Mountain Bike
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Acordei naquela madrugada animado. Nem havia dormido direito, tamanha empolgação por fazer meu primeiro mountain bike oficial da vida.
Meu primo apareceu na porta do quarto e eu já tava de olho aberto, até meio impaciente pelo sinal dele que deflagaria nossa aventura.
Eu tinha ganhado uma bicicleta com 18 marchas e estava me achando “o atleta” com uma bicicleta muito bonita que, segundo o vendendor, “poderia subir até parede”.
Descemos para a cozinha. Vejo meu primo comendo seis bananas, dois pães, dois copos de café com leite.
- Você não vai comer nada? - Perguntou ele.
- Ah, não. Tô sem fome essa hora. Nem sei como você consegue comer tanto de madrugada, cara.
Ele nada respondeu, pois tava com a boca cheia de queijo Minas.
Saímos lá pra fora. Um frio cabuloso. O relógio já chegava às cinco da manhã. A hora combinada.
Estávamos perparando os equipamentos, garrafinha d´água, bomba de encher, etc, quando ouvimos o assobio.
Eram os amigos do meu primo, o Klaucius…
Klaucius é um primo emprestado. Na verdade, ele é filho do primo da minha avó, mas foi criado por ela, e acabamos crescendo juntos. Ele é mais velho que eu uns quatro anos, e nesse lance acabamos passando por varias histórias super malucas e engraçadas. O Klaucius desde guri sempre teve uma atração irresistível e uma aptidão incomum para o mundo das bicicletas. Nessa época ele estava até competindo, fazendo trilha com profissionais e semi-profissionais do mountain bike. O Klaucius também tava com um físico bem parrudo e um preparo físico bem legal.
Em compensação, eu era apenas um mané magricela, que tinha uma bicicleta bonita - e inadequada para o mountain bike porque era de aço, pesada pra caralho, mas eu simplesmente ignorava a questão peso nessa época. - sem nenhum, absolutamente nenhum preparo físico ou conhecimento do que era de fato o mountain bike.
Mas eu tinha comprado a bicicleta nova e queria logo estreiar. Quando eu soube que o Klaucius tinha marcado com os amigos um mountain bike de trilha, enchi a porra do saco até ser convidado pra ir.
De volta para a aventura, montamos em nossas bikes e fomos até o portão.
Para minha supresa, ali estavam uns seis caras. Todos em bicicletas super cheias dos “trique-triques”, amortecedor, pneu grosso, capacete, roupa própria, sapatos preparados, mochila, etc.
E eu: Bermuda comum, camisa de manga comprida por causa do frio feladaputa que faz em Três Rios de madrugada, cabelinho vaca-lambeu e o pior: estômago vazio.
Seguimos com o grupo por um percurso pré-estabelecido para convocar o restante da galera. No fim, era uns vinte malucos. O sol raiava quando caímos na estrada.
Eu até acompanhei bem na primeira parte da aventura, mas o sol surgiu com toda a sua pujança. E a minha pujança minguou proporcionalmente. A primeira constatação é que fui retardado de usar camisa de manga comprida e não camiseta. Acabei tendo que tirar a camisa e exibir minha linda carcaça esquálida.
Eu estava botando os bofes para fora quando chegamos no ponto da estrada em que iríamos adentrar o mato.
Horas pedalando depois, comecei a ficar fraco. As pernas estavam queimando. E eu olhava para os demais participantes da aventura e todos eles pareciam usar baterias Duracell.
Foda ser o Zé Bonitinho do Moutain Bike, meu.
Eu comecei a ficar para trás. As trilhas foram ficando mais e mais fracas e quando dei por mim estava sozinho no mato, seguindo trilhas de pneus pelo chão. Comecei a ficar realmente bolado quando parei pra tentar ouvir em que direção eles foram e só o que consegui ouvir foi:
Nada.
Uma porra dum silêncio sepulcral, que pareceu anteceder alguma hecatombe nuclear. A HEcatombe não veio. Quem veio foi o Klaucius. Lá pelas tantas, resolveu me procurar e viu que eu não tava com a comitiva. Como não pedi socorro - por motivos óbvios de não passar maior vergonha do que exibir minha esquálida aparência física e meu vigor físico digno de Montgolmery Burns - Ele não deu pela minha falta até atravessarem um riacho. Daí ele largou os caras e voltou atrás de mim.
Quando ele me achou, como ele mesmo conta - sempre rindo pra caralho - que eu tava branco, meio metro de língua para fora, empurrando a bicicleta como um morto-vivo.
Mas peraí. Eu sei que parece escroto, mas já eram umas onze e meia da manhã e eu estava apenas com o jantar da noite anterior na barriga gastando mais calorias do que eu acumulava em uma semana - por hora. Eu tava LITERALMENTE um morto-vivo.
O Klaucius chegou e perguntou se eu tava bem. Pra não perder a moral, disse que sim, e em seguida, quase caí duro, haha.
Ele me deu água com sal e eu recobrei os sentidos lentamente. Levantamos do chão e caminhamos com as bicicletas do lado por um tempo. Quando eu me senti melhor, voltamos a pedalar.
Pedalamos em silêncio por um tempo. Eu me sentindo um boçal idiota de não ter comido nada.
Então chegamos num ponto que havia uma bifurcação em duas estradinhas de terra, onde nem eu, nem o Klaucius sabíamos para onde deveríamos ir. Voltar, a essa altura do campeonato, estava fora de cogitação e acabamos apelando para a clássica técnica científica do salamê-mingüê.
De vinte malucos eramos apenas dois manés, perdidos numa imensidão de fazendas, morros e matas que pareciam não acabar nunca. Um passeio que seria maravilhoso quando você está em confortável situação de sobrevivência revelou-se um pesadelo medonho.
Olhei o relógio e constatei com meus olhos o que o estômago já havia gemido há horas. Eram duas da tarde. A fome mais monstruosamente grande que eu senti em toda minha vida começava ali.
Não havia ninguém. De vez em quando parávamos e ficavamos quietos. Ouvindo.
Apenas ouvindo.
Um barulho de estrada qualquer e estaríamos salvos. Um som de cachoeira qualquer e teríamos água.
Sim, água, porque a água acabou. A garrafinha da minha bicicleta eu sequei nas duas horas iniciais. E depois matei a do Klaucius pra não desmaiar. Resultado, a coisa começou a ficar cada vez mais séria.
Não tinha nem estrada e nem uma porra duma água, rio, córrego, brejo,lama, mijo! Não tinha nada. Só mato.
A fome apertou mais e mais e comecei a pensar seriamente… Em comer um pedaço de esterco seco pelo sol.
Sim, é verdade. Pensei mesmo. Juro. Você pode achar isso exagero ou delírio, mas com fome malandro, você come esterco e ainda arrota frango assado.
Lembra do Filme do Chaplin que ele come uma sola de bota? Eu sempre achei que aquilo era só filme. Só um exagero narrativo para dar um brilho, colocar um humor na desgraça. Mal sabia eu que com fome você come até gente, até barata. Até esterco.
Eu ia comer mesmo, mas meu primo não deixou.
Daí comi grama. Mas grama é uma planta tão ruim que eu desisti. Eu achava que grama era igual alface, afinal é tudo verde, né?
Voltei a mim quando ele falou que se não continuássemos iríamos acabar desmaiando e até morrendo lá no meio do nada.
Continuamos a seguir por uma trilha que não dava pra ter certeza se era de fato uma trilha de gente ou uma trilha de formiga. Pra quem não sabe, as formigas saúva, ( aquelas vermelhas cabeçudas) fazem trilhas compridas por onde elas carregam pedacinhos de folhas. Essas trilhas são grandes e entrecortadas. Seguimos por uma dessas e mais algumas horas depois, eu tive a brilhante idéia de subirmos num morro próximo em busca de uma vista do alto para acharmos alguma casa, alguma estrada. Alguma coisa.
Subimos com muita dificuldade no morro. Quando eu olhei lá do alto…
Me deu um frio na barriga e eu senti que tava realmente fodido. Não tinha porra nenhuma.
Era mato e pastos a perder de vista. Nenhuma porra de estrada. Nada. Nós tínhamos conseguido nos perder direito mesmo.
O cagaço começou a virar desespero. Eu estava começando a entrar em frenesi alimentar. A boca estava seca, a saliva estava grossa como cola. Um sinal claro de desidratação. O sol estava inclemente. O meu pescoço ardia como o catiço, porque eu tirei a camisa e fiquei com minha pele alva como a do drácula, e grossa como a do Michael Jackson exposto a bilhões de watts do sol.
O significado de “estar fodido” começou a se cristalizar em minha personalidade e é por isso que depois desta experiência grotesca eu passei a ser um carinha mais otimista e conformado.
Fiquei ali olhando o ceu. Pensando num jeito de escapar dali. Voltar pra casa.
E então eu vi uma fumaça. Era uma fumaça fraquinha longe, muito longe. Atrás de um morro. Uma fumacinha branca.
“Uma casa!” - pensei imediatamente. Que alívio enorme que eu senti. Ali estava uma casa. Quem sabe com sorte, um restaurante, e com mais sorte ainda, uma churrascaria!
Descemos a colina no embalo. Usando os últimos parcos recursos físicos que meu corpo conseguiu achar, pedalei como nunca na direção do outro morro.
Ao subirmos o morro, eu pude ver que estava certo. Era uma casinha. Uma casinha pobre de fazenda. Uma tapéra de pau a pique. Do lado de um minúsculo curralzinho, na porta tinha uma velha variant vermelha.
Duas crianças brincavam na porta. Mas o que realmente importava era a fumacinha que saía de uma chaminé. Eu sabia que aquilo significava apenas uma coisa: Fogão a lenha.
- Como vamos fazer? - Perguntou o Klaucinho.
- Cara, faz tudo que eu fizer. Vamos almoçar de graça. - Disse eu, com o plano já formado na cabeça.
Desci a toda velocidade com a bicicleta. Pedalei na marcha pesada na descida e a velocidade ficou muito, muito grande. Mirei a roda da bicicleta bem na direção da entrada da casa. Em cima das crianças pra dar uma dramaticidade maior.
Ali tinha um gramadão grande e fofo.
Bom, pelo menos parecia ser fofo. Descobri que não era quando executei meu salto-queda-triplo mortal carpado.
Caí estatelado na porta da casa e fingi um desmaio.
Correu todo mundo pra me socorrer. Meu primo, sem imaginar que era tudo um truque, veio atrás em pânico.
O caipira que saiu perguntou o que houve e meu primo contou que a gente tinha se perdido da expedição e estavamos há horas andando a esmo sem comer. Que eu devia estar morrendo de falta de comida.
LEmbro que eu tava mesmo ferradão, e de fato já coemçava a ouvir as vozes das pessoas como se viessem de dentro de armários. MAs então ouvi uma frase que nunca mais me esquecerei:
- “Maria, traz aí dois pratão de feijoada caprichado pros menino!”
Eu comi quatro pratos. Foi de longe, de muito longe, a coisa mais maravilhosa que comi em toda minha vida.
Quando aquilo bateu no estômago, aí sim vi o mundo rodar. MAs sobrevivi.
Aliás, deve ter sido neste dia que ganhei o Harry de presente.
Fomos super-bem tratados pelos caipiras da fazenda. Depois, descobrimos que eles eram meio ciganos, que tinham parado ali e estavam seguindo viagem.
Antes de partirmos eles nos deram um sacão enorme de tangerina. E ainda nos apontaram um caminho pra chegar na estrada.
Nos despedimos e seguimos viagem. Lá pelas tantas, o saco de tangerina arrebentou e voou tangerina pra tudo que foi lado. Quase deseuqilibrei da bicicleta e capotei num barranco.
Quando enfim chegamos na estrada, já começava a escurecer.
Ficamos ali, andando pelo acostamento, seguindo para a direção de Três Rios. Mas eu estava ferradão mesmo, um caco, um lixo humano. A mais completa degradação da humanidade.
Pra completar, furou o pneu da bicicleta.
Aí paramos e não tinha jeito de trocar.
Acabamos tentando pegar carona. Por sorte passou um caminhão e deixou que subíssemos na caçamba. Jogamos as bicicletas e voltamos de carona até a entrada da cidade. Daí empurramos as bicicletas ferradas até em casa.
Quando cheguei em casa, pra minha surpresa, havia um churrascão.
Nunca mais fiz um mountain bike como aquele.
FIM
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