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O Fabio Sousa me perguntou cadê os posts de modelagem. Só então eu caí na real de que tinha abandonado esse segmento do Mundo Gump desde o fim da promoção do boneco do John Locke.
Pois bem, aqui está um post de boneco. eu vou colocando os updates a medida em que for terminando as fases, já que não sei quanto tempo vai levar até este ficar pronto. Estou fazendo ele nas poucas - na verdade, ridículamente escassas - horas livres que já estão ocupadas com o livro do Mundo Gump e a finalização de um outro boneco comissionado que eu ainda não posso mostrar.
Eu ia fazer o Forrest no Banquinho, mas por falta de “investidores” para apoiar ($!) a idéia, desisti e resolvi optar por um boneco que propuzesse algum desafio em termos de novas técnicas de produção. Foi quando me ocorreu a idéia do Lobisomem sinistro.
Basicamente, este aqui:

Maneirão, né?
Esta vai ser uma peça única. Não é pensada para ser duplicada. É apenas um boneco para testar idéias e consolidar algumas técnicas novas sobre a construção de bonecos conceituais.
Bom, como sempre, tudo começa com a base. Sem a base, a gente não tem onde fazer a peça, certo? Não dá pra esculpir “no ar”. A escultura é um processo em etapas que começa na escolha do material. Como este boneco em específico é um experimento, eu não estou absolutamente certo do material final, que poderá ser polyclay mesmo ou epoxi. Provavelmente, será uma solução mista.
Então a base eu compro numa loja que vende peças de MDF e caixinhas de artesanato lá no Saara. Fica na rua Senhor dos Passos. Não lembro o número.

Eu compro esta base (que não é muito cara, mas também não é muito barata) e tem que escolher bem. O segredo da escolha da base está em ser leve e clara. Esqueça as bases pesadas e escuras. Elas contém um tipo de seiva de pinho que quando você assa começa a “minar” da peça, gerando um fedor medonho de resina. Se pingar no fogão, meu chapa… Joga ele fora, porque não tem mais jeito.
Bem, como de costume (vide tutoriais do Yoda, do Goblin e do robô) eu perfuro a base em dois pontos escolhidos “no olhômetro”, uma tecnologia altamente desenvolvida aqui por essas nossas bandas.
Após perfurar, eu uso o disco de corte da minha mini-retífica para ligar um buraco ao outro. Isso é bom, pq quando eu passar o arame, ele vai encaixar neste corte, não deixando a base bamba ou em desnível. Em seguida, pego o arame de aço zincado 1,66mm e corto um pedação grande de 1,5m. Enfio uma ponta por baixo da base e a outra ponta no outro buraco, de modo que ambas saiam em cima. Na parte debaixo da base eu pego um discreto porrete (um martelo) e dou umas boas batidas para encaixar o arame certinho no corte que eu fiz.
Depois disso eu uno os arames mais ou menos na altura que acho que dá pra ser a pélvis do boneco. (note que eu não sou muito cientificista na questão da modelagem. Salvo as vezes em que o cliente determina tamanho e etc, eu meço meio de olho e raramente dá errado.) dobro os arames em um pequeno “bololô” (nossa, termo altamente profissional!) para fazer a bacia e dali eu subo com eles entrelaçando para fazer a coluna vertebral.


Uma vez um aluno me perguntou por que eu não uso o método do John Brown de esculpir, colocando um cano e uma estrutura de sustentação por fora da peça, aparafusada na base. A explicação para isso não existe. Eu poderia fazer assim, caso fosse necessário. Porém, aquele trambolho atrás atrapalha um pouco. E pega mal o boneco lá todo fortão, todo ignorante e um solene cano de ferro entrando pelo fiofó dele. Por mais másculo que o boneco seja, não tem como não passar desapercebido aquele canão.
Além do mais, isso é anti-natural, já que se eu estruturo meu boneco de dentro para fora, eu estou seguindo o processo natural de sustentação da peça. Isso implica numa questão básica que é a Física. O boneco está sujeito às leis da gravidade como no mundo real. Se ele não estiver corretamente estruturado, ele despenca. Porém, eu sei que o boneco depois de assado vai ficar ali firme e forte. Já pelo método da estruturação externa, ele pode estar numa pose que provoque uma sobrecarga de peso sobre uma determinada área, que por não saber do efeito da gravidade durante a construção, eu ignoro. Assim, o meu boneco ficará mais sujeito a problemas como quebrar e rachar do que se eu fizer ele já estruturado por dentro. Agoram lógico que é mais fácil. Depende também o material. Se for usar clay, que é um material pesado pra desgraçar, aí não tem muito jeito. Ou você começa a soldar vergalhão de aço ou arruma um santo muito bom pra fazer o “milagre da sustentação” pra você.
Fazer a peça assim, sustentada por “ossos metálicos” me dá muito mais trabalho que apenas enfiar o cano no rabo dele, ligando na coluna, mas para peças médias e pequenas de polyclay (que é ultra-leve) eu acho melhor. É mais uma questão de gosto pessoal.
Bom, feito o esqueleto, o segundo passo é colocar massa epoxi sobre ele para ajudar a firmar e dar volume, já que o durepoxi é mais barato que a polyclay. Outra coisa que eu uso eventualmente para dar volume, reduzir peso e ajudar a assar a peça de dentro pra fora é papel alumínio amassado. Neste caso eu coloquei mais para ter uma idéia dos volumes. Mas depois eu tirei e fiz a estrutura base toda em epoxi mesmo.




Enquanto a peça secava eu me dediquei a trabalhar na parte da cabeça. Para construir este lobisomem, eu resolvi fazer o esqueleto do crânio dele e ir colocando os músculos depois, camada a camada, como numa reconstituição forense. Então o primeiro passo é construir o crânio. Usei referências de fotos de crânios de lobo para me guiar no processo.

Não é importante que fique exatamente -ultra-mega-power igual ao crânio de osso, mas é importante que tenha as formas globais corretas, como a dimensão do fucinho, da maxila, etc.Eu modelei a peça da cabeça rápido e depois comecei a pesquisar - o que eu realmente queria fazer com o lobisomem - um jeito de fazer os dentes o mais realista possível. Ok, dá pra fazer os dentes de massa e pintar eles de branco. Mas algo nisso me incomoda. Não fica realista. O dente tem uma característica de transmissão da luz. Um efeito que o pessoal que mexe com 3d mais profundamente chama de subsurface scattering, que é a capacidade da luz atravessar o objeto. Um dente de massa pintado de branco perde isso e degrada o senso de realismo.
Então, já que eu queria dente realista, eu fui atrás de um jeito de fazer isso. E o melhor jeito de fazer dentes realistas é fazer como fazem os dentistas. Usando material de protético. Eu fui numa dental (dental é o tipo de loja que vende produtos para dentistas trabalharem) e comprei o seguinte: Resina auto- polimerizável nas cores branco dente -62, incolor e rosa gengiva.
Vamos entender o que é a resina auto-polimerizável:

Basicamente é um pó muito fino ( o pó mais fino que eu já vi. Ele é tão fino que se comporta como um líquido. Parece toner.) que é composto de Polímero de metil-metacrilato, ou resina acrílica. O pó é proveniente do “líquido acrílico” que por um processo de polimerização por suspensão se transforma em “pó”.Essa transformação se faz com auxílio de reatores em que é colocado o “líquido acrílico” previamente preparado, e por meio de agitação e calor se polimeriza. Separado por uma centrífuga do meio auxiliar, o “pó” é secado em estufas e peneirado em granulações apropriadas para as diversas aplicações a que se destina.

Há também um líquido de odor muito desagradável, que é a parte líquida da combinação. O nome do líquido é Monômero de metil metacrilato, que nada mais é que um produto composto de acetona, ácido cianídrico e álcool metílico. Parece simples, não?! Existe desde antes da guerra de 39, mas sua produção só se iniciou no Brasil após 1973, em Aratú (Bahia), no complexo petroquímico da Metacríl.
O líquido acrílico exposto ao calor e à luz tende a endurecer (polimerizar). Para evitar isto e poder estocá-lo, adiciona-se um inibidor, que pode ser Hidroquinona, Metil Éter de Hidroquinona ou Topanol. Para evitar o efeito da luz e do calor eles devem ser embalados em frascos âmbar e guardados em lugares frescos. Ele é muito inflamável, portanto longe das chamas!
A parte em pó e a líquida tem que ser misturados na proporção de 2,5 partes de polímero para 1 parte de líquido e depois de misturados, a reação chega ao fim em menos de dez minutos. Isso significa basicamente que você tem que misturar os dois e espatular de leve, olhando bem para ver o ponto. O ponto desse treco é uma desgraça de achar. Ele dura menos de 5 segundos no ponto que dá pra esculpir uma forma simples. (isso pq o material é projetado para ser depositado em moldes) Logo depois que passam os 5 segundos mais rapidos da sua vida, ele vira uma borracha inesculpível. E menos de um minuto depois está duro. Durão.
O jeito é ir na tentativa e erro até conseguir fazer cada um dos dentes do lobo. O mais difícil são os caninos, porque é normal um sair maior que o outro. Depois de modelados, os dentinhos são colocados na cabecinha de super sculpey. Em seguida, eu assei ele no método econômico (usando meu bom e velho secador de cabelos Gump em cima) Para peças pequenas, dá super certo, é rápido e assa mesmo. Tão bom quanto o forno, sem precisar esperar um milhão de anos nem gastar muito gás.
Aí o crânio do lobisomem endureceu. Em seguida eu preparei um pouco de jet ( o pessoal chama a resina autopolimerizável de “jet”) cor-de-rosa para fazer a gengiva e o palato. O bom de trabalhar com o jet é que quando você pega a manha, é ótimo, já que ele não tem frescura. Seca antes mesmo de você dizer “secou!”.
Em seguida peguei um disco de corte diamantado e usei na retífica para corrigir as imperfeições dos dentes. Depois usei um disco emborrachado para polimento e finalizei com uma escova de nylon com pasta de dente (muito engraçado eu escovando os dentes do bicho) em rotação máxima. A sensação de realismo da gengiva e dentes de resina autopolimerizável me surpreendeu. eu sabia que ia ficar legal, mas ficou bem melhor que eu esperava. Parece dente mesmo. Ao vivo é mais maneiro.



Repare na minha unha de pedreiro! (durepoxi é foda!)
O próximo passo envolvia a segunda experiência dessa peça, que era obter um “olho” de melhor qualidade, já que os olhos modelados e pintados em massa estavam bem abaixo da qualidade de realismo que eu queria.
(neta parte não tem fotos porque eu estava sem a câmera oficial e a memória do meu celular lotou)
Basicamente eu fiz uma bolota de massa. Com uma faca eu dividi ela bem no meio (o macete para ter volumes iguais) e separei cada parte, fazendo com ela uma nova bolinha. Depois eu peguei cada bolinha e espetei num pedaço de palito de dente. Saquei o secador -gump e assei os olhinhos com ele.
Depois com o disco de lixa da retífica eu planifiquei a frente das esferas. Medi o diâmetro da área planificada: 4mm.
Abri o navegador e peguei esta imagem do olho de um lobo.
Com este olho eu criei este mapa:

Com este mapa de textura eu imprimi na escala 1:1, ou seja, 4mm cada iris usando resolução fotografica. Cortei cuidadosamente com uma tesourinha de unha e colei na área planificada da esfera.
E seguida, eu usei Verniz Vidro da Acrilex.

O verniz vidro da Acrilex é na verdade uma resina. Não é verniz. eles colocam a palavra verniz para ludibrirar os trouxas. Aquilo na verdade é uma resina epoxi cristal bi-componente de altíssimo brilho. Imagina vidro deretido? POis é. Esse material é igualzinho. Custa caro, quase 20 reais a caixinha com os componentes, mas vale cada centavo.
Você tem que misturar os dois na proporção indicada. Depois deixe descansar. Vá ler um livro, passear, etc. Digo isso porque ela é liquida como água quando você mistura os dois componentes. Depois de um tempo ela começa a gelificar. Quando estiver na consistência de mel (2,5 horas depois da mistura) eu pego os olhinhos e mergulho eles na resina e suspendo.

Vai pingar uma gota cremosa deles e vai ficar escorrendo um pouco, mas mantendo eles de cabeça para baixo, em breve se formará uma espécie de lente - igualzinho o cristalino do olho.


Tem que esperar secar completamente para poder colocar o olho no boneco. O material tem que secar na sombra. Não pode pegar luz UV , senão amarela. Leva 72horas para os olhinhos secarem completamente. Nesse meio tempo, eles vão ficar aqui.Por enquanto é isso.
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