinha gosto ruim. Olhou na cara da velha. Imediatamente Sandra começou a empalidecer e revirou os olhos. Caiu pesadamente para trás, afundando na lama.

Zatanna olhou Sandra caindo na lama e sorriu.

Subitamente a velha levou um soco na cara. Alexander havia levantado. Ele agarrou a velha do chçao e começou a sacudi-la pelo pescoço.

-Fale bruxa maldita. O que foi isso que você deu pra ela beber? Fale.

-Me larga, por favor. Me larga. -Era só o que a velha bruxa dizia.

Nisso, ciganos surgiram de todos os cantos da floresta. Todos armados com facas e punhais.

-Que está acontecendo aqui? – Gritou Zaid.

-Alexander soltou Zatanna, que caiu na lama.

-Desgraçado. -Gritou a velha.

Zaid olhou Sandra caída na lama e correu na direção dela.

-Ah, não. Não. Não! – Ele gritou quando viu que Sandra estava morta.

-Meu chefe, foi ele. Ele! – Gritava a bruxa ensandecida.

Alexander tentou dizer que havia sido a velha, mas pouco adiantou. Todos acreditam que Alexander tentou estuprar Sandra.

A velha disse que ele estava tentando agarrar Sandra mas que ela gritou, tentando impedir.

Zatanna sentou-se numa pedra e contou a Zaid e os outros que ela estava na floresta colhendo cogumelos quando ouviu os gritos. Tentou ajudar a jovem, mas não foi rápida o suficiente. Quando chegou no poço, Sandra já estava sendo molestada pelo jovem Alexander. Quando este percebeu que a velha havia testemunhado o crime, quebrou o pescoço da pobre moça e partiu pra cima de Zatanna.

-Por sorte, vocês chegaram bem na hora em que ele ia me matar. – Disse a velha trêmula.

Alexander tinha ímpetos de estrangular aquela desgraçada. Nunca havia visto tanta mentira. Se ao menos Sandra estivesse viva para testemunhar…

Os homens bateram em Alexander e o levaram amarrado e desacordado para o centro da aldeia.

Quando Alexander acordou, estava fortemente amarrado a um tronco. Um homem do clã de Zaid tomava conta dele.

-Me solte… Por favor. – Balbuciou Alexander, sentindo o gosto metálico do sangue na boca.

-Cala a boca moleque. Você vai pagar pela morte de Sandra, maldito. Se não fosse o critério de Zaid matar você, eu juro que eu mesmo o faria com este punhal aqui. – Disse o cigano bigodudo mostrando uma lâmina fina para Alexander.

-O que vão fazer comigo?

-Não sei. Mas acho que vão te enforcar amanhã de manhã.

-Onde está Sandra? -Questionou ele sem parar para pensar na iminência da própria morte.

-Não sei. Me colocaram, aqui pra te vigiar. Acho que vão cremar ela.

-Olha, é tudo uma armação. Você tem que acreditar em mim. A velha deu uma bebida para Sandra. Ela bebeu e caiu. Sandra foi envenenada pela velha. Eu estava justamente fazendo a velha contar o que tinha dado para Sandra quando vocês chegaram e entenderam tudo errado.

O cigano bigodudo ficou parado. Olhando fixamente nos olhos de Alexander. Parecia estar acreditando. Alexander continuou:

-Veja, por que motivo eu iria atacar a filha do chefe do seu clã? Se eu quisesse mulher poderia me casar, estou prometido a Mikaela, sobrinha da velha. Ela fez isso porque sabe que eu gosto de Sandra e ela gosta de mim.

-Gostava… – O bigodudo interrompeu.

-Gostava. -Disse Alexander, parando por uns minutos. Uma lágrima desceu pelo canto de seu olho e com as mãos amarradas atrás do tronco ele não pode conter a mesma, que desceu rolando pelo seu rosto e pescoço.

-Olha garoto. Eu não quero saber se você é culpado ou não. Estou fazendo o que mandaram. Te vigiar. Quem vai decidir se você tem culpa ou não tem, se vai ter vingança e como vai ser sua execução é o Zaid.

-Chame o Zaid pra mim, por favor. – Implorou Alexander.

O cigano bigodudo apenas riu. Virou-se e voltou a olhar para o céu, como se nada tivesse acontecido.

Alexander perdeu as esperanças.

Enquanto isso, na cabana de Zaid, uma visita inesperada surge. É Dimitri. Ele está de banho tomado, vestindo sua melhor roupa. Foi ter com Zaid em particular.

Zaid estava mal. A morte de Sandra havia mexido muito com ele. Petra, a mãe, estava inconsolável. Sandra estava deitada na cama de peles. As irmãs preparavam-na para o funeral.

-O que te traz aqui? – Perguntou Zaid com uma voz que mal se aproximava do vozeirão típico do guerreiro que era.

-Caro senhor. Vim humildemente pedir a mão de sua filha em casamento. – Disse, Dimitri em Romani, como manda a tradição para momentos solenes.

-O que? Qual delas? Elas nem tem quinze anos ainda!

-Não, não, meu senhor. Eu gostaria de desposar sua filha Sandra.- Disse Dimitri apontando na direção da parte da tenda em que estavam as mulheres com o corpo de Sandra.

(Continua. A história termina amanhã. Não perca)

Tragédia Cigana – Parte 3

( Continuação da parte 2)

Ali, atrás da grande carroça estava uma gaiola de ferro. Ela era feita com barras grossas e parecia uma gaiola de passarinho, porém, gigante. No interior daquela coisa, havia uma criatura. Os olhos esbugalhados de pavor. A boca entreaberta revelava uma língua grande e escura. Os poucos dentes que restavam naquela boca eram amarelos.

Alexander sentiu o cheiro de fezes e podridão.

Pedaços de ossos se espalhavam no chão da gaiola.

-O que é isso, velho? Que abominação é esta?-Perguntou Alexander assustado.

-Este é o futuro marido de Sandra.

-O quê? Como? -Tudo parecia rodar. Aquelas palavras atingiram seu peito como lâminas em brasa.

-É triste, mas é verdade. Este é Alifi, Alexander.

-Alifi?

-Sim, Alifi é louco desde os dez anos de idade. Quando nasceram, Sandra e Alifi foram prometidos um ao outro. Porém, aos dez anos, não se sabe como, ele ficou assim. Agora come carne crua e vive nu nesta jaula.

-Mas não é justo. -Retrucou Alexander.

-É a nossa lei. Console-se. A sua Mikaela pelo menos é normal e muito bonita também, menino.

-Não. Não pode ser. -Alexander saiu desnorteado. Andou pela floresta até achar uma rocha. Sentou-se ali e ficou a pensar nas armadilhas do destino.

Enquanto isso, na colônia cigana, Sandra era acordada pela mãe.

A moça ajudou as irmãs menores a tirar o leite das vacas. Durante todo o tempo, só pensava em Alexander. Aquele era o rapaz de seus sonhos.

Sandra carregava o balde com leite pelo acampamento quando Dimitri apareceu.

-Deixa, eu levo pra você.-Falou todo galanteador.

-Obrigada. Está mesmo pesado. -Disse a moça.

-Escuta. Eu vi sua dança ontem. Não preguei meus olhos pensando em você.

-Mesmo? – Perguntou Sandra, sentindo-se lisonjeada.

-Sim. Posso perguntar uma coisa?

-Claro.

-Aquela rosa. Você jogou pra mim, não foi?

-Hã? …Não!

-Não precisa ter vergonha, Sandra. Eu sei que foi pra mim. Caiu aos pés do meu primo, aquele menino. Mas eu sei. Eu vi seus olhares para mim.

-Desculpe, acho que você se enganou. Eu joguei a rosa para seu primo.

-Pro Alexander? Aquele idiota? Ah. Conta outra. Até parece.

-Pois foi.

-Ah, querida. Perca as esperanças. Alexander vai casar.

-Hã? Como? – Arrepiou-se Sandra.

-Sim, beleza. Ele vai casar com a Mikaela. Aquela lá, ó. -Disse apontando Mikaela que carregava um jarro.

Sandra tentou disfarçar o desgosto da notícia.

-Bem bonita a moça.-Disse ela mordendo os lábios para tentar conter as lágrimas.

-Bonita mesmo. E eles se amam. O amor é lindo, não?

-Sim. Pode me dar o balde, por favor. Obrigado…

-Dimitri.

-Isso. Dimitri. Adeus. – Falou Sandra, não contendo uma lágrima que desceu pelo seu rosto.

Dimtri virou-se e caminhou satisfeito sentindo o sol que descia por entre as árvores. Parou, se espreguiçou e pensou:

“Essa tá no papo!”

Mikaela passou carregando o jarro.

-E aí loura?

-Dimitri… Como vai?

-Tenho uma boa notícia.

-Daquela lacraia? -Perguntou Mikaela colocando o jarro no chão.

-Sim.

-Eu vi vocês dois de papo.

-Ela está interessada no seu homem, Mika.

-Mikaela.

-Que seja…

-Eu sei. Eu vi os dois se olhando ontem. Passei a noite em claro pensando na desgraçada. O Alexander. Você viu como ele olhava pra ela com aquela cara de bobo? Ele nunca olhou assim pra mim.

-Pois bem, Mika. Eles dois estão se enrabichando.

-Eu sei. E o que você tem com isso?

-Calma, lourinha. Eu tenho boas notícias. Eu disse a ela que vocês dois vão casar. Já tirei ela da jogada.

-Ah. Muito obrigada. Agora só falta você convencer o cabeça dura do seu primo a casar comigo. Isso sim eu quero ver, seu bocó.

-Aí é com você, moça. Eu fiz a minha parte. Tô deixando a Sandra livre. Livre pra mim, lógico. -Disse o cigano rindo.

-Aí que você se engana redondamente. -Retrucou Mikaela.

-Do que você tá falando, garota?

-Minha tia falou que ela é comprometida.

-Aquela bruxa? O que a bruxa Zatanna sabe da moça? Vamos diga!

Mikaela sorriu maliciosamente.

-Surpreso Dimitri? Escute só a melhor parte: Ela é prometida de um louco.

-Não pode ser.

-Pois é. Vá até o paredão de pedra lá no fundo. É a carroça grande. Olha atrás dela. Conheça o prometido da sua pretendente. -Disse Mikaela sorrindo da desgraça de Dimitri.

O cigano correu como pode até o fim da clareira. Percorreu o paredão de pedra e chegou ao carroção. Ali estava a gaiola com Alifi. Babando, ele chupava um pedaço de osso enquanto grunhia de modo assustador.

Dimitri nunca tinha visto uma aberração como aquela. O corpo pálido, magro e com um cheiro terrível de morte.

Enquanto isso, em outro canto da floresta, sozinho, Alexander olhava a luz que entrava através da copa das árvores. O silêncio era cortado apenas pelo canto dos pássaros e o som dos insetos.

Alexander pensava em Sandra, em seus olhos, seu corpo e seus cabelos negros. Suas mãos macias e sua voz doce. A impossibilidade de ter aquela mulher para sempre era algo que o machucava profundamente.

Ele voltou para a aldeia resoluto a não aceitar aquela situação.

Ao chegar na grande clareira onde os dois grupos estavam acampados, Alexander viu Sandra caminhar cabisbaixa na direção da fonte. Ele correu até ela.

-Oi? -Perguntou Alexander

-Oi. -Disse Sandra secamente.

-O que foi? Está triste? -Perguntou Alexander.

-Nada não. Estou bem. Vou buscar água.

-Posso ir com você?

-Se quiser.-Disse ela, não dando muita atenção a Alexander.

Os dois andaram lado a lado por alguns minutos em completo silêncio.Em sua mente, Alexander tinha duvidas, idéias, ensaiava frases para dizer à moça. Mas foi Sandra que rompeu o silêncio com uma pergunta.

-Quando será seu casamento?

-Meu o que?

-Seu casamento com aquela menina loura. -Falou com indisfarsável ressentimento.

-Mikaela?

-Sim.

-Nunca.

-Nunca?

-É, eles querem que eu me case com ela desde pequeno. Mas eu não gosto dela, nunca gostei, nunca vou gostar. Eu não quero me casar com ela. Nada vai me obrigar a fazer isso. Meu coração pertence a outra mulher.

-Verdade? -Disse Sandra surpresa.

-Sim. Totalmente.

-E quem é esta felizarda? – Perguntou Sandra esboçando um sorriso.

-Você conhece bem. -Disse Alexander pegando na mão dela.

Os dois se beijaram longamente. Subitamente, Sandra afasta Alexander.

-Eu… Eu não posso. -Disse Sandra com olhar triste.

-Mas você não sente nada por mim?-Alexander abraçou a moça.

-Sim. Eu senti e sinto uma chama que queima em meu peito toda vez que te vejo e você não sai dos meus pensamentos desde que nos vimos pela primeira vez.

-Então? Se nós desejamos, por que não podemos nos casar? -Perguntou Alexander, enchendo o balde com água na nascente.

-Eu sou prometida…- Disse Sandra.

-Eu sei. Ephraim me contou. Nós vimos o infeliz naquela… Gaiola.

Sandra sentou-se numa pedra e começou a chorar.

-Calma Sandra.

-Como assim calma? Você viu Alifi. Você acha justo que eu me case com ele daquele jeito? Eu não o amo. Eu ficarei solteira para sempre.

-Eu falarei com seu pai hoje à noite. Pedirei a sua mão em casamento. -Disse Alexander de uma só vez.

Os olhos verdes de Sandra brilharam.

-Você teria coragem?

-Sim. Por você eu faço tudo. Nada me impedirá de viver ao seu lado, minha querida.

Os dois se beijaram novamente e voltaram com a água para a aldeia.

Quando se aproximavam, separaram-se e Sandra levou a água para a carroça. Alexander foi para o barracão onde alguns homens forjavam lâminas de grande precisão.

Ele ficou ajudando os homens, mas não tirava Sandra dos pensamentos. Mentalmente, ele repassou tudo que gostaria de dizer ao pai da moça, no pedido de casamento. Naquela noite ele escolheria o melhor momento, e então faria o pedido.

Quando faltava pouco para o início dos preparativos, uma enorme nuvem cobriu o acampamento e uma chuva torrencial irrompeu, com clarões de relâmpagos e trovões estourando no céu. Isso atrapalhou os planos de Alexander, de se aproximar de Zaid durante a festa. Ephraim informou a todos que estava transferindo a festa para a noite seguinte, caso a chuva desse trégua.

Naquela noite, o jovem ficou deitado em sua cama de pele, olhando para o teto da cabana. Ficava ali, com os olhos abertos no escuro, pensando e repensando no pedido de casamento, em ser feliz com Sandra e nada mais. Até que dormiu um sono inquieto. Acordou diversas vezes, sem conseguir relaxar. Os pensamentos ecoavam em sua cabeça. Quando já começava a amanhecer o dia, ele finalmente relaxou e dormiu mais profundamente.

Alexander foi acordado por um grito de pavor. Vestiu o mais rápido que pode suas roupas e saiu do lado de fora. Era uma grande confusão, em meio a lama com as pessoas que corriam por todos os lados.

- O que aconteceu? -Perguntou ele a um jovem que passava correndo.

-Mataram alguém.

-O que? Onde?

-Lá atrás, perto do paredão! – Gritou o jovem apontando, aos berros, enquanto entremeava-se em meio a multidão.

Alexander correu até o local, que já estava cheio de ciganos. Algumas mulheres choravam. Homens tentavam tampar a vista das crianças da cena horrenda.

Ali estava Alifi, morto em meio a uma poça de sangue. A cabeça, separada do corpo, estava de lado, com os olhos arregalados e a língua enorme pendendo da boca.

Zaid chegou ao local do crime e ordenou que todos voltassem para suas barracas. Ele reuniu-se com os anciões do grupo para tomar as providências. Cremaram os restos mortais de Alifi.

Zaid escutou atentamente as opiniões e suspeitas e cada um dos velhos membros daqueles clãs. Havia um assassino entre eles, e isso era inadmissível.

Durante o almoço não se falava em outra coisa senão o crime bárbaro contra o doente mental. Em todas as cabanas os ciganos especulavam quem teria feito aquilo e porque. Enquanto quase todos comiam, na cabana de Zaid, o chefe cigano tinha uma conversa franca com Sandra:

-É verdade. -Disse Zaid à Sandra.

-Quer dizer que estou livre? Livre? – Perguntou Sandra, com o mais belo sorriso que jamais estampou em seu rosto até então.

-Sim, minha filha. Com a triste morte de Alifi, agora você está oficialmente livre para o casamento.

-Pai, eu gostaria de me casar com…

-Já? Mas nem o seu prometido morreu e já pensas num novo?

-Sim, meu pai. Ele irá falar com o senhor na festa, esta noite.

-E quem é o homem corajoso que tentará tomar a minha filha? -Perguntou Zaid, afiando um punhal.

-Alexander.

-O órfão? Aquele criado pelo velho Epharim?

-Sim, pai.

-Eu não gosto desse. Arrume outro.

-Mas pai… – A expressão de liberdade lentamente se desvaneceu do rosto da jovem Sandra.

-Nada de conversa. Eu não quero este homem desposando filha minha. Não vou com a cara do garoto.Além do mais…

-O que? – Perguntou Sandra com os olhos marejados de lágrimas.

-Nada, nada. Esqueça. -Disse Zaid trocando um olhar silencioso com a mãe de Sandra.

-Fala pai! – Disse Sandra levantando-se.

-Eu já disse. Não é nada. Apenas não quero você com ele. Existem muitos outros jovens mancebos disponíveis, Sandra. Escolha qualquer um…

-Eu já fiz minha escolha, meu pai. -Disse Sandra não conseguindo mais conter as lágrimas. Ela saiu da cabana e correu para a floresta aos prantos.

Zaid fogou o punhal contra o grosso pilar da cabana. Olhou nos olhos de Petra.

-Zaid. Por que? -Perguntou Petra.

-Os sonhos. – Disse Zaid.

-Eles tornaram a falar? – Questionou Petra.

-Sim. Falaram antes de encontrarmos o clã de Ephraim.

-E o que eles disseram?

-Que nossa descendência sucumbirá. O resto é confuso. Imagens, eu vi o jovem, vi fogo e morte.

-Não pode ser. -Disse Petra perplexa.

-Sim. É verdade. Os sonhos nunca erraram. Tudo se concretizou. Veja a morte do Alifi. Está tudo acontecendo. Tudo lança nossa filha na direção desse maldito rapaz. Vamos perder nossa filha, Petra.

A mãe de Sandra apenas olhou com tristeza para o líder cigano. Ambos ficaram em silêncio se olhando por um tempo, até que Zaid rompeu o silêncio:

-Temo que quem tenha matado Alifi seja ele.

Petra olhou com os olhos profundamente verdes arregalados.

- Será?

-Temo que sim.

-Pobre Sandra. – Ela disse baixando os olhos.

-Farei tudo para mudar este destino.

-O destino não se muda, meu amor.

-Isso é o que veremos. – Disse Zaid, pegando o punhal da coluna e saindo da cabana.

Enquanto isso, na floresta, próximo a um riacho, Dimitri lava uma faca coberta de sangue. Ele olha ao redor, com apreensão. Após eliminar os vestígios do sangue, Dimitri guarda a faca e inicia a volta para o acampamento. Nessa hora surgiu Mikaela na frente dele. Dimitri se assusta e quase dá um grito de pavor quando ela salta de uma árvore.

-Maldita seja! Mikaela, quer me matar?

-Assustando-se atôa, Dimitri? Tá com medo de que?

-Eu? Nada.

-Nada é? E por acaso esse sangue aí na sua manga não é do retardado mental não?

Dimitri se assusta. Ele olha em busca do sangue. Não há nada.

-Dimitri, seu burro. Caiu hein? – Riu Mikaela. – Viu como é fácil descobrir as coisas quando um bocó como você tenta escondê-las?

-Maldita. Eu te mato. Se você abrir a boca…

-Queito, Dimitri. Este é nosso segredo. Conte comigo. Conte com meu silêncio.

-Para sua sorte, espero que possa contar.

-Adeus, bocó. – Disse Mikaela sorrindo e adentrando a floresta.

-Onde vai loura? – Perguntou Dimitri.

-Buscar ervas. Minha avó precisa de umas plantas.

-Nos vemos na festa.

-Até logo. Bocó. – Riu Mikaela sumindo entre as plantas.

Enquanto isso, na cabana dos homens, Alexander estava usando um fole para aquecer as brasas. Ao seu lado homens parrudos desferiam golpes de martelo sobre placas de aço em brasa. Uma criancinha magra entrou na cabana e foi até Alexander. Em seu ouvido ele escutou que Sandra o esperava na borda da clareira.

Alexander saiu em disparada.

Encontrou Sandra olhando para as árvores. Seus olhos vermelhos de tanto chorar.

Sandra contou a Alexander que seu pai não queria que ela se casasse com ele. Levantaram e caminharam juntos pela floresta.

-Eu não vou abrir mão de você, Sandra.

-Nem eu. Não desejo que meu pai impeça nossa união. Mas ele é o líder. E ele disse que não nos abençoa.

-Vamos fugir então.

-Fugir?

-Sim, vamos fugir. Esta noite. Saímos ao anoitecer e viajamos sem parar até um lugar distante, onde dejamos só nós dois. Construirei uma cabana e teremos filhos, criaremos nosso próprio clã. Tenho cavalos, que herdei de meus pais. Posso pegá-los e vamos neles.

-Mas…

-É nossa única chance, meu amor.

Os dois jovens se abraçaram e beijaram-se longamente à sombra das antigas árvores da floresta. Em meio ao mato e formigas, escondida de cócoras sobre uma grossa raiz, estava Mikaela, escutando tudo. Mikaela tinha o ódio no olhar.

Minutos depois, Mikaela estava na cabana da velha Zatanna. Após contar tudo para a velha, Mikaela escutou de Zatanna um plano para impedir a fuga dos dois.

-Só tem um jeito, Mika. -Disse a velha decrépita com seus dedos magros apontados para ela.- Temos que fazer Sandra morrer.

-Matar, tia? – Perguntou Mikaela assustada.

-Não de verdade, Mika. Você sabe aquele cogumelo verde que cresce nas cascas de carvalho?

-Sim, tia.

-Vá na floresta e traca pra mim. Mas cuidado. Lave as mãos depois de pegar neles. São muito venenosos. Mas numa quantidade certa e em mistura com os ingredientes certos, produzirá um estado de morte, sem no entanto ceifar a vida da filha de Zaid. Traga também açafrão e raiz de verbasco. O resto deixe com sua tia. -Disse a velha rindo.

-E então, tia? E depois?- Perguntou Mikaela querendo entender o plano de Zatanna.

-Então nós vamos forjar a morte da filha de Zaid. Pensando ter perdido o amor, ele ficará fragilizado e casará com você.

- Mas tia… Ele é um Cabeça dura. Não vai casar-se comigo nem assim.

-Não casaria se tivesse outra opção, mas ele será acusado de assassinato e de abusar de você. A suspeita já paira sobre ele, que eu posso sentir. Iremos dar a ele o sono mais profundo. Quando ele dormir, nós o levamos para a carroça e você dorme com ele. Se ele não casar, a pena é a morte.

-Nossa! – Sorriu Mikaela. – Eu sei quem pode nos ajudar. O primo dele. Aquele grandão. Ele está louco pela filha de Zaid.

-Vai funcionar, Mika. -Disse a velha. – Agora vá logo buscar os cogumelos. Combine com o primo dele. Eu começarei a fazer o veneno.

Naquela noite uma bela lua cheia iluminou o céu. A fogueira foi montada no meio da clareira rodada pelas cabanas dos dois grupos. Ciganos músicos tocavam belas antigas canções. Crianças brincavam com coelhos.

No centro da roda, ao redor da fogueira, estava Zaid. Do outro lado, sentando em silêncio, alheio a tudo, Alexander buscava com o olhar encontrar Sandra. Mas não via nada.

Quando finalmente encontrou, Viu Zandra vestida num vestido majestosamente vermelho, com os cabelos negros esvoaçantes, e uma rosa vermelha se destacado entre as madeixas. O vestido cobria-lhe um dos ombros e deixava o outro de fora. Ao chegar na festa, Sandra atraiu todos os olhares. Zeroth tocou uma bela musica cigana, e após a reverência, Sandra abriu o vestido vermelho e iniciou um lindo bailado.

Os homens bebiam vinho e todos cantavam. Sandra dançou como nunca, com seus belos olhos verdes a brilhar o fogo da paixão.

Enquanto todos olhavam para Sandra e seu bailado, Mikaela surgiu com uma taça de vinho. Saída diretamente da cabana de Zatanna. Correu de volta com a taça e deixou ao lado de Alexander. A festa transcorreu normalmente, com muita comida, musica e conversas. O fantasma da morte de Alifi já não causava mais tanta preocupação e os homens dançaram animados. No meio da dança, Alexander começou a sentir-se tonto. Pensou ser o vinho. Sentou-se num tronco de árvore para pegar um ar.

As mulheres foram dançar juntas e todas animadas moviam seus quadris ao redor da fogueira. Alexander já não conseguia mais localizar Sandra. Tudo parecia um borrão de cores e luzes. As vozes pareciam vir de muito longe. Ele sentiu o corpo ficar dormente e afundar lentamente no tronco. Alexander caiu para trás, desmaiado.

Do meio da mata, em plena escuridão, surgiu Dimitri. Ele levantou Alexander pelo braço e colocou-o nas costas. Voltou para a mata.

Enquanto isso, Sandra dançava animada com as doutras meninas do clã.Volta e meia ela olhava para Alexander e sorria, mas dessa vez, ele não estava mais sentado no tronco. Sandra pensou que ele tivesse saído para buscar mais vinho e distraiu-se com as conversas comidas e musicas.

A festa já começava a acabar quando Sandra se deu conta que desde a dança das meninas não havia mais encontrado Alexander. Ela levantou-se e começou a procurar.

De uma carcomida cadeira de madeira escura, a velha Zatanna observou Sandra mover-se de um lado para outro da festa, procurando e perguntando se alguém havia visto Alexander. Zatanna sabia que naquela altura, Mikaela já estava deitada com ele, nua, sob as peles.

Já era tarde. Os homens retiraram-se, bêbados, para suas cabanas. Alguns cambaleavam sozinhos. Outros eram ajudados por suas mulheres e filhos.

Só restou Sandra, a andar como um fantasma pelo centro da aldeia. Olhando em todos os cantos em busca de Alexander. A velha Zatanna veio na direção de Sandra.

-Filha, viu a Mikaela?

-Não senhora.

-Não é a Mikaela que está procurando aqui no escuro? – Perguntou Zatanna.

-Não… Não. Quer dizer… Ela sumiu? – Perguntou Sandra.

-Sim. Desde a dança das meninas que não a vejo. Ela estava conversando com o menino do Ephraim mas aí… pluft.

-Ah. – Disse Sandra, engolindo uma estranha sensação de desgosto.

-Sabe como são esses jovens, né minha filha. O vinho, a musica… Daqui a nove meses ela pare um bacuri. -Disse a velha rindo com a meia dúzia de dentes.

Sandra não consegua nem falar. Apenas acenou com a cabeça. A velha deulhe às costas e saiu.

Sandra correu até a cabana de Ephraim para ver o leito de Alexander vazio.

A cinaga então correu até a cabana de Mikaela, para descobri-la vazia.

-Estão juntos. -Ela disse baixinho.

Sandra então correu até as carroças. Olhou uma a uma até encontrar, na carroça de Alexander, os dois, dormindo abraçados e nus entre as peles.

(Continua amanhã)

Cachorro sobrevive após comer cem pregos de uma só vez

Todo mundo que tem ou teve cachorro sabe como eles são capazes de comer qualquer coisa. Sobretudo se é importante.
Mas alguns vão longe demais. Veja por exemplo este cão, um Basset hound de três anos, que comeu de uma só vez 100 pregos, e sobreviveu. Ele precisou ser operado e o veterinário levou mais de uma hora para conseguir tirar cada um dos cem espetos que ele engoliu. Alguns pregos chegaram ao intestino do animal. Felizmente os pregos não perfuraram nenhum órgão e o basset já está pronta para outra.

Via Associated Press
(viu que bizarro aquela poltrona em forma de sapato?)
Eu já havia comentado sobre cães que comem de tudo aqui em outro post, que inclusive, me rendeu um Xbox. Confira.

Meteoro caindo é flagrado por câmera de segurança

Nossa que legal este video, mas deve ter dado um cagaço em quem viu isso ao vivo, hein? Parece até cena de “Day After”.

A cena se deu na África do Sul.

Tragédia cigana – Parte 2

(Continuação da parte 1)

Foi quando uma mão forte agarrou seu braço. Alexander olhou para cima. Era Dimitri, o primo dele.

-Chega de descanso, seu maluco! – Brincou Dimitri, içando Alexander para cima da rocha.

-Ah, bem agora que eu tava quase pegando no sono, você aparece! – Fingiu reclamar Alexander.

Os dois sorriram e sentaram-se na beira do penhasco.

Alexander ficou em silêncio olhando o vazio.

-Quase morri.

-Sua sorte é que o cavalo voltou correndo. Quando o velho viu o cavalo vazio percebeu que algo havia acontecido e me mandou ir atrás. Eu vi a marca de sangue na árvore e segui os rastros até aqui.-Disse Dimitri. – Agora vamos embora. Temos que cortar muita lenha. Está quase escuro.

-Você está louco. Olha só pra mim. Estou um lixo!

-Para de reclamar, seu chato. Ou te faço voltar andando até as carroças.

Alexander concordou com a cabeça. Os dois ciganos continuaram a subir o terreno íngreme, cheio de pedras e limo em direção à trilha, lá em cima. Subiam em silêncio, agarrando-se em galhos, raízes e árvores. Quando finalmente alcançaram a trilha, Alexander virou-se para o primo.

-Dimitri?

-Fala matraca.

-Obrigado. – Disse ele abraçando o primo.

-Sai pra lá, rapaz. Deixa de frescuragem. Sobe aí no  pangaré e vamos embora.

Os dois subiram no cavalo e iniciaram uma marcha lenta pela floresta de volta ao acampamento.

No caminho, Alexander lembrava-se de seu primo. Dimitri era um cara estranho. Em alguns dias ele era super interessante e atencioso. Mas do nada o tempo virava e Dimitri tornava-se cruel. Dimitri também era órfão. Sua história nunca foi claramente explicada. Tudo que eles sabiam era que Dimitri foi encontrado enrolado numa manta numa estrada. Quando os ciganos o encontraram, ele estava roxo e prestes a morrer de frio.

Crescer sabendo daquela rejeição nunca fez bem pra ele. Gradualmente Dimitri se desenvolveu e passou a se engajar nos trabalhos mais árduos dentro do grupo. Ferrava cavalos, cortava lenha, carregava pedras. Ele era um homem grande e forte. Massa bruta. Sentado atrás do primo, Alexander pode ver as marcas das cicatrizes no pescoço de Dimitri.

-Nossa, Dimitri. cCmo está o pescoço? Cicatrizes feias, hein?

-Tô bem. – Disse lacônico o Cigano.

Alexander sabia que aquelas cicatrizes haviam sido produzidas por uma luta feroz com lobos. Dimitri era meio selvagem. Ele passava pouco tempo com os ciganos, pois diversas vezes dormia sozinho na floresta. Era um caçador. Não raro ele trazia a comida. Porcos do mato, javalis, filhotes de lobo, cobras, veados, tudo que tivesse pelo e se mexesse, ele era capaz de matar. Rastreador nato, Dimitri perseguia sem piedade os animais durante dias até vencê-los pelo cansaço e pelos golpes de punhal. Dessas caçadas restavam grandes e profundas feridas. Cortes e cicatrizes que gradualmente desfiguraram bastante o grande cigano. Ele tinha pelo menos três cortes fundos no rosto, que tornaram-se marcas que o deixaram meio feio. Sua aparência com as cicatrizes era mais ameaçadora do que de fato ele era como pessoa.  Exímio lutador, Dimitri já havia tirado a vida de pelo menos quatro em combate.

A maioria não-ciganos. Quando a caravana passava pelos vilarejos, não raro eles eram atacados brutalmente pelos asseclas de senhores feudais. Numa dessas vezes, Dimitri revidou. Acabou matando dois homens. Os outros dois, Alexander só sabia de ouvir falar, mas nunca tivera coragem de perguntar ao “primo.” A relação de parentesco dos dois  era afetiva apenas, já que Dimitri acabou sendo criado pelo Velho Ephraim. Cresceram de certa forma como irmãos, embora Dimitri sempre tivesse nutrido algum ressentimento por Ephraim dar mais atenção ao pequeno, como chamou durante anos Alexander. Quatro anos mais velho que Alexander, e dez vezes mais forte e desenvolvido, o grande cigano tinha um temperamento extremamente instável.

No cavalo, aos trancos e barrancos, voltaram até o grupo. Quando chegaram lá, já estava tudo escuro.

Ephraim veio correndo.

-Olha só pra você Alexander! O que aconteceu?

Depois de explicar tudo e espantar seus amigos, Alexander teve as feridas limpas com uma solução de água e ervas. Minutos depois os homens partiram para a área do acampamento e iluminando a escuridão com tochas e archotes, começaram a desferir machadadas para abrir a clareira do acampamento. As toras foram empilhadas num canto e dali a poucas horas as carroças chegaram na clareira. Uma grande fogueira central foi construída e um grande número de tochas acesas. O acampamento foi montado.

Ephraim reuniu o povo e conclamou a todos a comemorar a vida de Alexander. O povo cigano saudou a idéia e os preparativos de uma festa se iniciaram.

As mulheres começaram a preparar a comida. Alguns homens pegaram seus instrumentos musicais. Outros montavam bancos improvisados com troncos de árvores ao redor da fogueira.

Enquanto algumas mulheres dançavam, crianças brincavam e velhos confabulavam, a maioria dos ciganos estavam reunidos ao redor da fogueira, conversando e comendo. Ao fundo, na preparação das comidas, estava Mikaela. Ela olhava fixamente para Alexander, que evitava seus olharas ao máximo que podia.

Eles escutaram um barulho de trotes.

Os ciganos lançaram olhares uns para os outros. Rapidamente os homens se uniram na entrada da clareira. Os mais fortes guerreiros sacaram seus punhais e as mulheres correram com as crianças para dentro das carroças.

Surgiun na  escuridão um cavalo preto com um homem em cima. Ele vinha com uma tocha. Ninguém conseguiu distinguir direito o que ou quem era. O homem viu o acampamento cigano e manobrou o cavalo de volta para o interior da mata.

Os ciganos estavam preparados para este tipo de coisa. Não raro eram atacados durante as noites. Tidos como feiticeiris e ameaças, eles eram acusados de coisas tão irreais como talhar o leite e sequestrar crianças para fazer sabão, quanto de coisas reais, como roubar vegetais de plantações e vender produtos de segunda mão de origens obscuras.

Os ciganos ficaram esperando que algo acontecesse. Depois de alguns minutos, mais cavalos puderam ser ouvidos. Foi quando surgiu por entre a trilha uma grande carroça. Era a primeira de um comboio de outro grupo cigano.

Ephraim olhou para Alexander o seu lado.

-Calma. Era um batedor. -Disse o velho.

A porta da carroça se abriu e um enorme homem de barba surgiu.

Ephraim correu para cumprimentar o homem grande e forte, de cabelos brancos compridos, amarrados em um rabo de cavalo que já descia da carroça. O homem aparentava uns cinqüenta anos de idade. Talvez um pouco mais.

-Zaid! – Gritou Ephraim iluminado por uma tocha.

-Ephraim! – Falou Zaid, abrindo os braços para o velho cigano.

Os dois se abraçaram.

-Ung! Minhas costas. – Gemeu Ephraim. – Não sou mais o mesmo. Estou velho.

-Pra mim você ainda parece forte, Ephraim. Como estão as coisas? Quanto tempo faz? Dez anos?

-Vinte e dois.

-Nossa. Muito tempo…

-Sim, sim, meu amigo. Venha, junte-se a nós. Vamos comemorar nosso encontro.

Ephraim pediu que alguns homens fortes pegassem os machados e abrissem mais espaço, derrubando pequenas árvores. Os homens de Zaid também empunharam machados e em pouco tempo, uma grande área circular foi aberta no meio da floresta, ao sopé da montanha.

Enquanto a maioria das pessoas dos dois grupos de ciganos se cumprimentavam ao redor da fogueira, alguns homens rearrumavam a disposição das carroças, formando um único círculo, onde a fogueira fazia de praça central.

Alexander foi apresentado a Zaid, líder do grupo e sua esposa, Petra. Ela estranhou os ferimentos do rapaz. Ephraim explicou a eles a perigosa aventura que o jovem cigano havia se metido poucas horas antes e todos se espantaram com sua força e coragem.

Os ciganos se sentaram ao redor da grande fogueira e juntaram os alimentos para uma grande celebração.

Zeroth tocou musica e todos conversavam animadamente. Algumas meninas pequenas dançavam ao redor do fogo.

Foi quando Alexander viu surgir da escuridão a mulher mais linda que já havia testemunhado. Era uma morena de cabelos muito negros, alta com olhos profundamente verdes, que trajava um vestido colorido e no cabelo uma rosa vermelha. Seu olhar era penetrante e Alexander sentiu suas tripas dando um nó quando as duas esmeraldas brilhantes cruzaram seu olhar.

tragediacigana2 Tragédia cigana   Parte 2

Os olhares se encontraram e foi como uma faísca imediata que se acendeu na alma de ambos. Petra chegou perto da moça e apresentou ao rapaz:

-Alexander, esta é Sandra, minha filha.

Alexander ficou alguns segundos sem fala. A moça percebeu e sorriu. O rapaz ficou vermelho de vergonha.

-Oi, como vai?

-Tudo bem. Eu sou Sandra. Muito prazer.

-Sinta-se em casa. -Disse ele meio sem jeito, apontando um local para que as duas sentassem.

Durante aquela noite, Alexander não conseguiu desviar os olhos daquela mulher. Seu corpo era lindo, perfeito, seu olhar trazia algo de calor, era um olhar sedutor, mas com alguma inocência quase infantil.

Ao fundo, comendo um pedaço de frango, estava Mikaela, agora tomada por um ódio avassalador.

O velho Ephraim conversava animadamente com Zaid, contando casos do passado, do tempo em que os pais de Alexander eram vivos. Alexander estava hipnotizado olhando para Sandra, que conversava com as outras moças do grupo.  Volta e meia ela olhava rapidamente para Alexander e disfarçava.

Dimitri, sentou-se ao lado dele.

- Dia difícil, hein? -Disse ele, puxando conversa.

-Pois é. Devo minha vida a você, primo.

-Ah, para com esta palhaçada. Não fiz mais que minha obrigação. Agora tome. Beba! – Disse ele enchendo uma taça de vinho e entregando a Alexander.

Zeroth tocou uma musica linda no violino e todos aplaudiam no ritmo da musica. Petra, a mulher do líder do grupo sinalizou com as mãos para Sandra.

-Dance, criança. Dance!

Sandra saltou por cima do tronco e iniciou sua dança. O povo cigano cantou alegremente as musicas tradicionais enquanto Sandra bailava divinamente. Ela dançava olhando de um modo sedutor para Alexander.  Ao lado dele, Dimitri estava estupefato. Olhava com cara de bobo vendo aquela deusa que se materializava na luz bruxuleante do fogo. Sandra girava o corpo no ritmo da dança. Movia-se felina, mágica e sorridente. O corpo dançando sem parar. O povo aplaudia e gritava seu nome.

A dança contagiante de Sandra afetava principalmente Alexander, que sentia uma tontura, um certo delírio. Imaginava-se com aquela mulher para sempre. Não sabia como conseguira viver sem ela ao seu lado até aquele dia.

Os cabelos balançavam no ar de maneira que ela parecia mais um anjo, uma coisa de outro mundo. Seu corpo bailava num movimento de intensa sensualidade, mas seu rosto sorria a inocência e pureza de uma menina. Sandra girou à beira do fogo segurando o vestido e num movimento de corpo tirou a rosa do cabelo e jogou aos pés de Alexander.

Minutos depois, quando a dança havia terminado e muitas pessoas já estavam se recolhendo para as cabanas, Alexander tomou coragem e foi falar com Sandra.

-Muito bonito seu jeito de dançar. -Disse ele envergonhado.

-Obrigada. -Falou ela sorrindo.

-Você deixou cair a sua rosa. – Alexander tirou a rosa do cinto e prendeu-a de volta nos cabelos da morena.

-Foi um presente pra você. -Disse ela, tirando a rosa e devolvendo a Alexander. O rapaz ficou ainda mais encabulado.

-Você, você… É maravilhosa, eu, eu… -Alexander sentia que era o momento certo de se declarar a Sandra. Ele se aproximou e sentiu que era o momento de beijá-la.  Mas foi surpreendido.

-Vem Sandra, vamos dormir. – Falou Zaid. O cigano passou ao lado dos dois e carregou a filha para a barraca.

-Mas pai! -Reclamou a moça.

-Boa noite Alexander. -Gritou Zaid.

Alexander caminhou como se flutuasse. Voltou para a cabana do velho Ephraim em delírio. Tinha vontade de enlouquecer e se entregar a aquela mulher misteriosa.

Naquela noite, Alexander não dormiu. Ficou pensando na moça. Às vezes pensava na situação do rochedo, quando seu corpo balançou para a morte, mas logo esquecia daquilo e voltava a pensar em Sandra. Sua dança mágica. Seu corpo perfeito. O beijo que ele não deu.

Quando o dia amanheceu, Alexander acordou e viu o velho Ephraim olhando pra ele com aquele sorriso cínico.

-Gamou hein? -Riu o velho.

-Hein? Do que está falando?

-Você falou o nome dela várias vezes essa noite.

-Nome? Que nome? – Ele sabia, mas tentou em vão disfarçar.

-Sandra, ora! Na Mikaela que é bom, o senhor não fala dormindo né?

-Só se for em pesadelos. -Disse Alexander.

-Menino, presta atenção. Você está destinado à Mikaela. Não tente mudar o destino. Ele está traçado. Aceite.

-Não! Isso não é justo. Eu não quero. Eu não amo Mikaela.

-Ah, garoto. Você não sabe nada da vida. Você pensa que a Sandra é livre?

-Hã?

-Não, não é. Ela é… Bem, digamos… Quer dizer…

-Fala logo, velho maluco!

-Bom, é melhor ver com seus próprios olhos, garoto. Venha. Vista-se.

Alexander tinha o coração apertado. Levantou-se como um raio da cama. Vestiu-se o mais rápido que pôde e saiu da cabana.

-Vem. É por aqui. – Falou o velho.

Eles foram andando pela lateral do grande acampamento. Passaram diversas carroças e cabanas até chegar nos fundos da enorme clareira. Ali havia uma grande carroça.

-Olha ali atrás. -Falou Ephraim.

Alexander e Ephraim foram se aproximando e ouviram um estranho grunhido.

(Continua amanhã)

Tragédia Cigana – parte 1

Alexander abriu os olhos. Ficou a observar o brilho do sol surgir entre as árvores. Ao seu redor ele podia escutar o som dos gemidos tristes das carroças puxadas pelos cavalos baios.

-Já acordou garoto? -Perguntou Ephraim.

-Já, senhor. Acho que dormi até demais. Quer que eu pegue as rédeas?

-Quero sim. Faz favor. – Disse o velho levantando-se da cocheira com um gemido.

-É a coluna novamente? -Perguntou Alexander.

-Não. É a idade mesmo, menino.  Ela vem e tudo começa a falhar. Sabe, a última vez que passei nesta estrada eu era um jovem como você. Cheio de vida, sonhos e idéias… Agora olhe só pra mim. Um velho. Um velho cigano decrépito.

-Ah, não diga isso, Ephraim. Todos nós sabemos que não há melhor que você nas artes e na música.

Ephraim não estava ouvindo nada. Ele estava preso às lembranças do passado. Tomou um gole de água e sentiu o cheiro da manhã. O cheiro da manhã sempre lhe lembrava Carmen. Enquanto a fila de carroças cruzava a estrada em meio a uma floresta de pinheiros, uma bruma fraca se espalhava pelo ar.

-Ephraim… Ephraim? Ei, velho, estou falando com você!

-Hã? Ah, sim, sim. Estou ouvindo garoto. Estou ouvindo. -Disse o velho sentando na cocheira ao lado de Alexander.

-É mesmo? Então o que foi que eu disse?

-É… Bem. Quer dizer… Ah, você sabe.

-Aposto que estava pensando na minha avó novamente.

-É, menino, acertou. -Disse o velho cuspindo no chão. – É assim quando amamos muito alguém. Mesmo quando a pessoa se vai, uma parte dela fica dentro da gente.Você vai sentir isso quando Mikaela casar com você.-Falou Ephraim dando um soco de leve no braço de Alexander.

-Ah… Vai começar com isso novamente, velho?

Alexander ficava sem graça e completamente vermelho quando o nome daquela menina era citado.

Mikaela cresceu amando Alexander. Desde que os dois eram crianças, estavam predestinados ao casamento, combinado entre o falecido pai de Alexander e Zatanna, a tia de Mikaela. Mas Alexander nunca amou Mikaela. E se culpava por isso. A pressão do grupo para que os dois se casassem era grande. Estavam sempre falando nisso. Alexander mudava de assunto, fugia o quanto podia daquele destino. Mikaela, por sua vez buscava sempre estar à vista de Alexander.

Mikaela era uma menina pequena, loura de olhos profundamente azuis. Era bonita e misteriosa. Desde bem pequena, quando sua mãe morreu no parto, Mikaela foi criada pela tia Zatanna, que era a irmã mais velha de sua mãe.

Zatanna era agora uma velha decrépita. Manca de uma perna com braços tão finos que pareciam gravetos e a voz trêmula que lhe conferia um aspecto assustador. As crianças temiam Zatanna e pensavam que ela era uma bruxa. Ela era um problema recorrente para o grupo de ciganos, pois em cada vilarejo que passavam Zatanna despertava medo e ataques. As pessoas jogavam ovos e tomates nos ciganos, tentando afugentar os “feiticeiros”. Era difícil ser um cigano, pois as pessoas sempre os tratavam mal e a aparência decrépita de Zatanna não colaborava em nada para melhorar a imagem deles. Para dizer a verdade, Zatanna parecia fazer todo o possível para que as pessoas a temessem. Tão logo percebia os olhares de medo, ela encarnava um tipo de comportamento de bruxa, rindo alto com aquela boca sem dentes e os olhos esbugalhados.

Zatanna sempre tratou Mikaela bem, apesar de ser extremamente rígida com as demais crianças. Mikaela podia tudo. Era chamada de pequena ninfa por Zatanna que cuidava da menina como se fosse uma neta. Zatanna tinha um forte amor pela irmã e sofria de um certo sentimento de culpa por não ter sido hábil o suficiente durante o parto, de modo que no fundo, sentia-se responsável por Mikaela ser órfã.  Talvez por isso ela fosse a única criança que a “bruxa” aceitou perto de si ao longo dos anos. Zatanna era versada em quiromancia e rituais.  Ensinou muitos deles a Mikaela, como as consultas ao oráculo e o conhecimento de ervas e pedras.

O velho Ephraim cuspiu no chão, levantou-se e olhou para o céu por alguns instantes.

- Alexander, a noite vem surgindo depressa. Temos que ver algum lugar para pernoitar. Sugiro que você pegue um cavalo e vá até mais adiante em busca de algum lugar. conheço um poucio estas estradas e pelo que me lembro a estrada é estreita por um longo trecho. Acho que teremos que abrior uma clareira ou a noite nos pegará de surpresa.

-Ah. Tudo bem. Deixa comigo. -Disse Alexander subindo num dos cavalos que vinham amarrados na lateral da carroça.

-Ah.. Garoto… -Gritou Eprhaim.

-Diga velho.

-Cuidado, hein?

-Eu volto, velho. Eu volto. -Gritou Alexander, cavalgando um garanhão para dentro da floresta.

Alexander percorreu um bom pedaço com o cavalo. Ele se dava bem com os animais e tinha jeito para batedor desde muito jovem.

Ele sabia que precisava encontrar uma área bem larga para que as dezoito carroças do grupo pudessem se instalar. Cavalgou pela trilha até o sopé da grande montanha, que eles teriam que transpor.  Alexander parava de tempos em tempos para consultar o mapa. Chegou no local indicado e começou a procurar pelo lugar ideal. O segredo do lugar era estar perto o suficiente de uma fonte de água, e não ter árvores muito grossas. Isso porque árvores grandes e grossas não poderiam ser facilmente derrubadas.

Depois de alguns minutos de procura, Alexander conseguiu encontrar o local ideal. Marcou o lugar com dois lenços e retornou para a trilha em direção ao comboio.

Enquanto corria pela estreita trilha que mal dava passagem a uma carroça, Alexander pensava em seus pais. Ele sentia alguma saudade deles, mas havia perdido os pais quando era muito jovem e não conseguia se lembrar do rosto de sua mãe, mas apenas da voz dela.

A luz da tarde diminuía rapidamente, tingindo o céu de tons laranja e fazendo as nuvens cada vez mais escuras num cinza-azulado.

Subitamente, o cavalo pisou numa pedra que se soltou e ele caiu. Alexander capotou por cima do animal, batendo violentamente contra uma árvore. Em seguida girou de lado, e desceu o terreno íngreme rolando.

Ele tentava inutilmente se agarrar aos galhos, troncos e raízes, mas pegava cada vez mais velocidade.

Alexander desceu rolando em direção a uma pedra e numa fração de segundo percebeu que estava destinado á morte certa. Uma imensidão surgiu diante dele. Era um abismo.

Alexander percebeu que estava na pior situação de sua vida e instintivamente fez todo o esforço possível para se agarrar em algo. Agarrou-se finalmente em uma raiz, mas esta arrebentou com o tranco, servindo apenas para reduzir a força de sua queda. Ele enviou com toda força que tinha as mãos no chão em busca de algo que pudesse agarrar. Conseguiu agarrar-se precariamente à beira do penhasco. Olhou para baixo e viu com horror que estava pendurado a mais de oitenta metros de altura. Abaixo dele, o vazio e ao fundo, um desfiladeiro com rochas pontiagudas. Se ele não agüentasse se segurar, a morte seria certa.

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Alexander tentou retomar a segurança buscando alcançar a beira do precipício com uma das pernas, mas era inútil. Todo arranhado e sangrando, ele estava se segurando apenas com os braços. O corpo balançando no espaço.

Alexander começou a gritar por socorro. Mas era inútil. O único ruído que ouvia eram os ecos dos seus próprios gritos e os pássaros da noite começando a cantar. Seus músculos tremiam. Ele só pensava em sobreviver. Gritou o máximo que pôde até começar a se sentir sem forças. Já não podia mais sentir os braços. Ele estava ali fazia vários minutos e nada que lembrasse o trote de cavalos ou algo parecido aconteceu.

Alexander contemplou a real possibilidade de morrer. Olhou novamente para baixo. Uma pequena apedra rolou e caiu. Ele ficou observando a pedra girar no vazio até atingir uma rocha enorme no fundo do buraco e partir-se em vários pedaços. O jovem cigano se arrepiou. Pensou se devia lutar contra o destino ou entregar-se à morte de uma vez. Estava ficando cada vez mais escuro e caso anoitecesse, ele sabia que seria impossível ser encontrado.

Decidiu lutar. Segurou-se com toda a força na beira do penhasco e resolveu tentar novamente um movimento com a perna. Foi quando ouviu um estalo. Aquele era um estalo bem característico. Ele sabia o que significava. A rocha no qual estava apoiado estava começando a se soltar do terreno arenoso.  Se ela se soltasse de uma só vez, o destino dele seriam as rochas ao fundo do desfiladeiro. Alexander decidiu não se mover. Gritou por vários minutos enquanto sentia todas as suas forças lentamente o abandonarem. Começou a sentir uma tontura. Um misto de sono, fraqueza e cansaço. Alexander fechou os olhos e preparou-se para largar a rocha.

(Continua amanhã)

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