Hoje eu estava esperando a primeira dama terminar de ler um relatório para podermos ir na rua fazer uns pagamentos.
Enquanto eu esperava, liguei a Tv e comecei a ver os programas matinais.
Estava passando o Sítio do Picapau Amarelo.
Quando deu a propaganda eu comecei a observar um padrão na publicidade dirigida ao público infantil. A maioria dos produtos mostrava pirralhinhos fazendo caras e bocas com roupas estilo streetwear. Enquanto toda sorte de produtos boçais era empurrada para as crianças, eu, impressionado na poltrona, testemunhava um fenômeno que cahamarei de “adolescentização infantil”.
Quando eu era criança, ser criança era uma coisa normal. Você era uma criança, reconhecia-se como uma e aceitava este fato como parte da vida. Você tinha brinquedos e tinha uma conduta, um código que ia do vestuário ao comportamento com os pais. Sobretudo nos lugares públicos.
Aí você crescia um pouco mais e virava um pré-adolescente. Nesta fase, eu era meio criança pequena, meio criança-grande. A voz variava, algumas vezes fina, outras grossa. O mundo era mais complexo e eu já pensava em coisas como o dia do meu primeiro beijo. Como seria? Com quem?
Aí eu virei adolescente. Começou a fase dos hi fis (rai-fais) onde meninos levavam as bebidas e a s meninas um prato de salgado. E o ponto culminante, era beijar na boca ao som da música lenta. Ah, como era bom…
Ok, eu admito. Eu ficava lá no paredão, com cara de bobo. Eu só fui beijar na boca com quinze anos.
Eu tinha medo de chamar as meninas para dançar. A adolescência se prolongou por mais alguns anos e a era dos hi fis deu lugar a festas mais animadas, todo mundo ia para as boates ( em são páulo “boate” é como puteiro. Aqui no Rio, ir na Boate é programa mais familiar. è o que convencionou-se de chamar de ir “pra balada”) O termo pode soar natural em São Paulo e cercanias, mas ao rigor do vernáculo, ir pra “balada” aqui no Rio, me parece algo como tentar subir favela com o pessoal do Bope.
Seja como for, a minha adolescência foi recheada de grandes aventuras e muitos perrengues.
O que eu quero dizer com isso é que durante a fase que compreendeu a minha infância, a pré-adolescência e a adolescência, até chegar na fase adulta, havia uma clara distinção de quem eu era e qual o meu lugar no mundo.
Mas não é o que parece desejar o cara do marketing das agências que fazem as propagandas para os guris. Em todas as propagandas de crianças, a criança mesmo é representada por semi-bebês. É uma distorção imagética que vem ocorrendo há alguns anos.
As crianças recebem uma imagem de que “ser legal” é ser como as crianças dos comerciais. Há um comercial em especial, completamente detestável, onde três meninas de uns sete anos, com estilos Paris Hilton desfilam sandalinhas. Elas vão dizendo o que é ser legal. Num determinado momento, a conclusão é que ser legal “É ter atitude”. É ter aquela sandália. E então, a mais novinha, diz que “legal é brincar”. Diz isso com uma boneca na mão. As outras olham espantadas como se tivessem ouvido algo ULTRA INACREDITÁVEL. Isso obrioga a menina a se explicar para as amigas, dizendo que ninguém é de ferro.
O que esta passagem representa num comercial infantil? Representa uma exultação do consumismo e do patricismo, em detrimento ao papel real da criança que é brincar.
Brincar é OBRIGAÇÃO da criança. É parte fundamental do seu desenvolvimento social, motor e mental. Até os macacos brincam. Os tigres brincam. Os cães brincam. Todos os mamíferos brincam.
Crianças se espantando em ver uma delas dizendo que brinca, mostra que á uma mão invisível do mercado, maquiavélicamente manipulando o inconsciente infantil para um comportamento de adolescente. Elas são meninas que vestem-se como mini peruas, adultinhas e fingem desfilar numa passarela da moda. É uma realização metafórica do ideal adolescente feminino.
Palavras como “estilo”, “atitude”, “tribo” afetam o adolescente de maneira eficaz. A mídia usa estes truques com palavras mágicas desde a década de 70. Mas isso tem atingido preocupantes níveis. Nove em cada dez comerciais para crianças e pré-adolescentes, bem como as revistas, editoriais de moda e programas de clipes na Tv, repetem o mantra da “Atitude”.
O que ocorre é a adolescentização das crianças. Está comprovado que ao se sentir um adolescente, uma criança desejará exercer sua “atuitude”. E o que é a tão falada “atitude”? É usar a roupa da moda, ou o brinquedo. Usar isso de um ponto de vista contestador e absolutamente seguro. É desejar. É ser ao mesmo tempo o centro das atenções, o melhor, o popular e talbém em alto grau, o “rebelde”, ou num linguajar mais moderno, apenas um rbd.
Desejar não é errado. O ser humano sempre deseja alguma coisa. Da hora que nasce à hora em que abotôa de vez o paletó de madeira. O problema é que ao estimular a adolescentizção da criança, o marqueteiro tira dos pais um trunfo que é o poder de decisão sobre certos aspectos da vida dos seus filhos. Veja a Xuxa, por exemplo. Dá pra entender melhor o que eu quero dizer usando esta notícia do aniversário de nove anos da Sasha, que foi um rega-bofe com baile Funk e comida japonesa, duas exigências da “pré-adolescente” Sasha, como diz a notícia.
Claro, há pais e pais. Há famílias muito diferentes e ritimos de criação bastante complexos. O próprio sistema familiar já se alterou bastante ao longo do tempo. Antigamente, a família era uma estrutura formada por um pai, uma mãe e irmãos. Todos com claros papéis sociais para desempenhar. Hoje, a estrutura familiar mudou radicalmente. Vemos crianças sendo criadas pela Tv, pais ausentes tendo que trabalhar até nos finais de semana. Famílias separadas onde a criança é criada pelos avós.
Existem pais que inseguros sobre seu papel na educação e formação intelectual dos filhos, fantasiam que atribuindo a elas o direito de escolher tudo que querem, produzirão um jovem mais seguro. Um jovem com “atitude”. Existem pais que se orgulham de dizer que os filhos de 3 e 5 anos decidem sozinhos qual roupa irão usar e não há santo nem choro nem vela que faça o pirralho mudar de idéia. A criança bate o pé que quer e pronto. Resta aos pais aceitar as vontades dos pimpolhos.
Os pais cada vez mais distantes, seja pelo trabalho ou qualquer outro fator, tem a necessidade de suprir aquela falta, aquele peso na consciência comprando toda a sorte de mimos e presentinhos para os filhos. É normal que casais separados ou em ritimo de separação conjugal comecem a disputar os filhos em um festival de mimos e presentes que crescem em número e valor numa escala geométrica. Começa a quantificação do amor paterno usando como referência o preço do presente.
Isso é o paraíso do marqueteiro. Com pais ausentes, crianças cada vez mais precocemente estimuladas a um comportamento estereotipado de consumismo absoluto, todos rezando na cartilha do “você tem que ter ATITUDE”, está formada a sociedade do futuro. Aquela que venderá o fígado para comprar o último celular, ou o carro do momento.
A criança enquanto cresce, vai sendo influencaiada por diferentes segmentos. Primeiro pelos pais, depois pelos amigos da escola, e depois pelos amigos da escola mais a TV. A influência dos amigos é a maior e mais prolongada linha de influência sobre a personalidade de uma criança. Ela dura do momento em que o guri entra no pré-escolar e vai até o fim da vida.
São os amigos que dizem quem somos. São eles que dirão que você fica com mais estilo, moral ou atitude se tiver fumando um cigarro ou usando determinada bolsa ou acessório comentado na propaganda da MTV. Quem sabe bem disso é a Souza Cruz.
É difícil calcular em que grau a influência da Tv transforma crianças em bonecos mamulengos de adultinhos. Mas acredito que isso seja amplificado pelo fato de que a Tv afeta uma massa gigante de crianças. E esta influência reverbera entre grupos escolares, afetando até aqueles que não estão expostos à TV.
São vidas variadas e uma multiplicidade de combinações.
E justamente por conta disso é que se torna tão perniciosa a adolescentização, já que uma vez roubada esta fase da vida, não há retorno.
Era de se esperar que com a adolescentização infantil, houvesse em paralelo uma adultificação do adolescente, mas não. É justamente o oposto. O que ocorre é uma adolescentização do adulto. Quem não está habituado a ver essas titias desfilando com roupinhas e com comportamento adolescente em festas e eventos? Na maioria das vezes, são mulheres maduras e homens mais velhos que se separaram e resolveram aproveitar o tempo perdido, como se entrassem na máquina do tempo, voltando aos dias que precederam o encontro com o parceiro naquele romance que deu errado.
Além dos que buscam a adolescência tardiamente, estão aqueles que atingem a idade adulta mantendo uma vida adolescente. São marmanjos que trabalham e ganham bem, mas vivem na casa dos pais. Ao contrário do que acontecia com gerações passadas, esta geração não deseja sair de casa e ter seu próprio apê. Eles estão querendo o conforto. A folga, o mole, comodidade ou como poreferir. Essa geração coloca cama de casal no quarto e comunica aos pais que vai trazer a namorada para dormir com ele ( ou ela) em casa.
Os pais aceitam o prolongamento da fase adolescente dos filhos. São vários os motivos que explicam isso. Mas um deles é o mais óbvio, porque isso é em útimo grau, uma negação inconsciente do inexorável destino humano. A morte. Enquanto as “crianças” estão em casa, os pais não se sentem velhos.
Se por um lado temos guris saídos das fraldas que vivem um High School Musical adolescentizado, no outro extremo, temos adultos que não desejam viver os aspectos mais chatos da maturidade. A adolescência está se prolongando.
È interessante quanta reflexão um comercial de sandalinha e carrinhos que viram robôs podem gerar, né?